sexta-feira, 23 de junho de 2017


António Cavaleiro Paixão

Recordando um amigo e um colega



Está finalmente editado e pronto a ser apresentado mais um volume da já centenária revista "O Arqueólogo Português", fundada por Leite de Vasconcelos no início do século passado. Como habitualmente, sem que grande mal venha daí ao mundo, o número em causa surge com um atraso significativo, já que respeita aos anos de 2014-2015. Tal circunstancia explica que também apenas agora se cumpra uma tradição da mais importante revista arqueológica nacional, assinalando-se na presente edição, o desaparecimento de um arqueólogo com especial ligação ao Museu Nacional de Arqueologia, a entidade desde sempre responsável pela edição. Refiro-me ao arqueólogo António Cavaleiro Paixão, falecido em 2014, e cuja memória é assinalada nesta edição, através da publicação de um texto que, por convite do actual Director, António Carvalho, tive a honra de preparar. A leitura do mesmo, que aqui reproduzo, enriquecido por algumas fotos pouco conhecidas, permitirá compreender porque é que aceitei, de alma e coração, a tarefa que me foi proposta.





“IN MEMORIAM”
António Cavaleiro Paixão 
(23 de Abril de 1939-29 de Maio de 2014)

António Manuel Cavaleiro Paixão, arqueólogo falecido em Maio de 2014 após prolongada doença, foi uma figura determinante no contexto do desenvolvimento da arqueologia pública em Portugal no último quartel do Século XX. Com efeito quando em 1980, após a criação do Instituto Português do Património Cultural (IPPC), foi finalmente possível começar a erguer estruturas técnico-administrativas capazes de responderem aos desafios da salvaguarda e valorização do património arqueológico no território português, a geração que se abalançou nessa tarefa - e da qual me orgulho de fazer parte- não partia do zero. Já então no seio da Administração Pública, quer em gabinete quer no terreno, um par de arqueólogos ainda que enfrentando imensas dificuldades, procurava há algum tempo fazer a ponte entre o passado anquilosado e inoperante das estruturas consultivas da extinta Junta Nacional da Educação e as crescentes ameaças que a urgência da recuperação de meio século de subdesenvolvimento colocava à defesa dos vestígios arqueológicos. Entre eles destacava-se já o António Cavaleiro Paixão. Pertencia a uma geração etária um pouco mais velha, mas foi contemporâneo na Faculdade de alguns dos arqueólogos que então se destacaram no processo de transformação da Arqueologia portuguesa e que, como ele, tinham encontrado acolhimento e apoio no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia ao tempo do Director Fernando de Almeida. Esta circunstância, associada a uma actualizada formação e a um invulgar currículo de campo, habilitaram-no no momento certo, a ser um precioso interlocutor entre a Administração e as novas gerações de arqueólogos. Para tal contribuíram as suas reconhecidas qualidades humanas de afabilidade, modéstia e bom humor que faziam de si, pese embora a diferença de idade ou de estatuto profissional, um colega sempre pronto a partilhar experiências ou a responder a novos desafios, sem suspeições estéreis ou segundas intenções. Reforçavam aquelas características um elevado sentido de serviço público, que se traduziriam ao longo da sua carreira quer na actividade como docente de Arqueologia quer nas funções que assumiu nas organizações científicas a que pertenceu, com destaque para a Associação de Arqueólogos Portugueses, de que foi vice-presidente entre 1979 e 1987 ou para a Sociedade de Geografia de Lisboa, onde dirigiu até 1990 a respectiva secção de Arqueologia. Tive o prazer de ser seu colega no IPPC durante quase uma década e a honra de ter sido seu superior hierárquico durante algum tempo, enquanto director do Departamento de Arqueologia, pelo que foi com sentido de dever e quase como obrigação moral, que aceitei o convite do Director do MNA para redigir este mais que justificado “in memoriam” esperando que o mesmo contribua para consolidar a ligação do seu nome a esta prestigiada revista e ao Museu onde, como colaborador, iniciou há meio século a sua carreira de arqueólogo.

