quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Torre de Vilharigues (Vouzela)

ou como um mau "programa" pode inquinar um bom "projecto"




As férias também servem para redescobrir o nosso património. Por vezes com agradáveis surpresas a pedirem um próximo regresso, se possível programado, (por exemplo para seguir de fio a pavio a "rota do românico dos Vales do Sousa, Tâmega e Douro", muito mais afinal,como pude verificar nalguns sítios que visitei, do que uma mera operação de "marketing" como acontece com a maioria das "rotas e roteiros" deste país...) Outras vezes com surpresas "agri-doces" ou "semi-frias", como é o caso da Torre de Vilharigues, no concelho de Vouzela. 

Visitada por acaso (graças à chamada de atenção do proprietário de um turismo de habitação próximo, onde pernoitei...) fiquei deveras impressionado com a qualidade e modernidade do "projecto arquitectónico", inesperado face ao contexto rural onde o monumento se insere. Visitei pois a Torre, sem qualquer preconceito, até porque desconhecia a situação anterior à recente obra municipal, (a placa de inauguração remete para 2013), ainda que com alguma sensação de que havia ali algo não batia certo. E não era apenas o recurso aos materiais modernos (aço corten, vidro, madeira) ou a introdução de elementos não pré-existentes (como a rampa de acesso ou o deck/palanque). Havia ali qualquer coisa que não jogava e que, ao aproximar-me, a "porta", já vandalizada e trancada com uma corrente, parecia confirmar. Ou seja, aparentemente o projecto fora encomendado sem "programa" ou, quanto muito, com um programa irrealista ou insustentável. Por entre as paredes de vidro pude observar que a "torre" recuperada, estaria a ter uma utilização meramente ocasional. 


Procurei pois na INTERNET (hoje está lá quase tudo) alguma informação sobre os respectivos antecedentes. Comecei por encontrar uma nota do jornal "Público" de 2004 em que, ainda em fase de projecto, se anunciava a obra logo que conseguido o respectivo financiamento. Afinal havia um programa para ocupação dos 3 pisos da torre: criação de um espaço museológico e de um centro multimédia de apresentação do "roteiro de torres medievais de Vouzela". Não duvidamos da bondade da intenção, parece-nos é que ninguém se deu ao trabalho de reflectir sobre o real interesse de uma estrutura desse tipo (estimar por exemplo o potencial de atractividade em nº de visitantes) ou sobre as condições mínimas necessárias (sobretudo humanas) para manter em funcionamento uma estrutura dessas.



A Torre de Vilharigues, antes das obras de 2013 (imagem recuperada graças ao Google earth)

INICIATIVA DA AUTARQUIA LOCAL
Vouzela vai criar roteiro de torres medievais
26/02/2004 - 13:54

A Câmara Municipal de Vouzela vai criar um roteiro das torres medievais do concelho, faltando apenas iniciar as obras de recuperação na de Vilharigues, um projecto hoje entregue na Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral (DRABL).

Depois de concluídas as obras de requalificação na torre de Alcofra e de a intervenção na torre de Cambra ter começado há dois meses, a autarquia aguarda agora o financiamento do programa Agris (Medida Agricultura e Desenvolvimento Rural) para o projecto de Vilharigues.

"Falta apenas a aprovação do projecto, que entreguei hoje na DRABL. Logo que seja dada luz verde, arrancamos com a obra", disse à Lusa o presidente da autarquia de Vouzela, Telmo Antunes, que está confiante que o financiamento do Agris será conseguido, como aconteceu no caso da torre de Alcofra.

A intervenção para consolidar a torre de Vilharigues — que se encontra muito danificada, com apenas duas paredes de pé — está orçada em mais de 170 mil euros.

Segundo o autarca social-democrata, será feita uma espécie de caixa em vidro que encaixará nas paredes de pedra existentes e colocados três pisos que servirão para espaço museológico, exposições e zona multimédia. No exterior ficará uma casa de banho e "um palco, muito pequeno, para não interferir com a torre".

"As pedras que faltam já foram retiradas há muitos anos. O nosso objectivo não é reconstruir a torre, mas, através de materiais modernos como o vidro, fazer uma intervenção que pode ser removida se, por exemplo, daqui a cem anos alguém chegar à conclusão que é de mau gosto", explicou.

