segunda-feira, 6 de junho de 2016

O megalitismo alentejano está mais pobre...

Com coincidência quase matemática, um ano depois da partida inesperada do Pedro Alvim, eis que a investigação sobre o Megalitismo Alentejano regista nova baixa, com o recente desaparecimento de Rui Boaventura. Se bem que neste caso, o desfecho não fosse tão inesperado para os amigos mais próximos, a secura da notícia não deixou de ter no meio arqueológico o mesmo efeito de absurda impotência. Particularmente sentida quando, em ambos os casos, se estava perante colegas relativamente jovens e na sua plena capacidade criativa. O Pedro, depois de alguma busca de rumo, entre a Arquitectura e a Arqueologia, encontrava-se a preparar a defesa de um aguardado doutoramento sobre o Cromeleque dos Almendres, um monumento que já estudara a nível de Mestrado e que tão carente está de novas e inovadoras abordagens científicas. O Rui ainda em Novembro passado, pese embora os avanços e recuos da doença, fora o grande animador do colóquio "Mega-talks- Megaliths and Geology" que teve lugar no Redondo e que reuniu, para além dos principais investigadores portugueses no campo do Megalitismo, grandes nomes da arqueologia internacional como Chris Scarre da Universidade de Durhan (onde Pedro Alvim preparava o doutoramento) ou Mike Parker Pearson, do University College London, conhecido pelas recentes e mediáticas descobertas em Stonehenge. Pessoalmente, julgo foi a última vez que me encontrei com o Rui Boaventura.

Embora estes malogrados colegas, apesar de alguma diferença de idades, pertencessem à mesma geração e compartilhassem o seu interesse entusiástico pelo megalitismo alentejano, a formação e o percurso de ambos era bem diverso. Sobre o trabalho do Pedro e o que significou o seu desaparecimento para a arqueologia alentejana, em particular da envolvente rural de Évora, aqui deixei  testemunho há um ano.  ver aqui 

O Rui Boaventura, por sua vez, vinha da minha Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e fizera parte da aguerrida geração de jovens arqueólogos forjada na intransigente "defesa das gravuras do Côa" e que, por mérito próprio (já que a selecção foi feita por concurso) viria a integrar as primeiras equipas de campo do ex-Instituto Português de Arqueologia, fundado em 1997 e extinto uma década depois. A sua colocação durante alguns anos na extensão do IPA do Crato, deverá ter contribuído para o desenvolver do seu particular interesse pelo megalitismo alentejano, ainda que as circunstancias da vida tenham encaminhado a sua investigação de doutoramento, para o importante (porque muito precocemente estudado pela arqueologia portuguesa) mas hoje pouco conhecido e ainda menos valorizado, megalitismo da região de Lisboa. Este interesse particular pela revisão dos estudos clássicos sobre o megalitismo, a par de trabalhos em monumentos inéditos, primeiro na região de Monforte e mais recentemente na Serra d'Ossa com o seu colega e amigo Rui Mataloto, faziam da sua "expertise", uma importante ferramenta de trabalho (a que a Direcção Regional de Cultura recorria frequentemente) para o processo sempre em construção, de inventariação e salvaguarda, deste património tão vasto como frágil, sempre ameaçado pelas sucessivas transformações dos regimes e modos produtivos nos campos alentejanos. 

Como testemunho sentido e certamente bem melhor informado, aqui transcrevo, com a devida vénia, as palavras do Rui Mataloto, o co-organizador dos "Mega-Talks" do Redondo, companheiro próximo de Rui Boaventura, ilustradas por uma "foto de família" dos participantes no encontro do passado mês de Novembro. 





O Rui é um amigo, um grande amigo, de todos com a frontalidade e naturalidade que lhe conhecemos todos, mas isso ficará para sempre no coração de cada um de nós.
Mas não é disto que vos vou falar. Vou-vos falar de algo que ainda é maior nele, o seu Amor pela Arqueologia, e pelo seu Megalitismo, com M grande, abrangente, que nunca quis resumir às Prácticas funerárias dos IV/III milénio. O Megalitismo era o Ar que respirava. O Rui é e será sempre uma anta, de preferência no Alentejo, no seu Alentejo, que conhecia como ninguém, ao detalhe no entorno de cada Sepulcro, e não monumento.
Quero acreditar que hoje nascerá uma nova anta no Alentejo.
O Rui foi sempre um lutador, sendo a doença apenas, e infelizmente, a sua grande luta final.
O Rui lutou sempre, acreditando em si mesmo sempre, fazendo várias travessias no deserto das quais saiu sempre mais forte e vitorioso. 
A sua capacidade de trabalho, detalhe, rigor e positivismo verdadeiramente Cartesiano, aliada a uma obstinação, verdadeira casmurrice, que partilhávamos numa escala matalotina, como nos disseram, permitiu vencer sempre, à exceçpão de hoje.
O Rui teve um percurso excessivamente breve para tudo aquilo que tomou em mãos: defender e estudar o megalitismo, anta a anta se preciso fosse, mas sempre com uma minúcia e rigor que a mim, e a muitos, nos exasperava. O seu caminho foi feito de sucessivos reveses, sempre impostos por factores externos, desde os tempos de Monforte, ou talvez mesmo antes, mas sempre persistiu, lutando desbravando e abrindo caminho, muitas vezes sozinho, mas quase sempre acompanhado, contra tudo e todos, mesmo contra mim, muitas vezes descrente nas suas vontades, mas não nas suas forças, acabando por ceder e acompanhando-o. 
Esta T-shirt que envergo simboliza tudo isso que o Rui é, pela capacidade de trabalho, iniciativa, inovação e rigor que representa. O MEGAGEO foi a prova de tudo o que era capaz de construir, arregimentando todos, de todas as áreas, em prol de um objectivo único, conhecer melhor o Megalitismo e as antas.
A sua determinação pela memória futura impunha um rigor submilimétrico, com o qual escrutinava cada linha de cada documento antigo procurando nos grandes do Megalitismo o detalhe que exigia a si, enquanto revolvia e punha em alvoroço meio MNA em busca de mais uma peça de uma anta, tantas vezes mal catalogada como só ele se apercebia. No campo, só ele analisava pedra a pedra cada sepulcro, só ele descrevia cada minúsculo detalhe, sempre com a mesma determinação, sempre muito positivo e muito positivista.
Sim Rui, anta será sempre com letra pequena, será sempre ane, cal BC, usaremos o CNS por que sabes que a tua Colmieiro 1 será para mim a anta 1 do Colmieiro.
Quero acreditar que hoje seguirá o seu caminho, lá onde está, procurando Georg e Vera Leisner, Carlos Ribeiro e Nery Delgado, o seu Pae Rocha, ou o José Leite, para retirar dúvidas e obter esclarecimentos. Quando encontrar o Heleno, aquilo não deve ser bonito, imagino o que lhe dirá na cara, como fazia a todos nós …
Para sempre o Rui será aquele amigo que, com os seus Cisco, Gabe e Rodrigo, aparecia ao fim da tarde para irmos com a Raquel ou a Maia, a João e os meus Lourenço e Eduardo, ver mais uma anta e que, à noite, ligava para discutir ainda mais um pormenor. Acabarei dizendo, como sempre, depois de uma hora ao telefone, depois falamos melhor, um abraço camarada.
Uma última palavra: Obrigado Raquel.
(Rui Mataloto)

1 comentário:

  1. Grata por estas Memórias.A História da Arqueologia também se faz aqui.

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