quarta-feira, 21 de março de 2018



                     ALQUEVA, o último acto?



No quase meio século que levo de trabalho em arqueologia e património, tive oportunidade de me envolver em dezenas de projectos, um pouco por todo o território português, como aliás se reflecte nos temas e assuntos que vou abordando neste blog memorialista. Mas se há um projecto que praticamente acompanhou toda a minha carreira profissional, ele é sem dúvida o projecto arqueológico do Alqueva. Com efeito, enquanto colaborador do GEPP (a associação informal de estudantes da Faculdade de Letras de Lisboa interessados pelo Paleolítico que se envolveu nos estudos da arte rupestre do Tejo, a partir de 1971/72) tive a oportunidade, ainda como estudante, de participar na Páscoa de 1975 na que terá sido a primeira “expedição arqueológica” ao longo do Guadiana, motivada pelo previsto início (1976) das obras de construção da Barragem do Alqueva (ver aqui). Como se sabe, após a construção do túnel de desvio do Guadiana e da respectiva “ensecadeira”, as obras seriam  interrompidas (1979) mas quando pouco tempo depois o governo da AD de Sá Carneiro decide retomar os estudos para o projecto Alqueva, incluindo pela primeira vez a vertente patrimonial, eu estava já destacado no Departamento de Arqueologia do IPPC onde coordenava a ligação com os Serviços Regionais de Arqueologia, incluindo o do Sul dirigido pelo Dr. Caetano Melo Beirão. Este serviço, no seu arranque (1980) apoiar-se-ia muito na Universidade de Évora, onde um outro antigo membro do GEPP, Jorge Pinho Monteiro, iniciava então a sua (infelizmente curta) carreira de professor. Pinho Monteiro, através da Universidade promoveu contactos com o Gabinete Coordenador do Alqueva no sentido de organização de um plano de trabalhos de arqueologia preventiva (ou de “salvamento” como então se dizia) nas áreas a inundar. Naturalmente, o posterior envolvimento do Serviço Regional implicava a articulação com a Direcção do IPPC através do respectivo Departamento de Arqueologia. Os sucessivos adiamentos da retoma das obras e a perspectiva de futuro apoio financeiro da CEE, acabaram por criar as condições para a realização do primeiro estudo de impacte ambiental realizado em Portugal, mesmo antes de haver legislação de enquadramento  (meados dos anos 80). Graças aos antecedentes, em particular os decorrentes do envolvimento da Universidade de Évora e Serviço Regional de Arqueologia do Sul, este primeiro estudo (consórcio EGF/DRENA) acabaria por ter uma componente arqueológica muito forte. Apesar do enquadramento privado dos estudos, assegurado através da contratação da experiente dupla de arqueólogos Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares (responsáveis pela arqueologia no Gabinete da Área de Sines- ver: também aqui), os serviços de arqueologia, a nível regional e central, acompanhariam muito de perto este projecto. Naturalmente, com a minha mudança para Évora em 1988, o dossier “Alqueva” que já conhecia bem, passou a ser uma prioridade pessoal e institucional. Mais uma vez, porém, os avanços e recuos no empreendimento, acabariam por se reflectir na vertente arqueológica. Apesar das promessas de financiamento que nos levaram a criar uma “estrutura” específica para este projecto, para cuja direcção desafiei o meu colega do Serviço Regional de Arqueologia do Norte, Orlando Sousa, os trabalhos de campo não passaram então de reconhecimentos exploratórios (1989-1990). Quando em 1994/95, já em tempos de governo de Cavaco Silva, se tomam finalmente as decisões há muito esperadas, eu seria, no âmbito da Secretaria de Estado da Cultura, o técnico que reunia maior informação sobre o dossier “Alqueva”. Certamente por essa razão, uma vez constituída a empresa pública EDIA, a administração, presidida por Adérito Serrão e incluindo Joaquim Marques Ferreira como responsável pelo Ambiente, viria a convidar-me para me ocupar da vertente Arqueológica do projecto.

O primeiro das duas dezenas de volumes de arqueologia editados no âmbito do Alqueva e no qual descrevo os antecedentes e primeiros passos do respectivo projecto arqueológico.
Por consequência, de Maio de 1996 a Março de 2002 (coincidindo com o fecho das comportas da Barragem), a partir de Mourão, coordenei os trabalhos realizados na área a inundar ou a afectar pela construção de todas as infra-estruturas associadas, a começar pelo processo de reinstalação da Aldeia da Luz, certamente a componente mais mediática de todo um programa que esteve sempre sob o escrutínio da comunicação social.

Escritório de Mourão de onde coordenei os trabalhos de Arqueologia do Alqueva entre 1996 e 2002
Apesar do meu desvinculamento da EDIA em 2002 e do regresso ao então IPPAR (depois IGESPAR e finalmente Direcção Regional de Cultura do Alentejo) a ligação ao projecto do Alqueva manter-se-ia. De 2002 a 2007, prestando serviços de consultadoria e promovendo com Luis Berrocal-Rangel, as escavações no Castro dos Ratinhos, junto à Barragem do Alqueva, no contexto de um programa, hoje adormecido, de valorização da respectiva envolvente. Nos anos seguintes, essa ligação, seria enquadrada institucionalmente, através de um protocolo celebrado entre a EDIA e a DRCA, com o qual se criaram as condições par se concretizar um dos principais objectivos do Plano Arqueológico do Alqueva, ou seja a publicação das monografias que por fim vinham dar conteúdo prático aos resultados das centenas de escavações realizadas. ver texto sobre a colecção Memórias d'Odiana

