sexta-feira, 18 de agosto de 2017



O Templo Romano de Évora_ em "obras", 146 anos depois




O Templo Romano de Évora (impropriamente conhecido como Templo de Diana) está "em obras", circunstancia que é uma estreia absoluta para todos os eborenses, na medida em que a última intervenção de que há registo aconteceu no longínquo ano de 1871. É verdade que, apesar do aparato dos andaimes, se trata essencialmente de uma intervenção preventiva urgente decidida na sequencia do recente desprendimento de parte de um capitel, situação que infelizmente era previsível. Ao contrário dos fustes em granito, os gigantescos capitéis e bases das colunas são em calcário (Estremoz) e os efeitos da poluição moderna (tipo "chuvas ácidas") a par da trepidação do trânsito mesmo condicionado, estão finalmente a dar sinal dos seus efeitos negativos. Um diagnóstico minucioso aos capitéis remanescentes e respectivos lintéis, a par do preenchimento de algumas fendas mais ameaçadoras, serão os objectivos agora em questão. Muito longe pois da grande operação conduzida quase há século e meio e cujos resultados estão na origem de uma das estruturas histórico-arquitectónicas mais facilmente reconhecidas pelo cidadão comum e imediatamente relacionável com Évora. Aquilo que hoje chamaríamos de uma "imagem de marca"...

Mas as circunstancias factuais na origem dessa imagem tão forte mas relativamente recente, são pouco conhecidas até dos próprios eborenses. Pessoalmente interessei-me pelo tema quando o Serviço Regional de Arqueologia do Sul que então dirigia, colaborou no final dos anos 80 com o arqueólogo Theodor Haushild ( ver aqui ) do Instituto Arqueológico Alemão nas extensas escavações realizadas na envolvente do Templo. A inesperada "descoberta" de vestígios de um "espelho de água" em torno do "podium", obrigou-nos a rever com atenção alguma documentação do século XIX depositada na vizinha Biblioteca Pública e brevemente nos daríamos conta de todo um longo e complexo processo de "restauração" do Templo promovido e conduzido por dois antigos directores daquela instituição, processo que entretanto quase caíra no esquecimento. Há alguns anos (1994), em número da Revista "A Cidade de Évora" de homenagem a Mestre Túlio Espanca, tive oportunidade de dar conta dos resultados de alguma investigação pessoal sobre este assunto. Para os interessados aqui fica o link para consulta do respectivo PDF.
https://www.academia.edu/844089/A_Restaura%C3%A7%C3%A3o_do_Templo_Romano_de_%C3%89vora_

Para além de algumas imagens comentadas, anexo também neste post, pelo seu interesse como registo (apesar das anormalmente excessivas gralhas tipográficas) o "facsimile" de um artigo que publiquei no Diário de Notícias de 3 de Junho de 1993, sobre a "restauração do Templo de Évora". Já agora, lembro que a popular denominação de "Templo de Diana", parece ter sido inventada pelo Padre Manuel Fialho, um historiador local do final do século XVII, a partir da infundada tradição introduzida por André de Resende de ligar as origens de Évora ao caudilho militar Sertório. Manuel Fialho, reconhecendo nos restos arquitectónicos do açougue, os vestígios de um templo pagão, associa-o à deusa Diana, a divindade que, segundo a lenda acompanhava Sertório, disfarçada de corça.


O Templo Romano de Évora, em obras um século e meio depois da sua "restauração"
A primeira representação gráfica conhecida do "açougue", a torre com o sino, ao centro da imagem (Templo romano). Detalhe da conhecida representação de Évora no Foral Manuelino de 1501.
O Templo Romano de Évora segundo um desenho de Carlos Van Zeller anterior a 1840, mostrando a situação do monumento na altura em que Cunha Rivara (Director da Biblioteca Pública,) se começa a interessar pelo seu "restauro". Trata-se de uma vista de Norte (a partir do actual Jardim Diana), quando já tinham sido demolidos uns anexos que ligavam o antigo "açougue" aos Lóios. No entanto persistiam ainda as construções conhecidas como "inquisição velha", demolidas entretanto por iniciativa de Cunha Rivara. É na sequencia dessas demolições (meados do século XIX) que Cunha Rivara procede àquelas que serão as primeiras grandes escavações arqueológicas urbanas em Portugal, descobrindo em torno do Templo o "espelho de água" que viriamos a "redescobrir" mais de um século depois. Estas escavações caíram no esquecimento...
Joaquim Heliodoro da Cunha Rivara (1808-1879) Director da Biblioteca Pública de Évora entre 1838 e 1855

