sexta-feira, 13 de março de 2015


Arqueologia portuguesa_memórias gráficas dos anos 80

Já anteriormente aqui recordámos um conjunto de folhetos ou brochuras editados nos anos 80 pelo Serviço Regional de Arqueologia do Norte. Hoje reencontrei este desdobrável, num formato pouco usual (20,5cm x 20,5 cm) editado em larga escala (10 000 exemplares) pelo Departamento de Arqueologia em meados dos anos 80 e destinado à sensibilização do público para a importância social da arqueologia e para a necessidade do envolvimento de toda a comunidade na salvaguarda dos vestígios do passado. Recordo que a inspiração partiu de um folheto semelhante editado então em França. O texto não está assinado mas regista-se que o design gráfico se ficou a dever a António Ventura, um professor do ensino secundário formado no IADE, que conseguíramos requisitar para o Departamento e para o Museu Nacional de Arqueologia, graças às suas competências em matéria fotográfica. António Ventura foi o responsável pela montagem do Estúdio e do laboratório fotográfico do MNA antes de se mudar definitivamente para o Instituto Politécnico de Tomar, julgo que ainda nos anos 80, onde hoje dirige o Curso Superior de Fotografia.








quinta-feira, 12 de março de 2015


Arqueologia...as propostas centenárias de Estácio da Veiga


Aproximam-se as eleições (finalmente) e como é normal, alguns cidadãos no exercício dos seus direitos, aproveitam para enviar recados para quem, no âmbito dos partidos políticos, se perfila no horizonte do poder. Naturalmente, a "cultura" não está imune a esse movimento e vão surgindo propostas e sugestões apontando para a necessidade de repensar de novo toda a estrutura técnico-administrativa responsável pela gestão e salvaguarda do património cultural (património, museus, arqueologia...). Quem trabalha nesta área está longe de estar satisfeito com o actual modelo mas também está cansado de tanta e tão profunda mudança (quase sempre para pior), em particular nas últimas legislaturas, de Sócrates a Coelho...

A esse propósito fui recuperar ao "baú das memórias" um texto de Janeiro de 1996 em que numa outra fase de grandes (e positivas) mudanças na Arqueologia portuguesa, evocava as propostas centenárias de Estácio da Veiga. (Crónica do Diário de Notícias de 11 de Janeiro de 1996, não publicada na colectânea "A Linguagem das Coisa- Ensaios e Crónicas de Arqueologia" Luis Raposo e A.C.Silva, Europa-América, 1996)




segunda-feira, 9 de março de 2015

Ainda a propósito do Dia Internacional da Mulher e de Irisalva Moita..
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A Casa dos Bicos antes da intervenção da XVII Exposição europeia de arte, ciência e cultura



Tendo tomado boa nota, entre muitas outras referencias a propósito do Dia Internacional da Mulher, do comentário no facebook da colega Lídia Fernandes (arqueóloga da Câmara Municipal de Lisboa e actual responsável pelas Ruínas do Teatro de Olissipo) sobre a importância da arqueóloga Irisalva Moita (1924-2009), tomei talvez pela primeira vez consciência de como a história da arqueologia portuguesa, até data bastante recente, é essencialmente uma história no masculino. Não que me baseie para aquela conclusão em qualquer estudo sobre o assunto, ainda que a exploração de tal tema valesse a pena, e aqui fica o repto para que alguma arqueóloga ou arqueólogo se abalance a isso. Mas a propósito da memória de Irisalva Moita (deixando para outra ocasião algumas reflexões sobre o papel de Irisalva Moita e de outras mulheres da sua geração na Arqueologia portuguesa), não resisto a referir dois pequenos episódios dos tempos em que tive responsabilidades na área de Arqueologia no IPPC nos anos 80. Um está directamente relacionado com o teatro romano e teve que ver com um parecer que foi solicitado ao IPPC ao tempo da Presidência da Câmara de Lisboa do Eng. Krus Abecassis. Estava em causa um ambicioso projecto de “reconstrução” do teatro romano, com o fim de o colocar, a exemplo do que se passava em muitas outras cidades do antigo Império, ao serviço de espectáculos de índole variada. Uma pequena investigação no material de arquivo da antiga Junta Nacional de Educação, nomeadamente nos relatórios da responsabilidade de Irisalva Moita que ali dirigira trabalhos no tempo da gestão do General França Borges, permitiu-nos desde logo identificar graves insuficiências e incongruências do projecto que, aliás, se viria a confirmar, era antes mais uma manobra de propaganda política pré-eleitoral. Desde logo porque se ignoravam os antecedentes e o próprio historial do processo de redescoberta e escavação, ultrapassando a figura da sua principal responsável, ainda por cima alta funcionária da própria Câmara. Depois, porque a própria Irisalva Moita, posta anteriormente perante propostas semelhantes, havia já avaliado objectivamente todas as condicionantes, técnicas e sociais que era preciso resolver previamente à prossecução de um objectivo compreensível mas extremamente complexo. 


