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sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018


Os Neanderthais nas origens da "Arte"?




Com um dia de atraso relativamente ao “El Pais”, os diários de referencia portugueses (Público e Diário de Notícias) não deixaram de dar hoje (23 de Fevereiro) o devido destaque à notícia da publicação pela Science, com direito a destaque e foto de capa, de um recente artigo em que se defende que, afinal os Neanderthais já tinham “capacidades artísticas”. A chamada da capa da revista refere-se a “Minds at work. Oldest dated cave art, pointed to Neanderthal symbolic behaviour”. O título do “El Pais” realça a antecipação cronológica das origens da arte que recuam cerca de duas dezenas de milhares de anos, mas não deixa de destacar que a essa revelação foi feita em "três grutas espanholas". Já o DN dá prioridade à circunstancia de um português (João Zilhão) coordenar a equipa responsável pela investigação. O Público, mais sóbrio, fica-se no seu destaque de capa pela descoberta de que afinal os Neanderthais já faziam arte.



Mas que significa esta “descoberta” que tal como vários arqueólogos se apressaram a comentar, apesar da sua importância e significado, não é de todo inesperada face ao que hoje se conhece sobre esta espécie humana (Homo Neanderthalensis), parcialmente nossa contemporânea mas extinta (segundo alguns), ou uma espécie que, afinal, faz parte da nossa própria linhagem ("contributiva líquida" do nosso genoma)  segundo outros?

O articulista do El Pais, com evidente exagero jornalístico, fala em "revolução", equiparando-a mesmo à futura descoberta de uma qualquer espécie alienígena inteligente… Mas, como o Luis Raposo  lembrou hoje mesmo, através do Facebook, “ Nenhum dado arqueológico nos autorizava a considerar os Neanderthais, intelectual ou evolucionariamente inferiores aos humanos modernos (...)” 

Para quem não saiba, o Luis Raposo, reputado arqueólogo e museólogo, integrava a equipa que há quase quarenta anos escavou um "acampamento Neanderthal" no Vale do Tejo (Vilas Ruivas, Vila Velha de Ródão)  a que, por coincidência, me referi há dias neste blog  ver aqui . Estas escavações, em que  João Zilhão, ainda estudante, também participou, revelaram um conjunto de estruturas complexas para abrigo e aquecimento, que sem qualquer novidade, mostravam cadeias operatórias próprias de uma capacidade cognitiva e intelectual de cariz humano. Por acaso, Vilas Ruivas, situa-se, a poucas dezenas de quilómetros da Gruta de Maltravieso (Caceres), um dos locais onde agora foram obtidas estas extraordinárias datações. Os caçadores "artistas" de Maltravieso, frequentavam certamente o Vale do Tejo...

A confirmarem-se as datações agora reveladas e esclarecidas eventuais questões de contexto (o método em causa não data directamente os pigmentos mas as camadas de calcite que servem de suporte ou que cobrem as pinturas…), é todo um novo capítulo que se abre à investigação da arte rupestre a nível mundial (mais um salto científico, equiparável ao que representou há vinte anos a descoberta do Complexo Rupestre do Côa, no que respeita aos ambientes e significados da arte rupestre paleolítica, como serenamente recordou hoje o António Martinho Baptista nos comentários a esta notícia feitos a pedido do Público.

E, já agora, talvez venha a ser necessário olhar sob esta nova perspectiva para a única cavidade portuguesa onde, até hoje, estão identificados vestígios de pintura paleolítica, a Gruta do Escoural (Montemor-o-Novo), cuja arte foi também objecto de amostragem no âmbito do projecto responsável pelas actuais revelações. Com efeito, em 2011, a equipa coordenada por João Zilhão, Alistair W. Pike e Dirk Hoffmann, procedeu à recolha de duas dezenas de amostras de calcite associadas a uma dezena motivos selecionados (pintura e gravura) nesta cavidade portuguesa. Infelizmente, por insuficiência de financiamento (o projecto que dura há uma dezena de anos, tem sido apoiado pela CE), a maioria das amostras do Escoural ainda aguarda tratamento laboratorial. 

Recolha de calcite associada a uma das pinturas da Gruta do Escoural (Janeiro de 2011)

