segunda-feira, 13 de março de 2017

LARZAC


O "disco-memória" da manifestação de 1973 

Larzac 74 (Foto ACS)

"Larzac"...Esta palavra pouco dirá hoje à maioria das pessoas (trata-se de uma região francesa, próximo de Bergerac) e mesmo procurando na Internet é preciso saber o que se busca para não ficarmos pela geografia turística; mas nos anos 70 do século passado "Larzac" foi sinónimo de luta política não violenta, sendo actualmente considerado como um marco no nascimento dos movimentos de luta ecológica. No site  Global Nonviolent Database é possível encontrar um resumo histórico sobre este movimento, desde 1971, quando o Ministro da Defesa francês decidiu alargar o Campo Militar do Larzac de 3 000 para 17 000 hectares, à custa da expropriação forçada de uma centena de explorações agrícolas, até 1981 quando o Presidente eleito Mitterrand finalmente reverteu aquela decisão. 
Larzac 1974- Banca de apoio à luta do povo chileno (Foto ACS)
Mas o que é que o Larzac tem que ver com um blog de memórias arqueológico-patrimoniais? É que, na sequencia de uma primeira experiencia de arqueologia em França em 1973, ainda como estudante (em Pincevent, Montereau, sob a direcção de André Leroi-Gourhan), tive oportunidade de regressar de novo a França, nesta ocasião um pouco mais a Sul (Haute-Garonne), para participar nas escavações de uma pequena gruta pré-histórica (La Tourasse, Saint-Martory) no âmbito de um projecto conduzido por Michel et Éliane Orliac, um casal de arqueólogos antigos alunos de Gourhan, que conhecera em Pincevent. Ainda que essa aventura peri-pirenaica aqui mereça, oportunamente, registo mais detalhado hoje por motivação musical (decorrente da re-arrumação da pequena colecção de discos de vinil que guardo em casa e onde existem alguns exemplares alusivos então adquiridos) é o LARZAC que quero recordar. Até porque reencontrei também as fotos que então fiz (slides) e que aproveitei para digitalizar e aqui divulgar, numa reportagem com 43 anos de atraso.

Aspecto geral da manifestação de 1974 (Foto ACS)
O ambiente "à Woodstock" é notório. (Foto ACS)
Com efeito, num fim de semana das escavações, Michel e Éliane, ex-activistas do Maio de 68, propuseram que toda a equipa fosse a Larzac, correspondendo ao apelo "Tous au Larzac", onde estava marcada a 17 e 18 de Agosto, uma grande manifestação de apoio à luta dos camponeses. Coube-me na logística da viagem acompanhar uma estudante local, num velhíssimo e muito francês "dois cavalos", que apesar de vários percalços (incluindo a quebra do cabo do acelerador rapidamente subsituido por uma arame) resistiu aos 500 km de ida e volta... Quanto à manifestação (segundo os créditos históricos, a maior jamais realizada no Larzac, com mais de 100 000 presenças), e apesar do meu baptismo político ter acontecido três meses antes em Lisboa com o histórico 1º de Maio de 1974, a experiência acabaria por ser inolvidável. O local onde esta teve lugar, era um planalto inóspito e longe de tudo, situação que era agravada por uma organização e logística mínimas. Aliás, as "organizações" aderentes, tirando partido da situação, eram claramente dominadas por anarquistas e trotskistas, logo secundadas pelas maoístas (incluindo uma pequena "banca" do MRPP, a única presença portuguesa "organizada" que vislumbrei...). Salvava a situação a organização dos camponeses locais, no que respeita ao estabelecimento de um mínimo de ordem, indispensável na gestão de uma multidão no deserto. Foram aliás os camponeses do Larzac, os primeiros e últimos interessados no que ali estava verdadeiramente em causa que, recorrendo a máquinas agrícolas, salvaram François Mitterrand (então Presidente do PS francês, na oposição) de apanhar uma valente sova dos anarcas que, ao aperceberem-se da sua presença em Larzac (sim Miterrand também apareceu, penso que no dia 18 de Agosto) o perseguiram durante largos minutos com ameaçadoras palavras de ordem "Mitterrand, rappelle toi l'Algérie", recordando-lhe à exaustão o papel que tivera na repressão aos nacionalistas na guerra da independência argelina, duas décadas antes.

