sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

GRUTA DA FETEIRA

Histórias de galinhas e dinossauros na Lourinhã


Reabriu por estes dias, após remodelações, o Museu da Lourinhã. Mas a grande novidade que nos chega do Oeste passa pela inauguração e abertura ao público (hoje mesmo, 9 de Fevereiro) do DINOPARQUE, anunciado como a maior estrutura museológica ao ar livre do país e, como o nome indica, uma espécie de "Parque Jurássico" à portuguesa. Infelizmente já não assistirá a estes tão significativos eventos para a Lourinhã, o Horácio Mateus (1950-2013) justamente considerado o fundador do Museu e o seu principal impulsionador, nas palavras do filho, Octávio Mateus (actualmente um dos mais conhecidos paleontólogos portugueses) deixadas no seu blog ("Lusodinos") após o desaparecimento do pai: 

Morreu ontem, aos 62 anos de idade, Horácio Mateus, fundador do Museu da Lourinhã  Nascido na Lourinhã em 1950, Horácio Mateus esteve envolvido, com outros lourinhanenses, na origem do GEAL, Grupo de Etnografia e Arqueologia da Lourinhã. Nesse seio, o Horácio foi, sem dúvida, o principal promotor do que seria a realização mais óbvia desta associação: o Museu, no qual empenhou o seu tempo e devoção e dedicou o seu espírito. 
Apesar de uma criação conjunta e imprescindível de muitos, Horácio Mateus merece o título do Fundador do Museu da Lourinhã.
Com a esposa, Isabel Mateus, foram os descobridores do famoso ninho de dinossauros de Paimogo, com embriões, o que lhes valeu, a nomeação de Figuras Nacionais do Ano em 1997, pela Revista Expresso. Foi um animado museógrafo e co-autor de três artigos científicos. Ocupou o cargo de Conservador do Museu da Lourinhã durante muitos anos. Apesar da visibilidade pública da temática dos dinossauros, a parte etnográfica e arqueológica era a sua grande paixão.
Adeus pai


Conheci o Horácio e a Isabel Mateus no final de 1981, quando estes procuraram apoio no Museu Nacional de Arqueologia para uma situação de emergência arqueológica que haviam detectado no âmbito das actividades de campo do GEAL, uma associação local de estudo e defesa do património cultural (etnográfico e arqueológico) que eles próprios haviam fundado, como tantas outras que com maior ou menor sucesso, surgiram um pouco por todo o país na sequência do abalo cívico provocado pelo 25 de Abril. Encaminhados para os serviços do Departamento de Arqueologia do IPPC acabado de instalar no próprio Museu de Belém, coube-me a mim (enquanto braço direito do Francisco Alves que acumulava então a direcção do Museu e do Departamento) receber o casal lourinhanense que informava da descoberta de uma pequena cavidade com interesse arqueológico durante as obras de construção de um aviário, próximo da localidade da Feteira, concelho da Lourinhã. 

O processo de intervenção que se seguiu e cujos detalhes recordamos mais adiante, terá representado um dos primeiros passos que conduziria, pouco tempo depois (1984) à constituição do Museu da Lourinhã, em resultado de uma iniciativa conjunta do próprio GEAL e da Câmara Municipal. Instalado provisoriamente no edifício devoluto do antigo tribunal, o pequeno conjunto arqueológico descoberto na Feteira (por causa das "galinhas") a par de outras recolhas do casal Mateus, ganhava assim especial destaque fundacional. Estava-se longe das descobertas paleontológicas que acabariam por alterar os planos iniciais de Horácio Mateus, especialmente interessado na etnografia e na arqueologia. Com efeito, datam de 1991 as primeiras descobertas significativas de vestígios de dinossauros na região mas foi com a descoberta em 1993 do célebre "ninho de dinossauros" por Isabel Mateus que a Lourinhã entrou definitivamente nos "trilhos" do Jurássico. 