Já após a concretização da verdadeira "empreitada" técnico-burocrática" que representou a publicação da 2ª série das monografias de Alqueva (edição de 14 volumes na sequencia de concurso público internacional e em plena crise da "tróica"), tive oportunidade de me envolver de novo no Verão de 2015, no contexto das boas relações institucionais DRCA/EDIA, num projecto entusiasmante mas que, infelizmente por razões contextuais (coincidência com as eleições pós-troica e duração expositiva muito curta), acabou por ter muito pouco impacto junto da comunicação social. Por essa razão passou quase despercebido frustrando o seu principal objectivo. Falo da exposição "Alqueva 20 anos de obra, 200 milénios de História" organizada no Museu Nacional de Arqueologia, que pretendia dar a conhecer a um público mais alargado, os extraordinários resultados científicos decorrentes das dezenas de projectos promovidos no contexto, neste caso não apenas da Barragem mas também do subsequente "plano de regadio". ver aqui

Por fim, o "último acto" a que me refiro neste texto, e que me acontece em plena ressaca de aposentação, decorre ainda dessa exposição do final de 2015. Ficara acordado, desde então que, pelo menos parte da exposição do MNA, seria posteriormente apresentada em Évora. Afinal, ao contrário de Beja que conheceu nos últimos anos vários apontamentos expositivos sobre a Arqueologia do Alqueva (na sede da EDIA e no núcleo museológico dos Sembranos), Évora nunca tivera essa oportunidade, pese embora a estreita relação da cidade e dos serviços nela instalados, com o projecto ALQUEVA.

Apesar de só em 2018 Évora desfrutar de uma exposição sobre Arqueologia do Alqueva, em 2001 aqui foi realizado, na Universidade, o 3º Colóquio de Arqueologia do Alqueva





Após alguns adiamentos, a oportunidade surgiria por proposta da própria EDIA, mais especificamente da sua equipa de arqueologia. Porque não trazer a Évora uma exposição entretanto preparada no Museu da Luz sobre a arqueologia do território daquela sacrificada freguesia da margem esquerda? Os contactos e preparativos para esse efeito acabariam, no entanto, por coincidir com a chegada dos meus papéis para a aposentação, mas mesmo assim seria difícil alhear-me da iniciativa assumida pelos colegas quer da EDIA quer da DRCA. Acabei, naturalmente não apenas por marcar presença na respectiva inauguração no passado dia 21 de Fevereiro mas também por aceitar o convite para fazer uma conferencia sobre a Arqueologia do Alqueva, que teve lugar no passado dia 14 de Março, no espaço da própria exposição.



A exposição sobre a Arqueologia da (aldeias) da Luz, na DRCA

Como se calcula, dada a sua importância no contexto da arqueologia preventiva, tenho frequentemente sido convidado para falar no projecto arqueológico do Alqueva, nomeadamente para alunos universitários. Mas neste caso não me pareceu interessante abordar o projecto na sua globalidade.Assim, dado o contexto em que a iniciativa ocorria, resolvi usar o exemplo do trabalho patrimonial realizado na Luz (nas suas múltiplas vertentes disciplinares) para  destacar aquilo que me pareceu verdadeiramente exemplar e comparar com as fragilidades e deficiências do projecto global do Alqueva, que apesar dos elogios, também as teve. Mas esse é um assunto que talvez mereça uma entrada especial neste blog, aproveitando (porque não) a reflexão desenvolvida nesta conferencia.

A conferencia do dia 14 de Março de 2018

sexta-feira, 2 de março de 2018

Amadora, imagens dos anos 70

Amadora, início dos anos 70 do Século XX (Venteira, Rua 5 de Outubro ?)

Há cerca de dois anos, fugindo à temática habitual do blog, dediquei um post à minha antiga escola do Bairro de Janeiro, Amadora, "Francisco Manuel de Melo", onde há 44 anos iniciei a minha longa carreira na função pública, concluída em Janeiro passado (2018) ver aqui. Recentemente, no âmbito de um processo de digitalização de slides antigos, encontrei algumas imagens que correspondem ao contexto da época em causa, início dos anos 70, e que poderão ter algum interesse. Julgo que muitas mais haverá em provas de papel nas caixas e caixinhas que ainda aguardam arrumação. Para já aqui ficam estas (com a legendagem possível)  a que outras se seguirão, se e quando houver oportunidade para tal.


Vista geral a partir do alto da Mina (antigos moinhos, hoje depósito de água)
As traseiras do Cinema LIDO. Em 2º plano Queluz

Praceta de Angola



As traseiras do antigo cinema Lido (vista do bairro de lata vizinho, antiga estrada militar, uma constante na Amadora dos anos 70)

Colégio Alexandre Herculano (hoje escola profissional Gustave Eiffel)
Vivenda "típica", dos poucos exemplares que ainda subsistiam nos anos 70

Vivenda onde actualmente se localiza a Galeria Municipal

Prédio na 5 de Outubro
Vivenda modernista na Rua 1º de Dezembro

Largo próximo do cinema e onde hoje se situa o Centro de Saúde

A antiga Escola preparatória Francisco Manuel de Melo, frente à Praça de Angola (Bairro de Janeiro) antes da conclusão do pavilhão gimno-desportivo que entretanto ainda existe no local.

Arredores da AMadora (Brandoa?) infra-estruturação de bairro clandestino

Arredores da Amadora (?) obras clandestinas...