O "templo romano" (vista a partir do Jardim Diana) após as demolições e escavações de Cunha Rivara (foto anterior a 1871). São bem visíveis as "cicatrizes" das construções entretanto demolidas da "inquisição velha"

O Templo romano antes da grande intervenção de José Cinatti (1871), visto do largo do Paço Episcopal (actual Museu de Évora). Já tinham sido demolidos os edifícios da inquisição velha, mas conservava-se o corpo medieval entretanto usado para albergar temporariamente a colecção lapidar de Frei Manuel do Cenáculo. De referir que, Alexandre Herculano ao ser consultado sobre o restauro exclusivista dos vestígios romanos, aconselhou prudência e resguardo dos óbvios vestígios medievais.

Augusto Filipe Simões (1835-1884).. Director da Biblioteca Pública de Évora entre 1863 e 1872, retomou o projecto de "restauro" do Templo Romano iniciado por Cunha Rivara. Foi o grande impulsionador da obra finalmente assumida pela Câmara Municipal de Évora em 1871, após consulta a numerosos especialistas.

José Cinatti, (1808-1879), arquitecto e cenógrafo de origem italiana, que trabalhou muito em Évora, nomeadamente no Teatro Garcia de Resende e nas "Ruínas Fingidas" do Jardim do Palácio de D.Manuel. Dirigiu em 1871 as obras de "restauro" do Templo Romano e, na verdade, é o grande responsável pela sua actual "imagem de marca".


O "Templo Romano de Évora", no início do Século XX, após o restauro de José Cinatti, exibindo já a sua actual "imagem de marca", também presente no selo postal.
Foto de conjunto das escavações do Instituto Arqueológico Alemão (início dos anos 90 do século XX). Para além do lajeado do "forum romano", è visível à esquerda do podium, a base do "espelho de água" que envolvia o Templo.


Proposta de reconstituição do Templo Romano de Évora e do respectivo "espelho de água".
O "podium" do Templo romano de Évora, numa perspectiva pouco comum, tal como ficou após a intervenção de José Cinatto em 1871.





segunda-feira, 14 de agosto de 2017


BIBLIOGRAFIA ARQUEOLÓGICA PORTUGUESA_ o contributo de Eduardo Pires de Oliveira



Li ontem com atenção e especial interesse o artigo do Público sobre o historiador bracarense EDUARDO PIRES DE OLIVEIRA, ainda que na versão "on line", muito partilhada entre colegas e amigos. Julgo que nunca me terei cruzado pessoalmente com o Eduardo mas trocámos alguma correspondência no início dos anos 80 do século passado, uma vez que como Director do Departamento de Arqueologia acolhi e dei andamento à sugestão (julgo que terá partido do próprio Professor Jorge Alarcão) de edição pelo IPPC, do trabalho de compilação da bibliografia arqueológica portuguesa que EPO vinha preparando há algum tempo. Para as actuais gerações de arqueólogos, já formados na "era internet", será difícil compreender o verdadeiro alcance prático de um repositório informativo desta natureza... Pessoalmente e apesar de "suspeito", sempre considerei o conjunto dos três volumes bibliográficos então editados, como um dos mais importantes instrumentos de trabalho ao serviço da arqueologia preventiva e de investigação nas duas últimas décadas do século passado [Bibliografia Arqueológica Portuguesa (1935-1969), IPPC 1984; BAP (1970-1979), IPPC 1985; BAP (Séc.XVI-1934), IPPAR,1993]. Não me espantou pois que, o artigo do Público tenha dado o devido destaque a esta obra, ainda que amputando a referencia aos dois volumes posteriormente também publicados por EPO:

"Antes de entrar no doutoramento, Eduardo Pires de Oliveira já tinha mais de 150 títulos editados, entre livros de divulgação e defesa do património, e artigos publicados em revistas científicas e actas de congressos. As primeiras obras da sua bibliografia não podiam ser mais relevantes. Em 1982, edita Braga: Evolução da Estrutura Urbana, juntamente com os arquitectos João Lopes e Eduardo Souto Moura, futuro prémio Pritzker. Na mesma altura, estava a trabalhar na Bibliografia Arqueológica Portuguesa, que acabaria por ser editada em 1984 pelo então Instituto Português do Património Cultural. Entretanto, acrescentou-lhes mais 70."

Não recordo os exactos contornos que terão estado na origem deste projecto do EPO. Ainda que o artigo do Público refira uma sua precoce passagem pelas escavações de Conimbriga, ainda como estudante, a ligação de EPO à Arqueologia passou essencialmente pelo projecto de salvamento de BRACARA AUGUSTA e pelo seu enquadramento profissional ocasional na Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho a partir de 1977. Nos meus textos memorialistas sobre as transformações da Arqueologia portuguesa no último quartel do Século XX, que vou divulgando neste blog, tenho repetidas vezes defendido a "tese" de que a Universidade de Braga e a respectiva unidade de Arqueologia, foram uma espécie de epicentro para onde convergiram a partir de meados dos anos 70, as várias "forças reformadoras" da arqueologia portuguesa, finalmente libertadas pelo 25 de Abril... Arqueólogos estrangeirados (como o Francisco Alves ou a Manuela Delgado), professores e arqueólogos da escola de Coimbra (como Jorge Alarcão ou Adília Alarcão), alunos da Universidade do Porto (como a Susana Correia...), arqueólogos da "geração do Tejo" (como o Francisco Sande Lemos, a Manuela Martins e o próprio António Martinho Baptista), todos, de um ou de outro modo aparecem ligados a Braga no final dos anos 70. Neste "caldo" bracarense, em que pela primeira vez a Arqueologia surgia entre nós como uma oportunidade profissional, puseram-se em prática novas metodologias de campo, desenvolveram-se novos conceitos teóricos e nasceram novos projectos que, rapidamente, ultrapassaram as muralhas da velha cidade romana. Quando em 1980 Francisco Alves "negociou" com Vasco Pulido Valente a sua "transferência" para o lugar de director do MNA e a reorganização do sector de Arqueologia da SEC, a experiência do Campo Arqueológico de Braga, serviria de modelo e de incubadora para os novos Serviços Regionais de Arqueologia, também decalcados da experiência francesa de Francisco Alves. O que nem sempre se refere, é que por trás de todo este movimento especificamente arqueológico, estava um outro movimento de cariz social, de defesa do património e da memória histórica, organizada em torno de uma local Associação de Defesa do Património, a "ASPA", (actualmente a celebrar o seu 40º aniversário), e onde desde a primeira hora militavam, num ambiente polítio e económico especialmente hostil, figuras como Henrique Barreto Nunes (https://henriquebn.wordpress.com/biografia/), director da Biblioteca Pública de Braga durante décadas ou o próprio Eduardo Pires de Oliveira.

