segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Mário Brito (1953-2015)

Foi mais uma vez através do ARCHPORT que a notícia chegou. Mais um companheiro que desaparece, da geração que nos anos 80 ajudou a construir as alargadas bases onde hoje se funda a Arqueologia, enquanto actividade essencial na construção da identidade e da memória colectiva. A nota fúnebre da Direcção Regional de Cultura do Norte, realça a sua actividade no âmbito da "gestão cultural" e da museologia mas não esquece que a sua carreira se iniciou, por concurso, como arqueólogo do velho Serviço Regional de Arqueologia da Zona Norte (1985) instalado em Braga no início dos anos 80, acolhido pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho. A estas duas estruturas cedo se juntaria o Museu D.Diogo de Sousa (em "rede" como hoje se diz), então ainda em instalação e, para aí transitaria depois o Mário Brito iniciando uma importante carreira ligada à museologia. Como lembrava há pouco no Facebook o António Martinho Baptista, o alentejano do Côa que fez também tirocínio em Braga (Parque Nacional do Gerês), o Mário Brito foi um dos primeiros da nossa geração, a descobrir a importância das novas tecnologias para o trabalho de investigação e divulgação patrimonial, tendo tido um papel importante na instalação dos primeiros sistemas informáticos na área do património cultural. Pessoal e profissionalmente, os nossos contactos foram esporádicos após a extinção no início dos 90 dos Serviços Regionais de Arqueologia e da dispersão de serviços acontecida com a implosão do IPPC. De tal modo, que após a habitual incredulidade face à secura da notícia, a minha primeira reação tenha sido a memória de um ainda jovem companheiro (apesar da idade de 61, confirmada pela notícia), um dos recém licenciados da Faculdade de Letras do Porto que, sob a coordenação do Francisco Sande Lemos, se haviam forjado como arqueólogos na grande escola de "arqueologia pública" (um conceito ainda por descobrir à época) que foi o SRAZN e de que fizeram parte entre outros, o Lino Tavares da Silva, a Isabel Silva, o José Meireles, o Orlando de Sousa, o João Pedro Cunha Ribeiro, o Rafael Alfenim...).


Aqui deixo a Nota hoje divulgada pela Direção Regional de Cultura do Norte:



É com profundo pesar que a Direção Regional de Cultura do Norte cumpre o dever de participar o falecimento do seu estimado colaborador Dr. Mário Brito e de informar que o corpo estará em câmara ardente, a partir da tarde de hoje, na Igreja das Antas, no Porto.
Mário Brito desenvolveu a sua atividade no âmbito da Gestão Cultural, estando, mais recentemente, envolvido em ações relacionadas com as Indústrias Criativas e criação de emprego cultural. Foi Diretor de Departamento de Museus e Património da C.M. do Porto, professor da Universidade do Porto, formador e colaborou com diversas instituições de ensino, nomeadamente a Universidade do Minho e a Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Desempenhou também funções nos Serviços Regionais de Arqueologia da Zona Norte, Museu D. Diogo de Sousa, Mosteiro de Tibães e Instituto Português do Património Arquitetónico. Licenciado em Arte e Arqueologia era Pós-Graduado em Gestão Autárquica Avançada.
A Direção Regional de Cultura do Norte endereça à família e amigos as mais sentidas condolências.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015