Mas haverá alguma possibilidade de no contexto da cerca de uma centena de grafismos conhecidos nesta Gruta, haver vestígios que possam vir a ser atribuídos aos Neanderthais? Alguns dados podem vir a favorecer essa hipótese. Desde logo, junto à abertura que sempre se considerou como entrada natural da gruta (virada da Nascente, no lado oposto à fenda aberta pela exploração da pedreira em 1963, hoje utilizada pelos visitantes), foi reconhecida nas escavações luso-belgas dos anos 90, a presença de uma importante ocupação Neanderthal (instrumentos líticos e restos de fauna de grandes mamíferos) inequivocamente datada pelo Carbono 14 (cerca de 50 000 aC). Naturalmente, à luz dos dados tradicionais, nunca foi até hoje estabelecida qualquer conexão entre esta ocupação e a arte rupestre identificada no interior da cavidade. Um outro factor a ter em conta numa eventual reavaliação, decorre da própria natureza formal dos vestígios rupestres em presença. André Glory, o estudioso de Lascaux que em 1965 visitou o Escoural no âmbito de uma missão apoiada pela Fundação Gulbenkian e pelo mecenas MaximeVaultier ( ver aqui ), defendeu desde logo para os vestígios rupestres do Escoural, onde a par de alguns motivos zoomórficos naturalistas mas muito singelos, abundam os signos esquemáticos, uma cronologia muito recuada (aurignacense) nas origens do Paleolítico Superior. Tal reconhecimento valeu também na época alguns títulos hiperbólicos por parte da imprensa, como "Escoural mais antigo do que Lascaux".... Obviamente, estamos a especular pois sem o tratamento das amostras rcolhidas, não se poderão tirar conclusões. De facto até a selecção dos motivos a datar, hoje seria diferente de há sete anos atrás. Não apenas porque as perspectivas são diversas face aos dados agora divulgados mas também porque hoje, graças a novas metodologias de observação e registo, temos novas leituras dos próprios motivos. Por exemplo, pela primeira vez, decorrente do tratamento informático das imagens fotográficas, temos provas da existência de motivos digitados  no Escoural. Ora, no caso de Maltravieso (a cavidade rupestre mais próxima do Escoural, como já aqui lembrámos  ), conhecida pelos seus motivos  pintados de mãos em negativo ou positivo, foi a partir da calcite depositada sobre alguns destes motivos que se obtiveram as datas mais antigas agora divulgadas.

Uma das mãos em negativo de Maltravieso (Foto de Hopolito Collado)


Gruta do Escoural: motivo "digitado". Foto sem tratamento à esquerda. Ao centro e à direita, a mesma imagem manipulada digitalmente.
Um outro dado que nos poderá obrigar a rever as representações gráficas presentes no Escoural, decorre das conclusões dos recentes estudos analíticos realizados sobre a arte do Escoural pelo Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, nomeadamente sobre os pigmentos vermelhos e negros usados nas pinturas. A sua grande variabilidade, parece apontar para momentos cronológicos bem distintos, que já eram perceptíveis do ponto de vista formal ou estilístico. Falta agora comprovar se alguns desses vestígios poderão ser atribuídos aos caçadores Neanderthais que, ocasionalmente se instalavam junto à sua entrada, no âmbito das suas expedições de caça bem documentadas pelos restos faunísticos (cavalo e auroque em especial) aí abandonados.




ADENDA (26/2/2018)

Nota de Imprensa divulgada a este propósito

Nota de Imprensa
INSTITUTO TERRA E MEMÓRIA – INSTITUTO POLITÉCNICO DE TOMAR – CENTRO DE GEOCIENCIAS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

A ARTE NÃO É SOMENTE OBRA DOS HOMO SAPIENS: OS NEANDERTAIS PINTAVAM GRUTAS

Novas datações realizadas em pinturas rupestres paleolíticas em três grutas em Espanha (Maltravieso - Cáceres, Extremadura -, La Pasiega - Puente Viesgo, Santander -, e Ardales – Ardales, Málaga) mostram que estas foram realizadas há mais de 66 mil anos num período de tempo em que apenas os Neandertais ocupavam a Europa.
Usando o método de datação por Urânio-Tório, uma técnica de datação de ponta, num estudo publicado na revista Science por uma equipa internacional coordenada pelo Dr. Chris Standish, Dr. Andy Milton e pelo Professor Alistair Pike da Universidade de Southampton e com o qual o ITM/CENTRO DE GEOCIÊNCIAS participou através dos seu investigador Hipólito Collado, mostrou que as pinturas das cavernas datam de mais de 20.000 anos antes da nossa espécie ter surgido na Europa.

Os resultados, publicados ontem na revista Science, são significativos porque fornecem evidências muito fortes de como os Neandertais se comportavam simbolicamente e demonstram que, nesse domínio, eles estavam muito próximos dos nossos próprios comportamentos.

Alistair Pike, da Universidade de Southampton, que co-dirigiu o estudo, diz o seguinte: “Logo após a descoberta do primeiro fóssil no século XIX, os Neandertais foram retratados como brutais e incultos, incapazes de produzir arte e de ter um comportamento simbólico, e alguns aspetos desse ponto de vista persistem até hoje. A questão do comportamento “humano” dos Neandertais é um assunto muito debatido atualmente.”

A cultura material simbólica, uma coleção de conquistas culturais e intelectuais transmitidas de geração a geração, até agora foi atribuída de forma convincente apenas à nossa própria espécie, o Homo sapiens. “O surgimento da cultura material simbólica representa um limiar fundamental na evolução da humanidade. É um dos pilares do que nos torna humanos” afirma um dos autores principais Dr. Dirk Hoffman do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (MPI-EVA) na Alemanha. “Os artefactos cujo valor funcional não é medidos pela sua função, mas sim pelo seu simbolismo, são proxies para os aspectos fundamentais da cognição humana como a conhecemos ".