Espólio neolítico da Feteira, exposto no Museu da Lourinhã


O aviário da Feteira em construção. Em primeiro plano à direita, o abrigo improvisado que permitiu realizar a escavação durante o Inverno de 1982
A escavação da Gruta da Feteira

A região da Feteira integra-se no planalto da Cesareda, zona cársica conhecida desde meados do século XIX pelo seu interesse geológico e arqueológico, pelo que a notícia da descoberta de ossadas humanas associadas a espólio neolítico não foi propriamente uma novidade. O que era especial e exigia medidas urgentes, era a circunstancia da cavidade ter sido descoberta durante a abertura das fundações de uma sapata de um aviário industrial em construção. Estávamos ainda longe daquilo que hoje chamamos de "arqueologia preventiva" e que permite (nem sempre com grande eficácia) impor algumas condicionantes em determinados projectos. Mas à época a Lei permitia, pelo menos interromper obras durante algum tempo para que "fossem tomadas pelas autoridades as medidas consideradas necessárias". E foi exactamente o que aconteceu neste caso, graças à previdência de uma associação local, à indispensável colaboração municipal e até, como se recorda na posterior publicação, ao apoio da imprensa que deu o devido destaque à descoberta. O Departamento de Arqueologia, apesar de meios muito reduzidos (como se poderá imaginar), promoveria com a urgência que o caso requeria a realização de uma escavação, contratando para o efeito os serviços do jovem arqueólogo João Zilhão, então recém-licenciado mas já com grande experiência de trabalho de campo (nas regiões do Ródão e Tomar).



A abertura da cavidade descoberta nas fundações de um dos pilares do aviário


As dificuldades da intervenção agravadas por um Inverno rigoroso

 Perante carências logísticas de toda a espécie, só supridas com o apoio total da família Mateus que se constitui em equipa de apoio local (incluindo o Octávio Mateus, então com sete anos como o próprio refere em entrevista 
que pode ser lida aqui  ) e condições climatéricas muito adversas, a escavação da pequena gruta, realizar-se-ia entre Fevereiro e Maio de 1982, confirmando os seus resultados, tratar-se de uma pequena necrópole ou ossário, cobrindo cronologicamente todo o Neolítico. Posteriormente, mais pela exemplaridade de todo o processo, do que pela excepcionalidade da descoberta (relativamente comum na região), o Departamento de Arqueologia decidiria editar o excelente relatório entretanto produzido por Zilhão. Perante a falta de um meio adequado à edição de "monografias arqueológicas", no contexto das várias iniciativas editoriais com que procurávamos combater a endémica ausência de divulgação dos resultados da arqueologia portuguesa, criámos então uma colecção a que chamámos "Trabalhos de Arqueologia" (de algum modo plagiando os "Trabajos de Prehistoria", série monográfica criada em 1960 em Espanha pelo Prof. Martin Almagro Basch), e da qual a "Gruta da Feteira" seria o nº 1 (ed. 1984). Enquanto Director do Departamento de Arqueologia (até 1988) ainda seria responsável pela edição dos primeiros 6 volumes mas felizmente, a colecção, com altos e baixos, manteve-se até hoje (desconheço no entanto quais as intenções da DGPC a esse respeito uma vez que não há novas edições desde 2011), tendo sido entretanto editadas mais de cinquenta monografias (Mais precisamente 53, de acordo com o SITE da Loja da DGPC ) . Curiosamente, seria na fase IPA (Instituto Português de Arqueologia, 1997-2007) dirigido precisamente por João Zilhão e Fernando Real (que enquanto geólogo e sedimentólogo também colaborou neste 1º volume) que a colecção ganharia maior relevância no contexto da edição arqueológica portuguesa, pese embora a importância que então assumida pela Revista Portuguesa de Arqueologia (virada para artigos de menor fôlego) também criada no contexto do IPA. Infelizmente poucos volumes dos "Trabalhos de Arqueologia" estão disponíveis em PDF, como é o caso deste 1º volume. Assim, para além da capa aqui deixamos cópia da respectiva "ficha técnica" bem como da Nota Prévia que então redigi (já como Director do Departamento de Arqueologia) e na qual apresento os objectivos da nova colecção. Como curiosidade, apresento também algumas fotos da escavação da Gruta da Feteira então publicadas.

De referir, em jeito de apontamento final, que em 1993, graças de novo à vigilância do GEAL, o então IPPAR foi alertado para a descoberta de uma segunda cavidade nas imediações deste mesmo aviário. Confirmado o interesse arqueológico, claramente relacionado com a primeira cavidade, foram então tomadas as primeiras medidas de salvaguarda da Gruta da Feteira II (também já muito afectada pela exploração aviária). Entre 1995 e 1997, a arqueóloga Ana Cristina Araújo (que já participara nas escavações de 1982) e a antropóloga Cidália Duarte, ali viriam a realizar para o IPPAR, escavações que comprovaram existir coerência cultural e cronológica entre os vestígios funerários das cavidades vizinhas.






