quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O CHICO SERPA, entre REGUENGOS e GUADALUPE



Há algumas semanas, de férias no Algarve e a caminho de Sagres, resolvi parar na ermida de Nª Sª de Guadalupe (Raposeira, Vila do Bispo), pequena jóia gótica cuja envolvente foi há alguns anos objecto de uma cuidadosa intervenção de requalificação e valorização pela Direção Regional de Cultura do Algarve. Obviamente, não desconhecia que durante muitos anos aquele sítio fora o "posto" de trabalho do meu velho amigo Francisco Serpa, onde várias vezes Rafael Correia, a autor do conhecido programa da Antena 1, "Lugar ao Sul", o procurava por causa das saborosas histórias que o Chico sempre contava. No entanto, conhecedor dos problemas de saúde por que passara, julgava-o já reformado... Mas, felizmente, enganei-me. Ao aproximar-me da recepção, reconheci de imediato a figura do amigo Chico Serpa que continua, com o entusiasmo e a verve de sempre, firme no seu posto da Guadalupe Algarvia.
O Chico Serpa, fazendo de porta-miras nas escavações do Xerez de Baixo em 1979

Mas o Chico, não é de Serpa! Conheci-o há muitos anos, mais propriamente em 1979, em Reguengos de Monsaraz, a sua terra de origem, no âmbito de uma escavação arqueológica que promovi com o Luis Raposo na zona do Xerez de Baixo, como já lembrei noutro post  Ver aqui . Curiosamente, ainda fiz a viagem entre Lisboa e Reguengos de Monsaraz por comboio (ferry para o Barreiro, comboio até Casa Branca, automotora até Évora e nova mudança para Reguengos...uma aventura de muitas horas). Estava à minha espera na estação, com um Ford Capri vermelho que já conhecera melhores dias, o Chico Serpa então colaborador da Câmara Municipal. Após as apresentações (já não recordo como nos reconhecemos, pois era o nosso primeiro encontro) levou-me directamente para Monsaraz,  para o sítio da escavação, na qual ele estava já a colaborar conjuntamente com outro conterrâneo, o Rafael Alfenim, então a iniciar os estudos de arqueologia e história em Coimbra.

O Chico Serpa sobre a laje de cobertura da "Anta da Candeeira" (Aldeia da Serra, Redondo), monumento inconfundível graças à invulgar "janela" do esteio principal. A foto deverá datar de Agosto de 1988, altura em que o Chico me apoiou como guia numa visita do Professor Marcel Ote e do seu assistente Jean Marc Léotard ao Alentejo, a quando dos preparativos para uma futura missão arqueológico Luso-Belga, concretizada entre 1998 e 1992 na Gruta do Escoural e no Monte da Fainha. Neste caso o Chico procurava mostrar-nos as "covinhas rupestres" muito comuns nestes monumentos.


A partir de então e até se mudar definitivamente para o Algarve década e meia depois, o Chico Serpa enquanto assistente de arqueologia, mais por paixão do que por formação, irá aparecer em tudo o que era projecto de campo promovido ou apoiado pelo Serviço Regional de Arqueologia do Su, tanto no período até 1987 quando o serviço era dirigido por Caetano Melo Beirão, como já sob a minha direção. Mas seria com Mário Varela Gomes, primeiro nas escavações do Cromeleque dos Almendres e da Portela de Mogos e mais tarde em várias intervenções promovidas na zona de Monsaraz, para a Fundação da Orada, que se consolidaria a sua definitiva ligação à salvaguarda do Património Cultural, "missão" que ele assumia sempre de forma tão viva e e por vezes conflituosa, que chegava a ser contraproducente... A transferência do Rui Parreira no início dos anos 90 para a Direção Regional de Faro, arqueólogo com quem o Chico também colaborara em Évora, acabou por proporcionar a sua mudança para a região, tendo sido colocado na guardaria da Fortaleza de Sagres e, posteriormente, no presente posto de Guadalupe, na Raposeira. Esta circunstancia viria finalmente proporcionar alguma estabilidade e serenidade profissional ao Chico o qual, quer por temperamento, quer pela precariedade do "trabalho a recibo", atravessara até então fases complicadas.