Os primeiros artefactos simbólicos, como as conchas com restos de pigmentos usadas como ornamento corporal, estão documentados para o Paleolítico Médio da África do Norte e Sul desde há 100.000 anos atrás, mas estão associadas aos primeiros membros da nossa própria espécie. Há evidências na Europa de arte das grutas, figuras esculpidas, ferramentas em osso decoradas e jóias feitas de osso, dentes, marfim, conchas ou pedra que remontam à "Revolução do Paleolítico Superior" após 40.000 anos atrás.
Esses artefactos, segundo os investigadores, foram criados por populações pioneiras de humanos modernos enquanto se espalham pela Europa ao chegarem de África e do Próximo Oriente.
Mesmo quando há evidências do uso de ornamentos corporais por parte dos Neandertais na forma de dentes e ossos de animais perfurados, que datam da cultura Chatelperronense do sudoeste da Europa há cerca de 40.000 a 45.000 anos atrás, muitos investigadores sugeriram que esta não era uma inovação Neandertal independente, mas que terá sido inspirada pelo contacto com os humanos modernos recém-chegados.

A arte das cavernas é um exemplo muito mais claro e convincente do comportamento simbólico. Até agora, no entanto, foi atribuída inteiramente aos humanos modernos e a reivindicação de uma possível origem Neandertal (uma linha de investigação que tem sido apoiada por um pequeno grupo de investigadores, incluindo Hipólito Collado) foi prejudicada por falta de métodos de datação precisos. As tentativas de datação das pinturas rupestres pelo radiocarbono têm sido problemáticas, por vários motivos: as amostras de radiocarbono de pigmentos são propensas à contaminação e podem fornecer estimativas falsas sobre a sua antiguidade; a remoção de amostras de carvão necessárias para este método também é visivelmente destrutiva para a arte rupestre. Além disso, muitas das pinturas são feitas com pigmentos minerais, como ocre, que não contêm material orgânico datável.

Em vez desse método, a equipa usou o método de datação por urânio-tório. O principal autor do estudo, Chris Standish, da Universidade de Southampton, diz: "Nós estamos a datar depósitos de carbonato semelhantes a pequenas estalagmites que se formaram em cima das pinturas rupestres. Estes contêm vestígios de urânio radioativo e tório, que nos dizem quando estes depósitos se formaram. Uma vez que os depósitos estão no topo, eles nos dão idades mínimas para as pinturas".

Os investigadores do Reino Unido, Alemanha, Espanha, Portugal e França analisaram mais de 60 amostras de carbonato de três grutas diferentes de Espanha: a gruta de La Pasiega, no Nordeste, a gruta de Matravieso no Oeste e a gruta de Ardales no sul de Espanha. Todos os três sítios contêm pinturas principalmente em vermelho (ocre), e ocasionalmente em preto, que mostram grupos de animais, pontos e sinais geométricos, silhuetas de mãos, impressões de dígitos e gravuras. Standish afirma: “Estes resultados das datações mostram que estas são as pinturas em gruta mais antigas de qualquer lugar em pelo menos 20 mil anos, realizadas antes da chegada dos humanos modernos à Europa. A arte das grutas deve, portanto, ter sido criada por Neandertais”. Esta primeira fase de pinturas rupestres agora conhecida, foi criada exclusivamente com pigmentos vermelhos, e compreende linhas, pontos, discos e silhuetas de mãos, todos aparentemente realizadas diretamente com as mãos. De acordo com os investigadores, a criação destas pinturas rupestres envolveu o planeamento de uma fonte de luz, a mistura de pigmentos para colorir as paredes e a escolha de uma localização adequada. “Os Neandertais estavam claramente a criar símbolos com significado em lugares com significado. Esta arte rupestre não é foi acidente nem um graffiti aleatório” afirma Paul Pettitt, da Universidade de Durham, também membro da esquipa e especialista em arte de grutas. “Nós temos exemplos de três grutas que estão a 700km de distância umas das outras e evidenciamos que esta era uma tradição de longa duração na qual os Neandertais foram os primeiros humanos a deixar marcas significativas e permanentes nas profundidades das grutas. É possível que em outras grutas da Europa Ocidental com arte rupestre semelhante e, por tanto tempo assumida como o trabalho da nossa espécie, também tenha sido criação dos Neandertais.” 
Finalmente, Hipólito Collado, membro do ITM e do Centro de Geociências, e docente convidado do IPT,  afirma: “De acordo com os resultados obtidos, o comportamento simbólico não pode ser considerado apenas e exclusivamente do Homo Sapiens. Em Maltravieso, gruta que preserva um dos melhores grupos de silhuetas de mãos da Península Ibérica, algumas destas foram datadas de há mais de 70.000 anos. Isto implica admitir que as silhuetas de mãos mais antigas do mundo foram encontradas nesta pequena gruta da província de Cáceres. Aqui, há mais de 66 mil e 700 anos atrás, os Neandertais aperceberam-se da sua própria identidade e deixaram nas paredes de Matravieso aquilo que mais nos identifica como humanos: a impressão da nossa própria mão.”

