sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Da paternidade da Arqueologia Subaquática portuguesa




Seguindo oportunas sugestões divulgadas nas redes sociais, comprei a recente edição da VISÃO HISTÓRIA, (A grande aventura dos mares/ Naufrágios e Tesouros/ A evolução do mergulho e da arqueologia subaquática). Sabendo de antemão que por detrás da iniciativa estava o Alexandre Monteiro, tinha a garantia de dinheiro bem empregue e de leitura agradável para dois ou três serões. E não me enganei. Ainda não tive oportunidade de a ler na íntegra, mas o que vi até agora agradou-me sobremaneira, até porque o Alexandre Monteiro e os restantes co-autores, com destaque para o Filipe Castro, conseguem aquilo que, raramente vemos nos colegas arqueólogos "terráqueos". Conjugar o rigor com a actualidade dos dados e sua interpretação, sem excesso de jargão disciplinar, com um discurso de divulgação apelativo, capaz de cativar os leigos na matéria. Aconselha-se portanto a leitura, até porque este trabalho, nos dá uma perspectiva da época dos descobrimentos e do próprio país, tão surpreendente como inesperada, até para alguém como é o meu caso, que vem da área da História.

Acresce como mais valia a esta edição, na minha modesta e suspeita opinião, o reconhecimento do papel de FRANCISCO ALVES, (justamente apelidado de "pai da arqueologia subaquática em Portugal") na introdução, estruturação e desenvolvimento desta disciplina no nosso país. De facto havia estranhado o aparente "branqueamento" do seu papel na grande exposição do MNA sobre a Arqueologia subaquática em Portugal (O Tempo resgatado aos Mares), que revi muito recentemente no Museu Municipal de Viana do Castelo, onde ainda se encontra exposta. Segundo me explicaram, tal circunstância decorreu de exigência do próprio que, não concordando com alguns critérios seguidos, não quis o seu nome associado ao projecto ou ao respectivo catálogo. Desconheço os contornos da questão mas tendo trabalhado quase uma década com o Francisco, não me surpreende a justificação...

A exposição "O tempo resgatado ao mar", este Verão em Viana do Castelo
Detalhe da exposição no Museu Municipal de Viana do Castelo
Polémicas ou questiúnculas à parte, o nome do Francisco Alves, fica indelevelmente associado às transformações da arqueologia portuguesa (no seu todo e não apenas à subaquática) nas duas últimas décadas do século passado. Com um temperamento aventureiro mas carismático, que tantos dissabores lhe traria também, era sobretudo um construtor de projectos, capaz de congregar equipas de trabalho a quem sabia transmitir entusiasmo e dar objectivos. Não surgiu por acaso em 1980 à frente do Museu Nacional de Arqueologia, então a atravessar profunda e prolongada crise. Em quatro anos montara em Braga, em contexto pouco favorável, uma estrutura profissional inédita na paroquial arqueologia da época (Campo Arqueológico de Bracara Augusta), estrutura que nasceu para "salvar os vestígios romanos de Braga", ameaçados pelo urbanismo selvagem, mas que ainda hoje, quarenta anos passados, é o esqueleto da salvaguarda e investigação arqueológica naquela cidade.   ver a este propósito ou também aqui  Aliás seria com base nessa experiência que, confrontado por Vasco Pulido Valente, Secretário de Estado da Cultura de Sá Carneiro, imporia como condição para aceitar vir para a direcção do MNA, "carta branca" para a contratação (ainda que por destacamento do ensino secundário) de uma equipa de arqueólogos para consigo trabalharem.

