segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018


As mais antigas "estruturas de habitat" conhecidas do território português


No que respeita à comunicação e informação sobre Arqueologia, certamente reflectindo uma especial apetencia por parte do público, os "media" tendem por norma a sobrevalorizar o critério da "antiguidade". Seria pois expectável que, nessa lógica, um Museu tudo fizesse para conservar em exposição aquela que, provavelmente, ainda continua a ser a estrutura de habitat mais antiga identificada no território português, constituída pelos vestígios de duas lareiras e diversos buracos de poste associados aos restos de dois arcos de pedra, interpretados como bases de apoio de um "para vento" pré-histórico. Todo este conjunto se integrava, por sua vez, num solo pisado pelo homem do Paleolítico Médio (possivelmente do tipo Neanderthal), juncado de materiais de pedra talhada, classificados como Moustierenses. Esta classificação tipológica, entretanto confirmada por métodos de datação absoluta, aponta para uma antiguidade aproximada de 50 000 anos, o que lhe confere um cariz de extrema raridade mesmo a nível internacional. Estamos a falar, como é óbvio para a generalidade dos arqueólogos, pelo menos dos mais velhos, das "estruturas paleolíticas de Vilas Ruivas", identificadas e escavadas em 1978 e 1979, num terraço fluvial do Tejo, localizado imediatamente a jusante das Portas do Ródão, não muito longe da pequena aldeia (Vilas Ruivas) que lhe deu o nome.
As estruturas de Vilas Ruivas em primeira mão nas páginas da revista "HISTÓRIA", ed. O Jornal, Janeiro de 1980
https://www.academia.edu/35988140/Um_acampamento_do_Homem_de_Neanderthal_nas_margens_do_Tejo
O "terraço" de Vilas Ruivas, visto do Castelo do Rei Wamba, Portas do Ródão. Foto de ACS (anos 70)

Mas não é sobre o sítio arqueológico (hoje apenas um ponto numa fantástica paisagem que vale sobretudo pelo seu excepcional contexto geológico e panorâmico, pese embora o impacto dos recentes incêndios na região) que aqui queria deixar registo. Na verdade o tema proposto, visa recordar em particular a extraordinária operação logística (1980-1981) que um punhado de jovens arqueólogos (idealistas), tomaram em mãos, ao decidirem praticamente por sua conta e risco, "transpor" para Museu, a estrutura descoberta, pese embora a adversidade de todo o contexto.

À distância de quatro décadas, não consigo já ser rigoroso nos detalhes que conduziram à decisão de planear e executar a complexa operação museológica que está subjacente a este projecto. A descoberta e escavação das estruturas paleolíticas de Vilas Ruivas verifica-se entre 1978 e 1979 (em campanhas conduzidas nas férias grandes...), com o envolvimento geral da equipa do GEPP que mantivera a sua ligação ao Ródão, mesmo após o "afundamento da arte rupestre do Tejo", após a conclusão da Barragem do Fratel (1974- ver a este propósito ). Foi certamente após a campanha de 1979, na qual se revelara toda a complexidade e significado das estruturas de habitat, que a decisão de proceder à sua "musealização" (como hoje se diria) terá sido tomada. Para esse facto terá pesado a experiência adquirida por alguns de nós nas escavações de Pincevent, um acampamento de caçadores de renas (sic) paleolíticos  nas margens do Rio Sena, não muito longe de Paris, escavado por André Leroi-Gourhan no contexto de um grande projecto escola arqueológica ("chantier école"). Aí se procedia de forma quase sistemática, à moldagem das superfícies de ocupação humana postas a descoberto, com propósitos museolólgicos e científicos. Na campanha em que, como estudante estagiário, participei no Verão de 1973, para além da aprendizagem das mais evoluídas metodologias de escavação e registo (que poríamos em prática nos posteriores trabalhos do Ródão), tive a feliz oportunidade de acompanhar directamente todo o complexo processo de moldagem das estruturas expostas. De referir que este método não era para nós uma novidade absoluta. Já no salvamento da arte rupestre do Tejo, se recorrera à moldagem em "latex" da superfície decorada das rochas, metodologia que nos havia sido sugerida pelo assistente de Gourhan, Michel Brézillon, em contactos técnicos havidos em 1972 em Paris por Francisco Sande Lemos e Pinho Monteiro, entre outros. Mas, a obtenção de um molde de uma superfície praticamente plana (como eram as rochas gravadas do Tejo) estava longe dos desafios que representava a moldagem tridimensional de estruturas complexas. O assunto acabaria por me interessar de forma muito particular em Pincevent, tendo aí registado fotograficamente todas as suas fases, desde a preparação das áreas a moldar; passando pela aplicação  do latex para obtenção do "negativo"; e finalmente pela realização dos respectivos contra-moldes que uma vez invertidos sobre uma caixa de areia iriam servir de suporte à realização do positivo, o molde propriamente dito. Seguia-se a fase de acabamento (remontagem dos moldes e pintura) e de instalação museológica que, no caso, era feita emhangares anexos à própria escavação e que julgo ainda se conservarem localmente, pois o terreno havia sido adquirido pelo Estado francês. Regressado de França, prepararia ainda nesse ano de 1973, um "album técnico" com as provas fotográficas reveladas por mim num estágio informal que tive oportunidade de realizar com o fotógrafo José Pessoa, no laboratório do Instituto José de Figueiredo. Infelizmente esse "album" viria a perder-se, mas ficara o conhecimento e experiência que julgo terá sido determinante para a temerária decisão de 1979.

António Carlos Silva e João Ludgero, nas escavações de Pincevent (1973)

Moldagens em Pincevent. Aplicação directa do latex sobre a superfície a moldar. Neste caso ensaiava-se uma nova metodologia, visando a obtenção de áreas de maior dimensão. Neste caso o contra-molde recorreria a materiais resinosos, fibra de vidro e barras de alumínio, para evitar o peso do tradicional "gesso" (1973- foto de ACS)


Leroi-Gourhan, observa um molde positivo em gesso, acabado de destacar do contra-molde e antes da fase de acabamento (montagem e pintura). Foto de ACS, 1973.


André Leroi-Gourhan, (vestido de cossaco) e colaboradores num momento de descontração na campanha de 1973 em Pincevent. Foto de ACS



Aspectos das moldagens dos solos de habitat de Pincevent (imagens da NET)

Moldagem de lareira de Pincevent, exposta no Museu do Homem (Paris). Foto de ACS 1985.

O grande desafio que  há quatro décadas se nos colocava em Vilas Ruivas, era antes de mais de natureza logística. O acesso à escavação era sempre feito a pé (normalmente a partir da Fonte das Virtudes onde acampávamos e usando a linha de comboio da Beira Baixa que ali cruza em túnel a dupla crista quartzítica das Portas do Ródão). Para o transporte dos materiais pesados, contávamos com o apoio da câmara municipal de Vila Velha de Ródão e a destreza do seu motorista que por um estradão quase impossível descia com uma pequena camioneta, da aldeia mais próxima (onde terminava a "estrada"propriamente dita), até ao terraço fluvial de Vilas Ruivas, para numa primeira fase transportar todos os materiais indispensáveis: estruturas metálicas, madeiras de cofragem, bidons de latex, sacas de gesso. etc...Finalmente, naquela que terá sido a mais difícil operação no terreno, o transporte dos pesados mas frágeis contra-moldes em gesso, desde a escavação até ao Museu de Castelo Branco. Seria aliás este Museu (na época afecta ao IPPC) que, graças à visão do seu director de então (António Salvado), garantiu o apoio financeiro indispensável para a aquisição dos  materiais necessários para a concretização do projecto, todo ele executado em absoluto voluntariado, como era aliás normal na arqueologia da época.


Vilas Ruivas_ aspecto geral dos trabalhos de 1980, com a operação de moldagem em plena execução.
Sobre a metodologia de campo (obtenção dos negativos em latex e produção dos contra-moldes em gesso) ou mesmo sobre a execução dos moldes, seu acabamento e montagem museológica, não adiantaremos muito para além dos comentários às imagens com que ilustramos este post. Para quem se possa interessar mais sobre esses aspectos, aqui deixamos o link para o opúsculo  A transposição do solo de habitat de Vilas Ruivas (PDF)  da autoria conjunta de Luis Raposo e António Carlos Silva editado pelo Museu de Castelo Branco em 1981 na sequencia de todo este projecto.