O Chico Serpa, na actualidade, no seu posto de trabalho na Ermida de Guadalupe (Raposeira, Vila do Bispo), cujos segredos vai desvendando em muitas páginas de escritos que promete um dia divulgar

Por coincidência, terá sido numa outra Guadalupe, próxima de Évora (o topónimo está bastante difundido no Alentejo, ondes são comuns as ermidas com esta invocação, nomeadamente na Vidigueira e em Serpa, por exemplo) que o Chico Serpa terá aprofundado a sua muito peculiar ligação à Arqueologia. Ao colaborar durante largos meses nas escavações de Mário Varela Gomes no Cromeleque dos Almendres, que ocorreram em sucessivas campanhas entre 1986 e 1990, o Chico ficaria longos períodos alojado no antigo Monte da Herdade, mantendo estreitas relações com os trabalhadores locais, alguns dos quais participavam nas escavações. Aliás, recentemente, ao recolhermos os testemunhos de alguns desses trabalhadores, confirmámos que a memória da passagem do Chico Serpa pelos Almendres, ainda estava bem presente, como comprovam as décimas do Ti Cristéta que então registámos e que podem aqui ser revistas: 

(...)

O Cromeleque dos Almendres
Merecia uma sentinela
Foi restaurado plo Chico Serpa
E plo Doutor Mário Varela

Está uma obra muito bela
Foi feita por seres humanos
Diz que tem cinco mil anos

Respeitem-no bem visitantes
Porque a abusar um bocadinho
Já aqui estiveram dois amantes

(...)

Por curiosidade, encontrei na Internet uma referencia ao Chico Serpa, a propósito do antigo e conhecido programa de Rafael Correia, "Lugar ao Sul", onde muito antes do conceito do "património imaterial" ter entrado na gíria cultural, se fazia há muito a sua divulgação e  preservação, através do registo radiofónico. Não sei quantas vezes o Chico terá sido entrevistado pelo Rafael Correia. Mas, graças ao "jingle" de apresentação do programa, ouvi frequentemente na Rádio, aos sábados de manhã, o seu característico sotaque reguenguense,"falando"nos "silex" dos Almendres:

http://nossaradio.blogspot.pt/2009/07/lugar-ao-sul-um-programa-patrimonio.html

 E o Sr. Chico Serpa (“Franciscos são os macacos”), guarda do IPPAR na capela de Nossa Senhora de Guadalupe, que fez escavações arqueológicas em recintos megalíticos ao lado do Dr. Mário Varela Gomes, e que sempre que abre a boca é uma autêntica lição de História (retive o esclarecido paralelismo que estabeleceu entre o culto egípcio de Ísis e o culto mariano).



2 comentários:

  1. Conheci o Chico Serpa em finais dos anos '80 e durante muitos meses vivi na sua casa de Reguengos quando «estacionei» uns meses pelo SRAZS (era assim a sigla?). A arqueologia e a história para ele eram olhadas como caminhos para «outras» leituras muito influenciadas pelo seu contacto com o Dr. Pires Gonçalves. Os Ttemplários... Encontrei-o há poucos meses em Portel. Igual. Apenas o louro embranqueceu. Os caminhos mágicos continuam a incomodá-lo. E eu tenho alguma dívida para com ele. E para com o Armando Guerreiro.

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    1. Olá Paulo. Julgo que todos (os daqueles tempos especiais do SRAZS...) devemos algo à quase infinita generosidade do Chico Serpa. Quanto ao Armando, ele esteve uns anos "emigrado" na Catalunha, a exercer o seu metier de topógrafo em obras públicas mas entretanto voltou e vive com a mulher (Marisa) na terra desta, ou seja lá para a zona de Aveiro (Murtosa?). Já não os vejo há alguns anos.

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