sexta-feira, 4 de maio de 2018





Um 1º de Maio a caminhar

Há cerca de um ano a União de Freguesias da Tourega e Guadalupe, desafiou o José Pedro Calheiros e a SAL, para testar um percurso pedestre ainda transitável (com quase 25 km) e que permite a visita a alguns dos principais monumentos arqueológicos do seu território. Desse primeiro ensaio que teve pouca adesão, talvez por deficiência de divulgação, demos então conta neste blog    (ver aqui) .



Resolvemos por isso repetir a experiência, até porque ainda não desistimos do propósito que norteou esta iniciativa: marcar no terreno o percurso, obedecendo às normas e regras do pedestrianismo e obter a respectiva homologação junto das entidades competentes. Esta zona, por razões óbvias já é regularmente procurada por grupos turísticos organizados e enquadrados por empresas especializadas, que percorrem sectores específicos do trajecto em causa. No entanto julgamos que haverá condições para que essa actividade possa ser também realizada sem a necessidade desse enquadramento, o que, certamente, atrairia um número crescente de praticantes, com todas as vantagens.


Ao contrário do que aconteceu o ano passado, a caminhada do passado dia 1 de Maio, atraiu este ano três dezenas de interessados, quase todos forasteiros (Évora, Borba, Lisboa, Almada, etc...) que, julgamos nós pelos comentários e reações, apesar do cansaço, deram por bem empregue a experiência.

A foto de grupo no Cromeleque dos Almendres, onde se iniciaria a última etapa do percurso.

Por razões de divulgação, o início e final da caminhada, foi sinalizado junto do futuro "Centro Interpretativo dos Almendres", uma estrutura em início de construção e que esperamos venha a ser uma estrutura de apoio para este tipo de iniciativas e actividades de cariz turístico-cultural. Infelizmente e ao contrário do que estava previsto, dadas as condições climatéricas, as obras estão muito atrasadas. Ainda assim, por coincidência, nas vésperas da caminhada, tinham sido betonadas as respectivas fundações, operação registada em foto magnífica do Mário Carvalho, um dos promotores deste projecto.

A partida e a chegada, aconteceram junto ao futuro Centro de Interpretação dos Almendres. A foto do Mário de Carvalho regista o momento da betonagem dos alicerces que aconteceu na véspera do passeio.

As ruínas do Moinho da Ponte

A velha Ponte, perto do Monte das Pedras

Paragem para apreciar uma rara perspectiva de uma "mamôa pré-histórica"

Para evitar danos maiores,  (e na falta de uma intervenção de restauro urgente)  recentemente foi sinalizado o perigo que representa para os visitantes, a periclitante situação da Anta Grande do Zambujeiro...

A obrigatória passagem por Valverde, junto à cerca da Mitra


Apreciando as vistas no "Castelo do Giraldo"

Junto ao Menir dos Almendres, já no regresso a Guadalupe
Descendo dos Almendres para Guadalupe no confronto permanente com o trânsito turístico ininterrupto...que faz deste monumento o sítio pré-histórico mais visitado do país.

sábado, 7 de abril de 2018


Jacques TIXIER 

(1 de janeiro de 1925-3 de abril de 2018)

Jacques Tixier, nas Portas do Ródão (foto de Luis Raposo)

Através de uma nota enviada ao ARCHPORT pelo Luis Raposo tive conhecimento do desaparecimento de mais um grande nome da Arqueologia pré-histórica francesa, JACQUES TIXIER. Em várias notas historiográficas, me tenho aqui referido, à grande influência que a "escola francesa" teve para a geração de arqueólogos portugueses a que me orgulho de pertencer. De facto, para além da tradicional relação cultural com a França, no contexto geral das Humanidades (hoje irremediavelmente ultrapassada pelo universo anglo-saxónico), os estudantes de Letras que nos anos 70 e 80 do século passado se interessavam sobretudo pela Pré-história Antiga (como os que integravam o GEPP-Grupo para o Estudo do Paleolítico Português)  procuravam nas obras de um conjunto de grandes pré-historiadores franceses, os indispensáveis conhecimentos e inspiração para a concretização dos projectos de pesquisa com que então "sonhavam". 

