quinta-feira, 20 de julho de 2017

Regresso à "Vila Velha" e ao Lumumba



Muitos anos antes de ter tido oportunidade de ler o livro do Embaixador José Cutileiro, "Ricos e Pobres no Alentejo" (que recomendo vivamente a quem queira ter uma ideia do que era socialmente o Alentejo há meio século atrás...) já Monsaraz (a "Vila Velha" de Cutileiro) fazia parte do meu roteiro arqueológico pessoal. Não consigo naturalmente precisar quando ali estive pela primeira vez, provavelmente algures no início dos anos 70, quando o meu pai comprou o tal "Toyota Corolla" que viera para ficar nos tempos do Marcelo Caetano e começámos a fazer algumas incursões turístico-culturais familiares... (a ida ao "borrego a Monsaraz", seria mais tarde uma daquelas tradições obrigatórias a quando das estadias dos meus pais em Évora). De facto, quando nas férias da Páscoa de 1975, andei por estas paragens integrando uma equipa de estudantes do velho GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português), já em prospecções pré-Alqueva (sugeridas pelo então nosso Professor de Práticas e Materiais Arqueológicos (?) José Morais Arnaud), a região já não me era completamente desconhecida e Monsaraz, pela sua localização estratégica serviu de apoio às pesquisas que então fizémos nos terraços fluviais do Xerez (ou Xarez) que se desenvolvem nas planícies que acompanham o Guadiana nesta zona. Recordo até a visita que fizémos nessa "expedição" ao médico Dr. Pires Gonçalves (o grande estudioso do megalitismo da região e defensor de Monsaraz) que nos recebeu, algo desconfiado, no seu consultório de Reguengos. O nosso aspecto não deveria ser muito recomendável e o velho médico só baixou a guarda quando percebeu que éramos estudantes de arqueologia, alguns já então ligados à Associação de Arqueólogos Portugueses, de que Pires Gonçalves, dadas as suas ligações a Afonso do Paço, era sócio proeminente. Deve também datar dessa viagem a primeiríssima incursão gastronómica ao Restaurante Lumumba que abriu as portas nesse mesmo ano de 1975. De entre os locais com interesse arqueológico que então identificámos na região, destacava-se uma plataforma que apresentava muitos materiais líticos pré-históricos em superfície, atravessada pela velha estrada que ligava a colina de Monsaraz à Ponte metálica de Mourão e que cruzava toda a baixa do Xerez, passando junto à Anta e ao Cromeleque do Xerez, este identificado e restaurado pelo referido médico Pires Gonçalves (ver aqui a curiosa história da sua identificação ) alguns anos antes. Denominámos o sítio como "Xerez de Baixo" e atribuímos os achados líticos ao Paleolítico Médio, tendo decidido que oportunamente ali realizaríamos algumas sondagens para verificar se existia ainda um contexto estratigráfico preservado que nos permitisse enquadrar os abundantes materiais de superfície. Recorde-se que por esta época, o GEPP, concluído o "salvamento da Arte Rupestre do Tejo", iniciava trabalhos deste tipo nos terraços do Tejo em Vilas Ruivas (Ródão), com resultados muito interessantes, descobrindo-se então as mais antigas "estruturas de habitat" (Paleolítico Médio) jamais identificadas em Portugal.
Aspecto dos trabalhos arqueológicos no Xerez de Baixo em 1979. A segurar na mira no corte da estrada, o Francisco Serpa enquanto a Ana Raposo lê as cotas. O vestuário é de Inverno, pois julgo que a campanha terá sido realizada por altura do Carnaval.


Entusiasmado com os resultados de Vilas Ruivas, o Luis Raposo viria a sugerir-me a realização de trabalhos no Xerez, tendo-se proporcionado a ocasião no Carnaval ou Páscoa de 1979, após termos conseguido o apoio logístico da Câmara Municipal de Reguengos. A pequena equipa lisboeta pernoitaria numa sala da Junta de Freguesia (por cima da célebre pintura a fresco do "Bom e do Mau Juiz", hoje Museu do Fresco) e jantávamos (de que maneira, após um almoço de sandes...) no Restaurante Lumumba. Localmente tínhamos o apoio do reguenguense Rafael Alfenim (então ainda estudante de Arqueologia em Coimbra, e meu colega de trabalho há muitos anos) e de Francisco Serpa, funcionário da Câmara Municipal, o qual apesar de há muitos anos emigrado no Algarve (onde foi "guardião" da lindíssima Igreja de Nª Sª de Guadalupe, na Raposeira, até se aposentar), ainda hoje é uma "lenda viva" da arqueologia e etnografia da sua Reguengos natal. Desta campanha de trabalhos, cujos inesperados e problemáticos resultados apresentámos no ano seguinte no IV Congresso Nacional de Arqueologia (Faro,1980- ver aqui) e que só por si mereceriam uma entrada especial neste blog (fica para outra oportunidade) restam algumas referências muito específicas, que então não valorizei, mas que viriam a ganhar especial significado à medida que a minha carreira posterior e até a minha vida pessoal e familiar se orientava para o Alentejo.

As escadas de acesso às instalações que a Junta de Freguesia nos cedeu para pernoita e trabalho, hoje Museu do Fresco
Hoje, até porque lá passei muito recentemente, interessava-me destacar o Restaurante Lumumba. Há actualmente outros restaurantes em Monsaraz, vila que naturalmente, apesar de manter a sua estrutura arquitectónica, já pouco tem que ver com a Monsaraz dos anos 70 e muito menos com a "Vila Velha" de José Cutileiro. É a vida, como dizia o outro... Mas para mim, com poucas excepções, ao longo destes últimos 42 anos, o Lumumba é o "Restaurante de Monsaraz" que apesar da ASAE, consegue manter muitas das características que sempre lhe reconheci. E espanto dos espantos, mantem-se na posse do seu proprietário de sempre, o mesmo que já nos aturou nas escavações do Xerez de Baixo (o sr.José Lumumba). Em evidente contraste, esta feliz e rara circunstância, trás-me à memória um outro restaurante a que me ligam também especiais recordações arqueológicas e cuja situação (abandonado e em ruínas) o meu velho amigo beirão Joaquim Baptista, recentemente lamentou. Refiro-me ao Restaurante do Rei Wamba, junto à Ponte de Vila Velha de Ródão, que não sobreviveu à doença e à morte prematura do seu proprietário, o sr. Ramalhete.

O Restaurante Lumumba, na Rua Direita
A entrada do Restaurante...a sensação de regresso ao passado!

Uma nota final. Procurei junto do Sr. José Lumumba saber de uma figura amiga que ao longo dos anos, sempre me habituara a ver em Monsaraz mas de quem não tinha notícias há muitos anos (até porque deixei de ser assíduo por estas paragens desde que, coincidindo com o início da grande "revolução paisagística" aqui verificada, deixei as minhas funções na EDIA/Alqueva). Refiro-me a José Ferro, funcionário da Junta de Freguesia, que sempre conheci como responsável pelo Posto de Turismo local e que soube agora ter falecido há já alguns anos. Afinal a "Vila Velha", apesar dos "liftings" e mesmo com o Lumumba a resistir, já não é a mesma.