A autarquia pretende também melhorar o espaço envolvente da torre, uma intervenção orçada em 250 mil euros, que irá candidatar ao Piter (Programa Integrado de Turismo Estruturante de Base Regional).

Em Alcofra, a zona da torre foi igualmente valorizada, tendo a Câmara comprado as casas e os currais que a rodeavam. Alguns dos edifícios foram demolidos e outros aproveitados para actividades da população.

Já a recuperação da torre de Cambra integra-se no contrato de aldeia financiado pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, que tem previstas intervenções para todo o centro da freguesia.

O autarca disse ainda que gostaria também de integrar no roteiro de torres medievais uma quarta que existiu no concelho, em Bandavizes (Fataunços), mas da qual já nada resta.

Depois de um longo período sem qualquer utilização, a autarquia quer devolver as torres à população, para aí realizar actividades culturais, e também atrair turistas ao concelho.

"Não temos castelos como outros pontos do país, mas com as torres podemos potenciar o turismo", afirmou, lembrando que Vouzela fica muito próximo de dois importantes pólos turísticos da região: as termas de S. Pedro do Sul e a Serra do Caramulo.

Em todo o caso, pelo estado em que a Torre actualmente se encontra, incluindo o bloco anexo de WC (tudo fechado a cadeado e já com alguns sinais de vandalismo) parece óbvio que o programa, apesar de rigorosamente respeitado pelo projecto, não está a ser cumprido. E de facto, por elementos também recolhidos na Internet, percebe-se que a comunidade local terá tido consciência dos problemas e terá entretanto tomado as suas medidas:




Torre de Vilharigues (Maio de 2013)
 A Junta de Freguesia, Sociedade Musical Cultura e Recreio, e Liga dos Amigos de Vilharigues, são as três entidades envolvidas numa estratégia de promoção conjunta da Torre Medieval de Paços de Vilharigues. Para o efeito, constituíram a Associação «Pa(ç)ssos» – que terá na Câmara Municipal “um parceiro activo” -, especificamente para estimular a utilização deste espaço emblemático da localidade e do concelho de Vouzela. O projecto deverá arrancar já no primeiro fim-de-semana de junho.De entre as várias iniciativas que integram o plano de dinamização da Torre de Vilharigues, já apresentado, destacam-se a criação de uma rota pedestre, promoção da história de D. Duarte de Almeida e da Batalha de Toro, edição de postais e venda de produtos, dinamização da rota das torres em conjunto com Cambra e Alcofra, e promoção do intercâmbio com as unidades hoteleiras e turísticas da região.O primeiro piso da torre estará reservado a uma exposição alusiva a D. Duarte de Almeida, o segundo à história local, e o terceiro à leitura, escrita, inspiração e arte, numa espécie de mini – biblioteca. Paralelamente haverá ainda exposições temporárias, recitais, música, provas gastronómicas, palestras, filmes, direitos desportivos, serviço de cafetaria / bar / mesa e atividades culturais no palco.A torre abre durante os meses de primavera e verão, aos sábados e domingos, das 15h às 20h. Já o serviço de esplanada abrirá das 19h às 22h durante os dias da semana e às sextas, sábados e domingos das 14h às 24h. Os visitantes terão ainda acesso à rede wireless em todo o espaço.

Indícios de vandalismo (ou desadequação dos "materiais" às condições climatéricas?), revelando um espaço pouco ou nada utilizado



Apesar de ainda algo exigente e condicionada "à posteriori" pelo projecto de arquitectura já executado, este "programa", tem uma vantagem inegável. Nasce da vontade e do interesse da população local, afinal os primeiros interessados na valorização do seu próprio património. Mas infelizmente, por aquilo que me foi dado observar no local, nem este programa parece estar a ser cumprido.
 





Pelo que chegamos à questão que mais me impressionou na Torre de Vilharigues e que infelizmente é mais comum em Portugal do que poderão imaginar os leigos na matéria. Não é raro assistirmos a intervenções, nomeadamente ao nível da recuperação patrimonial, (umas melhores outras piores) em que as questões programáticas são secundarizadas ou mesmo inexistentes. Recupera-se o património "porque sim"...ou pior ainda, para se mostrar "obra"...