Para facilitar o processo de moldadgem, optou-se por uma solução mista. Os blocos maiores seriam levantados previamente e devidamente marcados, moldando-se a respectiva base. Posteriormente seriam integrados na montagem final em museu. O conjunto da superfície a moldar foi por sua vez dividido em sectores de tamanho adequado à logística possível.

Preparação da superfície a moldar, já depois de retirados alguns dos blocos. 

Aplicação das primeiras camadas de latex, posteriormente reforçadas com tarlatana (rede têxtil).

Alguns dos "contra-moldes" de gesso em fase de secagem, ainda "in situ"

Já no Museu de Castelo Branco, montagem do puzzle de "contra-moldes" numa caixa de areia preparada para o efeito. Sobre esta superfície seriam aplicados os respectivos "negativos de latex".

Na execução do molde positivo, optou-se por produzir uma só peça. Essa opção implicou o uso de materiais diversos do tradicional gesso, nomeadamente resinas sintéticas, fibra de vidro e  espuma de poliuretano como base, um material que começava então a aparecer no mercado.

A delicada operação de inversão do molde positivo com a ajuda do pessoal do Museu, facilitada pelo recurso aos novos e mais leves materiais, 

A pintura e os retoques finais já com os calhaus originais repostos nos respectivos lugares.

A operação de moldagem e montagem das estruturas paleolíticas, passou por duas fases principais. A de campo na campanha do Verão de 1980 e a de Museu, concretizada já no início de 1981. A par da execução do molde propriamente dito, a peça central de todo o projecto, e uma vez decidida pelo director do Museu o local para a sua exposição pública, seria necessário planear o seu enquadramento museológico. Hoje seria inconcebível avançar para essa fase sem a cooperação de todo um conjunto de especialidades contratadas externamente pelo Museu. Mas neste caso, a habilidade e bom senso dos próprios arqueólogos, associada à própria mão de obra do museu seriam suficientes, seguindo o modelo, cada vez mais raro nas nossas instituições, de administração directa. E não se julgue por isso que a solução encontrada ou a sua execução fosse menos profissional, pelos parâmetros da época. Basta ler o opúsculo já citado para perceber que, ao contrário do que por vezes hoje acontece em projectos de milhões, por trás da solução museológica proposta havia o respectivo programa justificativo, cuidadosamente preparado. Aliás, não foi por acaso que o seu primeiro autor, o Luis Raposo, apesar do primado da sua formação em Arqueologia, viria posteriormente a ter uma carreira tão destacada na museologia portuguesa, sendo o actual Presidente do ICOM Europa. Naturalmente, a dimensão da estrutura e as características do espaço disponível (a Sala 1 destinada às colecções pré-históricas) acabariam por impôr uma solução quase definitiva (julgávamos nós então) o que condicionaria a utilização futura do espaço. Aceite essa circunstancia pelo Director do Museu, a exposição do solo de habitat de Vilas Ruivas, seria formalmente inaugurada em 11 de Abril de 1981. Refira-se aqui, em justificação do cumprimento de prazos tão apertados, que a fase final deste projecto coincide no tempo com uma circunstancia que acabou por ser decisiva para a sua eficácia. A realização dos trabalhos arqueológicos no Ródão em pleno Verão, não se explicava apenas por condições climatéricas (aliás pouco favoráveis nessa estação do ano) mas sobretudo pela disponibilidade da maior parte dos participantes, alguns já professores do ensino secundário (como era o meu caso e o do Luís Raposo) outros ainda estudantes. Em Outubro de 1980 (já após os trabalhos de campo de moldagem) eu e o Luís Raposo integraríamos a equipa que Francisco Alves conseguiu requisitar para o processo de renovação do Museu Nacional de Arqueologia. Essa circunstancia deu-nos a possibilidade de, pela primeira vez em quase uma década de trabalhos na arqueologia do Ródão, ali nos encontrarmos finalmente como "arqueólogos profissionais", durante as semanas do Inverno de 1981 em que preparámos e executámos toda a montagem expositiva.

Aspecto geral da solução museológica inaugurada em 11 de Abril de 1981
Fotos do dia da inauguração (11 de Abril de 1981)

Nota Final em jeito de desabafo:


Em data que desconheço mas que julgo ser bastante recuada (anos 90 do século passado?) e posterior à aposentação do Dr. António Salvado, o solo de habitat de Vilas Ruivas foi retirado do seu local de exposição e a respectiva exposição de enquadramento desmontada, certamente no âmbito de um justificado processo de "modernização" do Museu. Penso no entanto que nenhum dos arqueólogos responsáveis pela sua instalação foi ouvido ou consultado sobre o seu destino ou local de armazenamento. Pelo menos eu não tenho qualquer informação sobre o assunto. É verdade que, como já referi, apesar de integrar alguns elementos originais, esta estrutura híbrida se constituía antes de mais como um objecto museológico de interacção com o público (o que hoje é conseguido pelas aplicações informáticas 3D tão na moda...). No entanto, representava algo de muito raro se não mesmo único a nível nacional, pelo que se teria justificado um procedimento mais consentâneo com essa circunstancia.

O antes... (1981)

E o depois: a actual sala de Pré-história no Museu de Castelo Branco (foto do SITE da DGPC)

Outras entradas das "Pedras Talhas" relacionadas com este tema:


http://pedrastalhas.blogspot.pt/2014/10/o-paleolitico-do-rodao-as-portas-do.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/05/a-arqueologia-do-vale-do-tejo-na-tsf.html


ADENDA (20/2/2018)


Este post suscitou alguns comentários (através do FACEBOOK) que, pelo seu interesse para o tema, jugo ser curial aqui registar:

Francisco Sande Lemos:

 Excelente texto como é habitual e com ilustrações esclarecedoras. Após a surpresa e reflectindo com lucidez, a exclusão da moldagem da lareira de Vilas Ruivas na reorganização sem consultar os arqueólogos é normal. Também a exposição permanente do Museu de D. Diogo de Sousa foi realizada sem consultar os arqueólogos responsáveis por Bracara Augusta. Um raro testemunho da passagem dos neardentais pelo Vale do Tejo é algo demasiado pré-histórico e antigo para a "museologia oficial" portuguesa (provocação intencional....obviamente). A verdade é que o abrigo e a lareira de Vilas Ruivas são habitualmente citados na bibliografia europeia da especialidade, pois continua a ser uma das raras evidências do modo como os neardentais, organizavam os seus acampamentos. Basta consultar a net: Origins of Human Innovation and Creativityhttps://books.google.pt/books?isbn=0444538224
Scott Elias - 2012 - ‎Science

The use of different parts of the site for different functions (structured intrasite variability) also needs much better dating for effective testing in Neanderthal assemblages. It has been described for sites in Portugal (Vilas Ruivas), Spain (Abric Romanı, Roca dels Bous), France (La Folie, Abri de la Combette, Vinneuf, Pucheuil, ...

Pormenores, sem relevância maior: a estação de Vilas Ruivas foi descoberta em 1971, pelo Jorge Pinho Monteiro e por mim, tendo a sua importância apenas sido reconhecida anos mais tarde, a partir de 1976, salvo erro. Quanto à deslocação a Paris, na Primavera de 1972, cujo excelente relatório está inédito, além dos nomes citados, participaram Maria Angeles Querol, Susana Lopes e Vítor Oliveira Jorge.

Luis Raposo:

Obrigado, António Carlos, por mais este belo resumo histórico. Também lamento, e muito, a desmontagem do solo de habitat sem a minha e nossa concordância. Disseram-me que as pedras e o suporte foram guardados (desconheço em que condições). A anterior presidente da Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão, tão incomodada como eu, dispos-se logo a receber em Ródão o solo e eu dispus-me a ajudar na montagem. Foi feito estudo prévio do Museu, da autoria do arqto. Mário Benjamim, onde o solo constava e todo o programa museológico foi começado a fazer por mim, pelo António Martinho Baptista e pelos amigos de Ródão. Como depois faltou o dinheiro e mudou a Câmara, tudo ficou em espera até hoje. Mais recentemente, já com o Museu Tavares Proença sob tutela municipal (do que discordei), o vereador responsável pelo Museu contactou-me, com o Pedro Salvado, para me pedir apoio na redefinição do programa museológico, dizendo que contava com o solo. Como sempre, e lembrando aliás muito o nosso grande e inspirador amigo Dr. António Salvado e a sua mulher, A Dra. Adelaide Salvado, dispus-me a colaborar. Vamos a ver...

