terça-feira, 30 de dezembro de 2014

A desconhecida CRIPTA ARQUEOLÓGICA do Castelo de Alcácer do Sal


Entre 1993 e 1998, sob a coordenação geral do arqueólogo António Cavaleiro Paixão, falecido neste ano de 2014, foram realizadas extensas escavações arqueológicas no Castelo de Alcácer do Sal, mais propriamente sob as ruínas do Convento de Araceli, no quadro de importantes obras de adequação/construção de uma Pousada da ENATUR (a tal empresa que o Governo estuda a possibilidade de vender...). Concluídas as escavações e inaugurada a Pousada, seguiu-se um período de vários anos de estudo, de projecto e de obra  que viriam a ter um final feliz em 2007, com a instalação de uma interessantíssima Cripta Arqueológica, sob a própria Pousada, e que nos permite uma viagem ao passado de quase 3 Milénios de História. O local, gerido pela autarquia através de Protocolo com  a DRCALEN, é infelizmente pouco conhecido mas justifica plenamente uma subida ao Castelo de Alcácer, com a aliciante da extraordinária vista sobre o Vale do Sado e a própria cidade de Alcácer. Voltaremos certamente a este tema, até porque acompanhei de perto as escavações dos anos 90, a que estiveram ligados dois grandes amigos, infelizmente já falecidos. O Cavaleiro Paixão, coordenador e o ainda jovem João Carlos Faria, o eficaz operacional de terreno.







segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Gruta do Escoural_ um novo contributo para a sua divulgação



Descoberta em 1963, a Gruta do Escoural manteve durante cerca de 2 décadas o exclusivo absoluto da representatividade da arte rupestre paleolítica no território português. No início dos anos 80, a descoberta dos cavalos magdalenenses do Mazouco, nas margens do Douro, representou o primeiro abalo nessa exclusividade, confirmado em 1994 com as fantásticas descobertas no Vale do Côa. Graças sobretudo a este último caso, houve que alterar muitos dos conceitos vigentes sobre a "arte paleolítica": esta era menos rara do que se supunha, não era apenas uma "arte da escuridão" e afinal, a sua expansão territorial acompanhara a expansão universal do Homem moderno, muito para além do núcleo franco-cantábrico onde pela primeira vez fora reconhecida no final do Século XIX (ainda que depois de acesso debate e muita polémica). Nada disto, é claro, retirou interesse e importância à pequena cavidade localizada nos arredores da pequena vila de Santiago do Escoural, entre Montemor e Évora. Queixam-se, no entanto, os potenciais interessados das dificuldades em visitar este local, afinal localizado numa região que atrai já um crescente número de turistas motivados não só pela paisagem alentejana, ou pelo património urbano de Évora, mas também pela reconhecida riqueza megalítica deste território. De facto, a visita ás grutas rupestres é sempre muito condicionada pelos factores conservacionistas, agravados neste caso pelas modestas dimensões da cavidade que impedem o acesso a grupos numerosos. Por outro lado, e como é sabido, as instituições públicas (a Gruta, felizmente, para além de Monumento Nacional, é propriedade do Estado, afecta à DRCALEN) apesar dos investimentos realizados nos últimos anos na valorização de sítios e monumentos públicos, têm cada vez mais dificuldades em resolver problemas que dependam essencialmente da contratação de pessoal. E, este é um daqueles casos cuja visita, por razões de informação, conservação e segurança ,depende em absoluto do acompanhamento de um guia.

De qualquer modo, ainda que com algumas limitações e desde que programando a visita com um mínimo de antecedência, é possível, individualmente ou em pequenos grupos, visitar a Gruta do Escoural, de 3ª a Sábado. Para isso deverá contactar-se telefonicamente o respectivo Centro de Interpretação, localizado na própria vila, de acordo com todas as indicações que pode encontrar na página da DRCALEN:

http://www.cultura-alentejo.pt/patrimonio_construido,8,lista.aspx

(Nota importante: por vezes, não é fácil conseguir logo o atendimento telefónico, pois há apenas uma guia/recepcionista que se encarrega da gestão do Centro Interpretativo e que acompanha também os visitantes à Gruta. Mas pode deixar mensagem ou insistir um pouco mais tarde...)

