segunda-feira, 23 de janeiro de 2017


Do Carmo à Austrália, memórias "fotogramétricas"...



 



Há bastante tempo que não tinha oportunidade de participar nas actividades da Associação dos Arqueólogos Portugueses (passou recentemente o seu 153º aniversário) a veneranda agremiação de que sou membro há várias décadas, pelo que foi com muita satisfação que na passada 5ª feira (19 de Janeiro) assisti a uma conferência na sua belíssima sede nas ruínas do Carmo. Mais do que o tema, neste caso pesou a oportunidade de reencontro com o orador, Francisco Almeida, um amigo e colega arqueólogo com quem tive o prazer de trabalhar no projecto Alqueva ver aqui e que "imigrou" há seis anos para a Austrália, onde actualmente exerce a sua "profissão" no estado de Vitória.


Ainda que o assunto da sua intervenção seja bastante actual (vantagens para o registo arqueológico do uso das novas ferramentas informáticas que permitem transformar uma simples máquina fotográfica ou até um telemóvel, num "digitalizador 3D") julgo que o que terá cativado o razoável número de colegas que acorreu ao auditório do Carmo, terá sido o seu interessantíssimo testemunho sobre a singularidade da sua presente actividade arqueológica, sobretudo quando observada a partir da nossa muito limitada experiência ocidental e europocentrista. Como Francisco Almeida reconheceu, no trabalho de campo que executa no âmbito do registo e inventário dos vestígios materiais culturais das várias "nações aborígenes", sempre em articulação e com a indispensável colaboração dos representantes locais das próprias comunidades, as principais interessadas no seu trabalho, aprendeu mais sobre Arqueologia (ou seja sobre as relações e transformações das comunidades humanas no respectivo contexto territorial) do que em anos e anos de Faculdade e de prática arqueológica tradicional (e que no seu caso incluem até um Doutoramento nos EUA). Afinal, como está a nossa Arqueologia longe da comunidade a quem deveria servir antes de mais, seja ela feita em contexto empresarial (para "libertar" projectos e obras de entraves meramente formais....) ou académico (para justificar carreiras pessoais). Depois não compreendemos quão difícil é passar a mensagem "patrimonial" ao povo...

O Francisco Almeida, proferindo a sua conferencia no auditório da AAP, nas ruínas do Carmo.


Regressando ao tema propriamente dito da conferencia, "a nova fotogrametria digital", de destacar neste caso, o seu uso no inventário e registo expedito de estruturas localizadas em áreas remotas ou pouco acessíveis, permitindo de forma simples, prática e extremamente económica (basta uma câmara digital normal e o software adequado) obter, actualizar e comparar dados gráficos numa perspectiva de reconhecimento científico e de salvaguarda futura. Nada que não esteja, felizmente, já ao alcance da nossa arqueologia, sendo notória nos últimos tempos a sua aplicação entre nós aos mais variados domínios, sobretudo no campo da divulgação. Cito aqui em particular o caso que acompanho mais de perto, o projecto MORBASE (http://montemorbase.com ), dinamizado por jovens arqueólogos de Montemor-o-Novo, e com quem já tive a oportunidade de colaborar.

Levantamento 3D da Anta Grande da Comenda da Igreja (Montemor-o-Novo)


Naturalmente, a chamada de atenção para estas novas ferramentas tecnológicas, em plenas ruínas do Carmo e na semana em que desaparecera o Arquitecto Carlos Antero Ferreira (1932-2017), antigo presidente do IPPC (1990-1992) e um dos primeiros divulgadores da "fotogrametria"  (analógica, diriamos hoje) em Portugal, não deixou de ser motivo para algumas memórias pessoais neste domínio.
Artigo de Carlos Antero Ferreira de 1985, separata do nº4 da Revista do Instituto Geográfico e Cadastral