Prova da única presença organizada portuguesa: a bandeira do MRPP (Foto ACS)


Até porque a música também esteve presente na noite de 17 para 18, dir-se-ia que estas grandes manifestações do Larzac (72, 73, 74) e os gigantescos acampamentos associados (onde tudo podia acontecer...) foram uma espécie de Woodstock europeu, ao contrário. Primeiro a política e só depois a música e a diversão meio psicótica...  No entanto, pelo menos em 1974, a componente musical não deve ter sido particularmente interessante. De facto, para além da presença de grupos musicais chilenos recém-exilados na Europa na sequencia do golpe de Pinochet e que tantas vezes veríamos actuar no Portugal do pós 25 de Abril, recordo apenas ter finalmente sido vencido pelo cansaço, ouvindo uma longa e monótona intervenção de um grupo masculino basco que cantando "a capella", me fazia lembrar  (ainda que em ritmo bem mais lento...) o distante cante alentejano...
Cartaz de um filme recente sobre o movimento do Larzac (2011)

A luta dos camponeses do Larzac prolongar-se-ia por toda a década, nos tribunais e no terreno, chegando estes a marchar sobre Paris com as suas máquinas agrícolas e a acampar sob a Torre Eiffel. Apenas terminaria em 1981 com a eleição de Mitterrand  para a Presidência da República francesa. E apesar do susto com os "anarcas", de que fui testemunha directa em 1974, este cumpriu a sua promessa. Hoje, segundo percebi por notícias relativamente recentes que encontrei na NET, a pressão dos interesses militares coloca-se de novo no Larzac, ainda que com contornos diversos.  ver aqui


Um dos discos que comprei no Larzac, também em apoio da causa chilena.




A minha reportagem fotográfica da Manifestação de 17/18 de Agosto de 1974, no Larzac

















quarta-feira, 8 de março de 2017

A minha faca de Toledo




Enquanto arqueólogo, tenho alguma dificuldade em abstrair da apreensão do "artefacto" para além do seu contributo para a definição de uma qualquer categoria tipológica e funcional (qual arquétipo material), esquecendo quase sempre a sua dimensão individual, enquanto objecto único, fabricado e usado por indivíduos concretos num determinado espaço físico e num contexto temporal mais ou menos longínquo. Identificado o tipo em causa, catalogado e devidamente encaixotado, o artefacto perde a sua importância específica, a não ser que congregue também um valor estético que lhe confira uma especial mais valia contemplativa que justifique a sua exposição museológica. 

Resulta esta breve reflexão de um detalhe observado por acaso num diapositivo pessoal, com quase meio século, e que recentemente digitalizei. Trata-se da foto de um grupo à mesa, obtida em França no verão de 1974, numa quinta nos arredores de Saint-Martory, onde se alojava a equipa das escavações da Gruta de La Tourasse então em curso e nas quais eu participava a convite do arqueólogo Michel Orliac. Enquanto fotógrafo, não apareço na imagem, pelo que o prato em primeiro plano só pode ser o meu. Nele reconheço uma "faca de mato" que ainda hoje conservo e que, milagrosamente, tem sobrevivido às sucessivas purgas caseiras de velharias mais ou menos inúteis. Para além da circunstância pouco "civilizada" de estar a usar tal instrumento à mesa (pecadilhos de juventude!), este reconhecimento de um objecto concreto acabou por despoletar outras memórias associadas.
Jantar em Saint -Martory, Haute-Garonne (Junho de 1974), da equipa das escavações de La Tourasse. Em primeiro plano, o meu prato e a faca toledana...

