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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016



Documentos para a história da nossa Arqueologia





Criado em 1997 pelo Ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho na sequencia do mediático e polémico processo em torno da salvaguarda das gravuras rupestres do Vale do Côa - que culminaria em final de 1995 com a suspensão da construção da Barragem do Côa, uma das primeiras decisões tomadas pelo Governo recém-eleito de António Guterres - o novo Instituto Português de Arqueologia, acabou por ter vida curta e atribulada. Ainda assim, a sua existência deixaria marcas profundas na Arqueologia portuguesa na transição do século XX para o século XXI e algumas das estruturas então criadas ainda persistem (ainda que algumas muito debilitadas) hoje integradas na DGPC (Direcção Geral do Património Cultural)  e influenciam no dia a dia, a prática da salvaguarda do património arqueológico em Portugal.

Referimo-nos em particular à Biblioteca e Arquivo, às base de dados informáticas ENDOVÉLICO, ao ex- CIPA (hoje intitulado Laboratório de Arqueociências - ver aqui um balanço da sua actividade)
ou mesmo às estruturas da arqueologia subaquática, ex-CNANS (Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática).

Em Maio de 2002, já no contexto do Governo PSD de Durão Barroso, surgiam os primeiros sinais de que poderia haver alterações significativas a nível das estruturas da Cultura. Ainda que definitivamente abandonada a construção da Barragem, havia no ar ainda algum ressabiamento relativamente às corajosas decisões de Guterres e a ideia original de construção de um Museu no próprio sítio da Barragem (o que inviabilizaria ad aeternum a Barragem) foi a primeira a cair. Mas as baterias estavam apontadas já ao IPA. Algum tempo depois, perante a confirmação da decisão, a direção do IPA (João Zilhão e Monge Soares) dimitir-se-ia e o IPA entraria num período de longa agonia, acabando formalmente por ser extinto no final de 2006, integrando-se os seus serviços na orgânica de um novo Instituto, o IGESPAR, por sua vez substituido em 2012 pela actual DGPC.

Na sequencia imediata  das notícias ameaçadoras sobre o IPA -a cuja primeira Comissão Instaladora, presidida pelo Vitor Oliveira Jorge, pertenci- reagi com um texto que julgo nunca conheceu a luz do dia. Reencontrado mais de uma década depois, aqui fica como testemunho pessoal de um período conturbado da pequena história da nossa arqueologia.


A morte anunciada de um instituto cultural ?


Ainda que falte a confirmação oficial, o destaque de primeira página dado pelo Expresso ao assunto (“Governo trava museu de Foz Côa”- 04/05/02) parece anunciar aquilo que, desde as últimas eleições, na modesta paróquia arqueológica uns já temiam, outros esperavam e, alguns, até desejavam. Atrás da revisão do processo do Museu do Côa, polémica já herdada da anterior gestão socialista e que o PSD, no respectivo programa eleitoral, prometia reapreciar, perfila-se agora também a extinção do Instituto Português de Arqueologia, classificado pelo Expresso como “outro emblema socialista”. Sobre esta questão, embora prevendo mexidas na área do Património, o programa do Governo era lacónico e vago quanto baste. Mas, face ao discurso sistemático da crise orçamental e, por consequência, da inevitável extinção de serviços e institutos públicos, que melhor “bombo da festa” se poderia encontrar? Antes de mais porque, ignorando ou esquecendo a importância das respectivas atribuições, não preenchidas por outros organismos, é fácil associar a sua criação (1997) a uma qualquer contrapartida pós-Côa ou cedência do Governo PS ao lobby(zinho) dos arqueólogos portugueses. Depois porque, sendo demasiado pública a proverbial guerrilha entre as diversas capelinhas arqueológicas, não será difícil encontrar apoios para amortecer ou explorar eventuais efeitos colaterais, nomeadamente os mediáticos, que tal decisão possa acarretar. Aliás, a forma como a notícia veio a lume (o Director do IPA, João Zilhão, confrontado com o teor da notícia do Expresso declarou ao “Público” de 05/05/02, que “não fora essa a posição que o Ministro da Cultura lhe comunicara, porque, caso contrário, já se teria demitido”) parece apenas o primeiro acto de uma estratégia cautelosa mas implacável.

