quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Portas do Ródão

Por muitas e variadas razões, a estreita garganta formada pelo Tejo na travessia das cristas quartzíticas do Ródão, as conhecidas "Portas do Ródão", têm um lugar especial na minha imagética pessoal. Aí passei pela primeira vez algures no final dos anos 60, em viagem de grupo de jovens amigos da Amadora (no então já velho FIAT do pai do Pipa), no regresso de uma viagem à Serra da Estrela, com ida por Coimbra e volta por Castelo Branco. Regressaria poucos anos depois (1971) de comboio para participar nas primeiras campanhas de levantamento de arte rupestre do Vale do Tejo, acompanhando a restante equipa do GEPP. A partir de então, até meados dos anos 80, a viagem repetir-se-ia várias vezes ao ano, primeiro por causa da Arte Rupestre, depois pelo Paleolítico (Vilas Ruivas, Monte do Famaco, Foz do Enxarrique...). Depois foram rareando e desde que o IP2 nos desvia para jusante, atravessando o Tejo sobre a Barragem do Fratel, só mesmo de propósito retomo à visão das velhas Portas aqui representadas num desenho do Século XIX e numa foto minha da fase Enxarrique (início dos anos 80).

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Para registo aqui transcrevo a mensagem que enviei aos meus colegas da Direcção Regional de Cultura do Alentejo, no último dia como Director de Serviços dos Bens Culturais:

Caros colegas e amigos da Direcção Regional de Cultura do Alentejo

Aproveitando estas últimas horas como Director de Serviços dos Bens Culturais (serei substituido na próxima 2ª feira, dia 1 de Setembro na sequencia do concurso aberto há já algum tempo) quero endereçar a todos, sem excepções, o meu sincero agradecimento pela forma extraordinária como, apesar dos obstáculos e dificuldades de toda a ordem impostos ao longo dos últimos anos, souberam manter vivo um abnegado espírito de sacrifício e de camaradagem, não apenas em defesa do nosso serviço e dos respectivos postos de trabalho, mas sobretudo no cumprimento da nossa principal e nobre missão de serviço público que passa, antes de mais, pela defesa intransigente da herança cultural das gerações que nos precederam e a quem afinal devemos tudo o que somos.
Em tempos em que a "memória", por razões óbvias é tão desconsiderada, tenho orgulho de ter coordenado uma equipa que em condições especialmente adversas (redução de salários e de direitos, desconsideração, se não mesmo chantagem política, social e psicológica, redução drástica de meios orçamentais, criação de obstáculos administrativos artificiais) não cruzou os braços e apesar das circunstancias, conseguiu sempre apresentar resultados concretos.

É também em nome dessa "memória" que junto a esta mensagem um texto em que procuro, sem qualquer protagonismos ou referencias pessoais, mostrar o muito que afinal todos juntos, cada um à sua maneira e no seu posto, conseguimos realizar nestes últimos anos. Apenas uma referencia (sem qualquer demérito para a actual Direcção) à Profª Aurora Carapinha, que todos tivemos a sorte de ter ao nosso lado durante boa parte do perído em causa (2010-2013) e que mesmo nas situações mais negras, consegiu encontrar forças para mantermos aberta a réstia da esperança.


A todos o meu muito obrigado, e segunda-feira cá estarei convosco no meu novo posto de trabalho.

Évora, 29 de Agosto de 2014

Concerto pelo Grupo Vocal Trítono na Igreja do Convento de São Bento de Cástris (2011)

Cumpridos em Janeiro passado, 40 anos de serviço público (seis como professor de História e trinta e quatro, em vários serviços dependentes da Cultura, sempre na área do património cultural) posso considerar-me um "profissional da memória", seja lá o que isso possa hoje significar. Normalmente estaria neste momento retirado do serviço activo (ainda há pouco tempo, 36 anos seriam suficientes) mas nas actuais circunstâncias ainda terei de permanecer entre dois a três anos no posto que, por opção própria, acabo de ocupar: Técnico Superior na Direcção Regional de Cultura do Alentejo, depois de entre 1 de Março de 2011 a 31 de Agosto de 2014 (na semana passada) ocupar o respectivo lugar de Director de Serviços de Bens Culturais. Foram três anos e tal muito intensos, atravessando uma conjuntura quase dramática em termos de serviço público. Disso irei dando conta em textos e imagens que espero ir guardando neste sítio. Para já, apenas uma justificação para, ao fim de tantos anos ter finalmente aderido ao "movimento blogger". Apesar de, desde muito cedo ocupar lugares de coordenação ou de chefia, sou por  natureza muito desorganizado no que respeita a agendas, arquivos e papéis em geral (sempre tive inveja dos célebres cadernos de notas do meu colega de curso e amigo Vítor Serrão), confiando sobretudo na cabeça para estruturar ideias e preparar o trabalho. Regularmente, sentia necessidade de organizar ideias e fazer balanços e relatórios dos projectos em que me envolvia, mas raramente dava continuidade a um sistema pessoal de armazenamento das minhas memórias pessoais. Tenho ainda alguma papelada comigo mas muita coisa foi ficando sobretudo nos diferentes locais e serviços onde durante estas décadas trabalhei. E eis que de repente, liberto das funções burocráticas de direcção, dei comigo a perspectivar o que seriam estes dois anos e tal que me restam (se a saúde me deixar) antes de passar definitivamente à situação de reformado. Pareceu-me que seria importante (talvez mais para mim próprio do que para terceiros) usar um blogue como local preferencial de arquivo de lembranças, factos, documentos, enfim "memórias" do que foi esta longa viagem na minha terra que começou talvez há mais de meio século na infantil descoberta dos painéis de azulejos e embutidos do colégio jesuíta e igreja do Seminário de Santarém, para se continuar tantos e tantos sítios e ruínas depois, na contemplação das pedras talhas das margens da Ribeira de Guadalupe e de Valverde. A ver vamos, como dizia o cego, se o projecto se fica pela intenção perdendo-se mais uma vez entre as brumas das memórias ou se vai um pouco mais além, constituindo-se em repositório pessoal de lembranças de interesse mais amplo.
No Tejo, no início dos anos 70, onde fazia equipa com o Jorge Pinho Monteiro, na fotografia das gravuras rupestres do Fratel.