Terá sido no contexto da colaboração de EPO na organização da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, em cujo âmbito se estrutura também a partir de 1980, o Serviço Regional de Arqueologia do Norte (ambos os serviços partilhando meios humanos e logísticos sob a direcção de Francisco Sande Lemos), que terá surgido a necessidade de compilação da bibliografia arqueológica. Como base inicial de trabalho, EPO socorre-se de duas brochuras editadas em 1970 e 1973 pela Junta da Educação Nacional e organizadas por Maria Teresa Pinto Mendes (bibliotecária da Universidade de Coimbra): a primeira por ocasião do II Congresso Nacional de Arqueologia realizado em Setembro de 1970 em Coimbra, abrangendo a década de 60 e a segunda em 1973, sobre a década de 50. Mas aquilo que parecia inicialmente uma simples reedição, rapidamente evolui para obra nova, face aos novos dados coligidos ou corrigidos, ao alargamento do âmbito cronológico (1935-1969) e sobretudo, aos novos índices, temáticos ou toponímicos, acrescentados no volume que o autor dedicaria a Jorge Alarcão.


O 2º volume da Bibliografia Arqueológica Portuguesa, organizado por Maria Teresa Pinto Mendes e editado pela Junta da Educação Nacional e cuja revisão esteve na origem dos volumes organizados por Eduardo Pires (1984,1985 e 1993)

Logo de seguida, tirando partido de muita informação coligida para a obra inicial, Eduardo Pires de Oliveira propor-nos-ia  a edição de um segundo volume, este inteiramente inédito e de sua lavra, dedicado à década de 70, fechando assim o ciclo da bibliografia arqueológica pré-IPPC. Este segundo volume seria editado pelo Departamento de Arqueologia em 1985 e EPO dedica-o a Henrique Barreto Nunes, um dos fundadores da ASPA. Alguns anos depois (1993) já após a extinção do IPPC e num período em que o respectivo Departamento de Arqueologia era dirigido por Fernando Real, este ciclo bibliográfico seria encerrado com a publicação do repositório anterior a 1935, tendo como limite de antiguidade o nascimento da própria imprensa, o século XVI. O autor dedica este 3º e último volume bibliográfico a dois colegas contemporâneos, Manuel Real, então Director da Biblioteca Municipal do Porto e  Maria La Salete da Ponte,à época arqueóloga do Museu de Conimbriga. Nos agradecimentos, entre outros, cita os responsáveis do Departamento de Arqueologia que facilitaram os meios para o conjunto das edições, incluindo o Fernando Real, a Teresa Marques e eu próprio, o que me sensibilizou especialmente. Nela é feita também uma menção especial e bem merecida a um funcionário administrativo do Departamento de Arqueologia, o João Lourenço, ("pelo cuidado posto na árdua tarefa de passar para letra de imprensa as minhas fichas de trabalho") um colaborador que muito jovem e quase por acaso iniciou o seu trabalho no DA do IPPC, no âmbito de um programa de OTL (ocupação de tempos livres?). Desde então nunca mais o largámos, tal era o rigor e paixão com que realizava todas as tarefas, mesmo as mais fastidiosas, como a dactilografia ou a preparação das nossas próprias edições ("Informação Arqueológica", "Trabalhos de Arqueologia", etc...) e que só abandonaria  o Departamento de Arqueologia quando, finalmente licenciado, procurou noutro Ministério a promoção que a Cultura não lhe podia dar.












sábado, 12 de agosto de 2017


O Engenheiro António Guterres e a Arqueologia



A recente visita (privada e em contexto de férias familiares) do Secretário Geral da ONU  a um sítio arqueológico alentejano (Povoado dos Perdigões, Reguengos de Monsaraz) _ não é propriamente, notícia. Mas justifica-se e compreende-se que o António Carlos Valera, o coordenador do projecto ali em curso vai para 20 anos  ver aqui , registe o facto com evidente satisfação num dos vários blogues que mantem regularmente e onde vamos sabendo as últimas novidades das sucessivas campanhas arqueológicas. ver aqui o texto em causa e a reportagem fotográfica.