A primeira vez que tive oportunidade de ter uma noção do interesse e vantagens da aplicação da fotogrametria, uma metodologia quase tão antiga como a própria fotografia (na Alemanha foi fundado em 1885 um instituto estatal para a obtenção de registos fotogramétricos dos principais edifícios históricos), teve a ver com uma visita às escavações pré-históricas então em curso em Etiolles (Île-de-France), no verão de 1973. Dirigia as escavações daquele importante sítio Magdalenense, o arqueólogo Michel Brézillon, assistente de Leroi-Gourhan que conduzia na mesma altura as escavações de Pincevent, em que eu participava como estudante com outros colegas portugueses aqui. Dada a complexidade e quantidade de materiais de silex encontrados no solo de habitat paleolítico, o desenho dos sucessivos planos tornava-se particularmente moroso e complexo, pelo que se recorreu então à estéreo-fotogrametria, para o respectivo "registo gráfico". De referir que, apesar da complexidade dos equipamentos (as máquinas fotográficas eram especiais para o efeito) e das exigências metodológicas (os fotogramas eram obtidos a partir de pontos previamente cotados, de modo a articular entre si os múltiplos pares estereoscópicos), o trabalho de campo por comparação com os métodos tradicionais (desenho à escala, puro e simples, ou desenho sobre fotografia de cada plano, como era prática em Pincevent) era bastante mais rápido e eficaz. O problema residia, a posteriori, na chamada "restituição", ou seja, na passagem a desenho dos planos fotografados. Para além da grande complexidade dos equipamentos necessários ("ploters" especiais), o trabalho de restituição era uma actividade muito especializada e morosa, tornando a fotogrametria muito cara. No caso de Etiolles, embora mais tarde tenha tido oportunidade de ver publicados alguns planos assim obtidos, julgo que se ensaiava o método na perspectiva da sua futura aplicação a situações de "salvamento", em que a prioridade fosse a urgência da recolha dos fotogramas, ficando para um momento posterior, a sua "restituição". Aliás, foi aquela vantagem que levaria à aplicação sistemática da fotogrametria aos trabalhos da UNESCO de desmonte e reconstrução dos grandes templos egípcios ameaçados pela Barragem de Assuão, nomeadamente Abou-Simbel, nos anos 60 do século passado.


Mais tarde, já em contexto profissional, cruzar-me-ia outra vez com a "fotogrametria". No início dos anos 80, colocado no Departamento de Arqueologia do IPPC, tive conhecimento de um "mítico caixote" do Dr. Nunes de Oliveira que continha um equipamento fotográfico por ele adquirido para os "inventários" (ainda no âmbito da extinta Direcção Geral do Património Cultural, actualmente "reactivada", depois de ter sido IPPC, IPPAR, IPA, IGESPAR....) e que nunca fora utilizado. Investigado o assunto, verificámos que se tratava de um conjunto WILD C 120, um par de câmaras fotogramétricas 6x6, que se montavam sobre um braço horizontal apoiado num tripé... Apesar de algumas dificuldades e reticências (a desculpa para o seu não uso residia no facto de não se ter adquirido ainda o equipamento de restituição que custaria 10 vezes mais...) consegui requisitar o "caixote" e pô-lo à disposição do António Ventura, então responsável pela fotografia no Departamento (hoje professor de fotografia no Instituto Superior de Tomar). Com a meticulosidade que lhe é própria, o António Ventura estudou o equipamento e conseguiu mesmo algumas chapas fotográficas (em vidro, por razões técnicas, nomeadamente para evitarem as distorções provocadas pelo filme normal...) com que realizou alguns fotogramas experimentais que, no entanto, nunca terão sido "restituídos" pois seria necessário recorrer a trabalho externo, fora das capacidades orçamentais do Departamento. Percebemos então que a "fotogrametria" em Portugal, era então apenas usada por um par de empresas especializadas  (ESTEREOFOTO, ARTOP,...) e direcionada quase em exclusivo para os levantamentos topográficos e cartográficos. As imagens aéreas eram encomendadas e adquiridas à força aérea e a restituição era feita nas caríssimas "ploters" que apenas aquelas empresas possuíam. Ainda recordo ter visto uma a funcionar (ocupando toda uma sala) na sede da ESTEREOFOTO, ali para os lados da Estrada de Benfica. Quanto ao WILD C 120 do IPPC, percebemos, graças aos prospectos da empresa alemã, que se tratava de um equipamento "portátil", especialmente concebido para a polícia das auto-estradas alemãs. Montado sobre uma carrinha Volkswagen, permitiria a rápida recolha dos fotogramas de um qualquer acidente, facilitando a pronta remoção das viaturas... A restituição seria feita posteriormente em caso de necessidade.


Em cima, esquema do funcionamento do "Wild c-120". Em baixo, um modelo de "restituidor" dos anos 70.