A faca em causa foi adquirida em Toledo no Verão de 1973, no decurso de uma viagem arqueológica com o Mário Varela Gomes e o Francisco Sande Lemos, feita num velho mas imponente Peugeot que o Mário herdara do pai e que, apesar de alguma vetustez, dava nas vistas no trânsito de Madrid então dominado pelos pequenos e omnipresentes SEATs. Apesar de termos aproveitado a viagem para algum turismo arqueológico (data dessa altura a minha primeira visita ao Museu Arqueológico de Madrid, na Calle Serrano, que apresentava na altura, no jardim exterior, uma tosca réplica da sala dos touros de Altamira) o nosso principal objectivo era participar nas escavações paleolíticas de Pinedo, dirigidas por Maria de los Angeles Querol numa antiga saibreira nas margens do Tejo, junto a Toledo. A Maria Queirol, natural de Badajoz, para além de uma ligação pessoal muito estreita a Portugal (a família mantinha uma casa de férias na Praia das Maçãs) estabelecera estreitos laços de amizade com os elementos do GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português)  ver aqui e  aqui também . Ainda como estudante e posteriormente como assistente da Universidade Complutense de Madrid (onde é há muitos anos Professora Catedrática), colaborara em vários projectos de arqueologia em Portugal, sendo uma das arqueólogas presentes no Fratel, no dia em que se reconheceu a existência da Arte Rupestre do Vale do Tejo. Era aliás do Ródão que em particular o Mário e eu próprio (que não integráramos as origens do GEPP) a conhecíamos, pois por várias ocasiões a Maria e algumas alunas (hoje arqueólogas distintas em Espanha) vieram dar uma ajuda nos intensos trabalhos de salvamento arqueológico ali promovidos pelo GEPP entre 1971 e 1974. 

Uma foto de grupo do GEPP (1970?) no Museu Nacional de Arqueologia. A Maria Querol é a terceira em pé, a contar da direita, entre o Luis Raposo e o saudoso Eduardo Cunha Serrão

Naturalmente, da estadia em Toledo e das incursões às lojas turísticas do centro histórico, onde abundavam os artefactos supostamente fabricados com o lendário "aço toledano", resultou a aquisição da "faca de mato" em causa. Hoje em dia, com a paranoia securitária dominante, não sei se será muito adequado alguém passear-se com tais instrumentos. De qualquer modo, a velha faca de Toledo há muito que perdeu a sua função, até porque tem no seu curriculum uma história algo recambolesca verificada poucos anos depois também na zona do Ródão, algures entre 75 e 76, durante uma das várias campanhas de escavação realizadas em Vilas Ruivas. Com efeito, numa excursão arqueológica de fim de semana, em que com vários participantes nas escavações procurávamos rever as gravuras rupestres de São Simão (na margem esquerda do Tejo, próximo de Montalvão), fazendo para isso a "corta-mato" e a pé, o longo percurso entre o Ródão e a aldeia de Perais, onde cruzávamos o Tejo, graças ao barqueiro Carepa, eu e o Francisco Sande-Lemos, acabámos momentaneamente "detidos" por uma patrulha da Guarda Republicana (que se deslocava também a pé...), por posse de "armas"... Além da minha "faca de mato", o Sande Lemos, trazia à cintura um "perigoso" martelo de geólogo e por mais que se esforçasse não conseguia convencer os guardas de que se tratava de um "instrumento científico"... Afinal o mal entendido acabaria por se resolver sem necessidade de interrompermos a nossa excursão arqueológica e nos dirigirmos todos para o "posto", a pé. Algum dos raros moradores da pequena aldeia do Salgueiral que atravessáramos algum tempo antes assustara-se com o aspecto pouco rural do grupo, reforçado pelo ambiente crispado que se vivia na época (estávamos em pleno PREC) e telefonara para a GNR do Ródão que enviara uma patrulha no nosso alcance, temendo que integrássemos alguma brigada de "incendiários". Apesar de inconsequente, embora por vezes algo mitificado e ampliado nas narrativas de alguns dos envolvidos...este evento terá sido determinante na passagem à "reserva" da velha faca de "aço toledano"...

A minha faca de Toledo, há muito "reformada"...


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

"Monument Man"



Hoje o Facebook recordou-me um post de há três anos, alguns meses antes de me iniciar na "blogosfera". Apesar do carácter mais sintético do texto, mais ao estilo "facebookiano" (passe o neologismo), pareceu-me boa ideia aqui deixar nota de um tema que, por várias razões, me interessa particularmente. Apenas uma nota de actualização. Tive posteriormente ocasião de ver o "Monument Man", ainda que na versão vídeo, e corroboro inteiramente a opinião do meu colega António Valera que então comentara, a propósito, que o filme estava muito à quem das suas expectativas...