O Liceu da Amadora na Rua Alexandre Salles (Reboleira), no dia das eleições para a Constituinte: 25 de Abril de 1975.








sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018


Os Neanderthais nas origens da "Arte"?




Com um dia de atraso relativamente ao “El Pais”, os diários de referencia portugueses (Público e Diário de Notícias) não deixaram de dar hoje (23 de Fevereiro) o devido destaque à notícia da publicação pela Science, com direito a destaque e foto de capa, de um recente artigo em que se defende que, afinal os Neanderthais já tinham “capacidades artísticas”. A chamada da capa da revista refere-se a “Minds at work. Oldest dated cave art, pointed to Neanderthal symbolic behaviour”. O título do “El Pais” realça a antecipação cronológica das origens da arte que recuam cerca de duas dezenas de milhares de anos, mas não deixa de destacar que a essa revelação foi feita em "três grutas espanholas". Já o DN dá prioridade à circunstancia de um português (João Zilhão) coordenar a equipa responsável pela investigação. O Público, mais sóbrio, fica-se no seu destaque de capa pela descoberta de que afinal os Neanderthais já faziam arte.



Mas que significa esta “descoberta” que tal como vários arqueólogos se apressaram a comentar, apesar da sua importância e significado, não é de todo inesperada face ao que hoje se conhece sobre esta espécie humana (Homo Neanderthalensis), parcialmente nossa contemporânea mas extinta (segundo alguns), ou uma espécie que, afinal, faz parte da nossa própria linhagem ("contributiva líquida" do nosso genoma)  segundo outros?

O articulista do El Pais, com evidente exagero jornalístico, fala em "revolução", equiparando-a mesmo à futura descoberta de uma qualquer espécie alienígena inteligente… Mas, como o Luis Raposo  lembrou hoje mesmo, através do Facebook, “ Nenhum dado arqueológico nos autorizava a considerar os Neanderthais, intelectual ou evolucionariamente inferiores aos humanos modernos (...)” 

Para quem não saiba, o Luis Raposo, reputado arqueólogo e museólogo, integrava a equipa que há quase quarenta anos escavou um "acampamento Neanderthal" no Vale do Tejo (Vilas Ruivas, Vila Velha de Ródão)  a que, por coincidência, me referi há dias neste blog  ver aqui . Estas escavações, em que  João Zilhão, ainda estudante, também participou, revelaram um conjunto de estruturas complexas para abrigo e aquecimento, que sem qualquer novidade, mostravam cadeias operatórias próprias de uma capacidade cognitiva e intelectual de cariz humano. Por acaso, Vilas Ruivas, situa-se, a poucas dezenas de quilómetros da Gruta de Maltravieso (Caceres), um dos locais onde agora foram obtidas estas extraordinárias datações. Os caçadores "artistas" de Maltravieso, frequentavam certamente o Vale do Tejo...

A confirmarem-se as datações agora reveladas e esclarecidas eventuais questões de contexto (o método em causa não data directamente os pigmentos mas as camadas de calcite que servem de suporte ou que cobrem as pinturas…), é todo um novo capítulo que se abre à investigação da arte rupestre a nível mundial (mais um salto científico, equiparável ao que representou há vinte anos a descoberta do Complexo Rupestre do Côa, no que respeita aos ambientes e significados da arte rupestre paleolítica, como serenamente recordou hoje o António Martinho Baptista nos comentários a esta notícia feitos a pedido do Público.

E, já agora, talvez venha a ser necessário olhar sob esta nova perspectiva para a única cavidade portuguesa onde, até hoje, estão identificados vestígios de pintura paleolítica, a Gruta do Escoural (Montemor-o-Novo), cuja arte foi também objecto de amostragem no âmbito do projecto responsável pelas actuais revelações. Com efeito, em 2011, a equipa coordenada por João Zilhão, Alistair W. Pike e Dirk Hoffmann, procedeu à recolha de duas dezenas de amostras de calcite associadas a uma dezena motivos selecionados (pintura e gravura) nesta cavidade portuguesa. Infelizmente, por insuficiência de financiamento (o projecto que dura há uma dezena de anos, tem sido apoiado pela CE), a maioria das amostras do Escoural ainda aguarda tratamento laboratorial. 

Recolha de calcite associada a uma das pinturas da Gruta do Escoural (Janeiro de 2011)

Mas haverá alguma possibilidade de no contexto da cerca de uma centena de grafismos conhecidos nesta Gruta, haver vestígios que possam vir a ser atribuídos aos Neanderthais? Alguns dados podem vir a favorecer essa hipótese. Desde logo, junto à abertura que sempre se considerou como entrada natural da gruta (virada da Nascente, no lado oposto à fenda aberta pela exploração da pedreira em 1963, hoje utilizada pelos visitantes), foi reconhecida nas escavações luso-belgas dos anos 90, a presença de uma importante ocupação Neanderthal (instrumentos líticos e restos de fauna de grandes mamíferos) inequivocamente datada pelo Carbono 14 (cerca de 50 000 aC). Naturalmente, à luz dos dados tradicionais, nunca foi até hoje estabelecida qualquer conexão entre esta ocupação e a arte rupestre identificada no interior da cavidade. Um outro factor a ter em conta numa eventual reavaliação, decorre da própria natureza formal dos vestígios rupestres em presença. André Glory, o estudioso de Lascaux que em 1965 visitou o Escoural no âmbito de uma missão apoiada pela Fundação Gulbenkian e pelo mecenas MaximeVaultier ( ver aqui ), defendeu desde logo para os vestígios rupestres do Escoural, onde a par de alguns motivos zoomórficos naturalistas mas muito singelos, abundam os signos esquemáticos, uma cronologia muito recuada (aurignacense) nas origens do Paleolítico Superior. Tal reconhecimento valeu também na época alguns títulos hiperbólicos por parte da imprensa, como "Escoural mais antigo do que Lascaux".... Obviamente, estamos a especular pois sem o tratamento das amostras rcolhidas, não se poderão tirar conclusões. De facto até a selecção dos motivos a datar, hoje seria diferente de há sete anos atrás. Não apenas porque as perspectivas são diversas face aos dados agora divulgados mas também porque hoje, graças a novas metodologias de observação e registo, temos novas leituras dos próprios motivos. Por exemplo, pela primeira vez, decorrente do tratamento informático das imagens fotográficas, temos provas da existência de motivos digitados  no Escoural. Ora, no caso de Maltravieso (a cavidade rupestre mais próxima do Escoural, como já aqui lembrámos  ), conhecida pelos seus motivos  pintados de mãos em negativo ou positivo, foi a partir da calcite depositada sobre alguns destes motivos que se obtiveram as datas mais antigas agora divulgadas.