Por circunstâncias várias, a que não foi estranha a abertura de fronteiras e de perspectivas que o "25 de Abril" proporcionou, alguns de nós acabaríamos por vir a estabelecer relações de colaboração e até de amizade, ao longo das respectivas carreiras, com alguns dos "pré-historiadores franceses" que nos haviam inspirado. Pelas leis naturais da vida, a maioria desses arqueólogos foi entretanto desaparecendo, tal como acaba de acontecer com Jacques Tixier, um verdadeiro "senhor" da Pré-história mundial, que conhecemos em 1978 em Chenavele, graças à amizade com outro grande nome já desaparecido em 2015, René Desbrosses  ( ver aqui ) .

O grupo de arqueólogos-estudantes que em 1978 teve oportunidade de conhecer pessoalmente Jacques Tixier (já então um pré-historiador de renome mundial) nas escavações de La Colombière, em Chenavele: à esquerda, o Luis Raposo. Reconhecem-se ainda José Mateus, Maria João Coutinho, Ana Isabel e Francisco Sande Lemos (foto de ACS)

Pessoalmente ainda recordo bem a sessão pública sobre "talhe experimental de silex" que Tixier realizou no Museu Nacional de Arqueologia mas foi sobretudo o Luis Raposo que manteve mais estreitas relações de trabalho e amizade com o arqueólogo agora desaparecido. No emotivo documento que entretanto divulgou, Luis Raposo recorda entre outros factos, a passagem de Tixier nas escavações da Foz do Enxarrique, um importante sítio do Paleolítico Médio da zona do Ródão, a cuja escavação tive a honra de estar ligado nos seus primórdios, e que viria a ter um papel relevante na renovação dos estudos paleolíticos em Portugal.


Com a devida vénia aqui transcrevo o texto do Luis Raposo, bem como algumas das imagens que a ilustram, e que julgo se enquadram no carácter memorialista de uma certa época, que este blog tem mantido. 


"Adieu, Jacques Tixier !

Confesso que, mais do que pesaroso, fiquei chocado ao saber do falecimento de Jacques Tixier, talvez o último “senhor” da longa, rica e hoje já velha “escola francesa” de tipologia e tecnologia líticas.iquece

Recordo com grande emoção os contactos que tivemos, desde Chenavel até Ródão. Recordo a sua forma de ser simples, a sua frontalidade amiga e pedagógica, a sua profunda humanidade. Recordo o seu saber, a sua mestria, mas recordo sobretudo recordo e reverencio a sua história pessoal única e fortemente inspiradora.

Jacques era um humilde professor do ensino primário, perdido algures no interior da Argélia, quando pelo contacto com Lionel Balout despertou para a Pré-História e o estudo de materiais líticos. E nunca deixou de ser, dentro de si, esse professor primário. Regressado a França era já apreciado pelo rigor analítico, e, simultaneamente, pelo espírito funcional e prático que pôs tanto na sua tipologia dos machados de mão (a primeira e até hoje a mais eficaz tipologia tecnológica de um conjunto importante de utensílios do Acheulense) como nas suas tipologias e catálogos de formas das indústrias microlíticas e microlamelares do Norte de África. Tornou-se então também grande amigo de François Bordes – que o tinha em elevadíssima consideração (coisa rara em Bordes, como se sabe).

Nunca quis seguir a via formal de investigador e muito menos académico. Preferiu sempre a liberdade de fazer o que lhe dava gosto e nunca suportou a hierarquia empalhada e de salão. Por isso nunca se doutorou – e eu pude bem testemunhar as suspeições a que tal dava origem por parte do establishment universitário francês, mesmo depois de lhe ter sido conferido um grau de doutor ad-hoc, com base em relatório que fez da sua vida de pré-historiador. Recordo, por exemplo, as dificuldades que por causa disso senti quando o convidei para meu orientador de doutoramento – o que ele logo aceitou com amizade quase paternal. Só mais tarde, o CNRS viria a abrir-lhe as portas com a criação de uma Unidade de Investigação feita à sua medida (tanto na definição da missão como até na localização excêntrica, fora de Paris) e de que ele aceitou ser director.