O SONHO DO PEIXEIRO


O post do Carlos Fabião (https://www.facebook.com/carlos.fabiao.1?fref=ts) anunciando com justificado orgulho e sentido do dever cumprido, a inauguração de um Museu em Santa Clara, onde estará representado o Povoado das Mesas do Castelinho, trouxe-me à memória factos quase com 30 anos e que são de tal modo estranhos que dariam para tema de filme ou romance surrealista. O povoado das Mesas do Castelinho estava há muito referenciado pelo P. Serralheiro da Messejana, um amigo e colaborador de Abel Viana, o arqueólogo minhoto que se estabelecera em Beja nos anos 30. (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2014/09/ser-ou-nao-ser-alentejano-participei.html) Aliás segundo novos dados referenciados pela equipa de Carlos Fabião, tudo indica que o próprio Abel Viana terá hesitado entre escavar nas Mesas do Castelinho ou no Castro da Cola, tendo finalmente decidido por este castro, que viria a ser o último grande projecto a que se dedicaria antes do seu desaparecimento em 1964 ( http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/03/senhora-da-cola-entre-janeiro-de-1993-e.html). Com efeito, duas décadas depois do desaparecimento de Abel Viana voltou a falar-se das Mesas do Castelinho e pelos piores motivos. Em plena época do Natal de 1986 (?)alguém terá alertado o Director dos Serviços Regionais de Arqueologia do Sul, na altura o Dr. Caetano Melo Beirão, de que uma retro-escavadoura andava a destruir o sítio das Mesas do Castelinho, próximo de Santa Clara de Almodôvar. Com a eficácia que lhe era conhecida, Caetano Melo Beirão, certamente acompanhado por algum dos técnicos do Serviço e de elementos da GNR, dirigiu-se ao local onde se lhe deparou um cenário desolador. Uma enorme máquina abrira uma imensa vala ao longo das plataformas cuja configuração (mesa) estará certamente na origem do topónimo. Interrompida a vandálica acção, que não fora mais grave por questões de divisão de propriedade, rapidamente se apuraram responsabilidades e motivações. O terreno revolvido fora recentemente adquirido por um peixeiro da Ericeira, habitual frequentador da região como caçador, e que "sonhara" (?!) com um tesouro escondido no local. E de facto, tal como em tantos outros locais similares, existe em Santa Clara uma conhecida lenda sobre um tesouro escondido nas Mesas do Castelinho. Interrompidas as destruições (que não tiveram outras consequencias jurídicas para o prevericador, porque o sítio não estava classificado...), o SRAZS iria tomar as primeiras medidas de salvaguarda e que no essencial, passariam pelo "ordenamento possível" do local de modo a obviar a imagem de enorme escombreira. Na falta de operacionais disponíveis em Évora, a solicitação do SRAZS avançou para o local o malogrado Carlos Jorge Ferreira, arqueólogo então no Departamento de Arqueologia do IPPC que eu dirigia e que, graças à sua grande generosidade e voluntarismo estava sempre pronto para as missões mais difíceis. Com a colaboração da Susana Correia, o Carlos Jorge procederia a uma primeira abordagem do sítio, recolhendo materiais, removendo as terras revolvidas e procedendo a um primeiro controle estratigráfico do sítio, através da limpeza e desenho de um gigantesco "corte" deixado no terreno pela loucura do peixeiro da Ericeira. (FERREIRA, Carlos Jorge, Escavações no Povoado fortificado das Mesas do Castelinho (Almodôvar) - relatório preliminar, Vipasca - Arqueologia e História, 1, Aljustrel, 1992). 
Poucos anos depois (1988 ou 1989), já como responsável pelo Serviço Regional de Arqueologia do Sul, tive oportunidade de tomar uma decisão de que ainda hoje me orgulho particularmente. No momento de dar continuidade ao trabalho do Carlos Jorge e para não defraudar as esperanças entreabertas em Santa Clara relativamente a este sítio de tão grande potencial, era necessário encontrar alguém que fosse capaz de "agarrar o touro pelos cornos". E foi então que a Susana Correia sugeriu o Carlos Fabião e o Amilcar Guerra, dois nomes algo estranhos em relação á arqueologia do Alentejo, pois andavam então mais pelas bandas de Arganil (Lomba do Canho, etc...). Feita a sugestão, o convite foi transmitido e aceite rapidamente e sem grandes hesitações por aqueles arqueólogos, então de uma "nova geração"... Naturalmente nem tudo foram rosas ao longo das quase três décadas que leva o projecto. Sobretudo nos últimos anos, as falhas de apoio da parte da Administração Central também aqui se reflectiram. Mas grandes passos foram dados: extensas escavações, escola de arqueologia prática para centenas de estudantes, aquisição de terrenos pelo Estado, e finalmente a musealização de parte do sítio (em curso sob a batuta de um dos "alunos" das Mesas, o meu actual colega Samuel Melro) e a abertura de uma exposição arqueológica em Santa Clara. Um bom pretexto para um regresso urgente a terras de Almodôvar.
O Carlos Jorge Ferreira, em finais de 1986, antes dos acontecimentos referidos mas aqui acompanhado pelo Carlos Fabião e, escondido, o Amilcar Guerra, os futuros homens das Mesas do Castelinho

O Carlos Jorge Ferreira e a Susana Correia em finais de 1986, colegas desde os tempos da Universidade do Porto e colegas no IPPC  (Galeria Almada Guerreiro, SEC, Lisboa).