Pedro Miguel Salvado

O Dr. Fernando Raposo já não é o Vereador da Cultura da CMCB. A gestão técnica do Museu está entregue à chefe de divisão Drª Teresa Antunes e a politica (sic) ao assessor do Presidente Dr. Luís Correia ( que anseia colocar o Museu na sua matriz cientifica fundacional) para a área da cultura, o nosso amigo Carlos Semedo. É vontade da Sociedade de Amigos do MFTPJ, já manifestada junto da nova tutela, que o solo de habitat regresse ao Museu, reforçando e cumprindo a geografia de influência gizada pelo seu fundador e pai da arqueologia regional da Beira Baixa Francisco de Tavares Proença Júnior: Um Museu espelho do território da Estrela ao Tejo.








sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

GRUTA DA FETEIRA

Histórias de galinhas e dinossauros na Lourinhã


Reabriu por estes dias, após remodelações, o Museu da Lourinhã. Mas a grande novidade que nos chega do Oeste passa pela inauguração e abertura ao público (hoje mesmo, 9 de Fevereiro) do DINOPARQUE, anunciado como a maior estrutura museológica ao ar livre do país e, como o nome indica, uma espécie de "Parque Jurássico" à portuguesa. Infelizmente já não assistirá a estes tão significativos eventos para a Lourinhã, o Horácio Mateus (1950-2013) justamente considerado o fundador do Museu e o seu principal impulsionador, nas palavras do filho, Octávio Mateus (actualmente um dos mais conhecidos paleontólogos portugueses) deixadas no seu blog ("Lusodinos") após o desaparecimento do pai: 

Morreu ontem, aos 62 anos de idade, Horácio Mateus, fundador do Museu da Lourinhã  Nascido na Lourinhã em 1950, Horácio Mateus esteve envolvido, com outros lourinhanenses, na origem do GEAL, Grupo de Etnografia e Arqueologia da Lourinhã. Nesse seio, o Horácio foi, sem dúvida, o principal promotor do que seria a realização mais óbvia desta associação: o Museu, no qual empenhou o seu tempo e devoção e dedicou o seu espírito. 
Apesar de uma criação conjunta e imprescindível de muitos, Horácio Mateus merece o título do Fundador do Museu da Lourinhã.
Com a esposa, Isabel Mateus, foram os descobridores do famoso ninho de dinossauros de Paimogo, com embriões, o que lhes valeu, a nomeação de Figuras Nacionais do Ano em 1997, pela Revista Expresso. Foi um animado museógrafo e co-autor de três artigos científicos. Ocupou o cargo de Conservador do Museu da Lourinhã durante muitos anos. Apesar da visibilidade pública da temática dos dinossauros, a parte etnográfica e arqueológica era a sua grande paixão.
Adeus pai


Conheci o Horácio e a Isabel Mateus no final de 1981, quando estes procuraram apoio no Museu Nacional de Arqueologia para uma situação de emergência arqueológica que haviam detectado no âmbito das actividades de campo do GEAL, uma associação local de estudo e defesa do património cultural (etnográfico e arqueológico) que eles próprios haviam fundado, como tantas outras que com maior ou menor sucesso, surgiram um pouco por todo o país na sequência do abalo cívico provocado pelo 25 de Abril. Encaminhados para os serviços do Departamento de Arqueologia do IPPC acabado de instalar no próprio Museu de Belém, coube-me a mim (enquanto braço direito do Francisco Alves que acumulava então a direcção do Museu e do Departamento) receber o casal lourinhanense que informava da descoberta de uma pequena cavidade com interesse arqueológico durante as obras de construção de um aviário, próximo da localidade da Feteira, concelho da Lourinhã. 

O processo de intervenção que se seguiu e cujos detalhes recordamos mais adiante, terá representado um dos primeiros passos que conduziria, pouco tempo depois (1984) à constituição do Museu da Lourinhã, em resultado de uma iniciativa conjunta do próprio GEAL e da Câmara Municipal. Instalado provisoriamente no edifício devoluto do antigo tribunal, o pequeno conjunto arqueológico descoberto na Feteira (por causa das "galinhas") a par de outras recolhas do casal Mateus, ganhava assim especial destaque fundacional. Estava-se longe das descobertas paleontológicas que acabariam por alterar os planos iniciais de Horácio Mateus, especialmente interessado na etnografia e na arqueologia. Com efeito, datam de 1991 as primeiras descobertas significativas de vestígios de dinossauros na região mas foi com a descoberta em 1993 do célebre "ninho de dinossauros" por Isabel Mateus que a Lourinhã entrou definitivamente nos "trilhos" do Jurássico. 



Espólio neolítico da Feteira, exposto no Museu da Lourinhã


O aviário da Feteira em construção. Em primeiro plano à direita, o abrigo improvisado que permitiu realizar a escavação durante o Inverno de 1982
A escavação da Gruta da Feteira

A região da Feteira integra-se no planalto da Cesareda, zona cársica conhecida desde meados do século XIX pelo seu interesse geológico e arqueológico, pelo que a notícia da descoberta de ossadas humanas associadas a espólio neolítico não foi propriamente uma novidade. O que era especial e exigia medidas urgentes, era a circunstancia da cavidade ter sido descoberta durante a abertura das fundações de uma sapata de um aviário industrial em construção. Estávamos ainda longe daquilo que hoje chamamos de "arqueologia preventiva" e que permite (nem sempre com grande eficácia) impor algumas condicionantes em determinados projectos. Mas à época a Lei permitia, pelo menos interromper obras durante algum tempo para que "fossem tomadas pelas autoridades as medidas consideradas necessárias". E foi exactamente o que aconteceu neste caso, graças à previdência de uma associação local, à indispensável colaboração municipal e até, como se recorda na posterior publicação, ao apoio da imprensa que deu o devido destaque à descoberta. O Departamento de Arqueologia, apesar de meios muito reduzidos (como se poderá imaginar), promoveria com a urgência que o caso requeria a realização de uma escavação, contratando para o efeito os serviços do jovem arqueólogo João Zilhão, então recém-licenciado mas já com grande experiência de trabalho de campo (nas regiões do Ródão e Tomar).



A abertura da cavidade descoberta nas fundações de um dos pilares do aviário


As dificuldades da intervenção agravadas por um Inverno rigoroso

 Perante carências logísticas de toda a espécie, só supridas com o apoio total da família Mateus que se constitui em equipa de apoio local (incluindo o Octávio Mateus, então com sete anos como o próprio refere em entrevista 
que pode ser lida aqui  ) e condições climatéricas muito adversas, a escavação da pequena gruta, realizar-se-ia entre Fevereiro e Maio de 1982, confirmando os seus resultados, tratar-se de uma pequena necrópole ou ossário, cobrindo cronologicamente todo o Neolítico. Posteriormente, mais pela exemplaridade de todo o processo, do que pela excepcionalidade da descoberta (relativamente comum na região), o Departamento de Arqueologia decidiria editar o excelente relatório entretanto produzido por Zilhão. Perante a falta de um meio adequado à edição de "monografias arqueológicas", no contexto das várias iniciativas editoriais com que procurávamos combater a endémica ausência de divulgação dos resultados da arqueologia portuguesa, criámos então uma colecção a que chamámos "Trabalhos de Arqueologia" (de algum modo plagiando os "Trabajos de Prehistoria", série monográfica criada em 1960 em Espanha pelo Prof. Martin Almagro Basch), e da qual a "Gruta da Feteira" seria o nº 1 (ed. 1984). Enquanto Director do Departamento de Arqueologia (até 1988) ainda seria responsável pela edição dos primeiros 6 volumes mas felizmente, a colecção, com altos e baixos, manteve-se até hoje (desconheço no entanto quais as intenções da DGPC a esse respeito uma vez que não há novas edições desde 2011), tendo sido entretanto editadas mais de cinquenta monografias (Mais precisamente 53, de acordo com o SITE da Loja da DGPC ) . Curiosamente, seria na fase IPA (Instituto Português de Arqueologia, 1997-2007) dirigido precisamente por João Zilhão e Fernando Real (que enquanto geólogo e sedimentólogo também colaborou neste 1º volume) que a colecção ganharia maior relevância no contexto da edição arqueológica portuguesa, pese embora a importância que então assumida pela Revista Portuguesa de Arqueologia (virada para artigos de menor fôlego) também criada no contexto do IPA. Infelizmente poucos volumes dos "Trabalhos de Arqueologia" estão disponíveis em PDF, como é o caso deste 1º volume. Assim, para além da capa aqui deixamos cópia da respectiva "ficha técnica" bem como da Nota Prévia que então redigi (já como Director do Departamento de Arqueologia) e na qual apresento os objectivos da nova colecção. Como curiosidade, apresento também algumas fotos da escavação da Gruta da Feteira então publicadas.

