quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Do Escoural a Lascaux

A entrada da verdadeira Gruta de Lascaux, na actualidade. (Imagem do documentário citado)


Lascaux, em Abril de 1963, numa raríssima oportunidade de visita que recordei em:
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/01/viagem-ao-berco-da-pre-historia.html

Passou na semana passada (20 Setembro 2017) na RTP2 um fantástico documentário sobre a concepção e construção da mais recente réplica da Gruta de Lascaux (Lascaux 4- Salvem a arte rupeste) que recomendo vivamente (enquanto estiver disponível no MEO...) aos arqueólogos e outros interessados no património. A escala do projecto e da obra, sob todas as perspectivas é verdadeiramente avassaladora e profundamente perturbadora para quem conhece as condições em que se trabalha e faz arqueologia em Portugal, nomeadamente nesta componente de mediação com o público, afinal a última razão de ser da disciplina. Mas agora imaginem a sensação de quem é (ainda) científica e tecnicamente responsável pela única gruta rupestre paleolítica portuguesa, ao ver o documentário...como é o meu caso. Não fosse o calejamento e a capacidade de relativização que a idade nos traz e a "depressão" era inevitável...

Lascaux 4 e o Centro Internacional de Arte Parietal, em vista aérea (fotomontagem obtida na INTERNET)
Acesso a Lascaux 4, inaugurado no final de 2016 (imagem da INTERNET)
Não é obviamente que o ESCOURAL seja comparável com LASCAUX, apesar de algumas relações curiosas. O primeiro grande estudioso de Lascaux, o Padre André Glory, foi o "atestador" da antiguidade paleolítica do Escoural, onde ainda esteve em missão durante alguns dias em 1965, pouco antes de falecer. O ano da descoberta do Escoural (1963) coincide com a tomada de consciência dos impactos turísticos na preservação da arte rupestre, implicando a decisão de André Malraux de fechar e condicionar fortemente o acesso à Gruta de Lascaux que estava a ser explorada comercialmente por privados. Por fim, e como o próprio Glory destacou, a Arte Rupestre do Escoural, podendo ser mais antiga que a de Lascaux, representava e representa ainda o local mais ocidental da Europa que, de algum modo se aparenta e relaciona com as fantásticas manifestações artísticas de Lascaux.

Por tudo isso mas não só, o ESCOURAL mereceria um pouco mais de atenção dos portugueses... Felizmente, ao contrário de outros monumentos fantásticos da Pré-história na sua vizinhança. como os Almendres ou a Anta Grande do Zambujeiro, está pelo menos na posse do Estado.  E nos últimos anos (2009-2011) foi mesmo possível investir na sua requalificação (acessos e estacionamento, circulação interior e iluminação). Mas os problemas habituais subsistem. Esgotadas as verbas para as obras provenientes do financiamento europeu, não existem recursos para a manutenção corrente, sendo já notórios os sinais de degradação. E a interação com o público? Uma única guia, subcontratada (?) através de verdadeira "engenharia administrativa", assegura o funcionamento do Centro de Interpretação (na povoação do Escoural, a 3 Km da Gruta), a marcação obrigatória das visitas, e as próprias visitas... Nestas condições alguma coisa terá de funcionar menos bem.


A Gruta do Escoural, após as obras de requalificação em 2011.

A título de registo e memória futura (e apesar de ter divulgado já este documento na Revista ALMANSOR, nº 1, 3ª série, 2015) aqui deixo o texto que produzi em 2008 e que na altura fiz seguir hierarquicamente "para os devidos efeitos", com uma proposta de "arqueologia pública" para a Gruta do Escoural. Das componentes dessa proposta viriam apenas a concretizar-se entre 2009 e 2011, graças às verbas europeias, as componentes de requalificação física da Gruta. Tudo o mais não passou de piedosa reflexão. De qualquer modo aqui fica, para eventuais curiosos, este modesto contributo. 

Mas por favor, se poderem, não deixam de ver o documentário sobre Lascaux 4.


“ArqueoCENTRO Rupestre” do Escoural


 Gruta do Escoural- importância e estatuto

A Gruta do Escoural, pequena cavidade natural localizada próximo de Santiago do Escoural, a meio caminho entre Montemor-o-Novo e Évora, conserva, para além de outros vestígios, testemunhos raros de “arte rupestre paleolítica” (em Portugal, caso único em gruta), e integra-se numa região que pelo seu elevado interesse ambiental e patrimonial, a Serra de Monfurado, apresenta um forte potencial no domínio do turismo cultural. Classificada como Monumento Nacional desde a descoberta em 1963, a Gruta é actualmente propriedade pública, afecta ao Ministério da Cultura através da Direcção Regional de Cultura do Alentejo (DRCALEN). Esta Direcção é também responsável pela gestão de um pequeno Centro Interpretativo, instalado desde 2001 na localidade do Escoural, em edifício da Junta de Freguesia.


Situação actual e potencialidades

No início da presente década, o número de visitantes do conjunto arqueológico do Escoural (Centro e Gruta) chegou a superar, em média, os mil por mês mas nos últimos dois anos, problemas vários têm afectado o funcionamento regular destas estruturas, com efeitos nefastos sobre a procura turística. Ainda que DRCALEN e a própria Câmara Municipal de Montemor-o-Novo (CMMN) estejam, entretanto, a procurar soluções que permitam retomar, no curto prazo, um nível de funcionamento mais adequado à importância do conjunto, existe a noção de que, face à natureza e raridade dos valores em causa, é possível e necessário, oferecer muito mais aos visitantes. Só avançando nessa direcção, tirando partido não apenas do renome do sítio “Gruta do Escoural”, mas também do ambiente natural e cultural em que o mesmo se integra, será possível transformar todos estes valores num recurso estratégico ao serviço do desenvolvimento local e regional.


Um recurso identificado na Carta Estratégica do Concelho de Montemor-o-Novo (2007-2017)

Com efeito, a Carta Estratégica do Concelho de Montemor-o-Novo, não só reconhece o turismo como um factor de impulso ao desenvolvimento regional e local, como identifica a Gruta do Escoural e o Sítio da Rede Natura 2000 do Monfurado, como recursos culturais e ambientais de interesse estratégico. Desse reconhecimento decorre, aliás, no âmbito do respectivo “Programa de Actuação”, a formulação de um projecto intitulado “PARQUE CULTURAL DO PALEOLÍTICO E NEOLÍTICO E RESPECTIVO NÚCLEO MUSEOLÓGICO”. Ainda que difuso quanto ao modelo subjacente e recorrendo a conceitos hoje algo banalizados (“Parque Cultural”/ “Núcleo museológico”), a proposta revela consciência da mais-valia arqueológica em causa (Gruta e Património Megalítico em especial) e da necessidade de a colocar ao serviço do desenvolvimento.


 1963-2013- O cinquentenário da descoberta_ um pretexto e uma oportunidade


Nesse sentido, a circunstância de no ano de 2013 se comemorar o cinquentenário da descoberta da Gruta, protagonizada por trabalhadores do Escoural, pode e deve ser “agarrada” como uma oportunidade ou um pretexto para, correspondendo aos anseios há décadas manifestados pelas populações e entidades locais e regionais, e aos objectivos estratégicos assumidos pela própria autarquia, identificar, planear e promover um conjunto de acções que permitam, de forma integrada e sustentada, colocar este Património ao serviço de um grande projecto de desenvolvimento regional. Naturalmente, o presente documento, assume-se como uma proposta preliminar de “programa-base”, de apoio à decisão da DRCALEN e da Autarquia, entidades que, independentemente das soluções, fórmulas de desenvolvimento, e eventuais parcerias, públicas ou privadas, estarão necessaria e inevitavelmente na base de um projecto com essa ambição. 



1. conceito e pressupostos subjacentes à proposta de um “ArqueoCENTRO Rupestre” no Escoural




2. desenvolvimento, concepção e execução da componente física do “ArqueoCENTRO Rupestre do Escoural”




3. viabilidade e sustentabilidade do “ArqueoCENTRO Rupestre do Escoural”




1. A criação de um ArqueoCENTRO RUPESTRE  DO ESCOURAL_ conceito base e pressupostos que lhe dão consistência



1.1. Conceito base e localização


            Propõe-se a criação na área urbana do Escoural, ou na sua envolvente imediata, (eventualmente tirando partido da recuperação e reutilização de construções já existentes) de um ArqueoCENTRO RUPESTRE, uma ampla estrutura física que integraria para além de uma área expositiva e interactiva no domínio da divulgação científica sobre as Arqueociências em geral e a Pré-História em particular, uma estrutura técnica responsável pela valorização e animação turístico-cultural da Gruta do Escoural e outros recursos patrimoniais e naturais da Serra do Monfurado.