António Cavaleiro Paixão, à esquerda, divertindo-se num intervalo das escavações da Lorga de Dine (Vinhais) em 1964. A foto, provavelmente da autoria do próprio Carl Harpsöe, chegou-me através do malogrado arqueólogo Rui Boaventura

António Cavaleiro Paixão nasceu em Lisboa em 23 de Abril de 1939, filho de um funcionário público oriundo de Torres Novas, Manuel Alexandre Paixão e de mãe lisboeta, Dália da Luz Cavaleiro. O seu interesse pela arqueologia, conforme o próprio refere em nota curricular constante do seu processo de funcionário público, remonta a 1959 altura a partir da qual participa com regularidade nas actividades do departamento de paleoetnologia da Sociedade Portuguesa de Espeleologia (SPE), dirigido por Carl Harpsöe. Sob a direcção deste arqueólogo e espeleólogo amador, de origem dinamarquesa mas há muito radicado em Portugal, António Cavaleiro Paixão irá ter as primeiras experiências práticas de escavação, nomeadamente na Lorga de Dine (Vinhais, Bragança) em 1964 e na Gruta de Ibn-Ammar (Mexilhoeira, Lagoa) em 1965. Como colaborador da SPE participou também nos trabalhos de reconhecimento subsequentes à descoberta da Gruta do Escoural (1963), nos quais Carl Harpsöe teve um papel importante no apoio logístico e técnico a Farinha dos Santos na sua deslocação ao Escoural em nome do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia e a pedido do Prof. Manuel Heleno. Para além de ter participado no primeiro levantamento topográfico da gruta, realizado em 1964, Cavaleiro Paixão teve oportunidade de em Janeiro de 1965, colaborar nos trabalhos de levantamento da arte rupestre realizados no Escoural pelo conhecido arqueólogo francês André Glory, aquando da sua visita a Portugal no contexto da controvérsia sobre a cronologia dos vestígios rupestres entretanto ali identificados por Farinha dos Santos. Pessoalmente, estou em crer que a oportunidade de colaborar directamente com um especialista de renome internacional como Glory, então a estudar a famosa Gruta de Lascaux, poderá ter sido determinante na vocação arqueológica de António Cavaleiro Paixão.

António Cavaleiro Paixão, com André Glory, durante o reconhecimento efectuado pelo conhecido arqueólogo francês na Gruta do Escoural, em Janeiro de 1965

De facto, após uma curta passagem pela vizinha Faculdade de Direito, António Cavaleiro Paixão inscrevera-se em 1963 na Licenciatura em História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na época e ainda por muitos anos, a única via possível de se obter em Portugal uma formação superior abrangendo disciplinas arqueológicas. Dadas as naturais limitações teóricas e práticas do curso, face à sua amplitude temática, Paixão procurava no trabalho voluntário de campo, o indispensável complemento formativo. Assim, em 1966, talvez pela mão de Fernando de Almeida que patrocinava o projecto na Junta Nacional de Educação, teve oportunidade de integrar o grupo de estudantes portugueses que participou nas grandes escavações do Castro do Zambujal (Torres Vedras) promovidas pela delegação madrilena do Instituto Arqueológico Alemão, sob a direção científica de Hermanfrid Schubart e Edward Sangmeister, da Universidade de Friburgo. Quer pelo elevado nível metodológico da escola alemã, quer pelo número e interesse dos participantes, a escavação do Castro do Zambujal ficou conhecida como a escola prática da moderna arqueologia pré-histórica portuguesa. Ainda na sequência desta experiência e a convite dos arqueólogos alemães, Cavaleiro Paixão teve também oportunidade, de estagiar algum tempo nas escavações da necrópole fenícia de Toscanos (Málaga), o que lhe permitiu um primeiro contacto com uma realidade arqueológica a que pouco tempo depois, por sugestão do próprio Fernando de Almeida, se dedicaria a fundo em Alcácer do Sal. Com efeito, o interesse, gosto e disponibilidade da parte do aluno Cavaleiro Paixão por esta disciplina, então profissionalmente muito pouco atrativa, terá chamado a atenção daquele professor que acabara de substituir Manuel Heleno na Cátedra de Letras e na direção do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia (1966). De personalidade bem distinta do antecessor, o novo diretor irá ver nos mais jovens, nomeadamente nos seus alunos, a possibilidade de romper com a imagem de imobilismo e secretismo que o Museu de Belém granjeara com as célebres “reservas”, inacessíveis durante décadas. É esta nova atitude de abertura e confiança da parte do mestre, conjugada com as qualidades e a experiência efectiva de campo já demonstradas pelo aluno, que explicam a extraordinária proposta de tema de dissertação sugerida a Cavaleiro Paixão: o estudo arqueológico da Necrópole Proto-histórica do Senhor dos Mártires em Alcácer, escavada meio século antes por Virgílio Correia por conta do Museu, mas cujos materiais apesar da sua enorme importância científica, se mantinham inéditos. Para qualquer pessoa minimamente informada sobre a realidade arqueológica portuguesa da época, aquela proposta só pode ser entendida como demonstração de uma grande confiança neste aluno e nas suas potencialidades, e como aviso público de que, daí em diante e sob a sua orientação, não haveria temas ou materiais tabus no Museu.