Caso não pense para já visitar este local, sempre poderá ter uma ideia do significado arqueológico deste local, graças ao VIDEO recentemente produzido pela equipa do MORBASE, projecto de divulgação digital do património de Montemor-o-Novo, acolhido pelo respectivo município e no qual tive oportunidade de colaborar.

Video da MORBASE sobre a Gruta do Escoural

domingo, 21 de dezembro de 2014

ROTEIRO (CULTURAL) DO NATAL

A quadra natalícia acaba por proporcionar um cruzamento raro e feliz entre património material, património imaterial e vivência cultural. De facto é a época do ano em que os coros e outras agremiações musicais mais actuam, essas actuações privilegiam normalmente espaços patrimoniais antigos, em particular as igrejas, embora ocorram também em espaços urbanos. Os programas musicais dão muitas vezes primazia aos cânticos de tradição local ou regional, valorizando o património imaterial e, finalmente, há um especial envolvimento de toda a comunidade, desde os que promovem os eventos, apoiando-os quase sempre gastronomicamente, aos que ensaiam durante largos meses para estes concertos, acabando nos que assistem, normalmente mais numerosos do que noutras épocas do ano, muitas vezes utilizando ou acorrendo a espaços construídos que noutras circunstâncias não visitariam. Em suma,o Natal não é apenas religião ou, no outro extremo, consumismo desenfreado, é também cultura, tradição, enfim património com letra grande. Aqui deixo, pois o roteiro do meu Natal 2014, começando por (ab)usar de uma foto do meu amigo Joaquim Carrapato, também em homenagem ao Cante acabadinho de ser inscrito na lista do Património da Humanidade.


 A grande Igreja de Santo Antão, talvez pela sua localização privilegiada no topo da Praça do Giraldo, é o espaço que normalmente atrai mais público aos eventos de Natal eborense (que acontecem noutros locais, como a Sé, a Igreja dos Remédios, a da Misericórdia, etc...). Este ano, mais uma vez, os Cantares de Évora aí fizeram o tradicional Canto ao Menino. Aí também acontece todos os anos o grande Concerto de Natal do Coral Évora. Mas a concorrência exterior, também se fez notar. O Coral de São Domingos de Montemor-o-Novo, no seu Canto ao Menino, versão de Évora, não esqueceu a escadaria deste importante monumento henriquino eborense.

Coral de São Domingos, Canto ao Menino à porta de Santo Antão

O Coral de São Domingos, cantando no portal gótico da Sé de Évora




O concerto de Natal do Eborae Musica, inserido no ciclo de Música no Inverno e que acontece na bonita Igreja dos Remédios, tem também já forte tradição na cidade, apesar do seu carácter um pouco mais erudito. Este ano, a par de várias peças da tradição litúrgica natalícia da Escola de Música da Sé de Évora, o coral apresentou também uma selecção de cânticos natalícios de diversos países europeus . Para além de Portugal,Espanha, Itália, Inglaterra, França, Ucrânia.

Felizmente, o roteiro do Natal não é apenas urbano. Algumas juntas de freguesia, ou as paróquias rurais, para além de eventos locais (normalmente mais por ocasião das Janeiras) também se preocupam em organizar eventos relacionados com a quadra natalícia. Há muitos anos que o Coral Évora é convidado para actuar na Igreja de São Pedro da Gafanhoeira, uma pequena aldeia do concelho de Arraiolos, sempre com casa cheia, apesar do frio. A igreja, recentemente classificada, é um templo com uma monumentalidade pouco habitual em meio rural, de uma só nave coberta por abóbada de canhão. Apesar do ar rústico-popular, não foge da tradição arquitectónica típica do Século XVI alentejano.




Um outro espaço de grande valor cultural (a Igreja Matriz do Vimieiro, Arraiolos) que acolheu um participadissimo concerto de Natal. Após uma primeira parte com grupos locais, desde as crianças à terceira idade, o EboraeMusica, com claro deleite dos participantes, apresentou uma versão mais curta do concerto de Natal de 2014. A festa terminou com uma ceia na sacristia, onde não faltaram os fritos tradicionais da época.



Mas nem sempre, as coisas correm pelo melhor. Fosse pelo frio excepcional da noite, fosse pela falta de divulgação, um concerto do Coral Évora realizado na Igreja da Misricórdia das Alcáçovas, templo que me impressionou pela belíssima decoração esgrafitada da sua abóbada, não tinha praticamente assistência. Tradicionalmente este concerto das Alcáçovas costuma acontecer na belíssima igreja matriz, actualmente em obras de recuperação, financiadas pelo QREN e que contaram com o apoio técnico da DRCALEN. Esta mudança também pode ajudar a falta de assistência.