De referir, em jeito de apontamento final, que em 1993, graças de novo à vigilância do GEAL, o então IPPAR foi alertado para a descoberta de uma segunda cavidade nas imediações deste mesmo aviário. Confirmado o interesse arqueológico, claramente relacionado com a primeira cavidade, foram então tomadas as primeiras medidas de salvaguarda da Gruta da Feteira II (também já muito afectada pela exploração aviária). Entre 1995 e 1997, a arqueóloga Ana Cristina Araújo (que já participara nas escavações de 1982) e a antropóloga Cidália Duarte, ali viriam a realizar para o IPPAR, escavações que comprovaram existir coerência cultural e cronológica entre os vestígios funerários das cavidades vizinhas.






A Gruta da Feteira, Lourinhã, 1984- ficha técnica





Um dos planos da escavação em que é possível observar um crânio humano e diversos osso longos associados 

Um dos cortes da escavação, mostrando que uma parte dos depósitos arqueológicos haviam já sido afectados pela betonagem das fundações do aviário

A situação final após a construção do aviário. A seta indica o alçapão de acesso à parte da gruta que foi possível conservar.




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018



"1973"


Numa altura em que acabo de passar à situação de "aposentado" (1 de Janeiro de 2018) sinto-me particularmente sensível a determinados eventos ou datas. Ainda que para várias gerações de portugueses, incluindo a minha, por razões compreensíveis, 1974 seja um marco indelével (há sempre um antes e um depois do 25 de Abril desse ano) no meu caso posso afirmar que também 1973 acabaria por ter uma importância muito especial.

Nesse ano atingi a maioridade pelos padrões da época (21 anos), acabei o bacharelato em História na Faculdade de Letras (o que me abriu as portas do ensino tendo em Outubro começado a leccionar no novo curso nocturno do Liceu da Amadora). No Verão de 1973 saí pela primeira vez de Portugal para participar como estudante voluntário nas escavações arqueológicas de Pincevent (França) e de Pinedo (Espanha) viagens que acabaram por ser determinantes para um futuro profissional que então mal podia sonhar. De facto, embora participasse desde 1972 nas campanhas arqueológicas do Ródão, foi em especial o contacto com o Professor André Leroi-Gourhan (1911-1986) e a sua equipa que influenciou decisivamente a minha orientação para a Arqueologia, embora esse objectivo fosse na época, algo utópico...

Foi pois com muita curiosidade que acedi na INTERNET a um novo "link" dos Arquivos RTP que me fizeram chegar recentemente e que "anunciava" uma excursão arqueológica de 1973. É verdade que já conhecia este excelente serviço da televisão pública, onde estão disponíveis para visualização "on line" antigas reportagens sobre temas arqueológicos (nomeadamente uma muito informativa, datada de 1971, sobre os trabalhos de Henrique Leonor de Pina nos Almendres), mas não conhecia ainda esta "visita de estudo do curso de iniciação à arqueologia", datada precisamente de 1973.

Da respectiva sinopse consta apenas o seguinte:

Reportagem sobre a visita de estudo efectuada pelos alunos do Curso de Iniciação à Arqueologia e pelo seu director Fernando Nunes Ribeiro a um conjunto de locais de interesse arqueológico: Grutas do Escoural e dólmen da Herdade da Mitra em Montemor-o Novo, Museu e Templo de Diana em Évora, e Cromeleque do Xerez em Reguengos de Monsaraz.


https://arquivos.rtp.pt/conteudos/visita-de-estudo-do-curso-de-iniciacao-a-arqueologia/#sthash.IT6XDbkJ.dpbs


Infelizmente, não tenho qualquer informação sobre o "curso" em causa. Aparentemente, e uma vez que este seria dirigido pelo arqueólogo Fernando Nunes Ribeiro  (veterinário de Beja, cidade de que chegou a ser Presidente da Câmara, mas também arqueólogo amador, conhecido sobretudo pela descoberta da villa romana dos Pisões) poderemos imaginar que se trata de uma iniciativa de cariz regional (?). De qualquer modo, mais que o contexto factual e objectivo do evento, interessou-me neste caso apreciar quer a situação dos monumentos ou sítios visitados há quase meio século quer a própria atitude dos "visitantes" (um grupo aparentemente muito heterogéneo, nomeadamente no que respeita a "idades", o que aponta para o carácter informal do "curso"). De recordar aos mais novos, que à época não existia na universidade portuguesa qualquer formação específica em Arqueologia, sendo esta temática, então dita "auxiliar", abordada apenas em 2 ou 3 disciplinas da Licenciatura em História.

A visita de 1973 iniciou-se pela Gruta do Escoural. A cavidade havia sido descoberta uma década antes no âmbito de exploração de uma pedreira e os trabalhos arqueológicos de Farinha dos Santos já estariam terminados por esta época. Não temos data precisa para a instalação das primeiras estruturas de visita (renovadas em 2010) mas calcula-se que terão sido construídas no final dos anos 60. Exteriormente a Gruta apresentava em 1973 o aspecto e condições da pedreira original, conforme imagem de arquivo que se anexa para comparação.






Exterior da Gruta do Escoural pouco tempo após a descoberta (Foto de Arquivo, s/data)


Por cima da Gruta, os afloramentos onde Mário Varela Gomes identificaria em 1978, gravuras rupestres neolíticas, sobrepostas por vestígios de um povoado da Idade do Cobre


Após a visita à Gruta do Escoural, seguiu-se a visita à "Anta Grande do Zambujeiro", impropriamente designada na reportagem como "Anta Herdade da Mitra" e erroneamente localizada em Montemor-o-Novo. Com efeito, o acesso normal a esta gigantesca Anta é feito através da Herdade da Mitra, Valverde (afecta à Escola Agrícola, hoje à Universidade de Évora) mas situa-se já fora dos respectivos limites desta e em propriedade privada. Ao contrário do que se observa no caso da Gruta do Escoural (entretanto adquirida pelo Estado e objecto de várias intervenções de requalificação), a Anta Grande do Zambujeiro apresentava-se à época em melhores condições do que no presente. Escavada no final dos anos 60 por Henrique Leonor de Pina, a sua estrutura até então protegida pela enorme mamôa de terra (ainda bem visível nas imagens da RTP) entraria depois em processo de progressiva degradação. Uma cobertura provisória instalada nos anos 80 bem como algumas medidas pontuais de consolidação, não alteraram no essencial a lamentável situação deste "monumento nacional", hoje uma chaga incompreensível da arqueologia nacional. (com temos recordado neste blog)

A Anta Grande do Zambujeiro, aspecto geral em 1973




Adicionar legenda
Não deixa de ser também curiosa, a atitude revelada na reportagem por parte dos "iniciados" à Arqueologia...na imagem, sobre uma das lajes da cobertura do corredor, entretanto desmontada nos anos 80, por ameaçar ruína.

Hoje parecerá estranho que os excursionistas não tenham visitado também o vizinho o Cromeleque dos Almendres, monumento que em 1973 era já relativamente conhecido (graças sobretudo às fotos de José Justo, na "Pré-história de Portugal" de M. Farinha dos Santos, editado pela Verbo em 1972). Mas a explicação é simples. Em 1973, por mais ousado que fosse o motorista (e este não hesitou em conduzir o autocarro até à Anta Grande do Zambujeiro, atravessando inclusive a "Ribeira da Peramanca") não havia qualquer acesso praticável ao Cromeleque, sobretudo a partir do Monte dos Almendres. O estradão que hoje é percorrido pelos milhares de turistas que ali se dirigem, foi construído no final dos anos 80 pela Câmara Municipal de Évora.



A "excursão arqueológica" dirigiu-se depois para a cidade de Évora, com a inevitável visita ao "Templo Romano", a cujo pódio era então "normal" subir (no início do século XX o acesso estava vedado por uma grade, tal como viria a acontecer de novo desde os anos 90, por razões de conservação). Seguiu-se a visita ao Museu de Évora que apresentava na cave recentemente construída, uma pequena exposição de arqueologia inaugurada em 1970 e na qual se mostravam já alguns materiais da Gruta do Escoural (uma pequena amostragem, uma vez que a maioria, com grande escândalo local, havia sido depositada no Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa).





