terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Monte da Fainha (Evoramonte)

 Um sítio “fantasma” do Paleolítico Superior no Alentejo




 
Há sítios arqueológicos assim. Um nome muito citado na bibliografia especializada mas que, quando confrontado com a realidade do território, parece escapar a toda e qualquer materialidade. O Monte da Fainha, um sítio clássico do Paleolítico Superior Português (pelo menos durante algumas décadas do século passado), representa bem essa categoria de sítio quase fantasma, não fora a meia dúzia de peças conservadas, quase por milagre, em dois museus portugueses. Ainda por cima, este estatuto já de si fugidio, seria agravado por uma confusão toponímica involuntariamente engendrada por Jean Roche, o arqueólogo francês responsável pela sua divulgação científica (chegou a ser objecto de uma comunicação específica à Sociedade Pré-histórica Francesa em 1972), que a certa altura lhe trocou o nome por “Monte da Rainha”.
O poço do Monte da Fainha, no vale a Oeste de Evoramonte, hoje atravessado pela A6 (foto de 1988)

A descoberta

Em 1950, o proprietário do Monte da Fainha, (uma pequena herdade alentejana hoje atravessada pela A6, situada no vale a nascente da colina onde se ergue o Castelo de Evoramonte) mandou construir um poço em zona baixa, próxima de uma linha de água. Quis o acaso que, a presença na propriedade de Luciano Ribeiro, sócio da Associação dos Arqueólogos Portugueses (secção de Heráldica e Genealogia) e amigo do Professor Mendes Correia, tenha permitido a identificação de um conjunto de estranhos artefactos de pedra talhada aparecidos nas terras retiradas para a abertura do poço. Apesar da peculiaridade do talhe, a sua natureza intencional não escapou à observação de Luciano Ribeiro que os guardou (desconhecemos o número exacto recolhido na altura) e os mostrou mais tarde a Mendes Correia e ao Padre Jean Roche. Este pré-historiador francês, então a trabalhar em Portugal nos Concheiros de Muge pela mão do próprio Mendes Correia que ali fizera também investigações, não teve qualquer dúvida pela natureza do talhe, em atribuir os materiais ao Solutrense, um período do Paleolítico Superior então praticamente inédito em Portugal (à excepção de alguns raros materiais identificados em 1942 por Henri Breuil e Georg Zbyzewski, nos espólios das antigas escavações nas Grutas da Furninha (Peniche) e da Ponte da Lage (Caxias). No entanto, o Monte da Fainha, só dois anos após a descoberta seria visitado por Jean Roche e Mendes Correia. Nessa altura, segundo o relato de Roche publicado no Arqueólogo Português muitos anos depois (1968), já não conseguiram recolher mais artefactos e o que era mais “curioso”, nas palavras do próprio Roche, nas terras retiradas na abertura do poço, não conseguiram observar quaisquer vestígios de restos de talhe que poderiam ter passado despercebidos a Luciano Ribeiro, dada a sua pouca familiaridade com este tipo de materiais. Em 1954, já depois de H.Vaultier ali ter recolhido mais alguns artefactos “solutrenses”, certamente numa das suas habituais excursões arqueológicas com Camarate França, este último com Mendes Correia, realiza junto ao poço, algumas “pequenas sondagens”. Recolhem então novo lote de peças solutrenses, mas também não registam quaisquer outros vestígios, nomeadamente restos de talhe ou de habitat. Confirmando o estatuto especial do sítio e a atribuição cronológica ao Solutrense dos artefactos observados, o Monte da Fainha seria visitado em 1957 pelo chamado “Papa da Pré-história”, o Abbé Henri Breuil (1887-1961), acompanhado por Georg Zbyzewski e Octávio da Veiga Ferreira, dos Serviços Geológicos de Portugal e o omnipresente H.Vaultier. (Sobre o papel na arqueologia deste industrial de sucesso, já tivemos oportunidade de falar noutra ocasião: ver aqui sobre H.Vaultier). Provavelmente esta seria a última visita arqueológica ao sítio antes da sua divulgação científica por Roche (1968,Portugal, 1972, França, 1974, Espanha) e a sua própria implantação topográfica rapidamente cairia no esquecimento, até porque os arqueólogos mais ligados ao sítio, foram entretanto desaparecendo (Mendes Correia em 1960, Camarate França em 1963, H.Vaultier em 1969).

