sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015


Uma visão pouco comum da Gruta do Escoural

Quando apareceu a edição portuguesa da National Geographic, (há cerca de uma década e meia?) tornei-me de imediato assinante. Conhecia há muito a edição americana e tinha mesmo vários exemplares guardados entre os meus livros, normalmente sobre temas arqueológicos. (Lembro em particular uma capa dos anos 80, com uma imagem holográfica de um Australopiteco). Hoje, por nenhuma razão em especial, já não assino a NG mas passei o interesse para a minha filha e sempre que a visito não deixo de dar uma espreitadela ao último exemplar que anda lá por casa e que ela, com o trabalho e as filhas, mal tem tempo de folhear. Há certamente variadas razões para este interesse e gosto, uma das quais, certamente, tem que ver com a tradicional qualidade da ilustração científica com fins didácticos. Daí que, foi com verdadeiro entusiasmo e expectativa que há algumas semanas recebi um email do Gonçalo Pereira (que não conhecia), o responsável da edição portuguesa, propondo ao meu serviço a ideia de concepção e publicação de uma "infografia" sobre a Gruta do Escoural. O Gonçalo visitara recentemente a Gruta como turista e concluíra que valeria a pena divulgar este sítio com características únicas na nossa Arqueologia, nas páginas da revista. Aceite a proposta e fornecidos os elementos que nos foram solicitados, foi um prazer ver nascer e desenvolver um projecto gráfico que sem pôr em causa o rigor da informação, torna acessível ao leitor comum, uma imagem bastante próxima da realidade. O resultado final está em papel nas bancas no nº de Fevereiro (o tema de capa são as "Auroras Boreais") e os mais interessados certamente ainda o poderão encontrar à venda.






A cerca de cinco quilómetros de Santiago do Escoural, no concelho de Montemor-o-Novo, localiza-se a gruta do Escoural, um dos santuários mais exuberantes da arte parietal pré-histórica em Portugal. Foi descoberta acidentalmente em 1963 e acompanhou as próprias vicissitudes do estudo arqueológico em Portugal. Estudada em início de carreira pelo arqueólogo Farinha dos Santos, que se ocupou da escavação da necrópole neolítica no seu interior, despertou em 1965 o interesse do abade Glory, estudioso de Lascaux, que publicou em França um estudo notável, apesar de apenas ter estado três dias na região. Um projecto de documentação foi travado pela morte de Glory em 1966 e, apesar de descobertas pontuais de novos signos, a gruta só voltou a ser investigada após 1977, quando Farinha dos Santos, Jorge Pinho Monteiro e Mário Varela Gomes conduziram trabalhos no local, incluindo escavações num povoado da Idade do Cobre existente sobre a gruta, permitindo a descoberta de um conjunto de gravuras datadas do Neolítico. João Luís Cardoso, entretanto, estudou a fauna paleontológica que ocupou a cavidade, encontrando vestígios de hiena e leão-das-cavernas. Após 1989, António Carlos Silva, M. Otte e Ana Cristina Araújo dirigiram novos trabalhos de escavação, confirmando uma primitiva ocupação do local pelo homem de Neanderthal e identificando novas expressões artísticas. O último trabalho de fôlego no Escoural não foi científico: a requalificação do espaço pelo arquitecto Nuno Simões, há muito necessária, melhorou as condições de visita desta câmara de acesso ao Paleolítico Superior e ao epipaleolítico. A investigação, entretanto, tem novas fronteiras: conseguirá a tecnologia no futuro datar com mais precisão o impressionante conjunto artístico do Escoural?

https://www.youtube.com/channel/UCrC9ff-GP5v1y8RMkvkGarg

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015




Arqueologia no Vale do Tejo



Numa altura em que represento a DRCALEN junto do Museu Nacional de Arqueologia no contexto de um projecto expositivo comum ainda em maturação mas que julgo será do máximo interesse para o Alentejo, caso se venha a concretizar como esperamos, aproveito para recordar uma aventura de há quase três décadas atrás, quando dirigia o Departamento de Arqueologia do IPPC.