Para acabar este roteiro de Natal (ainda sem janeiras), o Cante ao Menino, pelas ruas de Montemor (aqui junto à ermida gótica de São Sebastião) que acabaria na pequena mas interessantíssima Igreja da Misericórdia, local de ensaio habitual do grupo.
O Grupo coral de São Domingos e acompanhantes nas ruas de Montemor-o-Novo, com o Castelo iluminado em fundo.



Se o Natal é "barrôco", que melhor cenário para os cânticos tradicionais natalícios?. No caso a Igreja da Misericórdia de Montemor-o-Novo que apesar do belíssimo portal Manuelino, a denunciar uma origem mais antiga, nos revela um interior de estrutura clássica e de decoração profusamente barrôca,






sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Igreja do Salvador, Évora


Do antigo Convento do Salvador (Século XVII), subsistiram apenas, após as grandes demolições da 1ª metade do século XX, uma torre monumental (resquício da Cerca Velha da cidade), a Igreja e alguns anexos, incluindo parte do antigo claustro. Poucos eborenses, saberão hoje que o edifício dos Correios, projecto com todas as características (boas e más) da arquitectura do Estado Novo, ocupa pois o espaço de um dos (poucos) conventos demolidos da cidade. E já começa também a desvanecer-se a memória do uso dado à Torre do Salvador durante as últimas décadas do Século passado: sede regional dos extintos Monumentos Nacionais.





Quanto à Igreja, desafecta ao culto e fechada durante muitos anos, ainda paira a triste lembrança, sobretudo nas gerações com mais de quarenta anos, do seu uso como "casa funerária", função entretanto transferida para a vizinha Igreja de Santiago (do outro lado da Praça do Sertório). No que resta do antigo Convento, perdura no entanto, alguma sobreposição de responsabilidades no que respeita ao respectivo estatuto. A Igreja propriamente dita, porque afecta ao culto mesmo após a extinção do Convento, continuou na posse da Arquidiocese. Já a Torre sobrante das demolições do Convento, entretanto expropriado após a extinção daquele, é propriedade pública. Recentemente, no âmbito de oportuno Protocolo, aquelas posições sofreram uma curiosa mas feliz inversão. A Arquidiocese, na falta de espaço para o efeito, preparava-se para instalar na Nave da própria Igreja, estruturas de arquivo destinadas a receberem documentação paroquial actualmente em risco de perda, dada a sua dispersão pelo vasto território diocesano. A Direcção Regional de Cultura, herdeira das competências e dos funcionários (que restavam) dos Monumentos Nacionais, não tinha função para a Torre. A oportunidade das circunstâncias, aliada ao bom senso de ambas as partes, acabaram por determinar a solução lógica: os Arquivos passaram para as instalações devolutas, deixando a magnífica Igreja disponível para a visita pública.

A recuperação de um espaço confinante com a magnífica Praça do Serório que já havia sido "loja dos monumentos", passou a ser a "loja do património" e a servir de recepção e acesso público para um espaço monumental de grande qualidade que, naturalmente, atrai cada vez mais visitantes. Com a aliciante desse espaço, pela sua natureza e localização, se proporcionar para frequentes e diversos eventos que enriquecem a vida cultural da cidade.

Daí o convite para a visita à pequena mas interessantíssima exposição recentemente inaugurada e cujo tema não podia ser mais apropriado: "PRESÉPIOS DOS CONVENTOS DO ALENTEJO".




quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Fernando Rodrigues Ferreira

Monografia de F.E. Rodrigues Ferreira, sobre os seus trabalhos no Alqueva e que serviram de tema para a defesa da sua Tese de Doutoramento, na Universidade de Salamanca.