Soube mais tarde que a posição crítica então tomada pelo IPPC fora ao encontro da opinião da Irisalva Moita e o projecto a que estava ligado o arqueólogo Adriano Vasco Rodrigues, há muito retirado da actividade de campo mas politicamente próximo de Abecassis, acabaria por dar em nada. Já não me recordo se a propósito daquele assunto me cruzei com Irisalva Moita, ao contrário do que aconteceu no segundo caso que aqui refiro, relacionado com a recuperação da Casa dos Bicos em 1982/83, no âmbito da XVII Sétima exposição europeia de arte, ciência e cultura. Nessa altura tive a oportunidade de a acompanhar, juntamente com o meu antigo Professor de História de Arte Pedro Canavarro, bem como os Arquitectos Formosinho Sanches e, suponho, que Manuel Vicente, na primeira visita ao edifício antes do desenvolvimento do projecto e das obras em que a célebre casa manuelina, recuperou os antigos andares originais. Lembro que tivemos de esperar algum tempo que um empregado municipal desentaipasse uma das portas para, finalmente, a custo penetrarmos na casa, antigo armazém de bacalhau, sem uso desde que fora adquirida pela autarquia e que estava transformada num imenso e imundo pombal. Naturalmente, não participei directamente nas escavações que o Departamento de Arqueologia do IPPC ali viria a realizar sob a direcção de Clementino Amaro, com grande eficácia e relevantes resultados, ainda hoje observáveis “in situ”. Mas foi graças à compreensão e total apoio de Irisalva Moita, uma das grandes introdutoras da arqueologia urbana em Portugal, que nessa visita se se estabeleceu claramente o princípio da necessidade da intervenção arqueológica prévia à obra, o que há 3 décadas não era especialmente óbvio para toda a gente.

sexta-feira, 6 de março de 2015

Menires e Televisão, uma relação já antiga


Por múltiplas razões, cénicas ou conceptuais, os menires, em particular os “recintos” ou “alinhamentos”, parecem proporcionar bons ambientes à indústria das imagens em movimento, em particular na versão televisiva. Ultimamente têm-se multiplicado as séries, dos mais variados géneros e temas, desde os policiais ingleses à ficção histórica, em particular na sua versão céltico/medieval, em que os personagens se cruzam com estruturas megalíticas, sejam estas apenas cenário estético ouambiental ou façam mesmo parte do próprio enredo. Provando que o que falta aos portugueses em meios, é muitas vezes compensado em espírito criativo (temos sido pioneiros frustrados em tantos domínios…), também neste campo nos soubemos antecipar no passado, ainda que sem grande visibilidade ou sucesso. Em 1992, numa altura em que o Cromeleque dos Almendres era ainda um ilustre desconhecido fora dos meios arqueológicos, tive oportunidade de acompanhar o realizador António Macedo, responsável por alguns filmes do novo cinema português como Domingo à Tarde (1965) ou A Promessa (1972), ou ainda o polémico As Horas de Maria (1976), numa série de filmagens ali realizadas.  O produto final, O Altar dos Holocaustos, uma série televisiva em 3 episódios, com um enredo ficcional em torno de lendas e superstições relacionadas com os menires e as antas, passou quase despercebido e foi uma das últimas obras de ficção do autor. Aliás, poucos anos depois António Macedo, desde há muito interessado no ocultismo e esoterismo, nomeadamente nas suas versões bíblicas, bem como nas suas influências na cultura e mentalidade, abandonaria o cinema para se dedicar à escrita e à divulgação destas temáticas.