Recordo-o finalmente connosco, em Portugal. No Museu Nacional de Arqueologia, onde nos deliciou com as suas sessões de tecnologia experimental. Mas sobretudo em Ródão, nas escavações da Foz do Enxarrique. Recordo aí como se juntou aos escavadores, carregando baldes como os outros para a crivagem e pedindo-me que o colocasse num quadrado, sem sequer dizer aos participantes quem ele era. Recordo como certo dia, não sabendo com quem falava, uma estudante espanhola ao seu lado o recriminava por ser menos atento na decapagem do solo… desculpando-se ele com trejeitos quase envergonhados (a mesma estudante viria mais tarde a desfazer-se em desculpas quando eu lhe disse com quem tinha estado ao lado durante a sua estadia entre nós). Recordo os convívios que tivemos, ao almoço, em mesa corrida, ou em sessões casuais de introdução ao talhe da pedra. Recordo as discussões vivas que tivemos naquele local, em face de peças que íamos descobrindo. Uma em especial, tem-me percorrido toda a vida: um núcleo (para mim) ou biface (para ele) que nos provocou alguma exaltação, tendo a discussão terminado com ele, não convencido de todo, a dizer-me “pronto, a escavação e o sítio é teu e eu calo-me” (ainda hoje eu penso que tinha razão, devo acrescentar, e publiquei entretanto descrição aprofundada da dita peça, que lhe enviei e ele magnanimamente acusou ter recebido e apreciado).

Enfim, de Jacques Tixier o mais que posso dizer é que o recordo. E recordarei sempre. Tudo o resto, fica dentro de mim.

Luís Raposo"



Jacques Tixier nas escavações da Foz do Enxarrique (Foto de Luis Raposo)


Jacques Tixier, em sessão de talhe experimental, para os participantes das escavações da Foz do Enxarrique (no acampamento da "Sra da Alagada", Ródão- Foto de Luis Raposo)









quarta-feira, 4 de abril de 2018

"APARIÇÃO" NAS PEDRAS TALHAS


Está em exibição numa das novas salas de cinema de Évora, o filme APARIÇÃO, baseado na conhecida obra homónima de Virgílio Ferreira. As rodagens tiveram lugar na própria cidade de Évora e arredores em Novembro de 2016, procurando ir ao encontro do peculiar ambiente social, urbano e rural, dos anos 50 do século XX em que o romancista coloca a acção. A referencia neste blog resulta do facto de, mais uma vez, as pedras talhas dos ALMENDRES, terem servido de cenário cinematográfico, situação que não é nova ( ver aqui ).

Quando no Outono de 2016, fui contactado pela respectiva produção (através da Direcção Regional de Cultura do Alentejo) para conhecimento prévio das condições para filmar nos Almendres (uma atenção e um cuidado que nem todos têm, pois por vezes só damos pelas filmagens ou outras actividades "a posteriori", como aconteceu com a novela "O Sábio" que passa actualmente na RTP1), tive então oportunidade de transmitir a habitual informação: o Cromeleque dos Almendres é um "monumento nacional" e como tal, a entidade da tutela do Ministério da Cultura (DRCA) deve ser ouvida sobre as condicionantes técnicas a ter em consideração nas acções a desenvolver no local e na sua envolvente mas compete a última palavra no que respeita a autorizações, aos "proprietários" (que no caso em questão não costumam levantar objecções...pois, infelizmente o seu interesse relativamente ao monumento localizado na sua Herdade é o que se conhece e a que já nos temos aqui referido). 

Acrescente-se ainda que, conhecendo a obra literária em questão (e que aproveitei para reler), não deixei de enviar um "recado" ao realizador Fernando Vendrell através da produção: os Almendres só foram "identificados arqueologicamente" nos anos 60 como aqui referimos ) e apesar das "pedras talhas" já serem conhecidas dos habitantes locais, o seu aspecto seria completamente diferente nos anos 50, conforme mostram as suas primeiras fotografias. A produtora executiva com quem então falei e cujo nome não recordo (com a aposentação, perdi o acesso ao historial dos meus mails, um arquivo cuja falta já tenho sentido...), disse-me então que o Fernando Vendrell estava consciente dessa pequena "incongruência histórico-factual" mas que tinha "adorado" as qualidades cinéfilas do local e não resistia a utilizá-lo como cenário para um dos diálogos filosóficos em que o romance é fértil.