Uma das mãos em negativo de Maltravieso (Foto de Hopolito Collado)


Gruta do Escoural: motivo "digitado". Foto sem tratamento à esquerda. Ao centro e à direita, a mesma imagem manipulada digitalmente.
Um outro dado que nos poderá obrigar a rever as representações gráficas presentes no Escoural, decorre das conclusões dos recentes estudos analíticos realizados sobre a arte do Escoural pelo Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, nomeadamente sobre os pigmentos vermelhos e negros usados nas pinturas. A sua grande variabilidade, parece apontar para momentos cronológicos bem distintos, que já eram perceptíveis do ponto de vista formal ou estilístico. Falta agora comprovar se alguns desses vestígios poderão ser atribuídos aos caçadores Neanderthais que, ocasionalmente se instalavam junto à sua entrada, no âmbito das suas expedições de caça bem documentadas pelos restos faunísticos (cavalo e auroque em especial) aí abandonados.




ADENDA (26/2/2018)

Nota de Imprensa divulgada a este propósito

Nota de Imprensa
INSTITUTO TERRA E MEMÓRIA – INSTITUTO POLITÉCNICO DE TOMAR – CENTRO DE GEOCIENCIAS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA

A ARTE NÃO É SOMENTE OBRA DOS HOMO SAPIENS: OS NEANDERTAIS PINTAVAM GRUTAS

Novas datações realizadas em pinturas rupestres paleolíticas em três grutas em Espanha (Maltravieso - Cáceres, Extremadura -, La Pasiega - Puente Viesgo, Santander -, e Ardales – Ardales, Málaga) mostram que estas foram realizadas há mais de 66 mil anos num período de tempo em que apenas os Neandertais ocupavam a Europa.
Usando o método de datação por Urânio-Tório, uma técnica de datação de ponta, num estudo publicado na revista Science por uma equipa internacional coordenada pelo Dr. Chris Standish, Dr. Andy Milton e pelo Professor Alistair Pike da Universidade de Southampton e com o qual o ITM/CENTRO DE GEOCIÊNCIAS participou através dos seu investigador Hipólito Collado, mostrou que as pinturas das cavernas datam de mais de 20.000 anos antes da nossa espécie ter surgido na Europa.

Os resultados, publicados ontem na revista Science, são significativos porque fornecem evidências muito fortes de como os Neandertais se comportavam simbolicamente e demonstram que, nesse domínio, eles estavam muito próximos dos nossos próprios comportamentos.

Alistair Pike, da Universidade de Southampton, que co-dirigiu o estudo, diz o seguinte: “Logo após a descoberta do primeiro fóssil no século XIX, os Neandertais foram retratados como brutais e incultos, incapazes de produzir arte e de ter um comportamento simbólico, e alguns aspetos desse ponto de vista persistem até hoje. A questão do comportamento “humano” dos Neandertais é um assunto muito debatido atualmente.”

A cultura material simbólica, uma coleção de conquistas culturais e intelectuais transmitidas de geração a geração, até agora foi atribuída de forma convincente apenas à nossa própria espécie, o Homo sapiens. “O surgimento da cultura material simbólica representa um limiar fundamental na evolução da humanidade. É um dos pilares do que nos torna humanos” afirma um dos autores principais Dr. Dirk Hoffman do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva (MPI-EVA) na Alemanha. “Os artefactos cujo valor funcional não é medidos pela sua função, mas sim pelo seu simbolismo, são proxies para os aspectos fundamentais da cognição humana como a conhecemos ".

Os primeiros artefactos simbólicos, como as conchas com restos de pigmentos usadas como ornamento corporal, estão documentados para o Paleolítico Médio da África do Norte e Sul desde há 100.000 anos atrás, mas estão associadas aos primeiros membros da nossa própria espécie. Há evidências na Europa de arte das grutas, figuras esculpidas, ferramentas em osso decoradas e jóias feitas de osso, dentes, marfim, conchas ou pedra que remontam à "Revolução do Paleolítico Superior" após 40.000 anos atrás.
Esses artefactos, segundo os investigadores, foram criados por populações pioneiras de humanos modernos enquanto se espalham pela Europa ao chegarem de África e do Próximo Oriente.
Mesmo quando há evidências do uso de ornamentos corporais por parte dos Neandertais na forma de dentes e ossos de animais perfurados, que datam da cultura Chatelperronense do sudoeste da Europa há cerca de 40.000 a 45.000 anos atrás, muitos investigadores sugeriram que esta não era uma inovação Neandertal independente, mas que terá sido inspirada pelo contacto com os humanos modernos recém-chegados.