Apesar da pouca tradição do uso destas tecnologias analógicas em Portugal no que respeita ao património, nos anos 80 fruto de alguma colaboração com a ESTEREOFOTO (a cuja fundação esteve ligado o Arquitecto Antero Ferreira), foram realizadas vários levantamentos, a título experimental, na perspectiva da salvaguarda do património cultural. Concretamente e no que respeita à Arqueologia, esta técnica seria experimentada na Anta Grande do Zambujeiro (Évora) por iniciativa dos serviços do IPPC (fornecendo-nos hoje elementos de referência importantes para aferir o grau de degradação das últimas três décadas) e no templo romano de Évora, neste caso no âmbito do projecto de investigação do DAI (Instituto Arqueológico Alemão) liderado por Thjeodor Hauschild ver aqui e cuja publicação, finalmente, se anuncia para breve.

Alçado longitudinal da Anta Grande do Zambujeiro (Èvora). Levantamento ESTEREOFOTO para o SRAZS.




















sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

HÁ 3500 ANOS EM SÃO PEDRO DO ESTORIL

Graças a uma colaboração informal que já começa a institucionalizar-se fruto da generosidade desinteressada do dinâmico editor da National Geographic portuguesa, Gonçalo Pereira fez-me chegar mais um conjunto de recortes "vintage" de interesse arqueológico, recolhidos no âmbito das suas infatigáveis pesquisas nos arquivos da imprensa portuguesa. Despertou logo a minha curiosidade a notícia sobre as escavações nas Grutas artificiais de São Pedro do Estoril, um sítio arqueológico sobranceiro à praia mas hoje apenas recordado pelos arqueólogos, uma vez que, o que restava daquelas estruturas há muito desapareceu face ao natural recuo da falésia. O recorte da revista "Mundo Gráfico" não traz data, mas depreendendo-se do teor da reportagem que as escavações estavam a decorrer há algum tempo, a publicação datará de Julho ou Agosto de 1944. Com efeito a descoberta feita por Leonel Ribeiro data do final de Abril de 44 e, de acordo com a monografia publicada vinte anos depois, as escavações envolvendo também o nome omnipresente de Afonso do Paço (na altura ainda apenas "capitão") terão decorrido entre Maio e Agosto desse mesmo ano.




Gonçalo Pereira destaca na missiva que acompanhava a oferta, o carácter anglófilo da revista, suportado por verbas inglesas, e cuja edição  fazia parte do "esforço de guerra" britânico de "informação e contra-informação" que tinha no Estoril, como é sobejamente conhecido, um dos epicentros em Portugal. Por curiosidade, refira-se que a publicação dos materiais recolhidos nos dois túmulos escavados na rocha, e que apontam de facto para a cronologia  de 3500 anos que dá título à reportagem do Mundo Gráfico ("campaniforme", o período de transição entre a Idade do Cobre e a Idade do Bronze), acabaria por ser assegurada essencialmente por Vera Leisner, a conhecida arqueóloga alemã a quem a arqueologia nacional tanto deve.

Não sabemos se Vera Leisner terá visitado as escavações de São Pedro do Estoril, embora tal seja possível, pois após a destruição do seu apartamento de Munique (consequência de um bombardeamento aliado) regressara em 1943 com seu marido à Península e concretamente a Portugal (donde estavam ausentes desde a Guerra Civil espanhola). No entanto, no âmbito da preparação daquela publicação, sabemos que revisitou a arriba de São Pedro do Estoril, graças a um conjunto de fotografias recentemente destacadas no âmbito de uma exposição fotográfica comemorativa (Blick, Mira, Olha!) organizada pela delegação de Madrid do DAI (Instituto Arqueológico Alemão). Essa exposição esteve posteriormente em Cascais e é no pequeno catálogo então preparado propositadamente, que recolhemos algumas das imagens das escavações de São Pedro do Estoril, com que ilustramos esta pequena nota de enquadramento ao artigo do Mundo Gráfico.

