sexta-feira, 2 de setembro de 2016


SUZDAL e ÉVORA, cidades Património da Humanidade

 



No âmbito de um ciclo sobre a obra do cineasta russo ANDREI TARKOVSKY, a RTP2 passa esta noite o filme "ANDREI RUBLEV"(União Soviética -1966), por muitos cinéfilos considerado um dos melhores filmes de todos os tempos...

Há dias, ao partilhar um comentário de José António Gomes (http://www.abrilabril.pt/cultura/barry-lyndon-cenas-da-luta-de-classes-ao-som-de-grande-musica) a propósito da reposição da versão restaurada do filme BARRY LYNDON, escrevi no Facebook: Para mim Kubrick é o "realizador"! Entre 2001-Odisseia no espaço e Barry Lyndon hesito...mas acabo por dar primazia ao segundo, graças à banda sonora. Mas, naturalmente, gosto de muitos outros realizadores e Tarkovsky estará certamente na minha "short list", até em contraposição com Kubrick, ainda que seja também possível encontrar paralelismos entre ambas as obras.

Fotograma de "Andrei Rublev", tendo como cenário as muralhas do Kremlin de Suzdal
Recordo, nesse aspecto, que algures no final dos anos 70 ou início dos 80, quando ainda havia cinema num espaço comercial chamado CALEIDOSCÒPIO que surgiu em pleno jardim do Campo Grande frente à Alameda Universitária, ali estiveram durante alguns dias, em sessões duplas seguidas, o "2001 de Kubrick" (1968) e o "Solaris"(1972) de Tarkosky, pondo em excepcional contraponto, um filme de ficção científica "ocidental" e um "soviético"...Não perdi a oportunidade, mas julgo recordar que (pelo tardio da hora!) me deixei dormir durante os intermináveis planos de "Solaris"... Ainda que ambos os autores abordem nestes filmes as profundas questões sobre o sentido da essência humana, contraditoriamente, o "soviético" acabava por ser bem mais espiritualista, já na onda que Tarkovski desenvolveria em obras posteriores.

Ora tudo isto vem a propósito do facto de boa parte do filme que hoje passa na RTP2, ter sido rodado no início dos anos 60, em Suzdal, uma pequena cidade histórica, localizada a 200km a Norte de Moscovo e que integra o chamado "Anel de Ouro da Russia", região profundamente ligada à essência "religiosa" do nacionalismo russo. Graças à riqueza do seu património arquitectónico religioso, nomeadamente o localizado no seu vasto "Kremlin" ("acrópole"), com especial incidência nos séculos XII e XIII, Suzdal integrou de forma precoce as listas do património mundial da UNESCO.



Decorreu dessa circunstancia um especial relacionamento entre Évora e Suzdal, a partir de 1986, ano em que a cidade alentejana seria também reconhecida como Património da Humanidade pela UNESCO. Com efeito, várias delegações de SUZDAL viriam a estar presente nos festivais internacionais "Os Povos e as Artes", organizados em Évora pela Câmara Municipal no final dos anos 80 e que associavam o património às manifestações culturais e tradições populares. A geminação entre Suzdal e Évora data dessa época, tendo proporcionado troca de visitas de delegações entre ambas as cidades. Foi nesse âmbito, integrando de uma vasta delegação de "forças vivas" da cidade de Évora (inequivocamente sem qualquer discriminação política ou outra) julgo que chefiada pelo próprio Presidente da Câmara, Abílio Fernandes, que tive oportunidade de visitar a ainda União Soviética em Julho (?) de 1990. Apesar de uma curta estadia em Moscovo e de uma visita a Vladimir, outra importante cidade histórica vizinha de Suzdal, seria nesta cidade que permaneceríamos mais tempo, visitando de forma demorada o Kremelin, incluindo o seu museu, as igrejas e conventos, o museu da arquitectura em madeira, etc...). Para além da afabilidade das pessoas que nos recebiam nas suas próprias casas, fica-me sobretudo uma imagem de grande ruralidade, numa paisagem verdejante mas fria e de luz mortiça (que associava imediatamente ao filme de Tarkosky que já conhecia então), face à elevada latitude do lugar. As explicações sobre as práticas comuns de "sauna", que aconteciam nos quintais em simples abrigos de madeira e a que se seguiam os mergulhos no gelado Rio Kamenka, ainda mais aumentavam, nos visitantes "sulistas", essa sensação de frieza...
Recepção de parte da delegação eborense numa casa particular de Suzdal (1990)

Ficou também, em muitos dos viajantes eborenses, a sensação de uma estrutura social, económica e política em acelerada desagregação, sem que se percebesse ainda muito bem o que a viria a substituir. Estávamos em 90, praticamente no último ano da "perestroika" de Gorbatchov, e era óbvio que para os locais (talvez por diferentes razões e em função do posicionamento de cada um), Gorbatchov não era propriamente um dirigente muito querido. Por fim, recordo ainda dessa viagem à URSS, o passeio nocturno em Moscovo pela Rua Arbat, em companhia do Dr. José Ernesto, médico respeitado e então ainda Presidente da Assembleia Municipal de Évora, representando a CDU. Por mero acaso, ambos tínhamos lido recentemente o romance de Anatoli Ribakov ("Os filhos da Rua Arbat") uma obra de veemente denuncia do Estalinismo, embora a partir de dentro do sistema, e naturalmente, esse facto, cruzado com a experiencia daqueles curtos dias no coração da velha Rússia, esteve inevitavelmente presente na conversa que então mantivémos. José Ernesto, é sabido, entraria pouco tempo depois em ruptura com o PCP e acabaria por em 2002 ser eleito Presidente da Câmara Municipal de Évora pelo Partido Socialista, cargo que ocuparia durante 3 controversos mandatos, até 2013.

Sobre as relações entre Évora e Suzdal, pouco mais se ouviu falar desde então, ainda que em 2005 tenha sido confirmada a respectiva geminação e em 2007 uma delegação da cidade russa tenha estado oficialmente em Évora.

Para registo aqui ficam algumas fotos de Suzdal em 1990 e que conservo em "slide":





No museu da "arquitectura de madeira"







No Kremelin com a Igreja da Natividade em segundo plano


As cúpulas azuis da Natividade

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