E a personalidade em causa, não é de facto um visitante qualquer, até sob a perspectiva da  própria Arqueologia. Com efeito, se bem se recordam, foi o XIII Governo Constitucional  presidido por António Guterres que, numa das suas primeiras resoluções após a tomada de posse em Outubro de 1995, tomou a corajosa e inédita decisão (mesmo a nível internacional) de suspender as obras de uma grande barragem (Côa), já em avançado estado de construção, o que acabaria por ser decisivo para o futuro da Arte Rupestre do Vale do Côa, hoje classificada como Património da Humanidade. Seria também esse mesmo Governo que instituiria ainda nesse mesmo ano de 95, no âmbito do Ministério da Cultura, dirigido por Manuel Maria Carrilho, uma Comissão Instaladora com vista à criação de um Instituto Português de Arqueologia, instituição que apesar da sua efemeridade (seria extinta uma década depois) revolucionaria a actividade arqueológica em Portugal na mudança do século. Tive oportunidade de testemunhar directamente o ambiente de verdadeira mudança que então se vivia no Palácio da Ajuda, uma vez que por sugestão do Vitor Oliveira Jorge integrei durante alguns meses essa Comissão Instaladora, pela qual passava também a gestão do escaldante "dossier Côa". Mas seria alguns meses depois, a partir de Maio de 1996, já responsável pela arqueologia do Alqueva, que me aperceberia melhor das nova atitude face ao património, por parte dos gestores das grandes obras públicas. A proverbial capacidade de trabalho de Guterres não seria suficiente para que ele tivesse qualquer interferência directa no dossier "Arqueológico" do Alqueva mas a inequívoca e corajosa orientação política que imprimira à resolução do caso do Côa, terá sido determinante para a abertura e total cooperação que senti da parte da administração da EDIA, nomeadamente da parte do meu chefe directo, o Joaquim Marques Ferreira e que permitiu pôr em marcha no Guadiana um projecto considerado como exemplar.

Aliás, seria já no âmbito dos trabalhos arqueológicos de campo no Alqueva que viria a tomar conhecimento de uma pequena história, que não resisti a transmitir ao António Valera quando este partilhou connosco as imagens da visita do Secretário Geral da ONU, às suas escavações dos Perdigões. Julgo que em 1997 ou 1998, houve uma deslocação do então primeiro ministro António Guterres a Mourão, mais propriamente a um sítio chamado Ferrarias, onde chegou a estar prevista a instalação de uma fábrica de papel que deveria ter substituído a velha unidade fabril junto à Praça da Carraça, entretanto desmantelada por causa da Barragem. Ali perto das Ferrarias, o Carlos Tavares da Silva e a Joaquina Soares, escavavam o Povoado Calcolítico do Porto das Carretas, um sítio paradigmático da Pré-história recente do Guadiana (descoberto por eles próprios nos anos 80). Como se sabe, CTS e JS, enquanto arqueólogos contratados pelo antigo Gabinete da Área de Sines, tinham sido percursores em Portugal da Arqueologia em contexto de grandes obras públicas, tendo desenvolvido um trabalho de reconhecido mérito científico na costa alentejana nos anos 70 e 80 do século passado. O que é pouco conhecido, segundo me confessaram então aqueles arqueólogos, é o facto de António Guterres enquanto técnico do Gabinete da Área de Sines entre 1973 e 1974, graças à sua vasta cultura e conhecimento directo de muitos sítios arqueológicos, ter tido um papel decisivo para a excepcional amplitude que os trabalhos de arqueologia viriam a assumir no âmbito do projecto de Sines. Este facto ganha entretanto especial relevância se lembrarmos que a primeira legislação sobre avaliação e minimização de impactes ambientais apenas surgiu em Portugal em meados dos anos 80 e que a imputação dos encargos com a Arqueologia às próprias obras só viria a concretizar-se no final dos anos 90... E isso só aconteceria com o IPA, no âmbito do XIII Governo Constitucional, presidido por António Guterres.





sexta-feira, 11 de agosto de 2017

ALMENDRES e outros patrimónios da Tourega e Guadalupe. Prestar contas...