Adenda de 28 Novembro 2016


Alguns meses antes de publicar este Post tinha aqui recordado a exposição organizada pelo Departamento de Arqueologia do IPPC em 1986 ("5 anos de Arqueologia" ver aqui), onde fui buscar as fotos acima reproduzidas. Há dias, reencontrei na Biblioteca da DRCA (que herdou a documentação do velho Serviço Regional de Arqueologia do Sul) um exemplar do "folheto" usado a quando da remontagem da referida exposição em Almodôvar (Maio de 1987). Já não tinha qualquer ideia da exposição ter estado em Almodôvar embora pense que a mesma circulou um pouco. Terá estado algures também na zona Centro (?). Neste caso iniciativa terá partido do próprio Serviço Regional de Arqueologia, então sob a direcção de Cateano de Melo Beirão, com a colaboração da autarquia, e surge no contexto da intervenção de emergência promovida na sequencia dos eventos a que este "post" se refere. 

Por esses motivos, pareceu-me que seria adequado aqui deixar uma nota a essa iniciativa reproduzindo a "capa"  e as palavras de introdução do Presidente da Câmara Municipal de Almodôvar na época, António Saleiro.





terça-feira, 4 de agosto de 2015


LOUSA_ o fecho do tempo

Por razões que por ora não convém ainda divulgar, nos últimos tempos voltei a "mergulhar" nas memórias do Alqueva, tema omnipresente no meu longo percurso pela arqueologia portuguesa (desde pelo menos a Páscoa de 1975, até hoje...). Esta foto, tirada em 17 de Março de 2002, poucas semanas depois de António Guterres ter carregado no botão que fechou as comportas da Barragem,  marca um momento especial nesse caminho. Operários (portugueses e ucranianos) colocam os últimos sacos na protecção do impropriamente chamado "Castelo da Lousa", uma estrutura concebida pelo Eng. Diamantino Saraiva, (da Empresa COBA e entretanto já falecido) sob a orientação do meu amigo J.Delgado Rodrigues, em representação do LNEC. 
Sobre esta intervenção, um tanto louca, publiquei com o Delgado Rodrigues e o Joaquim Garcia (que se ocupou de refazer "mamoas" no Vale do Guadiana) um pequeno trabalho há alguns anos:


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Ainda a propósito de Tongóbriga

Durante esta semana a RTP2, a hora algo impossível, tem vindo a apresentar uma pequena série de programas arqueológicos, sob o título genérico de ESCRITO NA PEDRA, da autoria da jornalista Júlia Fernandes (minha colega da Faculdade de Letras nos idos de 70, e conhecida do público pelo seu antigo e saudoso programa "O Lugar da História"). Graças às modernas tecnologias, tenho a série em gravação, pelo que, irei vendo com calma e quando for oportuno. Por curiosidade vi apenas o primeiro, sobre Milreu, um sítio que após intervalo de décadas visitei recentemente (ver aqui), e apreciei, para além da esperada qualidade da realização e da fotografia, a "magnífica" pose do Zé d'Encarnação. Entretanto sei que um dos programas versará sobre Tongóbriga, o ainda pouco conhecido sítio romano de Marco de Canavezes, redescoberto e trazido à luz do dia pelo Lino Tavares Dias, ao longo de décadas de trabalho árduo (Tongóbriga).