Respondendo corajosamente ao repto do Professor e garantido o seu indispensável apoio na Junta Nacional de Educação, Cavaleiro Paixão não apenas retoma o estudo dos materiais de Virgílio Correia, como entre 1967 e 1968, procede a novas escavações em Alcácer do Sal próximo do Santuário do Senhor dos Mártires, as primeiras que dirigirá durante a sua longa carreira. Face à ausência de dados concretos das escavações de Virgílio Correia (1925-27), nomeadamente de dados topográficos e estratigráficos, o plano que pôs em prática visava antes de mais a relocalização da necrópole e a descoberta de novas sepulturas em contexto estratigráfico. Numa primeira sequência de sondagens os seus esforços foram infrutíferos, mas posteriormente, conjugando dados de observação do terreno com informação oral recolhida localmente, viria a descobrir e escavar oito sepulturas de incineração que lhe proporcionaram dados essenciais para a sua dissertação. Com efeito, as sepulturas escavadas apresentavam um significativo conjunto de materiais da II Idade do Ferro, na sua maioria metálicos, incluindo ainda três pequenos escaravelhos de tradição egípcia, o que não sendo uma novidade no caso de Alcácer do Sal, vinha confirmar a importância do seu porto nas ligações com o mundo mediterrânico, ao longo do último Milénio antes de Cristo.

Significativamente, ainda no contexto destes trabalhos de campo em Alcácer do Sal, Cavaleiro Paixão, seria pela primeira vez confrontado com a necessidade de dar resposta a uma “emergência arqueológica”, uma situação com que viria a deparar-se amiúde ao longo da sua futura carreira profissional. De facto, no âmbito de obras municipais de alargamento da Azinhaga do Senhor dos Mártires, viu-se compelido a escavar diversas sepulturas da vizinha necrópole romana, descoberta no decurso da obra. Anos mais tarde, durante as décadas de setenta e oitenta, perante os avanços das novas urbanizações associadas a esta azinhaga, Cavaleiro Paixão viria ciclicamente a intervir neste local de antiga tradição funerária, já como arqueólogo ao serviço da Administração Pública. Foi também nesta intensa fase de trabalho de campo, coincidindo com o período final da frequência do curso de História e a preparação da sua dissertação, que Cavaleiro Paixão tomou pela primeira vez contacto com as ruínas romanas de Tróia. Com efeito, em 1968 coadjuvou Fernando de Almeida na escavação de diversas sepulturas paleocristãs desta importante estação arqueológica do estuário do Sado, iniciando um ciclo de investigação que acompanharia praticamente toda a sua carreira. Naturalmente, em 1969 e 1970 concentra-se nos preparativos da dissertação. Analisa e descreve os materiais depositados no Museu Nacional, no Instituto de Arqueologia de Coimbra e no Museu Municipal de Alcácer do Sal, bem como o das suas próprias escavações, em especial o importante conjunto metálico, que incluía cubos e arreios de carros, armas, jóias e objetos de adorno, promovendo a sua análise metalográfica e usando os dados obtidos nas suas conclusões. Por fim, tirando partido dos contactos estabelecidos no Zambujal e em Toscanos com a delegação madrilena do Instituto Arqueológico Alemão, obtém do seu director Helmut Schlunk autorização para aí estagiar durante um mês, com livre acesso à valiosa biblioteca, cuja consulta se revela preciosa para o tema que investiga. Naturalmente, aproveita a proximidade do Museu Arqueológico de Madrid e a solicitude do seu Director Martin Almagro para usar também a respectiva biblioteca e aceder ao departamento de restauro para observação e estudo de espólios de Ávila e de Granada que lhe interessam.