A cena em causa, cuja filmagem acompanhei depois em representação da DRCA e que já tive oportunidade de ver numa das salas do Cine Plaza de Évora, mostra um velho "carocha" da época, aproximando-se dum Cromeleque mergulhado na névoa matinal, criando um ambiente propício ao diálogo filosófico sobre o sentido da vida e da existência que acontece entre professor e aluno passeando entre os menires.

Nota final: Acresce a estas imagens dos Almendres várias cenas filmadas na Herdade da Mitra (Valverde), nomeadamente no Convento do Bom Jesus e no Pátio Matos Rosa, com a colaboração de figurantes locais e da União de Freguesias da Tourega e Guadalupe. Nos agradecimentos finais da ficha técnica, simpaticamente, é mencionada essa colaboração por parte da Junta de Freguesia.

Cena de a "APARIÇÃO"_ o carocha chegando aos Almendres. Hoje, felizmente, em condições normais tal já não é autorizado.

"APARIÇÃO"- professor e aluno falam sobre o sentido da vida e da existência tendo os menires como testemunhas silenciosas.

Outros "menires" (estes certamente réplicas de menires escoceses), inspirando outro tipo de histórias...

A novela "O Sábio", também com cenas filmadas nos Almendres mas neste caso sem qualquer conhecimento prévio da DRCA

domingo, 1 de abril de 2018


A GRUTA DO ESCOURAL E A ARQUEO-ACÚSTICA 
versão 0.2


Há cerca de 3 anos, correspondendo a um desafio do colega Fernando Coimbra, professor no Instituto Politécnico de Tomar, acompanhei com alguma curiosidade mas também algum cepticismo, Paolo Debertolis, um médico italiano, também arqueólogo "acústico", na busca de possíveis especiais efeitos sonoros ou, por outras palavras, de respostas acústicas diferenciadas, nalguns monumentos megalíticos de Guadalupe e também na Gruta do Escoural. ver breve referencia aqui 

Bruno Fazenda, preparando a emissão e gravação de mais um sinal sonoro no Escoural (coluna em primeiro plano). Um dos microfones está próximo do motivo rupestre, enquanto o outro, para comparação, está num local próximo mas sem qualquer vestígio rupestre.
Desde então não tive conhecimento de qualquer resultado das várias experiências e gravações sonoras efectuadas. Recentemente, o Fernando Coimbra contactou-me de novo. Esclarecida a ausência de resultados dos anteriores testes (segundo referiu uma mera experiência pontual sem mais consequencias, perante a reduzida experiência arqueológica do médico italiano) o Fernando, dado o seu crescente interesse nesta temática tão específica, por minha intermediação, julgando que eu ainda estava no activo, vinha propor à Direcção Regional de Cultura do Alentejo, a realização de novos testes agora centrados na Gruta do Escoural. Desta vez, porém, os testes seriam conduzidos por um jovem cientista português, Bruno Fazenda, investigador residente no Acoustics Research Centre, da School of Computing, Science and Engineering, Universidade de Salford, uma das principais instituições de investigação acústica a nível mundial e que coordenara recentemente um conjunto de testes acústicos em meia dezena de grutas rupestres do Norte de Espanha. Obtidas as autorizações necessárias junto da DRCA, os testes acústicos realizaram-se recentemente na Gruta do Escoural, sob a direcção de Bruno Fazenda e a colaboração do Fernando Coimbra, do André Pinto (jovem investigador em temáticas acústicas, formado na Universidade de Évora) e de Raquel Castro, doutorada em multimédia. A minha presença justificou-se essencialmente, para apoio à selecção e localização dos "motivos rupestres" (pinturas ou gravuras) cujo posicionamento no interior da cavidade, seria avaliada do ponto de vista da qualidade da respectiva "resposta acústica". 