A arte das cavernas é um exemplo muito mais claro e convincente do comportamento simbólico. Até agora, no entanto, foi atribuída inteiramente aos humanos modernos e a reivindicação de uma possível origem Neandertal (uma linha de investigação que tem sido apoiada por um pequeno grupo de investigadores, incluindo Hipólito Collado) foi prejudicada por falta de métodos de datação precisos. As tentativas de datação das pinturas rupestres pelo radiocarbono têm sido problemáticas, por vários motivos: as amostras de radiocarbono de pigmentos são propensas à contaminação e podem fornecer estimativas falsas sobre a sua antiguidade; a remoção de amostras de carvão necessárias para este método também é visivelmente destrutiva para a arte rupestre. Além disso, muitas das pinturas são feitas com pigmentos minerais, como ocre, que não contêm material orgânico datável.

Em vez desse método, a equipa usou o método de datação por urânio-tório. O principal autor do estudo, Chris Standish, da Universidade de Southampton, diz: "Nós estamos a datar depósitos de carbonato semelhantes a pequenas estalagmites que se formaram em cima das pinturas rupestres. Estes contêm vestígios de urânio radioativo e tório, que nos dizem quando estes depósitos se formaram. Uma vez que os depósitos estão no topo, eles nos dão idades mínimas para as pinturas".

Os investigadores do Reino Unido, Alemanha, Espanha, Portugal e França analisaram mais de 60 amostras de carbonato de três grutas diferentes de Espanha: a gruta de La Pasiega, no Nordeste, a gruta de Matravieso no Oeste e a gruta de Ardales no sul de Espanha. Todos os três sítios contêm pinturas principalmente em vermelho (ocre), e ocasionalmente em preto, que mostram grupos de animais, pontos e sinais geométricos, silhuetas de mãos, impressões de dígitos e gravuras. Standish afirma: “Estes resultados das datações mostram que estas são as pinturas em gruta mais antigas de qualquer lugar em pelo menos 20 mil anos, realizadas antes da chegada dos humanos modernos à Europa. A arte das grutas deve, portanto, ter sido criada por Neandertais”. Esta primeira fase de pinturas rupestres agora conhecida, foi criada exclusivamente com pigmentos vermelhos, e compreende linhas, pontos, discos e silhuetas de mãos, todos aparentemente realizadas diretamente com as mãos. De acordo com os investigadores, a criação destas pinturas rupestres envolveu o planeamento de uma fonte de luz, a mistura de pigmentos para colorir as paredes e a escolha de uma localização adequada. “Os Neandertais estavam claramente a criar símbolos com significado em lugares com significado. Esta arte rupestre não é foi acidente nem um graffiti aleatório” afirma Paul Pettitt, da Universidade de Durham, também membro da esquipa e especialista em arte de grutas. “Nós temos exemplos de três grutas que estão a 700km de distância umas das outras e evidenciamos que esta era uma tradição de longa duração na qual os Neandertais foram os primeiros humanos a deixar marcas significativas e permanentes nas profundidades das grutas. É possível que em outras grutas da Europa Ocidental com arte rupestre semelhante e, por tanto tempo assumida como o trabalho da nossa espécie, também tenha sido criação dos Neandertais.” 
Finalmente, Hipólito Collado, membro do ITM e do Centro de Geociências, e docente convidado do IPT,  afirma: “De acordo com os resultados obtidos, o comportamento simbólico não pode ser considerado apenas e exclusivamente do Homo Sapiens. Em Maltravieso, gruta que preserva um dos melhores grupos de silhuetas de mãos da Península Ibérica, algumas destas foram datadas de há mais de 70.000 anos. Isto implica admitir que as silhuetas de mãos mais antigas do mundo foram encontradas nesta pequena gruta da província de Cáceres. Aqui, há mais de 66 mil e 700 anos atrás, os Neandertais aperceberam-se da sua própria identidade e deixaram nas paredes de Matravieso aquilo que mais nos identifica como humanos: a impressão da nossa própria mão.”

Mais informações:




segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


As mais antigas "estruturas de habitat" conhecidas do território português


No que respeita à comunicação e informação sobre Arqueologia, certamente reflectindo uma especial apetencia por parte do público, os "media" tendem por norma a sobrevalorizar o critério da "antiguidade". Seria pois expectável que, nessa lógica, um Museu tudo fizesse para conservar em exposição aquela que, provavelmente, ainda continua a ser a estrutura de habitat mais antiga identificada no território português, constituída pelos vestígios de duas lareiras e diversos buracos de poste associados aos restos de dois arcos de pedra, interpretados como bases de apoio de um "para vento" pré-histórico. Todo este conjunto se integrava, por sua vez, num solo pisado pelo homem do Paleolítico Médio (possivelmente do tipo Neanderthal), juncado de materiais de pedra talhada, classificados como Moustierenses. Esta classificação tipológica, entretanto confirmada por métodos de datação absoluta, aponta para uma antiguidade aproximada de 50 000 anos, o que lhe confere um cariz de extrema raridade mesmo a nível internacional. Estamos a falar, como é óbvio para a generalidade dos arqueólogos, pelo menos dos mais velhos, das "estruturas paleolíticas de Vilas Ruivas", identificadas e escavadas em 1978 e 1979, num terraço fluvial do Tejo, localizado imediatamente a jusante das Portas do Ródão, não muito longe da pequena aldeia (Vilas Ruivas) que lhe deu o nome.
As estruturas de Vilas Ruivas em primeira mão nas páginas da revista "HISTÓRIA", ed. O Jornal, Janeiro de 1980
https://www.academia.edu/35988140/Um_acampamento_do_Homem_de_Neanderthal_nas_margens_do_Tejo
O "terraço" de Vilas Ruivas, visto do Castelo do Rei Wamba, Portas do Ródão. Foto de ACS (anos 70)

