sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

"Monument Man"



Hoje o Facebook recordou-me um post de há três anos, alguns meses antes de me iniciar na "blogosfera". Apesar do carácter mais sintético do texto, mais ao estilo "facebookiano" (passe o neologismo), pareceu-me boa ideia aqui deixar nota de um tema que, por várias razões, me interessa particularmente. Apenas uma nota de actualização. Tive posteriormente ocasião de ver o "Monument Man", ainda que na versão vídeo, e corroboro inteiramente a opinião do meu colega António Valera que então comentara, a propósito, que o filme estava muito à quem das suas expectativas...

"Ainda não tive oportunidade de ver o último filme do G. Clooney "Monument Man" (aliás, desgraçadamente, não há cinema comercial em Évora há alguns anos...) mas estou com bastante curiosidade. No Natal de 1998, ao vaguear por uma livraria da Amadora (que já não existe) encontrei um livro que me despertou a atenção: "Europa saqueada-O destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Muncdial" da norte-americana Lynn H.Nicholas, em edição brasileira (Companhia das Letras, 1996) com uma foto na capa do conhecido historiador de arte René Huyghe (1940) mostrando as grandes galerias do Louvre vazias. O tema do saque nazi e da salvaguarda dos bens artísticos durante a 2ª Guerra Mundial não me era desconhecido. Através da leitura das memórias do arqueólogo André Leroi-Gourhan (que ainda conheci pessoalmente no Verão de 1973, nas escavações de Pincevent) antigo membro da Resistência Francesa, tinha-me apercebido dos dramas vividos pelos conservadores dos museus europeus na salvaguarda dos tesouros artísticos que lhe estavam confiados. Quem hoje sabe que as mais valiosas pinturas do Prado, estiveram guardadas perto da fronteira francesa e que antes do fim da Guerra Civil espanhola foram levadas e mostradas numa grande exposição em Genebra? Em conclusão, li as 500 páginas do livro de Lynn quase de uma assentada e ainda que, certamente não tenha pensado nisso na altura, estou certo que o tema dará um grande filme. Espero que o meu filho David, o meu "movies dealer" (!?) não se atrase na "entrega"...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O CROMELEQUE DOS ALMENDRES 
de novo na Assembleia da República

Na sequencia de uma moção aprovada na Assembleia de Freguesia da Tourega e de Guadalupe de 11 de Dezembro último sobre a situação "inexplicável" do CROMELEQUE DOS ALMENDRES de ausência de toda e qualquer forma de gestão e salvaguarda e cujo texto abaixo transcrevemos, o Bloco de Esquerda manifestou interesse pela situação, tendo sido solicitada à Junta uma reunião e uma visita ao Cromeleque dos Almendres, que ontem mesmo se concretizou com a presença do Deputado Jorge Campos. A União de Freguesias, através dos seus representantes (Presidente do Excecutivo e da Assembleia) teve assim oportunidade de manifestar de viva voz ao Deputado Jorge Campos, as suas preocupações relativamente à situação de indefinição presente e futura sobre deste monumento nacional, (ainda ameaçado por um "PIN turístico e um PIN mineiro...) dada a sua localização em propriedade privada e o desinteresse dos proprietários em assegurarem uma gestão que, em nossa opinião, deveria ser preferencialmente garantida pela administração pública competente, dado o seu cariz Nacional.

O Deputado (BE) Jorge Campos nos Almendres, ontem, 20 de Fevereiro de 2017


Texto da Moção aprovada em 11 de Dezembro de 2016:

Moção

A Assembleia da União de Freguesias de Nª ª da Tourega e Nª Sª de Guadalupe, reunida em sessão ordinária no dia 11 de Dezembro, tendo tomado conhecimento dos resultados inconclusivos das diligências efetuadas pelo executivo da freguesia junto dos proprietários da Herdade dos Almendres, relativamente à precaridade da presente situação do monumento nacional “Cromeleque dos Almendres”, deliberou:

1.       Manifestar publicamente a preocupação dos membros eleitos, relativamente à situação de total indefinição no que respeita à gestão e à salvaguarda de um dos principais monumentos pré-históricos do território português, o Cromeleque dos Almendres, visitado diariamente por centenas de turistas, sem qualquer regra ou controle por parte de qualquer entidade pública ou privada.

2.       Lamentar a ausência de acordo da parte dos proprietários da Herdade dos Almendres à proposta de modelo de gestão do monumento sugerida pela União de Freguesias, situação agravada pela ausência, tanto quanto é do conhecimento público, de qualquer solução alternativa por parte dos próprios proprietários.

3.       Mandatar o executivo da União de Freguesias, no sentido de este alertar as entidades com responsabilidades legais na salvaguarda do património cultural, nomeadamente no património classificado como “nacional”, sobre as graves ameaças que nas presentes circunstâncias, se colocam à salvaguarda deste monumento e à segurança dos milhares de visitantes que o procuram.

4.       Lembrar que, nos termos da Lei de Bases do Património Cultural, compete às entidades competentes da Administração Pública, a tomada de todas as medidas que a salvaguarda de um Monumento Nacional exijam, incluindo a sua expropriação, caso se conclua que essa é a solução mais adequada à sua proteção.

5.       Dar amplo conhecimento público desta tomada de posição da Assembleia de Freguesia, através de nota a enviar à Câmara Municipal, à Direção Regional de Cultura do Alentejo, aos Grupos Parlamentares da Assembleia da República e à Comunicação Social.