Sendo a ligação à GRUTA, o eixo vital do projecto, a localização do ArqueoCENTRO deverá ser devidamente ponderada. A opção urbana, apresenta mais vantagens do que desvantagens, nomeadamente de ordem prática e económica, quer para a fase de construção/ instalação quer para o funcionamento futuro, permitindo tirar proveito de uma estreita articulação com a vida da própria localidade. Ainda assim, a grande vantagem dessa separação (cerca de 3km) residirá na possibilidade de, mesmo com algumas melhorias necessárias a promover na Gruta e na sua envolvente, conservar e tirar o máximo partido possível do seu ambiente natural, conferindo à visita (sempre de forma organizada e em complemento das actividades do ArqueoCENTRO) um ar de aventura e de descoberta…Por outro lado, esse afastamento permitirá aliviar a previsível pressão turística sobre a cavidade natural que um projecto desta natureza induzirá, sem frustrar totalmente as expectativas dos utentes do ArqueoCENTRO, que por qualquer motivo ou circunstância, não possam aceder à Gruta.




­­­­­­­­­­­­­­1.2. Componentes do ArqueoCENTRO RUPESTRE


            A-  um núcleo ou Centro de Ciência Viva* (CCV) dedicado à exploração experimental/interactiva (conjugando áreas expositivas com ateliers experimentais, em área coberta ou ao “ar-livre”) de temáticas científicas relacionadas com a Pré-história, como por exemplo: a Evolução Humana e a Teoria Darwinista, as Arqueo e Geociências (da Geologia, aos métodos geofísicos de datação absoluta, passando pela Palinologia, Paleobotânica, Arqueozoologia…), o Megalitismo e, naturalmente, a Arte Rupestre. Este núcleo, estará essencialmente virado para o apoio didáctico a grupos de alunos dos vários graus de ensino, mas deverá poder responder também ao interesse e curiosidade dos turistas ocasionais ou dos grupos “seniores”, neste caso através de actividades de terapia ocupacional; deverá funcionar em directa articulação com as visitas organizadas à Gruta do Escoural, ou em alternativa ou complemento, a outros monumentos e sítios pré-históricos da região (Montemor e Évora), como o Cromeleque dos Almendres ou a Anta Grande do Zambujeiro.
           
*Os Centros Ciência Viva são espaços interactivos de divulgação científica e tecnológica distribuídos pelo território nacional, funcionando como plataformas de desenvolvimento regional - científico, cultural e económico - através da dinamização dos actores regionais mais activos nestas áreas- in www.cienciaviva.pt


B - um núcleo interpretativo da Gruta do Escoural e património associado, especialmente vocacionado para a valorização, conservação e gestão turística da Gruta (organização e acompanhamento das visitas; monitorização ambiental; manutenção). Ainda que a componente interpretativa ou museológica, deva integrar-se, de forma mais ou menos destacada, no discurso expositivo do CCV (geologia, antropologia, cronologia, arte rupestre, pré-história…), a este núcleo seriam assacadas as funções de gestão corrente do Monumento Nacional_ Gruta do Escoural, (por concessão da DRCALEN e sob a supervisão desta) incluindo além da organização das visitas, a monitorização regular das respectivas condições ambientais e a realização das acções de conservação, manutenção e eventualmente, de investigação.


            C - um núcleo para a divulgação e valorização turístico cultural dos recursos patrimoniais e ambientais da Serra do Monfurado. Este núcleo, algo supletivo em relação aos anteriores, resultaria antes de mais do interesse e vantagens óbvias em tirar partido das infra-estruturas e meios técnicose humanos instalados para promover, informar e divulgar a utilização turística sustentada dos recursos ambientais e patrimoniais do Sítio do Monfurado, nomeadamente através do apoio ao desenvolvimento de percursos pedonais, cicláveis, todo-o-terreno, etc… Naturalmente, essa promoção poderá e deverá articular-se com as restantes valências científicas e culturais, numa lógica de complementaridade que alargará o leque de potenciais interessados e diminuirá os riscos de uma especialização excessiva, demasiado direccionada ou sujeita a grandes oscilações sazonais.


Em síntese, o ArqueoCENTRO RUPESTRE do Escoural, concentraria num mesmo espaço, partilhando os mesmos recursos humanos e técnicos, valências funcionais diversas mas complementares (com um leque de destinatários, tão abrangente quanto possível) nomeadamente: um espaço expositivo interactivo sobre as ciências relacionadas com a Pré-história; ateliers didácticos de exploração “ao vivo” de tecnologias e práticas pré-históricas (talhe do sílex, produção do fogo, fabrico de tintas a partir dos pigmentos naturais, fabrico de vestuário a partir de peles de animais, produção de cerâmica manual e à roda, etc…); um “balcão” de informações, de organização de visitas acompanhadas à Gruta do Escoural e de exploração do vasto património cultural e natural da Serra de Monfurado ou mesmo da região de entre Montemor e Évora;


1.3. Factores favoráveis a um projecto com estas características:


i. Relação de proximidade e de onomástica entre a Vila de Santiago do Escoural e a Gruta do Escoural, a única cavidade portuguesa com vestígios de Arte Rupestre Paleolítica, e uma das raras, ainda visitáveis, a nível internacional;

ii. Associação, quase do senso comum, entre “ESCOURAL e PRÉ-HISTÓRIA”, consolidada por várias décadas de ensino da disciplina de História nos Ciclos Preparatório e Secundário;

iii. Localização estratégica do Escoural, no que respeita a acessibilidades, atravessada pela velha Estrada Nacional Nº2, a poucos quilómetros de duas saídas da A6 (Montemor-o-Novo Oeste e Évora Oeste), e muito próximo da estação de Casa Branca, (bifurcação da Linha  de caminho ferro do Sul);ou seja a pouco mais de 1,30h da Grande Lisboa ou de Badajoz. 

iv. integração num contexto paisagístico e ambiental de valor reconhecido, (SÍTIO DE MONFURADO, classificado como Sítio de Importância Comunitária, aprovado pela Portaria 829/2007 de 1 de Agosto) e de grande potencial patrimonial, nomeadamente nos domínios da Pré-história e especificamente do MEGALITISMO (antas, menires e recintos megalíticos, alguns reconhecidos internacionalmente, como o Cromeleque dos Almendres ou a Anta Grande do Zambujeiro)

       v. o carácter praticamente inédito, a nível nacional, de uma estrutura deste tipo quer pelas temáticas propostas quer pela relação directa e prática que é possível estabelecer com vestígios patrimoniais associados. (Nota: dos 16 CCV existentes no país_ apenas 1 no Alentejo, em Estremoz dedicado à Astronomia_ nenhum aborda as Arqueociências ou a Pré-história; mesmo os Museus de Arqueologia, com excepção do Museu de Mação, com algumas experiências no domínio de “ateliers”, raramente abordam ou tratam estas temáticas na perspectiva proposta para o ArqueoCENTRO.)


1.4. Públicos potenciais

 As limitações “físicas” da GRUTA

As poucas estatísticas disponíveis, mostram que, nos períodos de funcionamento regular (sem qualquer promoção especial), a Gruta do Escoural foi procurada, em média, por cerca de 1000 visitantes mês, ou seja cerca de 30 pessoas dia. Na prática, sabemos que esse número diário, variava muito, havendo mesmo dias, em que por motivo de “visitas de estudo”, as entradas na Gruta podiam atingir a centena e meia de pessoas.

Ainda que, teoricamente haja interesse, por várias razões, em atrair ao Escoural o maior número possível de visitantes, deverá ter-se sempre presente nos estudos de viabilidade, que existem limitações e condicionantes objectivas não ultrapassáveis no que respeita à visita à Gruta propriamente dita. Antes de mais por razões conservacionistas, considerando a necessidade de controlar e minimizar os efeitos negativos de quaisquer excessos de visitantes. Por outro lado, por razões práticas, atendendo às condições específicas do espaço físico disponível no interior da cavidade e à necessidade de acompanhamento obrigatório das visitas. Ainda que a duração e as características das visitas se devam adaptar aos diferentes tipos de visitantes, tendo em conta a experiência acumulada de acompanhamento dos vários modelos de visita ensaiados ao longo das duas últimas décadas, bem como os resultados dos estudos de conservação promovidos pela exDRÈvora do IPPAR, a seguir se indicam aqueles que nos parecem ser os limites de acessibilidade pública à Gruta (partindo do princípio que são introduzidas algumas benfeitorias propostas pelos referidos estudos e de que se promoverá a monitorização permanente dos vários índices ambientais com interesse para a conservação…)  

Considerando um horário base das 10h às 18h, seria, teoricamente, possível organizar 14 visitas diárias x 10 pessoas, ou seja um total máximo de 140 entradas diárias na Gruta. Nos dias em que haja “visitas de estudo” ou “excursões”, o nº de visitas turísticas terá que ser reduzido para 12 ou para 10 (conforme haja 1 ou 2 excursões…). Nesse caso aquele número de 140 entradas poderia, teoricamente, ser ligeiramente ultrapassado (150 ou 160 pessoas).