Mas não é sobre o sítio arqueológico (hoje apenas um ponto numa fantástica paisagem que vale sobretudo pelo seu excepcional contexto geológico e panorâmico, pese embora o impacto dos recentes incêndios na região) que aqui queria deixar registo. Na verdade o tema proposto, visa recordar em particular a extraordinária operação logística (1980-1981) que um punhado de jovens arqueólogos (idealistas), tomaram em mãos, ao decidirem praticamente por sua conta e risco, "transpor" para Museu, a estrutura descoberta, pese embora a adversidade de todo o contexto.

À distância de quatro décadas, não consigo já ser rigoroso nos detalhes que conduziram à decisão de planear e executar a complexa operação museológica que está subjacente a este projecto. A descoberta e escavação das estruturas paleolíticas de Vilas Ruivas verifica-se entre 1978 e 1979 (em campanhas conduzidas nas férias grandes...), com o envolvimento geral da equipa do GEPP que mantivera a sua ligação ao Ródão, mesmo após o "afundamento da arte rupestre do Tejo", após a conclusão da Barragem do Fratel (1974- ver a este propósito ). Foi certamente após a campanha de 1979, na qual se revelara toda a complexidade e significado das estruturas de habitat, que a decisão de proceder à sua "musealização" (como hoje se diria) terá sido tomada. Para esse facto terá pesado a experiência adquirida por alguns de nós nas escavações de Pincevent, um acampamento de caçadores de renas (sic) paleolíticos  nas margens do Rio Sena, não muito longe de Paris, escavado por André Leroi-Gourhan no contexto de um grande projecto escola arqueológica ("chantier école"). Aí se procedia de forma quase sistemática, à moldagem das superfícies de ocupação humana postas a descoberto, com propósitos museolólgicos e científicos. Na campanha em que, como estudante estagiário, participei no Verão de 1973, para além da aprendizagem das mais evoluídas metodologias de escavação e registo (que poríamos em prática nos posteriores trabalhos do Ródão), tive a feliz oportunidade de acompanhar directamente todo o complexo processo de moldagem das estruturas expostas. De referir que este método não era para nós uma novidade absoluta. Já no salvamento da arte rupestre do Tejo, se recorrera à moldagem em "latex" da superfície decorada das rochas, metodologia que nos havia sido sugerida pelo assistente de Gourhan, Michel Brézillon, em contactos técnicos havidos em 1972 em Paris por Francisco Sande Lemos e Pinho Monteiro, entre outros. Mas, a obtenção de um molde de uma superfície praticamente plana (como eram as rochas gravadas do Tejo) estava longe dos desafios que representava a moldagem tridimensional de estruturas complexas. O assunto acabaria por me interessar de forma muito particular em Pincevent, tendo aí registado fotograficamente todas as suas fases, desde a preparação das áreas a moldar; passando pela aplicação  do latex para obtenção do "negativo"; e finalmente pela realização dos respectivos contra-moldes que uma vez invertidos sobre uma caixa de areia iriam servir de suporte à realização do positivo, o molde propriamente dito. Seguia-se a fase de acabamento (remontagem dos moldes e pintura) e de instalação museológica que, no caso, era feita emhangares anexos à própria escavação e que julgo ainda se conservarem localmente, pois o terreno havia sido adquirido pelo Estado francês. Regressado de França, prepararia ainda nesse ano de 1973, um "album técnico" com as provas fotográficas reveladas por mim num estágio informal que tive oportunidade de realizar com o fotógrafo José Pessoa, no laboratório do Instituto José de Figueiredo. Infelizmente esse "album" viria a perder-se, mas ficara o conhecimento e experiência que julgo terá sido determinante para a temerária decisão de 1979.

António Carlos Silva e João Ludgero, nas escavações de Pincevent (1973)

Moldagens em Pincevent. Aplicação directa do latex sobre a superfície a moldar. Neste caso ensaiava-se uma nova metodologia, visando a obtenção de áreas de maior dimensão. Neste caso o contra-molde recorreria a materiais resinosos, fibra de vidro e barras de alumínio, para evitar o peso do tradicional "gesso" (1973- foto de ACS)


Leroi-Gourhan, observa um molde positivo em gesso, acabado de destacar do contra-molde e antes da fase de acabamento (montagem e pintura). Foto de ACS, 1973.


André Leroi-Gourhan, (vestido de cossaco) e colaboradores num momento de descontração na campanha de 1973 em Pincevent. Foto de ACS



Aspectos das moldagens dos solos de habitat de Pincevent (imagens da NET)

Moldagem de lareira de Pincevent, exposta no Museu do Homem (Paris). Foto de ACS 1985.