"Ainda não tive oportunidade de ver o último filme do G. Clooney "Monument Man" (aliás, desgraçadamente, não há cinema comercial em Évora há alguns anos...) mas estou com bastante curiosidade. No Natal de 1998, ao vaguear por uma livraria da Amadora (que já não existe) encontrei um livro que me despertou a atenção: "Europa saqueada-O destino dos tesouros artísticos europeus no Terceiro Reich e na Segunda Guerra Muncdial" da norte-americana Lynn H.Nicholas, em edição brasileira (Companhia das Letras, 1996) com uma foto na capa do conhecido historiador de arte René Huyghe (1940) mostrando as grandes galerias do Louvre vazias. O tema do saque nazi e da salvaguarda dos bens artísticos durante a 2ª Guerra Mundial não me era desconhecido. Através da leitura das memórias do arqueólogo André Leroi-Gourhan (que ainda conheci pessoalmente no Verão de 1973, nas escavações de Pincevent) antigo membro da Resistência Francesa, tinha-me apercebido dos dramas vividos pelos conservadores dos museus europeus na salvaguarda dos tesouros artísticos que lhe estavam confiados. Quem hoje sabe que as mais valiosas pinturas do Prado, estiveram guardadas perto da fronteira francesa e que antes do fim da Guerra Civil espanhola foram levadas e mostradas numa grande exposição em Genebra? Em conclusão, li as 500 páginas do livro de Lynn quase de uma assentada e ainda que, certamente não tenha pensado nisso na altura, estou certo que o tema dará um grande filme. Espero que o meu filho David, o meu "movies dealer" (!?) não se atrase na "entrega"...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

O CROMELEQUE DOS ALMENDRES 
de novo na Assembleia da República

Na sequencia de uma moção aprovada na Assembleia de Freguesia da Tourega e de Guadalupe de 11 de Dezembro último sobre a situação "inexplicável" do CROMELEQUE DOS ALMENDRES de ausência de toda e qualquer forma de gestão e salvaguarda e cujo texto abaixo transcrevemos, o Bloco de Esquerda manifestou interesse pela situação, tendo sido solicitada à Junta uma reunião e uma visita ao Cromeleque dos Almendres, que ontem mesmo se concretizou com a presença do Deputado Jorge Campos. A União de Freguesias, através dos seus representantes (Presidente do Excecutivo e da Assembleia) teve assim oportunidade de manifestar de viva voz ao Deputado Jorge Campos, as suas preocupações relativamente à situação de indefinição presente e futura sobre deste monumento nacional, (ainda ameaçado por um "PIN turístico e um PIN mineiro...) dada a sua localização em propriedade privada e o desinteresse dos proprietários em assegurarem uma gestão que, em nossa opinião, deveria ser preferencialmente garantida pela administração pública competente, dado o seu cariz Nacional.

O Deputado (BE) Jorge Campos nos Almendres, ontem, 20 de Fevereiro de 2017


Texto da Moção aprovada em 11 de Dezembro de 2016:

Moção

A Assembleia da União de Freguesias de Nª ª da Tourega e Nª Sª de Guadalupe, reunida em sessão ordinária no dia 11 de Dezembro, tendo tomado conhecimento dos resultados inconclusivos das diligências efetuadas pelo executivo da freguesia junto dos proprietários da Herdade dos Almendres, relativamente à precaridade da presente situação do monumento nacional “Cromeleque dos Almendres”, deliberou:

1.       Manifestar publicamente a preocupação dos membros eleitos, relativamente à situação de total indefinição no que respeita à gestão e à salvaguarda de um dos principais monumentos pré-históricos do território português, o Cromeleque dos Almendres, visitado diariamente por centenas de turistas, sem qualquer regra ou controle por parte de qualquer entidade pública ou privada.

2.       Lamentar a ausência de acordo da parte dos proprietários da Herdade dos Almendres à proposta de modelo de gestão do monumento sugerida pela União de Freguesias, situação agravada pela ausência, tanto quanto é do conhecimento público, de qualquer solução alternativa por parte dos próprios proprietários.

3.       Mandatar o executivo da União de Freguesias, no sentido de este alertar as entidades com responsabilidades legais na salvaguarda do património cultural, nomeadamente no património classificado como “nacional”, sobre as graves ameaças que nas presentes circunstâncias, se colocam à salvaguarda deste monumento e à segurança dos milhares de visitantes que o procuram.

4.       Lembrar que, nos termos da Lei de Bases do Património Cultural, compete às entidades competentes da Administração Pública, a tomada de todas as medidas que a salvaguarda de um Monumento Nacional exijam, incluindo a sua expropriação, caso se conclua que essa é a solução mais adequada à sua proteção.

