quarta-feira, 17 de maio de 2017

Os barcos de pedra do Guadiana

recordando o Leonel Borrela


Por feitio mas também por razões de meu percurso profissional, apesar de ter começado por me dedicar, enquanto estudante de arqueologia, aos vestígios mais remotos da presença humana no nosso território (Paleolítico), acabei por tropeçar com os mais variados temas e materiais que, afinal, camada a camada, sedimentam as paisagens que nos rodeiam. Um dos temas que no Alqueva despertou a minha curiosidade, foi um conjunto de pequenas estruturas construídas que acompanhavam o Vale do Guadiana e que genericamente eram conhecidas por "atalaias". No âmbito dos inventários patrimoniais que realizámos na preparação do projecto arqueológico do Alqueva percebemos que essas estruturas obedeciam a modelos construtivos diversificados e a sua localização parecia não seguir um  padrão único. Por razões de proximidade com o rio, uma meia dúzia daquelas estruturas viria a ser afectada pelo enchimento da Barragem, motivo pelo qual a sua escavação e estudo viria a ser contratada com uma equipa de arqueologia, tal como aconteceu com muitas outras temáticas. Neste caso porém, e ao contrário da maioria dos projectos então contratados, apesar de cumpridos todos os compromissos de campo, incluindo a produção dos respectivos relatórios, a equipa não chegaria a publicar a esperada síntese monográfica (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2014/12/apresentacao-dos-14-volumes-da-2-serie.html).

Vem, esta referencia a um assunto tão específico do registo patrimonial do Guadiana, a propósito de uma recente e triste notícia. O desaparecimento do amigo e companheiro Leonel Borrela, com quem me cruzei tantas vezes no Museu Regional de Beja, a casa a que dedicou tanto do seu engenho e arte como desenhador, ilustrador e investigador. É que, quando andava intrigado com as "atalaias" do Guadiana, dei conta, através de artigos publicados pelo Borrela no Diário do Alentejo (Março e Maio de 1996), que mais para jusante existiam também estruturas de carácter defensivo muito peculiares directamente relacionadas com a defesa da linha do Guadiana. Naturalmente, haveríamos de várias vezes trocar informações sobre o assunto ao qual o Leonel Borrela viria a dedicar especial atenção, ainda que segundo creio, sem grande impacto junto de quem se deveria interessar pela sua valorização e salvaguarda.A última notícia que tive da sua persistente campanha em prol deste património tão desconhecido, resultou de um artigo de divulgação surgido há cerca de um ano atrás no público.

Um dos fortins do Guadiana, na zona de Quintos

Recorte do Diário do Alentejo (19-3-2012)


A distribuição das atalaias na zona da Barragem do Alqueva, um terço das quais foram submersas pela Barragem do Alqueva. Na sua maioria, estavam relacionadas com a defesa da fronteira, nomeadamente durante as Guerras da Restauração. São estruturas diferentes das estudadas por Borrela na zona de Quintos, se bem que entre Juromenha e a Ponte da Ajuda exista uma estrutura (São Rafael) muito próximo do leito de cheia e, preparada para suportar o impacto das correntes.

Uma das atalaias do Guadiana, submersa pelo Alqueva, "Xarez", nas proximidades de Monsaraz. Controlava a passagem do "Porto das Carretas", na antiga estrada Monsaraz-Mourão.
Nota em que me refiro ao trabalho de Leonel Borrela, em artigo de inventariação (Atalaias do Termo de Monsaraz), de colaboração com o José Perdigão.





