segunda-feira, 7 de março de 2016

A lápide funerária do pretor Quinto Júlio Máximo, cidadão da Tourega




Já neste blog, umas vezes a propósito da sua Igreja cujo significado e mais valia artística recentemente foi posto em relevo por Vitor Serrão, outras a propósito das suas ruínas romanas, aqui tenho referido a Tourega, um conjunto patrimonial menos conhecido fora de portas do que os Almendres ou a Anta Grande do Zambujeiro, mas nem por isso digno de menos atenção.
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Pela minha parte e com o apoio da Junta de Freguesia e de outras entidades, vou tentando promover alguma atenção e cuidado para com este património, na linha da frente do risco de perda, dada a sua peculiar situação de isolamento, circunstância que tem levado ao desaparecimento de uma parcela fundamental do património cultural do Alentejo, vítima desse cancro "causa de todas as desgraças" que dá pelo nome de despovoamento. Participando este fim de semana num colóquio organizado pelo Museu de Arte Romano de Mérida, enquanto orador convidado, foram-me oferecidas várias publicações (mais umas quantas que conto deixar na Biblioteca do meu serviço onde aliás já depositei um nº significativo), entre as quais o catálogo da exposição actualmente no Museu Nacional de Arqueologia "LUSITANIA ROMANA. ORIGEM DE DOIS POVOS". De referir que a exposição foi inaugurada pela primeira vez no Museu Nacional de Arte Romano, em Mérida, onde esteve aberta ao público alguns meses, estando prevista que no final do ano seja apresentada em Madrid no Museu Nacional de Arqueologia, o velho Museu da Calle Serrano, recentemente renovado e ampliado.

Como ainda não tive oportunidade de visitar a exposição, apressei-me a folhear o respectivo catálogo (redigido integral e exclusivamente em Castelhano...a falta de meios do lado de cá, obriga a estas concessões) e qual não foi o meu espanto ao verificar a páginas 162, que um elemento patrimonial de elevado significado e interesse para a história da romanização do nosso território, precisamente proveniente da Tourega, se encontra exposto no MNA, por empréstimo do Museu de Évora, o que significa que dentro em breve estará também exposta em Madrid. Trata-se de uma muito referida inscrição funerária dedicada por uma dama romana, Calpurnia Sabina, ao seu falecido marido, Quinto Junio Máximo, antigo questor da provincia da Sicilia, tribuno da plebe e legado da provincia Narbonense da Galia e finalmente pretor designado. Segundo dizem os entendidos (que esta é matéria em que pouco ou nada me atrevo) trata-se de um cidadão originário desta região que terá atingido os mais elevados cargos administrativos do Império, por alturas no Século III.
As ruínas da villa romana da Tourega com a Igreja e o cemitério em segundo plano


A lápide terá sido recolhida no Século XV ou XVI nas próprias ruínas da Tourega (esta villa seria a casa de campo de tão ilustre família?), sendo já citada por André de Resende na sua obra Antiguidades da Cidade de Évora, publicada nesta cidade em 1553. Durante muito tempo esteve nas paredes da capela de Nª Sª da Assunção da Tourega, de onde foi recolhida a certa altura, a mando de Cenáculo (Arcebisppo de Évora no início do Século XIX e grande amante de antiguidades), cuja coleção está como se sabe na origem do Museu de Évora.

Esta pesença da Tourega em Mérida, agora em Lisboa e ainda este ano em Madrid, passa infelizmente ao lado da população para quem hoje o sítio é apenas o velho cemitério, onde repousam os avós que se vão esquecendo. (Há 30 anos, por acção do meu antecessor no Serviço Regional de Arqueologia, Dr Caetano Beirão, evitou-se a necessária ampliação do cemitério, por causa das ruínas romanas, tendo a autarquia construído um novo cemitério, projecto do meu amigo Arquitecto José Quitério, na estrada de São Brissos.) Pessoalmente procurarei evitar que este facto, que deveria ser um motivo de orgulho identitário passe despercebido perante a população. Para já irei sugerir à Junta que organize ou apoie alguma entidade local que o queira fazer, uma visita conjunta ao Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa, para revermos em conjunto a lápide da Tourega e o contexto em que a mesma está exposta. Estou certo que o Director do MNA, o meu colega e amigo António Carvalho, o tal para quem o seu Museu, é o mais "local" dos Museus Nacionais, receberá os meus vizinhos da Tourega e Guadalupe, de braços abertos.



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