Capa da tese de licenciatura de António Cavaleiro Paixão


Em 29 de Julho 1970, conclui a licenciatura em Ciências Históricas com a defesa da sua dissertação de licenciatura, dedicada “com muita consideração e estima”, ao Professor Fernando de Almeida, mas não esquecendo no prefácio outros professores que o terão marcado particularmente, como Virgínia Rau, Borges de Macedo e ainda Jorge de Alarcão, da Universidade de Coimbra, neste caso pelas facilidades de acesso aos materiais de Virgílio Correia, depositados no Instituto de Arqueologia. Tinha então 31 anos, revelando-se esse ano determinante para toda a sua futura vida pessoal e profissional. De facto, ainda em 1970 apresenta-se com duas comunicações sobre a necrópole de Alcácer do Sal, ao 2º Congresso Nacional de Arqueologia realizado em Coimbra, uma das quais em conjunto com Judite Cavaleiro Paixão, a colega de curso com quem casou também nesse ano, a mãe dos seus dois filhos, Gonçalo e Susana e companheira de toda a vida. Também nesse ano seria admitido como técnico estagiário, na Junta de Investigações do Ultramar, entidade que através do Centro de Estudos de Etnologia do Ultramar integrava algumas componentes de investigação antropológica e arqueológica ultramarina cuja tradição remontava a Mendes Correia que chegara a ser seu Presidente e que conhecera nos seus quadros nomes como o de José Camarate França ou Santos Júnior. A sua permanência na J.I.U. seria, no entanto, de curta duração, de Maio de 1970 a Dezembro de 1971, prelúdio para outros voos. No final de 1971, António Cavaleiro Paixão foi contratado como Assistente da recentemente criada Universidade de Lourenço Marques (Moçambique), para onde parte acompanhado pela esposa, no início de 1972. Aí permanecerá até Setembro de 1974, tendo lecionado durante 3 anos letivos, Pré-história, História da Antiguidade Oriental, História da Expansão Portuguesa e História do Brasil, cadeiras comuns aos curricula dos cursos de História da “metrópole”. Apesar da sua curta estadia em Moçambique, Cavaleiro Paixão não deixou de se interessar pela arqueologia local. Começa por se debruçar sobre uma série de concheiros dos arredores de Lourenço Marques referenciados por Santos Júnior no âmbito das missões antropológicas de Moçambique (1936-56). Posteriormente, chegou a propor um programa de pesquisas arqueológicas para a região de Massingir, no Rio dos Elefantes. Em Abril de 1974 participou num estágio sobre Pré-história Africana na Universidade de Witwatersrand (Joanesburgo) a convite do Prof. Revil Mason. Em Setembro de 1974, em pleno processo de descolonização de Moçambique, regressa definitivamente a Portugal, com cuja arqueologia não chegara a perder o contacto. Em Outubro de 1973 participara no XI Congresso Nacional de Arqueologia de Espanha, realizado em Huelva e em Dezembro de 1974, pouco depois do regresso de África, está já presente em Badajoz no Congresso de Estudos Estremenhos com uma comunicação sobre o mausoléu lusitano-romano de Tróia, retomando a colaboração com Fernando de Almeida, que entretanto se aposentara (1973). É certamente no âmbito deste reencontro com o antigo professor e numa fase de alguma indefinição profissional que se seguiu ao regresso de Moçambique, que é temporariamente contratado pela empresa Torralta (1975) para se ocupar da direção de trabalhos arqueológicos em Tróia. Mas a colaboração com o Professor era mais ampla, enquadrando outros estudos como o que, conjuntamente com a esposa Judite Paixão, produz nesse mesmo ano sobre os materiais visigóticos da Igreja de São João dos Azinhais ou Capela de Arranas, próximo do Torrão, mas apenas publicado em 1978 na “Setúbal Arqueológica”. Terá sido ainda nesse contexto de indefinição profissional que António Cavaleiro Paixão se viu compelido a uma curta incursão pelo ensino secundário, tendo estado colocado na Escola Preparatória Nuno Gonçalves no ano lectivo de 1975-76. Mas seria aí que o Dr. Nunes de Oliveira, alto quadro do Ministério da Educação e Cultura, o iria requisitar para reforçar os escassos meios humanos, na área da arqueologia, da Direcção Geral do Património Cultural, um organismo recente que viera substituir a velha Direcção Geral do Ensino Superior e Belas Artes, do Ministério da Educação Nacional que durante décadas superintendia, com o apoio das respectivas secções e subsecções consultivas da Junta da Educação Nacional, em tudo o que dizia respeito aos museus, arquivos e bibliotecas, monumentos e arqueologia.