Afinal, a "grande revolução" de Monsaraz. O sítio do Xerez de Baixo (hoje submerso) situava-se umas centenas de metros para lá da actual ponte de Mourão, ao centro da foto.








quinta-feira, 13 de julho de 2017

20 anos de turismo de natureza no Alentejo


Em Março passado tive oportunidade de apresentar no Alandroal uma comunicação sobre o turismo da natureza na envolvente de Évora, a partir do acompanhamento que tenho feito à situação do Cromeleque dos Almendres e outro património cultural existente no território de Valverde e Guadalupe. Embora amputado do texto (que improvisei na altura) talvez tenha algum interesse aqui registar o conjunto de "slides" com que ilustrei a minha comunicação. Algumas semanas depois daquele evento, tivémos oportunidade de ensaiar um percurso de natureza na nossa união de freguesias (Valverde e Guadalupe), com a colaboração do José Pedro Calheiros (SAL) um dos participantes neste encontro, especialista em promoção e animação turística relacionada com o pedestrianismo. (ver aqui: http://pedrastalhas.blogspot.pt/2017/05/caminhando-em-terras-de-menires-e-antas.html). No próximo Outono (já que o Verão não aconselha tais devaneios por estas bandas) contamos repetir a iniciativa. São 20 quilómetros entre sobreiros e azinheiras, antas e menires, mas também vestígios de actividades económicas hoje extintas (como as azenhas e moinhos de vento) e com subida ao Castelo do Giraldo...

























sexta-feira, 7 de julho de 2017

PATRIMÓNIO CULTURAL_ POLÍTICAS PÚBLICAS

A convite do Bloco de Esquerda, tive hoje (7 de Julho de 2017) oportunidade de intervir num colóquio-debate na Assembleia da República, sobre a actual situação da (desastrosa) gestão política do Património Cultural em Portugal. Por muito que nos custe, face aos progressos verificados noutras áreas da governação, a situação da Cultura em geral e, especificamente da salvaguarda do património cultural, não conheceu qualquer alteração significativa nos últimos tempos. Bem pelo contrário... Em jeito de balanço, aqui fica o meu contributo de hoje para o debate, tendo como pano de fundo uma fotografia da Anta Grande do Zambujeiro, obtida esta semana e que na sua situação de pré-colapso, ilustra simbolicamente a situação das políticas culturais em curso...

Luis Raposo, o deputado Jorge Campos (BE) e António Carlos Silva

"Pedem-me uma breve retrospectiva sobre políticas patrimoniais, especialmente focada no âmbito da salvaguarda do património arqueológico. De facto quando se atinge uma certa idade e se está à beira da aposentação, é inevitável que nos peçam “balanços” e se a nossa carreira profissional coincidiu (felizmente, como foi o meu caso) com o tempo da democracia, esse balanço pode e deve assumir a forma de uma análise crítica à nossa própria actuação, enquanto membros de uma sociedade que em última análise foi responsável, através do voto democrático, pela escolha das políticas que em cada momento enquadraram a intervenção do Estado em matéria de salvaguarda e valorização dos bens culturais que nos distinguem e que nos caracterizam enquanto povo.

 Obviamente nos anos 70 não partíamos do ZERO em matéria de património cultural, ainda que até ao 25 de Abril, no que se refere a estruturas com capacidade operacional, estas se resumissem à velha Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, enquadrada no poderoso Ministério das Obras Públicas. (Como exemplo do que se progrediu desde então, basta lembrar que os Palácios, Castelos ou Conventos então abertos ao público, dependiam dos directores das repartições de finanças mais próximas…)

Mas antes mesmo do Estado criar o primeiro organismo público para a salvaguarda do património cultural, (o que acontece apenas em 1980 com o IPPC) já um vasto movimento de associações de defesa do património cultural se pusera em marcha de Norte a Sul do país, (antecipando-se mesmo ao posterior movimento ecologista). A defesa do património histórico de cariz local ou regional, ganha contornos de afirmação identitária das comunidades, entrando por essa via na ordem das prioridades da política cultural, quer das autarquias locais quer do próprio Estado.

A arqueologia, claramente uma parente pobre no contexto da política patrimonial/nacionalista do Estado Novo, acabaria por ter nesse movimento muito focado nos valores locais, pouco valorizados até então, um papel destacado. A nível local, a defesa de qualquer ruína, podia assumir rapidamente um cariz de “defesa da honra da terra” em face do tradicional centralismo Estatal. Não admira pois que, ao criar-se o IPPC, a área da Arqueologia tenha sido a única que mereceu desde logo o reconhecimento político da necessidade de estruturas técnicas regionais. Seria aliás a partir de uma experiência local, o Campo Arqueológico de Braga, estrutura em parte dinamizada por uma Associação de defesa do património- a ASPA, das poucas que ainda se mantém activa- que se viria a institucionalizar o primeiro dos três Serviços Regionais de Arqueologia, entretanto instalados também em Coimbra e em Évora.

Assim, muito antes do IPPC se regionalizar no início dos anos 90 (quando se transforma em IPPAR), já a Arqueologia acumulara uma década de experiência de trabalho regional, enquadrando e apoiando financeiramente dezenas de pequenos e médios projectos de arqueologia, quer no âmbito da investigação (através dos Planos Nacionais de Trabalhos Arqueológicos) quer da conservação e valorização, quase sempre em colaboração com as autarquias. Paralelamente ia-se estruturando a rede de sítios e monumentos arqueológicos adquiridos pelo Estado desde os tempos do Fascismo mas que, pela sua localização e natureza haviam ficado fora de qualquer circuito de fruição pública (com uma única excepção no caso de Conimbriga).

Coube ao IPPAR herdar essa dinâmica, integrando os Serviços Regionais de Arqueologia nas novas estruturas regionais então criadas (Direcções Regionais do IPPAR). Mesmo perdendo autonomia de gestão, a Arqueologia viria a beneficiar da nova dinâmica introduzida pelo IPPAR, em particular na criação de com apoios do Fundo de Turismo, de estruturas de “acolhimento e interpretação” na rede de sítios e monumentos arqueológicos afectos ao Estado. Esta política viria a ter o seu apogeu, pelo menos no Sul do país, na concretização do programa dos “Itinerários arqueológicos do Alentejo e Algarve”, programa há muito descontinuado, por absoluta falta de meios humanos e pela ausência de qualquer estratégia de manutenção e conservação, quer das novas estruturas de interpretação instaladas, quer até, o que é particularmente grave, das estruturas arqueológicas que se pretendia valorizar turisticamente. (Como aparte refira-se que há sítios de primeira grandeza daquela antiga rede, como por exemplo as ruínas romanas de Miróbriga, Torre de Palma ou dos Pisões que não são objecto de qualquer intervenção significativa de conservação há quase duas décadas…) Vale nalguns casos, para que pelo menos se mantenham abertos ao público, a boa vontade das autarquias que vão suprindo informalmente as omissões da Administração Central (como são os casos das Ruínas de São Cucufate, do Castro da Cola ou da Cripta Arqueológica de Alcácer do Sal). Outros ainda, como sejam os povoados calcolíticos de Santa Vitória ou do Monte da Tumba ou a vila romana do Ameixial, estão praticamente ao abandono…

Graves erros na condução do processo de acompanhamento arqueológico das obras da Barragem do Côa, verificados em meados dos anos 90, vieram demonstrar a especificidade da problemática da salvaguarda do património arqueológico, um recurso cultural muito fragmentado e disseminado por todo o território, a exigir abordagens próprias. Tirando partido mais uma vez da dinâmica social (neste caso em torno do movimento de defesa das Gravuras do Côa), os arqueólogos (na sequência de outros processos de autonomização entretanto concretizados (Arquivos, Museus, Restauro etc..) conseguiriam em 1996 do Governo Guterres, a promessa de criação de um instituto próprio (o IPA) no âmbito do Ministério da Cultura. Apesar das normais dificuldades de arranque e das hesitações quanto ao modelo a seguir (ficaram fora do IPA áreas relevantes do Património Arqueológico, nomeadamente no campo da gestão e conservação dos sítios do Estado, que se mantiveram no IPPAR), o IPA iniciaria funções em 1997. No entanto duraria apenas uma década, pois seria uma das primeiras vítimas do tristemente célebre PRACE de 2007.  
Jorge Campos e Hélder Ferreira
Para além da integração de dezena e meia de então jovens arqueólogos nos quadros da Administração Pública- o que pelo menos evita que, face à próxima saída de cena da minha geração- não se regresse à penúria de arqueólogos anterior ao 25 de Abril, o que resta hoje da herança do IPA?