5.       Dar amplo conhecimento público desta tomada de posição da Assembleia de Freguesia, através de nota a enviar à Câmara Municipal, à Direção Regional de Cultura do Alentejo, aos Grupos Parlamentares da Assembleia da República e à Comunicação Social.


Guadalupe, 11 de Dezembro de 2016



Naturalmente, esta situação não é só de hoje e arrasta-se praticamente desde a identificação do monumento há 53 anos, por Henrique Leonor de Pina. Já nessa altura (1964) apenas a intervenção da Junta Distrital de Évora, permitiria a realização dos primeiros trabalhos arqueológicos no local, face às dificuldades levantadas pelo proprietário de então (Eng. Miguel Soares). De realçar que a recuperação do monumento e a construção do acesso, apenas viriam a ser viabilizados e assumidos pela Câmara Municipal de Évora nos anos oitenta, numa época em que a propriedade fazia parte da Cooperativa de Guadalupe.

A visita do Deputado Jorge Campos aos Almendres, fez-nos entretanto recordar uma outra intervenção da Assembleia da República de quase há três décadas e também já relacionada com esta problemática, protagonizada pelo saudoso Deputado do PCP, Lino de Carvalho (1946-2004), secundado pelo Deputado José Manuel Mendes. Lino de Carvalho, com quem me cruzava  nessa época amiúde em Évora, e com quem discutia estas questões, interpelava em requerimento o Ministério da Agricultura sobre uma iniciativa que partira da própria Secretaria de Estado da Cultura (então sob a titularidade de Teresa Patrício Gouveia), e que visava a salvaguarda para o domínio público de alguns monumentos nacionais localizados em Herdades que estavam prestes a ser devolvidas aos proprietários no âmbito do desmantelamento da "Reforma Agrária". Nessa situação, entre outros, encontrava-se o Cromeleque dos Almendres. No afã de completar a sua "tarefa", o mais rapidamente possível, o Ministro da Agricultura de então, Álvaro Barreto, ignorou a proposta do próprio Governo, adiando para data posterior à entrega das propriedades, a resolução do "problema". O que, como é público e notório, com uma única excepção (Gruta do Escoural, após pesada indemnização aos proprietários pelo cancelamento da exploração de mármore em 1963), nunca veio a acontecer...

Texto do requerimento dos Deputados Lino de Carvalho e José Manuel Mendes (7 de Julho de 1989)






Insistência do Presidente do IPPC (Eng. António Lamas), já depois do requerimento dos deputados do PCP, solicitando de novo a intervenção da Secretária de Estado da Cultura, junto do Ministro da Agricultura, para que este revisse a sua posição de indeferimento da proposta de "salvaguarda para o domínio público" dos monumentos nacionais localizados nas Herdades a devolver.




domingo, 19 de fevereiro de 2017


A IGREJA DA ESTRELA (Moura)

A Igreja da Estrela, visitada por estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, na "semana santa" de 1975. Ao centro o João Ludgero, à esquerda a Maria João Coutinho, admirando os frescos da abóbada, e o José Mateus, de costas.

Digitalizando antigos "slides", alguns já com grandes perdas de cromatismo para além de outras maleitas, encontrei há dias duas fotos, sem legenda ou data, do interior de uma igreja que me parecia familiar. Ampliando as imagens acabei por reconhecer nelas três colegas (O Zé Mateus, a Maria João Coutinho e o João Ludgero), o que me permitiu datar e localizar a situação retratada. Com efeito, aquelas fotos foram obtidas na Igreja da aldeia da Estrela, na semana santa de 1975, durante uma "expedição arqueológica" ao longo das margens do Guadiana, organizada pelo GEPP (Grupo de Estudos do Paleolítico Português) e na qual também participei. Esta actividade de campo, realizada numa velha viatura Land Rover da Faculdade de Letras ( http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/02/os-land-rovers-nas-minhas-memorias.html), tinha sido proposta pelo José Morais Arnaud (enquanto professor da nova cadeira de "Práticas Arqueológicas") e tinha já como motivação implícita, a problemática dos previsíveis e inevitáveis impactes sobre o património cultural decorrentes da construção da Barragem do Alqueva. Com um projecto que vinha dos anos 50, este empreendimento era nesta época já objecto de trabalhos preliminares (ao nível das engenharias e sem qualquer Estudo de Impacto Ambiental, conceito legal que ainda não existia em Portugal), como pudemos confirmar ao passarmos no local previsto para futura implantação da Barragem, entre os Ratinhos (Moura) e os Pardieiros, do lado de Portel. Pessoalmente, esta "expedição estudantil" acabaria por ter consequências futuras que estava então longe de adivinhar. De facto, eram como que os preliminares de uma velha e persistente relação com a Arqueologia do Alentejo que, com o passar dos anos, acabaria por se tornar permanente e que, entre 1996 e 2002 se focaria exclusivamente no território afectado pela inundação do Alqueva e cujas circunstâncias eu explico na introdução ao primeiro volume das Memórias d'Odiana (Salvamento Arqueológico no Guadiana, EDIA, 1999). 