Os artefactos do Monte da Fainha, o seu significado e o seu destino

Como já referimos, o que tornava este sítio especial era, por um lado, a inequívoca atribuição cronológico-cultural do seu conjunto artefactual ao período Solutrense (entre 20 000 e 15 000 a C), a ausência de quaisquer outros vestígios arqueológicos e por fim a raridade de vestígios do Paleolítico Superior então conhecidos em Portugal, em especial no Alentejo. Jean Roche no seu artigo de 1968, publicado n’O Arqueólogo Português, sintetiza assim esta problemática:
Um número muito restrito de artefactos, vinte peças que atribui aos conjuntos recolhidos por Leonel Ribeiro e Vaultier ainda que referindo  a existência de mais uma dezena que teriam sido recolhidas nas sondagens de Camarate França e Mendes Corrêa, que não chegou a observar. No entanto, o número exacto de objectos descobertos e o seu destino, é uma questão em aberto e que dificilmente poderá vir a ser esclarecida…
Um conjunto tipologicamente homogéneo, uma vez que todos os artefactos analisados cabem na categoria das “folhas de loureiro”, nome que advém da forma foliácea e da espessura fina destes artefactos, normalmente em sílex, obtidos por talhe em ambas as faces e que seriam usados como pontas de lanças. Face à ausência de outros artefactos ou mesmo de qualquer contexto arqueológico, Roche concluía que a homogeneidade do conjunto só poderia ser explicada por uma escolha intencional cuja finalidade seria impossível determinar. A propósito recorda um achado semelhante verificado na abertura de um canal em 1873 em Volgu (França), também atribuído ao Solutrense. As circunstâncias deposicionais, melhor descritas naquele caso, haviam levado à sua interpretação como um “esconderijo”.  Roche não avança explicações para o Monte da Fainha, mas refere que Breuil a quando da sua visita à Fainha em 1957, havia colocado duas hipóteses: vestígios de uma sepultura isolada ou de um acampamento muito fugaz de um grupo de caçadores nómadas.


A entrada sobre o Monte da Fainha, na tese de doutoramento de João Zilhão (1994) onde aparecem desenhadas por Thierry Aubry, as três peças recuperadas num leilão por Gustavo Marques (entretanto oferecidas ao MNA pelos herdeiros) que faziam parte do conjunto de 20, publicadas por Jean Roche (1968)



Naturalmente, nenhuma das várias hipóteses ajudava a compreender o isolamento geográfico do achado, em pleno “deserto paleolítico” Alentejano... Mas essa circunstancia era facilmente justificável pelo atraso da investigação paleolítica em Portugal, concentrada normalmente nos terraços marinhos ou, quanto muito, nas margens dos grandes rios. O reconhecimento de outras provas da presença dos caçadores-recolectores do Paleolítico Superior no Alentejo, seria apenas uma questão de tempo e oportunidade, conforme a descoberta em 1963 da Gruta do Escoural e o reconhecimento da sua arte paleolítica viriam a confirmar pouco depois destes eventos, para não falarmos de outras descobertas mais recentes, nomeadamente nas margens do Guadiana. 

Fragmento de lâmina solutrense encontrada, a posteriori, nos espólios das antigas escavações da Gruta do Escoural. (depositada no Museu de Arqueologia de Montemor-o-Novo)

O problema é que, mesmo para regiões, como o maciço calcário estremenho, onde hoje está reconhecida uma intensa ocupação durante o Paleolítico Superior, os novos dados arqueológicos viriam a ser, quase sempre, confirmados após a reanálise dos materiais recolhidos em antigas escavações e guardados nos Museus. Desta tarefa ocupar-se-ia João Zilhão nos anos oitenta e noventa do século passado, congregando os resultados na sua monumental tese de Doutoramento (O paleolítico Superior da Estremadura portuguesa, Colibri, 1994). Entre os sítios que Zilhão obrigatoriamente “revisitou”, contava-se o Monte da Fainha, a que dedica uma dezena de páginas. O problema é que o paradeiro da coleção entretanto publicada por Roche se perdera com o desaparecimento dos “proprietários”. Pelo menos parcialmente, porque às mãos de Zilhão ainda chegariam três dos vinte artefactos originais. Resgatados num leilão por Gustavo Marques que entretanto os disponibilizara para estudo , actualmente fazem parte das coleções do Museu Nacional de Arqueologia, uma vez que os herdeiros daquele conhecido arquitecto-arqueólogo , ofereceram a sua colecção particular à quele Museu.