Acabo de saber pelo ARCHPORT que faleceu o arqueólogo Fernando Rodrigues Ferreira. Não serei a pessoa mais indicada para recordar este colega que mal conhecia até à sua participação entre 1998 e 2000 no Projecto do Alqueva, onde assumiu com uma pequena mas eficaz equipa, os trabalhos de campo de um dos blocos de arqueologia medieval-moderna (Bloco 13: Alandroal e Reguengos). O meu papel de coordenador geral dos trabalhos arqueológicos no Guadiana, aproximaram-nos nesses dias tão intensos, criando laços que nem as diferenças de opinião ou as características de personalidade de cada um, punham em causa. Nos últimos tempos retomámos algum contacto, nem sempre fácil, por telefone ou email, por via da preparação da publicação da monografia resultante desses trabalhos, há poucos dias apresentada no MNA com a restante colecção (Memórias d’Odiana 2) mas que estava editada desde Abril.

Para estas memórias das Pedras Talhas, fica o relato do episódio já muito distante, em que conheci o Fernando Ferreira. Estávamos no início dos anos 80, e o recém criado IPPC através do respectivo Departamento de Arqueologia, tentava disciplinar e enquadrar a actividade arqueológica no país, então uma actividade essencialmente "amadora". Notícias na imprensa sobre escavações em São Vicente de Fora, de Lisboa de que não havia qualquer registo oficial no Instituto, determinaram a pedido da Directora Geral, Natália Correia Guedes, a minha deslocação oficial ao conhecido convento, afecto ao serviço do Patriarcado de Lisboa. Fui recebido por um arqueólogo de que nunca tinha ouvido falar, (Fernando Ferreira, era ao tempo um bancário, licenciado em História e “apaixonado” pela Arqueologia, julgo que contemporâneo na Faculdade de Letras de Lisboa, do Victor Gonçalves e do José Arnaud) numa atitude muito formal e claramente “defensiva” e que a primeira coisa que fez, foi apresentar-me cópia de um ofício dos “Monumentos Nacionais”, já algo amarelecido pelo tempo,  no qual se “autorizavam” as escavações que já duravam há alguns anos. Esclarecida a situação e quebrado o gelo inicial, o Fernando Ferreira que vinha há muito escavando o antigo "carneiro” (ossário) existente numa cripta de São Vicente, dispôs-se então amavelmente a mostrar-me o resultado das suas descobertas, algumas bem macabras, como se pode imaginar e que haviam feito as delícias dos jornais.

Páginas da Monografia de F.E. Rodrigues Ferreira (Arqueologia Alto-Medieval no Regolfo do Alqueva) recentemente editada 
ADENDA

Com a devida vénia, transcrevo a mensagem que a propósito desta funesta notícia, o José d'Encarnação acaba de divulgar no ARCHPORT:

 Só há momentos acedi à archport e fui surpreendido pela breve notícia da morte de Rodrigues Ferreira, que não tive o gosto de conhecer pessoalmente.
         Como António Carlos refere, tive, porém, ensejo de comentar o volume publicado sob sua direcção e adiantei, na altura, como escrevi, «Aliás, poderei acrescentar que Rodrigues Ferreira perfilha a opinião – neste volume não expressa, porém – de que alguns dos grafitos presentes em rochas da região podem estar redigidos em aramaico». Resultava essa informação da correspondência que, ainda mui recentemente, travara com ele. Ainda mantenho por responder, porque desejava debruçar-me com muita atenção sobre ela, uma primeira versão do livro Inscrições pré-romanas da Almofadinha (Barrancos, Portugal), da responsabilidade da equipa que com ele trabalhou, versão que fez o favor de me enviar no passado dia 4. Da carta que a acompanhava, tomo a liberdade de transcrever as seguintes passagens, que mostram alguém conformado com a situação, mas de suma delicadeza:

Não o vou incomodar mais, mas fico-lhe muito reconhecido pelo interesse que fez o favor de manifestar, mas dir-lhe-ei o seguinte: esta matéria é muito delicada. Normalmente há duas hipóteses de actuação, ou se diz que sim, ou se nega. Porém o negar ou identificar os caracteres e as evidências com sulcos de arado também tem as suas responsabilidades, porque o sim ou o não traduzem uma postura e responsabilizam as pessoas... ou as alminhas... O melhor então é ignorar... que é o que me tem acontecido por este País à beira-mar plantado; assim ninguém se compromete!
            […]
Ainda em prova, sujeito a correcções que já fiz, mas não na versão que lhe envio, apresento-lhe, em primeira mão, o texto da publicação. Prefiro receber algumas críticas, que espero construtivas, do que “esconder” por mais tempo o que considero um feliz achado, há muito esperado, obviamente, mas que teimava em não aparecer.
            […] 
Eu deveria estar hoje no Museu Nacional de Arqueologia, onde talvez pudéssemos conversar, mas não estou mesmo virado para lançamentos, quando um dos lançados sou eu... Normalmente prefiro trabalhar na solidão do meu escritório...