Para os que me conhecem nem seria necessário confessar... Com efeito uma das principais motivações que me levou a aceitar o convite para integrar uma lista candidata à União de Freguesias da Tourega e de Guadalupe (2013), partia da vontade de cooperar com o meu saber e experiência, na valorização daquele que penso ser o maior recurso deste território: o património cultural. Procurei, no entanto, não partir de uma posição paternalista ou sobranceira, por duas razões principais: por um lado não é possível gerir o património cultural, particularmente em áreas rurais, sem conseguir a cumplicidade da população local mesmo em situações demográficas adversas; por outro, conhecia bem a situação de quase absoluta indigência financeira da Câmara Municipal (para já não falar da situação dos serviços da tutela do património), o que limitaria qualquer veleidade de resolver de um dia para o outro problemas que se arrastam há décadas. 

Com o aproximar do fim do mandato, está na hora de fazer balanços e prestar contas. Assim, por minha conta e risco, sem demagogias, restrições políticas ou preconceitos de qualquer tipo, aqui fica o meu ponto de vista sobre aquilo que, nesta matéria, eram as nossas preocupações há quatro anos e aquilo que de facto foi possível concretizar...

Apesar da riqueza patrimonial-arqueológica da união de freguesias, com mais de uma dezena de imóveis classificados (monumentos nacionais e imóveis de interesse público), a nossa atenção estava concentrada em três situações principais, nomeadamente:

1.  a salvaguarda e a gestão das visitas turísticas do Cromeleque dos Almendres;
2.  a consolidação estrutural e reabilitação da Anta Grande do Zambujeiro (um dos maiores e mais importantes dolmens da Península Ibérica);
3. a reabilitação do conjunto patrimonial da Tourega, (ruínas romanas, ruínas paleo-cristãs e igreja);

No que respeita ao primeiro objectivo, talvez o mais importante face à importância turística crescente dos Almendres, infelizmente os avanços foram praticamente nulos, ainda que no horizonte se perfilem algumas perspectivas positivas. A meio do mandato, a Junta com o apoio da Assembleia de Freguesia, jogou uma cartada forte propondo aos proprietários um acordo ou contrato que criasse as condições para que a Junta pudesse assumir juridicamente a responsabilidade da gestão do sítio, mas as condições propostas por aqueles, eram eticamente inaceitáveis, pelo que tudo ficou na mesma. A Junta, sem qualquer obrigação para tal, limitou-se a proceder durante estes anos a periódicas acções de limpeza na envolvente do Cromeleque e a Câmara Municipal, sempre que os acessos se tornavam mais complicados, deslocava uma máquina para nivelar o estradão entre Guadalupe e o monumento. A ideia de se criar um passadiço para visita ao Menir dos Almendres (cujo caminho está hoje quase impraticável...) foi rapidamente abandonada não só face aos custos que implicaria mas sobretudo pela indefinição quanto às questões "fundiárias" em causa. Falta saber qual será a entidade civilmente responsável por qualquer acidente que venha a acontecer naquele percurso em tão mau estado... Recentemente, e num acto que, na falta de meios jurisdicionais para intervir mais activamente, poderíamos considerar "simbólico", os serviços municipais, instalaram nova corrente e novo sinal de "trânsito proibido" no início do acesso pedonal ao Cromeleque...

Entretanto, por proposta da União de Freguesias, está a decorrer um concurso para selecção de interessados na instalação e exploração de um Centro de Informação Turística na aldeia de Guadalupe, equipamento que deverá potenciar localmente a mais valia turística crescente do Cromeleque dos Almendres. A Câmara cederá o terreno, em zona de passagem obrigatória para o Cromeleque, ficando a cargo do adjudicatário seleccionado, a concepção, instalação e respectiva exploração, o que exigirá aos poyenciais interessados, meios e capacidades consideráveis.