A Gruta da Feteira, Lourinhã, 1984- ficha técnica





Um dos planos da escavação em que é possível observar um crânio humano e diversos osso longos associados 

Um dos cortes da escavação, mostrando que uma parte dos depósitos arqueológicos haviam já sido afectados pela betonagem das fundações do aviário

A situação final após a construção do aviário. A seta indica o alçapão de acesso à parte da gruta que foi possível conservar.




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018



"1973"


Numa altura em que acabo de passar à situação de "aposentado" (1 de Janeiro de 2018) sinto-me particularmente sensível a determinados eventos ou datas. Ainda que para várias gerações de portugueses, incluindo a minha, por razões compreensíveis, 1974 seja um marco indelével (há sempre um antes e um depois do 25 de Abril desse ano) no meu caso posso afirmar que também 1973 acabaria por ter uma importância muito especial.

Nesse ano atingi a maioridade pelos padrões da época (21 anos), acabei o bacharelato em História na Faculdade de Letras (o que me abriu as portas do ensino tendo em Outubro começado a leccionar no novo curso nocturno do Liceu da Amadora). No Verão de 1973 saí pela primeira vez de Portugal para participar como estudante voluntário nas escavações arqueológicas de Pincevent (França) e de Pinedo (Espanha) viagens que acabaram por ser determinantes para um futuro profissional que então mal podia sonhar. De facto, embora participasse desde 1972 nas campanhas arqueológicas do Ródão, foi em especial o contacto com o Professor André Leroi-Gourhan (1911-1986) e a sua equipa que influenciou decisivamente a minha orientação para a Arqueologia, embora esse objectivo fosse na época, algo utópico...

Foi pois com muita curiosidade que acedi na INTERNET a um novo "link" dos Arquivos RTP que me fizeram chegar recentemente e que "anunciava" uma excursão arqueológica de 1973. É verdade que já conhecia este excelente serviço da televisão pública, onde estão disponíveis para visualização "on line" antigas reportagens sobre temas arqueológicos (nomeadamente uma muito informativa, datada de 1971, sobre os trabalhos de Henrique Leonor de Pina nos Almendres), mas não conhecia ainda esta "visita de estudo do curso de iniciação à arqueologia", datada precisamente de 1973.

Da respectiva sinopse consta apenas o seguinte:

Reportagem sobre a visita de estudo efectuada pelos alunos do Curso de Iniciação à Arqueologia e pelo seu director Fernando Nunes Ribeiro a um conjunto de locais de interesse arqueológico: Grutas do Escoural e dólmen da Herdade da Mitra em Montemor-o Novo, Museu e Templo de Diana em Évora, e Cromeleque do Xerez em Reguengos de Monsaraz.


https://arquivos.rtp.pt/conteudos/visita-de-estudo-do-curso-de-iniciacao-a-arqueologia/#sthash.IT6XDbkJ.dpbs


Infelizmente, não tenho qualquer informação sobre o "curso" em causa. Aparentemente, e uma vez que este seria dirigido pelo arqueólogo Fernando Nunes Ribeiro  (veterinário de Beja, cidade de que chegou a ser Presidente da Câmara, mas também arqueólogo amador, conhecido sobretudo pela descoberta da villa romana dos Pisões) poderemos imaginar que se trata de uma iniciativa de cariz regional (?). De qualquer modo, mais que o contexto factual e objectivo do evento, interessou-me neste caso apreciar quer a situação dos monumentos ou sítios visitados há quase meio século quer a própria atitude dos "visitantes" (um grupo aparentemente muito heterogéneo, nomeadamente no que respeita a "idades", o que aponta para o carácter informal do "curso"). De recordar aos mais novos, que à época não existia na universidade portuguesa qualquer formação específica em Arqueologia, sendo esta temática, então dita "auxiliar", abordada apenas em 2 ou 3 disciplinas da Licenciatura em História.

A visita de 1973 iniciou-se pela Gruta do Escoural. A cavidade havia sido descoberta uma década antes no âmbito de exploração de uma pedreira e os trabalhos arqueológicos de Farinha dos Santos já estariam terminados por esta época. Não temos data precisa para a instalação das primeiras estruturas de visita (renovadas em 2010) mas calcula-se que terão sido construídas no final dos anos 60. Exteriormente a Gruta apresentava em 1973 o aspecto e condições da pedreira original, conforme imagem de arquivo que se anexa para comparação.