Diga-se, entretanto, que sobre esta matéria da "arqueo-acústica", e salvo a curta experiencia prática já referida, pouco ou nada conhecia, nomeadamente no que respeita à sua aplicação à investigação de grutas rupestres. Foi portanto especialmente útil o acesso aos resultados dos testes em Espanha, publicados sob a direcção do próprio Bruno Fazenda no conceituado Journal of the Acoustic Society of America. Com efeito, apesar de há muito serem conhecidos instrumentos musicais (nomeadamente flautas e apitos em osso) descobertos em contextos paleolíticos e daí se depreender a existência de rituais pré-históricos propiciados através de actividades musicais ou sonoras, datam apenas dos anos 80 do século passado, os primeiros ensaios que de forma organizada e sistemática, ainda que com recursos técnicos limitados, procuravam provar a existência de uma relação entre as características das respostas acústicas e a localização dos motivos rupestres nalgumas grutas franceses. São especialmente conhecidos e citados os trabalhos de Iégor Reznikoff e Michel Dauvois em grutas como Le Portel, Niaux, Arcy-sur-Cure ou Isturitz, esta especialmente significativa pela descoberta de vestígios de instrumentos musicais. Apesar da forte convicção daqueles investigadores, as limitações técnicas e metodológicas não permitiram ir além do levantamento de hipóteses muito discutíveis. Tentando ultrapassar aquelas dificuldades, a equipa liderada por Bruno Fazenda e na qual participaram conhecidos arqueólogos, munida dos mais modernos recursos tecnológicos, procurou estabelecer uma metodologia que de forma objectiva e através de parâmetros mensuráveis, avaliasse a qualidade acústica dos locais escolhidos pelos paleolíticos para efectuarem os motivos rupestres. Centrando-se num pequeno conjunto de grutas rupestres do Norte de Espanha, nomeadamente El Castillo e Tito Bustillo entre outras, e analisados os respectivos resultados com recurso à estatística, o estudo permitiu chegar às seguintes conclusões: os motivos rupestres em geral e as linhas ou pontos, em particular, parecem estar localizados preferencialmente em sítios cuja reverberação é moderada e onde a resposta acústica às baixas frequências evidencia efeitos de ressonância. No entanto, conclui ainda o estudo, uma associação entre a localização dos motivos rupestres dentro da gruta com determinadas especificidades acústicas, é estatisticamente fraca ainda que suficiente para sustentar a hipótese de determinados efeitos sonoros e respectivas características terem influenciado o comportamento humano. 

Face ao alcance muito limitado destas conclusões, facto reconhecido pelo próprio Bruno Fazenda (actualmente envolvido numa ampla investigação acústica sobre Stonehenge), aquele estudo vale sobretudo pelo estabelecimento de uma metodologia rigorosa que passará a servir de padrão obrigatório em trabalhos futuros e que no Escoural, aquele investigador teve oportunidade de ensaiar de novo. Pessoalmente, no entanto, pese embora o reconhecimento quase intuitivo do certamente importante papel dos sons nas múltiplas facetas do dia a dia da humanidade pré-histórica, julgo que dificilmente, no caso de uma cavidade tão pequena como a do Escoural, as eventuais variáveis de qualidade acústica, poderiam ter influenciado a escolha da localização da centena de motivos pintados ou gravados ali identificados (mesmo partindo do princípio pouco provável que a sua grande maioria teria sido produzido pela mesma comunidade). De qualquer modo, os testes efectuados na Gruta do Escoural,  com sucessivas gravações digitais de sinais sonoros percorrendo toda uma escala dos mais graves aos mais agudos, uma vez analisados estatisticamente e devidamente publicados, passarão a ser, tanto quanto me é dado conhecer, uma estreia absoluta na arqueologia pré-histórica portuguesa. Mais uma a que esta Gruta ficará ligada.

Para eventuais interessados, aqui fica a nota bibliográfica que serviu de apoio a este post, mostrando que até nas disciplinas mais improváveis, os jovens investigadores portugueses, estão hoje a "dar cartas", ainda que, quase sempre como "imigrantes".