Mas regressemos à Estrela, no já distante ano de 1975. Após prospecções nos terraços da zona do Xerez, não muito longe de Monsaraz, e onde localizámos alguns sítios com abundantes materiais líticos de superfície, (nomeadamente o Xerez de Baixo, onde com Luís Raposo,  realizariamos algumas sondagens dois anos depois) havíamos atravessado para a margem esquerda, pela velha ponte de Mourão.  Já então a passagem na aldeia da Luz era obrigatória, dada a ameaça pendente de inundação que no entanto só viria a concretizar-se três décadas mais tarde. A vizinha aldeia da Estrela, no contexto do Alqueva, foi sempre uma espécie de "enteada". Mais pequena e já então com poucos habitantes, a circunstância de não estar directamente ameaçada pela subida das águas (hoje é uma estreita península), tirava-lhe importância e visibilidade, face à omnipresente e mediática situação da Luz. Nessa Páscoa de 75, a nossa passagem prendia-se com a necessidade de chegar às margens do Guadiana, cujo perímetro inundável procurávamos explorar, tanto quanto possível. Dessa ocasional visita à Estrela recordo, apesar de tudo, uma aldeia com mais gente do que ali viria a encontrar vinte anos depois e que pelas razões do calendário religioso se concentrava naquele dia na envolvente da Igreja. Nesta, como se comprova pelo aparato dos andores observado na foto, tudo estaria preparado para a procissão do Senhor dos Passos que, no entanto, não se iria realizar por falta de Padre. O assunto era alvo de animadas conversas de rua, mas já não garanto que a falta do Padre resultasse de alguma circunstância fortuita ou se, pelo contrário, não seria um sinal dos tempos revolucionários que então atravessavam as planícies alentejanas, como parecia decorrer de alguns comentários menos ortodoxos, do género, "temos a nossa crença, não precisamos do padre para nada..."

O altar mor da Igreja da Estrela, em 1975

Só voltaria à Estrela duas décadas depois, quando as circunstâncias da vida determinaram que eu viria a coordenar os trabalhos de salvaguarda patrimonial e arqueológica a empreender no Alqueva, após a retoma das respectivas obras em 1996. A partir do escritório da EDIA em Mourão, tive então oportunidade de visitar frequentemente a Estrela. Apesar da aldeia não ser directamente afectada, a sua localização entre o Guadiana e a Ribeira do Alcarrache, colocava boa parte do seu território no centro do futuro lago, implicando a inundação de diversos sítios arqueológicos, com destaque para o povoado proto-histórico do Castelo das Juntas, identificado nos anos 30 pelo arqueólogo de Moura, Fragoso de Lima. Curiosamente, os seus já reduzidos habitantes, sentiam alguma "inveja" dos vizinhos da Luz, alvo de toda a atenção e futuros beneficiários de uma aldeia totalmente nova. De tal modo que, quando se colocou a hipótese de, com algumas terraplanagens, se precaver a remota hipótese das águas da Barragem poderem vir a atingir a soleira do cemitério local, os habitantes da Estrela (à imagem e semelhança do que se passou na Luz mas nesse caso por razões objectivas) viriam a exigir a trasladação dos seus mortos para um "cemitério novo"... Foi também num contexto de compensação da pequena aldeia da Estrela que eu viria a propor em 1997, uma intervenção de recuperação da própria Igreja da Estrela, imóvel que apesar do seu cariz rural, apresentava uma riqueza inesperada ao nível da pintura mural.