Exterior da Gruta do Escoural pouco tempo após a descoberta (Foto de Arquivo, s/data)


Por cima da Gruta, os afloramentos onde Mário Varela Gomes identificaria em 1978, gravuras rupestres neolíticas, sobrepostas por vestígios de um povoado da Idade do Cobre


Após a visita à Gruta do Escoural, seguiu-se a visita à "Anta Grande do Zambujeiro", impropriamente designada na reportagem como "Anta Herdade da Mitra" e erroneamente localizada em Montemor-o-Novo. Com efeito, o acesso normal a esta gigantesca Anta é feito através da Herdade da Mitra, Valverde (afecta à Escola Agrícola, hoje à Universidade de Évora) mas situa-se já fora dos respectivos limites desta e em propriedade privada. Ao contrário do que se observa no caso da Gruta do Escoural (entretanto adquirida pelo Estado e objecto de várias intervenções de requalificação), a Anta Grande do Zambujeiro apresentava-se à época em melhores condições do que no presente. Escavada no final dos anos 60 por Henrique Leonor de Pina, a sua estrutura até então protegida pela enorme mamôa de terra (ainda bem visível nas imagens da RTP) entraria depois em processo de progressiva degradação. Uma cobertura provisória instalada nos anos 80 bem como algumas medidas pontuais de consolidação, não alteraram no essencial a lamentável situação deste "monumento nacional", hoje uma chaga incompreensível da arqueologia nacional. (com temos recordado neste blog)

A Anta Grande do Zambujeiro, aspecto geral em 1973




Adicionar legenda
Não deixa de ser também curiosa, a atitude revelada na reportagem por parte dos "iniciados" à Arqueologia...na imagem, sobre uma das lajes da cobertura do corredor, entretanto desmontada nos anos 80, por ameaçar ruína.

Hoje parecerá estranho que os excursionistas não tenham visitado também o vizinho o Cromeleque dos Almendres, monumento que em 1973 era já relativamente conhecido (graças sobretudo às fotos de José Justo, na "Pré-história de Portugal" de M. Farinha dos Santos, editado pela Verbo em 1972). Mas a explicação é simples. Em 1973, por mais ousado que fosse o motorista (e este não hesitou em conduzir o autocarro até à Anta Grande do Zambujeiro, atravessando inclusive a "Ribeira da Peramanca") não havia qualquer acesso praticável ao Cromeleque, sobretudo a partir do Monte dos Almendres. O estradão que hoje é percorrido pelos milhares de turistas que ali se dirigem, foi construído no final dos anos 80 pela Câmara Municipal de Évora.



A "excursão arqueológica" dirigiu-se depois para a cidade de Évora, com a inevitável visita ao "Templo Romano", a cujo pódio era então "normal" subir (no início do século XX o acesso estava vedado por uma grade, tal como viria a acontecer de novo desde os anos 90, por razões de conservação). Seguiu-se a visita ao Museu de Évora que apresentava na cave recentemente construída, uma pequena exposição de arqueologia inaugurada em 1970 e na qual se mostravam já alguns materiais da Gruta do Escoural (uma pequena amostragem, uma vez que a maioria, com grande escândalo local, havia sido depositada no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa).





A excursão terminaria nas proximidades de Monsaraz, junto ao "Cromeleque do Xerez", um monumento que havia sido recentemente estudado e "restaurado" pelo médico e arqueólogo amador de Reguengos, Dr. José Pires Gonçalves, numa intervenção não isenta de alguma controvérsia.

Como é sabido, após novas escavações promovidas pela EDIA em 1997 e concretizadas por Mário Varela Gomes, este monumento megalítico, por se encontrar em cota de inundação da Barragem do Alqueva, acabaria por ser desmontado e reerguido nas proximidades do Convento da Orada (também nas proximidades de Monsaraz) no contexto de um projecto de recuperação patrimonial que, infelizmente, ficou muito aquém dos objectivos preconizados...



Quarenta e cinco anos após a recolha destas imagens e chegado ao fim de uma carreira profissional que dava então nesse ano os primeiros passos, não posso deixar de sentir alguma nostalgia ao rever esta curiosa reportagem. 

Cerca de década e meia depois iniciava novos trabalhos de arqueologia na Gruta do Escoural que culminariam já neste século com um decisivo projecto de requalificação. 

Apoiei em 1989, enquanto responsável pelo Serviço Regional de Arqueologia do Sul, o projecto do Museu de Beja de divulgação pública da colecção arqueológica de Fernando Nunes Ribeiro, oferecida por este àquele Museu em 1987.

Pese embora a situação lamentável a que chegou a Anta Grande do Zambujeiro, fui intervindo no respectivo processo, mesmo antes de me mudar para Évora, em função das capacidades e competencias de cada momento. Actualmente, enquanto membro da Assembleia de Freguesia local (Tourega e Guadalupe), na falta de outros meios, continuarei a alertar para a sua escandalosa situação. 