Conheci o Lino no início dos anos 80, precisamente quando ele estava a começar os trabalhos arqueológicos nas chamadas "Ruínas do Freixo" e acompanhei de perto, dadas as minhas funções na altura, o complexo processo de aquisição dos terrenos da velha aldeia que eram necessários para o desenvolvimento das escavações e, posteriormente, para o lançamento do projecto de Escola Profissional de Arqueologia. Por isso, não resisto em editar aqui a foto que recentemente o Lino me enviou e na qual ele toma posse como Director do então Serviço Regional de Arqueologia do Norte. Sucedia em 1988 ao Francisco Sande Lemos, que partindo da experiencia e da estrutura instalada na Unidade de Arqueologia da dinâmica Universidade do Minho, tinha lançado as raízes da salvaguarda do património arqueológico a Norte do Douro. Não seria a única experiencia directiva do Lino no âmbito do património cultural, uma vez que mais tarde, na sequencia de concurso, e após a extinção dos Serviços Regionais de Arqueologia, viria a dirigir a Direcção Regional do Norte do extinto IPPAR. Mas, julgo não errar, que terá sido nos 2 ou 3 anos em que dirigiu o SRA do Norte que as Ruínas do Freixo se converteram verdadeiramente em TONGÓBRIGA.


4 de Maio de 1988, Palácio da Ajuda. Tomada de posse do Lino Tavares Dias, como Director do Serviço Regional de Arqueologia da Norte. A posse é dada por João Bairrão Oleiro (1923-2000) e o acto é testemunhado, entre outros, por Fernando Real, António Faria, Susana Correia (?),  Filomena Barata e por mim próprio. Secretaria um colega então responsável pelos serviços de pessoal do antigo IPPC e que julgo ser o sr. Almeida.

quarta-feira, 1 de julho de 2015


Paisagens arqueológicas a Oeste de Évora

Por um dos acasos da vida que não teve nada a ver com Arqueologia, acabei por me mudar, vai já para duas décadas, de Évora para  Guadalupe. Tinha acompanhado, ainda como Director do antigo e já histórico Serviço Regional de Arqueologia da Zona Sul, trabalhos arqueológicos nesta zona a Oeste de Évora, nomeadamente um interessante projecto internacional, iniciado ainda nos tempos do meu antecessor, o Dr. Caetano de Mello Beirão, que dava pelo nome de Évora Archaeological Survey, coordenado por Colin Burgess da Universidade de Newcastle, as escavações do Mário Varela Gomes nos Almendres, as campanhas da Luisa e da Catarina Viegas com a Inês Vaz Pinto na villa romana da Tourega, o projecto sobre o megalitismo de Vale Rodrigo dos meus amigos Philine Kalb e Martin Hock. Mais tarde, já noutros contextos, surgiram ainda os trabalhos de Manuel Calado em Vale Maria do Meio. De algum modo, é sobre todos esses sítios e projectos que nos dá conta um pequeno mas interessante livro editado nos anos 90 pela C.M.Évora e coordenado pelo Takis, o arqueólogo (grego) funcionário da autarquia desde os anos oitenta e então verdadeiramente o elo de conexão entre quase todos estes projectos e a "máquina" municipal, e que dá pelo sugestivo nome de "Paisagens Arqueológicas a Oeste de Évora".  Muitas vezes, faço o périplo por estes sítios, quase sempre acompanhando colegas arqueólogos de passagem pela região. Há poucos dias recebi em Évora o Nicolas Cawe, arqueólogo belga antigo aluno e colaborador de Marcel Otte na Universidade de Liége e que, nessa qualidade participou activamente entre 1989 e 1992, no projecto luso-belga do Escoural. Actualmente, é arqueólogo no Museu Arqueológico Real de Bruxelas e nessa qualidade tem desenvolvido investigação na Ilha da Páscoa, nomeadamente sobre as culturas relacionadas com as célebres estátuas "moais" . Foi pois com imenso prazer que acompanhei o Nicolas e os amigos belgas com que viajava, nesta redescoberta das paisagens arqueológicas a Oeste de Évora. E como um dos amigos belgas é um conhecido organista profissional (Jean Fernand),


terminámos a nossa viagem com um "concerto privado" no órgão da Catedral de Évora, considerado o mais antigo do país, ainda em funcionamento.