Guadalupe, 11 de Dezembro de 2016



Naturalmente, esta situação não é só de hoje e arrasta-se praticamente desde a identificação do monumento há 53 anos, por Henrique Leonor de Pina. Já nessa altura (1964) apenas a intervenção da Junta Distrital de Évora, permitiria a realização dos primeiros trabalhos arqueológicos no local, face às dificuldades levantadas pelo proprietário de então (Eng. Miguel Soares). De realçar que a recuperação do monumento e a construção do acesso, apenas viriam a ser viabilizados e assumidos pela Câmara Municipal de Évora nos anos oitenta, numa época em que a propriedade fazia parte da Cooperativa de Guadalupe.

A visita do Deputado Jorge Campos aos Almendres, fez-nos entretanto recordar uma outra intervenção da Assembleia da República de quase há três décadas e também já relacionada com esta problemática, protagonizada pelo saudoso Deputado do PCP, Lino de Carvalho (1946-2004), secundado pelo Deputado José Manuel Mendes. Lino de Carvalho, com quem me cruzava  nessa época amiúde em Évora, e com quem discutia estas questões, interpelava em requerimento o Ministério da Agricultura sobre uma iniciativa que partira da própria Secretaria de Estado da Cultura (então sob a titularidade de Teresa Patrício Gouveia), e que visava a salvaguarda para o domínio público de alguns monumentos nacionais localizados em Herdades que estavam prestes a ser devolvidas aos proprietários no âmbito do desmantelamento da "Reforma Agrária". Nessa situação, entre outros, encontrava-se o Cromeleque dos Almendres. No afã de completar a sua "tarefa", o mais rapidamente possível, o Ministro da Agricultura de então, Álvaro Barreto, ignorou a proposta do próprio Governo, adiando para data posterior à entrega das propriedades, a resolução do "problema". O que, como é público e notório, com uma única excepção (Gruta do Escoural, após pesada indemnização aos proprietários pelo cancelamento da exploração de mármore em 1963), nunca veio a acontecer...

Texto do requerimento dos Deputados Lino de Carvalho e José Manuel Mendes (7 de Julho de 1989)






Insistência do Presidente do IPPC (Eng. António Lamas), já depois do requerimento dos deputados do PCP, solicitando de novo a intervenção da Secretária de Estado da Cultura, junto do Ministro da Agricultura, para que este revisse a sua posição de indeferimento da proposta de "salvaguarda para o domínio público" dos monumentos nacionais localizados nas Herdades a devolver.




domingo, 19 de fevereiro de 2017


A IGREJA DA ESTRELA (Moura)

A Igreja da Estrela, visitada por estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na "semana santa" de 1975. Ao centro o João Ludgero, à esquerda a Maria João Coutinho, admirando os frescos da abóbada, e o José Mateus, de costas.

Digitalizando antigos "slides", alguns já com grandes perdas de cromatismo para além de outras maleitas, encontrei há dias duas fotos, sem legenda ou data, do interior de uma igreja que me parecia familiar. Ampliando as imagens acabei por reconhecer nelas três colegas (O Zé Mateus, a Maria João Coutinho e o João Ludgero), o que me permitiu datar e localizar a situação retratada. Com efeito, aquelas fotos foram obtidas na Igreja da aldeia da Estrela, na semana santa de 1975, durante uma "expedição arqueológica" ao longo das margens do Guadiana, organizada pelo GEPP (Grupo de Estudos do Paleolítico Português) e na qual também participei. Esta actividade de campo, realizada numa velha viatura Land Rover da Faculdade de Letras ( http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/02/os-land-rovers-nas-minhas-memorias.html), tinha sido proposta pelo José Morais Arnaud (enquanto professor da nova cadeira de "Práticas Arqueológicas") e tinha já como motivação implícita, a problemática dos previsíveis e inevitáveis impactes sobre o património cultural decorrentes da construção da Barragem do Alqueva. Com um projecto que vinha dos anos 50, este empreendimento era nesta época já objecto de trabalhos preliminares (ao nível das engenharias e sem qualquer Estudo de Impacto Ambiental, conceito legal que ainda não existia em Portugal), como pudemos confirmar ao passarmos no local previsto para futura implantação da Barragem, entre os Ratinhos (Moura) e os Pardieiros, do lado de Portel. Pessoalmente, esta "expedição estudantil" acabaria por ter consequências futuras que estava então longe de adivinhar. De facto, eram como que os preliminares de uma velha e persistente relação com a Arqueologia do Alentejo que, com o passar dos anos, acabaria por se tornar permanente e que, entre 1996 e 2002 se focaria exclusivamente no território afectado pela inundação do Alqueva e cujas circunstâncias eu explico na introdução ao primeiro volume das Memórias d'Odiana (Salvamento Arqueológico no Guadiana, EDIA, 1999). 

Mas regressemos à Estrela, no já distante ano de 1975. Após prospecções nos terraços da zona do Xerez, não muito longe de Monsaraz, e onde localizámos alguns sítios com abundantes materiais líticos de superfície, (nomeadamente o Xerez de Baixo, onde com Luís Raposo,  realizariamos algumas sondagens dois anos depois) havíamos atravessado para a margem esquerda, pela velha ponte de Mourão.  Já então a passagem na aldeia da Luz era obrigatória, dada a ameaça pendente de inundação que no entanto só viria a concretizar-se três décadas mais tarde. A vizinha aldeia da Estrela, no contexto do Alqueva, foi sempre uma espécie de "enteada". Mais pequena e já então com poucos habitantes, a circunstância de não estar directamente ameaçada pela subida das águas (hoje é uma estreita península), tirava-lhe importância e visibilidade, face à omnipresente e mediática situação da Luz. Nessa Páscoa de 75, a nossa passagem prendia-se com a necessidade de chegar às margens do Guadiana, cujo perímetro inundável procurávamos explorar, tanto quanto possível. Dessa ocasional visita à Estrela recordo, apesar de tudo, uma aldeia com mais gente do que ali viria a encontrar vinte anos depois e que pelas razões do calendário religioso se concentrava naquele dia na envolvente da Igreja. Nesta, como se comprova pelo aparato dos andores observado na foto, tudo estaria preparado para a procissão do Senhor dos Passos que, no entanto, não se iria realizar por falta de Padre. O assunto era alvo de animadas conversas de rua, mas já não garanto que a falta do Padre resultasse de alguma circunstância fortuita ou se, pelo contrário, não seria um sinal dos tempos revolucionários que então atravessavam as planícies alentejanas, como parecia decorrer de alguns comentários menos ortodoxos, do género, "temos a nossa crença, não precisamos do padre para nada..."