1. Antes de mais, um modelo de “arqueologia preventiva” relativamente eficaz e já interiorizado pelo mercado da construção civil e obras públicas, baseado no princípio do “poluidor/pagador”.  Apesar de inegáveis aspectos positivos (uma vez que tem proporcionado importantes descobertas sobretudo a nível das cidades históricas ou das grandes obras públicas) este modelo tem também consequências perversas, que não podem ser ignoradas:

a)      Legitima a total desresponsabilização do Estado (Ministério da Cultura) no financiamento da tradicional Arqueologia de campo de cariz não empresarial;

b)      Sobrevaloriza a Arqueologia Empresarial ou comercial sem a correspondente capacidade para a sua regulação e fiscalização, com consequências óbvias no que respeita à sua qualidade técnico- científica;

c)      Falha nas respostas aos problemas decorrentes da ausência de divulgação científica dos resultados da arqueologia preventiva, da acumulação ou dispersão de espólios não tratados ou ainda da salvaguarda de importantes estruturas arqueológicas não abrangidas por processos de Avaliação de Impactes… (caso das transformações agrícolas no Alentejo ou das processos de florestação intensiva…).

Aliás, a falta de soluções para estas e outras questões, tem levantado reservas compreensíveis sobre a real utilidade social desta  tão intensa como desregulada Arqueologia feita “a metro”… numa lógica exclusiva de “mercado”

              2. Outra herança positiva do IPA, é naturalmente, a criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa (posteriormente enriquecido com o respectivo Museu), pesem embora as indefinições e dificuldades presentes de gestão e salvaguarda deste património classificado pela UNESCO, dificuldades recentemente muito mediatizadas face aos inqualificáveis actos de vandalismo ali verificados.

            3. A criação de estruturas operacionais de Arqueologia Subaquática  é a terceira herança do IPA que aqui gostaria de destacar, até pela eminência do seu desbarato. Esta área tão específica quanto relevante no quadro da tradição marítima portuguesa, é uma conquista absoluta do pós 25 de Abril, que devemos à visão e à dinâmica do arqueólogo Francisco Alves, uma figura chave da arqueologia portuguesa no último quartel do Século XX. Infelizmente, como é sabido, a continuidade desta estrutura não foi minimamente assegurada no processo de extinção do IPA. Se a desmaterialização daquele instituto, através da sua integração no IGESPAR se pode em última análise aceitar no quadro das reestruturações impostas pela crise financeira, já o processo de desmantelamento das estruturas da Arqueologia Subaquática, sem alternativa sustentável, pode ser considerada verdadeira gestão danosa, como finalmente se comprova face à verba astronómica gasta pelo aluguer de espaços no MARLE, verba que cobriria certamente muitas das necessidades de gestão corrente do património arqueológico nacional. Ainda por cima, todo o processo ganha contornos algo absurdos quando se acaba por reconhecer que o mesmo foi condicionado por políticas consideradas estranhas aos interesses do próprio Ministério da Cultura e que culminaram na criação de mais um elefante branco centralista (novo Museu dos Coches) consumindo meios de funcionamento que seria necessário redistribuir de forma mais equitativa pelo país…

            Neste contexto, podemos afirmar que, em face da relativa juventude e consequente debilidade das suas estruturas, a componente arqueológica da área do património cultural, viria a ser uma das mais afectadas pela reestruturação do Estado iniciada com o processo do PRACE em 2007, quando o IPA, tal como o que restava da DGEMN (um serviço que vinha já sendo esvaziado das suas competências técnicas) foram integrados no IGESPAR, o organismo sucedâneo do IPPAR.
Agravando a situação, o novo IGESPAR seria amputado das antigas Direcções Regionais do IPPAR, estruturas que asseguravam um algum equilíbrio distributivo de recursos e uma certa unidade estratégica à política patrimonial. Aqueles estruturas que atravessavam também já crescentes carências técnicas, são por sua vez integradas em novas Direcções Regionais da Cultura. Passam a partilhar e articular competências e atribuições patrimoniais com o IGESPAR lisboeta, mas não estão integradas hierarquicamente com aquele, o que gera resultados desastrosos: circuitos burocrático-administrativos tão despropositados como inúteis; políticas, estratégias e meios de intervenção desarticulados e cada vez mais desequilibrados.

       Infelizmente, a nova reestruturação entretanto verificada em 2012 (na qual se consumou a funesta extinção do Instituto dos Museus e da Conservação) serviria apenas para confirmar e aprofundar a divisão patrimonial do país, institucionalizando duas “categorias”: uma centralizada, que até recupera a designação pré-IPPC (Direcção Geral do Património Cultural) e que assume a gestão do património de “primeira categoria” (os Museus Nacionais, os grandes Palácios ainda não privatizados, os principais monumentos, nomeadamente os considerados Património da Humanidade) e uma outra “categoria”, certamente de “segunda”, que deixa para as Direções Regionais de Cultura o património restante. (a simples análise das receitas anuais gerada pelos diversos monumentos poderá dar uma ideia aproximada do que estamos a falar…)

        Desgraçadamente e quanto a reformas, parece que ainda não ficamos por aqui, já que culminando um dos mais negros períodos de desinvestimento da história patrimonial das últimas décadas, se anunciam já novas mudanças, e aparentemente sempre na mesma lógica de “fuga para a frente.”
 Fala-se agora em dois objectivos:

- retirar da alçada da Cultura as competências e atribuições técnico-administrativas no âmbito da salvaguarda do património cultural (ou seja a competência para avaliar o impacto patrimonial de projectos e obras sobre o património classificado e o património arqueológico) passando-as para uma repartição “cultural” das CCDR (não diria que é colocar a raposa no galinheiro…é mais mudar as galinhas para o covil…)

- transferir para as autarquias a responsabilidade da conservação e gestão dos imóveis culturais do Estado menos “interessantes” (castelos, muralhas, sítios arqueológicos, etc..), o que, se em muitos casos será apenas a formalização de uma situação de facto, noutros poderá representar um presente envenenado. Basta recordar que a generalidade deste património não vê um cêntimo de investimento na sua manutenção há mais de uma década (falo sobretudo pelo Alentejo); e não estão apenas em causa necessidades prementes de conservação ou de restauro dos bens culturais; poderá nalgumas situações estar em causa a própria segurança das pessoas que vivem ou circulam na proximidade destes monumentos. (Poderia aqui referir alguns exemplos mas não quero ser acusado de alarmismo).

Pese embora a magnitude da problemática actual da gestão do património cultural afecto ao Estado (tanto o de primeira como o de segunda categoria), não gostaria de terminar esta minha intervenção sem aqui lembrar que, apesar do abandono e despovoamento de um interior agonizante, subsistem ainda por todo o território português elementos patrimoniais que são parte integrante da matriz básica das nossas paisagens culturais. A salvaguarda ou valorização destes bens patrimoniais (mesmo se classificados) está hoje fora do alcance da perniciosa lógica administrativa e financeira que nos foi imposta do exterior e que canaliza para os chamados grandes projectos, todos os recursos disponíveis (quer os do Estado quer os das próprias autarquias), num círculo vicioso que exclui sempre os mais débeis da mesa do orçamento.

Falo com experiência própria pois resido há muitos anos numa zona rural e procuro participar na sua vida cívica. Por coincidência, a zona em causa, um vasto território entre Évora e Montemor mas com poucas centenas de habitantes, apresenta uma riqueza patrimonial invulgar (entre ela 5 monumentos nacionais e 8 imóveis de interesse público). E não se trata apenas da proverbial riqueza megalítica da região. De facto, este território, abarcando a União de Freguesias de Valverde e Guadalupe, apresenta também ruínas romanas, capelas rurais renascentistas, pontes históricas, moinhos e azenhas e até um Convento e parte de um Paço Real.