A culpa, obviamente não está do lado dos arquitectos que, como acontece neste exemplo, respondem antes de mais às exigências e condicionantes de quem os contrata. Certamente, a resposta seria outra (e seguramente bem mais económica) se neste caso o programa exigisse apenas a consolidação das estruturas remanescentes, com a eventual criação de condições que permitissem para além da recuperação volumétrica dos pisos desaparecidos, o acesso dos visitantes (independentemente de complexos sistemas de "guardaria" ou "musealização") ao topo da estrutura para daí, em segurança e em liberdade, redescobrirem toda a extraordinária grandeza da paisagem envolvente. 




quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Bracara Augusta revisitada




Em anterior post ( ver aqui ) dei conta das impressões da minha primeira visita a um Museu de Braga (D.Diogo de Sousa) cuja "pré-história" tinha acompanhado de perto nos anos 80 do século passado e a quem estão ligados vários companheiros de lutas arqueológicas, naquilo que considerei um dos "legados arqueológicos" mais significativos da geração a que me sinto ligado. Objectivamente, e independentemente do impacto científico dos projectos à sua época, em Arqueologia aquilo que subsiste verdadeiramente para o futuro, dando significado e textura ao progresso dos conhecimentos, (ainda) são os Museus. O resto (artigos, livros, exposições, catálogos e por vezes os próprios sítios mais ou menos "musealizados"...) tudo passa ou se degrada demasiado depressa... Esta é, naturalmente, uma opinião polémica mas a que não deixarei de voltar no âmbito de outras reflexões memorialistas sobre a Arqueologia portuguesa das últimas décadas.

Mas a Braga Arqueológica não se limita actualmente ao Museu Arqueológico, ainda que este seja a verdadeira apólice de garantia do seu futuro. De facto tinha curiosidade em conhecer algumas das (infelizmente poucas) intervenções de integração e valorização das estruturas arqueológicas que o acompanhamento da evolução urbana trouxe à vista nas últimas décadas. Aliás, já aqui tinha abordado esse tema a propósito da passagem por Évora de uma exposição sobre os trabalhos académicos de alunos de arquitectura (projectos e maquetes) ver também aqui, resultado de um projecto de colaboração entre as Universidades do Porto e do Minho, através dos Prof. Pedro Alarcão (sobrinho do Prof. Jorge de Alarcão) e da minha antiga colega Prof.a Manuela Martins, a arqueóloga que, mesmo com meios cada vez mais limitados, vai assegurando a investigação possível de "Bracara Augusta".

Das "janelas" conservadas sobre o passado romano de Braga que tive oportunidade de visitar na cidade, listo a "casa romana do Largo de São Paulo", o balneário pré-romano da estação de caminhos de Ferro, as "Termas de Maximino" (com o seu vizinho Teatro a aguardar tempos de vacas menos magras, para poder ser convenientemente escavado) e, finalmente a "musealização da Fonte do Ídolo". As soluções encontradas para integrar estes vestígios são, naturalmente, diversas. Desde a simples marcação do desenho da respectiva planta no pavimento actual (como na casa romana do Largo de São Paulo), passando pela excelente solução encontrada no caso do balneário pré-romano que apenas peca por estar fora do circuito normal da grande maioria dos passageiros da CP que acabam por ignorar esta interessante estrutura. Já a solução encontrada para as "Termas de maximinos" (um imenso quarteirão, vizinho do Museu e salvo à especulação imobiliária nos anos 70, a célebre "praia das sapatas" dos meus colegas então jovens estudantes do Porto, como a Susana Correia e tantos outros...) é mais tradicional: um hangar protegendo as ruínas das intempéries, ladeado por passadiços (a precisarem de renovação) onde a informação essencial ajuda a situar o visitante. De destacar a discreta qualidade da envolvente paisagística criada para enquadrar as ruínas, apesar d grande exposição às feias traseiras urbanas da "arquitectura de pato bravo" dos anos 60. O Centro Interpretativo que por sua vez dá acesso às ruínas também me pareceu adequado, quer na simplicidade do programa quer na qualidade das soluções arquitectónicas. Já o novo "Centro Interpretativo" construído sobre a Fonte do Ídolo me pareceu excessivo. Não visitava o local há décadas e teria do mesmo já uma imagem "romanceada"... De qualquer modo qualquer solução que passasse pelo enclausuramento de uma estrutura que, obviamente, foi criada para o "ar livre" acabaria por não resultar. Independentemente da qualidade arquitectónica e construtiva do projecto concretizado, que certamente respondeu a um programa prévio com objectivos conservacionistas, em minha opinião o "monumento" perde leitura e monumentalidade, circunstancia agravada pela panóplia mediática disponível que acaba por descentrar a atenção do visitante do que neste caso é verdadeiramente importante.