Capa do catálogo da exposição de Cascais, com Vera Leisner fotografando a falésia de São Pedro do Estoril



Conjunto de fotos do Arquivo da Junta de Turismo de Cascais, ilustrando as escavações de 1944 nas Grutas Artificiais de São Pedro do Estoril. (Reprodução a partir do catálogo referido)

Um apontamento final. A presença de um casal alemão durante a II Guerra Mundial (a partir de 1943) frequentemente isolado em trabalhos de campo, despertou certamente a desconfiança ou pelo menos intrigou muita gente. Até há bem pouco tempo, nomeadamente no Alentejo onde aprofundaram o reconhecimento da respectiva riqueza megalítica (como em Évora e Reguengos), era ainda possível recolher alguns testemunhos populares directos que recordavam as dúvidas e reticências levantadas, sobre o verdadeiro propósito das suas actividades... Nos próprios meios arqueológicos ter-se-ão mesmo forjado alguns "mitos urbanos", ocasionalmente ainda citados, como uma "história" que recordo dos meus tempos de estudante e que davam conta que Georg Leisner, de facto um ex militar que participara em várias campanhas alemãs, particularmente na I Guerra Mundial, seria um agente da "Abwehr", os serviços de inteligência militar alemães e que, por esse motivo, teria sido "eliminado" pelo MI5 em Lisboa, através de atropelamento no final da guerra. Ora Georg faleceu em Estugarda em 1957 com 87 anos, tendo a sua obra arqueológica, nomeadamente a publicação dos monumentais inventários megalíticos da Península Ibérica, sido continuados pela viúva (entretanto ao serviço do DAI, instalado em Madrid a partir de 1954), por sua vez falecida em 1972, por coincidência também aos 87 anos.

ADENDA_ afinal o Gonçalo Pereira teve o cuidado de me enviar a data precisa do recorte do Mundo Gráfico. Trata-se do nº91 de 15 de Julho de 1944.

2ª ADENDA (27 de Abril de 2017)
Já depois de publicado este post em Janeiro, o José d'Encarnação contactou-me, dando-me conta de como ele próprio conseguira as fotos de arquivo da Junta de Turismo de Cascais. Informou-me então que no local das antigas grutas existia um pequeno memorial aos achados dos anos 40 do século passado. Na segunda-feira passada tive oportunidade de confirmar esse facto que desconhecia. Aqui ficam as provas fotográficas:



quarta-feira, 11 de janeiro de 2017


O MEGALITISMO DE ÉVORA E O TURISMO
Dados para uma história já antiga



Não apenas o Cromeleque dos Almendres, mas o megalitismo em geral do Alentejo e em particular da região de Évora, são hoje uma realidade patrimonial adquirida pelo turismo, e não só..., apesar da continuada ausência de qualquer estratégia concertada para a sua promoção ou salvaguarda, por parte das várias tutelas teoricamente interessadas (Cultura, Turismo, Autarquias, etc...).

Graças à mais valia telúrica de toda a sua envolvente, há poucas semanas, os Almendres serviram uma vez mais de cenário para filmagens de uma grande metragem ("Aparição"), na sequencia de contactos com as entidades da tutela do património classificado e os proprietários das terrenos onde se situam. Mas, a "disponibilidade" do monumento é infelizmente  (e perigosamente) de tal ordem, que é raro o dia em que não chega ao nosso conhecimento, o uso ou mesmo abuso indiscriminado do seu espaço e da sua imagem, para os fins mais diversos. Como se pode neste momento confirmar diariamente na RTP1, com a passagem de uma série ("O Sábio") em que, não sabemos em que contexto pois ignoramos o enredo, aparecem com grande destaque os menires dos Almendres! Desconhecemos se alguma entidade pública (tutela do património) ou privada (proprietários) foi ouvida previamente para o efeito, mas temo que não, como infelizmente é recorrente.

Naturalmente este interesse particular pelo MEGALITISMO desta região não surgiu por mero acaso, de um momento para o outro. Há de facto uma história que remonta nos seus primórdios à transição do século XIX para o século XX e que tem nas suas origens o envolvimento da vetusta  Real Associação dos Arqueólogos e Architectos Portugueses, na elaboração da primeira lista de Monumentos Nacionais que acabaria por ser publicada nas vésperas da implantação da República em 1910. Colaborou nessa acção o arqueólogo e historiador eborense Gabriel Pereira, a quem se deve o levantamento "à pena", de várias antas nos arredores de Évora. A acção posterior do Grupo Pro-Évora, a mais antiga Associação de Defesa do Património do país fundada em 1919, também viria a ter um papel importante no reconhecimento e na salvaguarda de numerosas antas dos arredores de Évora, sendo ainda hoje o seu arquivo um repositório fotográfico fundamental para alguns destes monumentos. Mas quem viria perla primeira vez a chamar a atenção de forma objectiva para o potencial turístico do MEGALITISMO, seria talvez Afonso do Paço, presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses, num pequeno artigo publicado em 1963 na revista "A Cidade de Évora". De referir que nesta época o alemão Georg Leisner tinha já publicado, em português e também naquela revista eborense, um extenso inventário das cento e cinquenta antas então conhecidas ("Antas dos arredores de Évora, 1949) instrumento que desde então, tem servido de base à divulgação deste património.