A excursão terminaria nas proximidades de Monsaraz, junto ao "Cromeleque do Xerez", um monumento que havia sido recentemente estudado e "restaurado" pelo médico e arqueólogo amador de Reguengos, Dr. José Pires Gonçalves, numa intervenção não isenta de alguma controvérsia.

Como é sabido, após novas escavações promovidas pela EDIA em 1997 e concretizadas por Mário Varela Gomes, este monumento megalítico, por se encontrar em cota de inundação da Barragem do Alqueva, acabaria por ser desmontado e reerguido nas proximidades do Convento da Orada (também nas proximidades de Monsaraz) no contexto de um projecto de recuperação patrimonial que, infelizmente, ficou muito aquém dos objectivos preconizados...



Quarenta e cinco anos após a recolha destas imagens e chegado ao fim de uma carreira profissional que dava então nesse ano os primeiros passos, não posso deixar de sentir alguma nostalgia ao rever esta curiosa reportagem. 

Cerca de década e meia depois iniciava novos trabalhos de arqueologia na Gruta do Escoural que culminariam já neste século com um decisivo projecto de requalificação. 

Apoiei em 1989, enquanto responsável pelo Serviço Regional de Arqueologia do Sul, o projecto do Museu de Beja de divulgação pública da colecção arqueológica de Fernando Nunes Ribeiro, oferecida por este àquele Museu em 1987.

Pese embora a situação lamentável a que chegou a Anta Grande do Zambujeiro, fui intervindo no respectivo processo, mesmo antes de me mudar para Évora, em função das capacidades e competencias de cada momento. Actualmente, enquanto membro da Assembleia de Freguesia local (Tourega e Guadalupe), na falta de outros meios, continuarei a alertar para a sua escandalosa situação. 

Por fim, enquanto coordenador dos trabalhos de arqueologia da Barragem do Alqueva (1996-2002), fui o directo responsável pelas novas investigações sobre o Cromeleque do Xerez e pela respectiva reinstalação. Pena é que o monumento, pese embora o investimento feito pela EDIA, esteja hoje praticamente ao abandono por desinteresse local. conforme já aqui chamei a atenção

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

"Ritual de passagem"




"Ritual de passagem
Hoje, em Évora, abraço ao amigo e companheiro, António Carlos Silva, no almoço da sua passagem à reforma. Sabe bem ver como se passou quase meio século em grande camaradagem e profunda sintonia de valores. Assim pudessem todos dizer um dia quando chegar a sua vez de fazer balanços e dedicar mais tempo aos netos."

Foi com estas simpáticas palavras que o Luis Raposo se referiu no "facebook" ao acto que, como habitualmente, assinala na generalidade dos serviços públicos ou privados, a passagem de mais um trabalhador para a aposentação, no caso a minha própria. Lá teria que ser, um dia...

 Aqueles que já "passaram" por isso, terão consciência da confusão de sentimentos que nos assaltam nestes dias, uma estranha sensação "agridoce" que, conforme me avisaram entretanto, se irá diluindo com o tempo. Em todo o caso foi muito agradável ter estado com tantos colegas e amigos, uma meia centena, na maior parte os companheiros destes últimos anos na Direção Regional de Cultura do Alentejo, mas também com os que se deram ao trabalho de vir de fora e outros ainda que não estando fisicamente presentes, me enviaram mensagens de amizade. A todos os que puderam estar mas extensível a tantos outros colegas e amigos com quem partilhei este longo percurso, aqui quero deixar, neste blog de "memórias", que vou alimentando há três anos, um grande e sentido abraço.

Afinal, acabaram por me acompanhar neste "ritual", representantes de todas as grandes etapes de quase meio século de actividade profissional. E digo meio século, porque ainda antes de ter iniciado a carreira como professor na Amadora há 44 anos, já desde o primeiro ano da Faculdade (1970) participava regularmente, com o Luis Raposo e outros colegas, nas  actividades de campo  do GEPP. 

Tive pois comigo, nesta hora de despedida, colegas do tempo da Faculdade (70-75), das escolas (1974-1980) e até dos que fizeram parte do grupo que, em 1980, Francisco Alves convidaria para a grande aventura da renovação do Museu Nacional de Arqueologia e instalação dos primeiros serviços de arqueologia da SEC: Departamento de Arqueologia do IPPC e serviços regionais de arqueologia . 

Mas, naturalmente, o grosso dos presentes, era gente ligada aos "serviços alentejanos" em que tive a honra e o prazer de colaborar a partir de 1988. Primeiro do Serviço Regional de Arqueologia do Sul (de que subsistem ainda alguns colaboradores na actual DRCA); depois da extinta Direção Regional do IPPAR; também da EDIA (um intenso interregno enquanto funcionário da SEC, entre 1996 e 2002); do próprio IGESPAR/Lisboa (onde estive numa curtíssima missão em 2007) e finalmente da Direção Regional de Cultura do Alentejo, em que aconteceria aliás o meu último grande desafio enquanto dirigente da administração pública: gerir o património cultural em tempo de crise (2011-2014)


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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018


MIRÓBRIGA E OS AMERICANOS



Há poucas semanas, nas sequência da atribuição do prémio "Mais Património 2017" pela revista Mais Alentejo, registei neste blog, sob o título "Miróbriga, uma jóia esquecida", alguns dados e documentos sobre a gestão e salvaguarda deste sítio romano nos anos 80 e 90 do século passado. ( ver aqui essa entrada ). Por coincidência, ou talvez não, o Gonçalo Pereira, editor da versão portuguesa da "National Geographic", acaba de me enviar um curioso recorte do antigo semanário de Joaquim Letria, "Tal&Qual" (10 de Julho de 1982), com uma reportagem sobre as escavações americanas que à época decorriam em Miróbriga. Estava então em curso a segunda campanha das escavações "luso-americanas", no contexto de um projecto de cooperação que se prolongaria até 1985. A reportagem exagera um pouco o âmbito quer temporal quer físico do projecto mas, sem dúvida, este representou um importante marco no processo de revitalização deste importante sítio arqueológico romano nas duas últimas décadas do século passado, como recorda a arqueóloga Filomena Barata no seu blog "As cidades da Lusitânia" ( que pode ser consultado aqui ) :

"Em 1981, no seguimento de contactos com arqueólogos americanos, lançou-se um projecto de cooperação internacional, «The Mirobriga Project», dirigido por arqueólogos das Universidades de Missouri-Colombia e Arizona e representantes portugueses. No decurso desse projecto, que se previa quadrianual mas que se prolongou até 1985, foram estudadas em pormenor diversas zonas: «acrópole»/forum, termas, zona habitacional e hipódromo, que contribuíram para um melhor conhecimento global deste Sítio Arqueológico. Colaboraram nesse projecto José Olívio Caeiro, como responsável pela parte portuguesa, e Carlos Tavares da Silva.

Na primeira campanha, a equipa de Missouri concentrou-se fundamentalmente na zona do forum e do templo, na zona das termas e no hipódromo. José Olívio Caeiro encarregou-se, por sua vez, da área limítrofe à capela de S. Brás.
Na segunda e terceira campanhas, os trabalhos continuaram na área do Castelo Velho, tendo-se confirmado a ocupação pré-romana de Miróbriga, nas termas e na zona habitacional. Em 1982 foi feita a primeira planta geral das termas, tendo-se dado início, em 1983, ao levantamento topográfico do sítio, que foi completado em 1984.

Neste último ano, a campanha incidiu ainda no circo, onde foram feitas novas sondagens, e nas termas. São publicados de seguida os resultados, bem como estudos de alguns frescos de Miróbriga (BIERS et alii, 1984: 35-53), tendo sido consolidadas as pinturas murais.

Os resultados preliminares das escavações efectuadas pela equipa luso-americana foram sendo editados anualmente, na revista Muse, e aí se publicaram, em 1981, 1982 e 1983, os únicos estudos parcelares das sondagens feitas no forum, uma vez que os BAR não lhes dedicam senão uma pequena nota (BIERS et alii, 1988: 15).