O altar mor da Igreja da Estrela, em 1975

Só voltaria à Estrela duas décadas depois, quando as circunstâncias da vida determinaram que eu viria a coordenar os trabalhos de salvaguarda patrimonial e arqueológica a empreender no Alqueva, após a retoma das respectivas obras em 1996. A partir do escritório da EDIA em Mourão, tive então oportunidade de visitar frequentemente a Estrela. Apesar da aldeia não ser directamente afectada, a sua localização entre o Guadiana e a Ribeira do Alcarrache, colocava boa parte do seu território no centro do futuro lago, implicando a inundação de diversos sítios arqueológicos, com destaque para o povoado proto-histórico do Castelo das Juntas, identificado nos anos 30 pelo arqueólogo de Moura, Fragoso de Lima. Curiosamente, os seus já reduzidos habitantes, sentiam alguma "inveja" dos vizinhos da Luz, alvo de toda a atenção e futuros beneficiários de uma aldeia totalmente nova. De tal modo que, quando se colocou a hipótese de, com algumas terraplanagens, se precaver a remota hipótese das águas da Barragem poderem vir a atingir a soleira do cemitério local, os habitantes da Estrela (à imagem e semelhança do que se passou na Luz mas nesse caso por razões objectivas) viriam a exigir a trasladação dos seus mortos para um "cemitério novo"... Foi também num contexto de compensação da pequena aldeia da Estrela que eu viria a propor em 1997, uma intervenção de recuperação da própria Igreja da Estrela, imóvel que apesar do seu cariz rural, apresentava uma riqueza inesperada ao nível da pintura mural.

Contactados os meus colegas da então Direção Regional de Évora do IPPAR, a Igreja da Estrela seria objecto de um relatório preliminar assinado pela Margarida Botto, reconhecendo a importância artística da respectiva decoração mural e a necessidade da sua salvaguarda. Desse relatório, aliás, resultou a abertura do processo de classificação, processo que como é demasiado comum, só se completaria quinze anos depois, com a publicação da respectiva Portaria 213/2013 no Diário da República.
A Igreja da Estrela em 1997
















Felizmente, porém, a EDIA não esperou pela classificação para actuar. Nesse mesmo ano de 97, seria encomendado um primeiro diagnóstico sobre a situação da pintura à empresa Mural da História, empresa que nessa altura se ocupava também do estudo (e posterior destaque) da pintura existente na Igreja da Luz (de muito menor qualidade que a da Estrela). Esse estudo, no entanto, apontaria para a necessidade de previamente a qualquer actuação sobre os revestimentos murais, se proceder à recuperação das coberturas da Igreja e à consolidação estrutural da abóbada, que apresentava evidentes e perigosas fissuras. Começava assim a preparar-se uma intervenção de maior fôlego, muito reclamada localmente, cujo arranque demoraria ainda algum tempo e que passou pela contratação de um projecto de recuperação ao Arquitecto Nuno Lopes  (2002) e pela realização da respectiva empreitada de recuperação estrutural já em 2006. A conservação das pinturas, porém, arrastar-se-ia no tempo. E apesar do apoio dado pela EDIA à execução do respectivo Caderno de Encargos, pela documentação que consultei entretanto, verifiquei que a respectiva concretização só viria acontecer em 2013. Tratou-se de uma iniciativa da própria população, através da Comissão Fabriqueira da Igreja, realizada com o apoio da autarquia, certamente graças à sensibilidade e ao interesse do Vereador e arqueólogo, o meu amigo Santiago Macias, hoje presidente da Câmara Municipal de Moura.


Novas pinturas descobertas durante a intervenção de restauro (2013), dando conta de um retábulo pintado na parede fundeira do altar-mor., solução a que as comunidadades mais pobres do Alentejo muitas vezes recorriam, na impossibilidade de encomendarem dispendiosos retábulos de talha e pintura de cavalete

A Igreja da Estrela, na actualidade, em foto do SITE da Câmara Municipal de Moura








terça-feira, 14 de fevereiro de 2017


AS RUÍNAS ROMANAS DA TOUREGA
Um património de Valverde e Guadalupe, pouco valorizado

Tem este "blog" afinal, objectivos muito diversos, ainda que um fio condutor perpasse ao longo de todo ele. O culto da memória, seja ela colectiva ou pessoal, procurando à escala micro, constituir-se como um núcleo de registo documental que possa ser útil ou pelo menos interessante para quem, por acaso ou intencionalmente, acabe por tropeçar na multiplicidade de elementos que para aqui vou carreando: recordações pessoais, textos e imagens das mais variadas proveniências, documentos de imprensa dificilmente acessíveis, etc...

Sobre o património cultural da Tourega, antiga sede de freguesia, hoje pequeno lugar a duas léguas de Évora, onde a par das velhas pedras, apenas subsiste uma família já idosa, já aqui nos referimos várias vezes. 


A Igreja, de origem seiscentista, continua a ser o foco principal de interesse patrimonial deste local, cuja valorização poderia constituir-se como uma mais valia alternativa, à excessiva concentração na cidade de Évora, do foco turístico regional.. Mas não é o único potencial do sítio. Nas proximidades, escondidas pelo velho cemitério local, encontram-se as ruínas de uma importante Villa Romana, objecto de um importante projecto de escavação e valorização nos anos 80 e 90, mas hoje praticamente abandonada à sua sorte. A União de Freguesias de Valverde e Guadalupe, consciente da sua importância, a par de intervenções periódicas de limpeza, tem procurado chamar a atenção para o seu significado, promovendo várias iniciativas nesse sentido. 