António Cavaleiro Paixão, à direita, nas ruínas da Basílica de Tróia


A entrada de António Cavaleiro Paixão, em Julho de 1976, para a Direcção Geral do Património Cultural, bem como a da sua esposa Judite Cavaleiro Paixão, reforçando uma equipa que contava apenas com João Bairrão Oleiro, normalmente em cargos dirigentes e com Bandeira Ferreira, já então afastado dos trabalhos de campo, dá-se no contexto de um ambicioso projecto para a elaboração da Carta Arqueológica de Portugal. Embora nascido no seio da Direcção Geral, o projecto contava com o apoio financeiro da Gulbenkian, pela mão do Prof. Artur Nobre de Gusmão, director do Serviço de Belas Artes da Fundação. Ainda que se reconhecesse a necessidade da colaboração das Universidades, a viabilidade do projecto “Carta Arqueológica de Portugal” exigia um mínimo de enquadramento técnico da própria Direcção Geral, para o que seriam necessários arqueólogos experientes. Por proposta de Nunes de Oliveira, António e Judite Cavaleiro Paixão seriam finalmente requisitados expressamente para esse efeito. António coordenaria uma equipa de campo e Judite Cavaleiro Paixão, dada a sua formação específica em BAD, assumiria a componente documental e arquivística. O projecto, apesar do apoio da Gulbenkian, após a realização de um curso de prospeções em 1977 para colaboradores eventuais e no qual António Cavaleiro Paixão foi formador, acabou por sucumbir após uma curta experiência de terreno na zona da barragem do Alvito, mas a sua preparação, acabou por contribuir para a criação, poucos anos depois, no seio do IPPC (1980) de uma divisão de inventário arqueológico com atribuições específicas de cartografia e que seria organizada e dirigida durante algum tempo pela própria Judite Paixão. Quanto a António Cavaleiro Paixão, enquanto único arqueólogo de campo ao serviço da DGPC, desdobrou-se desde então na resposta às situações de emergência, nomeadamente em Alcácer do Sal, onde as necessidades de infraestruturas chocavam permanentemente com os vestígios do passado.
António C.Paixão, observando um corte estratigráfico, durante obras na proximidade do Olival do Sr. dos Mártires, Alcácer do Sal

Em 1980, por ocasião do concorrido IV Congresso Nacional de Arqueologia, realizado em Faro e que prenunciou um intenso movimento de reestruturação da arqueologia portuguesa, por despacho do Secretário de Estado da Cultura, António Paixão, em representação da Administração, integrou com Carlos Tavares da Silva, Manuela Delgado e Rui Parreira, uma Comissão encarregada de rever um muito criticado “Plano de Trabalhos de Campo para 1980-84”. Tal comissão, porém, não se limitaria a corrigir o referido plano, acabando por produzir um importante documento que serviria de base à estruturação do Departamento de Arqueologia e dos Serviços Regionais de Arqueologia, no âmbito do IPPC criado nesse mesmo ano. Muito naturalmente e sem quaisquer complexos, António Cavaleiro Paixão viria a integrar, conjuntamente com outros colegas mais jovens entretanto requisitados ao ensino secundário, o novo Departamento de Arqueologia dirigido por Francisco Alves e provisoriamente instalado no Museu Nacional de Arqueologia. Para Paixão, era o regresso a uma casa onde década e meia antes entrara pela mão de Fernando de Almeida. E podemos dizer que, dada a especificidade dos principais assuntos de que se ocupou até final da carreira, nomeadamente a Arqueologia de Alcácer do Sal e de Tróia, duas estações especialmente ligadas ao Museu Nacional, esta passaria a ser a sua casa de trabalho por excelência, pesem embora algumas interrupções ou desvios pontuais. Destaca-se neste aspecto o seu envolvimento, como coordenador para a arqueologia, no projecto de recuperação e valorização das monumentais Ruínas da Igreja de São Paulo, em Macau, promovido pelo Instituto Cultural de Macau, sob a coordenação geral do Arquitecto João Carrilho da Graça, e que o levará durante alguns períodos entre 1990 e 1991 ao distante Oriente. Paralelamente à sua actividade principal como arqueólogo e técnico superior do IPPC, posteriormente IPPAR, António Paixão, por razões de carácter, nunca se desvincularia da sua inicial vocação pedagógica, quer no âmbito específico dos trabalhos de campo que dirigia, apoiando os colaboradores mais jovens, quer retomando a carreira académica que iniciara em Moçambique. No final dos anos setenta, já funcionário da SEC, chegou a dar aulas de formação de professores no Instituto Universitário dos Açores. Em 1982, leccionou uma cadeira de Pré-história no Instituto Politécnico de Santarém e a partir de 1989, assumiu a regência de diversas cadeiras de Arqueologia na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL), actividade que manteve até à sua aposentação em 2004.


