sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

HÁ 3500 ANOS EM SÃO PEDRO DO ESTORIL

Graças a uma colaboração informal que já começa a institucionalizar-se fruto da generosidade desinteressada do dinâmico editor da National Geographic portuguesa, Gonçalo Pereira fez-me chegar mais um conjunto de recortes "vintage" de interesse arqueológico, recolhidos no âmbito das suas infatigáveis pesquisas nos arquivos da imprensa portuguesa. Despertou logo a minha curiosidade a notícia sobre as escavações nas Grutas artificiais de São Pedro do Estoril, um sítio arqueológico sobranceiro à praia mas hoje apenas recordado pelos arqueólogos, uma vez que, o que restava daquelas estruturas há muito desapareceu face ao natural recuo da falésia. O recorte da revista "Mundo Gráfico" não traz data, mas depreendendo-se do teor da reportagem que as escavações estavam a decorrer há algum tempo, a publicação datará de Julho ou Agosto de 1944. Com efeito a descoberta feita por Leonel Ribeiro data do final de Abril de 44 e, de acordo com a monografia publicada vinte anos depois, as escavações envolvendo também o nome omnipresente de Afonso do Paço (na altura ainda apenas "capitão") terão decorrido entre Maio e Agosto desse mesmo ano.




Gonçalo Pereira destaca na missiva que acompanhava a oferta, o carácter anglófilo da revista, suportado por verbas inglesas, e cuja edição  fazia parte do "esforço de guerra" britânico de "informação e contra-informação" que tinha no Estoril, como é sobejamente conhecido, um dos epicentros em Portugal. Por curiosidade, refira-se que a publicação dos materiais recolhidos nos dois túmulos escavados na rocha, e que apontam de facto para a cronologia  de 3500 anos que dá título à reportagem do Mundo Gráfico ("campaniforme", o período de transição entre a Idade do Cobre e a Idade do Bronze), acabaria por ser assegurada essencialmente por Vera Leisner, a conhecida arqueóloga alemã a quem a arqueologia nacional tanto deve.

Não sabemos se Vera Leisner terá visitado as escavações de São Pedro do Estoril, embora tal seja possível, pois após a destruição do seu apartamento de Munique (consequência de um bombardeamento aliado) regressara em 1943 com seu marido à Península e concretamente a Portugal (donde estavam ausentes desde a Guerra Civil espanhola). No entanto, no âmbito da preparação daquela publicação, sabemos que revisitou a arriba de São Pedro do Estoril, graças a um conjunto de fotografias recentemente destacadas no âmbito de uma exposição fotográfica comemorativa (Blick, Mira, Olha!) organizada pela delegação de Madrid do DAI (Instituto Arqueológico Alemão). Essa exposição esteve posteriormente em Cascais e é no pequeno catálogo então preparado propositadamente, que recolhemos algumas das imagens das escavações de São Pedro do Estoril, com que ilustramos esta pequena nota de enquadramento ao artigo do Mundo Gráfico.

Capa do catálogo da exposição de Cascais, com Vera Leisner fotografando a falésia de São Pedro do Estoril



Conjunto de fotos do Arquivo da Junta de Turismo de Cascais, ilustrando as escavações de 1944 nas Grutas Artificiais de São Pedro do Estoril. (Reprodução a partir do catálogo referido)

Um apontamento final. A presença de um casal alemão durante a II Guerra Mundial (a partir de 1943) frequentemente isolado em trabalhos de campo, despertou certamente a desconfiança ou pelo menos intrigou muita gente. Até há bem pouco tempo, nomeadamente no Alentejo onde aprofundaram o reconhecimento da respectiva riqueza megalítica (como em Évora e Reguengos), era ainda possível recolher alguns testemunhos populares directos que recordavam as dúvidas e reticências levantadas, sobre o verdadeiro propósito das suas actividades... Nos próprios meios arqueológicos ter-se-ão mesmo forjado alguns "mitos urbanos", ocasionalmente ainda citados, como uma "história" que recordo dos meus tempos de estudante e que davam conta que Georg Leisner, de facto um ex militar que participara em várias campanhas alemãs, particularmente na I Guerra Mundial, seria um agente da "Abwehr", os serviços de inteligência militar alemães e que, por esse motivo, teria sido "eliminado" pelo MI5 em Lisboa, através de atropelamento no final da guerra. Ora Georg faleceu em Estugarda em 1957 com 87 anos, tendo a sua obra arqueológica, nomeadamente a publicação dos monumentais inventários megalíticos da Península Ibérica, sido continuados pela viúva (entretanto ao serviço do DAI, instalado em Madrid a partir de 1954), por sua vez falecida em 1972, por coincidência também aos 87 anos.

ADENDA_ afinal o Gonçalo Pereira teve o cuidado de me enviar a data precisa do recorte do Mundo Gráfico. Trata-se do nº91 de 15 de Julho de 1944.

2ª ADENDA (27 de Abril de 2017)
Já depois de publicado este post em Janeiro, o José d'Encarnação contactou-me, dando-me conta de como ele próprio conseguira as fotos de arquivo da Junta de Turismo de Cascais. Informou-me então que no local das antigas grutas existia um pequeno memorial aos achados dos anos 40 do século passado. Na segunda-feira passada tive oportunidade de confirmar esse facto que desconhecia. Aqui ficam as provas fotográficas:



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