Na Anta Grande do Zambujeiro


Na Gruta do Escoural

Nos jardins do Conventinho de Valverde

Anta-capela de São Brissos

Nas ruínas romanas da Tourega
A minha professora de História

Cumprindo a proposta que havia feito em encontro similar ocorrido em 2014 no Vimeiro (Torres Vedras), recebi no último fim de semana em Guadalupe um grupo de antigos colegas do Seminário de Almada. Para além do inevitável almoço de convívio num restaurante local, do "programa" constava ainda uma visita aos Almendres e à Gruta do Escoural, o prato cultural do evento e que, a crer nas reações e apesar do calor, parece ter correspondido às expectativas. Apesar de orientar frequentemente estas visitas, umas vezes por amizade, outras vezes por obrigação profissional, neste caso senti uma especial responsabilidade. É que o Eduardo Jorge, organizador destes encontros (e o colega com quem, por várias razões, fui mantendo nestes mais de 40 anos, algum contacto), conseguiu descobrir a nossa antiga professora de História em Almada, a Professora Maria Vitória, a qual não quis deixar passar a oportunidade de se encontrar com os antigos alunos. No meu caso em particular, as relações com a Professora Vitória, não haviam começado da melhor forma. Acabada de formar na Faculdade de Letras de Lisboa, era na altura pouco mais velha que os alunos, e estes, pela primeira vez, tinham na sala de aula uma "jovem" e não um "padre"... Uma professora "à defesa" e alunos a tactearem novos territórios, acabou por não dar grandes resultados nas primeiras aulas.  Nada que não se resolvesse rapidamente, acabando a experiencia, pela nossa parte e pela parte da Professora Vitória, como ela agora confessou, por se tornar gratificante e inesquecível. Tendo eu saído de Almada no final desse ano lectivo de 1968/69, ainda assim devo à Dra Maria Vitória, as bases essenciais do conhecimento histórico que tão importantes foram no acesso à Faculdade de Letras, que tentei um ano mais tarde e que, pelos resultados obtidos nos exames do 7º ano, como aluno externo do Liceu D.João de Castro, me dispensaram do terrível exame de aptidão, realizado na própria Faculdade sob o controlo rígido do "mítico" Borges de Macedo. Não tenho já memória de detalhe, da abordagem da Prof. Vitória a temas como a "pré-história" ou a "antiguidade clássica", assuntos que ela tratara na Faculdade com Farinha dos Santos e Fernando de Almeida..., nem foi, certamente, nas suas aulas que decidi vir a ser arqueólogo. Até porque durante muito tempo os meus interesses estavam claramente orientados para a história moderna e contemporânea. Mas nas visitas aos Almendres e à Gruta do Escoural que a Professora Vitória acompanhou com visível interesse, quis mostrar-lhe que tinha valido a pena, para ela e para nós, aquela já distante experiencia pedagógica de 1968/69. Apenas mais uma coincidência que confirma mais uma vez que vivemos afinal numa grande aldeia. A Prof. Maria Vitória de quem não tivera mais notícias nos últimos 45 anos, viria a ser Professora de História do filho do Luis Raposo, o meu colega e grande amigo desde os tempos da Faculdade, com quem partilhei tantos projectos de arqueologia.

Para (minha) memória futura, aqui transcrevo, em texto e imagens, o pormenorizado "relatório" sobre o encontro de Guadalupe, redigido pelo Eduardo Ferreira:

Ao centro, de óculos escuros njo meio dos antigos alunos, a Professora Maria Vitória