Cave acoustics in prehistory: Exploring the association of Palaeolithic visual motifs
and acoustic response. Bruno Fazenda, Chris Scarre, Rupert Till, Raquel Jiménez Pasalodos, Manuel Rojo Guerra, Cristina Tejedor, Roberto Ontañón Peredo, Aaron Watson, Simon Wyatt, Carlos García Benito, Helen Drinkall, and Frederick Foulds; The Journal of the Acoustical Society of America 142, 1332 (2017);



O equipamento básico para os testes acústicos: gravador digital e 2 microfones de alta perfomance, e a coluna para emissão do sinal sonoro


Breve briefing antes do início dos testes acústicos na Gruta do Escoural: a partir da esquerda, Bruno Fazenda, André Pinto, Raquel Castro e Fernando Coimbra

sábado, 31 de março de 2018

Anta Grande do Zambujeiro e os "turistas" indesejados


A gigantesca mamôa da Anta Grande do Zambujeiro, vista de Norte


Ao contrário do que está a acontecer esta semana nos Almendres, onde a afluência de turistas não para de aumentar, a Anta Grande do Zambujeiro parece cada vez mais arredada do circuito das visitas campestres dos muitos milhares de visitantes da cidade de Évora. Pode parecer estranho que o maior "dolmen" ibérico, pelo menos com as características da AGZ, não atraia mais visitantes mas há vários factores que podem explicar essa situação. Desde logo a sua dramática situação no que respeita ao seu estado de conservação. Aliás, colegas que hoje vivem do acompanhamento turístico em Évora, confessam que, para evitar vergonhas, evitam já levar turistas à AG, pois não conseguem explicar aos atónitos visitantes como é que num país civilizado, europeu e ocidental, se mantém um monumento (nacional?) desta antiguidade e grandeza, no estado em que se encontra. Por outro lado, os acessos também deixam bastante a desejar. O estradão que atravessa a Herdade da Mitra (Universidade de Évora) precisava de ser melhorado para facilitar a passagem das viaturas até ao parque de estacionamento improvisado junto à Ribeira da Peramanca. E depois, a ponte pedonal instalada pela Câmara Municipal há um quarto de século, necessita manutenção urgente, antes que haja algum acidente.

A ponte pedonal de acesso à AGZ, a necessitar urgente reparação.


Mas não era sobre esta lamentável situação (a que já me referi várias vezes neste blog ver aqui
e também aqui  ) que hoje queria falar, embora no fundo tudo vá levar ao mesmo problema. É que em recente passeio, verifiquei que a velha vedação (instalada pelo Serviço Regional de Arqueologia do Sul ainda no tempo do Dr. Caetano Melo Beirão, portanto há mais de 3 décadas, na mesma época da instalação da "cobertura provisória"....) está  destruída em vários locais, permitindo assim o acesso de "turistas" indesejados, no caso, as vacas que pastam pachorrentamente na Herdade vizinha. Para além do perigo que tal facto pode representar para os próprios animais (à atenção do PAN...), o pisoteio das estruturas megalíticas já de si tão periclitantes, vem agravar ainda mais a já dramática situação do monumento. 


Vestígios da presença de gado no interior do corredor da AGZ e no topo da "mamôa", junto à "câmara funerária". De notar a intensa erosão provocada pelo acesso não controlado dos visitantes.

A Junta de Freguesia da Tourega e Guadalupe, não deixará de informar (mais uma vez...) as entidades competentes (DRCA e CME) mas, consciente de que a resposta seja um já crónico lamento sobre a "falta de meios", não deixará de tomar as medidas que estejam ao seu alcance: comprar o material necessário e proceder, com os seus recursos humanos, à reparação urgente da vedação. Depois logo se verá a quem mandar a respectiva "factura".


quarta-feira, 21 de março de 2018



                     ALQUEVA, o último acto?