Mas, esquecendo por um momento, a normal e saudável diferença de perspectivas culturais entre a direita e a esquerda que naturalmente pressupõem e fundamentam, mesmo nos domínios mais consensuais da salvaguarda e valorização do património histórico-cultural, políticas divergentes, vale a pena fazer uma pequena reflexão sobre o papel do IPA e as circunstâncias conjunturais que determinaram o seu aparecimento. Pese embora o tempo e o modo como surgiu, aquele Instituto visava preencher uma lacuna objectiva no quadro das responsabilidades que o Estado vinha assumindo desde o início dos anos 80 em matéria de salvaguarda, estudo e gestão dos recursos arqueológicos do território, entendidos como parte integrante do património identitário nacional. Curiosamente, deve-se a um Governo AD (1980, sendo Secretário de Estado da Cultura o Dr. Vasco Polido Valente), no quadro da criação do IPPC (Instituto Português do Património Cultural) o reconhecimento da especificidade territorial do património arqueológico, promovendo a criação de Serviços Regionais de Arqueologia. Num quadro global de interdisciplinaridade e de equilíbrio que a amplitude das atribuições do velho IPPC impunha (gerindo monumentos, museus, arquivos, sítios arqueológicos, etc...) podemos dizer que a Arqueologia, apesar dos meios sempre reduzidos, soube então por mérito próprio mas também por reconhecimento institucional, ganhar algum espaço na política patrimonial, facto que assume especial significado se tivermos em conta que à data do 25 de Abril de 1974, praticamente não existiam ainda arqueólogos profissionais em Portugal. Contraditoriamente, seria no quadro da progressiva fragmentação sectorial do IPPC, decorrente da importância crescente que as políticas patrimoniais assumiram ao longo da década de 80, que a “Arqueologia” começaria a perder terreno. Por um lado porque algumas das suas atribuições passam a ser diluídas pelos novos Institutos ou organismos (nomeadamente no que respeitava às questões museológicas, ao restauro ou mesmo ao inventário) por outro, porque de reestruturação em reestruturação, acabaria por ficar confinada ao papel de parente pobre no IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico) criado por Santana Lopes no início dos anos 90 e onde prontificavam, quer na estrutura hierárquica, quer na definição estratégica, os arquitectos e engenheiros civis, muitos deles tardiamente despertos para o “património”. Os Serviços Regionais de Arqueologia foram extintos e os respectivos arqueólogos integrados nas novas Direcções Regionais. Sem a definição de uma política própria, condicionados por uma gestão incompetente ou casuística, os arqueólogos da Administração Central, entraram praticamente em auto gestão, apesar do desenvolvimento e importância que a salvaguarda do património arqueológico, vinha assumindo de forma crescente na sociedade civil. Isso verificava-se em particular na multiplicação de cursos superiores, nas políticas culturais ao nível local e, finalmente, nas novas exigências de minimização de impactes patrimoniais, tornadas obrigatórias com a plena integração na Comunidade Económica que fizeram surgir as primeiras empresas privadas no sector. Quando surge a questão do Côa, num quadro de maior exigência legal no domínio da defesa integrada do património cultural e de crescente interesse da opinião pública por estas questões, a fragilidade técnica das estruturas arqueológicas da administração do Estado revelou-se por inteiro. Entre o arqueólogo funcionário que no campo descobrira as primeiras gravuras e o Governo a quem competia o cumprimento da legislação patrimonial aplicável, não havia praticamente ninguém (Directores Regionais, Directores de Serviços, Directores Gerais...) que tivesse a mínima ideia do que estava em jogo, com as consequências que se viram.