Por fim, enquanto coordenador dos trabalhos de arqueologia da Barragem do Alqueva (1996-2002), fui o directo responsável pelas novas investigações sobre o Cromeleque do Xerez e pela respectiva reinstalação. Pena é que o monumento, pese embora o investimento feito pela EDIA, esteja hoje praticamente ao abandono por desinteresse local. conforme já aqui chamei a atenção

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"Ritual de passagem"




"Ritual de passagem
Hoje, em Évora, abraço ao amigo e companheiro, António Carlos Silva, no almoço da sua passagem à reforma. Sabe bem ver como se passou quase meio século em grande camaradagem e profunda sintonia de valores. Assim pudessem todos dizer um dia quando chegar a sua vez de fazer balanços e dedicar mais tempo aos netos."

Foi com estas simpáticas palavras que o Luis Raposo se referiu no "facebook" ao acto que, como habitualmente, assinala na generalidade dos serviços públicos ou privados, a passagem de mais um trabalhador para a aposentação, no caso a minha própria. Lá teria que ser, um dia...

 Aqueles que já "passaram" por isso, terão consciência da confusão de sentimentos que nos assaltam nestes dias, uma estranha sensação "agridoce" que, conforme me avisaram entretanto, se irá diluindo com o tempo. Em todo o caso foi muito agradável ter estado com tantos colegas e amigos, uma meia centena, na maior parte os companheiros destes últimos anos na Direção Regional de Cultura do Alentejo, mas também com os que se deram ao trabalho de vir de fora e outros ainda que não estando fisicamente presentes, me enviaram mensagens de amizade. A todos os que puderam estar mas extensível a tantos outros colegas e amigos com quem partilhei este longo percurso, aqui quero deixar, neste blog de "memórias", que vou alimentando há três anos, um grande e sentido abraço.

Afinal, acabaram por me acompanhar neste "ritual", representantes de todas as grandes etapes de quase meio século de actividade profissional. E digo meio século, porque ainda antes de ter iniciado a carreira como professor na Amadora há 44 anos, já desde o primeiro ano da Faculdade (1970) participava regularmente, com o Luis Raposo e outros colegas, nas  actividades de campo  do GEPP. 

Tive pois comigo, nesta hora de despedida, colegas do tempo da Faculdade (70-75), das escolas (1974-1980) e até dos que fizeram parte do grupo que, em 1980, Francisco Alves convidaria para a grande aventura da renovação do Museu Nacional de Arqueologia e instalação dos primeiros serviços de arqueologia da SEC: Departamento de Arqueologia do IPPC e serviços regionais de arqueologia . 

Mas, naturalmente, o grosso dos presentes, era gente ligada aos "serviços alentejanos" em que tive a honra e o prazer de colaborar a partir de 1988. Primeiro do Serviço Regional de Arqueologia do Sul (de que subsistem ainda alguns colaboradores na actual DRCA); depois da extinta Direção Regional do IPPAR; também da EDIA (um intenso interregno enquanto funcionário da SEC, entre 1996 e 2002); do próprio IGESPAR/Lisboa (onde estive numa curtíssima missão em 2007) e finalmente da Direção Regional de Cultura do Alentejo, em que aconteceria aliás o meu último grande desafio enquanto dirigente da administração pública: gerir o património cultural em tempo de crise (2011-2014)


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018


MIRÓBRIGA E OS AMERICANOS



Há poucas semanas, nas sequência da atribuição do prémio "Mais Património 2017" pela revista Mais Alentejo, registei neste blog, sob o título "Miróbriga, uma jóia esquecida", alguns dados e documentos sobre a gestão e salvaguarda deste sítio romano nos anos 80 e 90 do século passado. ( ver aqui essa entrada ). Por coincidência, ou talvez não, o Gonçalo Pereira, editor da versão portuguesa da "National Geographic", acaba de me enviar um curioso recorte do antigo semanário de Joaquim Letria, "Tal&Qual" (10 de Julho de 1982), com uma reportagem sobre as escavações americanas que à época decorriam em Miróbriga. Estava então em curso a segunda campanha das escavações "luso-americanas", no contexto de um projecto de cooperação que se prolongaria até 1985. A reportagem exagera um pouco o âmbito quer temporal quer físico do projecto mas, sem dúvida, este representou um importante marco no processo de revitalização deste importante sítio arqueológico romano nas duas últimas décadas do século passado, como recorda a arqueóloga Filomena Barata no seu blog "As cidades da Lusitânia" ( que pode ser consultado aqui ) :