Com estes dados calculamos a capacidade máxima da GRUTA DO ESCOURAL entre 30 a 40 000 visitantes ano, desde que reunidas novas condições de acesso (construção da “antecâmara” ) e montado um novo sistema de monitorização das condições ambientais.

Este número pode parecer demasiado optimista quando comparado com os dados estatísticos disponíveis, mas será necessário contar com um incremento significativo de visitantes com a criação do ArqueoCENTRO RUPESTRE e o efeito novidade associado. Não será muito legítimo procurar extrapolar resultados em função dos nºs de visitantes que o “Fluviário de Mora” atingiu no primeiro ano e meio de vida (300 000 visitantes…) mas esse dado mostra claramente que há público para iniciativas com qualidade, desde que feita a respectiva divulgação e que não seja frustrada a expectativa das pessoas. Nesse sentido, a visita à GRUTA deverá sempre ser apresentada como a “cereja em cima do bolo” a que apenas alguns terão direito (desde que se organizem com a devida antecedência…), insistindo o plano de Marketing em tudo o mais que o ArqueoCENTRO tenha para oferecer aos públicos mais diversos. Assim e tendo em conta os dados turísticos referentes a Évora, julgamos que não será exagerado estimar números de potenciais visitantes do ArqueoCENTRO, bem acima dos 50 000/ano.


            Os visitantes potenciais e as respectivas expectativas:

            Da análise dos dados estatísticos, ficamos com a noção de que os visitantes que procuram a Gruta do Escoural se repartem, em percentagens equivalentes, por 3 grupos principais:

- os grupos escolares, dos vários graus de ensino, desde o Primário ao Universitário, incluindo grupos escolares estrangeiros (diversas nacionalidades);

- os turistas estrangeiros, por vezes em grupos canalizados por Agências;

- os turistas portugueses, por vezes em grupos (excursões);



Gruta do Escoural (1989-2006)_ Total de visitantes (azul) e visitantes estrangeiros (vermelho)  -2006_dados incompletos



O aspecto mais significativo destes dados, é a grande representatividade dos visitantes estrangeiros que se pode explicar por três razões: i. a proximidade de Évora, cidade com um turismo de âmbito cultural muito significativo; ii. o interesse que a “arte rupestre” induz em determinados grupos; iii. o facto da maior parte das grutas espanholas e francesas com arte rupestre, ou estarem fechadas ou serem de acesso ou visita difícil.
           
Neste contexto, o ArqueoCENTRO RUPESTRE, deverá encontrar quer nas soluções expositivas quer no modelo de funcionamento, um equilíbrio entre a componente didático-formativa (orientada para os grupos escolares ou mesmo para os grupos “seniores” ou o “turismo de famílias”) e a componente turístico-cultural muito ancorada na Gruta e no património megalítico regional tirando partido dos muitos milhares de turistas que procuram Évora anualmente.



Públicos “alvo” do ArqueoCENTRO RUPESTRE:


- grupos escolares nacionais e estrangeiros (ateliers didáticos, visitas à Gruta e aos Monumentos Megalíticos da região)- Outubro/Novembro; Janeiro a Maio; será o grupo menos “dependente” da Gruta, até porque os “ateliers” poderão explorar e encaminhar os grupos para outras temáticas;

- grupos seniores (ateliers ocupacionais e visitas patrimoniais diversas)_ ao longo do ano;
    
- turistas nacionais de forma individual  (visitas à Gruta e M.Megalíticos)_ao longo do ano, com maior incidência nos meses de Verão e nas férias da Páscoa;_ duma maneira geral pretenderão visitar a Gruta

- turistas estrangeiros (visitas à Gruta)_ ao longo do ano, com maior incidência na Primavera/Verão_ especialmente atraídos pela possibilidade de visitar a Gruta;

- grupos nacionais de turismo “alternativo” organizado (visitas à Gruta e percursos na Serra do Monfurado)_ especialmente no Outono e Primavera; menos dependentes da visita à Gruta.




2. Desenvolvimento, concepção e execução da componente física do “ArqueoCENTRO RUPESTRE”


2.1. Localização

            Conforme já se referiu, propõe-se a localização do ArqueoCENTRO na área urbana do Escoural, de preferência em zona desafogada e directamente relacionada com a EN2 que atravessa actualmente a vila. A localização nas proximidades da Gruta poderia apresentar algumas vantagens, caso aquela estrutura fosse entendida apenas como uma estrutura de apoio à respectiva visita. Foi obedecendo a esse objectivo que em tempos o ex IPPAR através da sua Direcção Regional de Évora, promoveu a elaboração de um projecto de um pequeno Centro Interpretativo, que funcionaria como interface e de “sala de espera”, entre o actual parque de estacionamento e a Gruta. Uma estrutura mais ambiciosa e com objectivos similares aos que se propõem agora, exigiria uma construção nova com alguma dimensão e inevitável impacto na envolvente da Gruta. A não ser que se procurasse um espaço suficientemente afastado… Mas, perante tal alternativa, dadas as evidentes economias, quer para a instalação quer para a gestão corrente, a opção urbana acaba por ser a mais vantajosa.

Em todo o caso, sugere-se a procura de um espaço que, de algum modo possa articular-se facilmente com o acesso à Gruta, ou seja, preferencialmente nas proximidades da rotunda Sul de saída do Escoural, onde entronca a EN 370 que passa junto o monumento, na direcção de Évora.

2.2. Estrutura física


            O ArqueoCENTRO RUPESTRE, para responder aos objectivos em causa, envolverá três áreas de acesso público diferenciadas embora, directamente articuladas, para além do indispensável espaço técnico de apoio:


A- um amplo espaço expositivo, onde serão explorados com recursos multimédia e meios interactivos (réplicas, maquetes, moldes, recriações físicas e virtuais…) os diversos conteúdos informativos. A estrutura do “discurso” pode ser temática ou cronológica, partir do geral para o particular ou vice-versa, mas deverá fugir à lógica museológica tradicional. A Gruta do Escoural, uma vez que apresenta vestígios desde os Neanderthais até ao fim da Pré-história (Calcolítico), pode e deve servir como cenário de fundo e pretexto, para a exploração autónoma de vários temas.

Em todo o caso, poderá haver lugar para a um elemento atractivo, por exemplo através de uma “réplica”, em tamanho real, de um sector da própria gruta, com reprodução das respectivas pinturas (zona do baldaquino, por exemplo?). Tal réplica, responderá a dois objectivos principais: permitir a todos os potenciais visitantes e sem excepções decorrentes de quaisquer tipo de limitações físicas, espaciais ou temporais, ter um contacto experimental com o tipo de património que apenas alguns poderão observar directamente; recriar nalguns casos, com o necessário apoio científico, uma imagem mais aproximada de como seriam as pinturas originais…

B- Uma zona para “ateliers” e/ou “palestras”, articulada directamente com um espaço exterior, parcialmente coberto, onde se poderão realizar a maior parte das actividades lúdico-didácticas. Esta zona exterior, dependendo do espaço disponível, pode ter um tratamento de “parque temático”, incluindo zonas de lazer (parque de merendas?) para diversas idades, de acesso livre à comunidade local.