Na altura, aproveitando a colaboração que estava a iniciar no suplemento Cultura do Diário de Notícias, em parceria com Luis Raposo, dei conta pública dessa experiencia. Aqui fica o seu registo, em facsimile da versão original, já que o artigo em causa, não foi publicado na colectânea “A Linguagem das Coisas- Ensaios e Crónicas de Arqueologia”, editada em 1996 pela Europa-América.


quarta-feira, 4 de março de 2015

Almendres_ Monumento Nacional



















Acaba de ser publicado no Diário da República de hoje o Decreto nº4/2015 que coloca em vigor a decisão tomada em recente Conselho de Ministros de reclassificação como Monumento Nacional do recinto megalítico dos Almendres, vulgarmente conhecido como Cromeleque dos Almendres. Identificado arqueológicamente por Henrique Leonor de Pina, há precisamente meio século quando efectuava escavações na Anta Grande do Zambujeiro (Valverde), o Cromeleque, já conhecido localmente pelo nome de Pedras Talhas, seria divulgado junto da comunidade arqueológica em 1971, no 2º Congresso Nacional de Arqueologia que teve lugar em Coimbra, e finalmente classificado como Imóvel de Interesse Público em Dezembro de 1975. Nos anos 80 do século passado, durante o período em que a Herdade dos Almendres esteve ocupada por uma cooperativa de trabalhadores agrícolas de Guadalupe, realizaram-se no local as primeiras escavações arqueológicas conduzidas por Mário Varela Gomes que orientou também em colaboração com o arqueólogo Takis, da CMÉvora, os trabalhos de restauro e reintegração de alguns dos menires partidos e deslocados. Nessa mesma fase, a autarquia eborense procedeu à correcção e melhoria do traçado da estrada rural que facilita hoje a visita ao monumento. Mais recentemente, em Fevereiro de 2012, os actuais proprietários da Herdade autorizaram a Câmara Municipal, a criar um parque de estacionamento provisório a alguma distância do monumento, facto que melhorou significativamente as condições de salvaguarda do monumento que, graças à força da presença da sua imagem na Internet, é hoje um sítio de visita obrigatória para os milhares de turistas que demandam Évora e o Alentejo. 

A proposta de reclassificação dos Almendres como Monumento Nacional só agora concretizada, data de 2009 e partiu da iniciativa do Grupo PróÉvora, a mais antiga associação de defesa do património existente em Portugal e que mantem uma grande tradição interventiva em prol do património cultural eborense.

Almendres_ uma imagem massiçamente divulgada pela Internet
Os Almendres, local de estudo e visita permanente. No caso alunos da Universidade de Alcala de Henares, acompanhados dos Prof. Primitiva Bueno e Rodrigo Balbin, conhecidos pre-historiadores ibéricos

Os Almendres, local de performance artística (Festa do solstício de Verão de 2014_ Márcio Pereira "dança com as pedras" acompanhado ao piano por AmilcarVasques Dias)

Almendres_ o eixo equinocial, apontando directamente, a Nascente, para a acrópole Eborense






segunda-feira, 2 de março de 2015

Senhora da Cola

Entre Janeiro de 1993 e Dezembro de 1995, mantive em parceria com o Luis Raposo, uma cooperação regular com o suplemento "Cultura" do Diário de Notícias, assumindo em conjunto a responsabilidade por uma página de Arqueologia naquele jornal. Inicialmente de cariz quinzenal, intercalando com uma "História da Alimentação " assinada por Luis de Stau-Monteiro, com o desaparecimento deste autor, essa colaboração tornar-se-ia semanal, o que obrigava a um esforço redobrado da nossa parte, quer na identificação de temas apelativos, quer sobretudo no seu desenvolvimento em termos que interessassem ao público leitor do DN. Mais tarde, por proposta da Europa-América, surgiu a oportunidade de editar grande parte daquelas crónicas em livro, o que viria a concretizar-se em finais de 1996, na colecção Forum da História e sob o título "A linguagem das coisas- ensaios e crónicas de Arqueologia". No entanto, e porque não foi possível editar todas as crónicas, aqui irei deixando neste blog, usando para isso os próprios originais editados no DN, alguns dos textos não usados na colectânea. Começo por um artigo sobre o Castro da Cola, numa altura em que, por razões de próxima edição de um livro sobre Abel Viana, ando de novo às voltas com os valiosos contributos para a arqueologia alentejana daquele arqueólogo, desaparecido há meio século.