Embora Afonso do Paço, generalize ao património arqueológico em geral, aquele potencial e ultrapasse até os limites do Concelho de Évora (dá nesse artigo algum destaque ao Castelo da Lousa, sítio romano de Mourão, hoje sob as águas do Alqueva), começa por abordar a excepcional mais valia turístico-cultural do megalitismo de Évora, dando como exemplo de conservação e acessibilidade a Anta do Barrocal. 

A foto da Anta do Barrocal no artigo de Afonso do Paço


No entanto, o primeiro trabalho de fundo neste campo, já numa perspectiva de "Roteiro" de apoio ao turista mais interessado, ficaria a dever-se a um médico de Reguengos de Monsaraz (José Pires Gonçalves), mais conhecido como grande estudioso e defensor da vila fortificada de Monsaraz, mas que teve também assinalável actividade como arqueólogo particularmente interessado no rico megalitismo de Reguengos (ver a propósito: http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/05/para-historia-do-cromeleque-do-xerez-o.html). O seu trabalho, um opúsculo separata de "A Cidade de Évora", foi editado em 1975, embora dando realce aos núcleos megalíticos de Évora e de Reguengos, abrangia também importantes monumentos de Montemor e de Avis. Mas a grande novidade desse "roteiro" era a chamada de atenção para a nova realidade megalítica da região que passava pela recente descoberta do megalitismo não funerário (menires e cromeleques), uma realidade que passara despercebida ou não interessara a Georg e Vera Leisner. Assim, das três dezenas e meia de monumentos identificados e localizados, mais de metade são já menires ou recintos megalíticos. Para além dos que o próprio Pires Gonçalves identificara na zona de Monsaraz (como o Xerez, Outeiro, Perdigões ou Bulhôa) aparecem também já devidamente referenciados os menires e cromeleques de Évora, reconhecidos por Leonor de Pina, nomeadamente os Cromeleques dos Almendres e da Portela de Mogos.


Mais uma vez a fotogénica Anta do Barrocal, agora no "Roteiro" de Pires Gonçalves

O "Roteiro" de Pires Gonçalves, seria a base de divulgação turística do megalitismo alentejano até praticamente ao início dos anos 90 do século passado, graças a um "desdobrável" com arranjo gráfico e desenhos originais de António Covinha, publicado pouco tempo depois pela Câmara Municipal de Évora com base no referido "roteiro" e que foi distribuído durante largos anos no posto de turismo da cidade.






No final dos anos 80, já no contexto da estreita colaboração entre a Câmara Municipal e o Serviço Regional de Arqueologia do Sul, sedeado na cidade desde 1980, inicia-se uma nova e decisiva fase de divulgação do megalitismo eborense. Uma das grandes dificuldades na valorização deste património, reside na sua dispersão no território, quase sempre em propriedade privada e por vezes com acessos difíceis. O facto da Herdade dos Almendres ter estado ocupada pelos trabalhadores durante a "Reforma Agrária", viria a facilitar não apenas as escavações e restauro dos anos 80 (promovidas pela autarquia e dirigidas por Mário Varela Gomes) mas permitiria a melhoria do acesso ao mesmo através da reconstrução de um estradão de que ainda hoje (apesar dos problemas de conservação) garante a visita ao Cromeleque. Na sequencia dessa obra que envolveu custos significativos para a Câmara, a autarquia ensaiaria então a concretização de um primeiro "circuito turístico-megalítico".Este apoiava-se num novo desdobrável (português, inglês e francês), apostando num percurso circular com início e fim em Évora. Propunha-se a visita aos Almendres, seguindo depois para a Gruta do Escoural e Anta-Capela de São Brissos (monumentos do vizinho concelho de Montemor), terminando na Anta Grande do Zambujeiro já no regresso a Évora.


