"Pedras-talhas": testemunhos únicos
Por razões institucionais mas não só, costumo ler com alguma atenção e interesse o resistente "Jornal de Letras", pelo que não me escapou na tradicional rubrica "Diário"do último número (1 a 14 de Abril) mais um contributo do geólogo Galopim de Carvalho, de quem sou leitor compulsivo.(Gosto do seu estilo de escrita e, sobretudo dos temas que aborda, seja como excelente divulgador científico, uma qualidade rara entre nós, seja como memorialista cultural regionalista, com quem tenho aprendido imenso sobre Évora e o Alentejo, afinal a minha terra adoptiva). Não resisto, por isso, a transcrever um pequeno trecho que ele próprio data de 22 de Março de 2015 e onde de forma extremamente lúcida, com a autoridade dos seus 84 anos, traça o retrato da mediocridade dos nossos dias: "
...Tudo isto perante a passividade de um povo "imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio", como escreveu o grande Guerra Junqueiro, há mais de um século, e sob a magistratura conivente de um Presidente da República que de há muito deixou de ser o Presidente de todos os portugueses. Mantidos incultos, muitos deles analfabetos funcionais, alienados pelo futebol e pelos programas televisivos de entretenimento que nos impõem e nos entram pela casa dentro a toda a hora e, ainda, marcados por receios antigos, são muitos os portugueses que não ousam questionar um poder que os despreza e maltrata e muitos também os que, sem saberem porquê, lhe fazem respeitosa e submissa vénia".
De facto admiro em Galopim de Carvalho, que tive o prazer de guiar há uma década e meia numa visita à Gruta do Escoural, a naturalidade, simplicidade e vivacidade com que nos consegue transmitir a sua vasta e variada sabedoria, bebida na sua meninice e juventude das Ruas de uma Évora já desaparecida, no trabalho de campo em contacto com a natureza e os homens, ou na Universidade onde se doutorou e tantos anos ensinou (ainda foi professor da minha filha).
E este,seria afinal o ponto de partida para ir ao encontro de outro texto, de Galopim de Carvalho, esse já datado de Setembro de 2013 e que descobri já depois de ter iniciado este blog "memória das Pedras Talhas". O texto em causa, publicado no blog "De Rerum Natura" intitula-se simplesmente "Pedras-talhas" e narra-nos a história da identificação nos anos 60, do Cromeleque dos Almendres pelo seu condiscípulo e colega Henrique Leonor de Pina. Ainda que esteja acessível em
http://dererummundi.blogspot.pt/2013/09/pedras-talhas.html,
não resisto a transcrevê-lo, acompanhado de um excerto de uma importante entrevista do próprio Henrique Leonor de Pina (sobre as escavações na Anta Grande do Zambujeiro) publicada no nº 1 (2007) do CENÁCULO, o boletim on-line do Museu de Évora:
http://museudevora.imc-ip.pt/pt-PT/Boletim/Cenaculo1/ContentList.aspx
Um pequeno aditamento. O que nem Galopim de Carvalho ou o próprio Leonor de Pina terão percebido, ou pelo menos não o referem, é que a quando da identificação do Cromeleque, alguns dos menires (pedras talhas) haviam já sido erguidos por trabalhadores da Herdade dos Almendres, sob a orientação do proprietário, o "velho Soares", como este era conhecido e pouco amado, nos montes vizinhos. Dos trabalhadores então incumbidos da tarefa, sobrevive ainda o Ti Bento do Monte das Pedras, cujo testemunho tive oportunidade de recolher com o meu colega Pedro Alvim, dada a importância das suas informações para a história da "re-construção" do monumento.
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| Galopim de Carvalho |
PEDRAS-TALHAS
Com mais três anos do que eu, o
Henrique Leonor Pina, aos dezassete anos, quando o conheci, a meados dos anos
40, era um jovem adulto, pleno de entusiasmo e energia, nos seus oitenta a
noventa quilos de ossos e músculos. Meu condiscípulo no Liceu Nacional André
de Gouveia, em Évora, viera de Montemor para continuar os estudos no antigo
6.º ano (actual 10.º), entrara eu no 4.º. Nesse tempo, o Latim, associado à
disciplina de Português, tinha lugar de relevo no ensino ao longo de três
anos lectivos, entre os 4.º e 6.º anos.
