terça-feira, 18 de outubro de 2016

"Vénus paleolíticas" portuguesas?


Pese embora a importância que a arte paleolítica assumiu no contexto da arqueologia portuguesa, em particular após as descobertas excepcionais do Côa há cerca de duas décadas, incluindo já um núcleo excepcional de "arte móvel" (conjunto de pequenas placas de xisto gravadas do sítio do Fariseu), há um domínio que falta ainda preencher, uma espécie de "buraco negro" à espera que um dia se faça finalmente luz. Refiro-me às estatuetas femininas paleolíticas conhecidas como "Vénus", que têm lugar privilegiado em qualquer História da Arte Universal. É verdade que a bibliografia arqueológica nacional regista dois possíveis exemplares recolhidos no território português, divulgados por nomes bem conhecidos da arqueologia portuguesa da segunda metade do Século XX. Infelizmente, em ambos os casos a falta de contexto conhecido minimamente seguro ou mesmo plausível, impedem a sua aceitação inequívoca como elementos válidos para a nossa história de arte. No exemplar publicado por Farinha dos Santos, estamos perante um pequeno nódulo de sílex encontrado em superfície numa pequena cavidade próxima de Setúbal e conhecida como Toca do Pai Lopes (Santos, "Setúbal Arqueológica", 1981) mas que segundo alguns autores pode ter uma origem exclusivamente natural. No outro caso, publicado por G. Zbyzewski e Octávio da Veiga Ferreira ("Memórias da Academia de Ciências", 1984/85), estamos objectivamente perante um artefacto em osso, semelhante à conhecida "vénus impúdica" de Laugerie-Bass, uma das clássicas jazidas paleolíticas da Dordogne francesa. Relativamente a esta "estatueta" mostrada a Veiga Ferreira por um "tele-espectador" alertado por foto mostrada no programa que aquele arqueólogo teve na RTP no início dos anos 80 (?), uma conclusão mais perentória quanto à sua datação, na falta de qualquer contexto, só seria possível com a análise e datação directa da peça. Esta possível "vénus", cujo destino hoje desconhecemos, apresentava ainda outro aliciante especial... Segundo o respectivo detentor, teria sido descoberta ocasionalmente na "área de Santiago do Escoural", localidade onde se situa a Gruta do Escoural descoberta em 1963, e que durante três décadas (até às descobertas do Côa) manteve a exclusividade da presença de arte rupestre paleolítica em Portugal.

Tudo isto vem a propósito de recentes rumores (convenientemente imprecisos), do aparecimento no "mercado" nacional de antiguidades, de mais uma "vénus paleolítica", segundo consta em "marfim" e supostamente descoberta (?) algures no Alentejo. Segundo as imagens de muito fraca qualidade que circularam em alguns meios, o objecto em causa mostra-se à primeira vista demasiado semelhante a peças bem conhecidas da Pré-história europeia, nomeadamente às Vénus russas de Kostenki, nas margens do Rio Don...

Uma das conhecidas "vénus paleolíticas" de Kostienki (Rússia)

No entanto, face a olhares mais conhecedores, alguns detalhes denunciam a mão de falsário de "artefactos pré-históricos", actividade aparentemente mais comum do que poderíamos imaginar...e que alimentaram algumas "célebres" coleções privadas. Agravando a situação, mesmo que fosse possível peritar uma tal peça num laboratório qualificado, provavelmente nem assim se dissipariam todas as dúvidas. Em primeiro lugar, porque as análises de Carbono 14 em marfim costumam apresentar desvios muito grandes, tornando os resultados inconclusivos. Depois porque o requinte dos falsários pode chegar ao ponto de usarem "marfim fóssil", contrabandeado por pesquisadores furtivos de restos de mamutes congelados, actividade em franco (?) desenvolvimento na Sibéria.

(Porque não é fácil de aceder, tomo aqui a liberdade de difundir em "facsimile" o artigo de Zby e Veiga Ferreira sobre a referida "estatueta do Escoural".)


ADENDA (4 de Novembro de 2016)

Para que não restem dúvidas, João Luis Cardoso (professor, arqueólogo e "biógrafo" de Octávio da Veiga Ferreira) confirmou-me em mail recente que não tem dúvidas de que a chamada "Vénus do Escoural" é uma peça falsa. Não tem notícia do seu paradeiro actual mas poderá estar na posse de Seomara da Veiga Ferreira, filha de O.V.F.

ADENDA (29 de Março de 2017)

Vale a pena aqui referir um caso célebre de falsificação ocorrido em França, relacionado com a "descoberta  numa pequena gruta de Ain, La Genière, de um objecto com um bisonte gravado que se parecia estranhamente  com uma das grandes pinturas de Font-de Gaume, gruta localizada a 50 km. Durante muito tempo considerou-se tal objecto, como uma espécie de esboço perdido por um artista  paleolítico "itinerante". Posteriormente apurou-se que um falsificador aproveitara um decalque feito por Henri Breuil em Font de Gaume, para gravar o bisonte de La Grenière. (relato de André Leroi-Gourhan, em Les racines du monde",1982)







1 comentário:

  1. A nova estatueta é isso mesmo: é nova! Não tenho grandes dúvidas. E o Padre Breuil ofereceu uma estatueta de Isturitz ao M.Vaultier??!! Bons tempos em que se faziam ofertas dessas. Gostava muito de ver esta "figurina" achado nos arredores do Escoural. Não sabes onde pára? Este artigo do Zby e do O. da Veiga é confrangedor... Abraço. AMB

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