Procurando contribuir para a urgente "redescoberta" deste sítio, aqui recordamos um artigo publicado no Público em Setembro de 1994, bem como um desdobrável (há muito esgotado) editado pela Câmara Municipal vai para duas décadas, na sequencia das escavações ali desenvolvidas por Luisa Ferrer Dias (já falecida), Catarina Viegas (hoje professora na Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa) e Inês Vaz Pinto, actual responsável pelas Ruínas de Tróia (Grândola).






quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017


A “minha” Guerra Colonial



Este é sobretudo um blog de memórias profissionais, no entanto, de quando em vez, alguns temas mais pessoais também têm aqui sido aflorados, já que a vida é um contínuo, e nem sempre é fácil segmentar a realidade...

Afinal, também faço parte da última geração que viveu a juventude sob a ameaça de “mobilização” para a última guerra colonial do Século XX. Ameaça felizmente não concretizada no meu caso, graças ao “adiamento do serviço militar por motivos universitários” (uma “benesse” calculista do fascismo que tantas vezes serviu também de meio de chantagem sobre os mais contestatários). "Dado o nome" aos 18 anos", fui às "sortes" aos 20, em 1972 (na enfermaria da Academia Militar, na Amadora) tendo sido considerado apto para todo o serviço. Apanhado pelo 25 Abril ainda na Faculdade, tal circunstancia feliz não me livrou, no entanto, do serviço militar obrigatório que já recordei neste “blog”( 1978-Missão em Tróia ), serviço obviamente sem a duração e, sobretudo, sem os inevitáveis traumas físicos ou psíquicos da “guerra”.

Este assunto veio recentemente à baila ao reencontrar entre os meus papéis antigos, algumas dezenas de cartas e aerogramas de diferentes colegas que afinal, apesar da idade comum, não tiveram a mesma sorte, por um ou outro motivo. É verdade que alguns desses meus contemporâneos, estiveram nas colónias já na fase de “desmobilização” pós-25 de Abril, apesar de tudo uma situação diferente, porque apesar dos riscos, tinha um objectivo e um propósito concreto e de curto prazo. Mas alguns amigos bem próximos, nomeadamente ex-colegas de turma do seminário de Almada, ainda suportaram“comissões” em cenário de guerra, nalguns casos em situações quase extremas. É sobretudo destes que guardo alguns testemunhos escritos especialmente emotivos, pois produzidos na pressão dos acontecimentos.

Mas as minhas memórias da “Guerra Colonial”, vêm de muitos anos antes e vão mesmo até à chamada invasão de Goa, Damão e Diu de 1961. Andava na escola primária (3ª Classe?) mas retenho lembrança ainda que vaga da alteração à programação da Emissora Nacional, ouvida no pequeno rádio Philips, o único luxo da nossa casa da Vila Fernandes, em Moscavide. A par da inevitável música fúnebre, as horas eram marcadas por gravações de sinos a repicar, “os sinos da Velha Goa que choravam por Portugal”, segundo a voz dramática do locutor de serviço!  (A propósito desta "invasão", guardo outro facto ainda que impreciso. Um colega meu de carteira, no primeiro ano do Seminário de Santarém, (algures entre 1962 e 63) o "António Carlos Froufe", de quem nunca tive mais notícias porque saíu logo ao 2º ou 3º ano, falava de um irmão marinheiro, desaparecido nessa "guerra". Consultando na NET a lista das cerca de 30 vítimas mortais de 61, não aparece qualquer apelido "Froufe", mas é provável que ele estivesse então ainda entre os 3 000 prisioneiros portugueses.)

Nesse início dos anos 60, apesar da recente aparição da Televisão em Portugal, (que eu apenas via no Café Mimoso, já na curva da estrada para Sacavém) estávamos claramente ainda no tempo da “rádio” e comecei a aperceber-me que algo de grave se passava lá longe em Angola (que eu conhecia dos mapas da escola primária), porque o meu pai ouvia religiosamente ao fim do dia na emissora nacional, apesar das péssimas condições de transmissão, a “Crónica de Angola”,(“Aqui Luanda, fala Ferreira da Costa")


A situação, no entanto, foi-se tornando um pouco mais nítida para mim, não só porque o entendimento aumentava com a idade, mas sobretudo porque depressa a guerra nos bateu à porta com a mobilização do meu Tio João, o irmão mais novo da minha mãe e a cujo embarque para Angola me levaram. Não sei o que me terá marcado mais, se as cenas lancinantes de um cais de Alcântara que só consigo recordar a preto e branco, se a tensão permanente que se passou a viver lá em casa, numa espécie de luto atípico, entrecortado pelos rosários diários da minha mãe, à luz da lamparina ao "Sagrado Coração de Maria". Até que um dia, muitos “aerogramas depois” e umas quantas fotos descontraídas de um tio de calções, tão escuro que já ninguém reconhecia, este voltou são e salvo e a vida pareceu regressar à normalidade. Só que já não era possível ignorar a guerra que parecia não ter fim à vista e que se multiplicava por várias frentes. Um sobrinho do meu pai, filho do Tio Ricardo, seria uma das primeiras baixas mortais da minha aldeia, se bem que não a última. O velho cemitério do Carvalhal da Aroeira, como todos os cemitérios deste país, por via das omnipresentes  lápides, à época a única fuga à censura, foram e são ainda hoje a testemunha material silenciosa dessa imensa sangria. Lá está também no cemitério da aldeia, a campa de um jovem vizinho da minha avó materna, em cuja casa passei tantos verões. Era uns anos mais velho do que eu, chamava-se também António Carlos (é bem possível que a minha mãe nele tivesse inspirado na hora de me baptizar) e aturou muitas brincadeiras ao puto “lisboeta”, neto da vizinha. Aos vinte anos, filho único, ficou numa das frentes dessa guerra inútil, deixando os pais destroçados.