Uma exposição produzida em tempo record para o átrio da Fundação Calouste Gulbenkian, por ocasião de um Congresso multidisciplinar sobre o Tejo, respondendo a um desafio da respectiva comissão promotora. E não se tratou apenas de uma exposição documental, bem pelo contrário. Apesar dos escassos meios foi possível congregar as boas vontades de muita gente, em particular como é habitual nestes projectos, das autarquias interessadas e mostrar em Lisboa materiais arqueológicos de todo o vale. Recordo que, julgo pela primeira vez, estiveram expostos materiais de uma necrópole romana, incluindo vidros muito raros, que havia sido escavada décadas antes pelo Dr. João Bairrão Oleiro, no Rossio de Abrantes. Apesar do curto tempo de duração da abertura ao público (1 a 18 de Outubro de 1987) da iniciativa perdurou um pequeno livro/catálogo sobre a Arqueologia do Vale do Tejo, que ainda é possível encontrar à venda na Loja da DGPC. Uma nota final. Apesar da colaboração empenhada de toda a equipa do Departamento à época, destacou-se nesta iniciativa a Filomena Barata, no que terá sido um dos primeiros projectos de museografia arqueológica em que participou. Aproveito esta nota para tornar acessível a "folha de sala" que na altura se disponibilizava aos visitantes, bem como algumas fotos que documentam o evento.

No dia da inauguração (1 de Outubro de 1987), o Presidente da Câmara Municipal de Vilva Velha de Ródão, Professor José Batista Martins (já falecido) e Luis Raposo, entre outros.



António Carlos Silva guiando a visita inaugural. Ao centro o conhecido historiador José Hermano Saraiva, entre outros.

O meu antigo colega do Departamento de Arqueologia, Fernando Lourenço (de bigode)



José Hermano Saraiva conversa com Farinha dos Santos

Ainda José Hermano Saraiva


Luis Raposo à conversa com Rui Parreira





Aspectos dos trabalhos de montagem. Nas fotos, Isabel Costeira entre outros colegas do IPPC












quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015


Algumas notas para a história da aplicação dos GIS à Arqueologia, em Portugal

à memória da Arquitecta Helena Rua

O anúncio no FACEBOOK de um workshop a realizar na Amadora, mais concretamente no Núcleo Museográfico do Casal da Falagueira, versando os “sistemas de Informação Geográfica aplicados à Arqueologia”  (http://www.cm-amadora.pt/noticias-cultura/1456-28-de-fevereiro-workshop-sobre-sig#.VNkqX9eOvGg.facebook) foi o “clique” para memórias várias, já com alguns anos. Primeiro porque afinal a Amadora, é a minha segunda terra. Depois porque, desde cedo as questões de cartografia arqueológica me interessaram, tendo até, por mero acaso, protagonizado um dos primeiros casos de aplicação do GPS (hoje tão vulgarizado) à Arqueologia. Finalmente, porque este anúncio, quase coincidiu com a inesperada e funesta notícia do desaparecimento da Arquitecta Helena Rua, uma das primeiras investigadoras a aprofundar em Portugal as potencialidades dos GIS (Sistemas de Informação Geográfica) nas suas aplicações à Arqueologia, tema que desenvolveu na sua tese de Doutoramento: Os Sistemas de Informação Geográfica na Detecção de Villae em Meio Rural no Portugal Romano: Um Modelo Preditivo, defendida em 2004 no Instituto Superior Técnico, onde lecionava.

