quinta-feira, 9 de junho de 2016

O João Moleiro e o Paleolítico Superior de Rio Maior
O "coup de poing" em silex de Rio Maior que me ofereceu em 1975 o sr. João Moleiro e a nossa "bíblia" paleolítica, à época (Le Paléolithique dans le monde", de François Bordes)

O funcionamento da memória é para mim um mistério, ainda que tenha consciência de que haja explicações científicas, mais ou menos do consenso geral, sobre os mecanismos que a organizam e controlam. Há poucos dias, o Francisco Almeida, um arqueólogo "paleolítico" mas de uma geração um pouco mais recente, divulgou através do Academia.Edu um texto seu de carácter historiográfico-arqueológico que fez de imediato soar as campainhas das minhas memórias pessoais de há quatro décadas atrás...quase meio século. Diga-se desde já, para os que não o conhecem, que o Francisco é um dos mais brilhantes arqueólogos portugueses da sua geração, doutorado nos Estados Unidos, e com relevante trabalho realizado em Portugal (nomeadamente no Alqueva, onde coordenou as investigações sobre o Paleolítico do Guadiana autor de duas monografias, ver aqui) mas que na falta de perspectivas de continuidade profissional, nomeadamente a nível universitário, acabou por emigrar há poucos anos para a Austrália, onde trabalha em Arqueologia e Antropologia, julgo que para um organismo estatal. Felizmente, graças ao facebook, vamos tendo notícias suas frequentes, que mostram uma família feliz do outro lado do mundo, mas não disfarçam uma óbvia e sentida saudade bem portuguesa).

O texto em causa, com um título longo e que pode ser consultado em hfazer o download no Academia Edu , não chegou a ser publicado, mas o Francisco Ameida entendeu em boa hora, divulgá-lo através da plataforma Academia.Edu. Nele é feita uma tentativa de "reconstituição" das práticas metodológicas de Manuel Heleno, o carismático Director do Museu Etnológico, sucessor de Leite de Vasconcelos (hoje Museu Nacional de Arqueologia), nas escavações de um importante conjunto de "estações de ar livre" da região de Rio Maior, ali realizadas entre 1937 e 1942. Diga-se de passagem que este tema já fora objecto de abordagem obrigatória por João Zilhão, no âmbito da sua tese de Doutoramento sobre o Paleolítico Superior da Estremadura Portuguesa. A novidade que nos traz o texto de Francisco é que este, ao contrário de Zilhão, já pode contar com a consulta dos "misteriosos" cadernos de campo de Heleno, finalmente adquiridos pelo próprio MNA no início deste século (2002). Tendo deixado muito escassa bibliografia, sobretudo se comparada com a infindável lista de sítios que sentiram a sua mão ou dos seus colaboradores, o acesso aos cadernos de campo que Heleno guardou consigo (legitimamente?) na altura da aposentação (1966), tornou-se assim numa espécie de Graal da arqueologia portuguesa, cuja posse esclareceria muita coisa. E de facto, ainda que com naturais limitações, a consulta dos ditos, sobretudo no que respeita à identificação e relocalização das mais de três centenas de antas escavadas por Heleno e seus colaboradores, tem-se revelado útil, como o provaram os trabalhos de Leonor Rocha ou do malogrado Rui Boaventura. Nessa mesma linha, consultando os apontamentos de Heleno, Francisco Almeida tenta reconstituir os processos de trabalho, a logística envolvida, os sítios intervencionados e a respectiva metodologia de escavação e registo, daí procurando retirar conclusões que ajudem a contextualizar, tanto quanto possível, os materiais depositados no MNA, muitos dos quais Zilhão teve de tratar em primeiríssima mão (tal como haviam chegado do campo) a quando dos seus estudos dos anos 80. 

Não é meu propósito comentar aqui a abordagem e as conclusões de Francisco Almeida. Os interessados terão oportunidade de aceder directamente ao texto (viva a Internet!). De facto, o tal clic da memória de que falava, despoletou-se quando a certa altura  Francisco Almeida cita o nome de João Moleiro, um dos antigos colaboradores de Heleno em Rio Maior, bem como os contactos havidos com esta personagem (há 41 anos) por membros do GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português). É que, embora tenha alguma dificuldade em reconstituir todos os factos (ao contrário de outros colegas eu nunca consegui enraizar a prática dos tais "cadernos"...), eu fiz parte do grupo que em 1975 (Primavera?) durante alguns dias vagueou por Rio Maior, tendo como "bússola" a lista de "topónimos" publicada por Heleno no seu auto-panegírico texto "Um quarto de século de Investigação Arqueológica"(1956) e as cartas militares (1:25000) da região. Estariam então na equipa também o Francisco Sande Lemos e o José Mateus, mas não me atrevo a citar mais nomes. Nem recordo já como chegámos à fala com o sr. João Moleiro (João Pedro dos Santos, de seu nome,  "moleiro" de profissão e alcunha). As últimas escavações do Museu na região datavam de 1953 e João Moleiro, andaria na altura pelos 50 ou 60 anos de idade. Obviamente já não sou capaz de reconstituir o seu rosto, mas lembro perfeitamente o brilho emocionado dos seus olhos, quando o encontro inesperado com os "jovens arqueólogos", fez despoletar emoções que pareceriam, deslocadas ou desproporcionadas, num camponês quase analfabeto. João Moleiro nesses dias deixou tudo o que tinha para fazer e foi o nosso guia incansável, demonstrando não apenas um grande conhecimento prático sobre os materiais líticos do Paleolítico Superior, mas também o domínio de alguma "terminologia específica", por vezes em "francês", como era prática corrente. E claro, para além de Heleno, tinha conhecido pessoalmente alguns grandes nomes da arqueologia, com destaque para o grande Henri Breuil, o célebre papa da Pré-história Mundial, que nos anos quarenta visitara com Heleno a região. Esta "paixão "inesperada de gente simples pela arqueologia, não é tão rara quanto isso. Pessoalmente tive oportunidade de conhecer ainda outros colaboradores de Heleno ou já de Fernando de Almeida (sucessor de Heleno no MNA), que revelavam o mesmo prazer e interesse quando se falava dessa importante experiencia nas suas vidas passadas. Mas, o caso de João Moleiro, pela sua exuberância, pareceu-me deveras singular e acabou por me ficar gravado na memória de forma indelével. Até porque, apesar da passagem dos anos, o João Moleiro, não perdera o hábito de "olhar para o chão" e, entre algumas coisas que ainda guardava, conservava um bloco de silex da região que, pelo menos formalmente se aproximava da forma do "coup de poing" (termo que sabia usar e que hoje designamos por "biface") e que insistiu muito em me oferecer. 

Nunca tive o hábito de guardar em minha casa materiais arqueológicos, até por questões de deontologia profissional... Mas o "coup de poing" do João Moleiro ainda hoje está na minha secretária de trabalho, servindo de "pisa papéis" e recordando-me todos os dias que o interesse e a curiosidade pelo passado, não é um exclusivo de certas classes sociais ou intelectuais, mas que é algo imanente à nossa própria condição humana.

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