A tradicional solução para o Largo de São Paulo, onde conservar estruturas á vista não faria sentido.




Balneário pré-romano da estação de Braga. Um projecto de qualidade ao nível da conservação e musealização, apenas prejudicado pela sua localização







Um detalhe quase anedótico mas a mostrar que o interesse pela Braga soterrada já vinha de trás. O provedor da Misericórdia, não se limitou a guardar a inscrição descoberta nas obras do Hospital da Misericórdia em 1836. Tratou de a expor e de referir o local e a profundidade da sua descoberta, com um rigor de registo invulgar para a época.

O novo acesso à Fonte do Ídolo


A "enclausurada" Fonte do Ídolo

O hangar de protecção das ruínas das Termas Romanas de Maximinos e a sua cuidada envolvente



O circuito de visita às Termas de Maximinos


A envolvente da colina de Maximinos, e a "qualidade" da vizinhança urbanística dos anos 60/70 do século passado. Nesta zona está identificado o teatro de Bracara Augusta que Manuela Martins tem vindo a escavar.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016


As novas tecnologias ao serviço da informação patrimonial. O exemplo da ALMADAN


A INTERNET e as novas tecnologias colocam hoje ao serviço de praticamente todos (graças sobretudo à banalização dos "telemóveis inteligentes") meios de informação que ainda eram inimagináveis há pouco mais de uma década. Recordo que já neste século, há pouco mais de dez anos, ter apreciado para a EDIA diversas propostas relativamente à implementação na área do Alqueva de sistemas de disponibilização de informação turístico-cultural, nenhum dos quais parecia então verdadeiramente prático ou relativamente acessível. De facto os problemas começavam de imediato na necessidade de os potenciais utentes terem disponíveis os então "revolucionários" PDA (Personal Digital Assistant) que associavam capacidade de armazenamento de dados, a um receptor GPS. Nos Centros de Apoio ou de Informação, os visitantes carregariam nos seus equipamentos pessoais a informação necessária ou alugariam equipamentos já devidamente preparados. Tudo isso era muito pouco prático e, por outro lado, ainda andávamos nós a discutir as vantagens e desvantagens das várias propostas e já os PDA ou PocketPC, eram remetidos para o caixote do lixo da História, rapidamente substituídos pelos smartphones, verdadeiros "canivetes suíços" da informática hoje acessíveis a toda a gente.
Um exemplo de um "obsoleto" PDA, segundo a Wikipédia

E assim actualmente, conjugando informação geo-referenciada (preferencialmente correcta), com uma base cartográfica universalmente disponível (como por exemplo os mapas da Google), qualquer um, com algum domínio básico de informática, pode construir uma base de dados sobre o património cultural da sua terra ou região e disponibilizá-la aos utentes de smartphones, ou seja, basicamente a toda a gente...

Foi o que em boa hora a equipa da revista ALMADAN (publicada pela associação CAA, Centro de Arqueologia de Amada) resolveu fazer, ainda que tendo como ambicioso objectivo, uma base de dados sobre os sítios arqueológicos visitáveis em todo o território. Pegou num seu trabalho já com alguns anos (uma revista de 2001 que trazia um então útil "dossier sobre os sítios arqueológicos visitáveis"), actualizou-o e para além de o republicar na Revista de 2015, disponibiliza-o permanentemente, através do seu SITE em https://www.google.com/maps/d/viewer?mid=1-OE0Few-exfR1k7J8IC8K60xkP8

Naturalmente, a Base de Dados em causa, com cerca de 500 entradas, está longe de estar completa ou de não apresentar lacunas inexplicáveis ou mesmo alguns erros, até porque foi construída na base do voluntariado, com recurso ao pedido de colaboração a muitas entidades que nem sempre corresponderam como seria sua obrigação. Mas essa é outra grande vantagem destes novos instrumentos de comunicação e informação. Em qualquer momento e com relativa facilidade se podem actualizar ou corrigir os dados.