Mais informações:




quinta-feira, 14 de setembro de 2017

A propósito de Neanderthais
Um filme, uma reportagem, memórias de adolescente...

Edição de 1963, a mesma que li e reli no antigo colégio dos Jesuítas de Santarém (Editorial Verbo, Biblioteca da Juventude), traduzido do origial francês de J.H. Rosny Aîné de 1911 


Há poucos dias, procurando novidades na NETFLIX, encontrei um filme que, por vários motivos, me captou a atenção: "ICEMAN" (não confundir com mais um "super-herói", "The Iceman"...). Quer o título quer a curta sinopse (A prehistoric Neanderthal man found frozen in ice is revived by an arctic exploration team, who then attempt to use him for their own scientific means.) pareciam remeter para uma aventura ficcionada, inspirada eventualmente, no célebre "Homem de Otzi", a múmia pré-histórica congelada, descoberta há algumas décadas na fronteira alpina entre a Itália e a Àustria.

O livro sobre "O Homem no Gelo" (Otzi) do arqueólogo alemão Konrad Spindler, em catálogo publicitário de 1996 (a par de outras edições arqueológicas do mesmo ano...). Curiosamente, K.Spindler (1939-2005) que liderou as investigações sobre este caçador da Idade do Cobre (3500 aC), escavou em Portugal nos anos 70, nomeadamente a célebre sepultura da Idade do Bronze, da Roça do Cal do Meio, Sesimbra.


No entanto, conferida a ficha técnica de "ICEMAN", verifiquei que o respectivo argumento, pese embora algumas curiosas coincidências, nada devia à descoberta alpina, uma vez que esta se verificaria apenas em 1991 e o filme data de 1984. Aliás, no desenvolvimento do enredo e a quando da "descoberta de algo preso num glaciar ártico", a título comparativo e para dar alguma plausibilidade à história, os cientistas intervenientes citam as conhecidas descobertas de mamutes congelados nas tundras da Sibéria. O filme, que não recordo ter passado em Portugal, apresenta algumas caras conhecidas de Hollywood mas é nitidamente uma produção da série B, apesar de alguma preocupação com um mínimo de consistência científica, até no tratamento físico do "Neanderthal descongelado". Não saindo do "microcosmo" da estação ártica onde tudo acontece, o enredo concentra-se essencialmente nas dificuldades da "comunicação", o que tanto poderia aplicar-se a um indígena de uma tribo perdida como a um qualquer alienígena da ficção científica saída de Hollywood (ainda que neste caso todos pareçam já falar inglês...). Curiosamente, a visão do Neanderthal subjacente a "Iceman", aponta já para uma humanidade muito próxima da nossa, com pleno domínio da capacidade do raciocínio abstracto e simbólico (traz consigo vários amuletos) algo que só muito recentemente começou a ser comumente aceite pela comunidade científica. Aliás, o tema da mais que provável capacidade artística do Homem de Neanderthal está na ordem do dia e será até objecto de próximo colóquio em Itália.

Iceman_ filme de 1984

"Iceman"_ dificuldades de comunicação











































Por mero acaso, mal acabara de ver o filme, surge a interessante reportagem no Público (11 de Setembro) sobre o arqueólogo João Zilhão "Advogado dos Neanderthais", cujo Link se disponibiliza Ver aqui . Em anexo, deixamos também a transcrição da mesma reportagem divulgada pelo Alexandre Monteiro no ARCHPORT e que resolverá eventuais dificuldades de acesso ao SITE do "Público".

Sobre as recentes descobertas antropológicas das equipas de Zilhão no Almonda tive  oportunidade de me referir neste blog (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2017/04/afinal-eles-andavam-por-ai-ha-400-000.html) e já nesse texto destacava o imenso contraste verificado no território português entre a riqueza do registo arqueológico e a magreza do respectivo registo antropológico. E se tal é verdadeiro praticamente para as muitas centenas de milhares anos da Pré-história Antiga, torna-se particularmente estranho no que respeita ao imenso vazio de restos físicos dos Neanderthais. De facto, os indícios da sua presença e actividade abundam por todo o território português, mas os seus vestígios físicos directos são muito escassos e reduzem-se a alguns dentes isolados, nem sempre de classificação inequívoca. Esta situação é tanto ou mais estranha quando parece certo que a extinção deste grupo humano tão característico, e ao qual nos ligam afinal tantas afinidades genéticas e culturais, se terá verificado na Península Ibérica há cerca de 30 000 anos. Naturalmente, a descoberta do esqueleto juvenil do Lapedo no Natal de 1998, levantando a questão da hibridação com os últimos Neanderthais há cerca de 25 000 anos, ou mais recentemente, a identificação do crânio da Aroeira com 400 000 anos, podem ser as primeiras peças locais de um imenso puzzle que sabemos nunca estar completo mas cujo sentido último tem estimulado a reflexão de antropólogos e arqueólogos e povoado a imaginação de romancistas e cineastas.