segunda-feira, 15 de maio de 2017



Caminhando em terras de Menires e Antas


Em poucas regiões de Portugal, estarão reunidas condições tão propícias a um desenvolvimento sustentado de um turismo que concilie a Natureza e o Património arqueológico, como se verifica nas terras da Tourega e de Guadalupe. A beleza do montado, transforma-se neste território num cenário deslumbrante para os vestígios megalíticos, testemunhos que subsistem da presença dos primeiros agricultores e pastores que dominaram esta região há mais de 5 000 anos, convidando à sua descoberta através dos velhos caminhos rurais. Algumas dificuldades, porém, dificultam um melhor aproveitamento deste recurso que, naturalmente, precisa de um mínimo de enquadramento e de infra-estruturas, para poder funcionar como um produto atrativo para quem por aqui passa a caminho de Évora. Desde logo, as condições climatéricas que no pino de Verão, com temperaturas a rondar os 40º, não aconselham muito a actividade pedestre. Mas a grande dificuldade reside na estrutura da grande propriedade fundiária e dos seus actuais modelos de exploração. Tradicionalmente espaços abertos, virados sobretudo para a silvicultura, onde se circulava livremente através de caminhos centenários, nas últimas décadas conheceram mudanças radicais. Finda a Reforma Agrária muitas destas propriedades trocaram de mãos, e os novos proprietários, com pouca ou nenhuma relação com os meios e as tradições locais, acabariam por fazer tábua rasa de direitos adquiridos de serventia ou de passagem. Até porque, na verdade, muitos daqueles caminhos, com o despovoamento e o fim da actividade agrícola tradicional, deixaram efectivamente de ter "serventia"... Não é fácil nestas condições, definir, sinalizar ou estabelecer percursos de circulação pedestre que permitam a visita a sítios ou monumentos, muitos deles até classificados como "nacionais" ou de "interesse público", quando estes se localizamk em propriedades actualmente completamente vedadas.

Ainda assim, e face ao interesse crescente que alguns daqueles monumentos despertam junto de um público alargado, a União de Freguesias da Tourega e de Guadalupe, tenta actualmente encontrar um percurso que, apesar daquelas condições pouco favoráveis, possa ser vaibilizado futuramente. Nesse sentido, em colaboração com uma empresa que é pioneira nestas actividades (e que há quase duas décadas organiza com alguma regularidade caminhadas nesta região), realizou-se no passado sábado, 13 de Maio, um passeio cujo percurso unia três locais paradigmáticos da Pré-história alentejana: Anta Grande do Zambujeiro, Castelo do Giraldo e Cromeleque dos Almendres. 


Trata-se de um percurso bastante longo, cerca de 20 quilómetros, com algum grau de dificuldade na subida ao Giraldo, mas com possibilidades de um enquadramento logístico interessante. A partida é feita de Guadalupe, onde é possível deixar as viaturas em segurança e onde há algum apoio comercial. Perto do meio do caminho, atravessa-se Valverde, que oferece uma área de merenda e descanso, antes da subida ao Giraldo. O percurso tem a grande vantagem de ser circular, pois após a visita ao Cromeleque e ao Menir dos Almendres, termina de novo em Guadalupe. Uma experiência a repetir, em fim de semana menos mediático de preferencia e, se possível, a institucionalizar em futuro próximo através da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal,  uma vez conseguida a colaboração de alguns proprietários. É que, apesar de "aberto", parte deste percurso é feito através de serventias e caminhos no interior de propriedades privadas.
O "briefing" antes da partida de Guadalupe

Saindo para o campo

Passando junto ao moinho de vento, estrutura de moagem que serviria de alternativa em caso de falta de água, ao "Moinho da Carreira", uma antiga "azenha", onde hoje se localiza um das "tascas" de Guadalupe
A "Horta do Moinho da Ponte", ainda hoje cultivada por um idoso de Guadalupe, próximo do que resta de mais uma azenha e da casa do moleiro. Entre Guadalupe e Valverde, num percurso de poucos quilómetros, existiam pelo menos 5 moinhos, testemunhos de um regime hidrológico certamente mais intenso. Hoje a Ribeira fica praticamente seca no Verão e os moinhos estão abandonados há quase um século. Já ninguém se lembra de os ver a funcionar.


A "Ponte Antiga", na antiga estrada entre Évora (Perananca) e a Boa Fé. Classificada e recuperada há década e meia, necessita de urgente controle da vegetação que a cobre. Estrutura do Século XVI, dá o nome ao moinho vizinho...
Passagem no Monte das Figueiras, a caminho da Anta Grande do Zambujeiro

A gigantesca "mamôa" da Anta Grande do Zambujeiro, vista de Norte
Um dos mais extraordinários monumentos pré-históricos nacionais (a Anta Grande do Zambujeiro) em eminente colapso estrutural. Sem menosprezar o acta de vandalismo o recentemente verificado no Côa  e que tantas notícias provocou, não se compreende que, a situação deste monumento (apesar de repetidamente denunciada localmente) não provoque uma "comoção" semelhante.