Foi o que agora aconteceu precisamente com a informação disponibilizada sobre a minha freguesia (Valverde & Guadalupe). Apesar de bem localizado, o Cromeleque da Portela de Mogos, aparecia identificado como Cromeleque de Vale Maria do Meio, monumento vizinho acessível que não aparecia referenciado. Detectado o lapso e enviada a informação correcta ao meu velho amigo Jorge Raposo, o fundador e grande animador do CAA, a mesma foi entretanto inserida com êxito na Base de Dados.







segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Museu D.Diogo de Sousa, tributo de uma geração



Sem nunca ter premeditado nessa hipótese (mesmo depois de ter decidido frequentar a licenciatura de História) acabei por me tornar arqueólogo graças à oportuna influencia de alguns colegas de curso que, desde "sempre", não se imaginavam a fazer outra coisa, e tal circunstancia acabou por me envolver, geracionalmente, como testemunha ocasional num extraordinário processo de transformação desta disciplina em Portugal. Uma experiência de vida que não trocaria de animo leve e da qual vou procurando registar alguns testemunhos pessoais neste "blog memorialista".

Obviamente, a geração de arqueólogos que frequentou a Faculdade ao longo dos anos 70, beneficiou antes de mais das "portas que Abril abriu" em 1974... e, naturalmente, do caminho percorrido, com imensas dificuldades, pelos (poucos) arqueólogos que já estavam no "terreno" desde os anos 60. Mas nestes últimos 40 anos que contributos a Arqueologia portuguesa legou à sociedade que, de uma maneira ou de outra, financiou esta actividade, muitas vezes considerada um exercício diletante para gozo dos próprios intervenientes? Trata-se de um balanço complexo e certamente sujeito a tantos pontos de vista quantos os avaliadores...

Vieram estas reflexões a propósito de dois factos recentes. Um público -a passagem dos vinte anos da criação do Parque Arqueológico do Côa- e um privado, a minha primeira visita ao Museu D.Diogo de Sousa. Em ambos os exemplos, por razões que justificarei, considero estarmos perante dois casos (infelizmente raros nestas quatro décadas apesar do grande desenvolvimento da actividade arqueológica) em que a geração a que me sinto ligado, conseguiu levar a prática social da Arqueologia, ao seu patamar mais elevado, transformando o saber acumulado por anos e anos de trabalho árduo de estudo, em campo ou gabinete, em "estruturas materiais" de conservação, consolidação e difusão desse saber que, por enquanto, têm o seu instrumento mais eficaz e perene naquilo que chamamos de MUSEU. Se as ruínas de Conimbriga têm hoje uma importância cultural e social de excepção, isso deve-se antes de mais à criação do seu Museu Monográfico, o maior legado social da geração que nos precedeu e que teve em Bairrão Oleiro, Jorge e Adília Alarcão, os seus principais mentores. Já no caso do Côa, ainda que a investigação massiva ali conduzida ainda nos anos 90 tenha sido essencial ao reconhecimento científico do vale ameaçado pela Barragem e ainda que a criação do Parque Arqueológico há 20 anos tenha certamente tido um papel importante na divulgação da respectiva Arte Rupestre (com o seu milhão de visitantes!), considero que a pedra de toque que garante para o futuro a preservação e difusão deste importante património, foi a construção e inauguração do respectivo Museu (2010), após um processo longo e atribulado iniciado ainda nos tempos do IPA e concluído já na fase IGESPAR.

Mas é o caso de Braga e do seu Museu Arqueológico D.Diogo de Sousa que está verdadeiramente na origem desta reflexão pessoal sobre o "legado" que a geração a que pertenço (e que começa a retirar-se de cena), deixará à sociedade portuguesa.