A equipa luso-americana perfilha a opinião de que Miróbriga constituiria um aglomerado urbano importante, habitado desde, pelo menos, a Idade do Bronze, sendo as termas e o circo partes integrantes de um perímetro urbano ainda não definido em toda a sua extensão.
O forum da povoação - com as construções que, logicamente, lhe ficariam anexas - teria uma sucessão de ocupações que inclui, para além dos níveis de épocas anteriores, duas fases de construção da época romana, datando a mais antiga do século I. O templo centralizado dataria de meados do século I d. C., tal como a maioria das construções que se desenvolvem a Sul do mesmo - tabernae.
Em 1988 é publicado em Oxford Mirobriga: Investigations at an Iron Age and Roman Site in Southern Portugal by the University of Missouri-Columbia, 1981-1986, onde são sintetizados os trabalhos desenvolvidos e publicados os materiais arqueológicos aí exumados. Como já foi referido, as sondagens do forum não foram, até hoje, pormenorizadamente dadas a conhecer, devido ao facto de entretanto a equipa se ter desmembrado

O convite ao arqueólogo David Soren da Universidade de Missouri, Columbia, fora feito em 1980  no decorrer de uma viagem que Caetano Mello Beirão  (1923-1991), já designado director do novo Serviço Regional de Arqueologia do Sul, fizera aos Estados Unidos em representação da Secretaria de Estado da Cultura. Penso que também estará relacionada com essa viagem de Beirão, a posterior vinda de Stephanie Malloney, outra arqueóloga americana que a partir de 1983 e praticamente até hoje, se dedicaria ao estudo de outro importante sítio romano do Alentejo: a Villa de Torre de Palma (Monforte). De algum modo, estes projectos representavam, ao tempo, uma inédita abertura da arqueologia nacional, até então muito ligada a França e à Alemanha, à investigação norte-americana. Tal como é referido na reportagem, David Soren, enquanto especialista em Arqueologia Clássica, mantinha outros projectos na Europa, nomeadamente em Chipre, onde escavava as ruínas da cidade de Kourion. Recordo que esse projecto cipriota, em que chegaram a participar alguns jovens arqueólogos portugueses (como a Catarina Viegas, colaboradora nas escavações luso-americanas de Miróbriga e hoje professora na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ou a Inês Vaz Pinto, actual responsável pelas Ruínas de Tróia, Grândola) teve à época ampla repercussão mediática, nomeadamente nas páginas da National Geographic internacional, devido ao reconhecimento dos efeitos do epicentro de um célebre terramoto que em 21 de Julho de 365 d.C. destruiu aquela cidade. Uma outra curiosidade relacionada com esta cooperação arqueológica Luso-Americana: de acordo com a biografia de David Soren  que é possível consultar na Wikipédia, este arqueólogo terá sido também responsável pela reorganização da sala "Miróbriga" do Museu Municipal de Santiago do Cacém, projecto em que teve a cooperação de Henry Lange, um designer americano de origem alemã, com importante obra ligada ao cinema de ficção, nomeadamente 2001, Odisseia do Espaço  (1968) ou os 3 primeiros filmes da saga Star Wars (1977-1983)!

Pela parte portuguesa, participaram neste projecto, os arqueólogos do Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS) Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, nomes ligados à arqueologia do litoral alentejano desde o início dos anos 70 enquanto colaboradores do "Gabinete da Área de Sines". O Serviço Regional de Arqueologia do Sul estava por sua vez representado por José Olívio Caeiro (1949-2009). José Caeiro, como era conhecido entre os seus pares, era na altura assistente na jovem Universidade de Évora, onde assegurava com Jorge Pinho Monteiro (1950-1982) as cadeiras de História Antiga e Arqueologia. Eram ambos colaboradores  muito próximos de Caetano Beirão, tendo apoiado a instalação do Serviço Regional de Arqueologia em Évora, em espaços da própria Universidade (Palácio Vimioso). O desaparecimento precoce de Pinho Monteiro, porém, afunilaria as opções de Beirão (enquanto não foi possível colocar os primeiros arqueólogos no quadro do serviço) estando na origem do excessivo envolvimento de Caeiro nos projectos então em curso. Conforme pude ter conhecimento directo, dadas as minhas funções no Departamento de Arqueologia do IPPC, as relações entre Caetano Beirão e José Caeiro, acabariam por azedar, com acusações recíprocas de incumprimentos vários, nomeadamente no que respeita à não publicação de resultados de muitos dos trabalhos arqueológicos, incluindo a parte nacional de Miróbriga. José Olívio Caeiro afastar-se-ia progressivamente da actividade arqueológica e até da própria universidade (onde não concluira o Doutoramento sobre o povoamento proto-histórico na bacia do Guadiana) regressando ao ensino secundário, onde iniciara a sua carreira profissional como tantos outros arqueólogos.

A última vez que nos encontrámos foi em Évora, nas instalações do INATEL (Palácio Barrocal), por ocasião de uma sua exposição de pintura, actividade a que finalmente se dedicara na sua "Villa Caerius", a casa que à maneira romana construíra nos arredores da Azaruja. Só muito recentemente, após diligências de um amigo comum (o Prof. José d'Encarnação), viemos entretanto a saber que morrera em 2009.


A reportagem do "Tal & Qual" de 10 de Julho de 1982. A foto de José Olívio Caeiro, em grande plano.

Painel sobre o projecto luso-americano dos anos 80, .(antiga exposição no Centro Interpretativo de Miróbriga)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A COLECÇÃO ARQUEOLÓGICA (?) DO BPN


Nunca se me proporcionou (nem seria fácil...) a ocasião para observar esta misteriosa e no mínimo controversa colecção. Soube que alguns colegas arqueólogos -para além do arqueólogo que a avaliou a pedido do BPN ou da conservadora do Museu Nacional de Arqueologia referida no (excelente) artigo publicado em 15 de Fevereiro de 2009 no suplemento "Domingo" do Correio da Manhã- terão  entretanto tido essa oportunidade, a pedido das autoridades competentes (Polícia Judiciária ?). As opiniões expressas por esses especialistas, tanto quanto se comentou em alguns meios, terão sido no sentido de que a generalidade da coleção, seria integrada por objectos falsos... Ou seja, ao contrário da coleção "Miró" de que tanto se falou e que pela sua autenticidade e mais valia artística  acabou por manter-se na esfera pública, a coleção arqueológica que terá custado 5 milhões de Euros ao BPN, desapareceu dos radares do interesse público ou mesmo da curiosidade dos media. Apesar das muitas questões levantadas e não respondidas no que o artigo, excelentemente ilustrado, que aqui reproduzimos.

Pessoalmente e meramente por efeito colateral, tive posteriormente alguma notícia do assunto. No final de uma reunião de trabalho com a Polícia Judiciária, cujo tema e data não posso precisar, mas que terá já sido posterior a 2011, o agente ao saber que eu era arqueólogo, quis saber se eu conhecia a coleção BPN e qual era a minha opinião sobre a mesma. Respondi-lhe que apenas conhecia alguns objectos a partir da reportagem fotográfica do Correio da Manhã mas que, com todas as reservas decorrentes da não observação directa das peças, estas me pareciam falsas, se não na totalidade, pelo menos na sua maioria...

Não sei, entretanto, que caminho este assunto tomou e se foi objecto de tratamento no âmbito do longo julgamento do caso BPN que terminou em Maio do ano passado. Mas tinha alguma curiosidade de conhecer as conclusões da investigação empreendida pelas "autoridades" e qual o destino dado entretanto à "colecção". Aqui está um tema interessantíssimo para o jornalismo de investigação, ou mesmo, de futuro, para alguma tese de mestrado ou doutoramento...sobre "contrafação ou tráfico" de antiguidades.










 ADENDA- 29 Agosto 2018

Uma vez que esta "carta aberta" diz respeito a este controverso assunto, aqui se transcreve a mesma a partir da publicação de hoje mesmo do ARCHPORT

-------- Mensagem original --------
De: Manuel de Castro Nunes 
Data: 29/08/18 11:33 (GMT+00:00)
Para: José d'Encarnação 
Assunto: Carta aberta aos arqueólogos portugueses.

Carta aberta aos arqueólogos portugueses.

Excelentíssimos Senhores.

