sexta-feira, 22 de janeiro de 2016




A delegação de Évora da firma H. Vaultier (anos 60?)

Maxime Vaultier (1898-1969)


Não é a primeira vez que o Gonçalo Pereira, editor da National Geographic portuguesa, me presenteia amavelmente com “tesourinhos arqueológicos” que vai descobrindo nas suas pesquisas pela velha imprensa portuguesa. Há poucos dias enviou-me um recorte do Diário de Lisboa, de 12 de Julho de 1942 que aproveito para divulgar. 

Trata-se de uma “entrevista” a Maxime Vaultier, uma figura algo “misteriosa” mas quase omnipresente na “bibliografia arqueológica portuguesa” de meados do Século XX, o que me deixou na expectativa de encontrar novos e desconhecidos dados sobre a sua pessoa. Infelizmente, o tom e o conteúdo da entrevista deixa-nos um pouco defraudados, por “culpa” da personalidade do próprio, que apenas por muita insistência do jornalista terá acedido a falar, não sobre si, mas sobre a Arqueologia portuguesa.Considerando-se um simples amador, citará praticamente todos os nomes activos na Arqueologia portuguesa da época. Dá natural destaque à figura de Henri Breuil, o grande pré-historiador francês presente em Portugal durante parte da 2ª Guerra Munidal, que já conhecia de França e cuja estadia, segundo o testemunho de Octávio da Veiga Ferreira publicado na revista ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA, AAP, 9ªsérie, V.II, 1970  (que aproveito para divulgar também), terá sido em parte patrocinada pelo próprio Vaultier.




E aqui podemos começar a falar um pouco do que podemos apurar desta figura que, sem ser arqueólogo de formação, teve um papel tão importante na Arqueologia portuguesa do seu tempo. Apesar de já nascido em Portugal, o seu pai o francês Henri Vaultier, fora o fundador da firma industrial H.Vaultier, empresa muito ligada ao fornecimento de maquinaria diversa à indústria e à agricultura, com expansão a nível nacional (pessoalmente ainda recordo a sua publicidade nas paredes de um loja já abandonada na Praça do Giraldo nos anos 80). Tendo estudado em França, Maxime Vaultier aí terá sido jornalista (a crer no artigo do DL), tendo entrado para a firma do pai a partir de 1922, onde chegaria rapidamente a sócio gerente. Homem de muitos interesses (é um grande impulsionador dos desportos de vela em Portugal) a sua ligação à arqueologia terá começado por volta de 1937, segundo o seu próprio testemunho. Graças à sua fortuna pessoal dispunha de meios que raramente estavam ao alcance dos arqueólogos portugueses, nomeadamente de “grande viatura particular” que muitas vezes colocará generosamente ao dispor dos numerosos amigos arqueólogos que vai conhecendo e apoiando. Estes retribuem como podem, associando o seu nome às publicações que vão fazendo, o que acaba por tornar o seu nome quase omnipresente. Eu próprio já havia confirmado essa situação  quando tive oportunidade de estudar com mais detalhe as circunstancias da descoberta e confirmação da arte rupestre paleolítica da Gruta do Escoural. Com efeito, a primeira publicação de Farinha dos Santos sobre o assunto nas páginas d’O Arqueólogo Português (1964) havia sido recebida pela generalidade dos colegas nacionais, com grande cepticismo, até pela inexperiência do autor neste campo. Terá então sido decisiva a intervenção de M. Vaultier. Eventualmente recorrendo às suas antigas relações com Henri Breuil, recentemente falecido (1961), Vaultier conseguirá convencer o seu sucessor André Glory, na altura a estudar a arte de Lascaux, a vir a Portugal no início de 1965. A viagem foi também patrocinada pela Gulbenkian, mas terá em grande parte sido garantida pelo próprio Vaultier. Glory não esquece esse facto e quando em Maio desse mesmo ano apresentou os resultados da sua expedição ao Escoural, na Sociedade Pré-histórica Francesa, associará à posterior publicação da conferencia, os nomes de Farinha dos Santos e de Maxime Vaultier. Estava previsto que Glory regressaria ao Escoural no Outono seguinte, provavelmente de novo com o apoio de Vaultier que assim continuaria a ligar o seu nome ao Escoural. Infelizmente Glory, morreria num acidente de carro nesse mesmo ano de 1966 e Vaultier, em 1969, ao que depreendo das palavras de Veiga Ferreira, de ataque cardíaco. Um último dado curioso, a propósito da personalidade de Vaultier. Procurando alguma informação complementar na NET, descobri o seu nome num Blog francês que divulga os nomes dos “Combatentes da França Livre”. Julgo que não terá andado na “guerrilha”, mas foi fundador e presidente do Comité português da França Livre.

Um recorte de jornal (?) datado de 1965 (?), relatando uma conferencia de Maxime Vaultier sobre a Gruta do Escoural. Nela Vaultier evocou as suas antigas relações com Henry Breuil e que estiveram na origem do convite que endereçaria a ANdré Glory que visitou o Escoural em Janeiro desse mesmo ano (1965) 

Maxime Vaultier, (em primeiro plano à direita)a ser recebido na Câmara Municipal de Lisboa pelo general França Borges.
O edifício onde está actualmente instalada a Fundação Portuguesa das Comunicações, da autoria do arquiteto João Simões Antunes, já foi uma fábrica e uma central de Telex. Originalmente pertencente ao Instituto Superior Técnico, foi vendido em 1944, por 645 mil escudos, à empresa H. Vaultier & Companhia, ainda na fase de construção. Era constituído por três parcelas, que a Vaultier preferiu ver transformadas numa única estrutura.








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