Portanto, mais do que um prémio ou uma cedência, o IPA visava criar condições para assegurar o cumprimento das obrigações ou responsabilidades que o Estado assumira, pela integração de princípios internacionais ou pela aprovação de legislação própria. Poder-se-ão, no entanto, colocar duas questões pertinentes. Não teria sido possível, ainda que com nova reestruturação do IPPAR, dar cumprimento a esses mesmos objectivos sem a criação de novos serviços, solução sempre onerosa porque inevitavelmente duplicadora de algumas estruturas? Terá o IPA, nestes 5 anos de existência, correspondido às expectativas então geradas?

No que à primeira questão se refere, a minha resposta não pode deixar de ser afirmativa. Com efeito, e pese embora o facto de ter pertencido à Comissão Instaladora do IPA, nunca escondi que teria visto com melhores olhos a reestruturação do IPPAR, valorizando uma perspectiva integradora da política de salvaguarda e gestão do património cultural imóvel embora precavendo, através de novos mecanismos estruturais, a autonomia própria do sector arqueológico em domínios específicos, como a arqueologia subaquática, o património rupestre e a arqueologia pré-histórica em geral, ou mesmo o inventário (Carta Arqueológica). Obedecendo a uma lógica que vinha já dos Governos de Cavaco Silva, de progressiva desintegração disciplinar, a criação de um novo organismo (que de facto constava do programa eleitoral do PS) acabou por fazer vencimento. No entanto, e entramos já na segunda questão enunciada, o figurino que prevaleceria, acabou por corresponder a uma situação algo híbrida que se viria a reflectir ao nível da capacidade de actuação do novo Instituto. Cedo se tinha verificado que, entre as expectativas da Comissão Instaladora (e nas quais eu próprio então me revia totalmente, porque uma vez assumida a decisão de criar um novo Instituto, este deveria herdar, não só as atribuições mas as próprias estruturas e meios do IPPAR, no domínio arqueológico) e a realidade dos equilíbrios da distribuição dos poderes dentro do novo Ministério da Cultura, ia um fosso intransponível. Embora não exclusivamente por estes motivos, a Comissão Instaladora acabaria por se dissolver, tendo vencido, mais por força das circunstâncias do que por convicção, a tese de um “mini-IPA” dividindo as suas naturais competências e atribuições com o todo poderoso IPPAR que apesar do novo parceiro, mantinha largas competências em matéria arqueológica e uma estrutura técnico-administrativa cada vez mais pesada. Mesmo assim, e apesar de alguma crescente conflitualidade entre ambas as instituições decorrente da duplicação ou sobreposição de funções, o IPA teve nestes anos um papel fundamental para o desenvolvimento de uma política consistente em matéria de prevenção e salvaguarda do património arqueológico português, nomeadamente no que respeita ao estreito acompanhamento das grandes obras públicas. É especialmente reconhecido por toda a classe arqueológica, o grande esforço efectuado ao nível da política da publicação científica, ou, apesar da escassez de financiamento, da cooperação científica entre a arqueologia e as diferentes disciplinas da paleo-ecologia. Por consequência, e seja qual for a decisão política que venha a ser tomada pelo novo Governo, descontadas as necessidades de alguma demagogia de discurso para consumo mais generalista, espera-se pelo menos alguma coerência de atitude. Das duas uma. Ou numa lógica meramente economicista neo-liberal, se entende que as atribuições do IPA são excedentárias e o Instituto é descartável, mas para isso o Governo terá de lançar borda fora toda uma série de legislação nacional, comunitária ou mesmo internacional (incluindo em especial a “Convenção Europeia para a protecção do Património Arqueológico”, assinada em nome do Governo da República Portuguesa em La Valetta, Malta, em Janeiro de 1992 pela Dra. Maria José Nogueira Pinto) ou, pelo contrário, mesmo insistindo na extinção do IPA, o Governo garante através dos meios mais adequados, o cumprimento integral das suas obrigações e responsabilidades nesta matéria. Recordo porém que, em múltiplos domínios, o Ministério da Cultura não apresenta actualmente alternativas efectivas para as funções cobertas, com maior ou menor eficácia, pelo Instituto cultural com morte agora anunciada. Significativamente, ou não, o primeiro com “nome” dos muitos que vêm sendo apregoados como necessários à salvação do equilíbrio orçamental.