O Primeiro-ministro Sá Carneiro chega ao MNA em 28 de Novembro de 1980 (cinco dias antes do desastre aéreo que o vitimou a 4 de Dezembro) onde é recebido pelo Director Francisco Alves, para a inauguração da Exposição "Tesouros da Arqueologia Portuguesa". Esta exposição, permitindo a reabertura do MNA em plena campanha eleitoral, era um dos compromissos de Francisco Alves e restante equipa para com o SEC Vasco Pulido Valente
Foi por essa via que toda uma "geração de jovens arqueólogos" (entre os quais me conto e que até então nunca ouvira falar do Francisco Alves) seria chamada à profissionalização até aí inexistente. No MNA, no novo Departamento de Arqueologia do IPPC e nos Serviços Regionais de Arqueologia (Norte, Centro e Sul), estes criados quase à imagem do Campo Arqueológico de Bracara Augusta. Aliás, no Norte, o Campo Arqueológico bracarense, sob a direção do Francisco Sande Lemos, serviria de incubadora do próprio Serviço Regional. Mas seria como director do MNA e do Departamento de Arqueologia do IPPC que finalmente Francisco Alves encontraria as condições para dar largas à sua paixão pelo mar (nascida na sua juventude em Algés) e pelos seus segredos arqueológicos. Sem prejudicar a reestruturação e reorganização do Museu, impostas pelo exigente "caderno de encargos" de Pulido Valente, o MNA serviria de estrutura de apoio técnico e logístico aos projectos que cedo inicia neste campo, nomeadamente o estudo do navio francês "L'Ocean", afundado perto da Boca do Rio, na costa algarvia. Fácil será calcular o grau de imaginação e improvisação que caracterizaram estas primeiras acções de "mar", em particular ao nível dos meios técnico-logísticos, mas que o Francisco sempre ultrapassava com desenvoltura, por vezes excessiva, e entusiasmo contagiante. Começa então a contar com algumas colaborações importantes e contribui para a formação prática dos primeiros arqueólogos com capacidades subaquáticas (ver a propósito aqui) num processo que não foi fácil nem linear. Já ao nível do Departamento de Arqueologia do IPPC, que eu passaria a liderar formalmente apenas em 1984 (embora na prática o Francisco há muito delegasse em mim a respectiva gestão corrente) a intervenção era de outro tipo. Por um lado de apoio financeiro, fazendo encaminhar para a Arqueologia Subaquática uma parte do bolo geral das verbas anuais da Arqueologia. Por outro, procurando o enquadramento jurídico-institucional de uma actividade que  estava então a dar os primeiros passos em Portugal. Tendo participado (sempre com os pés em terra firme) neste processo emergente, é pois com agrado e até algum espanto que dou conta, ao ler as páginas desta VISÃO-HISTÓRIA, do extraordinário caminho andado desde então. Mas numa altura em que se fala tanto de António Guterres (a propósito da sua eleição para Secretário Geral da ONU) importa recordar que o salto qualitativo aconteceu em 1996/97 com a criação pelo seu governo do IPA (Instituto Português de Arqueologia) e do respectivo Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, como corolário de todo o processo do Côa. Francisco Alves deixara já a direcção do MNA e dedica-se finalmente ao seu velho sonho de construção de uma estrutura pública inteiramente dedicada à Arqueologia Subaquática. O CNANS instala-se então nas antigas Oficinas Gerais de Material de Engenharia, a Belém, tirando partido das suas características técnico-logísticas para a instalação de um grande laboratório de conservação, incluindo os grandes tanques necessários ao tratamento das peças recolhidas no fundo do mar.
(ver aqui: http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/05/coches-e-arqueologos-seis-anos-depois.html).
O fim precoce do IPA, traçado desde o governo de Barroso e concretizado em 2007 pelo PRACE de Sócrates, arrastaria consigo a extinção do CNANS. Num primeiro momento assiste-se à sua extinção administrativa e, posteriormente, com o projecto do novo Museu dos Coches (o tal projecto cultural decidido pelo Ministério da Economia...) concretiza-se o seu desmantelamento físico. Quando no sentido testemunho que fecha esta excelente revista (e que tomei a liberdade de aqui reproduzir em facsimile), Francisco Alves denuncia a "demissão do Estado na tutela do património subaquático", ainda que não esqueça muitos outros problemas, é ao desmantelamento do (seu) laboratório, que se está a referir em particular.

Não me cruzo com o Francisco praticamente desde que, amargurado com todas estas tristes circunstancias, se aposentou já há alguns anos e a última vez que falámos foi ao telefone. Pedia-me então que lhe confirmasse algumas datas e factos pois andava a escrever as suas memórias profissionais. Oxalá a mão não lhe trema e cumpra mais esse projecto, pois o seu testemunho vai ser essencial para a história da arqueologia portuguesa entre 1974 e 2007, na terra e no mar.


As instalações do IPA e do CNANS em Belém, já com a "morte anunciada", pelo Ministério da Economia...






segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O "alaúde falso" e o regresso das "charamelas" à Sé de Évora

"Charamelas" ecoando na Catedral de Évora (2/10/2016), trezentos anos depois...