Depois, as lembranças desta longa guerra, confundem-se com a inexorabilidade do calendário. Hoje julgo que a principal razão do apoio incondicional da minha mãe à minha frequência do seminário (1962 a 68), mais do que decorrente de qualquer motivação religiosa, resultaria da perspectiva de tal me poder livrar da “guerra”... E de facto, com o passar dos anos e tendo presente a experiência da mobilização do irmão, era-me difícil imaginar como seria para ela a repetição de tudo, com o próprio filho… E em quantas famílias isso aconteceu? Daí que, apesar do espírito nacionalista, conservador e religioso dominante nos meios em que crescia, a “guerra” e as suas consequências rapidamente começaram também a ter efeitos colaterais. 

Muito antes da tomada de uma consciência política mais abrangente, que de facto apenas se concretizaria com a entrada na Universidade, a ameaça permanente da guerra colonial, mostrara-me desde bem cedo que algo de muito errado se passava na sociedade portuguesa e que, obviamente, tinha razões profundas. Por estranho que isso hoje possa parecer, essa consciencialização viria a dar-se ainda no próprio Seminário, particularmente em Almada, graças ao espírito renovador que soprara dos lados do Concílio Vaticano II. Foi na Quinda de São Paulo em Almada, por vezes com a participação do então ainda Padre Fanhais, que ouvi as primeiras canções do Adriano ou do Zeca Afonso ou a poesia contestatária do Manuel Alegre, de que viria a ser "grande" divulgador nas campanhas arqueológicas do Ródão, a partir de 1971.( ver post sobre o Alegre do Ródão)

Quando em 1973, acabado o 3º ano da Faculdade, já com 21 anos de idade, ousei pedir uma “licença militar” (ali no DRM da Av. de Berna, onde hoje é a Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Nova) a fim de poder viajar até França, para estagiar no “chantier-école” de Pincevent, dirigido pelo grande mestre André Leroi-Gourhan, confesso que tive algum receio que a mesma fosse negada. Até porque, alguns anos antes, apesar da responsabilização pessoal do então Padre João Bragança junto do pide de serviço na fronteira de Valença, este impedira a minha saída e a do meu amigo Vasco Pegado, para uma breve visita de ida e volta a Vigo, "porque tínhamos mais de 18 anos". O meu “bom comportamento” (quer dizer, ausência de referencias na PIDE) facilitou, no entanto, a licença para a minha primeira viagem ao estrangeiro e, recordo, apesar de toda a consciência política que três anos de Faculdade me haviam dado, a emoção com que comprei as primeiras revistas (Le Nouvel Observateur) e jornais franceses (Le Monde) e de procurar avidamente, notícias sem censura sobre a “guerra colonial”, aliás as únicas notícias que então apareciam sobre Portugal na imprensa internacional. Dessa primeira viagem fica também a memória da hipótese de deserção que começava a germinar. Em Paris convivi com alguns familiares que ali viviam há alguns anos, depois de terem dado o “salto” em Vilar Formoso. Não os movera qualquer motivação política, nem sequer fugiam da guerra. Escapavam à miséria e à exploração do campo sem perspectivas mas acabaram por juntar ao “pacote”, a falta de comparencia à “mobilização” para uma guerra que nada lhes dizia. O seu exemplo (e até o eventual apoio logístico) abria-me uma alternativa que poderia ter mudado toda a minha vida. Mas o interesse em acabar o curso e alguma garantia de adiamento até lá, davam folga a uma decisão que sabia seria sempre dramática em termos familiares. 

O golpe militar do 25 de Abril, logo no ano seguinte, viria finalmente alterar tudo. Quando nesse mesmo ano de 74, menos de três meses após a "revolução dos cravos", tive oportunidade de regressar a França para participar em novas escavações, agora nos Pirinéus, era já todo um outro espírito que me animava, conquistadas as liberdades que um ano antes pareciam tão distantes e afastado o espectro de uma guerra que não era minha. Por isso me soou anacrónica a compreensível reacção do casal de idosos franceses que comigo se cruzaram no comboio noturno entre Bordeus e Toulouse. Ao saberem que eu era português, acabado de chegar da “revolução”, tomaram-me por um jovem refugiado e assumiram uma atitude protecionista que contrastava com a euforia da liberdade reencontrada que eu julgava transmitir mas que eles não entendiam.

Esta guerra e sobretudo as suas terríveis consequencias, desgraçadamente não desapareceram como por encanto com o 25 de Abril. Nalguns casos, com novos contendores e diferentes contornos, assumiria mesmo formas bem mais violentas, ainda que cada vez mais distantes dos nossos lares. Mas para a minha mãe como para tantas outras mães, mesmo não compreendendo todo o alcance das transformações que a liberdade trouxera, o 25 de Abril "pelo menos" valeu para uma coisa. Acabou com a "Guerra"!