No seu conjunto, o historial recente e a situação concreta deste património, acaba por ser um reflexo paradigmático, da evolução das políticas patrimoniais das últimas décadas. A investigação arqueológica realizada nos Cromeleques dos Almendres, Portela de Mogos e Vale Maria do Meio, aconteceu no contexto da dinâmica criada pelo Serviço Regional de Arqueologia do Sul e posteriormente continuada pelo IPPAR em colaboração com a autarquia. Mas há mais de uma década que estes monumentos, apesar de muito visitados e usados como marca “turística”, não são objecto de qualquer intervenção significativa, estando praticamente entregues à sua sorte, (facto recentemente denunciado pela Assembleia de Freguesia junto de todos os grupos parlamentares desta casa e que, faça-se justiça, só obteve eco junto do Bloco de Esquerda). Foi naquele mesmo ambiente das décadas de 80 e 90 que se desenvolveram também as importantes escavações das Ruínas Romanas da Tourega ou das Antas do Vale Rodrigo, cuja presente situação é idêntica à dos Cromeleques. Infelizmente, os gravíssimos problemas de conservação da Anta Grande do Zambujeiro, apesar de abordados ainda no tempo do Serviço Regional de Arqueologia, não tiveram ainda qualquer solução. Este Monumento Nacional, fantástico testemunho da mais antiga arquitectura europeia, está hoje praticamente à beira do colapso total, declarando-se o Estado incompetente para o impedir. Pelo menos é o que se consegue depreender da resposta “redonda” recentemente dada pelo Ministro da Cultura, a uma pergunta nesse sentido, feita pelo Deputado Jorge Campos. O argumento é que a Administração nada pode fazer porque estamos perante monumentos localizados em “propriedade privada”… E de facto, é verdade, todo este vasto património de Guadalupe e Valverde é nacional mas está em terrenos privados… Uma contradição hoje assumida por quem de direito como insanável mas que no passado, com outras políticas, não terá impedido a sua investigação e até, nalguns casos a sua valorização…

 Há, no entanto, uma excepção, a chamada Quinta do Paço e respectiva Tapada, incluindo o Conventinho do Bom Jesus de Valverde. O conjunto conhecido como Mitra, está classificado, pertence ao Estado e é gerido pela Universidade de Évora que o herdou da Antiga Escola Agrícola, instituição muito ligada à povoação de Valverde. Dir-se-ia que estamos perante a excepção que permitiria à administração pública redimir-se da sua demissão face à salvaguarda e gestão dos restantes recursos histórico-arqueológicos deste território. Mas é puro engano…

Com a conivência (ou impotência) da Universidade e o lavar de mãos da Cultura, o Ministério das Finanças e a Secretaria de Estado Turismo, preparam-se para (através do Programa REVIVE), sem sequer ouvir ou consultar as populações locais sobre um assunto que lhes é particularmente caro, entregar o monumento à gestão privada para instalação de mais um “hotel de charme”.

Para terminar, puxando de novo a temática do património para a preocupante situação do território e das paisagens rurais, gostaria de aqui enunciar um conjunto de premissas que, parecendo óbvias, são muitas vezes esquecidas:
-  não há qualquer hipótese de conservação das nossas paisagens culturais (por mais interessantes e valiosos que sejam os recursos em causa) sem pessoas;
- não haverá qualquer hipótese de sucesso de projectos de valorização patrimonial local, se estes não estiverem apoiados num mínimo de dinâmica social;
- não haverá dinâmica social que resista à falta de adequado enquadramento técnico ou a um mínimo de apoio financeiro…


Obviamente, a resposta a estas e a muitas outras questões que aqui levantei, apenas será possível com políticas culturais e patrimoniais muito diversas das que, infelizmente, se anunciam."

Assembleia da República, Auditório António Almeida Santos, 7 de Julho de 2017

sexta-feira, 23 de junho de 2017


António Cavaleiro Paixão

Recordando um amigo e um colega



Está finalmente editado e pronto a ser apresentado mais um volume da já centenária revista "O Arqueólogo Português", fundada por Leite de Vasconcelos no início do século passado. Como habitualmente, sem que grande mal venha daí ao mundo, o número em causa surge com um atraso significativo, já que respeita aos anos de 2014-2015. Tal circunstancia explica que também apenas agora se cumpra uma tradição da mais importante revista arqueológica nacional, assinalando-se na presente edição, o desaparecimento de um arqueólogo com especial ligação ao Museu Nacional de Arqueologia, a entidade desde sempre responsável pela edição. Refiro-me ao arqueólogo António Cavaleiro Paixão, falecido em 2014, e cuja memória é assinalada nesta edição, através da publicação de um texto que, por convite do actual Director, António Carvalho, tive a honra de preparar. A leitura do mesmo, que aqui reproduzo, enriquecido por algumas fotos pouco conhecidas, permitirá compreender porque é que aceitei, de alma e coração, a tarefa que me foi proposta.





“IN MEMORIAM”
António Cavaleiro Paixão 
(23 de Abril de 1939-29 de Maio de 2014)

António Manuel Cavaleiro Paixão, arqueólogo falecido em Maio de 2014 após prolongada doença, foi uma figura determinante no contexto do desenvolvimento da arqueologia pública em Portugal no último quartel do Século XX. Com efeito quando em 1980, após a criação do Instituto Português do Património Cultural (IPPC), foi finalmente possível começar a erguer estruturas técnico-administrativas capazes de responderem aos desafios da salvaguarda e valorização do património arqueológico no território português, a geração que se abalançou nessa tarefa - e da qual me orgulho de fazer parte- não partia do zero. Já então no seio da Administração Pública, quer em gabinete quer no terreno, um par de arqueólogos ainda que enfrentando imensas dificuldades, procurava há algum tempo fazer a ponte entre o passado anquilosado e inoperante das estruturas consultivas da extinta Junta Nacional da Educação e as crescentes ameaças que a urgência da recuperação de meio século de subdesenvolvimento colocava à defesa dos vestígios arqueológicos. Entre eles destacava-se já o António Cavaleiro Paixão. Pertencia a uma geração etária um pouco mais velha, mas foi contemporâneo na Faculdade de alguns dos arqueólogos que então se destacaram no processo de transformação da Arqueologia portuguesa e que, como ele, tinham encontrado acolhimento e apoio no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia ao tempo do Director Fernando de Almeida. Esta circunstância, associada a uma actualizada formação e a um invulgar currículo de campo, habilitaram-no no momento certo, a ser um precioso interlocutor entre a Administração e as novas gerações de arqueólogos. Para tal contribuíram as suas reconhecidas qualidades humanas de afabilidade, modéstia e bom humor que faziam de si, pese embora a diferença de idade ou de estatuto profissional, um colega sempre pronto a partilhar experiências ou a responder a novos desafios, sem suspeições estéreis ou segundas intenções. Reforçavam aquelas características um elevado sentido de serviço público, que se traduziriam ao longo da sua carreira quer na actividade como docente de Arqueologia quer nas funções que assumiu nas organizações científicas a que pertenceu, com destaque para a Associação de Arqueólogos Portugueses, de que foi vice-presidente entre 1979 e 1987 ou para a Sociedade de Geografia de Lisboa, onde dirigiu até 1990 a respectiva secção de Arqueologia. Tive o prazer de ser seu colega no IPPC durante quase uma década e a honra de ter sido seu superior hierárquico durante algum tempo, enquanto director do Departamento de Arqueologia, pelo que foi com sentido de dever e quase como obrigação moral, que aceitei o convite do Director do MNA para redigir este mais que justificado “in memoriam” esperando que o mesmo contribua para consolidar a ligação do seu nome a esta prestigiada revista e ao Museu onde, como colaborador, iniciou há meio século a sua carreira de arqueólogo.