Já a caminho de Valverde através da Herdade da Mitra (Universidade de Évora)

Como é difícil não tropeçar nos "romanos", um marco miliário recordando que, algures por aqui perto passaria a estrada romana que unia Ebora ao porto de Salatia (Alcácer do Sal) e que serviria também a grande "villa romana da Tourega"
Cruzando a Ribeira à entrada de Valverde. Infelizmente a velha "venda" que ali nos recebia já fechou há algum tempo...

Área de descanso antes da subida ao Giraldo

Área de descanso antes da subida ao Giraldo

Na subida para o Giraldo, o novo cemitério de Valverde, projectado pelo Arquitecto José Luis Quitério e construído nos anos 80 do século passado para evitar o alargamento do antigo cemitério da Tourega com inevitáveis impactos sobre as ruínas romanas vizinhas

O impropriamente designado Castelo do Giraldo. De facto existem vestígios de uma muralha medieval, criando um recinto com os grandes blocos graníticos que existem no cume da colina. Escavações de Afondo do Paço e Fernandes Ventura no final dos anos 50, mostraram que este sítio, pela sua localização, teve ocupação desde a Idade do Cobre até à Idade do Ferro. Deverá estar relacionado com o vizinho Povoado da Corôa do Frade, com ocupação importante cerca de 1000 anos antes de Cristo.

Mais do que se pode ver no local, a subida ao Giraldo vale pelo magnífico panorama que se desfruta a Nascente. Na imagem, a Barragem da Tourega e o antigo cemitério da Tourega marcado por dois enormes ciprestes, e em último plano a colina de São Vicente sobre Viana do Alentejo

No cruzamento das Herdades, já na linha de cumeeira onde se localizam os Almendres. Mas ainda faltavam uns quilómetros para chegar ao Cromeleque
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A "Cruz do Preto", já muito próximo do Cromeleque. Um marco geodésico antigo (Século XIX, campanhas de levantamento cartográfico do General Filipe Folque?). Deve o nome a uma curiosa lenda que refere a fuga de um escravo negro da Mitra do qual só terão aqui aparecido as "botas". Há duas versões do final da lenda. Segundo uma teria sido devorado pelos loboas, segundo outra, teria deixado as botas para despistar eventuais perseguidores...


Já nos Almendres
E no Menir

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De regresso a Guadalupe, cerca de 20 quilómetros depois...

Uma ajuda para quem estiver interessado

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Revisitando os Ratinhos, dez anos depois...




Passam este ano dez anos sobre a última campanha das escavações dos Ratinhos, um projecto que conduzi juntamente com o Prof. Luis Berrocal-Rangel da UAM (Universidade Autónoma de Madrid), entre 2004 e 2007, com o apoio financeiro da EDIA dada a estreita relação topográfica existente entre este sítio e a vizinha Barragem do Alqueva.  Nestes dez anos, para além da edição da respectiva monografia (2010, Suplemento nº6 ao Arqueólogo Português), ainda foi possível nos primeiros tempos promover pequenas acções de manutenção do sítio, localizado em terrenos de propriedade pública. Uma tentativa de retoma da sua investigação através do lançamento de um novo projecto por uma equipa renovada ainda que coordenada com os anteriores responsáveis, acabou gorada por falta de garantia de financiamento. Do mesmo modo, os projectos de valorização com que a certa altura sonhámos, elaborados no quadro de um "Master Plan" encomendado pela EDIA para a zona da Barragem, acabaram também por também não sair do papel. Aliás toda a zona envolvente do chamado "paredão", se apresenta hoje com um aspecto desolador, contrastando com o elevado valor económico que representa hoje o Alqueva para a economia agrícola do país. Um pequeno cais e as estruturas de apoio à actividade de uma pequena empresa de turismo fluvial, são as únicas marcas de vida num espaço a aguardar melhores dias...