Como vem sendo habitual nos últimos anos, o último fim de semana foi inteiramente dedicado à Música da Escola (Barroca) da Sé de Évora, um dos tesouros escondidos desta cidade que, graças a esta iniciativa do Eborae Musica que já vai na sua XIX edição, vai saindo um pouco mais da sombra. Pena é que não se encontrem fórmulas mais regulares de mostrar ao grande público esta arte que, sobretudo quando recordada no seu ambiente arquitectónico original, nos proporciona uma experiência estético-patrimonial, verdadeiramente exuberante. O que muita gente desconhece é que esta música de cariz essencialmente litúrgico não era apenas "polifónica". Para além da possibilidade do acompanhamento dos cantores pelo órgão, a fórmula que por razões práticas mais perdurou, as intervenções musicais polifónicas poderiam também ser acompanhada por outros instrumentos, sobretudo em dias festivos, como tem sido a ser destacado ultimamente por vários musicólogos e como Paulo Estudante, da Universidade de Aveiro, tão bem nos descreveu em conferencia realizada nas Jornadas do ano passado. Neste contexto foi muito interessante, nestas XIX Jornadas a realização de um workshop sobre o uso das "charamelas", precisamente um dos instrumentos mais usados no acompanhamento das cerimónias litúrgicas, pelo menos até ao Século XVII. Foi orientador do referido workshop, o Arquitecto (pintor e músico) João Mateus, irmão do meu antigo colega de Faculdade, o José Mateus. Um dos membros mais antigos do GEPP (Grupo de Estudos do Paleolítico Português) também ele, entre muitas outras especialidades e actividades, um apaixonado pela Música Antiga, o Zé Mateus integrou a primeira equipa de arqueólogos convidada pelo Francisco Alves em 1980 para a renovação do Museu Nacional de Arqueologia e implementação do Departamento de Arqueologia do IPPC. O Zé Mateus, graças aos seus interesses pela Palinologia (em que se Doutoraria mais tarde), impulsionou a criação dos primeiros laboratórios de Paleoecologia na área da arqueologia que viriam a estar na origem do CIPA (Centro de Investigação de Paleo Ambientes) ao tempo do IPA, por sua vez antepassado do actual LARC da DGPC (Laboratório de Arqueo Ciências). Ora, já no início dos anos 80 o Zé Mateus tinha especial interesse pela música e tentava cativar os colegas do Museu e do Departamento de Arqueologia (que então funcionava também nos Jerónimos) para a prática musical. Chegou a organizar um grupo coral e lembro que ainda aconteceram alguns ensaios no final da jornada de trabalho, ainda que sem grande sucesso e continuidade (por culpa da dureza de ouvido dos colegas...). O Zé Mateus também se interessava já pela música instrumental antiga e a esse propósito a presença do irmão e das suas "charamelas" em Évora fez-me recordar uma história deliciosa. O Zé Mateus pretendia adquirir um "alaúde", mas o preço de um instrumento de qualidade era proibitivo, face aos elevados impostos alfandegários (ainda estávamos fora da CEE). Para contornar essa dificuldade imaginou um estratagema revelador de toda a sua vasta gama de interesses e recursos. Resolveu construir um alaúde (eventualmente com o apoio técnico do pai, Tomás Mateus, já falecido, conhecido pintor e engenheiro responsável no LNEC pelo respectivo laboratório de madeiras). Uma vez construído o "falso alaúde", terá saído com ele para Inglaterra, levando consigo o instrumento que declarou na alfandega. 

O Zé Mateus e o seu alaúde (verdadeiro) em imagem pirateada de "Terra Scenica"


Uma vez adquirido em Inglaterra o "verdadeiro alaúde", desfeche-se do "falso" (terá sido oferecido a uma companhia amadora de teatro, confessou-me o irmão quando recordávamos esta história incrível...) e regressou a Portugal com o "verdadeiro", livre de direitos... O Zé Mateus, já se aposentou e hoje, par além da velha paixão pela música, dedica-se com um dos filhos através de uma empresa que fundou (Terra Scenica) essencialmente à concepção e produção de jogos de computador de cariz histórico, como não podia deixar de ser...


O João Mateus ao centro e os participantes no workshop de "charamelas", fazendo o aquecimento na sacristia. De referir que o João Mateus fabrica os seus próprios instrumentos.