António Cavaleiro Paixão, à esquerda, divertindo-se num intervalo das escavações da Lorga de Dine (Vinhais) em 1964. A foto, provavelmente da autoria do próprio Carl Harpsöe, chegou-me através do malogrado arqueólogo Rui Boaventura

António Cavaleiro Paixão nasceu em Lisboa em 23 de Abril de 1939, filho de um funcionário público oriundo de Torres Novas, Manuel Alexandre Paixão e de mãe lisboeta, Dália da Luz Cavaleiro. O seu interesse pela arqueologia, conforme o próprio refere em nota curricular constante do seu processo de funcionário público, remonta a 1959 altura a partir da qual participa com regularidade nas actividades do departamento de paleoetnologia da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), dirigido por Carl Harpsöe. Sob a direcção deste arqueólogo e espeleólogo amador, de origem dinamarquesa mas há muito radicado em Portugal, António Cavaleiro Paixão irá ter as primeiras experiências práticas de escavação, nomeadamente na Lorga de Dine (Vinhais, Bragança) em 1964 e na Gruta de Ibn-Ammar (Mexilhoeira, Lagoa) em 1965. Como colaborador da SPE participou também nos trabalhos de reconhecimento subsequentes à descoberta da Gruta do Escoural (1963), nos quais Carl Harpsöe teve um papel importante no apoio logístico e técnico a Farinha dos Santos na sua deslocação ao Escoural em nome do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia e a pedido do Prof. Manuel Heleno. Para além de ter participado no primeiro levantamento topográfico da gruta, realizado em 1964, Cavaleiro Paixão teve oportunidade de em Janeiro de 1965, colaborar nos trabalhos de levantamento da arte rupestre realizados no Escoural pelo conhecido arqueólogo francês André Glory, aquando da sua visita a Portugal no contexto da controvérsia sobre a cronologia dos vestígios rupestres entretanto ali identificados por Farinha dos Santos. Pessoalmente, estou em crer que a oportunidade de colaborar directamente com um especialista de renome internacional como Glory, então a estudar a famosa Gruta de Lascaux, poderá ter sido determinante na vocação arqueológica de António Cavaleiro Paixão.

António Cavaleiro Paixão, com André Glory, durante o reconhecimento efectuado pelo conhecido arqueólogo francês na Gruta do Escoural, em Janeiro de 1965

De facto, após uma curta passagem pela vizinha Faculdade de Direito, António Cavaleiro Paixão inscrevera-se em 1963 na Licenciatura em História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na época e ainda por muitos anos, a única via possível de se obter em Portugal uma formação superior abrangendo disciplinas arqueológicas. Dadas as naturais limitações teóricas e práticas do curso, face à sua amplitude temática, Paixão procurava no trabalho voluntário de campo, o indispensável complemento formativo. Assim, em 1966, talvez pela mão de Fernando de Almeida que patrocinava o projecto na Junta Nacional de Educação, teve oportunidade de integrar o grupo de estudantes portugueses que participou nas grandes escavações do Castro do Zambujal (Torres Vedras) promovidas pela delegação madrilena do Instituto Arqueológico Alemão, sob a direção científica de Hermanfrid Schubart e Edward Sangmeister, da Universidade de Friburgo. Quer pelo elevado nível metodológico da escola alemã, quer pelo número e interesse dos participantes, a escavação do Castro do Zambujal ficou conhecida como a escola prática da moderna arqueologia pré-histórica portuguesa. Ainda na sequência desta experiência e a convite dos arqueólogos alemães, Cavaleiro Paixão teve também oportunidade, de estagiar algum tempo nas escavações da necrópole fenícia de Toscanos (Málaga), o que lhe permitiu um primeiro contacto com uma realidade arqueológica a que pouco tempo depois, por sugestão do próprio Fernando de Almeida, se dedicaria a fundo em Alcácer do Sal. Com efeito, o interesse, gosto e disponibilidade da parte do aluno Cavaleiro Paixão por esta disciplina, então profissionalmente muito pouco atrativa, terá chamado a atenção daquele professor que acabara de substituir Manuel Heleno na Cátedra de Letras e na direção do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (1966). De personalidade bem distinta do antecessor, o novo diretor irá ver nos mais jovens, nomeadamente nos seus alunos, a possibilidade de romper com a imagem de imobilismo e secretismo que o Museu de Belém granjeara com as célebres “reservas”, inacessíveis durante décadas. É esta nova atitude de abertura e confiança da parte do mestre, conjugada com as qualidades e a experiência efectiva de campo já demonstradas pelo aluno, que explicam a extraordinária proposta de tema de dissertação sugerida a Cavaleiro Paixão: o estudo arqueológico da Necrópole Proto-histórica do Senhor dos Mártires em Alcácer, escavada meio século antes por Virgílio Correia por conta do Museu, mas cujos materiais apesar da sua enorme importância científica, se mantinham inéditos. Para qualquer pessoa minimamente informada sobre a realidade arqueológica portuguesa da época, aquela proposta só pode ser entendida como demonstração de uma grande confiança neste aluno e nas suas potencialidades, e como aviso público de que, daí em diante e sob a sua orientação, não haveria temas ou materiais tabus no Museu.

Respondendo corajosamente ao repto do Professor e garantido o seu indispensável apoio na Junta Nacional de Educação, Cavaleiro Paixão não apenas retoma o estudo dos materiais de Virgílio Correia, como entre 1967 e 1968, procede a novas escavações em Alcácer do Sal próximo do Santuário do Senhor dos Mártires, as primeiras que dirigirá durante a sua longa carreira. Face à ausência de dados concretos das escavações de Virgílio Correia (1925-27), nomeadamente de dados topográficos e estratigráficos, o plano que pôs em prática visava antes de mais a relocalização da necrópole e a descoberta de novas sepulturas em contexto estratigráfico. Numa primeira sequência de sondagens os seus esforços foram infrutíferos, mas posteriormente, conjugando dados de observação do terreno com informação oral recolhida localmente, viria a descobrir e escavar oito sepulturas de incineração que lhe proporcionaram dados essenciais para a sua dissertação. Com efeito, as sepulturas escavadas apresentavam um significativo conjunto de materiais da II Idade do Ferro, na sua maioria metálicos, incluindo ainda três pequenos escaravelhos de tradição egípcia, o que não sendo uma novidade no caso de Alcácer do Sal, vinha confirmar a importância do seu porto nas ligações com o mundo mediterrânico, ao longo do último Milénio antes de Cristo.

Significativamente, ainda no contexto destes trabalhos de campo em Alcácer do Sal, Cavaleiro Paixão, seria pela primeira vez confrontado com a necessidade de dar resposta a uma “emergência arqueológica”, uma situação com que viria a deparar-se amiúde ao longo da sua futura carreira profissional. De facto, no âmbito de obras municipais de alargamento da Azinhaga do Senhor dos Mártires, viu-se compelido a escavar diversas sepulturas da vizinha necrópole romana, descoberta no decurso da obra. Anos mais tarde, durante as décadas de setenta e oitenta, perante os avanços das novas urbanizações associadas a esta azinhaga, Cavaleiro Paixão viria ciclicamente a intervir neste local de antiga tradição funerária, já como arqueólogo ao serviço da Administração Pública. Foi também nesta intensa fase de trabalho de campo, coincidindo com o período final da frequência do curso de História e a preparação da sua dissertação, que Cavaleiro Paixão tomou pela primeira vez contacto com as ruínas romanas de Tróia. Com efeito, em 1968 coadjuvou Fernando de Almeida na escavação de diversas sepulturas paleocristãs desta importante estação arqueológica do estuário do Sado, iniciando um ciclo de investigação que acompanharia praticamente toda a sua carreira. Naturalmente, em 1969 e 1970 concentra-se nos preparativos da dissertação. Analisa e descreve os materiais depositados no Museu Nacional, no Instituto de Arqueologia de Coimbra e no Museu Municipal de Alcácer do Sal, bem como o das suas próprias escavações, em especial o importante conjunto metálico, que incluía cubos e arreios de carros, armas, jóias e objetos de adorno, promovendo a sua análise metalográfica e usando os dados obtidos nas suas conclusões. Por fim, tirando partido dos contactos estabelecidos no Zambujal e em Toscanos com a delegação madrilena do Instituto Arqueológico Alemão, obtém do seu director Helmut Schlunk autorização para aí estagiar durante um mês, com livre acesso à valiosa biblioteca, cuja consulta se revela preciosa para o tema que investiga. Naturalmente, aproveita a proximidade do Museu Arqueológico de Madrid e a solicitude do seu Director Martin Almagro para usar também a respectiva biblioteca e aceder ao departamento de restauro para observação e estudo de espólios de Ávila e de Granada que lhe interessam.