Alguns detalhes do novo folheto concebido por António Covinha (1989)


A divulgação deste novo "produto" (como hoje gostam de falar os agentes turísticos) viria a ser acompanhada por alguns órgãos de comunicação. Guardo, como exemplo desse esforço, o recorte do suplemento do DN de 2 de Junho de 1991, com uma extensa reportagem sobre o megalitismo de Évora e Reguengos, provando com outros recortes similares já divulgados neste "blog", que o reconhecimento generalizado da importância deste património, não é afinal um "mero acaso", mas o fruto de um esforço longo e continuado, ainda que raramente obedecendo a uma planificação objectiva...


Parte da reportragem do DN Magazine de 2 de Junho de 1991
O salto qualitativo neste domínio, porém, sucederia em 1992 quando foi possível conjugar os meios da Câmara e da então Direcção Regional do IPPC (por extinção do SRAZS) num projecto que juntava pela primeira vez a necessária divulgação informativa com a não menos importante intervenção no terreno. Partindo da muita informação disponível, foi realizado trabalho no terreno identificando os monumentos que pelo seu estado de conservação e acessibilidade poderiam de facto ser integrados num verdadeiro roteiro megalítico. Selecionados os monumentos (duas dezenas e meia), negociados com os proprietários a criação de meios de acesso quando necessários (estabelecimento de corredores de ligação às estradas nacionais ou municipais e instalação de algumas "porteiras"), passou-se de seguida ao "plano de sinalização". O projecto partia do princípio que o turista poderia procurar descobrir os monumentos sem o apoio de terceiros e para além da informação escrita que seria disponibilizada num novo e completo roteiro (editado em português, inglês, francês e espanhol), foi implementado no terreno um plano de sinalização. Este incluia sinais de identificação ou mesmo de simples direção, através de um logotipo criado para o efeito.
O logotipo do "Roteiro megalítico de Évora", concebido por Rui Belo


Capa e contracapa da edição em português do Roteiro do Megalitismo de Évora, 1992 (também editado em inglês, francês e
espanhol) há muito esgotado. Fotos de Manuel Ribeiro. O Roteiro contou ainda com a colaboração do autor deste blog, de Rui Parreira, Miguel Lago da Silva,  Panagiotis Sarantopoulos e António Couvinha (design gráfico).
Do ponto de vista da lógica do "roteiro", eram propostos três circuitos diferenciados, todos com início e fim na cidade de Évora. O primeiro, e que de algum modo já então perceiamos ser o de maior potencial, orientava-se para Oeste e incluia sítios que viriam a tornar-se paradigmáticos como o Cromeleque dos Almendres, a Anta Grande do Zambujeiro, as Antas de Vale Rodrigo (então em estudo por Philine Kalb e Martin Hock), não esquecendo as sempre citadas Antas do Barrocal. O roteiro ignorava então o Cromeleque da Portela de Mogos, já conhecido mas sem condições de visita, e o Cromeleque de Vale Maria do Meio, ainda não identificado à época. O Roteiro propunha ainda dois percursos complementares. Um na direção da Azaruja, facilitando a visita  a vários monumentos mas com especial destaque para dois exemplares excepcionais, as Antas do Paço das Vinhas e da Herdade das Cabeças. O outro, orientado para a Torre dos Coelheiros, recuperando a memória de alguns monumentos, como as Antas do Freixo de Cima que, tal como o Paço das Vinhas, tinham sido objecto da atenção do grande arqueólogo francês Émile Cartaillac ainda no século XIX. 

Da estrutura informativa destes circuitos hoje, praticamente, já nada resta, com excepção de uma ou outra placa sinalizadora já muito enferrujada.


O que resta (ou restava, pois desconheço a data da foto) do painel sinalizador da Anta do Paço das Vinhas (foto de Miguel Palmeiro, importada do Portugal Megalítico (Facebook)


A Anta 2 de Pinheiro do Campo (S.Sebastião da Giesteira) que integrava o Circuito 1. Ainda apresenta (Março de 2017) a antiga placa informativa, muito danificada, bem como restos da "porteira" de acesso então instalada com a autorização dos proprietários. No âmbito deste projecto de circuito, a TELECOM da altura, retirou um poste telefónico que estava cravado o que resta da mamoa original.