Vista aérea do Castro dos Ratinhos, em 2007, no final das escavações de A.C.Silva e Luis Berrocal-Rangel

Por razões profissionais tive oportunidade de passar muito recentemente nos Ratinhos. Apesar da falta de qualquer manutenção (sobretudo a partir de 2010), pude verificar que para além dos normais factores de degradação (desenvolvimento da vegetação endémica e actividade de alguns amimais, em especial dos javalis), o sítio no essencial mantem intacto o seu elevado potencial arqueológico, à espera que um dia possam reunir-se condições para que os arqueólogos que hoje se estão a formar aqui possam continuar as escavações na "acrópole" e nas várias linhas de muralhas identificadas há uma década. Mas para isso será necessário que a arqueologia se consiga finalmente libertar das grilhetas da desastrosa exclusividade da malfadada "arqueologia preventiva" em que se deixou aprisionar, criando-se as condições para que projectos autónomos de investigação pela investigação, possam de novo florescer e contribuir para o enriquecimento cultural do território.



As estruturas da Idade do Ferro (templo fenício?) da Acrópole. Em cima em 2007 e na actualidade.



Em cima instalando a sinalética (2007). A mesma na actualidade.

A muralha e o fosso (2007)
A muralha e o fosso (2017)

O plano de acessibilidades que estava previsto no plano de valorização (2007). Actualmente o caminho pedonal já não existe e o acesso a viaturas está barrado por uma vedação.

quinta-feira, 6 de abril de 2017


Afinal “eles” andavam por aí há 400 000 anos…



A notícia tem já alguns dias e quando surgiu teve um impacto mediático considerável, quer nos meios convencionais (jornais e televisão) quer nas redes sociais. Julgo que teve mesmo ampla divulgação a nível internacional, tendo-me chegado ecos dos EUA, da parte de conhecidos que nada têm que ver com a Arqueologia. notícia no Público; e nos USA

Estou-me a referir à divulgação, não da descoberta (pois essa aconteceu há três anos) mas dos resultados da morosa investigação de laboratório entretanto realizada e que permitiu recuperar no interior de um bloco de calcite recolhido na das Gruta da Aroeira que integra a rede de cavidades do Almonda (Torres Novas), parte de um crânio humano com cerca de 400 000 anos, datação confirmada quer pelos métodos laboratoriais de datação absoluta, quer pelos métodos tradicionais de datação relativa em função do contexto arqueológico associado ao achado em causa.
Bifaces acheulenses (Paleolítico inferior) associados aos restos antropológicos da Gruta da Aroeira

Entretanto e como é habitual, a notícia perdeu-se logo no dia seguinte no turbilhão mediático dos dias correntes, não dando sequer tempo a que, mesmo o público eventualmente mais interessado ou curioso, se apercebesse do excepcional alcance de tal descoberta. É certo que estamos já de sobreaviso para os habituais títulos “bombásticos” que costumam acompanhar as notícias de arqueologia e, devemos assumi-lo, nem sempre a culpa é dos jornalistas. São demasiado frequentes para serem levadas a sério, as descobertas ”únicas” ou os “achados do século”, gerando compreensível desconfiança ou desinteresse nos interlocutores. Neste caso, porém, pelo menos para os arqueólogos portugueses, este achado não pode deixar de ser visto como absolutamente extraordinário, e passarei a explicar porquê.

O aparecimento em França e Inglaterra no início do Século XIX de artefactos de pedra lascada associados a espécies há muito extintas e em estratos geológicos cuja antiguidade era já possível comprovar, abriu caminho a descobertas semelhantes um pouco por toda a Europa, rompendo finalmente com o espartilho das tradicionais cronologias bíblicas. Em Portugal, caberia aos pioneiros da Comissão Geológica, como Nery Delgado, Carlos Ribeiro ou Pereira da Costa, no âmbito dos trabalhos de levantamento geológico do território promovidos pelo Fontismo, introduzir a nova corrente de conhecimento, provando que no nosso território também eram evidentes os vestígios dessa humanidade pré-histórica que então se começava a descobrir. De tal modo as suas descobertas seriam reconhecidas que em 1880 reunir-se-ia em Lisboa a IX sessão do Congresso Internacional  de Antropologia e Arqueologia Pré-histórica, considerado pelo número e qualidade dos participantes e alcance das comunicações, como um marco no desenvolvimento da arqueologia pré-histórica europeia.