"Em 1981, no seguimento de contactos com arqueólogos americanos, lançou-se um projecto de cooperação internacional, «The Mirobriga Project», dirigido por arqueólogos das Universidades de Missouri-Colombia e Arizona e representantes portugueses. No decurso desse projecto, que se previa quadrianual mas que se prolongou até 1985, foram estudadas em pormenor diversas zonas: «acrópole»/forum, termas, zona habitacional e hipódromo, que contribuíram para um melhor conhecimento global deste Sítio Arqueológico. Colaboraram nesse projecto José Olívio Caeiro, como responsável pela parte portuguesa, e Carlos Tavares da Silva.

Na primeira campanha, a equipa de Missouri concentrou-se fundamentalmente na zona do forum e do templo, na zona das termas e no hipódromo. José Olívio Caeiro encarregou-se, por sua vez, da área limítrofe à capela de S. Brás.
Na segunda e terceira campanhas, os trabalhos continuaram na área do Castelo Velho, tendo-se confirmado a ocupação pré-romana de Miróbriga, nas termas e na zona habitacional. Em 1982 foi feita a primeira planta geral das termas, tendo-se dado início, em 1983, ao levantamento topográfico do sítio, que foi completado em 1984.

Neste último ano, a campanha incidiu ainda no circo, onde foram feitas novas sondagens, e nas termas. São publicados de seguida os resultados, bem como estudos de alguns frescos de Miróbriga (BIERS et alii, 1984: 35-53), tendo sido consolidadas as pinturas murais.

Os resultados preliminares das escavações efectuadas pela equipa luso-americana foram sendo editados anualmente, na revista Muse, e aí se publicaram, em 1981, 1982 e 1983, os únicos estudos parcelares das sondagens feitas no forum, uma vez que os BAR não lhes dedicam senão uma pequena nota (BIERS et alii, 1988: 15).

A equipa luso-americana perfilha a opinião de que Miróbriga constituiria um aglomerado urbano importante, habitado desde, pelo menos, a Idade do Bronze, sendo as termas e o circo partes integrantes de um perímetro urbano ainda não definido em toda a sua extensão.
O forum da povoação - com as construções que, logicamente, lhe ficariam anexas - teria uma sucessão de ocupações que inclui, para além dos níveis de épocas anteriores, duas fases de construção da época romana, datando a mais antiga do século I. O templo centralizado dataria de meados do século I d. C., tal como a maioria das construções que se desenvolvem a Sul do mesmo - tabernae.
Em 1988 é publicado em Oxford Mirobriga: Investigations at an Iron Age and Roman Site in Southern Portugal by the University of Missouri-Columbia, 1981-1986, onde são sintetizados os trabalhos desenvolvidos e publicados os materiais arqueológicos aí exumados. Como já foi referido, as sondagens do forum não foram, até hoje, pormenorizadamente dadas a conhecer, devido ao facto de entretanto a equipa se ter desmembrado

O convite ao arqueólogo David Soren da Universidade de Missouri, Columbia, fora feito em 1980  no decorrer de uma viagem que Caetano Mello Beirão  (1923-1991), já designado director do novo Serviço Regional de Arqueologia do Sul, fizera aos Estados Unidos em representação da Secretaria de Estado da Cultura. Penso que também estará relacionada com essa viagem de Beirão, a posterior vinda de Stephanie Malloney, outra arqueóloga americana que a partir de 1983 e praticamente até hoje, se dedicaria ao estudo de outro importante sítio romano do Alentejo: a Villa de Torre de Palma (Monforte). De algum modo, estes projectos representavam, ao tempo, uma inédita abertura da arqueologia nacional, até então muito ligada a França e à Alemanha, à investigação norte-americana. Tal como é referido na reportagem, David Soren, enquanto especialista em Arqueologia Clássica, mantinha outros projectos na Europa, nomeadamente em Chipre, onde escavava as ruínas da cidade de Kourion. Recordo que esse projecto cipriota, em que chegaram a participar alguns jovens arqueólogos portugueses (como a Catarina Viegas, colaboradora nas escavações luso-americanas de Miróbriga e hoje professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ou a Inês Vaz Pinto, actual responsável pelas Ruínas de Tróia, Grândola) teve à época ampla repercussão mediática, nomeadamente nas páginas da National Geographic internacional, devido ao reconhecimento dos efeitos do epicentro de um célebre terramoto que em 21 de Julho de 365 d.C. destruiu aquela cidade. Uma outra curiosidade relacionada com esta cooperação arqueológica Luso-Americana: de acordo com a biografia de David Soren  que é possível consultar na Wikipédia, este arqueólogo terá sido também responsável pela reorganização da sala "Miróbriga" do Museu Municipal de Santiago do Cacém, projecto em que teve a cooperação de Henry Lange, um designer americano de origem alemã, com importante obra ligada ao cinema de ficção, nomeadamente 2001, Odisseia do Espaço  (1968) ou os 3 primeiros filmes da saga Star Wars (1977-1983)!