C- Uma zona multiusos, com “balcão” de acolhimento e recepção, centro de informação de turismo cultural e ambiental, loja de merchandising, cybercafé. Poderá ser uma zona de acesso livre e aberto à população local, sobretudo dos mais jovens.
                                                    


                               Estrutura Física: quadro de funções e estimativa de necessidades de espaço


Espaço construído
Espaço protegido
Ar livre
Exposição
  500 m2


Ateliers/sala palestras
  100 m2
      75 m2
5 000m2
Recepção/Informação
  75 m2
      25 m2 (esplanada)

Serviços apoio
  75 m2


                             
2.3. Articulação com a Gruta do Escoural_ necessidades de intervenção na Gruta


A- Independentemente da eventual criação do ArqueoCENTRO, a DRCALEN tem programadas diversas intervenções na própria Gruta, que decorrem directamente da necessidade de melhorar as actuais condições das visitas. Estas, apesar dos problemas circunstanciais já referidos são sempre obrigatoriamente acompanhadas por um guia, tendo habitualmente o seu início no “Centro Interpretativo” localizado na vila do Escoural. Essas intervenções, parcialmente já em “projecto de execução”, tem as seguintes componentes:
           
- Requalificação do Parque de Estacionamento da Gruta (desenho e pavimento) e melhoria do entroncamento com a EN 370;

- Construção de uma nova “antecâmara” junto à entrada da Gruta (por razões de conservação) e renovação integral das estruturas de passadiços;

- Renovação do sistema de iluminação e dos equipamentos de monitorização ambiental (temperatura, humidade, gaz carbónico, etc…);

- Requalificação de uma pequena casa abrigo, já existente, com instalação de um WC de serviço e uma pequena área de arrecadação.


B- Numa segunda fase e no sentido de valorizar e complementar a visita à Gruta, aproveitando os tempos de espera impostos pelo nº limitado de visitantes que devem estar dentro da cavidade em simultâneo, poderá ser criado um percurso arqueológico no exterior, passando pela entrada considerada “primitiva” (a Nascente da actual) e subindo mesmo ao “Santuário Neolítico Exterior” (observação de gravuras rupestres esquemáticas) e passando pelas restos de muralhas do Castro da Idade do Cobre.

            Esta intervenção, deve ser cuidadosamente planeada, pois apresenta condicionantes rigorosas que têm que ver com a preservação da integridade cultural, ambiental e paisagística do sítio e da própria Gruta, um lugar muito especial no passado, que não pode ser adulterado por qualquer intervenção desintegrada ou precipitada. 

2.4. Enquadramento do Projecto do ArqueoCENTRO RUPESTRE no contexto de um plano de “comemorações do Cinquentenário da Descoberta”


            A passagem em 2013 do cinquentenário da descoberta da Gruta do Escoural (ocorrida em 18 de Abri de 1963), proporciona uma ocasião única para a concretização de um conjunto de actividades de valorização e divulgação deste recurso patrimonial, a exemplo do que aliás aconteceu já na passagem do 25º aniversário (1988) com a organização municipal de um Colóquio Internacional sobre Arte Rupestre e a publicação das respectivas actas na revista Almansor, nº 7, 1989.

            A comemoração condigna e socialmente útil daquela data poderá materializar-se em três domínios de intervenção, nomeadamente:



A- Promoção pela DRCALEN, enquanto entidade responsável pela conservação e gestão da Gruta, das intervenções identificadas e projectadas pelos seus próprios serviços, visando a melhoria geral das condições de conservação e visita da Gruta do Escoural e da sua envolvente imediata (Monumento Nacional)



B- Organização pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e pela DRCALEN, eventualmente em colaboração com o Museu Nacional de Arqueologia e a Universidade de Évora, de um II Colóquio Internacional sobre Arte Rupestre a ter lugar na Primavera de 2013, colóquio que para além de novos dados sobre a Gruta do Escoural (decorrentes de projectos de investigação que entretanto se tentará promover…) será uma oportunidade para fazer um balanço das extraordinárias descobertas realizadas no último quarto de Século em Portugal e que incluem, entre outras, a Arte do Côa e a Arte do Guadiana.


C- Concretização e inauguração do projecto do ArqueoCENTRO RUPESTRE do Escoural, até final de 2013 como marco fundamental da comemoração do cinquentenário da descoberta da Gruta.


3. Da viabilidade e sustentabilidade do ArqueoCENTRO RUPESTRE



            A concretização das acções A e B acima identificadas (Intervenções na Gruta e Organização do Colóquio Internacional), não levantam questões complexas. As primeiras decorrem directamente das atribuições e responsabilidades da DRCALEN e as segundas poderão resultar da conjugação de interesses comuns e da articulação de esforços, entre a autarquia e a DRCALEN apenas dependentes de uma decisão conjunta com esse propósito. Fica de qualquer modo em aberto a questão do financiamento. No caso das melhorias a introduzir na Gruta e respectiva envolvente, os custos estão estimados em cerca de 100 000€, a co financiar pelo QRE. No caso dos estudos, preparativos e concretização do congresso esse valor ronda igualmente, por estimativa grosseira, os 100 000€ (aquisições de serviços).

            Será, pois, no âmbito do projecto do ArqueoCENTRO, quer pelos elevados custos de concretização quer, ainda, pela necessidade de garantir a sustentabilidade do funcionamento futuro, que se colocarão naturais interrogações, a que só um estudo de viabilidade económica poderá responder.

Nota: a não concretização do projecto do ArqueoCENTRO não pode nem deve prejudicar as intervenções de requalificação da Gruta e sua envolvente; do mesmo modo, considerando o prazo alargado para a eventual abertura do ArqueoCENTRO, até lá deverá continuar a assegurar-se, nas melhores condições possíveis, o funcionamento do actual Centro Interpretativo.
           


3.1 ArqueoCENTRO_ estimativas de custos de construção, instalação e funcionamento;


CONSTRUÇÃO/INSTALAÇÃO

Na ausência de um programa mais preciso e tendo como partida o cômputo de espaços necessários (mínimos) acima apresentado e que aponta para uma área de construção (recuperação) da ordem dos 750 m2, calcula-se o valor da obra, incluindo os projectos de Arquitectura e especialidades, e os arranjos exteriores, na ordem dos 600 000 €. A este valor, no entanto, haverá que acrescer um valor semelhante para a concepção, produção e montagem dos conteúdos (um valor, que no caso dos “Centros de Ciência Viva”, normalmente equivale ou supera o valor da obra, dada a tecnologia envolvida). Acresce ainda a instalação dos equipamentos da recepção, cibercafé, ateliers…).


Projectos de Arquitectura (e especialidades):……………….………………50 000 €
Obras (incluindo arranjos exteriores)..........…………………….…………. 550 000 €
Concepção, produção e montagem de conteúdos expositivos…………. 550 000 €
Equipamentos (recepção, cibercafé, ateliers interiores/ exteriores)……. 100 000 €
                                                                                        TOTAL……….1 250 000 €

Os valores apresentados, no que respeita à arquitectura são calculados com base no custo de 750 €/m2 e os projectos de arquitectura, correspondem a cerca de 10% do custo estimado da obra. O desenvolvimento do “programa” do edifício a construir ou adaptar deverá apontar no sentido de uma possível redução de custo destas parcelas partindo do princípio de que a sua principal componente (área expositiva_ da ordem dos 500 m2) constituirá essencialmente num “grande contentor”, que poderá jogar mesmo com a ausência de luz natural, simulando um ambiente de caverna. A redução de custos construtivos permitirá maior folga para a componente dos conteúdos de estimativa compreensivelmente mais fluida nesta fase.


FUNCIONAMENTO


Necessidades de Pessoal

O ArqueoCENTRO Rupestre, para funcionar, numa base semelhante aos Museus (encerrando um dia por semana, mas abrindo aos fins de semana e na generalidade dos feriados), precisará de um mínimo de 6 funcionários a tempo inteiro, com capacidades e funcionalidades polivalentes, nomeadamente no âmbito da “animação cultural” mas com formação específica nos domínios científicos abordados quer na exposição quer nos “ateliers”. Num sistema rotativo 3 funcionários (o nº mínimo para o ArqueoCENTRO funcionar e assegurar visitas acompanhadas à Gruta) deverão assegurar funções de recepção e acompanhamento de visitas (Centro e Gruta). Durante a semana a equipa deverá ser reforçada, para funcionamento dos Ateliers (mais 1 ou 2 elementos). O nº total de seis recepcionsistas/animadores tem já a folga necessária para assegurar as férias ou as faltas por doença. O ArqueoCENTRO deverá contar ainda com um responsável/director executivo, a tempo inteiro ou parcial, técnico superior com formação na área, que assegure o funcionamento normal e o cumprimento de objectivos e planos quer ao nível da gestão corrente (incluindo a Gruta) quer no desenvolvimento de novos programas de divulgação e animação que mantenham vivos os fluxos de visitantes. Outras necessidades de pessoal (manutenção e limpeza) poderão ser resolvidas preferencialmente por “outsorcing”. A segurança, dada a localização em área urbana, pode também ser resolvida através de equipamentos de teledetecção (extensíveis à Gruta)


Outros encargos permanentes e extraordinários:

Serão os ligados ao funcionamento (energia e água), à manutenção, quer do ArqueoCENTRO (incluindo os consumíveis necessários ao funcionamento dos Ateliers) quer da Gruta (limpeza e manutenção dos espaços exteriores). Não se estima que estes encargos sejam especialmente elevados, devendo o projecto de arquitectura, para além de apontar para soluções com especial performance ambiental, enquadrar eventuais soluções de energias alternativas (como já acontece hoje com a iluminação da Gruta). Um encargo permanente algo significativo dirá respeito à necessidade de deslocações frequentes entre o Centro e a Gruta por parte dos “animadores”, uma vez que os visitantes se deverão deslocar pelos próprios meios. Tendo em conta que se trata de uma deslocação de ida e volta de cerca de 5km, talvez fosse possível inovar também neste campo, explorando uma solução economicamente interessante e sobretudo ambientalmente mais amigável (uma viatura eléctrica, por exemplo…).