O grande desafio que  há quatro décadas se nos colocava em Vilas Ruivas, era antes de mais de natureza logística. O acesso à escavação era sempre feito a pé (normalmente a partir da Fonte das Virtudes onde acampávamos e usando a linha de comboio da Beira Baixa que ali cruza em túnel a dupla crista quartzítica das Portas do Ródão). Para o transporte dos materiais pesados, contávamos com o apoio da câmara municipal de Vila Velha de Ródão e a destreza do seu motorista que por um estradão quase impossível descia com uma pequena camioneta, da aldeia mais próxima (onde terminava a "estrada"propriamente dita), até ao terraço fluvial de Vilas Ruivas, para numa primeira fase transportar todos os materiais indispensáveis: estruturas metálicas, madeiras de cofragem, bidons de latex, sacas de gesso. etc...Finalmente, naquela que terá sido a mais difícil operação no terreno, o transporte dos pesados mas frágeis contra-moldes em gesso, desde a escavação até ao Museu de Castelo Branco. Seria aliás este Museu (na época afecta ao IPPC) que, graças à visão do seu director de então (António Salvado), garantiu o apoio financeiro indispensável para a aquisição dos  materiais necessários para a concretização do projecto, todo ele executado em absoluto voluntariado, como era aliás normal na arqueologia da época.


Vilas Ruivas_ aspecto geral dos trabalhos de 1980, com a operação de moldagem em plena execução.
Sobre a metodologia de campo (obtenção dos negativos em latex e produção dos contra-moldes em gesso) ou mesmo sobre a execução dos moldes, seu acabamento e montagem museológica, não adiantaremos muito para além dos comentários às imagens com que ilustramos este post. Para quem se possa interessar mais sobre esses aspectos, aqui deixamos o link para o opúsculo  A transposição do solo de habitat de Vilas Ruivas (PDF)  da autoria conjunta de Luis Raposo e António Carlos Silva editado pelo Museu de Castelo Branco em 1981 na sequencia de todo este projecto.



Para facilitar o processo de moldadgem, optou-se por uma solução mista. Os blocos maiores seriam levantados previamente e devidamente marcados, moldando-se a respectiva base. Posteriormente seriam integrados na montagem final em museu. O conjunto da superfície a moldar foi por sua vez dividido em sectores de tamanho adequado à logística possível.

Preparação da superfície a moldar, já depois de retirados alguns dos blocos. 

Aplicação das primeiras camadas de latex, posteriormente reforçadas com tarlatana (rede têxtil).

Alguns dos "contra-moldes" de gesso em fase de secagem, ainda "in situ"

Já no Museu de Castelo Branco, montagem do puzzle de "contra-moldes" numa caixa de areia preparada para o efeito. Sobre esta superfície seriam aplicados os respectivos "negativos de latex".

Na execução do molde positivo, optou-se por produzir uma só peça. Essa opção implicou o uso de materiais diversos do tradicional gesso, nomeadamente resinas sintéticas, fibra de vidro e  espuma de poliuretano como base, um material que começava então a aparecer no mercado.

A delicada operação de inversão do molde positivo com a ajuda do pessoal do Museu, facilitada pelo recurso aos novos e mais leves materiais, 

A pintura e os retoques finais já com os calhaus originais repostos nos respectivos lugares.

A operação de moldagem e montagem das estruturas paleolíticas, passou por duas fases principais. A de campo na campanha do Verão de 1980 e a de Museu, concretizada já no início de 1981. A par da execução do molde propriamente dito, a peça central de todo o projecto, e uma vez decidida pelo director do Museu o local para a sua exposição pública, seria necessário planear o seu enquadramento museológico. Hoje seria inconcebível avançar para essa fase sem a cooperação de todo um conjunto de especialidades contratadas externamente pelo Museu. Mas neste caso, a habilidade e bom senso dos próprios arqueólogos, associada à própria mão de obra do museu seriam suficientes, seguindo o modelo, cada vez mais raro nas nossas instituições, de administração directa. E não se julgue por isso que a solução encontrada ou a sua execução fosse menos profissional, pelos parâmetros da época. Basta ler o opúsculo já citado para perceber que, ao contrário do que por vezes hoje acontece em projectos de milhões, por trás da solução museológica proposta havia o respectivo programa justificativo, cuidadosamente preparado. Aliás, não foi por acaso que o seu primeiro autor, o Luis Raposo, apesar do primado da sua formação em Arqueologia, viria posteriormente a ter uma carreira tão destacada na museologia portuguesa, sendo o actual Presidente do ICOM Europa. Naturalmente, a dimensão da estrutura e as características do espaço disponível (a Sala 1 destinada às colecções pré-históricas) acabariam por impôr uma solução quase definitiva (julgávamos nós então) o que condicionaria a utilização futura do espaço. Aceite essa circunstancia pelo Director do Museu, a exposição do solo de habitat de Vilas Ruivas, seria formalmente inaugurada em 11 de Abril de 1981. Refira-se aqui, em justificação do cumprimento de prazos tão apertados, que a fase final deste projecto coincide no tempo com uma circunstancia que acabou por ser decisiva para a sua eficácia. A realização dos trabalhos arqueológicos no Ródão em pleno Verão, não se explicava apenas por condições climatéricas (aliás pouco favoráveis nessa estação do ano) mas sobretudo pela disponibilidade da maior parte dos participantes, alguns já professores do ensino secundário (como era o meu caso e o do Luís Raposo) outros ainda estudantes. Em Outubro de 1980 (já após os trabalhos de campo de moldagem) eu e o Luís Raposo integraríamos a equipa que Francisco Alves conseguiu requisitar para o processo de renovação do Museu Nacional de Arqueologia. Essa circunstancia deu-nos a possibilidade de, pela primeira vez em quase uma década de trabalhos na arqueologia do Ródão, ali nos encontrarmos finalmente como "arqueólogos profissionais", durante as semanas do Inverno de 1981 em que preparámos e executámos toda a montagem expositiva.