De facto, se quisermos encontrar um lugar e um projecto onde a tal transformarão da Arqueologia se iniciou, ele é certamente Braga e oprojecto de Salvamento de Bracara Augusta. Obviamente que há outros antecedentes, mas é ali que tudo se parece cruzar em meados da década de 70. Sob a direção de arqueólogos formados na ou sob a influencia da "escola" de Conimbriga, para "salvar" as ruínas romanas de Braga, ameaçadas pela explosão urbanística, para ali convergem os jovens de Lisboa, que tinham feito o tirocínio na pré-história do Tejo, bem como os alunos do Porto, graças à dinâmica universitária ali introduzida por novos professores universitários. O Campo Arqueológico de Braga não é a primeira experiência de arqueologia urbana em Portugal, mas sem dúvida, é a primeira que pela dimensão e organização da sua equipa técnica e pela continuidade do projecto, se pode considerar como um projecto verdadeiramente profissional. Não foi por acaso que, vários dos meus colegas, (dos tais que não se imaginavam a fazer outra coisa), acabaram a escavar "romano" em Braga, pese embora o seu interesse por períodos ou épocas bem mais recuadas. Era isso, ou ir dar aulas para o Liceu, opção que vingou no meu caso, pelo menos nos primeiros tempos.

Assim, quando em 1980 o Secretário de Estado do Cultura de Sá Carneiro, Vasco Pulido Valente (esse mesmo historiador que ainda hoje escreve no Público) percebeu que era urgente  uma "mudança" significativa na gestão da Arqueologia portuguesa (a começar pelo Museu Nacional de Arqueologia, paralisado por graves problemas internos), foi em Braga e no seu "campo arqueológico" que (julgo que por sugestão de Natália Correia Guedes, a primeira presidente do IPPC, eventualmente com o apoio de Adília Alarcão) procurou respostas imediatas. Na sequencia do IV Congresso Nacional de Arqueologia realizado em Faro em Maio desse ano, Francisco Alves é convidado para director do MNA, acumulando com a direcção do novo Departamento de Arqueologia do IPPC ainda em instalação. Francisco Alves aceita mas coloca condições. Haveria que consolidar o modelo de Braga e replicá-lo no Centro e no Sul através da criação de estruturas regionais de arqueologia (os Serviços Regionais de Arqueologia). Mas para isso precisava de arqueólogos, abrindo as portas aos que, como eu, tinham optado pela segurança do Ensino Secundário. A década de oitenta vê finalmente nascer um conjunto de estruturas arqueológicas que, de algum modo, ainda hoje, apesar das sucessivas reformas, se reconhecem no contexto da estrutura administrativa do património cultural. Mas, porventura, foi em Braga, onde o processo se iniciara, que os resultados viriam a ser mais sólidos, graças em grande parte à concretização do projecto do Museu D.Diogo de Sousa. Este, apesar dos seus antecedentes que remontam ao século XVI (ver aqui), como nos recorda Eduardo Pires Oliveira, renasce "legalmente" por proposta de Jorge Alarcão em 1979, precisamente para permitir o enquadramento do pessoal técnico envolvido nas escavações de Braga e o estudo e armazenamento dos respectivos espólios. Da respectiva comissão instaladora, constavam nomes como o de Maria Emília Amaral Teixeira, Adília Alarcão, Francisco Alvese e J.Rigaud de Sousa a que se associaram mais tarde Manuela Delgada ou Francisco Sande Lemos. Mas a vida da nova instituição estava longe de ser fácil. Recordo que no início dos anos 80, partilhavam as mesmas acanhadas instalações provisórias da Avenida Central de Braga, o Museu D.Diogo de Sousa, o Serviço Regional de Arqueologia do Norte, ambos dependentes da SEC, e ainda a Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, a entidade responsável pelas escavações de Braga e que, pela antiguidade e pelos meios permanentes que a Universidade proporcionava, garantia a sustentabilidade de todas aquelas estruturas. Mas ao contrário do que viria a suceder em Coimbra ou em Évora, em que os respectivos Serviços Regionais de Arqueologia (tão activos nos anos 80) acabariam por desaparecer, absorvidos por estruturas administrativas cada vez menos operacionais, sem deixar resultados sociais muito concretos (espólios e documentação dispersas, sítios e monumentos arqueológicos entregues à gestão de terceiros ou estiolados, por falta de continuidade da investigação), em Braga algo ficou e se mantem vivo, pesem embora as actuais dificuldades.

