quinta-feira, 13 de outubro de 2016

J.R. dos Santos Júnior (1901-1990)

Um dos "berrões do Museu Nacional de Arqueologia


Graças a uma partilha no Facebook do meu colega Domingos Cruz, tive conhecimento de um filme datado de 1933, do espólio da cinemateca, documentando uma excursão aos célebres concheiros de Muge, durante décadas o sítio pré-histórico português mais conhecido e citado internacionalmente, identificado e escavado ainda no século XIX (Pereira da Costa, 1863). Para além do interesse pessoal na temática em si e do pitoresco das imagens, o que me chamou de imediato à atenção foi o nome do "realizador". J.R.dos Santos Júnior. E que eu saiba apenas uma pessoa assinava assim:



Exactamente, Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, uma figura muito especial da arqueologia e antropologia portuguesa do Século XX, hoje um tanto ou quanto esquecida. Nascido em 1901 e com uma formação muito variada, da Medicina à Antropologia, passando pela Química, Zoologia (foi o introdutor da anilhagem em Portugal...) etc...foi também homem de sete ofícios. À data das filmagens em causa, para além de docente de várias disciplinas na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (a sua verdadeira "casa mãe") era preparador-conservador do respectivo Laboratório Antropológico, hoje integrado no Museu de História Natural. Era já então colaborador próximo do Professor Mendes Correia, circunstancia que explica a sua presença em Muge na data em causa, uma vez que coincide com a época das escavações que Mendes Correia conduziu na região de Muge. (Penso que para além do interesse arquelógico, a ligação de Mendes Correia a esta região ribatejana tinha a ver com ligações familiares à família Relvas...)

Não está nas minhas intenções traçar aqui a biografia de Santos Júnior, apesar dos dados disponíveis na INTERNET serem pouco relevantes e a justificarem maior aprofundamento.

De facto, esta pequena nota, acaba por ser o resultado de uma evocação memorialista desencadeada pela "visualização" do filme em causa. Aquilo que parece algo tão remoto (afinal quase a um século de distância), de algum modo ainda se cruza com a minha própria vivência pessoal... É que, nos anos 80, apesar da sua idade, Santos Júnior ainda estava activo e "dava trabalho" ao Departamento de Arqueologia do IPPC, a entidade que superintendia às escavações arqueológicas realizadas em todo o país. Fazia-se então um esforço muito especial no sentido da normalização técnica quer a nível das condições metodológicas dos trabalhos de campo quer dos respectivos registos. Desde sempre que estava assumido que qualquer trabalho de campo implicava a divulgação dos resultados obtidos através da redação de um relatório. Mas enquanto actividade essencialmente "amadora" ou quanto muito supletiva, esses relatórios estavam no início dos anos 80 do século passado longe de obedecer a critérios técnico-científicos aceitáveis. Apesar do seu vasto currículo arqueológico, a partir de certa altura muito centrado nas antigas colónias, nomeadamente em Moçambique e Angola (tive aqui oportunidade de visitar alguns concheiros em 1983 na Barra do Quanza, perto de Luanda, escavados por Santos Júnior ver a propósito), Santos Júnior estava então muito desfasado das exigências que procurávamos impôr na Arqueologia portuguesa, então em fase de grande renovação e desenvolvimento. Com a delicadeza que se impunha face à sua avançada idade e ao seu estatuto de  Professor Catedrático jubilado, tratávamos os seus pedidos anuais para continuação das escavações no Casto de Carvalhelhos, Boticas (iniciadas em 1957), como um caso de  justificada excepção. Já então, com mais de 80 anos, Santos Júnior aproveitava as suas habituais estadias termais  nas proximidades do Castro (Caldas Santas de Carvalhelhos), para ali continuar quase por sua conta e risco, as suas campanhas anuais (quase três dezenas, invariavelmente reportadas na revista portuense "Trabalhos de Antropologia e Etnologia", como "mais uma campanha de escavações no Castro de Carvalhelhos...). Até que um dia de Março de 1986, tive a surpresa de uma visita de J.R. dos Santos Júnior no Departamento de Arqueologia do IPPC, então a funcionar no Museu Nacional de Arqueologia, em Belém. Na caminhada que fazia muitas vezes desde a paragem dos autocarros na Praça frente ao Palácio de Belém, até o Museu, reparara próximo dos Pastéis de Belém num idoso muito aprumado, usando laço mas que se deslocava com alguma dificuldade, amparado por uma bengala. Cerca de meia hora depois de chegar ao Museu, fui chamado à recepção pois um "Professor, de nome Santos Júnior, pedia para falar comigo". Quando desci à entrada do Museu reconheci de imediato o "idoso da bengala" vagueando entre as várias estátuas de "berrões" que na altura estavam armazenados próximo da recepção. Santos Júnior curvava-se perante um dos exemplares ali exposto e apalpando o ventre da estátua, repetia baixinho: será macho ou fêmea?

Conhecia assim pessoalmente Santos Júnior e a sua bengala, retratada centenas de vezes como "escala" nos seus muitos estudos de arte rupestre (quer no Norte de Portugal quer em Angola). Ofereceu-me então um dos seus últimos trabalhos que havia publicado nos Estados Unidos versando precisamente a temática dos "berrões" (ou "porcas" como a de Murça), um dos assuntos a que dedicou um importante estudo "A cultura dos Berrões no Noroeste de Portugal", in Trabalhos de Antropologia e Etbnologia, SPAE, Fasc.4, Vol.22, Porto, 1975.

Em jeito de homenagem, aqui deixo a reprodução facsimile do artigo que Santos Júnior me ofereceu nesse distante 13 de Março de 1986, quatro anos antes do seu falecimento na sua casa da Maia.










1 comentário:

  1. Muito interessante António Carlos! Em 1986 ou 1987, apareceu no SRAZN (já na Rua do Caires) acompanhado do filho, Norberto.Vinha à procura de um pequeno berrão que tinha aparecido em Freixo-de-Espada à-Cinta, e que, segundo o tinham informado, foi-nos entregue. Era verdade, mas o pequeno berrão (hoje no Museu daquela vila) tinha ido para o D. Diogo de Sousa para colar/restaurar.Penso que terá ido ao Museu. Muitos anos mais tarde, em 2008, no Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, em 18 de Abril, fizemos-lhe em Panóias uma homenagem, com a presença da família, e "baptizamos" uma das salas do Centro Interpretativo com o nome dele.

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