As conclusões publicadas por Zilhão (e que de algum modo poderão ser consideradas definitivas face aos dados disponíveis) não viriam a divergir das de Jean Roche, pese embora o facto de dispor de novas observações no local (como veremos mais adiante). Apesar de algumas características tipológicas diferenciadas dos padrões habituais, nomeadamente a sua maior espessura, que Zilhão explica pelo facto de se tratar de peças inacabadas, confirma a sua atribuição inequívoca ao Solutrense. (Havia a possibilidade de se tratar de material postpaleolítico, pois a técnica de talhe bifacial, uma vez adquirida, não se perdeu e seria usada até à Idade do Bronze, para a produção de pontas de seta e de alabardas em sílex, por exemplo).  A ausência de outros materiais arqueológicos, pese embora a probabilidade do conjunto poder estar em posição secundária, acaba por trazer plausibilidade à hipótese de estarmos perante um esconderijo de artefactos inacabados, mantidos em reserva e prontos para serem concluídos e usados pelo caçador ou caçadores que regularmente fariam este percurso. É neste aspecto, aliás, que a tese de Zilhão ganha maior colorido histórico-cultural…”O local podia corresponder, com efeito, a um marco importante nos itinerários praticados pelos caçadores solutrenses (viajando em grupo ou individualmente), e que tenha sido essa a razão que os levou a aí acumular utensílios de pedra em antecipação de necessidades futuras…”

O Sr. Filipe Franja, o homem que ao abrir o poço da Fainha, descobriu o conjunto de artefactos "solutrenses". Aqui visitando as sondagens do Outono de 1988.

A minha aventura pessoal no Monte da Fainha

O Professor Marcel Ote, à esquerda, e Jean-Marc Léotard, comigo e com a guarda do Castelo de Évoramonte, em meados de Agosto de 1988. Seria no próprio Castelo que a equipa luso-belga que escavou na Fainha, ficaria instalada durante as cerca de duas semanas de campanha realizada ainda esse mesmo ano.

Não sei se o João Zilhão chegou a visitar alguma vez o sítio do Monte da Fainha mas a pouca informação nova que usa na sua interpretação, e que naturalmente cita, foi-lhe disponibilizada por mim. É que o Monte da Fainha acabou por se cruzar na minha carreira arqueológica…
No dia 10 de Agosto de 1988, nas vésperas da chegada a Portugal de Marcel Ote, professor na Universidade de Liége que me contactara por indicação do próprio Zilhão na perspectiva de desenvolvimento de um projecto de investigação Luso-belga sobre o Paleolítico Superior no Alentejo, resolvi procurar o “Monte da Fainha”. O sítio havia sido descoberto então há 38 anos e era natural que em Évoramonte, houvesse ainda testemunhas do acontecimento. E, com efeito, não encontrei a testemunha mas descobri com facilidade o próprio responsável pela abertura do poço, o sr. Filipe Franja, então com 78 anos ainda bem rijos e que me acompanhou de bom grado. Tomei nesse dia as seguintes notas que transcrevo: “Relocalizei o sítio exacto da estação solutrense do Monte da Fainha, graças ao sr. Filipe Franja, o homem que havia feito o tal poço. Pela descrição das condições da descoberta tudo leva a crer que poderá tratar-se de um acampamento de superfície bem conservado. A área afectada pelo poço é mínima e os materiais referidos nas publicações  devem representar apenas uma parte do que se descobriu e dispersou. Por outro lado há ainda no local vestígios, como prova a descoberta hoje mesmo de mais uma peça solutrense.”



As duas únicas peças solutrenses (jaspe e sílex) recolhidas nos trabalhos de 1988 e hoje depositadas no MNA