"Aerograma" recebido do meu amigo Luis Vaz, já falecido, enviado do Mindelo, Cabo Verde, em Agosto de 1974 (pelo que aparece já riscada a menção ao Movimento Nacional Feminino, a entidade que editava estes materiais, "para uso grátis das forças armadas em serviço no ultramar português"). 



terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Monte da Fainha (Evoramonte)

 Um sítio “fantasma” do Paleolítico Superior no Alentejo




 
Há sítios arqueológicos assim. Um nome muito citado na bibliografia especializada mas que, quando confrontado com a realidade do território, parece escapar a toda e qualquer materialidade. O Monte da Fainha, um sítio clássico do Paleolítico Superior Português (pelo menos durante algumas décadas do século passado), representa bem essa categoria de sítio quase fantasma, não fora a meia dúzia de peças conservadas, quase por milagre, em dois museus portugueses. Ainda por cima, este estatuto já de si fugidio, seria agravado por uma confusão toponímica involuntariamente engendrada por Jean Roche, o arqueólogo francês responsável pela sua divulgação científica (chegou a ser objecto de uma comunicação específica à Sociedade Pré-histórica Francesa em 1972), que a certa altura lhe trocou o nome por “Monte da Rainha”.
O poço do Monte da Fainha, no vale a Oeste de Evoramonte, hoje atravessado pela A6 (foto de 1988)

A descoberta

Em 1950, o proprietário do Monte da Fainha, (uma pequena herdade alentejana hoje atravessada pela A6, situada no vale a nascente da colina onde se ergue o Castelo de Evoramonte) mandou construir um poço em zona baixa, próxima de uma linha de água. Quis o acaso que, a presença na propriedade de Luciano Ribeiro, sócio da Associação dos Arqueólogos Portugueses (secção de Heráldica e Genealogia) e amigo do Professor Mendes Correia, tenha permitido a identificação de um conjunto de estranhos artefactos de pedra talhada aparecidos nas terras retiradas para a abertura do poço. Apesar da peculiaridade do talhe, a sua natureza intencional não escapou à observação de Luciano Ribeiro que os guardou (desconhecemos o número exacto recolhido na altura) e os mostrou mais tarde a Mendes Correia e ao Padre Jean Roche. Este pré-historiador francês, então a trabalhar em Portugal nos Concheiros de Muge pela mão do próprio Mendes Correia que ali fizera também investigações, não teve qualquer dúvida pela natureza do talhe, em atribuir os materiais ao Solutrense, um período do Paleolítico Superior então praticamente inédito em Portugal (à excepção de alguns raros materiais identificados em 1942 por Henri Breuil e Georg Zbyzewski, nos espólios das antigas escavações nas Grutas da Furninha (Peniche) e da Ponte da Lage (Caxias). No entanto, o Monte da Fainha, só dois anos após a descoberta seria visitado por Jean Roche e Mendes Correia. Nessa altura, segundo o relato de Roche publicado no Arqueólogo Português muitos anos depois (1968), já não conseguiram recolher mais artefactos e o que era mais “curioso”, nas palavras do próprio Roche, nas terras retiradas na abertura do poço, não conseguiram observar quaisquer vestígios de restos de talhe que poderiam ter passado despercebidos a Luciano Ribeiro, dada a sua pouca familiaridade com este tipo de materiais. Em 1954, já depois de H.Vaultier ali ter recolhido mais alguns artefactos “solutrenses”, certamente numa das suas habituais excursões arqueológicas com Camarate França, este último com Mendes Correia, realiza junto ao poço, algumas “pequenas sondagens”. Recolhem então novo lote de peças solutrenses, mas também não registam quaisquer outros vestígios, nomeadamente restos de talhe ou de habitat. Confirmando o estatuto especial do sítio e a atribuição cronológica ao Solutrense dos artefactos observados, o Monte da Fainha seria visitado em 1957 pelo chamado “Papa da Pré-história”, o Abbé Henri Breuil (1887-1961), acompanhado por Georg Zbyzewski e Octávio da Veiga Ferreira, dos Serviços Geológicos de Portugal e o omnipresente H.Vaultier. (Sobre o papel na arqueologia deste industrial de sucesso, já tivemos oportunidade de falar noutra ocasião: ver aqui sobre H.Vaultier). Provavelmente esta seria a última visita arqueológica ao sítio antes da sua divulgação científica por Roche (1968,Portugal, 1972, França, 1974, Espanha) e a sua própria implantação topográfica rapidamente cairia no esquecimento, até porque os arqueólogos mais ligados ao sítio, foram entretanto desaparecendo (Mendes Correia em 1960, Camarate França em 1963, H.Vaultier em 1969).

Os artefactos do Monte da Fainha, o seu significado e o seu destino

Como já referimos, o que tornava este sítio especial era, por um lado, a inequívoca atribuição cronológico-cultural do seu conjunto artefactual ao período Solutrense (entre 20 000 e 15 000 a C), a ausência de quaisquer outros vestígios arqueológicos e por fim a raridade de vestígios do Paleolítico Superior então conhecidos em Portugal, em especial no Alentejo. Jean Roche no seu artigo de 1968, publicado n’O Arqueólogo Português, sintetiza assim esta problemática:
Um número muito restrito de artefactos, vinte peças que atribui aos conjuntos recolhidos por Leonel Ribeiro e Vaultier ainda que referindo  a existência de mais uma dezena que teriam sido recolhidas nas sondagens de Camarate França e Mendes Corrêa, que não chegou a observar. No entanto, o número exacto de objectos descobertos e o seu destino, é uma questão em aberto e que dificilmente poderá vir a ser esclarecida…
Um conjunto tipologicamente homogéneo, uma vez que todos os artefactos analisados cabem na categoria das “folhas de loureiro”, nome que advém da forma foliácea e da espessura fina destes artefactos, normalmente em sílex, obtidos por talhe em ambas as faces e que seriam usados como pontas de lanças. Face à ausência de outros artefactos ou mesmo de qualquer contexto arqueológico, Roche concluía que a homogeneidade do conjunto só poderia ser explicada por uma escolha intencional cuja finalidade seria impossível determinar. A propósito recorda um achado semelhante verificado na abertura de um canal em 1873 em Volgu (França), também atribuído ao Solutrense. As circunstâncias deposicionais, melhor descritas naquele caso, haviam levado à sua interpretação como um “esconderijo”.  Roche não avança explicações para o Monte da Fainha, mas refere que Breuil a quando da sua visita à Fainha em 1957, havia colocado duas hipóteses: vestígios de uma sepultura isolada ou de um acampamento muito fugaz de um grupo de caçadores nómadas.