No quase meio século que levo de trabalho em arqueologia e património, tive oportunidade de me envolver em dezenas de projectos, um pouco por todo o território português, como aliás se reflecte nos temas e assuntos que vou abordando neste blog memorialista. Mas se há um projecto que praticamente acompanhou toda a minha carreira profissional, ele é sem dúvida o projecto arqueológico do Alqueva. Com efeito, enquanto colaborador do GEPP (a associação informal de estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa interessados pelo Paleolítico que se envolveu nos estudos da arte rupestre do Tejo, a partir de 1971/72) tive a oportunidade, ainda como estudante, de participar na Páscoa de 1975 na que terá sido a primeira “expedição arqueológica” ao longo do Guadiana, motivada pelo previsto início (1976) das obras de construção da Barragem do Alqueva (ver aqui). Como se sabe, após a construção do túnel de desvio do Guadiana e da respectiva “ensecadeira”, as obras seriam  interrompidas (1979) mas quando pouco tempo depois o governo da AD de Sá Carneiro decide retomar os estudos para o projecto Alqueva, incluindo pela primeira vez a vertente patrimonial, eu estava já destacado no Departamento de Arqueologia do IPPC onde coordenava a ligação com os Serviços Regionais de Arqueologia, incluindo o do Sul dirigido pelo Dr. Caetano Melo Beirão. Este serviço, no seu arranque (1980) apoiar-se-ia muito na Universidade de Évora, onde um outro antigo membro do GEPP, Jorge Pinho Monteiro, iniciava então a sua (infelizmente curta) carreira de professor. Pinho Monteiro, através da Universidade promoveu contactos com o Gabinete Coordenador do Alqueva no sentido de organização de um plano de trabalhos de arqueologia preventiva (ou de “salvamento” como então se dizia) nas áreas a inundar. Naturalmente, o posterior envolvimento do Serviço Regional implicava a articulação com a Direcção do IPPC através do respectivo Departamento de Arqueologia. Os sucessivos adiamentos da retoma das obras e a perspectiva de futuro apoio financeiro da CEE, acabaram por criar as condições para a realização do primeiro estudo de impacte ambiental realizado em Portugal, mesmo antes de haver legislação de enquadramento  (meados dos anos 80). Graças aos antecedentes, em particular os decorrentes do envolvimento da Universidade de Évora e Serviço Regional de Arqueologia do Sul, este primeiro estudo (consórcio EGF/DRENA) acabaria por ter uma componente arqueológica muito forte. Apesar do enquadramento privado dos estudos, assegurado através da contratação da experiente dupla de arqueólogos Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares (responsáveis pela arqueologia no Gabinete da Área de Sines- ver: também aqui), os serviços de arqueologia, a nível regional e central, acompanhariam muito de perto este projecto. Naturalmente, com a minha mudança para Évora em 1988, o dossier “Alqueva” que já conhecia bem, passou a ser uma prioridade pessoal e institucional. Mais uma vez, porém, os avanços e recuos no empreendimento, acabariam por se reflectir na vertente arqueológica. Apesar das promessas de financiamento que nos levaram a criar uma “estrutura” específica para este projecto, para cuja direcção desafiei o meu colega do Serviço Regional de Arqueologia do Norte, Orlando Sousa, os trabalhos de campo não passaram então de reconhecimentos exploratórios (1989-1990). Quando em 1994/95, já em tempos de governo de Cavaco Silva, se tomam finalmente as decisões há muito esperadas, eu seria, no âmbito da Secretaria de Estado da Cultura, o técnico que reunia maior informação sobre o dossier “Alqueva”. Certamente por essa razão, uma vez constituída a empresa pública EDIA, a administração, presidida por Adérito Serrão e incluindo Joaquim Marques Ferreira como responsável pelo Ambiente, viria a convidar-me para me ocupar da vertente Arqueológica do projecto.

O primeiro das duas dezenas de volumes de arqueologia editados no âmbito do Alqueva e no qual descrevo os antecedentes e primeiros passos do respectivo projecto arqueológico.
Por consequência, de Maio de 1996 a Março de 2002 (coincidindo com o fecho das comportas da Barragem), a partir de Mourão, coordenei os trabalhos realizados na área a inundar ou a afectar pela construção de todas as infra-estruturas associadas, a começar pelo processo de reinstalação da Aldeia da Luz, certamente a componente mais mediática de todo um programa que esteve sempre sob o escrutínio da comunicação social.