O  filme que valeu um Oscar a Jean Jacques Annaud em1981

De facto e sempre que me cruzo com este tipo de ficção, vem sempre à minha memória um romance que, muito antes de sonhar com Arqueologia ou com História, me entusiasmou de forma inexplicável quando tinha doze anos. Recordo as circunstancias (a biblioteca e a sala de leitura em causa, no antigo Seminário de Santarém, todo um novo mundo para quem não conhecia livros em casa) e os detalhes do enredo, o que só se pode explicar pelo profundo impacto que a leitura d'A Guerra do Fogo (J.H.Rosny Aîné, 1911, ed. portuguesa, Verbo, 1963) terá então provocado na minha imaginação de adolescente. E ainda que muito mais tarde, quando iniciava a carreira de arqueólogo no Museu Nacional de Arqueologia (1981), não tenha perdido a conhecida e belíssima adaptação cinematográfica de Jean-Jacques Annaud, é para o romance original que ainda remetem as minhas primeiras e mais profundas emoções. A participação com Luis Raposo, José Mateus, Francisco Sande Lemos e tantos outros (como o jovem Zilhão) na descoberta em 1977 das primeiras estruturas de combustão em Vilas Ruivas (Portas do Ródão) directamente relacionáveis com grupos de caçadores do Paleolítico Médio (muito provavelmente Neanderthais), vinha afinal dar algum contexto e plausibilidade à "saga" dos buscadores do fogo que havia povoado a minha imaginação adolescente...

PS_ a exploração das potencialidades romanescas da Pré-história surge ciclicamente, ainda que sem cultores no panorama nacional (com excepção do malogrado João Aguiar que na sequencia da exploração de temas históricos mais recentes, se aventurou pelo campo da Pré-história com "Lapedo, Uma criança no Vale", 2006, pouco antes da sua morte prematura). A autora norte-americana Jean M.Auel, conheceu um extraordinário e talvez inesperado sucesso, com a publicação do "O clã do urso das cavernas" (1980) tema que não mais largará até hoje, construindo uma das grandes sagas pré-históricas da moderna literatura de aventura. A sua obra foi também explorada por Hollywood, mas sem o mesmo sucesso, apesar (ou nem por isso) da presença da loura e curvilínea Daryl Hannah no papel de Ayala, (a filha das cavernas) em demasiado contraste com os seus pais adoptivos (Neanderthais). O filme apenas passou na televisão, mas os livros conheceram várias edições portuguesas. Recordo que no MNA discutíamos, nos idos de oitenta, a qualidade e o nível das fontes de informação arqueológica usadas pela autora.









A Notícia do Publico de 11 de Setembro de 2017 (transcrição de Alexandre Monteiro)

Visita guiada às grutas da nascente do Almonda com o advogado dos neandertais

São 500 mil anos de história em 70 metros de escarpa. Várias grutas
mostram com pontas de sílex, ossos queimados e ferramentas em pedra
que quem viveu na planície do Tejo sabia onde se refugiar. O
arqueólogo João Zilhão escava-as há 30 anos e vai continuar a fazê-lo.
Há ali trabalho para mais 200.

Publico, LUCINDA CANELAS 11 de setembro de 2017

Junto à água, virado para a entrada da grande Galeria da Cisterna,
João Zilhão vai apontando para a parede rochosa que tem à sua frente
enquanto enumera outras grutas: da Lapa dos Coelhos ali bem perto à do
Pinheiro, no topo da escarpa, passando pela dos Ursos, a da Oliveira
e, claro, a da Aroeira, que se converteu na estrela deste sítio
arqueológico quando, em 2014, ali foi encontrado um crânio com 400 mil
anos, o fóssil humano mais antigo descoberto em Portugal.

Todas fazem parte de um complexo sistema subterrâneo que tem hoje mais
de 12 quilómetros de galerias reconhecidas e que no passado terá sido
usado por diversas populações que viveram na região, quando aquele
território era, também em termos geológicos, bem diferente do que é
hoje, explica este arqueólogo de 60 anos, que ali começou a trabalhar
em 1987.

“Foram precisos 30 anos para que aparecesse um fóssil humano como este
no Almonda, que é rico em [vestígios de] fauna e indústria acheulense
[utensílios bifaces de pedra do Paleolítico Inferior]. É por isso que
digo sempre que aqui temos trabalho para mais 200 anos”, diz ao
PÚBLICO João Zilhão, enquanto sobe a encosta íngreme que conduz à
Gruta da Aroeira, onde um pequeno grupo de arqueólogos formado por um
português e quatro espanhóis (alguns catalães, farão questão de
corrigir mais tarde) está a trabalhar desde as primeiras horas do dia.
No laboratório de uma povoação próxima, outros colegas limpam,
restauram e inventariam as peças que vão saindo da escavação feita
apenas com o apoio da Câmara Municipal de Torres Novas. “A formação
faz-se no campo. É muito importante que os mais novos possam
participar em projectos assim.”