Capa da tese de licenciatura de António Cavaleiro Paixão


Em 29 de Julho 1970, conclui a licenciatura em Ciências Históricas com a defesa da sua dissertação de licenciatura, dedicada “com muita consideração e estima”, ao Professor Fernando de Almeida, mas não esquecendo no prefácio outros professores que o terão marcado particularmente, como Virgínia Rau, Borges de Macedo e ainda Jorge de Alarcão, da Universidade de Coimbra, neste caso pelas facilidades de acesso aos materiais de Virgílio Correia, depositados no Instituto de Arqueologia. Tinha então 31 anos, revelando-se esse ano determinante para toda a sua futura vida pessoal e profissional. De facto, ainda em 1970 apresenta-se com duas comunicações sobre a necrópole de Alcácer do Sal, ao 2º Congresso Nacional de Arqueologia realizado em Coimbra, uma das quais em conjunto com Judite Cavaleiro Paixão, a colega de curso com quem casou também nesse ano, a mãe dos seus dois filhos, Gonçalo e Susana e companheira de toda a vida. Também nesse ano seria admitido como técnico estagiário, na Junta de Investigações do Ultramar, entidade que através do Centro de Estudos de Etnologia do Ultramar integrava algumas componentes de investigação antropológica e arqueológica ultramarina cuja tradição remontava a Mendes Correia que chegara a ser seu Presidente e que conhecera nos seus quadros nomes como o de José Camarate França ou Santos Júnior. A sua permanência na J.I.U. seria, no entanto, de curta duração, de Maio de 1970 a Dezembro de 1971, prelúdio para outros voos. No final de 1971, António Cavaleiro Paixão foi contratado como Assistente da recentemente criada Universidade de Lourenço Marques (Moçambique), para onde parte acompanhado pela esposa, no início de 1972. Aí permanecerá até Setembro de 1974, tendo lecionado durante 3 anos letivos, Pré-história, História da Antiguidade Oriental, História da Expansão Portuguesa e História do Brasil, cadeiras comuns aos curricula dos cursos de História da “metrópole”. Apesar da sua curta estadia em Moçambique, Cavaleiro Paixão não deixou de se interessar pela arqueologia local. Começa por se debruçar sobre uma série de concheiros dos arredores de Lourenço Marques referenciados por Santos Júnior no âmbito das missões antropológicas de Moçambique (1936-56). Posteriormente, chegou a propor um programa de pesquisas arqueológicas para a região de Massingir, no Rio dos Elefantes. Em Abril de 1974 participou num estágio sobre Pré-história Africana na Universidade de Witwatersrand (Joanesburgo) a convite do Prof. Revil Mason. Em Setembro de 1974, em pleno processo de descolonização de Moçambique, regressa definitivamente a Portugal, com cuja arqueologia não chegara a perder o contacto. Em Outubro de 1973 participara no XI Congresso Nacional de Arqueologia de Espanha, realizado em Huelva e em Dezembro de 1974, pouco depois do regresso de África, está já presente em Badajoz no Congresso de Estudos Estremenhos com uma comunicação sobre o mausoléu lusitano-romano de Tróia, retomando a colaboração com Fernando de Almeida, que entretanto se aposentara (1973). É certamente no âmbito deste reencontro com o antigo professor e numa fase de alguma indefinição profissional que se seguiu ao regresso de Moçambique, que é temporariamente contratado pela empresa Torralta (1975) para se ocupar da direção de trabalhos arqueológicos em Tróia. Mas a colaboração com o Professor era mais ampla, enquadrando outros estudos como o que, conjuntamente com a esposa Judite Paixão, produz nesse mesmo ano sobre os materiais visigóticos da Igreja de São João dos Azinhais ou Capela de Arranas, próximo do Torrão, mas apenas publicado em 1978 na “Setúbal Arqueológica”. Terá sido ainda nesse contexto de indefinição profissional que António Cavaleiro Paixão se viu compelido a uma curta incursão pelo ensino secundário, tendo estado colocado na Escola Preparatória Nuno Gonçalves no ano lectivo de 1975-76. Mas seria aí que o Dr. Nunes de Oliveira, alto quadro do Ministério da Educação e Cultura, o iria requisitar para reforçar os escassos meios humanos, na área da arqueologia, da Direcção Geral do Património Cultural, um organismo recente que viera substituir a velha Direcção Geral do Ensino Superior e Belas Artes, do Ministério da Educação Nacional que durante décadas superintendia, com o apoio das respectivas secções e subsecções consultivas da Junta da Educação Nacional, em tudo o que dizia respeito aos museus, arquivos e bibliotecas, monumentos e arqueologia.

António Cavaleiro Paixão, à direita, nas ruínas da Basílica de Tróia


A entrada de António Cavaleiro Paixão, em Julho de 1976, para a Direcção Geral do Património Cultural, bem como a da sua esposa Judite Cavaleiro Paixão, reforçando uma equipa que contava apenas com João Bairrão Oleiro, normalmente em cargos dirigentes e com Bandeira Ferreira, já então afastado dos trabalhos de campo, dá-se no contexto de um ambicioso projecto para a elaboração da Carta Arqueológica de Portugal. Embora nascido no seio da Direcção Geral, o projecto contava com o apoio financeiro da Gulbenkian, pela mão do Prof. Artur Nobre de Gusmão, director do Serviço de Belas Artes da Fundação. Ainda que se reconhecesse a necessidade da colaboração das Universidades, a viabilidade do projecto “Carta Arqueológica de Portugal” exigia um mínimo de enquadramento técnico da própria Direcção Geral, para o que seriam necessários arqueólogos experientes. Por proposta de Nunes de Oliveira, António e Judite Cavaleiro Paixão seriam finalmente requisitados expressamente para esse efeito. António coordenaria uma equipa de campo e Judite Cavaleiro Paixão, dada a sua formação específica em BAD, assumiria a componente documental e arquivística. O projecto, apesar do apoio da Gulbenkian, após a realização de um curso de prospeções em 1977 para colaboradores eventuais e no qual António Cavaleiro Paixão foi formador, acabou por sucumbir após uma curta experiência de terreno na zona da barragem do Alvito, mas a sua preparação, acabou por contribuir para a criação, poucos anos depois, no seio do IPPC (1980) de uma divisão de inventário arqueológico com atribuições específicas de cartografia e que seria organizada e dirigida durante algum tempo pela própria Judite Paixão. Quanto a António Cavaleiro Paixão, enquanto único arqueólogo de campo ao serviço da DGPC, desdobrou-se desde então na resposta às situações de emergência, nomeadamente em Alcácer do Sal, onde as necessidades de infraestruturas chocavam permanentemente com os vestígios do passado.
António C.Paixão, observando um corte estratigráfico, durante obras na proximidade do Olival do Sr. dos Mártires, Alcácer do Sal