A entrada sobre o Monte da Fainha, na tese de doutoramento de João Zilhão (1994) onde aparecem desenhadas por Thierry Aubry, as três peças recuperadas num leilão por Gustavo Marques (entretanto oferecidas ao MNA pelos herdeiros) que faziam parte do conjunto de 20, publicadas por Jean Roche (1968)



Naturalmente, nenhuma das várias hipóteses ajudava a compreender o isolamento geográfico do achado, em pleno “deserto paleolítico” Alentejano... Mas essa circunstancia era facilmente justificável pelo atraso da investigação paleolítica em Portugal, concentrada normalmente nos terraços marinhos ou, quanto muito, nas margens dos grandes rios. O reconhecimento de outras provas da presença dos caçadores-recolectores do Paleolítico Superior no Alentejo, seria apenas uma questão de tempo e oportunidade, conforme a descoberta em 1963 da Gruta do Escoural e o reconhecimento da sua arte paleolítica viriam a confirmar pouco depois destes eventos, para não falarmos de outras descobertas mais recentes, nomeadamente nas margens do Guadiana. 

Fragmento de lâmina solutrense encontrada, a posteriori, nos espólios das antigas escavações da Gruta do Escoural. (depositada no Museu de Arqueologia de Montemor-o-Novo)

O problema é que, mesmo para regiões, como o maciço calcário estremenho, onde hoje está reconhecida uma intensa ocupação durante o Paleolítico Superior, os novos dados arqueológicos viriam a ser, quase sempre, confirmados após a reanálise dos materiais recolhidos em antigas escavações e guardados nos Museus. Desta tarefa ocupar-se-ia João Zilhão nos anos oitenta e noventa do século passado, congregando os resultados na sua monumental tese de Doutoramento (O paleolítico Superior da Estremadura portuguesa, Colibri, 1994). Entre os sítios que Zilhão obrigatoriamente “revisitou”, contava-se o Monte da Fainha, a que dedica uma dezena de páginas. O problema é que o paradeiro da coleção entretanto publicada por Roche se perdera com o desaparecimento dos “proprietários”. Pelo menos parcialmente, porque às mãos de Zilhão ainda chegariam três dos vinte artefactos originais. Resgatados num leilão por Gustavo Marques que entretanto os disponibilizara para estudo , actualmente fazem parte das coleções do Museu Nacional de Arqueologia, uma vez que os herdeiros daquele conhecido arquitecto-arqueólogo , ofereceram a sua colecção particular à quele Museu.

As conclusões publicadas por Zilhão (e que de algum modo poderão ser consideradas definitivas face aos dados disponíveis) não viriam a divergir das de Jean Roche, pese embora o facto de dispor de novas observações no local (como veremos mais adiante). Apesar de algumas características tipológicas diferenciadas dos padrões habituais, nomeadamente a sua maior espessura, que Zilhão explica pelo facto de se tratar de peças inacabadas, confirma a sua atribuição inequívoca ao Solutrense. (Havia a possibilidade de se tratar de material postpaleolítico, pois a técnica de talhe bifacial, uma vez adquirida, não se perdeu e seria usada até à Idade do Bronze, para a produção de pontas de seta e de alabardas em sílex, por exemplo).  A ausência de outros materiais arqueológicos, pese embora a probabilidade do conjunto poder estar em posição secundária, acaba por trazer plausibilidade à hipótese de estarmos perante um esconderijo de artefactos inacabados, mantidos em reserva e prontos para serem concluídos e usados pelo caçador ou caçadores que regularmente fariam este percurso. É neste aspecto, aliás, que a tese de Zilhão ganha maior colorido histórico-cultural…”O local podia corresponder, com efeito, a um marco importante nos itinerários praticados pelos caçadores solutrenses (viajando em grupo ou individualmente), e que tenha sido essa a razão que os levou a aí acumular utensílios de pedra em antecipação de necessidades futuras…”

O Sr. Filipe Franja, o homem que ao abrir o poço da Fainha, descobriu o conjunto de artefactos "solutrenses". Aqui visitando as sondagens do Outono de 1988.

A minha aventura pessoal no Monte da Fainha

Não sei se o João Zilhão chegou a visitar alguma vez o sítio do Monte da Fainha mas a pouca informação nova que usa na sua interpretação, e que naturalmente cita, foi-lhe disponibilizada por mim. É que o Monte da Fainha acabou por se cruzar na minha carreira arqueológica…
No dia 10 de Agosto de 1988, nas vésperas da chegada a Portugal de Marcel Ote, professor na Universidade de Liége que me contactara por indicação do próprio Zilhão na perspectiva de desenvolvimento de um projecto de investigação Luso-belga sobre o Paleolítico Superior no Alentejo, resolvi procurar o “Monte da Fainha”. O sítio havia sido descoberto então há 38 anos e era natural que em Évoramonte, houvesse ainda testemunhas do acontecimento. E, com efeito, não encontrei a testemunha mas descobri com facilidade o próprio responsável pela abertura do poço, o sr. Filipe Franja, então com 78 anos ainda bem rijos e que me acompanhou de bom grado. Tomei nesse dia as seguintes notas que transcrevo: “Relocalizei o sítio exacto da estação solutrense do Monte da Fainha, graças ao sr. Filipe Franja, o homem que havia feito o tal poço. Pela descrição das condições da descoberta tudo leva a crer que poderá tratar-se de um acampamento de superfície bem conservado. A área afectada pelo poço é mínima e os materiais referidos nas publicações  devem representar apenas uma parte do que se descobriu e dispersou. Por outro lado há ainda no local vestígios, como prova a descoberta hoje mesmo de mais uma peça solutrense.”