Para além das intervenções regulares de nivelamento do estradão de acesso ao Cromeleque, os serviços da Câmara Municipal de Évora procederam recentemente à reposição da corrente e do sinal de trânsito proibido no troço final do percurso de visita. Esperemos que dure mais do que o anterior...
Onde praticamente nada se avançou  e em contrapartida tudo se agravou nestes anos, foi na situação da Anta Grande do Zambujeiro. O problema de base é igual aos Almendres (a localização em propriedade privada que limita a capacidade de intervenção financeira por parte das entidades de tutela ou da própria autarquia), situação que se complica pela circunstância de estarem há muito identificadas necessidades de intervenção estrutural que colocam em risco a sobrevivência do próprio monumento. Apesar da Lei de bases do património cultural cometer aos proprietários a responsabilidade da conservação, no caso dos bens arqueológicos a imputação dessas responsabilidades não parece reunir o consenso dos entendidos...por razões compreensíveis. O que faz com que, cada dia que passa a situação seja cada vez mais grave, uma situação que era já periclitante em 2006, data do último diagnóstico produzido pelo Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Como será de calcular, neste capítulo a Junta de Freguesia pouco mais poderia fazer para além de alertar as "entidades competentes" para a gravidade da situação, o que não deixou de fazer sempre que teve oportunidade para tal.

A situação da Anta Grande do Zambujeiro, abordada em recente colóquio na Assembleia da República. (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2017/07/patrimonio-cultural-politicas-publicas.html)
- Se no caso dos Almendres e do Zambujeiro, as questões de jurisdição, representam ainda assim uma justificação aceitável para o impasse a que se chegou, já no caso da Tourega, outras explicações terão de ser encontradas para justificar que, apesar de alguns passos significativos, não se tenha avançado ainda mais. Com efeito o conjunto de iniciativas que a Junta de Freguesia promoveu poderia ter tido outro alcance se estas tivessem sido secundadas pelo Município, integrando as nossas propostas no programa AGER, programa que praticamente não passou do papel face às conhecidas dificuldades financeiras da Câmara no mandato que agora termina. Ainda assim foi possível editar um texto inédito sobre a Tourega, escrito no século XVIII, proceder a limpezas periódicas das ruínas romanas, e finalmente promover intervenções urgentes de conservação do património integrado da Igreja da Tourega, nomeadamente no que respeita às respectivas imagens religiosas (provisoriamente guardadas em Valverde) e em particular no importante retábulo, recentemente muito valorizado pelos estudos do Professor Vítor Serrão, figura que nos apoiou e acompanhou neste projecto. O envolvimento da população não foi descurado, até porque sem a respectiva participação, nada disto terá significado. E assim, a habitual missa de finados, único acto litúrgico que nos últimos anos acontece na Tourega, em 2016 seria substituída simbolicamente por uma missa de todos-os-santos, a que se seguiria um inédito concerto de música da escola de Sé de Évora pelo Coro Polifónico Eborae Musica. A sensibilização dos habitantes da Tourega e de Guadalupe para a importância deste antigo núcleo rural, seria ainda reforçada por uma concorrida visita ao Museu Nacional de Arqueologia, para observação da célebre "lápide da Tourega" no contexto da exposição "Lusitânia Romana". Dessa visita sairia ainda a proposta de visita complementar a Mérida, onde aquela lápide também estivera exposta, visita entretanto também organizada pela Junta e excepcionalmente concorrida. A organização de visitas da população, nomeadamente um passeio entre a Mitra e a Tourega nas Jornadas Europeias do Património em 2015, (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/09/jornadas-europeias-do-patrimonio-em.html),  bem como a montagem de uma exposição na Igreja do Salvador, em Évora, sobre o "património da Tourega", seriam outras das iniciativas promovidas pela União de Freguesias.



