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segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O sítio nº 1 do ENDOVÉLICO

Todos os arqueólogos portugueses sabem o que é o "ENDOVÉLICO", a base de dados arqueológicos que foi buscar o seu nome a uma conhecida divindade pré-romana do SW peninsular e onde são registados os sítios arqueológicos que vão sendo referenciados no território nacional e que hoje conta com mais de 30 000 entradas. Poucos talvez saibam qual o sítio que tem o CNS 1, e ainda menos qual a explicação que está por trás desse facto. 

Embora criada em meados dos anos 90 por uma equipa informática liderada pelo Prof. Ribeiro da Costa da Universidade Nova, a actual base de dados do Endovélico teve atrás de si antecedentes de "papel" que remontam aos anos setenta, à então Direcção Geral do Património Cultural. Com efeito data de 1976 a primeira tentativa séria de organização de uma "Carta Arqueológica de Portugal", facto que já evoquei neste blog http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/01/do-projecto-da-carta-arqueologica-de.html. Seria no âmbito desse projecto que Judite Cavaleiro Paixão, licenciada em História mas com a especialização em BAD (Bibliotecas, Arquivo e Documentação) contratada especificamente para esse efeito em 1976, procuraria introduzir um sistema convencional de recuperação e organização da informação arqueológica que passava pelos serviços da SEC (cartas, ofícios, requerimentos, relatórios, recortes de imprensa, etc...), material que serviria de apoio á gestão corrente mas que, em última análise consubstanciaria o suporte documental da "Carta Arqueológica de Portugal". Numa época em que a informática, pelo menos entre nós, pouco adiantaria neste campo, o passo seguinte, previsto na proposta da Judite Paixão, passava pela "microfilmagem" sistemática de toda a informação, o que permitiria a prazo, uma busca mais rápida da informação para efeitos de gestão ou investigação. Para esse efeito JCP desenvolveu toda uma proposta de organização que seria editada em 1980 pelo próprio IPPC, entretanto criado em substituição da DGPC. 



Nomeada em 1980 "Chefe de Divisão de Documentação e Inventário" do Departamento de Arqueologia do IPPC, entretanto instalado no Museu Nacional de Arqueologia no final desse ano, seria nesse âmbito que JCP, coordenando uma pequena equipa, iria concretizar a sua proposta. Cada sítio arqueológico dava origem a uma "ficha informativa principal" com os dados básicos disponíveis sobre a mesma, a que se juntavam depois fichas complementares onde seriam referenciados e comentados todos os documentos relevantes sobre o sítio. Completavam a documentação de cada sítio, guardada numa caixa arquivador tipo A4, fotos quando existentes, e a localização num extracto da respectiva carta militar portuguesa, na escala 1: 25 000. Naturalmente era necessário arrumar a caixa e conhecer a sua localização em caso de necessidade de consulta ou de complemento dos dados, e para isso existia o nº básico de "ordem" de preenchimento, ou seja o antecedente do actual CNS, Código Nacional de Sítio. E, por mero acaso, a ficha nº1 a ser preenchida correspondeu a um obscuro sítio arqueológico romano, "Alto da Cidreira" descoberto na altura e por acaso nos arredores de Cascais no meio de uma "urbanização clandestina". A troca de ofícios entre a Câmara Municipal e o IPPC, bem como algumas notícias na imprensa, haviam dado origem a um processo administrativo então em curso, que foi usado por JCP como modelo ou protótipo do que seria a futura base do "serviço de documentação e informação arqueológica". O sítio entretanto escavado e estudado por José d'Encarnação e Guilherme Cardoso, viria a ser classificado em 1992, mas as circunstâncias da sua descoberta e localização, ainda hoje se reflectem nas suas precárias condições de preservação. A título de curiosidade anexamos os links para a actual ficha do Endovélico (CNS1), para a ficha de classificação da DGPC e ainda para um inventário de iniciativa particular, associado ao conhecido blog "Portugal Romano":




Alto da Cidreira_ foto "Portugal Romano"

E, já agora, a listagem dos primeiros 10 sítios do CNS do ENDOVÉLICO, todos eles herdeiros da primeira listagem trabalhada pela equipa de Judite Cavaleiro Paixão e, certamente, selecionados já por atributos algo diversos aos do Alto da Cidreira:

CNS 1- Alto da Cidreira, Cascais
CNS 2- Ruínas romanas de Tróia, Grandola (Sítio onde JCP e seu marido António Cavaleiro Paixão trabalharam com Fernando de Almeida);
CNS 3- Ruínas de Pisões, Beja
CNS 4- Ruínas de Miróbriga, Santiago do Cacém
CNS 5- Ruínas romanas dos Casais Velhos, Cascais (não muito longe do Alto da Cidreira)
CNS 6- Citânia de Sanfins, Paços de Ferreira
CNS 7- Barragem romana do Muro dos Mours, Serpa
CNS 8- Ruínas de São Cucufate, Vidigueira
CNS 9- Ruínas romanas de Milreu, Faro
CNS 10- Castelo de Castro Laboreiro, Melgaço