Enttre os Almendres e a Gruta do Escoural



ENCONTRO DE ÉVORA – 28JUN2015

RELATÓRIO

            Este Encontro, o sétimo da série (começou em 2006 mas não se realizou em 2 anos) e o que teve lugar mais a sul, para além das muitas caras novas que compareceram apresentou as particularidades de ter uma grande componente cultural e de sermos recebidos magnificamente pelos nossos anfitriões, o António Carlos Silva e esposa Isabel no seu monte, um local muito aprazível, no Alentejo profundo mas ao mesmo tempo perto das principais vias de comunicação e fácil de encontrar.
            O programa indicava que até às 12H00 a  primeira concentração seria em casa do nosso companheiro António Carlos para um aperitivo de boas vindas aos mais madrugadores. Aconteceu afinal que fomos todos madrugadores com uma única exceção - o José Faustino, não que não fosse madrugador mas resolveu ir logo para o segundo ponto de encontro, o cromeleque dos Almendres. E em vez de um aperitivo o que se nos deparou foi uma mesa farta, com os saborosos produtos alentejanos desde o queijo às azeitonas e do salpicão ao paio, a acompanhar com um magnífico pão alentejano e uns vinhos, cervejas e refrescos que nos regalaram e sobretudo refrescaram, numa altura em que o calor imenso já se fazia sentir, tudo isto à sombra de uma latada muito tranquila e à beira de uma piscina em que só apetecia mergulhar e que dava um ar de fresquidão e bucolismo tão necessários ao momento. Creio que muitos até nem se aperceberam bem daqueles encantos tal era a excitação do reencontro e do esforço para reconhecer quem era  aquele que estava a  entrar!
            Dias antes fizera uma tentativa desesperada, por mail e telefone, para trazer a este encontro aqueles dos meus colegas (éramos 19) da turma do 6º Ano de Almada que não tencionavam vir, prometendo-lhes uma agradável surpresa. Só estivemos 10 e a grande surpresa foi a comparência da nossa professora de História do 6º e 7º Anos do Seminário de Almada, a Dra Maria Vitória.  Depois de muitas tentativas falhadas e até ter contactado o Seminário, que já não possui os arquivos de quando pertencia ao Patriarcado, lembrei-me de pedir ao Álvaro Bizarro se me poderia localizar esses arquivos a ver se ao menos poderia encontrar o seu nome completo. Não só me enviou o nome mas até, e sobretudo, me deu logo o número de telefone. Quando a contactei há 2 ou 3 semanas foi uma emoção muito grande para ambos, para mais quando me disse que se lembrava perfeitamente de mim referindo prontamente a minha atividade extra no “Bar do Mestre”! Bem, que memória, e passados 45 anos exatos! Então, nós com os nossos 16/17 anos e a nossa Professora a debutar no ensino, acabadinha de sair da Faculdade! A propósito, e como me referiu logo de seguida, havia um aluno que era praticamente da sua idade e que era e é o António Medeiros. E falámos de quase todos, de uns lembrava-se perfeitamente e dos outros vagamente. Ficou encantadíssima com o facto de nos irmos encontrar e logo me prometeu que compareceria em Évora com todo o prazer. O pior para mim foi mesmo conseguir guardar segredo estes dias todos tal  a alegria e a expetativa que me inundaram. Só referi o caso ao António Carlos e ao Arnaldo bem como a alguns da turma numa derradeira tentativa de os “pressionar” a vir, o que não consegui dados os compromissos que já tinham para este dia.
            O pessoal começou a chegar cedo, Eu próprio com a minha mulher e o João Tomás nem eram ainda 10.30 já lá estava. O João Pereira Lopes, esse então chegou de véspera com a esposa Rosário tendo pernoitado na sua auto-caravana mesmo à entrada do Monte. Foi uma alegria vê-los logo, bem dispostos, depois de um belo serão na festa do S. João em Évora e depois de passada uma bela noite com muito sossego e tranquilidade,,,
            A seguir apareceu logo o Manel Rosa Dias acompanhado da esposa e do Joaquim António. Palavra que se eu não soubesse que o Quim Tó vinha com o Manel nunca mais o reconheceria. Passaram 45 anos e algumas pessoas, como é o caso, mudam de feições de uma maneira que nós não imaginamos. Mas foi um reencontro emocionante e como se viu ao longo do dia muito reconfortante também.
            O Manel Fernando e a Glória não se fizeram esperar e é sempre um prazer enorme voltar a ver aqueles que julgo nunca falharam a um encontro e são bem poucos os que estão nesta posição.
            O Arnaldo acompanhado pelo José Martins fizeram de seguida a sua aparição, sempre bem dispostos e de uma simpatia extrema.
            Depois veio o Vítor Nunes com o Joaquim Dias, depois de perderem à última da hora o companheiro Xico Teófilo obrigado a ficar retido em casa com um arreliador desarranjo geral, após  uma noite de canseira ao serviço da sua associação bairrista alfacinha, ainda a festejar os santos populares.
De seguida começaram a chegar em  catadupla:
–                    o António Marques (acompanhado da sua esposa cujo nome não retive) que assentou praça comigo na prefeitura de S. Domingos em Santarém e que por lá se manteve apenas 2 ou 3 anos; também foi uma alegria enorme rever este companheiro depois de 50 anos de intervalo;
–                    O Álvaro Bizarro, o único dos ordenados do nosso tempo, que pode estar presente e mesmo assim nem pode almoçar porque entretanto o programa atrasou e tinha que estar em Lisboa ao meio da tarde;