Escritório de Mourão de onde coordenei os trabalhos de Arqueologia do Alqueva entre 1996 e 2002
Apesar do meu desvinculamento da EDIA em 2002 e do regresso ao então IPPAR (depois IGESPAR e finalmente Direcção Regional de Cultura do Alentejo) a ligação ao projecto do Alqueva manter-se-ia. De 2002 a 2007, prestando serviços de consultadoria e promovendo com Luis Berrocal-Rangel, as escavações no Castro dos Ratinhos, junto à Barragem do Alqueva, no contexto de um programa, hoje adormecido, de valorização da respectiva envolvente. Nos anos seguintes, essa ligação, seria enquadrada institucionalmente, através de um protocolo celebrado entre a EDIA e a DRCA, com o qual se criaram as condições par se concretizar um dos principais objectivos do Plano Arqueológico do Alqueva, ou seja a publicação das monografias que por fim vinham dar conteúdo prático aos resultados das centenas de escavações realizadas. ver texto sobre a colecção Memórias d'Odiana

Já após a concretização da verdadeira "empreitada" técnico-burocrática" que representou a publicação da 2ª série das monografias de Alqueva (edição de 14 volumes na sequencia de concurso público internacional e em plena crise da "tróica"), tive oportunidade de me envolver de novo no Verão de 2015, no contexto das boas relações institucionais DRCA/EDIA, num projecto entusiasmante mas que, infelizmente por razões contextuais (coincidência com as eleições pós-troica e duração expositiva muito curta), acabou por ter muito pouco impacto junto da comunicação social. Por essa razão passou quase despercebido frustrando o seu principal objectivo. Falo da exposição "Alqueva 20 anos de obra, 200 milénios de História" organizada no Museu Nacional de Arqueologia, que pretendia dar a conhecer a um público mais alargado, os extraordinários resultados científicos decorrentes das dezenas de projectos promovidos no contexto, neste caso não apenas da Barragem mas também do subsequente "plano de regadio". ver aqui

Por fim, o "último acto" a que me refiro neste texto, e que me acontece em plena ressaca de aposentação, decorre ainda dessa exposição do final de 2015. Ficara acordado, desde então que, pelo menos parte da exposição do MNA, seria posteriormente apresentada em Évora. Afinal, ao contrário de Beja que conheceu nos últimos anos vários apontamentos expositivos sobre a Arqueologia do Alqueva (na sede da EDIA e no núcleo museológico dos Sembranos), Évora nunca tivera essa oportunidade, pese embora a estreita relação da cidade e dos serviços nela instalados, com o projecto ALQUEVA.

Apesar de só em 2018 Évora desfrutar de uma exposição sobre Arqueologia do Alqueva, em 2001 aqui foi realizado, na Universidade, o 3º Colóquio de Arqueologia do Alqueva





Após alguns adiamentos, a oportunidade surgiria por proposta da própria EDIA, mais especificamente da sua equipa de arqueologia. Porque não trazer a Évora uma exposição entretanto preparada no Museu da Luz sobre a arqueologia do território daquela sacrificada freguesia da margem esquerda? Os contactos e preparativos para esse efeito acabariam, no entanto, por coincidir com a chegada dos meus papéis para a aposentação, mas mesmo assim seria difícil alhear-me da iniciativa assumida pelos colegas quer da EDIA quer da DRCA. Acabei, naturalmente não apenas por marcar presença na respectiva inauguração no passado dia 21 de Fevereiro mas também por aceitar o convite para fazer uma conferencia sobre a Arqueologia do Alqueva, que teve lugar no passado dia 14 de Março, no espaço da própria exposição.



A exposição sobre a Arqueologia da (aldeias) da Luz, na DRCA

Como se calcula, dada a sua importância no contexto da arqueologia preventiva, tenho frequentemente sido convidado para falar no projecto arqueológico do Alqueva, nomeadamente para alunos universitários. Mas neste caso não me pareceu interessante abordar o projecto na sua globalidade.Assim, dado o contexto em que a iniciativa ocorria, resolvi usar o exemplo do trabalho patrimonial realizado na Luz (nas suas múltiplas vertentes disciplinares) para  destacar aquilo que me pareceu verdadeiramente exemplar e comparar com as fragilidades e deficiências do projecto global do Alqueva, que apesar dos elogios, também as teve. Mas esse é um assunto que talvez mereça uma entrada especial neste blog, aproveitando (porque não) a reflexão desenvolvida nesta conferencia.

A conferencia do dia 14 de Março de 2018