A.C. Paixão, à direita nas escavações do Convento de Nª Sª de Aracoeli, por ocasião das obras de construção da Pousada de Alcácer do Sal nos anos 90 do século passado.


Ainda que nunca perdendo o contacto com os projectos relacionados com a investigação e valorização das Ruínas de Tróia, de que foi durante anos o responsável por parte do IPPC/IPPAR, seria a Alcácer do Sal, onde afinal a sua carreira de arqueólogo começara em 1967, que dedicaria maior energia e atenção nos seus últimos anos como técnico do património e investigador. Prioritariamente focalizado na problemática das necrópoles da Idade do Ferro e da época Romana, quase sempre no quadro de situações de emergência e salvamento, Cavaleiro Paixão teria finalmente oportunidade no início dos anos 90 de coordenar uma grande intervenção no coração da “acrópole” de Alcácer, em parceria com o malogrado arqueólogo João Carlos Faria, um jovem local que se iniciara nas lides arqueológicas pela sua própria mão e com o qual, já como arqueólogo municipal, mantinha estreita colaboração e amizade. No âmbito do projecto de adaptação do Convento de Nª Sª de Aracaeli a Pousada, construído sobre o que restava da alcáçova islâmico-cristã do Castelo, aqueles arqueólogos levaram a cabo uma vasta e complexa operação de arqueologia preventiva entre 1993 e 1998, num espaço privilegiado da antiga cidade, e de que resultou todo um manancial de informação sobre a continuada ocupação do local, desde a Proto-história, passando pela época romana e alcançando a presença islâmica e conquista cristã. Num desfecho tão ou mais importante do que a escavação arqueológica e divulgação de resultados científicos, não tão completa como se desejaria devido ao precoce desaparecimento de João Faria e à doença de Cavaleiro Paixão, o projecto culminaria na protecção, salvaguarda e musealização de parte das estruturas e do espólio então descobertos, incluindo as ruínas de um importante santuário da Idade do Ferro ainda activo em época romana, integradas em impressionante cripta arqueológica construída sob a própria Pousada e aberta ao público desde 2008. Ainda que nem António Cavaleiro Paixão, já aposentado desde 2004 por razões de saúde, nem João Carlos Faria, falecido em 2006, tenham podido estar presentes à sua inauguração, a Cripta Arqueológica de Alcácer, é concepção de ambos, mestre e discípulo, ficando para o futuro como um dos maiores legados materiais da arqueologia pública portuguesa da transição do século.

Já nos últimos anos de actividade profissional (2004?) A.C.Paixão, dirige uma visita às ruínas conservadas na cripta da Pousada de Alcácer do Sal, ainda antes da respectiva musealização e abertura ao público, facto que só ocorreria em 2008.


   

1 comentário:

  1. Grande Professor e amigo. Foi devido a ele que tive as melhores experiências no mundo da Arqueologia - as várias campanhas em Tróia e na Igreja de São Paulo em Macau. Uma vida dedicada à cultura e à História. Fernando Antunes

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