As duas únicas peças solutrenses (jaspe e sílex) recolhidas nos trabalhos de 1988 e hoje depositadas no MNA

Tratava-se obviamente de uma “conclusão precipitada”, mas compreensível. É que ao chegar ao poço, acompanhado pelo sr. Franja, a primeira coisa que vi ao olhar para o chão foi uma pequena ponta de jaspe, de talhe bifacial tipicamente solutrense, o que parecia ser um indício inequívoco não apenas da exactidão da informação topográfica, mas também da esperada preservação do sítio.  E assim, três dias depois, já com Marcel Ote e o seu assistente Jean-Marc Léotard no Alentejo, estava de novo em Evoramonte, tendo ficado decidido nesse mesmo dia que, no âmbito dos trabalhos que planeávamos e que, prioritariamente se centrariam na Gruta do Escoural, faríamos também algumas sondagens na Fainha para identificação e caracterização do que julgávamos então ser um solo de habitat paleolítico, preservado a uma certa profundidade no fundo do vale, próximo de antiga linha de água e coberto por depósitos coluvionares.  A “fé” era tão grande que os trabalhos se iniciaram nesse mesmo Outono, aproveitando o regresso da equipa Belga a Portugal, por ocasião do Colóquio de Arqueologia organizado em Montemor-o-Novo para comemorar os 25 anos da descoberta da Gruta do Escoural, tendo decorrido entre 25 de Outubro e 6 de Novembro de 1988.
Os resultados, no entanto seriam dececionantes, apesar da abertura de quatro grandes sondagens que, cobriram praticamente todas as possibilidades de extensão de um eventual nível arqueológico que nunca apareceu... E mesmo crivando sistematicamente os sedimentos escavados, apenas nos foi possível encontrar uma única pequena peça em sílex, apresentando talhe solutrense que assim se vinha juntar à que recolhera em superfície. Em nova visita ao local, já durante as escavações, o sr. Franja reafirmaria que haveria muito mais material do que aquele que fora publicado por Jean Roche mas insistiu na concentração do mesmo na vala do poço, falando mesmo em “amontoado” de peças. Recordou também que algum tempo depois terá feito uma escavação no exterior junto à parede do poço mas que terá aparecido pouco material. Tratou-se, provavelmente, das referidas escavações de Camarate França e Mendes Correia em 1954, nas quais terão aparecido apenas algumas peças. E de facto, nas nossas sondagens mais próximas do poço, havia evidentes indícios de remeximentos mais ou menos recentes.


Aspectos dos trabalhos de topografia no Monte da Fainha, realizados por Armando Guerreiro, o excelente colaborador da extinta delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão. Em cima, alunos de um curso de assistentes de arqueologia que participaram nos trabalhos, em baixo Jean Marc, à esquerda, e Armando Guerreiro. (1988)
Assim, ainda que cumpridos os requisitos técnicos normais, nomeadamente no que respeita aos registos e relatórios, a equipa luso belga concentrar-se-ia posteriormente nos trabalhos do Escoural, entretanto publicados em Portugal e na Bélgica (“Trabalhos de Arqueologia”, nº8, IPPAR, 1995 e “ERAUL”, 65, Liége, 1996) acabando por deixar inéditos os resultados negativos, ainda que significativos, das escavações no Monte da Fainha. De algum modo Zilhão, acedendo e integrando esta informação na sua interpretação do sítio, acabaria por felizmente colmatar essa lacuna.

Facsímile da resposta de Huet Bacelar, confirmando a existencia de dois artefactos do Monte da Fainha, no Instituto de ANtropologia "Prof. Mendes Corrêa".


Mas não ficou por aqui o meu pequeno mas esforçado contributo para esta malograda história arqueológica. Roche no seu artigo de 68, uma vez que haviam já falecido Mendes Correia e Camarate França, dá como desaparecidos os poucos artefactos (fala numa dezena) que estes terão encontrado nas sondagens de 1954. Valendo-me da minha antiga amizade com Huet Bacelar, então responsável pelas colecções de Arqueologia do Instituto de Antropologia “Pro.Mendes Corrêa”, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, escrevi-lhe pedindo que procurasse eventuais materiais de Evoramonte ali talvez depositados pelo fundador e patrono da instituição.  Na volta do correio recebi a resposta do Huet, informando que de facto havia duas “pontas de seta” (de facto uma “folha de loureiro” inteira e outra partida) provenientes da “Herdade da Fainha, Évora”, oferecidas ao Museu do Instituto em 5 de Outubro de 1957, por Luciano Ribeiro, Camarate França e Pires Soares. Como em 2011, resolvi formalizar a entrega no Museu Nacional de Arqueologia, das duas peças encontradas por mim no Monte da Fainha, o balanço do destino da totalidade do espólio conservado (7 artefactos!) desta importante estação arqueológica alentejana, será o seguinte:

                - dos materiais recolhidos por Luciano Ribeiro, Camarate França, H.Vaultier e Mendes Correia, cujo número total desconhecemos, subsistem no Museu Nacional de Arqueologia, 3 artefactos (adquiridos num leilão por Gustavo Marques e doados ao MNA pelos seus herdeiros); a este pequeno conjunto juntaram-se em 2011, as duas únicas peças obtidas nas sondagens luso-belgas de 2008. No antigo Instituto de Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (hoje ao que julgo integrado no Departamento de Biologia), conservar-se-ão, segundo informação de 1988, os 2 artefactos oferecidos por Luciano Ribeiro (o descobridor da Fainha) Camarate França e Pires Soares.


Jean Marc Léotard desenhando os cortes de uma das sondagens de 1988 no Monte da Fainha