Finalmente (e neste capítulo haverá que não esquecer a necessidade de uma atenção permanente à divulgação e ao “marketing”) haverá que prever a necessidade de, com alguma regularidade, proceder à renovação quer dos meios expositivos quer das actividades dos “ateliers” o que implicará alguns encargos extraordinários.





3.2.ArqueoCENTRO_ modelos de gestão e perspectivas de financiamento

- o “modelo organizativo”:

            Considerando que o ArqueoCENTRO Rupestre, uma vez instalado, constituirá no essencial uma entidade prestadora de serviços públicos (ateliers didáticos e ocupacionais, organização e acompanhamento de visitas à Gruta e, eventualmente, a outros sítios de interesse patrimonial e ambiental), o respectivo modelo organizacional deverá revestir um cariz de tipo empresarial, visando garantir a respectiva sustentabilidade e, dentro do possível, a amortização do capital investido. A participação maioritária da Câmara Municipal, deverá aparecer, como garantia da prossecução dos objectivos sociais (apoio ao desenvolvimento local e regional) e culturais do projecto (salvaguarda da Gruta do Escoural enquanto Monumento Nacional).

            Obviamente, representando a articulação ArqueoCENTRO Rupestre-Gruta do Escoural, o eixo fundamental do projecto e uma das garantias da sua sustentabilidade, a Autarquia, previamente à constituição da Entidade Empresarial proposta, terá de assumir ou garantir a responsabilidade da gestão da Gruta, através de Contrato de Cessação a negociar coma DRCALEN, ou outra figura jurídica, que fixe as respectivas regras.


            - “parceiros potenciais” de uma entidade público-privada (Empresa) :

- o Município (sócio maioritário)e Junta de Freguesia (?);
- uma entidade privada (Empresa, Fundação,…) que garantisse o essencial das contrapartidas financeiras indispensáveis à obtenção das necessárias comparticipações (QREN?)
- uma entidade privada (empresa de arqueologia e património), que deverá associar-se como “parceiro”, ainda que minoritário, que acompanharia as componentes de desenvolvimento dos estudos e projectos, execução da obra e instalação e, por fim, asseguraria o funcionamento e a gestão.


            - “outros parceiros” intervenientes no processo:

- a Direcção Regional de Cultura do Alentejo, enquanto entidade que concessionará e fiscalizará a gestão da Gruta do Escoural;
- a Universidade de Évora e outras instituições universitárias (apoio científico)
- o Museu Arqueológico de Montemor-o-Novo (Associação Amigos de Montemor-o-Novo)


- “receitas”:
                       
- o pagamento das entradas no ArqueoCENTRO e na Gruta (todas as fórmulas serão possíveis, desde que se parta do princípio que as entradas serão sempre pagas, mesmo nos casos em que possam quase ser simbólicas…)
- as prestações de serviços de “atelier” ou “actividades” e que nestes casos poderão incluir (ou não) já o valor das entradas na Gruta
- o fornecimento de serviços de “guia” para visitas a outros sítios ou monumentos;
- a venda de produtos de “merchandising” próprio ou de terceiros à consignação (tudo o que se possa imaginar sob o tema genérico da Pré-história, desde livros, filmes, jogos, brinquedos, etc…)


3.3.Potenciais fontes de Financiamento para o projecto e obra
(algumas sugestões…)

QREN

PORA (Programa Operacional Regional do Alentejo) 2007-2013

Eixo Prioritário III- Conectividade e Articulação Territorial
(Área de Intervenção- Rede de equipamentos e infra-estruturas para a coesão social e territorial)

Eixo Prioritário IV- Qualificação Ambiental e valorização do espaço rural
        (Área de Intervenção- valorização económica do espaço rural)


POCI (Programa Operacional Ciência e Inovação 2010)

Medida V.6- Promoção e divulgação científica e tecnológica
Accão V.6.1.- Disseminação da inovação e do conhecimento científico e tecnológico
Acção V.6.2. – Produção de conteúdos para a promoção da cultura científica


PROVERE (Programas de Valorização Económica de Produtos Endógenos)




quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A propósito de Neanderthais
Um filme, uma reportagem, memórias de adolescente...

Edição de 1963, a mesma que li e reli no antigo colégio dos Jesuítas de Santarém (Editorial Verbo, Biblioteca da Juventude), traduzido do origial francês de J.H. Rosny Aîné de 1911 


Há poucos dias, procurando novidades na NETFLIX, encontrei um filme que, por vários motivos, me captou a atenção: "ICEMAN" (não confundir com mais um "super-herói", "The Iceman"...). Quer o título quer a curta sinopse (A prehistoric Neanderthal man found frozen in ice is revived by an arctic exploration team, who then attempt to use him for their own scientific means.) pareciam remeter para uma aventura ficcionada, inspirada eventualmente, no célebre "Homem de Otzi", a múmia pré-histórica congelada, descoberta há algumas décadas na fronteira alpina entre a Itália e a Àustria.

O livro sobre "O Homem no Gelo" (Otzi) do arqueólogo alemão Konrad Spindler, em catálogo publicitário de 1996 (a par de outras edições arqueológicas do mesmo ano...). Curiosamente, K.Spindler (1939-2005) que liderou as investigações sobre este caçador da Idade do Cobre (3500 aC), escavou em Portugal nos anos 70, nomeadamente a célebre sepultura da Idade do Bronze, da Roça do Cal do Meio, Sesimbra.


No entanto, conferida a ficha técnica de "ICEMAN", verifiquei que o respectivo argumento, pese embora algumas curiosas coincidências, nada devia à descoberta alpina, uma vez que esta se verificaria apenas em 1991 e o filme data de 1984. Aliás, no desenvolvimento do enredo e a quando da "descoberta de algo preso num glaciar ártico", a título comparativo e para dar alguma plausibilidade à história, os cientistas intervenientes citam as conhecidas descobertas de mamutes congelados nas tundras da Sibéria. O filme, que não recordo ter passado em Portugal, apresenta algumas caras conhecidas de Hollywood mas é nitidamente uma produção da série B, apesar de alguma preocupação com um mínimo de consistência científica, até no tratamento físico do "Neanderthal descongelado". Não saindo do "microcosmo" da estação ártica onde tudo acontece, o enredo concentra-se essencialmente nas dificuldades da "comunicação", o que tanto poderia aplicar-se a um indígena de uma tribo perdida como a um qualquer alienígena da ficção científica saída de Hollywood (ainda que neste caso todos pareçam já falar inglês...). Curiosamente, a visão do Neanderthal subjacente a "Iceman", aponta já para uma humanidade muito próxima da nossa, com pleno domínio da capacidade do raciocínio abstracto e simbólico (traz consigo vários amuletos) algo que só muito recentemente começou a ser comumente aceite pela comunidade científica. Aliás, o tema da mais que provável capacidade artística do Homem de Neanderthal está na ordem do dia e será até objecto de próximo colóquio em Itália.

Iceman_ filme de 1984

"Iceman"_ dificuldades de comunicação











































Por mero acaso, mal acabara de ver o filme, surge a interessante reportagem no Público (11 de Setembro) sobre o arqueólogo João Zilhão "Advogado dos Neanderthais", cujo Link se disponibiliza Ver aqui . Em anexo, deixamos também a transcrição da mesma reportagem divulgada pelo Alexandre Monteiro no ARCHPORT e que resolverá eventuais dificuldades de acesso ao SITE do "Público".