Foi no começo das aulas, em Outubro, que nos
conhecemos e tornámo-nos amigos. Fazíamos o mesmo percurso, por São Mamede e
Buraco dos Colegiais, a caminho do liceu, ele vindo das Portas de Alconchel,
eu dos arredores da Porta Nova. Nos meus verdes anos de adolescente, eu ainda
mantinha o ar de rapaz miúdo ao lado de um adulto que já fazia a barba. Nesse
contraste, ele via-me como aquilo mesmo que eu era e eu olhava-o como um
crescido capaz de me ensinar coisas e dar protecção. Foi nesta medida que,
numa das caminhadas matinais em demanda das aulas, ele, já então detentor de
uma cultura invulgar num jovem da sua idade, muito bom aluno em todas as
disciplinas, sabedor de tudo e mais alguma coisa, me perguntou:
- E o latim? Estás a gostar?
- Sinceramente, não. – Respondi, meio
envergonhado – A professora é uma chata e as aulas são uma seca. A partir de
então, os minutos da nossa caminhada conjunta passaram a ser as minhas
verdadeiras e mais interessantes lições de latim.
Nas aulas, ocupadas com doses maciças de
nominativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo e vocativo e um conjunto de
textos incapazes de despertar o interesse dos alunos, a língua de Virgílio
tornava-se intragável. Quase meio século depois, corria o ano de 1994,
juntámo-nos de novo em Évora.
Eu estava ali como geólogo, orientando um
grupo de alunos finalistas de Geologia, empenhados no trabalho de campo
conducente à execução da folha n.º 40-A (Évora), da Carta Geológica de
Portugal, na escala de 1:50 000, numa frutuosa colaboração da Faculdade de
Ciências de Lisboa com os Serviços Geológicos de Portugal e a Junta Distrital
de Évora.
O Henrique, como arqueólogo, dirigia um
trabalho de escavação na Anta Grande do Zambujeiro, na vizinhança da herdade
da Mitra (Valverde, freguesia de Nossa Senhora da Tourega), onde funcionava
Escola de Regentes Agrícolas. Como amador que era, o Henrique fazia as suas
campanhas arqueológicas por conta própria com o suporte da referida Junta
Distrital, que assumia o pagamento das jornas da meia dúzia de homens e
mulheres que, anos a fio, integraram o seu grupo de trabalho.
Trabalhadores rurais, inteligentes e hábeis no
terreno, eram particularmente cuidadosos e interessados no trabalho, alegres
e brejeiros no convívio, eles e elas, resistentes ao cansaço, ao sol e ao
calor do estio. Num belo dia de Agosto, um pastor, homem de meia idade,
conhecedor de tudo o que era terras em redor, passando por ali, esteve que
tempos a observar o trabalho dos camaradas na dita escavação e, de vez em
quando, a dar a sua opinião. Dirigindo-se ao Henrique, perguntou-lhe se já
tinha visto as pedras do Alto das Pedra Talhas, na Serra de Monfurado, a
poucos quilómetros dali, explicando que as ditas pedras tinham o tamanho e a
forma ovóide dos grandes recipientes de barro em que, no Alentejo, se
fermentava o mosto e guardava o vinho. Ofereceu-se para o conduzir até lá.
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Particularmente sensível à perfeita e
sugestiva descrição feita pelo pastor, o Pina aceitou, de imediato, a oferta e
lá foram no dia seguinte, a caminho do então ainda desconhecido (para a
ciência) recinto megalítico dos Almendres. Foi o deslumbramento! O sítio
arqueológico que se guindou à condição de maior conjunto de menhires da
Península Ibérica e um dos mais importantes da Europa, estava à vista de quem o
quisesse ver, na freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe, com fácil acesso a
partir da estrada nacional de Évora para para Lisboa, ao km 10. Deste monumento
restam 92 monólitos (desde pequenos blocos, pouco ou quase nada afeiçoados, a
outros maiores lembrando as ditas talhas), num estado de conservação ainda
muito bom, uns com pequenas covas centimétricas e outros decorados com
gravuras.
Numa história recente, este local foi usado como
pedreira de onde se retiraram e destruíram vários destes grandes blocos, todos
eles de granito (de várias proveniências, alguns transportados de distâncias
superiores a 2 km).
Têm sido muitos e importantes os estudos
realizados por diversos autores sobre esta relíquia neolítica, testemunho de
várias idades, ao longo dos V e IV milénios antes de Cristo, aceitando-se hoje
que “formaram dois recintos erguidos em épocas distintas, geminados e
orientados segundo as direcções equinociais”.
Galopim de Carvalho, no blog "De rerum Natura, 28 de Setembro de 2013
Henrique Leonor de Pina, excerto de entrevista publicada no CENÁCULO, nº 1, 2007, Boletim on-line do Museu de Évora