–                    A Professora Maria Vitória e o marido Nuno, por sinal um “camarigo” da Guiné (Bedanda e Fulacunda – 1966/68, salvo erro) e com quem os nossos colegas Jorge Pinto, Luís Graça, Pinto Carvalho, Joaquim Jorge, entre outros, muito tem que conversar nos próximos eventos; este simpático casal chegou ao mesmo tempo que o Álvaro pois tinham-se encontrado na estação de serviço da A6 e bem admirados devem te ficado os três quando em conversa se aperceberam que vinham para o mesmo sítio!; fiquei a saber que  Professora Maria Vitória e o Álvaro se mantiveram em contacto ao longo destes anos e daí o facto de me ter facultado de imediato o seu número de telefone; como devem calcular foi uma emoção enorme reencontrar esta nossa professora que no início nos pareceu um tanto “dura” mas que a pouco e pouco nos fez interagir com ela de uma forma extraordinária  de modo a acabarmos o 7º Ano com muita pena de nos termos de separar e lançando a boa semente da História em alguns de nós que acabaram por cursar essa matéria; e cujo grande exemplo disso mesmo é o nosso colega e anfitrião António Carlos – eu vi com que olhar de satisfação e orgulho a professora Maria Vitória escutava o António Carlos nas suas intervenções sobre os monumentos que visitámos!; nas conversas que fomos mantendo ao longo do dia verifiquei o seu embevecimento com os percursos de vida dos seus alunos, não apenas os académico-profissionais mas sobretudo os pessoais, que nos levam a manter esta sã amizade e companheirismo; julgo que ficou rendida aos encantos do nosso convívio e será com muito gosto que daqui para a frente contaremos com o casal nos nossos eventos do género;
–                    Lousão Monteiro, em boa hora reencontrado o ano passado e que não quer deixar de dar o seu contributo à tertúlia na companhia da sua Bernardete;
–                    José Manuel Mesquita, nosso guarda-redes destemido, o sesimbrense mais procurado e mais desejado por muitos de nós, há pouco e em boa hora reencontrado, e prontamente alinhado com a iniciativa de o trazer ao nosso convívio, que viajou acompanhado pela esposa Conceição;
–                    Manuel Maria e Élia,  a inscreverem-se quase ao fechar do pano mas muito a tempo, sempre bem vindos e sorridentes;
–                    Júlio Rebelo e Nela acompanhados do casal amigo da Gândara dos Olivais que persisto teimosamente em não fixar os nomes e que já pertencem por direito próprio à família;
–                    Xico Silva e a companheira Leonor, penichenses de gema, alcandorado o Xico, por proposta ocorrida neste encontro, ao honroso cargo de organizar o evento de junho/julho de 2016, com responsabilidades acrescidas por se tratar também do 10º aniversário destes encontros,a ter lugar nos arredores da sua cidade natal;
–                    Virgílio Mateus, Eduardo Cristóvão e Vítor Coelho que viajaram juntos do Algarve, companheiros de turma, e que pela primeira vez se apresentaram, foi uma satisfação enorme o nosso reencontro e pelo calor humano evidenciado por todos esperamos que esta seja a primeiras de muitas vezes;
–                    Moisés Batista com a esposa Isabel e o mano António não faltaram à chamada pese o imenso calor que a todos incomodou e que sobremaneira molestou a Isabel, impedindo-a d participar em todas as atividades programadas;
–                    Luís Fernando e a neta Inês a caminho do Algarve para umas merecidas férias e que fizeram o necessário desvio para se encontrarem connosco.
            Falta finalmente falar do José Faustino que se dirigiu logo ao cromeleque e aí aguardou pacientemente por nós. Quando se inscreveu achei piada ao seu voto de ao menos comparecerem mais três dos seus colegas de turma para formarem uma mesa de sueca. Fiz todos os esforços, mas desta vez só compareceu mais um - o José Martins, mas também não houve qualquer hipótese de  pausa para a sueca!
            Fomos assim 24 os companheiros que nos encontrámos em Évora, dos quais 6 pela 1ª vez.
            Avisaram que não poderiam comparecer e enviaram votos de bom encontro os seguintes colegas:
–                    José Eugénio (EUA)              - José Virgílio Nunes              - José Luís Ferreira
–                    Xico Armandino                    - José Fragoeiro                      - Zé Querido
–                    Jorge Pinto                             - Paulo Correia da Silva         - Gil Matos
–                    João Borga                             - José Carlos Silva                  - Manuel Pereira da Costa
–                    Eduardo Coelho                     - César Delgado                     - Xico Teófilo
–                    Acácio Lopes                         - António Medeiros                - João Miguel
–                    Rogério Ferreira                     - Henrique Reis                      - Caetano Lopes                    
–                    Honório Vieira                       - Fernando Policarpo
–                    Cândido Martins                    - António Silva Antunes                                                       
–                    Luís Costa                              - João Claudina Lameira
–                    Jaime Bonifácio                     - Fonseca Pinto                                 