Pela parte portuguesa, participaram neste projecto, os arqueólogos do Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS) Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, nomes ligados à arqueologia do litoral alentejano desde o início dos anos 70 enquanto colaboradores do "Gabinete da Área de Sines". O Serviço Regional de Arqueologia do Sul estava por sua vez representado por José Olívio Caeiro (1949-2009). José Caeiro, como era conhecido entre os seus pares, era na altura assistente na jovem Universidade de Évora, onde assegurava com Jorge Pinho Monteiro (1950-1982) as cadeiras de História Antiga e Arqueologia. Eram ambos colaboradores  muito próximos de Caetano Beirão, tendo apoiado a instalação do Serviço Regional de Arqueologia em Évora, em espaços da própria Universidade (Palácio Vimioso). O desaparecimento precoce de Pinho Monteiro, porém, afunilaria as opções de Beirão (enquanto não foi possível colocar os primeiros arqueólogos no quadro do serviço) estando na origem do excessivo envolvimento de Caeiro nos projectos então em curso. Conforme pude ter conhecimento directo, dadas as minhas funções no Departamento de Arqueologia do IPPC, as relações entre Caetano Beirão e José Caeiro, acabariam por azedar, com acusações recíprocas de incumprimentos vários, nomeadamente no que respeita à não publicação de resultados de muitos dos trabalhos arqueológicos, incluindo a parte nacional de Miróbriga. José Olívio Caeiro afastar-se-ia progressivamente da actividade arqueológica e até da própria universidade (onde não concluira o Doutoramento sobre o povoamento proto-histórico na bacia do Guadiana) regressando ao ensino secundário, onde iniciara a sua carreira profissional como tantos outros arqueólogos.

A última vez que nos encontrámos foi em Évora, nas instalações do INATEL (Palácio Barrocal), por ocasião de uma sua exposição de pintura, actividade a que finalmente se dedicara na sua "Villa Caerius", a casa que à maneira romana construíra nos arredores da Azaruja. Só muito recentemente, após diligências de um amigo comum (o Prof. José d'Encarnação), viemos entretanto a saber que morrera em 2009.


A reportagem do "Tal & Qual" de 10 de Julho de 1982. A foto de José Olívio Caeiro, em grande plano.

Painel sobre o projecto luso-americano dos anos 80, .(antiga exposição no Centro Interpretativo de Miróbriga)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A COLECÇÃO ARQUEOLÓGICA (?) DO BPN


Nunca se me proporcionou (nem seria fácil...) a ocasião para observar esta misteriosa e no mínimo controversa colecção. Soube que alguns colegas arqueólogos -para além do arqueólogo que a avaliou a pedido do BPN ou da conservadora do Museu Nacional de Arqueologia referida no (excelente) artigo publicado em 15 de Fevereiro de 2009 no suplemento "Domingo" do Correio da Manhã- terão  entretanto tido essa oportunidade, a pedido das autoridades competentes (Polícia Judiciária ?). As opiniões expressas por esses especialistas, tanto quanto se comentou em alguns meios, terão sido no sentido de que a generalidade da coleção, seria integrada por objectos falsos... Ou seja, ao contrário da coleção "Miró" de que tanto se falou e que pela sua autenticidade e mais valia artística  acabou por manter-se na esfera pública, a coleção arqueológica que terá custado 5 milhões de Euros ao BPN, desapareceu dos radares do interesse público ou mesmo da curiosidade dos media. Apesar das muitas questões levantadas e não respondidas no que o artigo, excelentemente ilustrado, que aqui reproduzimos.

Pessoalmente e meramente por efeito colateral, tive posteriormente alguma notícia do assunto. No final de uma reunião de trabalho com a Polícia Judiciária, cujo tema e data não posso precisar, mas que terá já sido posterior a 2011, o agente ao saber que eu era arqueólogo, quis saber se eu conhecia a coleção BPN e qual era a minha opinião sobre a mesma. Respondi-lhe que apenas conhecia alguns objectos a partir da reportagem fotográfica do Correio da Manhã mas que, com todas as reservas decorrentes da não observação directa das peças, estas me pareciam falsas, se não na totalidade, pelo menos na sua maioria...