Sobre as recentes descobertas antropológicas das equipas de Zilhão no Almonda tive  oportunidade de me referir neste blog (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2017/04/afinal-eles-andavam-por-ai-ha-400-000.html) e já nesse texto destacava o imenso contraste verificado no território português entre a riqueza do registo arqueológico e a magreza do respectivo registo antropológico. E se tal é verdadeiro praticamente para as muitas centenas de milhares anos da Pré-história Antiga, torna-se particularmente estranho no que respeita ao imenso vazio de restos físicos dos Neanderthais. De facto, os indícios da sua presença e actividade abundam por todo o território português, mas os seus vestígios físicos directos são muito escassos e reduzem-se a alguns dentes isolados, nem sempre de classificação inequívoca. Esta situação é tanto ou mais estranha quando parece certo que a extinção deste grupo humano tão característico, e ao qual nos ligam afinal tantas afinidades genéticas e culturais, se terá verificado na Península Ibérica há cerca de 30 000 anos. Naturalmente, a descoberta do esqueleto juvenil do Lapedo no Natal de 1998, levantando a questão da hibridação com os últimos Neanderthais há cerca de 25 000 anos, ou mais recentemente, a identificação do crânio da Aroeira com 400 000 anos, podem ser as primeiras peças locais de um imenso puzzle que sabemos nunca estar completo mas cujo sentido último tem estimulado a reflexão de antropólogos e arqueólogos e povoado a imaginação de romancistas e cineastas.

O  filme que valeu um Oscar a Jean Jacques Annaud em1981

De facto e sempre que me cruzo com este tipo de ficção, vem sempre à minha memória um romance que, muito antes de sonhar com Arqueologia ou com História, me entusiasmou de forma inexplicável quando tinha doze anos. Recordo as circunstancias (a biblioteca e a sala de leitura em causa, no antigo Seminário de Santarém, todo um novo mundo para quem não conhecia livros em casa) e os detalhes do enredo, o que só se pode explicar pelo profundo impacto que a leitura d'A Guerra do Fogo (J.H.Rosny Aîné, 1911, ed. portuguesa, Verbo, 1963) terá então provocado na minha imaginação de adolescente. E ainda que muito mais tarde, quando iniciava a carreira de arqueólogo no Museu Nacional de Arqueologia (1981), não tenha perdido a conhecida e belíssima adaptação cinematográfica de Jean-Jacques Annaud, é para o romance original que ainda remetem as minhas primeiras e mais profundas emoções. A participação com Luis Raposo, José Mateus, Francisco Sande Lemos e tantos outros (como o jovem Zilhão) na descoberta em 1977 das primeiras estruturas de combustão em Vilas Ruivas (Portas do Ródão) directamente relacionáveis com grupos de caçadores do Paleolítico Médio (muito provavelmente Neanderthais), vinha afinal dar algum contexto e plausibilidade à "saga" dos buscadores do fogo que havia povoado a minha imaginação adolescente...

PS_ a exploração das potencialidades romanescas da Pré-história surge ciclicamente, ainda que sem cultores no panorama nacional (com excepção do malogrado João Aguiar que na sequencia da exploração de temas históricos mais recentes, se aventurou pelo campo da Pré-história com "Lapedo, Uma criança no Vale", 2006, pouco antes da sua morte prematura). A autora norte-americana Jean M.Auel, conheceu um extraordinário e talvez inesperado sucesso, com a publicação do "O clã do urso das cavernas" (1980) tema que não mais largará até hoje, construindo uma das grandes sagas pré-históricas da moderna literatura de aventura. A sua obra foi também explorada por Hollywood, mas sem o mesmo sucesso, apesar (ou nem por isso) da presença da loura e curvilínea Daryl Hannah no papel de Ayala, (a filha das cavernas) em demasiado contraste com os seus pais adoptivos (Neanderthais). O filme apenas passou na televisão, mas os livros conheceram várias edições portuguesas. Recordo que no MNA discutíamos, nos idos de oitenta, a qualidade e o nível das fontes de informação arqueológica usadas pela autora.









A Notícia do Publico de 11 de Setembro de 2017 (transcrição de Alexandre Monteiro)

Visita guiada às grutas da nascente do Almonda com o advogado dos neandertais

São 500 mil anos de história em 70 metros de escarpa. Várias grutas
mostram com pontas de sílex, ossos queimados e ferramentas em pedra
que quem viveu na planície do Tejo sabia onde se refugiar. O
arqueólogo João Zilhão escava-as há 30 anos e vai continuar a fazê-lo.
Há ali trabalho para mais 200.

Publico, LUCINDA CANELAS 11 de setembro de 2017

Junto à água, virado para a entrada da grande Galeria da Cisterna,
João Zilhão vai apontando para a parede rochosa que tem à sua frente
enquanto enumera outras grutas: da Lapa dos Coelhos ali bem perto à do
Pinheiro, no topo da escarpa, passando pela dos Ursos, a da Oliveira
e, claro, a da Aroeira, que se converteu na estrela deste sítio
arqueológico quando, em 2014, ali foi encontrado um crânio com 400 mil
anos, o fóssil humano mais antigo descoberto em Portugal.

Todas fazem parte de um complexo sistema subterrâneo que tem hoje mais
de 12 quilómetros de galerias reconhecidas e que no passado terá sido
usado por diversas populações que viveram na região, quando aquele
território era, também em termos geológicos, bem diferente do que é
hoje, explica este arqueólogo de 60 anos, que ali começou a trabalhar
em 1987.

“Foram precisos 30 anos para que aparecesse um fóssil humano como este
no Almonda, que é rico em [vestígios de] fauna e indústria acheulense
[utensílios bifaces de pedra do Paleolítico Inferior]. É por isso que
digo sempre que aqui temos trabalho para mais 200 anos”, diz ao
PÚBLICO João Zilhão, enquanto sobe a encosta íngreme que conduz à
Gruta da Aroeira, onde um pequeno grupo de arqueólogos formado por um
português e quatro espanhóis (alguns catalães, farão questão de
corrigir mais tarde) está a trabalhar desde as primeiras horas do dia.
No laboratório de uma povoação próxima, outros colegas limpam,
restauram e inventariam as peças que vão saindo da escavação feita
apenas com o apoio da Câmara Municipal de Torres Novas. “A formação
faz-se no campo. É muito importante que os mais novos possam
participar em projectos assim.”

Nos últimos 15 anos este arqueólogo que já deu aulas em Portugal,
França e Inglaterra e que agora está ligado à Universidade de
Barcelona concentrou a sua investigação no período de transição do
Paleolítico Médio para o Superior, o que o levou a escavar no abrigo
do Lagar Velho (Leiria), onde identificou a sepultura de uma criança
com cerca de 25 mil anos que ficaria conhecida como o Menino do Lapedo
e cujo esqueleto apresenta características comuns aos neandertais e ao
homem moderno; no sítio de Pestera cu Oase, noutro sistema de
galerias, nos montes Cárpatos (Roménia), onde foram encontrados os
vestígios mais antigos de humanos modernos na Europa; na Cueva Antón,
na região de Múrcia (Espanha), onde conchas pintadas e perfuradas
indicam, defende Zilhão, que os últimos neandertais tinham um grau de
sofisticação que até então não lhes era reconhecido.

Os trabalhos neste complexo de grutas do Almonda, afluente do Tejo, em
sucessivas campanhas de Verão em que participaram muitos portugueses e
estrangeiros ao longo das últimas três décadas, também se inscrevem
nesta linha de investigação.

João Zilhão conta que o sítio do Lagar Velho – o local da Sepultura do
Lapedo – venha a ser escavado em 2018, ano em que o Museu Nacional de
Arqueologia (MNA), em Lisboa, deverá receber uma exposição sobre
evolução humana com base no espólio recolhido em escavações em que
participou, na maioria liderando a equipa. A Aroeira estará,
naturalmente, em grande destaque, mostrando, diz António Carvalho,
director do MNA, que “em Portugal se têm feito descobertas muito
significativas no âmbito da evolução humana” e que o debate à volta
dela mudou muito.

“Quando propusemos, a partir do Lapedo, que tinha havido uma mistura
[entre neandertais e homens modernos, a nossa espécie], um cruzamento,
a polémica foi grande – o debate era ‘hereges contra a ortodoxia’. E
agora essa miscigenação é que é a ortodoxia. O Lapedo – o contexto da
ocupação humana – ainda pode trazer muita coisa. Bem financiado, é um
projecto para mais cinco ou seis anos de trabalho”, garante Zilhão.

É precisamente na Sepultura do Lapedo que termina cronologicamente o
guião da exposição em que este professor e o MNA estão a trabalhar. Os
materiais já foram escolhidos – os do Lapedo estão em depósito no
museu há anos e nunca foram mostrados em Portugal –, mas não se sabe
ainda quando é que a exposição abre nem quanto tempo fica.