Em 1980, por ocasião do concorrido IV Congresso Nacional de Arqueologia, realizado em Faro e que prenunciou um intenso movimento de reestruturação da arqueologia portuguesa, por despacho do Secretário de Estado da Cultura, António Paixão, em representação da Administração, integrou com Carlos Tavares da Silva, Manuela Delgado e Rui Parreira, uma Comissão encarregada de rever um muito criticado “Plano de Trabalhos de Campo para 1980-84”. Tal comissão, porém, não se limitaria a corrigir o referido plano, acabando por produzir um importante documento que serviria de base à estruturação do Departamento de Arqueologia e dos Serviços Regionais de Arqueologia, no âmbito do IPPC criado nesse mesmo ano. Muito naturalmente e sem quaisquer complexos, António Cavaleiro Paixão viria a integrar, conjuntamente com outros colegas mais jovens entretanto requisitados ao ensino secundário, o novo Departamento de Arqueologia dirigido por Francisco Alves e provisoriamente instalado no Museu Nacional de Arqueologia. Para Paixão, era o regresso a uma casa onde década e meia antes entrara pela mão de Fernando de Almeida. E podemos dizer que, dada a especificidade dos principais assuntos de que se ocupou até final da carreira, nomeadamente a Arqueologia de Alcácer do Sal e de Tróia, duas estações especialmente ligadas ao Museu Nacional, esta passaria a ser a sua casa de trabalho por excelência, pesem embora algumas interrupções ou desvios pontuais. Destaca-se neste aspecto o seu envolvimento, como coordenador para a arqueologia, no projecto de recuperação e valorização das monumentais Ruínas da Igreja de São Paulo, em Macau, promovido pelo Instituto Cultural de Macau, sob a coordenação geral do Arquitecto João Carrilho da Graça, e que o levará durante alguns períodos entre 1990 e 1991 ao distante Oriente. Paralelamente à sua actividade principal como arqueólogo e técnico superior do IPPC, posteriormente IPPAR, António Paixão, por razões de carácter, nunca se desvincularia da sua inicial vocação pedagógica, quer no âmbito específico dos trabalhos de campo que dirigia, apoiando os colaboradores mais jovens, quer retomando a carreira académica que iniciara em Moçambique. No final dos anos setenta, já funcionário da SEC, chegou a dar aulas de formação de professores no Instituto Universitário dos Açores. Em 1982, leccionou uma cadeira de Pré-história no Instituto Politécnico de Santarém e a partir de 1989, assumiu a regência de diversas cadeiras de Arqueologia na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), actividade que manteve até à sua aposentação em 2004.


A.C. Paixão, à direita nas escavações do Convento de Nª Sª de Aracoeli, por ocasião das obras de construção da Pousada de Alcácer do Sal nos anos 90 do século passado.


Ainda que nunca perdendo o contacto com os projectos relacionados com a investigação e valorização das Ruínas de Tróia, de que foi durante anos o responsável por parte do IPPC/IPPAR, seria a Alcácer do Sal, onde afinal a sua carreira de arqueólogo começara em 1967, que dedicaria maior energia e atenção nos seus últimos anos como técnico do património e investigador. Prioritariamente focalizado na problemática das necrópoles da Idade do Ferro e da época Romana, quase sempre no quadro de situações de emergência e salvamento, Cavaleiro Paixão teria finalmente oportunidade no início dos anos 90 de coordenar uma grande intervenção no coração da “acrópole” de Alcácer, em parceria com o malogrado arqueólogo João Carlos Faria, um jovem local que se iniciara nas lides arqueológicas pela sua própria mão e com o qual, já como arqueólogo municipal, mantinha estreita colaboração e amizade. No âmbito do projecto de adaptação do Convento de Nª Sª de Aracaeli a Pousada, construído sobre o que restava da alcáçova islâmico-cristã do Castelo, aqueles arqueólogos levaram a cabo uma vasta e complexa operação de arqueologia preventiva entre 1993 e 1998, num espaço privilegiado da antiga cidade, e de que resultou todo um manancial de informação sobre a continuada ocupação do local, desde a Proto-história, passando pela época romana e alcançando a presença islâmica e conquista cristã. Num desfecho tão ou mais importante do que a escavação arqueológica e divulgação de resultados científicos, não tão completa como se desejaria devido ao precoce desaparecimento de João Faria e à doença de Cavaleiro Paixão, o projecto culminaria na protecção, salvaguarda e musealização de parte das estruturas e do espólio então descobertos, incluindo as ruínas de um importante santuário da Idade do Ferro ainda activo em época romana, integradas em impressionante cripta arqueológica construída sob a própria Pousada e aberta ao público desde 2008. Ainda que nem António Cavaleiro Paixão, já aposentado desde 2004 por razões de saúde, nem João Carlos Faria, falecido em 2006, tenham podido estar presentes à sua inauguração, a Cripta Arqueológica de Alcácer, é concepção de ambos, mestre e discípulo, ficando para o futuro como um dos maiores legados materiais da arqueologia pública portuguesa da transição do século.

Já nos últimos anos de actividade profissional (2004?) A.C.Paixão, dirige uma visita às ruínas conservadas na cripta da Pousada de Alcácer do Sal, ainda antes da respectiva musealização e abertura ao público, facto que só ocorreria em 2008.


   

quinta-feira, 22 de junho de 2017

"Quando Portugal Ardeu"


O título parece remeter para a triste e dramática actualidade. Mas trata-se apenas de uma infeliz coincidência. "Quando Portugal Ardeu", é o título de um recente e interessante livro do jornalista Miguel Carvalho, sobre o lado negro da Revolução dos Cravos. Quando do seu lançamento em Março passado o tema já havia despertado a minha curiosidade mas a oportunidade para o comprar só na passada sexta-feira se proporcionou, precisamente na véspera dos dramáticos eventos que abalaram o Pedrógão Grande.

Praticamente que, desde o 25 de Abril, evento que me apanhou na véspera de fazer 22 anos, tenho procurado acompanhar, dentro do humanamente possível e normal, a produção histórico-documental sobre este evento que ainda hoje marca de forma indelével a nossa história contemporânea. Aliás tal já começara um pouco antes, quando adquiri e devorei (na minha ingenuidade poítica da época), o "Portugal e o Futuro" do General Spínola... ver aqui Já depois do 25 de Abril, dado o especial interesse que (à revelia da minha posterior carreira profissional) sempre mantive pela história contemporânea, tornei-me leitor assíduo de toda a bibliografia que ia surgindo sobre a Revolução, essencialmente na base de testemunhos pessoais, transmitindo a visão de alguns dos seus principais protagonistas, a solo, ou em colaboração com jornalistas. Nesse interesse não ignorava até os testemunhos dos "derrotados", nomeadamente o "Depoimento" de Marcelo Caetano de que ainda existirá um exemplar lá por casa.

Porquê uma referencia especial a mais este testemunho, já quase há distância de meio século, num blog essencialmente memorialista/patrimonialista? Grande parte da curiosidade pelos factos nele narrados advém antes de mais da circunstância de eu ser contemporâneo dos mesmos. Há pois esse lado de voyeurismo histórico que nos atrai a revisitar um passado que também consideramos como algo de pessoal. Depois há também esse exercício de nos olharmos ao espelho e que resulta no confronto, tantas vezes contraditório, entre as nossas memórias pessoais e as memórias dos outros, ou mesmo, as memórias reveladas pelos documentos...E nesse aspecto, não posso deixar de referir que, pese embora o dramatismo da narrativa e a gravidade de tantos dos factos aqui testemunhados (afinal há mesmo um lado muito negro ainda pouco ou nada aflorado pela História "oficial"), como testemunha contemporânea, interessada e envolvida, o lado festivo da "revolução dos cravos" e da "conquista da liberdade", ainda se sobrepõe de forma inequívoca nas minhas memórias pessoais. Aliás, muitos dos eventos então vividos, com excepção para as vítimas que também as houve, acabariam por subsistir muitas vezes no domínio da narrativa anedótica. E, entrarão nesse domínio, até algumas historietas arqueológicas, como a daquela tarde de Sábado de 28 de Setembro de 1974, quando um grupo de jovens estudantes do GEPP (associação informal de estudantes da Faculdade de Letras interessados pelo Paleolítico) regressava de uma expedição aos terraços quaternários da costa alentejana, entre Sines e o Pessegueiro. Com a mala do Toyota emprestado pelo meu pai, carregada de calhaus rolados de potencial interesse pré-histórico, fomos barrados na Portagem de Almada, pelas barricadas de soldados e operários da Margem Sul, que impediam a entrada dos contra-revolucionários convocados por Spinola e por Galvão de Melo para a a manifestação da "Maioria Silenciosa". Numa altura já muito agitada e em que constava que tinha sido interceptada uma carrinha funerária com um caixão carregado de armas... lá tivémos que explicar aos atónitos barragistas que as pedras, ainda que possíveis "armas pré-históricas" de arremesso, eram afinal inofensivo material de estudo...arqueológico.


