O “Alegre” do Ródão
Ao ler no último nº do
Jornal de
Letras (21 de Janeiro) os depoimentos evocativos do cinquentenário da
publicação da “Praça da Canção” de Manuel Alegre, não pude
deixar de recordar, a propósito, a minha própria experiência pessoal. Ao
contrário da maioria dos entrevistados do
JL, ainda não estava na Faculdade em
1965, mas nem por isso estava imune aos efeitos inflamatórios que o
aparecimento daqueles poemas, sobretudo nas suas versões musicadas, teve em
muitos sectores da sociedade portuguesa. Curiosamente, estando em meados dos
anos sessenta a estudar no seminário em Almada (na velha quinta de São Paulo, cenário do "Frei Luís de Sousa, de Garrett), foi através do jovem Padre
Francisco Fanhais, (um dos declarantes ao JL) que eu e os meus colegas tomámos
contacto com a
Trova e demais poemas
musicados por Adriano Correia de Oliveira, quer por actuações do próprio
Fanhais, já então conhecido pelo lançamento do seu primeiro disco como “Padre
cantor” e pela sua actuação no Zip-Zip, quer através da escuta do próprio disco
do Adriano, usado frequentemente como tema (pasme-se!) da meditação matinal.
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A "Praça da Canção" na contracapa do nº de Março de 1968 do jornal policopiado dos alunos do seminário de Almada ("Dimensão 7") no qual eu assumia o "pomposo" cargo de Editor... |
Quando poucos anos depois cheguei à Faculdade de Letras de Lisboa, podia ainda
não perceber o conteúdo político dos jornais de parede ou dos comunicados das organizações
de todos os matizes políticos imagináveis, mas conhecia de cor as canções do
Adriano que aliás tive oportunidade de ver e ouvir numa memorável e atribulada
actuação (1971?) nas escadas da Cantina Velha da Cidade Universitária. Era por
isso inevitável que, “transferido” para Vila Velha de Ródão, em 1971/72 com os
meus colegas do GEPP no contexto das campanhas de levantamento de arte rupestre
do Vale do Tejo, ameaçado de submersão pela construção da Barragem do Fratel,
levasse comigo a viola adquirida na escola musical Duarte Costa (ali à
Av.João XXI) ainda nos tempos de Almada. Preciso será recordar aos mais novos que
nesses tempos fazer arqueologia em Portugal, mesmo num contexto de obra pública,
como era o caso, era uma aventura mista de generosidade e loucura, só possível
pela juventude física dos intervenientes ou pela juventude mental do eventual
patrocinador científico, no caso o Dr. Eduardo da Cunha Serrão, já então perto
dos 70 anos! Aboletados, graças aos subsídios da Gulbenkian, na “pensão da velha”, vulgo “Pensão Castelo” ao Porto do Tejo, ignorando os odores
indescritíveis da vizinha Celulose do Tejo sem filtros ou outras mariquices
ecológicas, depois de dias inteiros de trabalho de campo a que acedíamos por
longas caminhadas pela linha da Beira-Baixa, evitando os comboios nos túneis e
nas pontes, ocupávamos os tempos livres nocturnos com dois passatempos
concorrentes. Tão inconclusivas como acaloradas discussões sobre epistemologia
arqueológica lideradas pelo Jorge Pinho Monteiro, pelo Francisco Sande Lemos ou pelo Luis Raposo (imperavam então as perspectivas estruturalistas, bebidas directamente nos
originais franceses) e as inevitáveis canções de protesto, que eu animava à viola, basicamente
poesia musicada do Manuel Alegre nas múltiplas versões já disponíveis no início
dos anos 70: Adriano, Luis Cília, Zeca, Manuel Freire, Fanhais, etc… Excepcionalmente, quando a Helena Afonso, estudante do Conservatório, se nos juntava no Ródão, havia ainda lugar a algumas variações líricas, ou até a canções revolucionárias espanholas do tempo da Guerra
Civil - que o Rui Parreira dominava com o seu castelhano impecável- quando se tinha audiência apropriada, como foi o caso das estudantes
madrilenas que, por várias ocasiões, com a já então assistente universitária Maria
Querol, vieram reforçar a mão de obra "científica" rodense. Não estranhem pois os amigos
comuns que por acaso ouçam o Vítor Serrão, sempre que nos cruzamos, chamar-me
por “Alegre”, a alcunha com que me brindou no Ródão e que até hoje não
esqueceu.
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Sessão evocativa do quadragésimo aniversário da descoberta da Arte Rupestre do Vale do Tejo, promovida pela Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão, em Outubro de 2011 |
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O "Alegre" em plena actuação na Pensão Castelo |
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O Vitor Serrão, pai da alcunha, afinal também dava uns "toques"... |
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António Carlos Silva e Maribel, no Ródão, em Dezembro de 1973. Maria Isabel Navarrete era na altura estudante na Univ.Complutense de Madrid, aluna de Maria Querol. Hoje é investigadora titular do CSIC (informações e foto do Francisco Sande Lemos, que aqui acrescento a este post, em 2.12.2015) |
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