Nos últimos 15 anos este arqueólogo que já deu aulas em Portugal,
França e Inglaterra e que agora está ligado à Universidade de
Barcelona concentrou a sua investigação no período de transição do
Paleolítico Médio para o Superior, o que o levou a escavar no abrigo
do Lagar Velho (Leiria), onde identificou a sepultura de uma criança
com cerca de 25 mil anos que ficaria conhecida como o Menino do Lapedo
e cujo esqueleto apresenta características comuns aos neandertais e ao
homem moderno; no sítio de Pestera cu Oase, noutro sistema de
galerias, nos montes Cárpatos (Roménia), onde foram encontrados os
vestígios mais antigos de humanos modernos na Europa; na Cueva Antón,
na região de Múrcia (Espanha), onde conchas pintadas e perfuradas
indicam, defende Zilhão, que os últimos neandertais tinham um grau de
sofisticação que até então não lhes era reconhecido.

Os trabalhos neste complexo de grutas do Almonda, afluente do Tejo, em
sucessivas campanhas de Verão em que participaram muitos portugueses e
estrangeiros ao longo das últimas três décadas, também se inscrevem
nesta linha de investigação.

João Zilhão conta que o sítio do Lagar Velho – o local da Sepultura do
Lapedo – venha a ser escavado em 2018, ano em que o Museu Nacional de
Arqueologia (MNA), em Lisboa, deverá receber uma exposição sobre
evolução humana com base no espólio recolhido em escavações em que
participou, na maioria liderando a equipa. A Aroeira estará,
naturalmente, em grande destaque, mostrando, diz António Carvalho,
director do MNA, que “em Portugal se têm feito descobertas muito
significativas no âmbito da evolução humana” e que o debate à volta
dela mudou muito.

“Quando propusemos, a partir do Lapedo, que tinha havido uma mistura
[entre neandertais e homens modernos, a nossa espécie], um cruzamento,
a polémica foi grande – o debate era ‘hereges contra a ortodoxia’. E
agora essa miscigenação é que é a ortodoxia. O Lapedo – o contexto da
ocupação humana – ainda pode trazer muita coisa. Bem financiado, é um
projecto para mais cinco ou seis anos de trabalho”, garante Zilhão.

É precisamente na Sepultura do Lapedo que termina cronologicamente o
guião da exposição em que este professor e o MNA estão a trabalhar. Os
materiais já foram escolhidos – os do Lapedo estão em depósito no
museu há anos e nunca foram mostrados em Portugal –, mas não se sabe
ainda quando é que a exposição abre nem quanto tempo fica.

“Esta é uma oportunidade muito boa para o MNA abordar um tema
importantíssimo, ainda mais interessante para nós, porque se quer
mostrar coisas que saíram de escavações em Portugal envolvidas em
investigação científica de ponta. E não tendo o museu uma exposição
permanente, esta é também uma hipótese de mostrar peças fundamentais
que estão em reserva”, diz o director do MNA.

Para Zilhão, é a maneira de cumprir mais uma etapa do processo – a
partilha do espólio que resultou dos trabalhos e do conhecimento que
ele gerou com o público, provando que uma intervenção como a que foi
feita no Lagar Velho ou no Almonda não é só “pedra e ossos”: “Aqui [no
Almonda] não se trata só de evolução humana e geologia. Uma escavação
como esta vai da física atómica à filosofia e é isso que torna as
coisas interessantes.”

Arqueólogos de fato-macaco

Foi aos 14 anos que começou a explorar as grutas labirínticas do
Almonda com o liceu. Nessa altura eram precisas cinco horas de
autocarro para ligar Lisboa, onde vivia, a Torres Novas. Zilhão e os
colegas dormiam na Galeria da Cisterna, a mesma onde acabaram por
descobrir a entrada para uma outra gruta, a da Oliveira, que guardava,
viriam a saber mais tarde, fósseis e ferramentas de neandertais
datados de há 65 mil a 35 mil anos, o que contribuiu para a teoria de
que a Península Ibérica serviu de reduto para os últimos sobreviventes
desta espécie humana extinta.

A primeira das campanhas de escavação em que esteve envolvido no
Almonda aconteceria só em 1987, com amigos da Sociedade Torrejana de
Espeleologia e Arqueologia (STEA), e dela resultaram pontas de sílex
com 25 mil anos e restos humanos com cerca de 13 mil. Só dois anos
mais tarde dariam com a entrada da Oliveira, usada no tempo dos
neandertais (Paleolítico Médio, entre 50 a 100 mil anos): “Foi em
meados de Setembro, lá pela uma da manhã. Foi incrível.” Começaram a
escavá-lo no ano seguinte e só terminaram em 2012.