De facto em 1993, no âmbito de um projecto de cartografia arqueológica que levava a cabo na zona de Arraiolos com o José Perdigão, por sugestão do Prof. António Lamas, meu antigo Presidente no IPPC e na altura Professor no Instituto Superior Técnico,  tive ocasião de ter a colaboração no terreno de uma pequena equipa de estudantes daquele Instituto, orientados pelos Engenheiros Geógrafos João Matos e Miguel Baio. Durante alguns dias procedemos ao posicionamento de algumas dezenas de sítios arqueológicos, com recurso ao GPS, para mim então uma novidade. Estávamos numa altura em que estes equipamentos eram ainda raros e caríssimos e cujo correcto uso, implicava o domínio de informação e meios técnicos pouco acessíveis, nomeadamente aos arqueólogos, oriundos do mundo das humanidades. Basta lembrar que para se obter um pocisionamento exacto (com erro de poucos centímetros), em tempo real, era necessário trabalhar com duas antenas, uma das quais deveria estar posicionada sobre um local de coordenadas conhecidas (normalmente um marco geodésico). Desse trabalho resultou uma apresentação em congresso, no que possivelmente será um dos primeiros trabalhos de aplicação arqueológica do GPS em Portugal. (Posicionamento de Sítios de Interesse Arqueológico com GPS- J.L.Matos; A.C.Silva; M.Baio Dias;J.Perdigão- Encontro de Utilizadores de Sistemas de Informação Geográfica Estoril, 1993). Ainda neste novo domínio, no âmbito das minhas funções no antigo IPPAR, tive pouco depois oportunidade de colaborar com o Prof. Ribeiro da Costa, da Universidade Nova, nos primeiros passos do que viria a ser o ENDOVÉLICO, posteriormente desenvolvido no IPA e hoje continuado na DGPC, como a grande e indispensável base de dados georeferenciados da Arqueologia portuguesa. Mas seria no projecto do Alqueva que viria na prática e em concreto, a recorrer a estes novos meios de gestão da informação georeferenciada, ainda que essencialmente numa perspectiva preventiva e não “preditiva” (Aplicação dos SIGs à minimização dos Impactes Arqueológicos- a experiência de Alqueva, Actas do 3º Congresso de Arqueologia Peninsular, António C. Silva e José Perdigão, Porto, ADECAP, V. X, p.151-174).


Os equipamentos usados em Arraiolos, nos trabalhos de campo de 1993 (o receptor e as antenas, devidamente posicionadas)

É em tudo isto que o nome da Helena Rua surge, ainda que quase não nos conhecêssemos. Era casada com o Arquitecto Pedro Fialho, falecido professor da Faculdade de Arquitectura de Lisboa, e com quem muito privei, quer a quando das suas participações nos trabalhos de estudo do Templo Romano de Évora dirigidos por Theodor Haushild, quer finalmente como membro da comissão científica que entre 1997 e 2002, acompanhou todos os trabalhos de salvamento arqueológico que através da EDIA coordenei no Alqueva. Não tive pois oportunidade de conhecer do mesmo modo a Helena Rua, mas quando através do texto de homenagem do José d’Encarnação (que aqui deixo com a devida vénia), soube do tema da sua dissertação, acabei por recordar um já antigo encontro. Ela, certamente já no âmbito dos trabalhos preparatórios da sua tese, ter-me-á procurado para obter dados sobre a minha experiência de GIS no Alqueva. Não posso já precisar a data, mas foi certamente depois de 1998, porque me ofereceu um exemplar da sua tradução dos Dez livros de Arquitectura de Vitrúvio, publicado naquele ano e que guardo entre os meus livros. Por fim, completando a lista de coincidências, tenho que recordar que a Arquitecta Helena era Professora no Departamento de Engenharia Civil e Arquitectura do Técnico e colega dos Engenheiros que há quase um quarto de século, me introduziram neste mundo dos sistemas de informação geográfica que ela tão bem viria a explorar.