Ensaio já na Sé de Évora. O João está à direita.






quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Recordando Francisco Tavares Proença Júnior




Assinalando a passagem do centenário da morte do arqueólogo de Castelo Branco, Francisco Tavares Proença Júnior (1883-1916), a Associação dos Arqueólogos Portugueses, organiza dentro de alguns dias na sua sede do Carmo um colóquio de justificadíssima homenagem. Mas a Associação não se limita a recordar a figura do malogrado arqueólogo, falecido muito jovem mas já então com uma obra muito auspiciosa. Aproveitando a oportunidade, será feito um balanço sobre o conhecimento arqueológico da região (Carta Arqueológica do Distrito de Castelo Branco, contributos para uma revisão cem anos depois) pretexto para recordar o pioneirismo de Proença Júnior neste domínio fundamental para a salvaguarda do património arqueológico. Hoje considerada uma figura destacada entre os arqueólogos portugueses que na transição do Século XIX para o Século XX desenvolveram a sua acção a nível regional (a par de Estácio da Veiga, Rocha Peixoto ou Martins Sarmento) o seu nome e obra só não caíram no total esquecimento, graças ao Museu que fundou em Castelo Branco em 1908, e que de algum modo está nas origens do Museu Distrital que, muito justamente, ostenta o seu nome.

Felizmente, nos últimos tempos (vale mais tarde do que nunca) temos assistido a um movimento de recuperação e valorização desta importante personagem da Arqueologia portuguesa, que teve o seu ponto alto num Congresso Internacional de Arqueologia realizado em Castelo Bramco em 2008, promovido pelo Museu Tavares Proença Júnior e pela respectiva Sociedade dos Amigos do Museu. Comemorava-se então o Centenário da aprovação da criação do Museu que abriria as suas portas ao público em 17 de Abril de 1910. Nesse mesmo ano Proença Júnior editava o 1º nº da revista “Materiaes”, uma peça fundamental no tripé que sustentava a acção destes paladinos regionais da Arqueologia da época: investigação (arqueologia de campo), publicação científica (revistas especializadas), divulgação pública (museus). De referir que a publicação das Actas do Congresso de 2008 (Castelo Branco, 2010), e na qual tive a honra de colaborar (“O Ródão e a Arqueologia portuguesa do último quartel do Sèculo XX_ encruzilhadas de mudança”, pp. 81-106) assumiria num gesto pleno de simbolismo, o grafismo da centenária edição da revista “Materiaes”.

Actas do Congresso Internacional de Arqueologia, Castelo Branco, 2008

Congratulando-me com a oportuna iniciativa da minha Associação (AAP), configurando no centenário da sua morte, o reconhecimento nacional da figura do arqueólogo Proença Júnior, não posso no entanto esquecer que também neste campo devemos reconhecer os percursores. Quando há mais de 3 décadas o Francisco Alves, empossado como Director do Museu Nacional de Arqueologia (1980) decidiu relançar uma nova série da revista “O Arqueólogo Português”, cuja publicação estava há vários anos interrompida, socorreu-se essencialmente da equipa que com ele colaborava então na reorganização do Museu. Dela faziam parte vários dos jovens arqueólogos que haviam começado a sua carreira nas margens do Tejo, na zona de Vila Velha de Ródão, no âmbito do salvamento da Arte Rupestre do Tejo e que, no contexto desse projecto, haviam beneficiado da amizade e apoio do então Director do Museu de Castelo Branco, Dr. António Salvado. Talvez essa cumplicidade explique que no volume inaugural da sua IV série, surja um artigo de um “obscuro” colaborador daquele Museu, o meu amigo Joaquim Batista, dando conta de um “humilde” monumento megalítico da Beira Baixa, a Anta da Urgueira, escavado no início do Século XX por um “esquecido arqueólogo”, Tavares Proença Júnior, e cujos materiais permaneciam inéditos e quase perdidos nas reservas do Museu albicastrense. Hoje é consensual o reconhecimento do pioneirismo de Proença Júnior, mas há três décadas, poucos nos teremos apercebido da importância que um tal artigo tinha, não apenas para a divulgação da figura do arqueólogo Francisco Tavares Proença Júnior, mas sobretudo para a chamada de atenção para o vasto património arqueológico de uma região que, finalmente e graças ao movimento geracional em torno da descoberta da arte rupestre e do paleolítico do Ródão, saía de um torpor de muitas décadas. O Joaquim Batista que fora uma figura crucial na montagem no Museu de Castelo Branco em 1980 das “estruturas de habitat paleolíticas de Vilas Ruivas”, uma missão quase impossível (face às condições da época) coordenada pelo Luis Raposo e por mim (estruturas que seriam publicadas cientificamente, nesse mesmo volume do Arqueólogo Português), retirou-se mais tarde do Museu, seguindo outros caminhos profissionais. Mas, até porque reside há alguns anos na velha Egitânia, continua um fero paladino na defesa do património cultural da sua Beira-Baixa, com intervenções frequentes sobretudo no universo das redes sociais, onde amiúde o vou encontrando. 