António Carlos Silva- arqueólogo (vogal da Comissão Instaladora do IPA, em 1995/96)








 
Ainda que extinto desde finais de 2006, o IPA continuaria a funcionar os seus serviços técnicos essenciais, não só a nível das suas "extensões territoriais" mas também nas suas instalações da Avenida da Índia, num antigo edifício militar. Em 2008, porém, e perante a "revolta dos arqueólogos", seria finalmente despejado para se começar a construção do megalómano novo Museu dos Coches.

Sobre este assunto podem ver-se também:



segunda-feira, 1 de junho de 2015


Ainda os "Coches e a Arqueologia"


Como era de esperar, a polémica em torno do novo Museu dos Coches, está para durar, e provavelmente irá renascer sempre que estiver em cima da mesa a discussão dos magros Orçamentos para a Cultura... E entretanto, falando com um amigo que trabalha no Museu do Côa, vim a saber que em Maio (agora já Junho), o Museu e a Fundação que inventaram para o gerir (?), continuava sem orçamento para 2015 e que os salários dos poucos trabalhadores que asseguram o seu funcionamento estão sempre atrasados e em risco. Mas Foz Côa é bem longe da Ajuda-Belém...

Já depois do lapidar artigo da Raquel Henriques da Silva:

www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-rei-nu-na-cultura-em-portugal-e-uma-proposta-para-fazer-diferente-1696375

coube agora a Luis Raposo, com a ironia certeira que caracterizam as suas intervenções cívicas, de se pronunciar:

www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/coches-corporacoes-e-ma-politica-1697279?frm=opi

Aproveitando o balanço, aqui deixo mais em jeito de registo, um texto que escrevi em 2009 e que se intitulava

SALVEMOS OS ARQUIVOS DA ARQUEOLOGIA PORTUGUESA





Ainda que com risco de ser acusado de falta de isenção, dada a minha formação e interesse profissional, não tenho dúvidas em afirmar que é no domínio do património arqueológico que se podem identificar os maiores prejuízos, se não mesmo os mais graves retrocessos, associados à recente e desastrada reestruturação do Ministério da Cultura (ver a recente tomada de posição do ICOMOS Portugal, divulgada pelo “Público” em 24 de Abril passado). Entre os efeitos perversos, o mais óbvio é desde logo a extinção do Instituto Português de Arqueologia (IPA), uma estrutura recente, criada em 1997 pelo Governo Guterres na sequência da polémica em torno da Arte Rupestre do Côa. Ainda que partilhando tal sorte com o também extinto IPPAR, o que de facto é marcante no processo de extinção/fusão daquele jovem serviço público de Arqueologia no novo “IGESPAR”, é a drástica redução a simples “Divisão”, apelidada de “Arqueologia Preventiva e de Acompanhamento”, da componente de intervenção territorial, que marcara a diferença com o passado. Infelizmente, os cortes não se reduziriam apenas às componentes estruturais, até porque estas estavam longe de ver preenchidos os respectivos quadros. Num processo herdado de anteriores governos e que se arrastava há longos meses, o IPA vinha a sofrer um processo de emagrecimento técnico forçado, pondo em causa a sua eficiência. No final do ano passado, como foi então largamente noticiado, apenas o receio do vazio absoluto, terá evitado (ou adiado) o golpe final na capacidade técnico-arqueológica do novo IGESPAR, com o impedimento “in extremis” do despedimento de duas dúzias de arqueólogos “avençados”. Com efeito, após uma década de precariedade, são ainda os “avençados” que continuam, quase em exclusivo, a assegurar de Norte a Sul, as funções e responsabilidades técnicas cometidas nesta matéria ao Estado pela legislação nacional ou mesmo, pelas convenções internacionais. Esses princípios, hoje comuns a todos os Estados modernos, obrigam os projectos que interferem de forma significativa com o subsolo urbano ou rural a ser acompanhados das medidas preventivas capazes de precaverem ou minimizarem a perda ou a destruição de vestígios materiais do passado, seja através dos Estudos de Impacte Ambiental, seja através dos mecanismos de gestão e planeamento territorial, aos seus diferentes níveis de execução. Tais princípios, associados à eficácia que o IPA demonstrara perante as solicitações e desafios da sociedade, complementada por alguma capacidade reguladora e fiscalizadora, viriam a estar na origem de um crescimento quase explosivo da actividade arqueológica de iniciativa privada, respondendo às novas exigências legais rapidamente integradas pela própria estrutura económica.