Não sei, entretanto, que caminho este assunto tomou e se foi objecto de tratamento no âmbito do longo julgamento do caso BPN que terminou em Maio do ano passado. Mas tinha alguma curiosidade de conhecer as conclusões da investigação empreendida pelas "autoridades" e qual o destino dado entretanto à "colecção". Aqui está um tema interessantíssimo para o jornalismo de investigação, ou mesmo, de futuro, para alguma tese de mestrado ou doutoramento...sobre "contrafação ou tráfico" de antiguidades.











segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Documentos para a história da arqueologia alentejana no final do Século XX



Pensando no seu eventual interesse documental futuro, tenho procurado digitalizar e disponibilizar algum material que, pela sua natureza (edição informal e tiragem reduzida), não será especialmente acessível. Entre esse material destaco hoje um Plano de Conservação e Valorização do Património Arqueológico do Alentejo, elaborado e desenvolvido no contexto do Serviço Regional de Arqueologia do Sul (IPPC) ainda que, a quando da sua apresentação e divulgação em 1990, aquele serviço tivesse acabado de ser extinto (Decreto 216/1990) por Santana Lopes. Dada a sua extensão, aqui deixamos o acesso ao mesmo em PDF_  


Apesar da profunda crise que abalaria as estruturas arqueológicas a partir daquela data, coincidindo com o agitado consulado de Santana Lopes à frente da cultura (como já aqui recordámos) este documento acabaria mais tarde por servir de base a um Plano desenvolvido já no contexto do IPPAR (a partir de 1995) e que se concretizaria parcialmente já na transição do século. Este plano, que se intitulava "Itinerários Arqueológicos do Alentejo e Algarve" seria financiado por verbas do Fundo de Turismo e partia da falsa premissa de que os sítios ou monumentos a valorizar, estavam devidamente protegidos e conservados e que, portanto, era prioritário criar estruturas de recepção e interpretação (Centros Interpretativos) que os colocasse ao serviço do desenvolvimento turístico da região. Não negando a importância deste programa que permitiu entre outras coisas, proceder a aquisições de alguns monumentos que se encontravam ainda em propriedade privada (caso da Gruta do Escoural, do Castro da Cola ou do Monumento 7 de Alcalar...), o notável esforço feito na construção de "Centros Interpretativos" raramente foi acompanhado pelo indispensável investimento em conservação e restauro... O caso paradigmático é, por exemplo, a situação das Ruínas de Miróbriga, praticamente a esboroarem-se cada dia que passa, sem que seja possível concretizar as acções de restauro há muito identificadas e orçamentadas...

Nota: seria um exercício interessante, comparar os objectivos definidos no Plano de 1990 com a situação de alguns dos monumentos nele identificados. Há sítios que praticamente "desapareceram" do radar arqueológico, como a villa romana do Monte do Salvador em Campo Maior...Mas a situação mais dramática e ainda por resolver (dada a sua situação de dispersão no território e de localização em propriedade privada...) é a do "megalitismo alentejano", um património reconhecidamente excepcional, nomeadamente pelo Turismo, mas cuja salvaguarda de valorização tarda em ser devidamente enquadrado numa estratégia consequente.
Artigo no Público em15 de Fevereiro de 1995, por ocasião do anúncio do projecto dos "Itinerários Arqueológicos" promovido pelo IPPAR. A esse propósito, o jornalista Pedro Miguel Ferreira, recupera o antigo "plano" do Serviço Regional de Arqueologia do Sul, muito provavelmente através de uma cópia cedida por mim próprio em circunstâncias que não recordo.


A necessidade de "planificação" da actividade arqueológica tinha sido já uma das grandes preocupações do Departamento de Arqueologia do IPPC ao longo dos anos 80. Pelo seu interesse documental, aqui deixo a apresentação "gráfica" do "Plano Nacional de Trabalhos Arqueológicos de 1985", onde aparece já um capítulo específico para as acções de "conservação". De recordar aos mais jovens que à época, a grande maioria destas intervenções eram planeadas e executadas em contexto de "puro voluntariado". Estávamos ainda a uma década do aparecimento da "arqueologia empresarial"...







Capa da brochura de apresentação do programa dos "Itinerários Arqueológicos do Alentejo e Algarve e mapa associado.