Quem hoje entra nesta gruta, que a um não-espeleólogo pode parecer
relativamente exígua, e percorre os passadiços metálicos apercebe-se
dos desafios que enfrenta quem ali trabalha: “Isto é só para
arqueólogos que estão habituados a fato-macaco”, diz João Zilhão.
“Aqui na rede do Almonda é preciso ser espeleólogo primeiro e só
depois arqueólogo. E não é só uma questão de destreza ou de segurança
– trata-se de compreender o ambiente em que se está a trabalhar, de
saber como se comporta a rocha ou a que se deve determinada formação
na parede.”

Pelo meio, no final da década de 1990, entraram em escavação as grutas
da Lapa dos Coelhos e da Aroeira. Na primeira, o português Francisco
Almeida e os que com ele escavaram identificaram um depósito do
Paleolítico Superior (35 mil a dez mil anos), com sílex, restos de
animais e peças em osso, entre elas anzóis. “A Lapa é muito
interessante porque nela está documentada a pesca de rio – sável,
barbo, truta…” Na segunda, a equipa do norte-americano Anthony E.
Marks, da Universidade Metodista de Dallas, localizou bifaces
(instrumentos pré-históricos em pedra, usados para cortar) e dois
dentes humanos.

Anthony Marks escavou cinco anos na Aroeira (1997-2002), mas deixou,
na opinião de Zilhão, espaço ao desenvolvimento da investigação: “Para
mim há um princípio fundamental na arqueologia de grutas – o trabalho
só acaba quando se chega à rocha que está na base. O Anthony preferiu
terminar antes e foi por isso que, depois de lhe ter dado tempo [dez
anos] de publicar o que ele tinha a publicar [sobre a Aroeira],
resolvi voltar lá.”

Em 2013 a equipa de Zilhão chegou à rocha de base e, no ano seguinte,
e porque antes aparecera um cantinho com ossos queimados, uma prova da
existência de fogo controlado que “era das mais antigas da Europa”,
resolveu dar continuidade à escavação: “Abrimos outros dois metros
para tentar saber mais sobre o uso do fogo e foi aí que apareceu o
crânio.”

Este crânio, assegura Zilhão, tem uma datação muito precisa porque o
manto de calcite da gruta assim o determinou. Expliquemos: “A calcite
aqui da Aroeira foi datada com o método de urânio-tório, que é muito
exacto porque tem um intervalo que é, no máximo, de 20 mil anos.
Datando o manto de calcite, sabemos que o que está por baixo é mais
antigo.”

Este fóssil, que se partiu no processo de escavação, foi reconstituído
e restaurado no laboratório da Universidade Complutense de Madrid, um
processo “muito complicado” que durou dois anos e contou com a
participação de Juan Luis Arsuaga, co-director das escavações na Serra
de Atapuerca, cenário de um importante sítio arqueológico que é
património mundial e onde foram encontrados fósseis semelhantes. “A
morfologia interna de um crânio com 400 mil anos não é igual à nossa.
O seu restauro exige muitas comparações e é muito demorado.”

Fogo domesticado

O crânio da Aroeira vem juntar-se ao chamado “debate das espécies” em
que Zilhão está envolvido há anos: “Estou sempre à espera que me
perguntem a que espécie pertence isto ou aquilo. Em relação a este
crânio, a resposta é muito simples – pertence à espécie humana, que é
a única que existe. Há 400 mil anos não há senão uma espécie humana,
mas mais diversa [do que hoje]. Porquê? Porque os humanos eram muito
menos e as suas populações viviam muito mais isoladas umas das outras.
A humanidade actual é que é anormalmente homogénea em comparação com a
heterogeneidade do passado.”

Diversos e capazes de domesticar o fogo: “Este crânio, datado com
precisão, mais os ossos de animais queimados que ali tínhamos
encontrado, ajuda-nos a dizer que, há 400 mil anos, já se usava o fogo
para cozinhar ou para aquecer.”

No entanto, lembra a revista Science que, entre os que mais criticam
as teorias de Zilhão e de outros colegas que o apoiam está o
antropólogo francês Jean-Jacques Hublin, que defende que as jóias dos
neandertais (conchas pintadas há 45-50 mil anos descobertas em
Espanha, por exemplo) resultam de um fenómeno de aculturação com o
homem moderno e que são muito menos sofisticadas. Hublin é da opinião
que se trata de espécies distintas que viveram separadas durante
centenas de milhares de anos – negar isto é, para este francês, negar
a própria teoria da evolução das espécies.

Já no topo da escarpa, junto à Gruta do Pinheiro, que serviu de covil
a hienas, João Zilhão explica que quem ocupava aquele território há
400 mil anos vivia na planície do Tejo, que se vê da encosta sul. Lá
caçaria cavalos, auroques e veados, usando as grutas onde os
arqueólogos têm vindo a trabalhar como refúgio, muito provavelmente no
Verão, já que na altura se atravessava um “período de sobreaquecimento
global”.