O Joaquim Batista, à direita, acompanhando o Luis Raposo nos retoques finais da remontagem das estruturas de habitat paleolíticas de Vilas Ruivas, no Museu de Castelo Branco (1980).

Capa do 1ºv. da IV série d O Arqueólogo Português (1983)

Resumo facsimilado do artigo de Joaquim Batista


Estampas do mesmo artigo



domingo, 25 de setembro de 2016

Comunidades e Culturas




Tiveram lugar este fim de semana as habituais Jornadas Europeias do Património, este ano sob o lema acima destacado, "Comunidades e Cultura". Transcrevemos o que no Site da DGPC se diz a este respeito:


Este tema, adotado em 2016 por um número alargado de países membros do Conselho da Europa, e também por Portugal, tem como objetivo destacar e envolver as múltiplas formas de comunidade, comunidades locais, escolares, de bairro, clubes, associações de desenvolvimento, organizações não-governamentais, sejam de caráter cultural, religioso, filosófico, científico, desportivo ou recreativo, ou outras, preocupadas e vocacionadas para o conhecimento, proteção, desenvolvimento, utilização e organização dos seus próprios ambientes culturais, nas mais variadas formas. Compreender os elos de ligação entre o património e a(s) comunidade(s) contribui para a valorização da cultura nas suas múltiplas dimensões.
Em Guadalupe/ Valverde, ao contrário do que se passou em 2015, altura em que organizámos uma visita guiada aos jardins da Mitra (Conventinho e Paço Real de Valverde que a Universidade se prepara para concessionar para "hotel de charme"!) e uma caminhada até às Ruínas Romanas da Tourega (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/09/jornadas-europeias-do-patrimonio-em.html), nestas jornadas não houve qualquer actividade específica, qualquer "evento" como agora se diz. 
Pelo contrário, hoje mesmo, domingo 25 de Setembro, foi dia de Assembleia da União de Freguesias que se reuniu na antiga escola primária de Guadalupe (desactivada desde que o número de crianças se reduziu dramaticamente por estas bandas...). Inesperadamente, ou não, a reunião de hoje atraiu quase duas dezenas de assistentes. Um record em Guadalupe em que os participantes, para além dos membros da Assembleia, costumam contar-se pelos dedos de uma só mão. Afinal, talvez pelo interesse para a "comunidade" de um dos temas da Ordem de Trabalhos ("Informação sobre a negociação em curso entre a Junta de Freguesia e os proprietários do Cromeleque dos Almendres"), não se registaram faltas entre os eleitos da Assembleia e a sala estava bem composta.


A reunião de 25 de Setembro de 2016 da Assembleia da União de Freguesias de Guadalupe e Valverde
E de facto, o referido ponto da Ordem de Trabalhos acabaria por se destacar face às diversas intervenções, quer da parte dos eleitos quer da própria assistencia, mostrando que o "património" , nomeadamente o conhecido CROMELEQUE DOS ALMENDRES, começa de facto a ser uma preocupação da comunidade local. Segundo a informação disponibilizada na reunião, a Junta de Freguesia preocupada com o constante aumento de visitantes àquele monumento, sem qualquer controlo ou vigilância por parte de qualquer entidade, pública ou privada, com todos os riscos inerentes, apresentou oportunamente aos proprietários uma proposta concreta de solução. Uma vez que não parece ser do interesse dos proprietários da Herdade a exploração comercial do monumento nacional (estariam no direito de o fazer...), a Junta de Freguesia estaria na disposição de assumir a gestão e manutenção do monumento, uma vez reunidas algumas condições prévias. Infelizmente, apesar de alguma abertura inicial à proposta da Junta, actualmente as negociações parecem ter caído num impasse, perante algumas ".contrapartidas" exigidas pelos proprietários e que a Junta não está em condições de poder corresponder.
O processo não está encerrado, e também por isso a Assembleia se absteve, por agora, de tomar qualquer atitude ou iniciativa que pudesse prejudicar o diálogo ainda em curso. De qualquer maneira, a presente situação de total desregulamentação do acesso ao monumento (365 dias por ano, 24 horas por dia) começa a ser insustentável, ameaçando não apenas a sua conservação mas também a qualidade ambiental e a segurança da própria Herdade. (Hoje, um domingo de final de Setembro, já perto da hora do almoço, numa rápida ida e volta aos Almendres, contabilizei 39 viaturas, 1 autocarro de turismo e três caminhantes, o que perfaz cerca de 120 pessoas... De facto, ninguém está em condições de avançar um número concreto sobre os visitantes que passam por ano nos Almendres, mas estou certo que este já deverá rondar os 100 000. E tudo isto sem qualquer controlo ou vigilância. Uma situação que poderá acabar muito mal, um dia destes...)