         O trabalho será publicado – e ficará como testemunho de um espírito sedento de saber.
         Que descanse em paz!
                                                                                     J. d’E.


Comissão Municipal de Arte, Arqueologia  e Defesa do Património de Évora




Fazendo hoje uma rápida pesquisa na Internet sobre a expressão "Comissão Municipal de Arte e Arqueologia" (Defesa do Património é um conceito mais recente) deparamos, essencialmente, com remissões para bases de dados arquivísticas municipais. De facto, quase com excepção de Évora, estas comissões, pelo menos com aquela designação que vem já das "profundezas do Estado Novo", mas que têm raízes na 1ª República, deverão hoje ser uma raridade. Curiosamente, o município de Évora, teve o bom senso de aproveitar os aspectos positivos desta velha estrutura consultiva, renovando-a e mantendo-a em funções até hoje. Aliás, foi das poucas estruturas que, apesar de tudo, a administração de Évora do PS (2001-2013) acabou opor manter, ainda que minimizando a sua actuação... 

Não tenho elementos para defender uma qualquer tese explicativa para este fenómeno eborense, mas da minha experiência pessoal (fui membro da CMAA de Évora no final dos anos 80, em representação do Serviço Regional de Arqueologia do Sul) julgo que tal opção terá resultado essencialmente de uma estratégia deliberada da administração comunista de Abílio Fernandes, no sentido de conseguir consensos alargados que considerava indispensáveis para intervir numa cidade, socialmente conservadora, e onde a defesa do património cultural muitas vezes tende a confundir-se com imobilismo ou mesmo reaccionarismo estético. Recordo que à época, a Comissão reunia um conjunto de personalidades bastante heterogéneas, quer do ponto de vista político quer mesmo do ponto de vista cultural, o que trazia especial vivacidade e interesse aos seus trabalhos, apoiando a Câmara (ou não) nas suas decisões urbanísticas potencialmente mais polémicas. Pessoalmente, o convívio com os saudosos Mestre Túlio Espanca, Monsenhor Mendeiros (representante do conservador cabido da Sé) e arquitecto José Garret, mas também com os meus amigos Fernando Pinto ou António Pestana de Vasconcelos, (na altura directores dos Monumentos do SUl e do Museu de Évora) foram especialmente importantes para melhor me inserir no espírito desta antiga cidade, que naturalmente está longe de ser um "Museu" e que portanto precisa de estar em permanente ainda que cuidada renovação.

No momento em que, passadas mais de duas décadas, regresso à Comissão (a autarquia acaba de me convidar, a título pessoal para a integrar), transcrevo a título de curiosidade, documento que se refere as origens administrativas deste órgão consultivo que o município de Évora, tem sabido preservar, renovando-o e adaptando-o ao nosso tempo.

"O Código Administrativo de 1936, no seu artigo 97º, previa que onde existissem monumentos naturais, artísticos, históricos ou arqueológicos a conservar, defender ou valorizar, funcionaria uma Comissão Municipal de Arte e Arqueologia. Seria composta por um vereador designado pelo presidente da câmara, que presidiria à comissão, pelo director do museu da sede de concelho, onde o houvesse, por um professor oficial, nomeado pelo Ministro da Educação Nacional, por um representante das associações culturais, ou de grupos de amigos de monumentos ou museus do concelho, e por último, pelos párocos encarregues do culto em monumentos religiosos de valor reconhecido. 

Eram competências da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia:

- Dar parecer sobre a parte do plano de urbanização e expansão relativa à conservação e valorização dos monumentos artísticos, históricos, naturais e arqueológicos;

- Dar parecer sobre quaisquer projectos de construção, reintegração ou valorização de monumentos, a respeito dos quais seja consultada pela câmara ou pelo seu presidente;

- Sugerir às câmaras tudo o que entender conveniente ao embelezamento das povoações, à preservação, defesa e aproveitamento dos monumentos e da paisagem, e ao desenvolvimento do turismo;

- Colaborar com os orgãos da administração central na defesa dos interesses artísticos, progresso da cultura e educação do gosto popular, exercendo as atribuições que a lei lhe conferir."