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Do projecto da Carta Arqueológica de Portugal ao “ENDOVÉLICO”, passando pela “messe” dos cadetes de Mafra



Há momentos que, por uma qualquer razão especial, perduram indelevelmente na nossa memória. O exemplo clássico, para a geração dos cinquenta ou mais, está definitivamente retratado na célebre pergunta do jornalista Baptista – Bastos, “onde é que você estava no 25 de Abril?” Ontem, ao consultar um velho processo da “primeira” Direcção Geral do Património Cultural (primeira, porque após um longo périplo de 3 décadas, temos hoje de novo uma DGPC!), deparei com um Relatório de 1976, assinado pelo saudoso Dr. Nunes de Oliveira, que dava conta das conclusões de uma reunião da Comissão para a CAP (Carta Arqueológica de Portugal) de que faziam parte, entre outros os Drs. Bairrão Oleiro e Jorge de Alarcão, com a Fundação Calouste Gulbenkian, representada pelo Dr. Artur Nobre de Gusmão, então director do respectivo serviço de Belas-Artes. Ainda que aquele ambicioso projecto contasse essencialmente com o apoio financeiro da Fundação, resulta da leitura deste documento que aquela entidade, esperava que o Estado, através da DGPC, reforçasse a respectiva participação com meios humanos e técnicos. Previa-se então, segundo consta do referido relatório,  a formação de quatro equipas de campo que seriam dirigidas pelos arqueólogos Vitor Oliveira Jorge, já então na Universidade do Porto, Victor Gonçalves e  José Morais Arnaud, da Universidade de Lisboa e ainda de António Cavaleiro Paixão. A participação deste último, acabado de chegar de Moçambique onde lecionara na Universidade de Lourenço Marques, estava, no entanto, dependente da respectiva contratação pela DGPC, o que viria a acontecer ainda em Julho desse mesmo ano de 1976. Naturalmente, seria necessário congregar novos elementos para constituir as quatro equipas de campo e, nessa reunião, falava-se já da organização de um curso para jovens prospectores com esse objectivo o qual, no entanto apenas viria a concretizar-se no ano seguinte. É aí que a memória selectiva funcionou no meu caso: recordo exactamente o sítio onde estava há quase quarenta anos, quando por mero acaso, deparei com o anúncio de jornal que publicitava as inscrições para participação no curso. Terá sido num fim de tarde de Setembro ou Outubro de 77, no Convento de Mafra, frente a uma "mini" ao balcão da “messe” dos cadetes do curso de oficiais milicianos de infantaria, um tugúrio localizado no nível térreo do gigantesco e labiríntico convento, ao lado de um corredor tão largo que nele ainda circulavam os velhos Jeeps retornados da guerra colonial, a caminho da armaria para montar ou desmontar os canhões sem recuo de 120mm (?). Em termos objectivos, aquela que parecia ser a primeira oportunidade que se me deparava de poder afinal seguir uma carreira profissional ligada à arqueologia, coisa que até então parecia impossível em Portugal, surgia no momento mais inoportuno que poderia imaginar: em pleno serviço militar obrigatório, que pese embora os recentes 25 de Abril e de Novembro, continuava a ser um “intervalo” muito concreto na vida dos jovens portugueses. É portanto, fácil imaginar a frustração sentida.
O anunciado curso de “prospectores” acabou por realizar-se ainda que com muitas peripécias pelo meio que outros meus contemporâneos que nele participaram poderão um dia relatar, o que não impediu que o projecto da CAP apoiado pela Fundação Gulbenkian viesse a revelar-se um tremendo fiasco. De facto, pese embora o voluntarismo e a competência dos envolvidos, bem como algum dinheiro da Gulbenkian ainda investido, a inexistência de um adequado enquadramento institucional, revelava-se fatal para responder às complexas questões técnicas e logísticas que um empreendimento nacional daquela natureza, implicava. Em termos práticos, o projecto CAP apoiado pela Gulbenkian não foi além de algumas semanas de trabalho, de um reduzido número de arqueólogos, concretizado entre Oriola e Alvito (local escolhido porque estava em construção a respectiva Barragem) e o próprio conceito de uma Carta Arqueológica, assumida como um projecto de âmbito nacional, ainda que inscrito no programa inicial do Departamento de Arqueologia do IPPC criado no Outono de 1980 (e com o qual deparei com a segunda e definitiva oportunidade de me profissionalizar) viria a ser abandonado e substituído pelo conceito de um inventário nacional dinâmico, hoje materializado na base de dados informática do ENDOVÉLICO.