“Esta é uma oportunidade muito boa para o MNA abordar um tema
importantíssimo, ainda mais interessante para nós, porque se quer
mostrar coisas que saíram de escavações em Portugal envolvidas em
investigação científica de ponta. E não tendo o museu uma exposição
permanente, esta é também uma hipótese de mostrar peças fundamentais
que estão em reserva”, diz o director do MNA.

Para Zilhão, é a maneira de cumprir mais uma etapa do processo – a
partilha do espólio que resultou dos trabalhos e do conhecimento que
ele gerou com o público, provando que uma intervenção como a que foi
feita no Lagar Velho ou no Almonda não é só “pedra e ossos”: “Aqui [no
Almonda] não se trata só de evolução humana e geologia. Uma escavação
como esta vai da física atómica à filosofia e é isso que torna as
coisas interessantes.”

Arqueólogos de fato-macaco

Foi aos 14 anos que começou a explorar as grutas labirínticas do
Almonda com o liceu. Nessa altura eram precisas cinco horas de
autocarro para ligar Lisboa, onde vivia, a Torres Novas. Zilhão e os
colegas dormiam na Galeria da Cisterna, a mesma onde acabaram por
descobrir a entrada para uma outra gruta, a da Oliveira, que guardava,
viriam a saber mais tarde, fósseis e ferramentas de neandertais
datados de há 65 mil a 35 mil anos, o que contribuiu para a teoria de
que a Península Ibérica serviu de reduto para os últimos sobreviventes
desta espécie humana extinta.

A primeira das campanhas de escavação em que esteve envolvido no
Almonda aconteceria só em 1987, com amigos da Sociedade Torrejana de
Espeleologia e Arqueologia (STEA), e dela resultaram pontas de sílex
com 25 mil anos e restos humanos com cerca de 13 mil. Só dois anos
mais tarde dariam com a entrada da Oliveira, usada no tempo dos
neandertais (Paleolítico Médio, entre 50 a 100 mil anos): “Foi em
meados de Setembro, lá pela uma da manhã. Foi incrível.” Começaram a
escavá-lo no ano seguinte e só terminaram em 2012.

Quem hoje entra nesta gruta, que a um não-espeleólogo pode parecer
relativamente exígua, e percorre os passadiços metálicos apercebe-se
dos desafios que enfrenta quem ali trabalha: “Isto é só para
arqueólogos que estão habituados a fato-macaco”, diz João Zilhão.
“Aqui na rede do Almonda é preciso ser espeleólogo primeiro e só
depois arqueólogo. E não é só uma questão de destreza ou de segurança
– trata-se de compreender o ambiente em que se está a trabalhar, de
saber como se comporta a rocha ou a que se deve determinada formação
na parede.”

Pelo meio, no final da década de 1990, entraram em escavação as grutas
da Lapa dos Coelhos e da Aroeira. Na primeira, o português Francisco
Almeida e os que com ele escavaram identificaram um depósito do
Paleolítico Superior (35 mil a dez mil anos), com sílex, restos de
animais e peças em osso, entre elas anzóis. “A Lapa é muito
interessante porque nela está documentada a pesca de rio – sável,
barbo, truta…” Na segunda, a equipa do norte-americano Anthony E.
Marks, da Universidade Metodista de Dallas, localizou bifaces
(instrumentos pré-históricos em pedra, usados para cortar) e dois
dentes humanos.

Anthony Marks escavou cinco anos na Aroeira (1997-2002), mas deixou,
na opinião de Zilhão, espaço ao desenvolvimento da investigação: “Para
mim há um princípio fundamental na arqueologia de grutas – o trabalho
só acaba quando se chega à rocha que está na base. O Anthony preferiu
terminar antes e foi por isso que, depois de lhe ter dado tempo [dez
anos] de publicar o que ele tinha a publicar [sobre a Aroeira],
resolvi voltar lá.”

Em 2013 a equipa de Zilhão chegou à rocha de base e, no ano seguinte,
e porque antes aparecera um cantinho com ossos queimados, uma prova da
existência de fogo controlado que “era das mais antigas da Europa”,
resolveu dar continuidade à escavação: “Abrimos outros dois metros
para tentar saber mais sobre o uso do fogo e foi aí que apareceu o
crânio.”

Este crânio, assegura Zilhão, tem uma datação muito precisa porque o
manto de calcite da gruta assim o determinou. Expliquemos: “A calcite
aqui da Aroeira foi datada com o método de urânio-tório, que é muito
exacto porque tem um intervalo que é, no máximo, de 20 mil anos.
Datando o manto de calcite, sabemos que o que está por baixo é mais
antigo.”

Este fóssil, que se partiu no processo de escavação, foi reconstituído
e restaurado no laboratório da Universidade Complutense de Madrid, um
processo “muito complicado” que durou dois anos e contou com a
participação de Juan Luis Arsuaga, co-director das escavações na Serra
de Atapuerca, cenário de um importante sítio arqueológico que é
património mundial e onde foram encontrados fósseis semelhantes. “A
morfologia interna de um crânio com 400 mil anos não é igual à nossa.
O seu restauro exige muitas comparações e é muito demorado.”

Fogo domesticado

O crânio da Aroeira vem juntar-se ao chamado “debate das espécies” em
que Zilhão está envolvido há anos: “Estou sempre à espera que me
perguntem a que espécie pertence isto ou aquilo. Em relação a este
crânio, a resposta é muito simples – pertence à espécie humana, que é
a única que existe. Há 400 mil anos não há senão uma espécie humana,
mas mais diversa [do que hoje]. Porquê? Porque os humanos eram muito
menos e as suas populações viviam muito mais isoladas umas das outras.
A humanidade actual é que é anormalmente homogénea em comparação com a
heterogeneidade do passado.”

Diversos e capazes de domesticar o fogo: “Este crânio, datado com
precisão, mais os ossos de animais queimados que ali tínhamos
encontrado, ajuda-nos a dizer que, há 400 mil anos, já se usava o fogo
para cozinhar ou para aquecer.”

No entanto, lembra a revista Science que, entre os que mais criticam
as teorias de Zilhão e de outros colegas que o apoiam está o
antropólogo francês Jean-Jacques Hublin, que defende que as jóias dos
neandertais (conchas pintadas há 45-50 mil anos descobertas em
Espanha, por exemplo) resultam de um fenómeno de aculturação com o
homem moderno e que são muito menos sofisticadas. Hublin é da opinião
que se trata de espécies distintas que viveram separadas durante
centenas de milhares de anos – negar isto é, para este francês, negar
a própria teoria da evolução das espécies.

Já no topo da escarpa, junto à Gruta do Pinheiro, que serviu de covil
a hienas, João Zilhão explica que quem ocupava aquele território há
400 mil anos vivia na planície do Tejo, que se vê da encosta sul. Lá
caçaria cavalos, auroques e veados, usando as grutas onde os
arqueólogos têm vindo a trabalhar como refúgio, muito provavelmente no
Verão, já que na altura se atravessava um “período de sobreaquecimento
global”.

Até à visita do PÚBLICO, a campanha arqueológica de 2017 na Gruta da
Aroeira rendera já diversas ferramentas em pedra e fragmentos de
tartaruga, cavalo, veado e macaco. “Recuperámos uma mandíbula de
macaco”, diz Montserrat Sanz, uma catalã especializada em fauna,
chamando a atenção para a singularidade do achado no que toca à
Península Ibérica, antes de se juntar a Joan Daura, outros dos colegas
arqueólogos, para conversar sobre a importância do primeiro referendo
sobre a independência da Catalunha a 1 de Outubro, qualquer que seja o
resultado: “O referendo é já uma vitória. Se o resultado for
expressivo a favor da causa independentista, mesmo que ela não vença,
há coisas que terão de mudar.”

Joan e Montserrat estão habituados a esta rede de grutas da nascente
do Almonda que, explica João Zilhão, é como um bloco de apartamentos
em que cada janela nos permite olhar para uma época diferente do
território, acompanhando os que o escolheram para viver. “Temos aqui
documentados 500 mil anos de história e só agora começámos.” Entre a
nascente do rio, na galeria cuja entrada está hoje ao nível da água
que enche a represa junto à velha fábrica de papel (a da Cisterna), e
o topo do penhasco, onde fica a Gruta do Pinheiro, são cerca de 70
metros. “À medida que vamos subindo na escarpa recuamos no tempo [no
que diz respeito aos vestígios encontrados]. O rio nunca nasceu em
cascata lá de cima – os terraços que hoje temos foram criados pelo
tempo.”