O Museu D.Diogo de Sousa, parece um projecto conduzido ao contrário mas talvez seja aí que se encontre a razão da qualidade do produto final. Começou por ser apenas uma idéia, ainda que respondendo a uma necessidade concreta: dar guarida aos espólios de Braga e da região envolvente que resultavam da efervescente actividade arqueológica que marcou essa região no final dos anos 70 e a década de 80 (graças também á explosão universitária do Porto). Começou por ser um Museu sem instalações e sem quadro de pessoal, mas que congregava à volta de um projecto (o salvamento de Bracara Augusta e o enquadramento da arqueologia do Noroeste) dezenas de entusiastas, pagos umas vezes pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, outras pelo Serviço Regional de Arqueologia do Norte, outras pelo próprio Departamento de Arqueologia, através dos "subsídios" às escavações. Acabaria por ser um projecto museológico em construção ao longo de um quarto de Século, beneficiando de largas e prolongadas escavações no seu futuro espaço de instalação, de uma equipa projectista dedicadíssima, (Arquitectos Carlos Guimarães e Luis Soares Carvalho)e herdando e integrando o pessoal técnico das restantes estruturas associadas, à medida que estas se iam desintegrando...

Acompanhei de muito perto esse processo ao longo da década de 80 e nessa altura estive várias vezes em Braga em serviço, numa época em que o espaço do futuro Museu era ainda e apenas um imenso estaleiro arqueológico. As obras de concretização do excelente projecto  seriam faseadas e prolongar-se-iam de tal maneira no tempo que o Museu só abriria as portas em 2007, quase três décadas após a sua criação legal... Mas, por aquilo que finalmente tive oportunidade de ver, acompanhado pela minha amiga Isabel Silva (uma pioneira das equipas de Braga) e sua directora, acho que aqui se cumpriu o legado de uma geração. E não apenas pela majestade e qualidade arquitectónica do edifício e da sua envolvente (um Museu tem de ser, deve ser mais do que isso) mas sobretudo pela riqueza e importância das colecções arqueológicas aqui armazenadas, conservadas e expostas. O que é fantástico, quando percebemos que todas essas colecções (com poucas excepções) são resultado da actividade arqueológica na região no pós 25 de Abril. Mas, infelizmente, apesar da qualidade  do Museu, as dificuldades comuns à generalidade das instituições da Cultura (independentemente de dependerem da DGPC ou das Direcções Regionais de Cultura, o caso do D.Diogo de Sousa) também aqui estão bem presentes. O pessoal é escasso e equipa técnica, um dos grandes trunfos do Museu, nomeadamente ao nível da conservação e restauro, está envelhecida e não há renovação à vista. A manutenção dos equipamentos e do edifício está reduzida ao mínimo por dificuldades financeiras, ainda que o estado geral não o pareça ainda denunciar, pela qualidade do projecto e da obra. Aliás, e essa será a grande vantagem dos Museus relativamente a outras instituições de cultura, mais facilmente descartáveis com todos os prejuízos que isso acarreta, a sua função, pesem embora as dificuldades conjunturais do momento, é preservarem a memória através da conservação dos testemunhos materiais entregues à sua guarda. E o Museu D.Diogo de Sousa, legado de uma geração, aí está para durar, tanto quanto a sua vizinha Sé de Braga!





A galeria de acesso à exposição permanente. Onde se conta a história do Museu

Um detalhe da "história" do Museu: Uma imagem já clássica das escavações de Bracara Augusta (num folheto editado em 1980)

Alguns "miliários" romanos que conjuntamente com algumas inscrições constituíam o "espólio" fundacional do Museu.




Alguns dos valiosos materiais arqueológicos presentes na exposição permanente do Museu, resultantes da pujante actividade arqueológica verificada no NO de Portugal nas últimas décadas do século passado.


O "mosaico " conservado "in situ" como testemunho dos vestígios arqueológicos escavados no âmbito do processo de construção do Museu. 




sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Almendres, ao luar de Agosto