Até à visita do PÚBLICO, a campanha arqueológica de 2017 na Gruta da
Aroeira rendera já diversas ferramentas em pedra e fragmentos de
tartaruga, cavalo, veado e macaco. “Recuperámos uma mandíbula de
macaco”, diz Montserrat Sanz, uma catalã especializada em fauna,
chamando a atenção para a singularidade do achado no que toca à
Península Ibérica, antes de se juntar a Joan Daura, outros dos colegas
arqueólogos, para conversar sobre a importância do primeiro referendo
sobre a independência da Catalunha a 1 de Outubro, qualquer que seja o
resultado: “O referendo é já uma vitória. Se o resultado for
expressivo a favor da causa independentista, mesmo que ela não vença,
há coisas que terão de mudar.”

Joan e Montserrat estão habituados a esta rede de grutas da nascente
do Almonda que, explica João Zilhão, é como um bloco de apartamentos
em que cada janela nos permite olhar para uma época diferente do
território, acompanhando os que o escolheram para viver. “Temos aqui
documentados 500 mil anos de história e só agora começámos.” Entre a
nascente do rio, na galeria cuja entrada está hoje ao nível da água
que enche a represa junto à velha fábrica de papel (a da Cisterna), e
o topo do penhasco, onde fica a Gruta do Pinheiro, são cerca de 70
metros. “À medida que vamos subindo na escarpa recuamos no tempo [no
que diz respeito aos vestígios encontrados]. O rio nunca nasceu em
cascata lá de cima – os terraços que hoje temos foram criados pelo
tempo.”

É o facto de permitir o estudo de vários períodos ao mesmo tempo que
torna este sistema de galerias singular, defende o arqueólogo
português. “É uma situação única na Europa porque são jazidas de
épocas diferentes e permitem perceber como se explorou o mesmo lugar
em função da demografia, do clima, das tecnologias usadas.”

Um peso-pesado

O sistema de grutas do Almonda ainda tem muito para contar, mas para
isso é preciso que as equipas não deixem de trabalhar no local, o que
hoje só é possível porque alguns estão com bolsas de doutoramento da
Fundação para a Ciência e a Tecnologia, porque a câmara de Torres
Novas continua a apoiar o projecto e porque a Renova, empresa que é
dona da velha fábrica junto à nascente, fornece a electricidade.

“No âmbito universitário as coisas melhoraram muito nos últimos 15
anos, mas no que toca às instituições ligadas à cultura, o
desinvestimento e a falta de objectivos claros para esta área está a
dar cabo de tudo o que já se tinha conquistado a nível científico.”

Zilhão, que esteve na origem do Parque Arqueológico do Côa, hoje
património mundial, e do entretanto extinto Instituto Português de
Arqueologia, de que foi o primeiro director, não quer falar de
políticas culturais, mas diz que Portugal tem um potencial imenso que
continua a ser explorado graças a parcerias internacionais: “No
Almonda já tivemos pessoas de 20 nacionalidades a trabalhar. Acredito
que, se formos mais para oeste, para os lados da Lapa do Coelho,
encontraremos outras grutas onde será possível recuar mais de 400 mil
anos. Se temos bons problemas para resolver, as pessoas lá fora
interessam-se por eles e vêm.”

Isso acontece no Almonda, como acontecera já no Lagar Velho, que
fomentou um intenso debate internacional e que ajudaria a fazer de
Zilhão um peso-pesado – expressão que parece francamente deslocada
quando nos confrontamos com a sua figura esguia – na discussão sobre a
inteligência dos neandertais.

Zilhão está habituado à controvérsia. As suas posições geram, por
regra, opiniões extremadas e isso parece agradar-lhe. Se lhe
perguntamos o que sentiu quando em 2013 a sequenciação do genoma de um
neandertal que viveu há 50 mil anos deixou claro que as pessoas de
hoje não originárias de África têm entre 1% e 3% de ADN desta espécie
humana que surgiu na Europa e na Ásia há uns 400 mil anos e se
extinguiu há 28 mil, sorri: “Que os dois se tinham misturado era já
muito claro. A quantificação não é importante, até porque termos hoje
entre 1 e 3 ou 4% de ADN neandertal não nos deve levar a pensar que,
há 40 mil anos, a proporção era a mesma.”

E nada de olhar para os neandertais com a ideia pré-concebida de que
seriam, de alguma forma, inferiores, adverte este arqueólogo que
começou por estudar economia: “Há uma grande proximidade biológica e
cultural entre os neandertais e os humanos modernos. Porquê? Porque só
há uma espécie que evoluiu. Não houve uma competição entre várias
espécies coexistentes em que só uma sobreviveu.”

Hoje Zilhão é conhecido, pode ler-se no seu perfil publicado pela
revista Science, como “o mais feroz advogado dos neandertais”, por
defender, contra qualquer um, que não seriam inferiores aos humanos
modernos.

“Depois de provada a mistura, a hibridização, há ainda quem diga que
todas as conquistas dos neandertais são aprendizagens, aculturações
dos humanos modernos, que eles não inventaram nada e que eram
cognitivamente inferiores. É absurdo e prova que há mesmo quem tenha
um preconceito contra eles.”

A investigação há-de continuar a encarregar-se de demonstrar que, quem
pensa assim, está simplesmente errado, conclui João Zilhão. Ele
trabalha para isso.