Contactados os meus colegas da então Direção Regional de Évora do IPPAR, a Igreja da Estrela seria objecto de um relatório preliminar assinado pela Margarida Botto, reconhecendo a importância artística da respectiva decoração mural e a necessidade da sua salvaguarda. Desse relatório, aliás, resultou a abertura do processo de classificação, processo que como é demasiado comum, só se completaria quinze anos depois, com a publicação da respectiva Portaria 213/2013 no Diário da República.
A Igreja da Estrela em 1997
















Felizmente, porém, a EDIA não esperou pela classificação para actuar. Nesse mesmo ano de 97, seria encomendado um primeiro diagnóstico sobre a situação da pintura à empresa Mural da História, empresa que nessa altura se ocupava também do estudo (e posterior destaque) da pintura existente na Igreja da Luz (de muito menor qualidade que a da Estrela). Esse estudo, no entanto, apontaria para a necessidade de previamente a qualquer actuação sobre os revestimentos murais, se proceder à recuperação das coberturas da Igreja e à consolidação estrutural da abóbada, que apresentava evidentes e perigosas fissuras. Começava assim a preparar-se uma intervenção de maior fôlego, muito reclamada localmente, cujo arranque demoraria ainda algum tempo e que passou pela contratação de um projecto de recuperação ao Arquitecto Nuno Lopes  (2002) e pela realização da respectiva empreitada de recuperação estrutural já em 2006. A conservação das pinturas, porém, arrastar-se-ia no tempo. E apesar do apoio dado pela EDIA à execução do respectivo Caderno de Encargos, pela documentação que consultei entretanto, verifiquei que a respectiva concretização só viria acontecer em 2013. Tratou-se de uma iniciativa da própria população, através da Comissão Fabriqueira da Igreja, realizada com o apoio da autarquia, certamente graças à sensibilidade e ao interesse do Vereador e arqueólogo, o meu amigo Santiago Macias, hoje presidente da Câmara Municipal de Moura.


Novas pinturas descobertas durante a intervenção de restauro (2013), dando conta de um retábulo pintado na parede fundeira do altar-mor., solução a que as comunidadades mais pobres do Alentejo muitas vezes recorriam, na impossibilidade de encomendarem dispendiosos retábulos de talha e pintura de cavalete

A Igreja da Estrela, na actualidade, em foto do SITE da Câmara Municipal de Moura








terça-feira, 14 de fevereiro de 2017


AS RUÍNAS ROMANAS DA TOUREGA
Um património de Valverde e Guadalupe, pouco valorizado

Tem este "blog" afinal, objectivos muito diversos, ainda que um fio condutor perpasse ao longo de todo ele. O culto da memória, seja ela colectiva ou pessoal, procurando à escala micro, constituir-se como um núcleo de registo documental que possa ser útil ou pelo menos interessante para quem, por acaso ou intencionalmente, acabe por tropeçar na multiplicidade de elementos que para aqui vou carreando: recordações pessoais, textos e imagens das mais variadas proveniências, documentos de imprensa dificilmente acessíveis, etc...

Sobre o património cultural da Tourega, antiga sede de freguesia, hoje pequeno lugar a duas léguas de Évora, onde a par das velhas pedras, apenas subsiste uma família já idosa, já aqui nos referimos várias vezes. 


A Igreja, de origem seiscentista, continua a ser o foco principal de interesse patrimonial deste local, cuja valorização poderia constituir-se como uma mais valia alternativa, à excessiva concentração na cidade de Évora, do foco turístico regional.. Mas não é o único potencial do sítio. Nas proximidades, escondidas pelo velho cemitério local, encontram-se as ruínas de uma importante Villa Romana, objecto de um importante projecto de escavação e valorização nos anos 80 e 90, mas hoje praticamente abandonada à sua sorte. A União de Freguesias de Valverde e Guadalupe, consciente da sua importância, a par de intervenções periódicas de limpeza, tem procurado chamar a atenção para o seu significado, promovendo várias iniciativas nesse sentido. 

Procurando contribuir para a urgente "redescoberta" deste sítio, aqui recordamos um artigo publicado no Público em Setembro de 1994, bem como um desdobrável (há muito esgotado) editado pela Câmara Municipal vai para duas décadas, na sequencia das escavações ali desenvolvidas por Luisa Ferrer Dias (já falecida), Catarina Viegas (hoje professora na Faculdade de Letras da Univ. de Lisboa) e Inês Vaz Pinto, actual responsável pelas Ruínas de Tróia (Grândola).