Aspecto geral da solução museológica inaugurada em 11 de Abril de 1981
Fotos do dia da inauguração (11 de Abril de 1981)

Nota Final em jeito de desabafo:


Em data que desconheço mas que julgo ser bastante recuada (anos 90 do século passado?) e posterior à aposentação do Dr. António Salvado, o solo de habitat de Vilas Ruivas foi retirado do seu local de exposição e a respectiva exposição de enquadramento desmontada, certamente no âmbito de um justificado processo de "modernização" do Museu. Penso no entanto que nenhum dos arqueólogos responsáveis pela sua instalação foi ouvido ou consultado sobre o seu destino ou local de armazenamento. Pelo menos eu não tenho qualquer informação sobre o assunto. É verdade que, como já referi, apesar de integrar alguns elementos originais, esta estrutura híbrida se constituía antes de mais como um objecto museológico de interacção com o público (o que hoje é conseguido pelas aplicações informáticas 3D tão na moda...). No entanto, representava algo de muito raro se não mesmo único a nível nacional, pelo que se teria justificado um procedimento mais consentâneo com essa circunstancia.

O antes... (1981)

E o depois: a actual sala de Pré-história no Museu de Castelo Branco (foto do SITE da DGPC)

Outras entradas das "Pedras Talhas" relacionadas com este tema:


http://pedrastalhas.blogspot.pt/2014/10/o-paleolitico-do-rodao-as-portas-do.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/05/a-arqueologia-do-vale-do-tejo-na-tsf.html


ADENDA (20/2/2018)


Este post suscitou alguns comentários (através do FACEBOOK) que, pelo seu interesse para o tema, jugo ser curial aqui registar:

Francisco Sande Lemos:

 Excelente texto como é habitual e com ilustrações esclarecedoras. Após a surpresa e reflectindo com lucidez, a exclusão da moldagem da lareira de Vilas Ruivas na reorganização sem consultar os arqueólogos é normal. Também a exposição permanente do Museu de D. Diogo de Sousa foi realizada sem consultar os arqueólogos responsáveis por Bracara Augusta. Um raro testemunho da passagem dos neardentais pelo Vale do Tejo é algo demasiado pré-histórico e antigo para a "museologia oficial" portuguesa (provocação intencional....obviamente). A verdade é que o abrigo e a lareira de Vilas Ruivas são habitualmente citados na bibliografia europeia da especialidade, pois continua a ser uma das raras evidências do modo como os neardentais, organizavam os seus acampamentos. Basta consultar a net: Origins of Human Innovation and Creativityhttps://books.google.pt/books?isbn=0444538224
Scott Elias - 2012 - ‎Science

The use of different parts of the site for different functions (structured intrasite variability) also needs much better dating for effective testing in Neanderthal assemblages. It has been described for sites in Portugal (Vilas Ruivas), Spain (Abric Romanı, Roca dels Bous), France (La Folie, Abri de la Combette, Vinneuf, Pucheuil, ...

Pormenores, sem relevância maior: a estação de Vilas Ruivas foi descoberta em 1971, pelo Jorge Pinho Monteiro e por mim, tendo a sua importância apenas sido reconhecida anos mais tarde, a partir de 1976, salvo erro. Quanto à deslocação a Paris, na Primavera de 1972, cujo excelente relatório está inédito, além dos nomes citados, participaram Maria Angeles Querol, Susana Lopes e Vítor Oliveira Jorge.

Luis Raposo:

Obrigado, António Carlos, por mais este belo resumo histórico. Também lamento, e muito, a desmontagem do solo de habitat sem a minha e nossa concordância. Disseram-me que as pedras e o suporte foram guardados (desconheço em que condições). A anterior presidente da Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão, tão incomodada como eu, dispos-se logo a receber em Ródão o solo e eu dispus-me a ajudar na montagem. Foi feito estudo prévio do Museu, da autoria do arqto. Mário Benjamim, onde o solo constava e todo o programa museológico foi começado a fazer por mim, pelo António Martinho Baptista e pelos amigos de Ródão. Como depois faltou o dinheiro e mudou a Câmara, tudo ficou em espera até hoje. Mais recentemente, já com o Museu Tavares Proença sob tutela municipal (do que discordei), o vereador responsável pelo Museu contactou-me, com o Pedro Salvado, para me pedir apoio na redefinição do programa museológico, dizendo que contava com o solo. Como sempre, e lembrando aliás muito o nosso grande e inspirador amigo Dr. António Salvado e a sua mulher, A Dra. Adelaide Salvado, dispus-me a colaborar. Vamos a ver...

Pedro Miguel Salvado

O Dr. Fernando Raposo já não é o Vereador da Cultura da CMCB. A gestão técnica do Museu está entregue à chefe de divisão Drª Teresa Antunes e a politica (sic) ao assessor do Presidente Dr. Luís Correia ( que anseia colocar o Museu na sua matriz cientifica fundacional) para a área da cultura, o nosso amigo Carlos Semedo. É vontade da Sociedade de Amigos do MFTPJ, já manifestada junto da nova tutela, que o solo de habitat regresse ao Museu, reforçando e cumprindo a geografia de influência gizada pelo seu fundador e pai da arqueologia regional da Beira Baixa Francisco de Tavares Proença Júnior: Um Museu espelho do território da Estrela ao Tejo.