Um ano após a extinção do IPA, como era previsível, são cada vez mais evidentes as dificuldades da esforçada “Divisão de Arqueologia Preventiva e de Acompanhamento” do IGESPAR, em manter os mesmos níveis de eficiência. A perda de meios humanos qualificados, a inesperada complicação dos circuitos burocráticos e administrativos (o IGESPAR continua repartido por diferentes instalações) ou mesmo a incompatibilidade dos sistemas informáticos, reflectem-se no alargamento dos prazos de resposta, ou mais grave ainda, na incapacidade de regulação e fiscalização, o que, numa actividade hoje muito dependente do mercado, se está a revelar particularmente grave (como vêm alertando os próprios operadores privados). Infelizmente, novas e inesperadas ameaças se perfilam no horizonte, algumas das quais de efeitos irrecuperáveis, se concretizadas. Em 1997 o IPA instalou os seus serviços nos devolutos edifícios militares, vizinhos do Palácio de Belém e do Museu dos Coches. Ainda que muito degradadas, tais instalações acabaram por responder às significativas necessidades de espaço do novo Instituto, confrontado com a necessidade de armazenar numerosos materiais arqueológicos e acomodar laboratórios ou mesmo equipamentos pesados, nomeadamente da Arqueologia Subaquática. Entre os meios e recursos herdados pelo IPA e instalados em Belém após execução de obras de adaptação, ganharam especial importância, no contexto das suas atribuições territoriais, a valiosa Biblioteca (antiga Biblioteca da delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão) e o Arquivo da Arqueologia Portuguesa. Se a biblioteca é considerada a melhor e mais completa biblioteca arqueológica do país, o Arquivo é único, porque conserva desde que há registos até hoje, toda a documentação produzida pelos arqueólogos sobre os sítios e monumentos arqueológicos intervencionados, muitos dos quais já nem sequer existem. É certo que, existem lacunas importantes, até porque parte da documentação mais antiga, proveniente dos arquivos do antigo Ministério da Educação Nacional, se terá perdido. Sucessivas reestruturações também se terão traduzido no extravio de alguns processos, mas o essencial foi preservado e o Arquivo, em permanente actualização e articulação com o Sistema Informático “Endovélico”, tem-se revelado um instrumento de trabalho essencial não apenas para os arqueólogos dos serviços, mas em particular para os arqueólogos das empresas responsáveis pelos estudos e avaliações de impacto. A real ameaça de despejo a curto prazo que pesa sobre os serviços de Arqueologia em geral, mas em particular sobre o Arquivo e a Biblioteca, sem que se anunciem ou vislumbrem alternativas credíveis para a sua reinstalação, pode representar a machadada final na herança extremamente positiva do IPA, com consequências graves para a salvaguarda do património e, mesmo para a actividade económica de dezenas de empresas e centenas de profissionais do sector. Mesmo evitando entrar na discussão do polémico projecto onde vão ser investidos “os milhões” do Casino de Lisboa - um “novo Museu dos Coches” anunciado precisamente para o local onde durante a última década funcionou o IPA- haverá que exigir do Ministério da Cultura, a garantia da integridade e da operacionalidade de um fundo documental único que encaixotado, disperso ou simplesmente inacessível, estará condenado a desaparecer, o que a acontecer, seria um verdadeiro crime de “lesa património”.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Coches e arqueólogos, seis anos depois…

Conheci vagamente as instalações militares existentes na Avenida da Índia, frente à estação de Belém, a quando do meu serviço militar em 1978, pois aí me desloquei uma ou outra vez em serviço da minha unidade de Queluz… Recordo apenas que tinham que ver com a reparação de viaturas (num escalão superior ao possível nas unidades do exército) .
Por isso resolvi ir à INTERNET pedir ajuda para as minhas memórias. No site oficial do exército encontrei logo o que procurava:

(http://www.exercito.pt/sites/OGME/Historial/Paginas/default.aspx)

O início das Oficinas Gerais de Material de Engenharia remonta ao ano de 1916 a 1 de Novembro, com outra nomenclatura, o P.A.M. Parque Automóvel Militar, instalado no prédio Militar N.º 23 de Lisboa, situado em Belém com entrada pela Av. da Índia N º 136, frente a Estação da C.P.
Convém no entanto relembrar que nesse local estiveram instaladas as Cocheiras Reais que serviam o Palácio que remonta ao reinado de D. João V.
Posteriormente o Estado tomou posse por acto de entrega pela Administração da Casa Real ao Ministério da Guerra, em 14 de Dezembro de 1885.
Era ao tempo limitado o espaço, a Norte pela Rua da Junqueira, a Sul pela antiga Rua Marginal do Tejo a Este pela Praça D. Fernando e a Leste pelo Largo da Alfândega Velha.
Com o aterro do Tejo foram aumentados os espaços e erguidos vários edifícios de uma interessante arquitectura industrial onde se realça um, em estrutura de ferro com uma área bastante vasta coberta.
Nesse local estiveram ainda instalados o Depósito de Forragens, o Picadeiro do Regimento de Cavalaria N.º 4 e o Quartel da 3ª Companhia de Administração Militar, o que lhe dá também um relevo Histórico e Militar.
O P.A.M. (Parque Automóvel Militar), surge no inicio do século XX, contemporâneo dos primeiros veículos Automóveis e tinha por finalidade proceder à reparação de Hipomóveis e Automóveis do Exército. Nascido administrativamente em 9 de Fevereiro de 1918, pela Portaria Nº 1.223. O seu Brasão em 1920 era composto por uma viatura automóvel de capota amovível, com uma chave de parafusos cruzada com um martelo.
No entanto por ordem do Ministério da Guerra, o P.A.M. é extinto em 31 de Julho de 1928, com base em razões de ordem financeira.
Surgem então as Oficinas Gerais de Material de Engenharia, (O.G.M.E.) conhecidas militar e popularmente como as Oficinas Gerais de Belém por Decreto Nº 16.629 de 19 de Março de 1929.
O seu brasão era composto por uma roda dentada, apoiada num sem-fim horizontal cortada no topo a 1/5, onde surgia uma imagem de castelo, tendo mantido no interior da roda dentada o martelo e a chave de parafusos traçadas.
Com uma área total de 16.540 m2 e uma área coberta de 12.111 m2 e cerca de 280 trabalhadores as instalações foram cedidas em 7 de Dezembro de 1994 por protocolo do Ministério da Defesa Nacional (M.D.N.) à Secretaria de Estado da Cultura.