Ilustração do estudo de Pereira da Costa sobre o concheiro do Cabeço da Arruda (Muge), 1865. Restos humanos post-paleolíticos
Os Congresisstas de 1880 (foto do arquivo do Museu dos Serviços Geológicos)

A partir dessa data, ainda que fundamentalmente na órbita dos Serviços Geológicos, a recolha e o estudo de artefactos de pedra lascada paleolíticos, até como forma complementar de datação das formações geológicas quaternárias de origem fluvial ou marinha, passaria a ser uma prática corrente no âmbito da arqueologia portuguesa, contribuindo progressivamente para a noção de que o ocidente peninsular, à imagem do que se passara na Europa, fora durante muitos milhares de anos testemunha da presença de sucessivas raças humanas, cobrindo todas as grandes fases conhecidas da Pré-história antiga. Em determinadas épocas, algumas circunstâncias propícias haveriam até de contribuir para saltos qualitativos para esse reconhecimento, conferindo especial destaque aos estudos paleolíticos portugueses. Foi o que aconteceu em resultado da estadia algo forçada do Abade Henri Breuil (o Papa da Pré-história) em Portugal durante a II Guerra Mundial. Breuil que, já anteriormente no âmbito de uma presença atribulada na fronteira do Caia em 1916 (chegou a estar preso pela GNR que desconfiou da presença dum estrangeiro de "sotaina" perto da fronteira), descobrira em Arronches artefactos paleolíticos que publicaria mais tarde no Arqueólogo Português, realiza nos anos quarenta com Georg Zbyzewski, o estudo sistemático dos materiais recolhidos nos terraços de origem quaternária da costa portuguesa (praias elevadas) e do vale do Tejo (terraços fluviais), estabelecendo o quadro geral da “evolução da ocupação paleolítica" do nosso território.


Ilustração da obra de Breuil e Zbyzewski. Materiais de Alpiarça (Vale do Forno)



Ilustração da obra de Breuil e Zbyzewski- foto dos terraços de Alpiarça ( Vale da Caqueira e Vale de Atela)

Escavações de Luis Raposo, um dos elementos do GEPP no Vale do Forno (Alpiarça- anos 90) meio século após os estudos de Breuil e Zbyzewski

Tal “quadro geral” que continuaria a ser seguido até aos anos 70 do século passado, apresentava no entanto alguns problemas complexos. Ainda que a origem humana dos muitos milhares de artefactos recolhidos fosse de uma maneira geral incontestável, a sua classificação cronológica baseada quase exclusivamente na sua forma (tipologia) e no grau de patine, já que raramente resultavam de escavações estratigráficas, colocava muitas dúvidas. No que respeita à tipologia, sabemos que as formas e técnicas, uma vez adquiridas, tendem a prolongar-se no tempo, e o grau de patine, não depende afinal apenas do factor tempo… Uma das grandes questões em aberto (e ainda hoje não esclarecida) era a da eventual presença no nosso território de vestígios anteriores ao Acheulense (um momento já muito avançado no Paleolítico Inferior e a que correspondem os últimos achados do Almonda) rastreados pela presença de artefactos, aparentemente muito primitivos, feitos sobre seixos rolados…

Mas a par das interrogações metodológicas e teóricas levantadas por uma nova geração de jovens arqueólogos congregada em torno de Vitor Oliveira Jorge a partir dos anos 70, sobre esta "Geração do Tejo" ver aqui , o grande “buraco negro”da arqueologia paleolítica portuguesa, era desde sempre, a quase absoluta ausência de vestígios antropológicos. É verdade que os pioneiros da Comissão Geológica se depararam desde cedo, quer nas Grutas do Oeste (Furninha e Cezareda), quer ao ar livre, nos célebres concheiros de Muge, com restos osteológicos do homem pré-histórico. Mas também é certo que rapidamente se deram conta, pelos materiais em contexto, que esses vestígios não correspondiam à fase mais arcaica do Paleolítico ou da Pedra Lascada. Mesmo ao longo do Século XX e apesar de numerosas intervenções em Grutas, quase sempre usadas no Neolítico como necrópoles, os vestígios paleolíticos eram raros e os de natureza antropológica estavam sistematicamente ausentes. Um dente descoberto na Gruta Nova da Columbeira (Bombarral) nos anos 60, associado a uma ocupação do Paleolítico Médio, contemporânea da presença Neanderthal, era afinal a tímida excepção que confirmava esse vazio quase absoluto.