terça-feira, 20 de setembro de 2016

(Re) Leituras de férias




Uma semana junto ao mar e sem netas...A oportunidade de voltar a livros que valem sempre ser relidos. É o caso deste "Les Origines de l'Europe", a tradução francesa de "Before Civilization" de Colin Renfrew, obra original de 1973, em que este conhecido arqueólogo inglês lançara o conceito da "Revolução do Carbono 14". A aplicação dos novos métodos de datação absoluta tinham vindo pôr em causa muitos pontos de vista da arqueologia tradicional mas, sobretudo, vinham abrir caminho a novas interpretações e a um novo paradigma da arqueologia em geral, como recorda o autor no prefácio da segunda edição inglesa (1979). A edição francesa de 1983 que estou a reler, numa tradução de Paulette Braudel, adquiri-a já em 1987 (está assinada por mim e com data, 28 de Abril de 1987, dia em que fazia 35 anos...). O livro interessou-me vivamente (começava então a desligar-me do interesse quase exclusivo pelo Paleolítico) a crer nos imensos sublinhados e julgo que terá sido decisivo para muitas das perspectivas que viriam a informar poucos anos depois as crónicas de Arqueologia que, alternando com o Luis Raposo, escrevi durante cerca de 2 anos para o Diário de Notícias (entretanto editadas em 1996 pela Europa-América no volume "A Linguagem das Coisas").

 Não costumo tratar muito bem os meus livros e para além dos sublinhados é normal poder encontrar alguma "bonecada" desenhada, muitas vezes sem sentido ou significado (hábito que herdei dos bancos da escola, desenhando sibretudo "carros" e "aviões"... lembro que tinha um colega de carteira, o António Carlos Frofe, de quem nunca mais tive notícias, que desenhava cavalos, exclusivamente, e com grande rigor...). Neste livro, numa das badanas, encontrei um desenho quase poético, de uma "anta", o que faz todo o sentido na obra em causa...





O desenho com que ilustrei em 1987.0 o meu volume de "Les origines de l'Europe"

terça-feira, 13 de setembro de 2016

ARQUEOLOGIA, NACIONALISMOS E RACISMOS

Na sequencia do anterior "post", onde partindo de um curioso recorte dos anos 40 do século passado, divagámos sobre possíveis interações ideológicas entre o Estado Novo e a Arqueologia portuguesa, pareceu-me útil aqui deixar dois artigos de divulgação que publiquei em 1995 no Diário de Notícias, sobre Arqueologia e Nacionalismos e Arqueologia e Racismo. Ambos os artigos foram posteriormente publicados no meu livro de parceria com Luis Raposo, "A Linguagem das Coisas", editado em 1996 pela Europa-América, mas aqui ficam na sua versão original de 2 de Fevereiro e 9 de Março, respectivamente.

Entretanto e comprovando que afinal estes temas começam a ser objecto de reflexão teórica e de investigação,  Rui Coelho,em comentário que agradeço, chamou-me a atenção para uma recente tese de doutoramento defendida na Universidade do Porto em 2011, sob orientação da minha colega e amiga Susana Oliveira Jorge, por Sérgio Alexandre Gones, de que aqui fica o respectivo Link.
https://repositorio-aberto.up.pt/handle/10216/63187  e o (sempre) longo título: "O passado, a identidade e as teias do governo: estudos sobre os entrelaçamentos das práticas de produção do conhecimento arqueológico e de construção da identidade nacional salazarista"

Ainda sobre o tema do Nacionalismo e da Arqueologia, convém já agora referir o ensaio de Carlos Fabião,: Archaeology and nationalism: the Portuguese case,  publicado em "Nationalism and Archaeology in Europe (1996), edited by Margarita Díaz-Andreu £ Timothy Champion. Felizmente também disponível na Internet:
http://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/10220/1/ArqNationalism.pdf