O meu nome é Manuel Maria Guimarães de Castro Nunes.
Privei, de perto e de longe, com a larga maioria de três gerações de arqueólogos que constituem hoje a elite ou ''intelligentzia'' veterana da arqueologia portuguesa.
Sou filho do Professor Doutor João de Castro Nunes.
Devo pois começar por declarar, sem assombro ou assombramento, que nunca usufruí de qualquer vantagem no exercício de qualquer actividade profissional por ser filho de meu pai. Não apenas por feitio mas sobretudo por isenção, fiz sempre o possível e o impossível por dissociar a minha carreira e a minha actividade profissional do patrocínio do meu pai. A maioria de vós foi sem dúvida mais filho de meu pai do que eu. E declaro-o para, se o quiserdes, o poderdes contraditar.
Poderia, se partilhasse o vosso mau carácter, alegar mesmo que fui vítima e réu de ter sido filho de meu pai.
Importa pois que fique também claro que, ao dirigir-me a vós para expor esta matéria, orienta-me uma opção de princípio que sempre me orientou na vida. Recuso por princípio, se não for rigorosamente indispensável, personalizar assuntos, personalizar as matérias que há muito suscitam a minha crítica consequente e contínua à comunidade arqueológica, à sua hipócrita e conspirativa sociabilidade, à distorção e comércio das práticas, à cultura tosca de cidaddania que se instalou entre vós, ao oportunismo.
Dirijo-me pois a vós sem assombro, consciente de que salvaguardei sempre a minha isenção e a minha consciência e de que, sobretudo, excedendo exorbitantemente o que talvez fosse meu dever, salvaguardei a solidariedade, a confiança, a lealdade.
Ora muito bem, Excelentíssimos Senhores.
Transitou em julgado no passado mês de Abril a sentença final relativa ao Processso 91/09.9 JDLSB, julgado na 1ª Secção da Instância Central, Secção Criminal, do Tribunal da Comarca de Lisboa Oeste, em que, entre outras matérias, se determinou judicialmente a contrafacção ou ''falsidade'' de dois acervos de artefactos alegadamente arqueológicos.
Decidiu o Doutíssimo ou Venerando Colectivo condenar três réus. Dois por burla e um por ''falsidade''. Dos dois condenados por burla, um fui eu, Manuel Maria Guimarães de Castro Nunes, um estranho sujeito, de indefinido estatuto, que vós dizeis que sou historiador e os histariodores que sou arqueológo, embora eu, com sinceridade, nem saiba bem o que sou, porque nunca quis partilhar a obscenidade de uma nem de outra das comunidades.
O réu condenado por ''falsidade'' foram os dois acervos de artefactos alegadamente arqueológicos. Fostes vós quem, numa primeira instância, alegou que eram arqueológicos. Mas que eu, para ser sincero, após tão Doutíssima e Veneranda decisão judicial, já nem sei bem o que são. Nem tenho que saber, pois a matéria está julgada e a sentença transitou em julgado, após sucessivos recursos, nunca de minha iniciativa, pois nem requeri Instrução do Processo de Acusação.
Sabia de antemão qual seria o desfecho, pois conheço muito bem a justiça e melhor ainda os arqueólogos.
Nem tenho nada que saber, digo. Porque agora quem terá que saber serão Vossas Excelências, que confrontarei até à exaustão com a vossa hipocrisia, com a obscenidade do vosso mau carácter e das vossas conjuras de ''vendilhões do templo''. Adiante orientar-vos-ei na hermenêutica desta expressão, ''vendilhões do templo''.
Devo também declarar que, durante todo o julgamento, pouco ou nada me defendi da acusação de burla. Entendi desonroso para mim defender-me de uma acusação que, recaindo sobre mim, competiria mais a vós do que a mim refutar.
Por essa razão concentrei-me na defesa do réu acusado de ''falsidade'', os dois acervos de artefactos alegadamente arqueológicos, que, não sendo obviamente arqueológicos, como sempre propus, seriam, caso não fossem judicialmente condenados, bens culturais de indiscutível apreço. E que vós, hipócritas defensores do património cultural e artístico, teríeis condenado irreversivelmente à destruição material, como determina a Lei, não fosse o recurso à manha judicial que, face ao iminente risco, transitoriamente os livrou do patíbulo.
E que manha foi essa e que transitoriedade a ameaça?
Lede então este extracto da sentença em epígrafe.
''(...)
O Tribunal considera que o o reingresso dos objectos (artefactos integrantes das duas colecçõs) no comércio jurídico (sic!) redundará em sérios riscos de, com os mesmos, virem a ser cometidos novos ilícitos penais ou civis, com utilização dos mesmos, mormente a sua comercialização (...)
Nesta conformidade todos os objectos integrantes das colecções vendidas pelo arguido Joaquim Pessoa à Fundação Estrada e à GESLUSA TRADING são declarados perdidos a favor do Estado.
Com vista ao seu destino final, deverão ser consultados os Directores do Museu da Polícia Judiciária e do Museu Nacional de Arqueologia a fim de se pronunciarem, desigadamente quanto à existência de interesse museológico ou comparativo das peças, a fim de as mesmas virem a integrar o acervo de um ou de ambos desses museus.
Sem prejuízo de o Tribunal vir a considerar, consoante o respondido por estas entidades, o sugerido a fls 3296 pela DLVT da PJ.
(...)''
O sugerido a folhas 3296 pela Divisão de Lisboa e Vale do Tejo da Polícia Judiciária é a destruição material.
Imaginai então, Venerandos e Doutíssimos Senhores Arqueólogos, porque quanto aos Venerandos e Doutíssimos juízes está tudo dito em outros foros, que eu reccorria à mimese do vosso mau carácter, da vossa hipócrita e obscena manha, para vos confrontar, pessoalmente e nomeados, com o vosso papel, de todos e de cada um, nesta tramóia.
Não conto fazê-lo ou ter que o fazer. E esta tem por propósito o propósito que sempre orientou a minha intervenção no decurso não só do julgamento mas de todo o processo que lhe foi preliminar.
Recorrer a alguma réstea de coerência, de isenção, de prudência talvez que vos reste ou sobre. Que reste ou sobre nas vossas atormentadas consciências de hipócritas conjurados.
Que fazer agora?
Que fareis agora para cumprir o vosso compromisso de honra de salvaguardar o património?
E que esperais que faça?

Alqueidão da Serra, 29 de Agosto de 2018.
Manuel de Castro Nunes



A resposta de Luis Raposo no ARCHPORT-30 de Agosto de 2018


Meu caro Manuel Castro Nunes,

Cá recebi a sua carta aberta, que por ser aberta respondo também abertamente, pedindo desculpa por só agora o fazer, não sendo ademais tão conciso quanto quereria, e costumo ser. A verdade é que, como dizia Vieira, me falta tempo (quiçá a arte também) para ser breve.

Recebi, pois, a carta, sim, mas noto que no percurso do correio, devido talvez a lapso do carteiro, na circunstância o nosso bom amigo José d’Encarnação, ficou a faltar o anexo que certamente seria constituído pela sentença final transitada em julgado, que o próprio Manuel considera “doutíssima e veneranda” e que eu muito gostaria ler extensivamente, para meu deleite e porque me ocorre remotamente ser mister fazê-lo para melhor e mais cabal avaliação do seu conteúdo. Não por podendo assim ser, tomo por boa a selecção de conteúdos que o Manuel faz – e sem rebuço tomo por fiável. Em todo o caso, porque nestas coisas de sentenças judiciais sou pouco mais do que analfabeto, sempre lhe pediria o obséquio de, mesmo atento o nosso mau carácter de arqueólogos (e manda o espírito corporativo que enfie a carapuça), no-la facultar ou então nos indicar onde a podemos consultar, se possível à distância de um ou alguns cliques apenas.
Pelo que percebo, após anos de recursos (encontro referência à sentença inicial no relatório de acusações do DCIAP referente a 2014, onde se diz: “NUIPC 91/09.9JDLSB / ACUSAÇÃO DE 2-06-2014: Após julgamento foram condenados 3 arguidos pelos crimes de burla qualificada, falsificação simples de documento, detenção de arma proibida e fraude fiscal simples, a penas de prisão de 5 anos e 100 dias de multa diária de 10€, suspensa mediante regime probatório e ainda uma pena de 3 anos e 6 meses e outra de 8 meses, ambas suspensas mediante regime probatório. Foram declarados perdidos a favor do Estado os objectos das colecções vendidas, as armas e munições apreendidas e ainda outros bens móveis e imóveis apreendidos. Acórdão não transitado em julgado.”), o processo transitou definitivamente em julgado e pode, pois, falar-se neste caso em burla e burlões, assim como em falsificação e falsificador.