Tratava-se obviamente de uma “conclusão precipitada”, mas compreensível. É que ao chegar ao poço, acompanhado pelo sr. Franja, a primeira coisa que vi ao olhar para o chão foi uma pequena ponta de jaspe, de talhe bifacial tipicamente solutrense, o que parecia ser um indício inequívoco não apenas da exactidão da informação topográfica, mas também da esperada preservação do sítio.  E assim, três dias depois, já com Marcel Ote e o seu assistente Jean-Marc Léotard no Alentejo, estava de novo em Evoramonte, tendo ficado decidido nesse mesmo dia que, no âmbito dos trabalhos que planeávamos e que, prioritariamente se centrariam na Gruta do Escoural, faríamos também algumas sondagens na Fainha para identificação e caracterização do que julgávamos então ser um solo de habitat paleolítico, preservado a uma certa profundidade no fundo do vale, próximo de antiga linha de água e coberto por depósitos coluvionares.  A “fé” era tão grande que os trabalhos se iniciaram nesse mesmo Outono, aproveitando o regresso da equipa Belga a Portugal, por ocasião do Colóquio de Arqueologia organizado em Montemor-o-Novo para comemorar os 25 anos da descoberta da Gruta do Escoural, tendo decorrido entre 25 de Outubro e 6 de Novembro de 1988.
Os resultados, no entanto seriam dececionantes, apesar da abertura de quatro grandes sondagens que, cobriram praticamente todas as possibilidades de extensão de um eventual nível arqueológico que nunca apareceu... E mesmo crivando sistematicamente os sedimentos escavados, apenas nos foi possível encontrar uma única pequena peça em sílex, apresentando talhe solutrense que assim se vinha juntar à que recolhera em superfície. Em nova visita ao local, já durante as escavações, o sr. Franja reafirmaria que haveria muito mais material do que aquele que fora publicado por Jean Roche mas insistiu na concentração do mesmo na vala do poço, falando mesmo em “amontoado” de peças. Recordou também que algum tempo depois terá feito uma escavação no exterior junto à parede do poço mas que terá aparecido pouco material. Tratou-se, provavelmente, das referidas escavações de Camarate França e Mendes Correia em 1954, nas quais terão aparecido apenas algumas peças. E de facto, nas nossas sondagens mais próximas do poço, havia evidentes indícios de remeximentos mais ou menos recentes.


Aspectos dos trabalhos de topografia no Monte da Fainha, realizados por Armando Guerreiro, o excelente colaborador da extinta delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão. Em cima, alunos de um curso de assistentes de arqueologia que participaram nos trabalhos, em baixo Jean Marc, à esquerda, e Armando Guerreiro. (1988)
Assim, ainda que cumpridos os requisitos técnicos normais, nomeadamente no que respeita aos registos e relatórios, a equipa luso belga concentrar-se-ia posteriormente nos trabalhos do Escoural, entretanto publicados em Portugal e na Bélgica (“Trabalhos de Arqueologia”, nº8, IPPAR, 1995 e “ERAUL”, 65, Liége, 1996) acabando por deixar inéditos os resultados negativos, ainda que significativos, das escavações no Monte da Fainha. De algum modo Zilhão, acedendo e integrando esta informação na sua interpretação do sítio, acabaria por felizmente colmatar essa lacuna.

Facsímile da resposta de Huet Bacelar, confirmando a existencia de dois artefactos do Monte da Fainha, no Instituto de ANtropologia "Prof. Mendes Corrêa".


Mas não ficou por aqui o meu pequeno mas esforçado contributo para esta malograda história arqueológica. Roche no seu artigo de 68, uma vez que haviam já falecido Mendes Correia e Camarate França, dá como desaparecidos os poucos artefactos (fala numa dezena) que estes terão encontrado nas sondagens de 1954. Valendo-me da minha antiga amizade com Huet Bacelar, então responsável pelas colecções de Arqueologia do Instituto de Antropologia “Pro.Mendes Corrêa”, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, escrevi-lhe pedindo que procurasse eventuais materiais de Evoramonte ali talvez depositados pelo fundador e patrono da instituição.  Na volta do correio recebi a resposta do Huet, informando que de facto havia duas “pontas de seta” (de facto uma “folha de loureiro” inteira e outra partida) provenientes da “Herdade da Fainha, Évora”, oferecidas ao Museu do Instituto em 5 de Outubro de 1957, por Luciano Ribeiro, Camarate França e Pires Soares. Como em 2011, resolvi formalizar a entrega no Museu Nacional de Arqueologia, das duas peças encontradas por mim no Monte da Fainha, o balanço do destino da totalidade do espólio conservado (7 artefactos!) desta importante estação arqueológica alentejana, será o seguinte:

                - dos materiais recolhidos por Luciano Ribeiro, Camarate França, H.Vaultier e Mendes Correia, cujo número total desconhecemos, subsistem no Museu Nacional de Arqueologia, 3 artefactos (adquiridos num leilão por Gustavo Marques e doados ao MNA pelos seus herdeiros); a este pequeno conjunto juntaram-se em 2011, as duas únicas peças obtidas nas sondagens luso-belgas de 2008. No antigo Instituto de Antropologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (hoje ao que julgo integrado no Departamento de Biologia), conservar-se-ão, segundo informação de 1988, os 2 artefactos oferecidos por Luciano Ribeiro (o descobridor da Fainha) Camarate França e Pires Soares.


Jean Marc Léotard desenhando os cortes de uma das sondagens de 1988 no Monte da Fainha













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