Ecos do novo roteiro na imprensa local e nacional
Não terminou neste projecto a valorização do património megalítico eborense. Aliás, nos anos imediatos (década de 90) e já com o apoio dos fundos comunitários (Projectos LIFE) a Câmara Municipal viria a promover ou a apoiar diversas intervenções, ainda que concentradas na zona de Guadalupe-Valverde, que consolidariam este recurso patrimonial, como uma mais valia com futuro.

 Tiveram nesse início dos anos 90 particular importância e repercussão, as grandes intervenções de investigação e restauro então realizadas nos três Cromeleques de Guadalupe (Almendres, Portela de Mogos e Vale Maria do Meio) três monumentos classificados que poderiam ser a espinha dorsal de um verdadeiro "Stonehende" ou um "Carnac" nacional. Infelizmente, por razões financeiras, legais e eventualmente políticas, há muito que a autarquia de Évora deixou de ter capacidade de intervir neste património, como o fez no passado. Se os Almendres ainda conseguem transmitir alguma sensação de ordenamento, apesar da ausência de qualquer gestão do sítio, a visita à Anta Grande do Zambujeiro, verdadeira catedral do megalitismo alentejano, é cada vez mais penosa, face ao grau de degradação que a sua estrutura atingiu.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

ÉVORA 
SCHONE SLAAPSTER VAN PORTUGAL
(Évora, a Bela Adormecida de Portugal)


Conheci no distante ano de 1991 Arnold Provoost, belga de língua flamenga, arqueólogo e professor na Universidade Católica de Lovaina. Arnold Provoost esteve durante algumas semanas em Évora, coordenando os preparativos para uma exposição sobre esta cidade alentejana a ter lugar no Outono desse mesmo ano em Lovaina, no âmbito da participação portuguesa na Europália, um grande festival cultural organizado de dois em dois anos a partir de Bruxelas e sempre dedicado à divulgação do património cultural de um país convidado. Em 1991 esse país foi Portugal  e como fulcro dessa participação destacou-se pelo sucesso junto do público belga, a grande exposição, "O Triunfo do Barroco", no Palais des Beaux-Arts, em Bruxelas, posteriormente montada no CCB, em 1993.

Entretanto e já não recordo em que circunstancias ou quais as razões imediatas, Lovaina, a grande cidade universitária belga, interessou-se por Évora e pelo seu património. Da cooperação então estabelecida com a Câmara Municipal e a Universidade, e o apoio da Fundação Gulbenkian, resultou uma exposição sobre a história da cidade, com uma forte componente arqueológica (Évora. Een stad van heren en landlieden, een universiteistsstad/ Évora uma cidade de senhores e camponeses, uma cidade universitária/  Leuven, Cultureel Centrum Romaanse Poort, 22 Outubro a 22 de Dezembro de 1991). Paralelamente seria também editado um livro que Provoost, claramente apaixonado pela cidade, apelidou romanticamente "Évora, a Bela Adormecida de Portugal". Um quarto de século passado sobre este evento que surgia na sequencia de outras iniciativas internacionais promovidas pela Câmara Municipal ainda na "ressaca" do seu reconhecimento pela UNESCO em 1986 como Patimónio da Humanidade, (como os saudosos festivais "Os Povos e as Artes"), será que a "Bela Adormecida" ainda mantém intacta a inocência imaginada por Provoost?


Da minha participação de então, além do apoio à seleção dos materiais arqueológicos para a exposição, resultou também um pequeno texto feito em parceria com o Rafael Alfenim, sobre a arqueologia de Évora e do seu território e, editado em "Holandês" (!) na obra acima referida e cuja capa reproduzo (Aprendi na altura que os flamengos têm uma língua falada próxima do Holandês, mas que recorrem ao Holandês para a escrita). Com as devidas vénias e alguma curiosidade pelo efeito, aqui deixo o "facsimile" do texto em causa, traduzido por Provoost, seguido do original em português...
















Algumas das fotos que conservo da exposição de Lovaina (1991), em cuja abertura tive oportunidade de estar presente. Os mais entendidos na Arqueologia de Évora reconhecerão alguns dos materiais, como uma das lápides árabes do Museu de Évora, ou o cano de chumbo romano da Rua de Burgos.