Poderíamos acrescentar a este breve historial do sítio que após aquela data (embora se falasse na possibilidade da sua adaptação a picadeiro da escola equestre portuguesa, a funcionar no Palácio de Queluz) serviu primeiro de armazém do IPPAR e do IPM, tendo finalmente aí sido instalado em 1997, o Instituto Português de Arqueologia, criado pelo Ministro Manuel Maria Carrilho, na sequencia de todo o historial mediático ligado ao Côa. O novo Instituto, ocupou apenas o antigo edifício do Comando, com ligeiríssimas adaptações, bem como a grande nave industrial referida no texto transcrito pelo seu interesse arquitectónico. Aqui Francisco Alves, responsável pela Arqueologia Subaquática nos primeiros anos do IPA, sem necessidade de qualquer obra, tiraria partido da amplidão do espaço da antiga oficina para instalar, à vontade, todos os “seus” equipamentos, alguns de grande porte, como os tanques de tratamento para grandes objectos recolhidos nas intervenções subaquáticas. Aliás, o espaço das antigas oficinas gerais, pela sua amplidão estrutural, parecia adequar-se na perfeição ao espírito de grande informalismo e voluntarismo pragmático, que imperava no novo Instituto, que se auto intitulava de “estrutura leve e económica” (e de facto sempre o foi), orientada no essencial para o cumprimento da sua missão de “salvaguarda dos registos materiais da cultura humana contidos no subsolo”. Diga-se de passagem que a única obra de efectiva adaptação, entretanto absurdamente realizada quase nas vésperas do respectivo “despejo”, acabaria por ser para instalação da excelente Biblioteca de Arqueologia que o IPA herdara do Ministério dos Negócios Estrangeiros, após a extinção da delegação de Lisboa do DAI (Instituto Arqueológico Alemão). Como é sabido, como instituição autónoma o IPA teria curta vida, tendo sido extinto em 2007, absorvido pelo IPPAR que se transformou em IGESPAR, no âmbito do socrático processo do PRACE. No entanto, os serviços de arqueologia preventiva, de arqueologia subaquática e de apoio à investigação arqueológica manter-se-iam ainda em funcionamento nas antigas oficinas gerais. Nesse período, em concreto no segundo semestre de 2007, a pedido do meu amigo e colega João Pedro Cunha Ribeiro que fora nomeado Subdirector do IGESPAR, acompanhei de muito perto a actividade das antigas equipas do IPA ainda instaladas na Av. da Índia, onde todos os dias me deslocava vindo do Palácio da Ajuda para, na qualidade de Director de Serviços, despachar os assuntos correntes com a Jacinta Bugalhão (chefe de divisão da Arqueologia Preventiva). Por uma questão temperamental, por vezes algo conservadora, nem sempre fora um incondicional apoiante da abordagem voluntarista “tipo IPA”, que me parecia nalgumas situações poder vir a revelar-se contraproducente, mas nas longas e por vezes acaloradas sessões de despacho, ganhei respeito a muitos jovens colegas, em particular os que, quase isoladamente defendiam o património arqueológico nas recônditas “extensões” espalhadas pelo país, hoje integradas nas Direcções Regionais de Cultura. 
Manifestação frente ao nº 136 da Avenida da Índia. Á esquerda o antigo edifício de comando das Oficinas Gerais de Belém, sede do efémero IPA, entre 1997 e 2007


Mas, inevitavelmente face aos poderosos interesses instalados, era o fim de uma época tão curta como intensa… Pouco mais de um ano depois, arqueólogos e outros técnicos, alguns vindos ainda do IPPC, outros do IPPAR e do extinto IPA, juntavam-se à porta do nº136 da Avenida da Índia para protestarem contra a decisão da demolição das instalações das Oficinas Gerais para a construção no local de um novo, arquitectónicamente interessante mas desnecessário Museu dos Coches. Recorde-se que na altura outras e ainda mais graves ameaças se perfilavam no horizonte da Arqueologia. Abrindo o “jogo” a um antigo desejo do “almirantado” na reserva, o governo parecia disponível para “despejar” dos Jerónimos o centenário Museu Nacional de Arqueologia, oferecendo como alternativa não um edifício de raíz tipo “Coches” (para isso não havia dinheiro) mas uma quimérica adaptação da velha fábrica da Coordoaria, um magnifico exemplar de Arqueologia Industrial, mas decididamente impróprio para instalação de um Museu Nacional de Arqueologia. Como diz a cantiga “pra pior já basta assim”.
O Museu dos Coches, antes e depois em Ana Marques
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Seis anos depois, a crise salvou (?) o MNA, mas infelizmente não impediu a loucura financeira do novo Museu dos Coches. Numa área em que os poucos recursos disponíveis, já mal chegam para a gestão do dia a dia, agravando-se dramaticamente o deplorável estado de conservação de monumentos e colecções públicas um pouco por todo o país, em especial fora do eixo Ajuda-Belém, a Cultura conseguiu (ou permitiu) a proeza acrescentar ainda maior e mais incontrolável despesa que, a acreditar nos insuspeitos números oficiais, jamais será coberta mesmo por um previsível aumento de receitas.
Aspectos da manifestação (arqueológica) de 18 de Março de 2009