            Continuando com o relato do acontecimentos, após a bela degustação dos produtos alentejanos em casa do António Carlos deslocámo-nos ao cromeleque dos Almendres onde, de viva voz, o nosso anfitrião nos fez uma pormenorizada descrição daquilo que a comunidade científica descobriu até ao momento, realçando o facto de não haver ainda muitas certezas sobre o assunto.
            O almoço constou de entradas, um gaspacho bem fresquinho e saboroso acolitado por  jaquinzinhos fritos e umas magníficas bochechas de porco preto estufadas. Vinhos branco e tinto a contento,sobremesa e café. Belo repasto muito bem conversado e animado.
            Quase todos aderiram à visita à Gruta do Escoural onde mais uma vez o António Carlos nos brindou com os seus vastos conhecimentos sobre estas matérias numa linguagem simples, viva e atraente.
             Foi na verdade um dia muito bem preparado e melhor vivido por todos nós. É da mais elementar justiça prestar aqui os nossos mais vivos agradecimentos ao António Carlos por tudo aquilo que nos proporcionou. Acresce ainda realçar e enaltecer a sua brilhante ideia e o trabalho que teve em digitalizar a coleção completa do “DIMENSÂO 7”, jornal do nosso tempo de Almada,  que teve a colaboração de muitos de nós com artigos, desenhos e na própria organização, produção, impressão e venda.  Fez questão em copiar para CD.s esse seu trabalho e oferecer a cada um de nós um exemplar que é uma verdadeira relíquia.
            Pese embora o elevado calor ambiente (42º) o pessoal não arredou pé e nem sequer houve tempo para partilhar fotos como é costume e os nossos 6 debutantes bem mereciam, mas teve que ficar para uma próxima oportunidade.
            E foi do parque automóvel da Gruta, quase às 19H00, que me despedi dos últimos companheiros e da professora Vítória. Mas alguns ainda lá ficaram na conversa,  casos do Manel Rosa Dias, Quim Tó, Virgílio, Eduardo Cristovão e Vítor Coelho
            Já sabem que o próximo evento é a caldeirada na festa anual de Ribamar da Lourinhã, na 2ª ou 3ª segunda-feira de outubro. Quando souber o dia certo enviarei a respetiva convocatória.

            Até lá e um grande abraço a todos do 
                                   Eduardo Jorge