Os trabalhos de 1993 em Arraiolos, no terreno e no Gabinete



In memoriam da Arquitecta Helena Rua 

José d’Encarnação

                Maria Helena Neves Pereira Ramalho Rua nasceu a 5 de Dezembro de 1963. A morte colheu-a, pois, com apenas 51 anos, ontem, 3 de Fevereiro, em Oeiras (onde residia), na sequência de uma doença que a atormentava mas que fez questão em guardar para si, nem sequer a revelando ao filho, André, a quem apresentamos os nossos mais sentidos pêsames.
                Professora auxiliar, desde 6 de Outubro de 2009, no Instituto Superior Técnico (Secção de Arquitectura - Departamento de Engenharia Civil, Arquitectura e Georrecursos), aí leccionava Modelação Geométrica e Visualização de Edifícios,  Geometria Descritiva e Harmonização. Chegou a publicar Os Dez Livros de Arquitectura de Vitrúvio (Dezembro de 1998).
                Entusiástica colaboradora nas campanhas de escavação de Freiria, inclusive como membro da Associação Cultural de Cascais, nesse sítio arqueológico (cujo estudo muito lhe deve) integrou a equipa de arquitectos que, sob orientação de seu marido, o Arquitecto Pedro Fialho, também ele já falecido, procedeu ao minucioso levantamento das estruturas e ao desenho meticuloso das fases da escavação.
                Foi a partir daí que se interessou vivamente pela aplicação à Arqueologia de modelos informáticos com vista à reconstituição de edifícios, nomeadamente arqueológicos, tendo chegado mesmo a conceber, com um dos seus colaboradores (Pedro Alvito), um jogo de ‘visita’ à villa romana de Feriria, sobre que viriam a fazer, em Marco de 2009, a comunicação «Reliving the Past: 3D models and Virtual Reality as Supporting Tools for Archaeology and the Reconstruction of Cultural Heritage: The Case Study of the Roman Villa of Freiria», na 37th CAA2009 Annual Conference Computer Applications and Quantitative Methods in Archaeology, Making History Interactive, em Williamsburg.
                Aliás, a dissertação de doutoramento, que defendeu em Outubro de 2004, também versara sobre esse tema: Os Sistemas de Informação Geográfica na Detecção de Villae em Meio Rural no Portugal Romano: Um Modelo Preditivo. Assim como um dos seus mais recentes artigos: «Detecção automática de villæ em meio rural no Portugal Romano», Al-madan, II Série (nº15), Dezembro de 2007, p. 21-27.
                As comemorações do centenário das Linhas de Vedras levaram-na a interessar-se pela sua problemática, sobre elas tendo elaborado alguns inovadores estudos dados a conhecer em comunicações e em artigos publicados em revistas portuguesas e estrangeiras, como é o caso de «Assessment of the Lines of Torres Vedras defensive system with visibility analysis», publicado no Journal of Archaeological Science, 40(4), Abril de 2013, p. 2113-2123, ou de «Modelação geográfica da permeabilidade do sistema defensivo das Linhas de Torres», comunicação apresentada ao I Encontro sobre Arqueologia e Museologia das Guerras Napoleónicas em Portugal, (Loures, Setembro de  2014).
                Deixa-nos Helena Rua quando ainda muito havia a esperar do seu magistério e dinamismo. Recordá-la-emos sempre como a amiga bem disposta e disponível, irradiando alegria.
                Que descanse em paz!

                                                                                                                             

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015



Ponte Velha da Fragusta sobre a Ribeira de Tera 
(Vimieiro-Arraiolos)



Há década e meia, numa época em que estava envolvido no Projecto do Alqueva, tive oportunidade de elaborar para a Junta de Freguesia do Vimieiro (Arraiolos), a título gracioso, um pequeno relatório sobre uma ponte antiga que desconhecia e que tinha sido precisamente alguém do próprio executivo da Junta que me dera a conhecer. Julgo que desse relatório não resultaram, infelizmente, consequências. Eu próprio não tive ocasião de visitar de novo este local, se bem que tenha alguma curiosidade em avaliar e comparar, passado todo este tempo, o actual estado do mesmo. De referir que em minha opinião, e conheço bastantes pontes antigas, é um dos monumentos mais impressionantes no seu género no Alentejo, atendendo em particular ao facto de não ter sido objecto de grandes alterações enquanto esteve a uso. Para memória futura e eventual comparação, caso alguém um dia destes tenha oportunidade de passar na Fragusta, aqui deixo algumas notas e elementos gráficos recuperados do referido Relatório que, naturalmente, está inédito.


Assim conhecida por se encontrar junto à Herdade do mesmo nome, passou a ser designada pelo adjectivo de “velha”, provavelmente a partir de 1976, data da inauguração da nova ponte rodoviária construía pela JAE, algumas centenas de metros a jusante, na estrada do Vimieiro para a Casa Branca e Sousel.

A Ponte Velha da Fragusta bem visível no Google Earth  (38º52´45.77 N - 7º49'03.84 O)

A Ponte da Fragusta, situa-se na freguesia do Vimieiro, cerca de 5km a Norte da sede da Freguesia, sobre a Ribeira de Tera. Fazia parte de uma importante estrada, bem destacada na carta 1:100 000 de 1871, que vinda de Évora em direcção a Évoramonte passava ligeiramente a Leste do Vimieiro, dirigindo-se a Norte: Casa Branca, Sousel, Fronteira e Alter do Chão. A ligação do Vimieiro, antiga sede de município, a esta importante via fazia-se através de um antigo caminho que saindo da povoação em direcção a Leste, passava junto à arruinada capela de São João, entroncando na estrada Norte/Sul, no sítio da “canada”. A persistência deste topónimo, nomeadamente na actual  CMP 1:25 000 reflecte a importância desta antiga estrada e respectiva passagem da Ribeira, nomeadamente no contexto das antigas movimentações sazonais dos gados entre as planícies do Baixo Alentejo e as zonas montanhosas beirãs. A ponte propriamente dita, situa-se numa zona de encaixe rochoso da Ribeira, particularmente declivoso a Sul, o que apesar da considerável largura do vale, evitava a submersão dos acessos mesmo em épocas de maior invernia. Não muito longe, a montante da velha ponte, conservam-se as ruínas de um velho moinho ou azenha, numa associação muito comum, demonstrando a importância de estradas e pontes na estruturação das actividades económicas locais.
A Ponte vista de jusante (cima) e montante (baixo), com os talha-mares com sinais de "descolamento"