Foto de Eduardo Luciano
A proposta dos serviços culturais da CME, no âmbito das actividades paralelas à "reabertura" do Centro Interpretativos do Megalitismo (Convento dos Remédios), era aliciante mas creio que ninguém esperava o nível de adesão que teve a caminhada nocturna entre Guadalupe e o Cromeleque, sob a lua cheia de Agosto (noite de 18 de Agosto). Naturalmente a maioria dos participantes veio de Évora (mas não só, pois reconheci gente de Arraiolos) mas foi também notória a adesão da população de Guadalupe o que mostra que a estratégia de envolvimento local, iniciada há alguns anos com as "festas do solstício" começa a dar resultados. Infelizmente a "estatística" não era a primeira preocupação dos organizadores e ninguém sabe ao certo quantos caminhantes subiram até ao alto das Pedras Talhas. Inscrições para o autocarro municipal, esgotadas rapidamente, eram meia centena. Na Junta de Freguesia de Guadalupe, os pedidos de apoio para regresso nas respectivas carrinhas, eram mais de duas dezenas. Mas na realidade, entre locais e forasteiros, de todas as idades, cremos que cerca de três centenas de pessoas terão subido ao Cromeleque. A maioria, naturalmente, acabou por regressar a pé a Guadalupe, perfazendo cerca de 9 km de caminhada. 

Também não se fizeram inquéritos ao nível de satisfação, mas pelas expressões, julgamos que as expectativas da maioria não terão sido defraudadas. E para os que se preocupam a sério com a situação deste monumento único (e há muitas razões para estar preocupado) esta foi mais uma oportunidade de chamar a atenção para a necessidade de, com urgência, se encontrar uma fórmula que, perante o actual vazio, permita a gestão equilibrada e sustentada, deste extraordinário mas frágil recurso cultural, refém de interesses privados mas à mercê de um turismo galopante mas completamente desregrado. 


A chegada do autocarro da CME


As últimas recomendações para a caminhada

A caminho


No Cromeleque (foto de Eduardo Luciano)
Lendo as pedras com a ajuda da luz rasante (Foto de Eduardo Luciano)





Tempo para selfies à luz da Lua

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Escoural, a química da arte rupestre


No âmbito da cooperação experimental que está a acontecer entre a Direcção Regional de Cultura do Alentejo (entidade a que a Gruta do Escoural está afecta) e o Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, realizámos hoje mais uma sessão de trabalho nesta cavidade. O objectivo, na linha de outros ensaios recentes, visava avaliar a capacidade de detecção de eventuais motivos pintados que possam existir sob a camada de calcite que cobre as paredes da Gruta. Com efeito é graças à acção protectora dessa camada que os (raros) vestígios de pintura rupestre ficaram preservados nas paredes da gruta, durante os milhares de anos que nos separam do Paleolítico Superior. Nos casos em que a camada é mais fina e translúcida, conseguimos observar a pintura mas é hoje claro que, para além do que podemos ver directamente, existem traços ou motivos que nos escapam e cuja eventual leitura poderá alterar a percepção que hoje temos desta arte. É aí que entram os ensaios que o HERCULES tem vindo a fazer, ainda que no âmbito de um estudo mais amplo que envolve também a determinação das matérias primas corantes aqui usadas pelos nossos antepassados. Hoje, recorreu-se à "termografia", uma tecnologia especialmente conhecida pelo seu uso em medicina, e que nos fornece "imagens" que resultam da leitura das variações de temperatura provocadas pelas diferenças de irradiação dos diversos materiais analisados. O seu uso em arqueologia ainda é pouco comum e só muito recentemente foi usado no Algarve, embora nesse caso como meio de detecção remota de estruturas soterradas. Por exemplo numa superfície aluviar ou sedimentar, é possível detectar a presença de muros de pedra, pois estas estruturas, dada a sua composição, irradiam mais calor do que a sua envolvente. Aguardemos pois pelos resultados do tratamento das "termografias" hoje realizadas no Escoural, naquele que será talvez o primeiro ensaio mundial de aplicação desta tecnologia ao estudo da "arte rupestre". A propósito e com a devida vénia, aproveitamos para aqui deixar o artigo da National Geographic portuguesa de Julho passado, da autoria do fotógrafo António Luís Campos, no qual mais uma vez é dado o destaque a esta gruta, ainda a única cavidade portuguesa com vestígios rupestres do Paleolítico, e aos estudos agora empreendidos pela Universidade de Évora.



Aspectos da recolha das "termografias", na Gruta do Escoural (11 de Agosto 2016) com recurso a uma "câmara" que após um curto período de iluminação (aquecimento) das superfícies calcíticas, registará eventuais variações de temperatura determinadas pela presença de uma matéria corante diferente do suporte.

O artigo da NACTIONAL GEOGRAPHIC portuguesa (Julho de 2016)