Fico contente em saber que assim é. Mas não pela razão que porventura o Manuel antecipará – e aceito ser a mais óbvia: a do comprazimento com a condenação dos agentes materiais ou morais dos referidos crimes. Quaisquer que estes fossem, seriam sempre para mim pessoas com percursos e porventura riquezas de vida que se não poderiam nunca subsumir à prática de um ou mais crimes, quando o tivessem feito. Lembro, aliás, burlões célebres pelos quais nutro alguma distante simpatia – Alves do Reis, por exemplo. E neste caso tenho até estima pessoal, intelectual e mesmo cívica por pelo menos dois, o Manuel e o que presumo ser o outro, o poeta Joaquim Pessoa. Desejo-lhes, por isso, com sinceridade e sem qualquer ironia, as melhores venturas na vida, esperando que este episódio – e trata-se apenas disso – lhes tenha servido de aprendizagem e crescimento.

Não, aquilo que verdadeiramente me contenta neste processo é o facto de ele ter sido iniciado e levado até ao fim (coisa que parece não ser assim tão frequente na justiça), especialmente pelo que ele contém de paradigmático. Entendo até que deveria constituir caso de estudo e andaria avisado o estudante universitário que lhe decidisse consagrar trabalho de pós-graduação.

O que há, pois, de paradigmático neste caso, a meu ver?

Existe em primeiro lugar a questão dos limites do “verdadeiro” e do “falso” em objectos e colecções de Arqueologia. Sabemos bem que a Ciência constitui, por definição, o domínio da dúvida – por oposição à Fé, domínio das certezas. Algumas escolas da Arqueologia, sobretudo em ambientes ditos “pós-modernos”, vieram nas últimas décadas a acumular teoria defendendo a relatividade não somente dos saberes, de todos os sabres, mas das próprias materialidades remanescentes do passado, considerando-as sempre “reinventadas” pelos presentes. Ainda hoje certas correntes, inclusive quando se reclamam do materialismo, incorrem nesse vício (assim ouso chamá-lo, sob minha inteira responsabilidade, claro), esquecendo-se que a afirmação de que “toda a história é história do presente”, com a qual eu concordo em absoluto, não constitui demarcação do idealismo histórico (antes pelo contrário, porque foi igual e magistralmente defendida pelos historiadores idealistas ingleses). O que, sim, demarca a visão materialista da ciência é o positivismo que lhe subjaz, considerando que existe uma realidade objectiva, independente e anterior ao observador – o que, no que à Arqueologia respeita, se traduz em objectos verdadeiros, susceptíveis de serem distinguíveis dos falsos – sendo que estes apenas o são quando pretendem “vender gato por lebre”, quer dizer, quando nos querem fazer crer naquilo que não são. Não são falsas as cópias de estátuas gregas feitas ao sabor do gosto romano novo-riquista; ou as renascentistas, feitas pelo gozo intelectual de revivência do Mundo Antigo; ou as que são realizadas para fins educativos e uso em salas de aula, por exemplo; ou as que artistas de todas as épocas executam, recriando as mais das vezes. São falsas, sim, as cópias ou recriações que se fazem hoje pretendendo que foram feitas há séculos ou milénios. E foi bem este o caso no processo em apreço.

Dir-se-á, como efectivamente se disse em processo e fora dele, com maior ou menor elegância e fazendo por vezes até a ponte com as corrente arqueológicas acima citadas (que assim se vêm inadvertidamente ajuntadas ao mercado dos burlões e falsários), que os arqueólogos são “quadrados de espírito”, positivistas em excesso (afinal, como se viu, eu defendo o positivismo, ou melhor, um certo neo-positivismo), e não conseguem antecipar a novidade, quando afinal nada do que se descobre de novo, existia antes. Sim, é verdade e repito que a Ciência é o domínio da dúvida e temos de estar sempre preparados para a novidade (aliás procuramo-la activamente, na nossa investigação); mesmo para aquela que deita por terra muitas das nossas “verdades” anteriores. Mas não nos deixemos todavia aprisionar dentro de dialécticas juvenis. Como pude afirmar em sede de julgamento neste processo, para explicar a juízes e magistrados quais os limites da dúvida neste caso concreto, diríamos que tal como em Astronomia podemos facilmente antecipar que existam astros, até planetas ou estrelas, nunca vistos, inclusivamente próximo de nós, e que teorias bem sedimentadas, como a do Big Bang, poderão ser invalidadas, no todo ou na parte, já consideramos fora de toda a razoabilidade, poder aceitar quem nos diga que afinal é o Sol que gira à volta da Terra e não aquilo que consideramos verdade adquirida desde que se deixou de mandar para fogueira quem se atrevia afirmá-lo. Ora, as peças e colecções que constam deste processo configuram precisamente esta situação de total e irredutível falta de credibilidade. São falsas porque se pretenderam ser não somente antigas, como representativas de civilizações antigas. Repito: são falsas, ponto final.

Existe depois o lado chamemos sociológico de todo este processo. E ainda aqui ele tem muito de paradigmático.

Como disse antes e afirmei em tribunal, pouco me interessava então saber se quem falsificou, quem burlou ou quem cometeu outros crimes – se eles efectivamente existissem. Deixava isso para a investigação policial e para a acção judicial, exercida como poder de Estado, em nome do Povo. Também declarei ter interesse reduzido, embora maior do que o anterior, em saber as motivações de quem quer que assim tenha procedido. Apenas fiz o que me cumpria: declarar, alto e bom som, que com o saber de que dispunha podia sem margem para dúvidas dizer que se tratava de objectos falsos.

Chegados aqui, permito-me porém confessar que, quanto a motivações, cheguei a pensar para mim que fosse por mero gozo intelectual, para demonstração de como são frágeis as “verdades” da Arqueologia e de como são pusilânimes os arqueólogos na sua defesa. Claro que as informações subsequentes quanto às maquias envolvidas, fizeram-me descer à terra e perceber que poderiam ter existido, ou existiram mesmo (falta-me ler o processo em toda a sua extensão, hélas) motivações bem mais venais. Mas subsiste um facto: a dificuldade em fazer com que arqueólogos e outros especialistas em objectos antigos cumpram a sua responsabilidade cívica em toda a extensão, nomeadamente através da peritagem e do testemunho em tribunal. Uma dificuldade que os falsários e burlões usam em seu benefício. Ouvi de tudo neste processo, de colegas meus: que não estavam para chatices; que era tudo tão obviamente falso, que não valia a pena perder tempo; que a nossa função é investigar, mais nada… Que sirva, pois, este processo também de lição para arqueólogos e especialistas em arqueo-ciências, fazendo que despertem e assumam em plenitude a sua função social, a qual passa também por dar testemunho das suas “verdades”, dentro dos limites das mesmas, claro. Quem não se dá ao respeito, não pode pretender ser respeitado. Felizmente e como o Manuel bem sabe, goste ou não, aceite ou não o fundamento dos mesmos, houve neste processo quem deste universo científico e sociológico se mobilizasse para constituir peritagens e emitir pareceres sem papas na língua.

Eis porque, caro Manuel, fico contente com os desfecho que nos diz ser o deste processo. Como disse em tribunal e afirmei acima, desconhecia se existiam e quem fossem os autores de eventuais crimes praticados. Atenta agora a sentença que nos diz ter transitado em julgado, verifico que o Manuel (presumo que também o Joaquim Pessoa) foram assim condenados. Seria cínico se dissesse que tenho pena, porque se o tribunal deu como provado que houve crimes e identificou os autores, eles têm mesmo de ser condenados, sejam quem forem. Mas repito aqui o que então disse à juíza: não tenho nada contra qualquer dos dois, que na altura afirmei presumir serem pessoas de bem e cordialmente cumprimentei antes de sair da sala . Não sei que consequências, materiais ou outras, terá esta condenação na sua vida. Mas creia que não lhe voltarei as costas quando nos cruzarmos e continuarei aceitar os seus reptos, quando entender que se cruzam com os que a mim mesmo faço, continuarei a concordar ou discordar de si, enfim, continuarei a respeitá-lo, como julgo que me respeitará a mim. Presumo que, partilhando eu embora o “mau carácter” dos arqueólogos, possa aceitar que tenha também algum do carácter que a família e vida em toda a sua extensão me incutiram, o qual tenho por bom.

Respeitosamente,

Luís Raposo

Obs. Quanto à questão do destino a dar aos objectos declarados perdidos em favor do Estado, posso dizer-lhe que dei em devido tempo parecer em sentido contrário à destruição, propondo antes a integração no Museu da Polícia Judiciária, onde certamente iriam ampliar, com benefício público, as já vastas colecções de falsificações detectadas através da acção judicial e penal. Para o Museu Nacional de Arqueologia é que não, pois, como o próprio Manuel agora (e muito bem) reconhece, eles não são sequer objectos arqueológicos.