Estou longe de ter terminado a leitura das mais de 500 páginas da obra de Miguel Carvalho, escrita num tom jornalístico que me agrada quando bem estruturado e suficientemente documentado, como parece ser o caso. Mas emocionei-me praticamente desde as primeiras páginas, com a história de João Guilherme Arruda, uma das cinco vítimas assassinadas pela PIDE, num último acto de desespero, na tarde do próprio dia 25 de Abril, na Rua António Maria Cardoso. Como todos os meus contemporâneos que viveram essa madrugada irrepetível, não ignorava essa tragédia que veio macular esse dia mas que com o passar dos anos, pertencia já à ganga da própria História. Mas a narrativa de Miguel Carvalho, deu um conteúdo tão humano e pessoal aos factos, que eu não pude deixar de me sentir identificado com aquele colega (com o qual me cruzei certamente nos corredores da Faculdade de Letras que ambos frequentávamos nesse ano de 74). Também o João que como eu vinha de uma família pobre da província, encontrara no Seminário, a possibilidade de aceder à formação escolar que doutro modo jamais conseguiria. Provavelmente ainda no Seminário (ele em Braga eu em Almada, em período de renovação conciliar), ambos começáramos a procurar entender as causas de tantas injustiças e desigualdades. Ambos, certamente, começávamos então a sonhar com um mundo diferente, em particular a partir do momento em que entrámos na mesma Faculdade, no meu caso, dois anos mais velho, em 71 para História, o João em 73 para Filosofia... Ambos sofremos nessa manhã de 25 de Abril de 1974, quando as dúvidas ainda eram muitas sobre a efectiva orientação do golpe militar em curso. Ambos rejubilámos ao ouvir na rádio as canções do Zeca Afonso ou do Adriano Correia de Oliveira que todos conheciamos de cor mas que nunca passavam na rádio. Mas para o João Guilherme Rego Arruda, ceifado cerce por uma rajada assassina, o dia mais longo das nossas vidas já não chegaria ao fim. Porquê o João e não o António? A vida e a História, afinal também se fazem destes detalhes.

terça-feira, 13 de junho de 2017

As Necrópoles de Ervidel

Extracto do artigo de J.M.Arnaud (Vipasca, 1, 1992) registando a descoberta da Necrópole Ervidel 3. O nº 10 localiza o grande povoado contemporâneo, Outeiro do Circo, actualmente objecto de investigação por Miguel Serra e Eduardo Porfírio.


Mais uma vez graças à amabilidade do Gonçalo Pereira, chega-me um novo recorte arqueológico do Diário de Notícias. Neste caso, uma pequena notícia de 9 de Janeiro de 1967, dando conta da descoberta ocasional de mais uma das várias necrópoles reconhecidas nos férteis terrenos agrícolas na envolvente de Ervidel (Aljustrel).



Tratava-se da Necrópole da Medarra, do final da Idade do Bronze, cujos materiais de encontram actualmente no Museu Regional de Beja e que seriam estudados mais tarde pelo eminente arqueólogo alemão H. Schubart no âmbito das suas investigações, ainda hoje essenciais, sobre a Idade do Bronze no Sudoeste Ibérico. Socorrendo-me de uma síntese recentemente publicada por Eduardo Porfírio, Miguel Serra e Carlo Bottaini (2012 ver aqui  ) recordo que a necrópole da Medarra escavada pelo arqueólogo bejense Fernando Nunes Ribeiro (antigo Governador Civil de Beja e o descobridor das Ruínas de Pisões), apresentava pelo menos seis cistas, ou seja pequenas "caixas" sepulcrais formadas por lages de xisto, no interior da qual era normalmente depositado o cadáver, em posição fetal, acompanhado por objectos pessoais, em cerâmica ou metal.

Este tipo de necrópole é frequente em todo o Sudoeste ibérico, sendo normalmente detectadas no âmbito de trabalhos agrícolas. De facto alguns anos depois da descoberta divulgada pelo Diário de Notícias, em meados de 1976, já no decorrer da intensificação agrícola que se seguiu às ocupações da Reforma Agrária, foi descoberta uma outra Necrópole, um pouco mais a Norte de Medarra, que para além das habituais cistas e materiais afins, apresentava uma magnífica estela decorada (a Estela da Herdade do Pomar, Ervidel) actualmente depositada no Museu de Setúbal, por razões que apenas as idiossincrasias arqueológicas poderão explicar, estela que esteve na origem de um exemplar estudo monográfico do meu colega de faculdade, o malogrado Jorge Pinho Monteiro de colaboração com Mário Varela Gomes. Para além dos normais atributos guerreiros do falecido evocado na lápide (um escudo, uma lança e uma espada) esta lápide mostra alguns artefactos estranhos à cultura ibérica da época  (mil anos antes de Cristo) mas que revelam já forte influencia mediterrânica (uma fíbula ou alfinete de mola, uma pinça, um espelho e um pente) "acessórios" que são aqui certamente usados como símbolos do especial status social da figura que ali fora sepultado. Durante muito tempo esta cultura do final da Idade do Bronze que corresponde à matriz sócio-cultural que irá absorver finalmente a influencia civilizacional do Mediterrâneo Oriental, era especialmente conhecida pelas suas necrópoles. Só recentemente, graças a alguns estudos ainda limitados desenvolvidos nos grandes "povoados centrais" que estruturavam o território (como o Castro dos Ratinhos, Moura ou o Outeiro do Circo, Beringel, ligeiramente a Norte de Ervidel), se começou a desvendar alguma luz sobre o modo de vida destas comunidades, agro-pastoris, já muito hierarquizadas e dominadas regionalmente por "guerreiros", como o que terá sido sepultado no Pomar.

A estela da Herdade do Pomar, segundo J.P.Monteiro e M.V.Gomes


Eu próprio, julgo que em finais de 1980 ou início de 1981, na altura em que iniciava a minha carreira profissional no então IPPC, me vi envolvido no registo de mais uma destas descobertas ocasionais. Por ordem do Francisco Alves, então director do MNA, dirigi-me com a minha colega Clara Vaz Pinto (já então algo familiarizada com a arqueologia bejense) a Ervidel, respondendo a uma solicitação das autoridades locais. É que, no decorrer de abertura de uma vala para irrigação, a Oeste de Ervidel, tinham sido encontradas umas ossadas humanas que haviam dado lugar à intervenção da GNR. Esta tomou conta da ocorrência e resolveu chamar o Delegado de Saúde. No entanto este rapidamente se dera conta que já pouca burocracia haveria a fazer, uma vez que o óbito teria ocorrido há qualquer coisa como 3 000 anos...Quando eu e a Clara chegámos a Ervidel, os ossos já estavam na GNR mas nas margens da vala então aberta ainda pudemos localizar os restos de duas cistas, já muito destruídas e algumas cerâmicas a ela associadas. Tudo recolheu ao Museu Nacional de Arqueologia acompanhado de um relatório que constará dos arquivos do Museu.

Consultando a base de dados do ENDOVÉLICO, bem como um trabalho de síntese de José Morais Arnaud publicado em 1992 na revista VIPASCA, em que se dá conta de uma outra descoberta desta natureza pela mesma época (1982) e que Arnaud então denomina Ervidel 3 -suponho que fazendo contas com Medarra 1967, (Ervidel 1) e Herdade do Pomar (Ervidel 2)- tenho dúvidas se a observação registada por mim e pela Clara Vaz Pinto (actual directora do Museu do Traje) estará devidamente assinalada na Base de Dados da Arqueologia portuguesa. A não ser que esteja relacionada com Cariolinha, ali identificada também como "necrópole" e que de acordo com a localização, não andará longe do local da descoberta de 1981.


As necrópoles da Idade do Bronze de Ervidel, segundo o ENDOVÉLICO.  Comparando com o mapa publicado por JMArnaud na Revista VIPASCA, Ervidel 3 está incorrectamente localizada.