A Ponte Velha da Fragusta é uma sólida construção em alvenaria de xisto, não rebocada, estruturada por seis arcos quebrados, constituídos por lajes de xisto justapostas em cutelo e cobrindo umvão de aproximadamente 60 metros. Cinco dos arcos apresentam dimensões equivalentes, com cerca de 4m de flecha por 4 de largura na base, sendo o sexto arco no encosto à margem Norte de menores dimensões, por adaptação à topografia. O interior dos arcos apresenta ainda vestígios de argamassa de cal, pontualmente mostrando reparações relativamente recentes. O corpo da ponte encontra-se reforçada a montante por quatro robustos talha-mares em forma de prismas rectangulares de base triangular, provavelmente acrescentos à estrutura original, dados os sinais de “destaque” provocados pela vegetação infestante. O tabuleiro mostra ainda vestígios da calçada e apresenta uma largura de útil de 2,5 metros, e é ladeado por guardas ainda relativamente bem conservadas.

Vistas de jusante.


Ao contrário do que infelizmente é habitual em estruturas deste tipo, já não usadas, o estado geral de conservação é ainda razoável embora evidenciando sintomas preocupantes de início do processo de degradação. A inexistência de vestígios de fendilhação no intradorso dos arcos e a conservação das guardas, são os aspectos que contribuem para o diagnóstico de aparente solidez. A sua maior ameaça, resulta da falta de uso e consequente falta de manutenção. Aliás , a insensibilidade local para com o monumento, traduziu-se há alguns anos na destruição intencional da zona de encosto Sul do tabuleiro, única e exclusivamente para fazer passar uma vedação da propriedade vizinha. 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015


Reflexões sobre a percepção humana do tempo

Michel Brézillon e André Leroi-Gourhan


Sigo com regularidade o blog "Avenida Salúquia 34" do meu colega e amigo Santiago Macias, actual Presidente da Câmara da sua Moura natal. Li com particular interesse, uma sua recente reflexão sobre a passagem do tempo à escala da vida humana e as suas consequências  nos relacionamentos inter-geracionais (http://avenidadasaluquia34.blogspot.pt/2015/02/quando-luz-se-apaga.html). A esse propósito, recordei dois episódios pessoais separados por quase meio século. 

Comecemos pelo mais antigo. No Verão de 1973, ainda estudante universitário, tive oportunidade, com alguns colegas da Faculdade de Letras (o Francisco Sande Lemos, a Manuela Martins e o João Ludgero) de participar durante um mês nas escavações de Pincevent, importante sítio "magdalenense" (Paleolítico Superior) algures nas margens do Sena, ao Sul de Paris . As escavações, dirigidas por André Leroi-Gourhan (1911-1986) e Michel Brézillon (1924-1993), eram uma referencia quase mundial no que respeita à metodologia arqueológica de campo no quadro da Pré-história antiga e congregavam toda uma equipa altamente especializada em torno do Mestre Leroi-Gourhan. Para além do trabalho de campo e do habitual apoio à logística típica de um "chantier-école", sobrava tempo para profícuas conversas, aspecto em que os investigadores franceses, a começar pelo próprio Leroi-Gourhan, não se faziam rogados. No entanto, era notório que para os nossos anfitriões, a arqueologia pré-histórica portuguesa, para além dos concheiros mesolíticos de Muge, mundialmente famosos desde o Congresso Internacional de Lisboa de 1880, terminavam nas pesquisas dos anos 40, conduzidas nos nossos terraços quaternários, pelo famoso arqueólogo francês Henri Breuil (1877-1961) e Georg Zbyszewski (1909-1999), geólogo estabelecido em Portugal desde os anos 30. Até aqui tudo normal, mas recordo como se fosse hoje, o espanto dos muito bem informados colegas franceses quando, pelo diálogo connosco, se deram conta de que Zby (como era conhecido no meio arqueológico português) estava vivo e profissionalmente activo em Portugal. De facto, para os franceses, na falta de outras referências, Zbyszewski parecia já um nome clássico de um passado arqueológico distante... Mal sabia eu, nesse distante Verão de 73, que uma década depois ainda viria a conviver profissionalmente com Zby, no contexto das várias comissões de arqueologia que, na sequência do 25 de Abril, substituiriam a subsecção de arqueologia da extinta Junta Nacional de Educação. 
Georg Zbyszewski