E nem a tal nova geração apesar de abrir novas frentes de pesquisa, nomeadamente na zona de Tomar e Torres Novas, a partir dos anos 80 do século passado, parecia capaz de alterar este panorama. Nos terraços quaternários do Ródão, onde na sequencia do afundamento da Arte Rupestre pela Barragem do Fratel, se concentraram numa primeira fase, seriam identificados e estudados com novas abordagens, sítios de grande relevância para o conhecimento do Paleolítico Inferior (Monte do Famaco) e Médio (Vilas Ruivas, que revelou pela primeira vez estruturas de um acampamento paleolítico, raras mesmo a nível internacional e Enxarrique, com vestígios de fauna extinta.

Escavação das estruturas de acampamento de Vilas Ruivas (1980)
Remontagem no Museu de Castelo Branco das estruturas de acampamento escavadas em Vilas Ruivas (1981). Ao centro João Zilhão

As circunstancias da vida e os condicionalismos da própria actividade arqueológica, encarregar-se-iam de dispersar por muitas outras áreas e interesses, os membros do GEPP, o grupo de jovens que sonhara nos anos70/80 finalmente preencher o tal “buraco negro” do nosso Paleolítico. Mas a semente que lançaram acabaria por, muito mais tarde, dar os seus frutos.  Conscientes das limitações da arqueologia paleolítica ao ar livre, onde raramente se conjugam circunstâncias favoráveis a uma preservação mínima de registos com tantos milhares de anos, alguns elementos já então liderados por João Zilhão, orientaram o seu interesse para as cavidades existentes na região de Tomar e Torres Novas. Décadas de pesquisa pouco conhecida do público, vieram trazer novos dados para uma melhor caracterização das sucessivas fases do Paleolítico do território português, permitindo até o reenquadramento de muitos materiais recolhidos na Estremadura ainda na primeira metade do século XX por Manuel Heleno (sucessor de Leite de Vasconcelos no Museu Nacional de Arqueologia) e que nunca haviam sido publicados. O quadro geral da presença paleolítica no nosso território tornava-se cada vez mais preciso mas, teimosamente, o Homem físico continuava totalmente ausente, apesar de novos indícios neanderthais terem surgido nos anos 80 numa pequena gruta de Sesimbra (Figueira Brava). E nem as espectaculares descobertas das manifestações artísticas paleolíticas no Vale do Côa em 1994, confirmando as do Escoural décadas antes, podiam ser associadas a uma qualquer presença antropológica concreta.

Os primeiros sinais de que as coisas poderiam estar a mudar ocorreram no Natal de 1998, praticamente no final do Século XX, quando elementos da equipa técnica de Zilhão, em trabalhos de prospecção detectaram no abrigo sob rocha do Lagar Velho, próximo de Leiria, um esqueleto quase completo (provavelmente uma sepultura intencional) de uma criança pré-histórica, “o menino do Lapedo”. A meticulosa investigação então empreendida por Zilhão e que viria a contar com colaboração internacional especializada, viria a determinar uma data (24 500 aC) que colocava o esqueleto nos alvores do Paleolítico Superior mas que, do ponto de vista antropológico, levantava a hipótese polémica, de se estar perante um indivíduo produto do cruzamento entre neanderthal e homem moderno. Apesar das críticas à interpretação avançada, esta era uma descoberta absolutamente excepcional que, finalmente, vinha dar algum conteúdo antropológico, a século e meio de intensas pesquisas paleolíticas. Mas, com mais ou menos traços arcaicos, a criança do Lagar Velho, era já um antepassado relativamente próximo, deixando ainda no escuro centenas de milhares de anos de presença humana inequívoca mas antropologicamente invisível.

É essa lacuna que, por fim, a anunciada descoberta de Zilhão e da sua equipa veio agora preencher, precisamente numa das grutas do complexo do Almonda onde paciente e incansavelmente vinha trabalhando desde os anos 80, mostrando que em ciência tudo está sempre em aberto. Com efeito o crânio “Aroeira 3 “(Aroeira 1 e 2 correspondem a dentes isolados), remete-nos para uma data concreta (400 000 aC), bem dentro do Paleolítico Inferior e para uma humanidade inequivocamente pré-Neanderthal. Trata-se desde logo do mais antigo antepassado humano, jamais descoberto no nosso território, e até hoje o único indivíduo que podemos directamente responsabilizar, pela produção de grande parte dos inumeráveis artefactos paleolíticos recolhidos ao longo de mais de século e meio de pesquisa arquelógica nacional.