Painel da exposição promovida pela Junta de Freguesia e organizada pela Direção Regional de Cultura do Alentejo na Igreja do Salvador, em Évora, e na qual estiveram expostas as imagens religiosas objecto de ações de conservação por parte de pessoal da DRCA- http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/12/tourega-patrimonio-em-meio-rural.html

A continuação do projecto da Tourega, recuperando, integrando e valorizando turisticamente este notável conjunto patrimonial, deverá ser um objectivo prioritário de um próximo mandato da Junta de Freguesia, até porque como referimos, neste caso não há desculpas de falta de jurisdição para actuar. Mas, nesta como em tantas outras situações, o apoio técnico e financeiro da Câmara, será essencial para concretização dos objectivos há muito identificados, nomeadamente:

- recuperação arquitectónica da Igreja Matriz e reintegração do seu património móvel;
- conservação, restauro e interpretação in situ das ruínas da Villa Romana da Tourega;
- estudo, consolidação e interpretação in situ das ruínas da Ermida de Sta Comba e da Fonte Santa;
- melhoria das condições da “morada” anexa à igreja, favorecendo a continuidade da sua habitabilidade, como condição fundamental de sustentabilidade do sítio;
- programa de arquitetura paisagista e valorização cultural, para o conjunto patrimonial da Tourega, prevendo áreas de estacionamento e de lazer; percursos de acesso às diversas ruínas e ao plano de água; núcleo interpretativo na Igreja;



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Documentos sobre a Delegação de Lisboa do DAI (1971-1999)


Os "recortes de jornais" (em tempos, a base de qualquer serviço de informação e documentação...) são como as cerejas, no que respeita a sugestões temáticas...Não terá sido por causa da efeméride do 10º aniversário da delegação lisboeta do DAI_ o Instituto Arqueológico Alemão"_ que o Gonçalo Pereira Rosa me terá enviado mais este recorte. Com efeito o título a toda a largura da página do Diário Popular de 17 de Dezembro de 1981 remete para a descoberta e escavação de emergência, como então dizíamos, da Necrópole das Casas no Redondo (e não dos Casos...gralha do jornal). Tratava-se de um importante sítio identificado por arqueólogos amadores locais e que concentrava materiais associados a necrópoles de incineração da Idade do Ferro mas também de época romana. A importância dos materiais chamou naturalmente a atenção de Caetano Melo Beirão, então Director do recém criado Serviço Regional de Arqueologia do Sul, com sede em Évora que ali promoveu escavações com o apoio dos assistentes da Universidade de Évora, Jorge Pinho Monteiro e José Olívio Caeiro.  Por várias razões os trabalhos acabariam por decorrer com muitos percalços e os materiais, julgo que na sua maior parte ainda por publicar, só dariam entrada no Museu de Évora alguns anos depois, estando parcialmente expostos desde 2013 na Galeria de Arqueologia do Museu de Évora. Mas não foi a Necrópole das Casas a motivação deste "post". De facto, acabou por prender a minha atenção, a referencia ao 10º aniversário da delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão, até porque conservo entre os meus papéis uma rara brochura editada em 1991, no vigésimo aniversário desta prestigiada instituição que desgraçadamente não chegaria aos 30 anos, uma vez que seria encerrada em 1999. Felizmente, parte do respectivo acervo documental (nomeadamente os Arquivos do Casal Leisner e a sua excelente Biblioteca) acabariam por permanecer em Portugal tendo sico cedidos em regime de comodato ao Estado português, integrando hoje a Biblioteca de Arqueologia da DGPC (Palácio Nacional da Ajuda). 

Sobre a importância desta instituição alemã no desenvolvimento da Arqueologia portuguesa, e a quem tanto devem muitos arqueólogos da minha geração, falam por si os textos que a seguir se transcrevem da referida brochura de 1991  (textos de Theodor Hauschild director da delegação de Lisboa do DAI e Hermanfrid Schubart, director do DAI, em Madrid). A estes arqueólogos alemães, me ligam especiais relações profissionais e de amizade, também extensíveis a Philine Kalb, Martin Hock e Michael Kunst. A sua ligação a Portugal é de tal ordem que alguns deles (como o Martin, a Philine ou o Haushild) escolheram mesmo o nosso país para residência, uma vez aposentados.



Martin Hock e Philine Kalb em visita recente à Gruta do Escoural (2017)

Theodor Hauschil no Museu de Évora, em 2014


http://pedrastalhas.blogspot.pt/2014/10/a-visita-do-mestre-evora-o-nome-de.html