É o facto de permitir o estudo de vários períodos ao mesmo tempo que
torna este sistema de galerias singular, defende o arqueólogo
português. “É uma situação única na Europa porque são jazidas de
épocas diferentes e permitem perceber como se explorou o mesmo lugar
em função da demografia, do clima, das tecnologias usadas.”

Um peso-pesado

O sistema de grutas do Almonda ainda tem muito para contar, mas para
isso é preciso que as equipas não deixem de trabalhar no local, o que
hoje só é possível porque alguns estão com bolsas de doutoramento da
Fundação para a Ciência e a Tecnologia, porque a câmara de Torres
Novas continua a apoiar o projecto e porque a Renova, empresa que é
dona da velha fábrica junto à nascente, fornece a electricidade.

“No âmbito universitário as coisas melhoraram muito nos últimos 15
anos, mas no que toca às instituições ligadas à cultura, o
desinvestimento e a falta de objectivos claros para esta área está a
dar cabo de tudo o que já se tinha conquistado a nível científico.”

Zilhão, que esteve na origem do Parque Arqueológico do Côa, hoje
património mundial, e do entretanto extinto Instituto Português de
Arqueologia, de que foi o primeiro director, não quer falar de
políticas culturais, mas diz que Portugal tem um potencial imenso que
continua a ser explorado graças a parcerias internacionais: “No
Almonda já tivemos pessoas de 20 nacionalidades a trabalhar. Acredito
que, se formos mais para oeste, para os lados da Lapa do Coelho,
encontraremos outras grutas onde será possível recuar mais de 400 mil
anos. Se temos bons problemas para resolver, as pessoas lá fora
interessam-se por eles e vêm.”

Isso acontece no Almonda, como acontecera já no Lagar Velho, que
fomentou um intenso debate internacional e que ajudaria a fazer de
Zilhão um peso-pesado – expressão que parece francamente deslocada
quando nos confrontamos com a sua figura esguia – na discussão sobre a
inteligência dos neandertais.

Zilhão está habituado à controvérsia. As suas posições geram, por
regra, opiniões extremadas e isso parece agradar-lhe. Se lhe
perguntamos o que sentiu quando em 2013 a sequenciação do genoma de um
neandertal que viveu há 50 mil anos deixou claro que as pessoas de
hoje não originárias de África têm entre 1% e 3% de ADN desta espécie
humana que surgiu na Europa e na Ásia há uns 400 mil anos e se
extinguiu há 28 mil, sorri: “Que os dois se tinham misturado era já
muito claro. A quantificação não é importante, até porque termos hoje
entre 1 e 3 ou 4% de ADN neandertal não nos deve levar a pensar que,
há 40 mil anos, a proporção era a mesma.”

E nada de olhar para os neandertais com a ideia pré-concebida de que
seriam, de alguma forma, inferiores, adverte este arqueólogo que
começou por estudar economia: “Há uma grande proximidade biológica e
cultural entre os neandertais e os humanos modernos. Porquê? Porque só
há uma espécie que evoluiu. Não houve uma competição entre várias
espécies coexistentes em que só uma sobreviveu.”

Hoje Zilhão é conhecido, pode ler-se no seu perfil publicado pela
revista Science, como “o mais feroz advogado dos neandertais”, por
defender, contra qualquer um, que não seriam inferiores aos humanos
modernos.

“Depois de provada a mistura, a hibridização, há ainda quem diga que
todas as conquistas dos neandertais são aprendizagens, aculturações
dos humanos modernos, que eles não inventaram nada e que eram
cognitivamente inferiores. É absurdo e prova que há mesmo quem tenha
um preconceito contra eles.”

A investigação há-de continuar a encarregar-se de demonstrar que, quem
pensa assim, está simplesmente errado, conclui João Zilhão. Ele
trabalha para isso.





















sexta-feira, 8 de setembro de 2017


VISITA ÀS "OBRAS" DO TEMPLO ROMANO



Já em anterior "post" havíamos dado conta do início de obras de urgência no Templo Romano de Évora, 146 anos após a última grande intervenção do cenógrafo e arquitecto italiano Giuseppe Cinatti  -   ver AQUI - a quem se deve a imagem que todos guardamos do monumento ex-libris da cidade de Évora e da herança romana em Portugal. Naquele texto recordámos também, em traços gerais, a história do exemplar processo de "restauração" conduzido no século XIX por duas brilhantes figuras da cultura oitocentista, Cunha Rivara e Filipe Simões, ambos directores da Biblioteca Pública de Évora, a quem muito deve a nossa cidade.

Hoje, já totalmente montados os andaimes e respectivas proteções, que dão ao templo um ar de instalação do conhecido artista "Christo", tive oportunidade de, em conjunto com outros colegas da Direção Regional de Cultura (promotora da intervenção), subir ao nível da arquitrave, o que nos proporciona uma perspectiva única, quer da dimensão quer sobretudo da qualidade artística, dos imponentes capitéis em mármore que ainda subsistem.

Apenas um aparte. 

Certamente reflexo do clima eleitoral em que já estamos inseridos, as redes sociais eborenses têm sido férteis em comentários para todos os gostos a propósito do "embrulho" do Templo Romano. Alguns insinuando inclusive que as obras fariam parte de um qualquer maquiavélico plano eleitoralista da Câmara Municipal. Ora convém esclarecer que a autarquia é completamente estranha aos trabalhos em curso, iniciativa da Direção Regional de Cultura (entidade a quem o Monumento está afecto, embora esse seja também um assunto controverso...), e que o respectivo "timing", advém de circunstâncias completamente fortuitas. Durante uma vistoria de rotina, efectuada em Junho passado, foi detectado o recente desprendimento de um fragmento de capitel de grandes dimensões... Essa verificação fez disparar as "campainhas de alarme", temendo-se próximas "réplicas" com resultados imprevisíveis, sobre o património mas também sobre as numerosas pessoas que circulam na sua envolvente. Entre o encontrar os necessários recursos (directamente do Gabinete do Ministro pois os serviços estão, como se sabe, exauridos pelas sucessivas cativações...) e o cumprir dos mínimos formalismos exigidos, mesmo para situações de emergência como a presente, esgotaram-se as poucas semanas entretanto decorridas, iniciando-se os trabalhos, por mera coincidência, em plena época eleitoral. 

Cicatriz do fragmento de capitel que fez disparar o "alarme". 
A visita fez-se de cima para baixo, começando pelos enormes blocos de granito da arquitrave. De referir que os blocos que subsistem ainda da segunda fiada da arquitrave, são ligeiramente abaulados na face inferior, de modo a que o peso se exerça apenas em pontos de apoio, por sua vez alinhados com as colunas.
Elementos de ligação dos blocos da arquitrave, em bronze. Não se sabe ainda se são os elementos originais. Nalguns casos existe já apenas o entalhe na pedra.

O bloco inferior da arquitrave, apreciando-se ainda a respectiva decoração.
O plano em que se pode apreciar plenamente a qualidade artística do trabalho escultórico realizado ao nível dos capitéis (mármore de Estremoz). De uma maneira geral o seu estado de conservação é bastante preocupante.

Detalhe de um dos capitéis, em estilo "corintio" mas apresentando todos eles diferenças significativas, quer nos elementos decorativos usados quer na própria qualidade técnica do talhe. São sempre constituídos por dois elementos e embora pudessem ter um acabamento de côr (há indícios de nalguns templos da época, serem mesmo "dourados") a qualidade escultórica remete para a inexistência de qualquer reboco (ao contrário dos "fustes").



Os fustes em granito e que originalmente seriam rebocados e pintados.

As bases, também em mármore, e cujo estado de conservação também inspira cuidados.



Um pormenor que já conhecíamos dos trabalhos do Prof. Haushild: a existência de marcas originais para enquadramento e posicionamento rigoroso das cases das colunas.




segunda-feira, 4 de setembro de 2017


Ambiente 21_ Minimização dos Impactes Arqueológicos em Alqueva




A revista "Ambiente 21", editada pela agência "Loja da Imagem_ Marketing, Comunicação e Gestão" foi há muito "descontinuada"... Pela rápida pesquisa na NET fiquei sem perceber se a própria agência proprietária do título em causa ainda existe. De qualquer modo, ao reencontrar nos meus papéis um exemplar em papel de há década e meia (Outubro de 2002) e ao juntá-lo à documentação impressa sobre o Alqueva que estou a organizar, aproveitei para digitalizar e aqui disponibilizar um texto de síntese sobre a componente arqueológica do Alqueva que então redigi para aquela extinta revista.