Henri Breuil


Passemos ao segundo e recente episódio na origem destas memórias. Ao pesquisar dados que necessitava na Internet, dei-me a certa altura conta de que uma figura com algum destaque na arqueologia portuguesa nos anos 60 e que eu julgava há muito desaparecida, estava afinal viva ainda que necessariamente com idade bastante avançada. Mais grave ainda, em recente trabalho publicado, em que a propósito do tema, me refiro expressamente à actuação deste arqueólogo, inadvertidamente, quase que dou a entender que o personagem em causa já não está entre nós. Talvez porque, na minha percepção do tempo, ele faz parte de uma Arqueologia que ainda conheci mas que já não existe há muito. Tal como para os meus colegas franceses, para quem Henri Breuil, que alguns ainda haviam conhecido, era já um nome clássico de uma época desaparecida.

De facto, não pude deixar de pensar em tudo isto, ao ler no blog do Santiago, ainda que num contexto completamente diverso,Aquele senhor, que eu pensava desaparecido neste mundo, está na casa dos 80, eu passei os 50. O tempo acelera-se, com o passar dos anos. Um fenómeno de perceção, incompatível com a medição dos relógios".

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Almendres_ Um "novo" Monumento Nacional em Valverde/Guadalupe


A notícia não teve muito destaque, mas o comunicado habitual do concelho de ministros da última quinta-feira ainda foi citado nalguns meios e partilhado nas redes sociais: o Cromeleque ou recinto megalítico dos Almendres, localizado na União de Freguesias de Nª Sª da Tourega (Valverde) e Nª Sª de Guadalupe, acabara de ser promovido de "Imóvel de Interesse Público" a Monumento Nacional, faltando agora apenas a sua publicação em Diário da República para que tal decisão se formalize. Perguntará a generalidade das pessoas. E o que é que isso traz de novo? Será que agora irá haver mais meios para a salvaguarda de um monumento que apesar da sua crescente visibilidade turística e cultural, parece entregue a si mesmo e à sua sorte? Infelizmente, a resposta não é muito animadora. A Anta Grande do Zambujeiro é formalmente um Monumento Nacional desde 1971, e não é por esse facto que a sua situação é melhor. Bem pelo contrário, como qualquer visitante pode confirmar. O que é comum a estes dois monumentos vizinhos, é o facto de se encontrarem em propriedade privada e por esse facto, a Administração Pública, central ou local, se encontrar de mãos atadas no que toca à concretização dos elevados investimentos que a sua conservação exige. É certo que não estando os proprietários interessados em realizar esses investimentos (dificilmente recuperáveis mesmo numa lógica neo-liberal da sua futura exploração), compete às Administrações avançar com processos de aquisição ou expropriação. Mas para isso além dos meios, é necessária vontade política. E, nesse aspecto, todos sabemos que ultimamente o Estado vende, não compra! Mas quanto a isso, com os Almendres ou a Anta Grande do Zambujeiro, como motivo, teremos ainda muita oportunidade de falar. Hoje gostaria de destacar o facto da freguesia que resultou da união de Valverde e Guadalupe, onde resido vai para duas décadas e de cujos órgãos administrativos locais me orgulho de ser membro eleito, apresentar no seu território um invejável e pouco comum "cardápio" monumental, a saber. Cinco monumentos nacionais (Cromeleques dos Almendres e de Vale Maria do Meio, Antas de Vale Rodrigo, Barrocal e Zambujeiro) e sete imóveis ou sítios de interesse público, incluindo o conjunto monumental da Mitra (Convento do Bom Jesus, cerca e jardins).