quinta-feira, 28 de julho de 2016

Há 23 anos...viagem pelo megalitismo alentejano


O fenómeno da descoberta turística do "megalitismo alentejano" não é coisa recente. Tem as suas origens mais remotas nos anos 60 do século passado graças a figuras como o professor Leonor de Pina ou o médico Pires Gonçalves, que por sua iniciativa e em colaboração com as entidades regionais, em particular a Junta Distrital de Évora sob a direção de Armando Perdigão, identificaram, estudaram e divulgaram monumentos que hoje são diariamente procurados por centenas de turistas que, para além da cidade património mundial de Évora, procuram ambientes e outras paisagens menos urbanas. Naturalmente esse processo de reconhecimento do potencial turístico deste património teve avanços e recuos, ao sabor das prioridades políticas ou dos meios disponíveis. O final dos anos oitenta, graças à estreita colaboração entre o antigo Serviço Regional de Arqueologia da Zona Sul (com sede em Évora) e a Câmara Municipal desta cidade, presidida por Abílio Fernandes, correspondeu precisamente a uma das fases de maior progresso neste âmbito. É aliás nessa fase que se abre o estradão que hoje possibilita o acesso ao Cromeleque dos Almendres, até então apenas acessível a viaturas todo-o-terreno. Resultou também dessa cooperação exemplar, a definição de três grandes rotas megalíticas na envolvente de Évora, com a edição de um guia (traduzido em inglês, francês e espanhol) hoje completamente esgotado e a materialização no terreno de um sistema de sinalização para facilitar o acesso aos monumentos, e do qual restaam apenas algumas placas enferrujadas... Nesse processo não faltou mesmo a colaboração dos proprietários (hoje talvez mais difícil de conseguir) que facilitaram a instalação de pequenas porteiras pedonais que permitiam nalguns casos o acesso directo dos visitantes até junto dos monumentos. Naturalmente a divulgação pelos órgãos de comunicação social destes roteiros foi também importante e é com prazer que aqui reproduzimos um interessante artigo de José Vilas Monteiro, publicado pela revista SÁBADO em Janeiro de 1993, com fotos de Rui Vasco, intitulado "Megalitismo, CAMINHO DE GIGANTES".







terça-feira, 26 de julho de 2016


Ainda as "Pedras Talhas", segundo Galopim de Carvalho


Galopim de Carvalho, em Évora no dia 15 de Julho de 2016
Já anteriormente destaquei neste Blog a personalidade de Galopim de Carvalho, ver aqui
e também aqui um eborense de gema que apesar das suas origens relativamente modestas conseguiu singrar no difícil meio universitário lisboeta, com uma excepcional carreira como cientista e professor, a que soube juntar uma faceta, nem sempre fácil ou acessível a homens da sua craveira intelectual, de grande divulgador científico. Tendo da cultura e da ciência, uma visão ampla e aberta que no seu caso reconhece ter desabrochado nas ruelas da sua Évora de menino, em contacto com com as mais desvairadas gentes e profissões, acabou por se revelar também um exímio contador de histórias e memórias, registadas com reconhecida qualidade literária, em vários livros que tem vindo a publicar e cuja leitura se recomenda.















Embora já tivesse tido oportunidade de há alguns anos acompanhar Galopim de Carvalho numa sua visita à Gruta do Escoural (1994?) foi com imenso gosto que aceitei o recente convite da Câmara Municipal de Évora para o acompanhar numa pequena tertúlia pública no Pátio das Romãs, do Convento dos Remédios (15 de Julho de 2016) actividade inserida no programa de animação da recentemente renovada exposição sobre Megalitismo ali instalada.



Conhecedor do texto que Galopim de Carvalho publicara em 2013 no Blog "De rerum natura", em que nos dá conta da sua relação com o arqueólogo Leonor de Pina, seu colega de Liceu, (ver aqui), acalentava a esperança de poder explorar um pouco mais as suas recordações da época em que, já como geólogo no activo, acompanhou os eventos relacionados com o reconhecimento da ANTA GRANDE DO ZAMBUJEIRO e do CROMELEQUE DOS ALMENDRES, no distante ano de 1964. Naturalmente, já que estamos a falar de assuntos com meio século e a idade de Galopim de Carvalho também já não ajuda, apesar da vivacidade do seu testemunho, não foi possível trazer à baila novos dados que fossem além do seu anterior post no De Rerum Natura, ou do importante testemunho do próprio Leonor de Pina recolhido em 2007 por António Alegria e disponível no Boletim Cenáculo (on line no SITE do Museu de Évora). Interessava-me em particular ouvir a sua opinião de geólogo a propósito da explicação que Leonor de Pina deu para os problemas estruturais que já encontrou ao escavar a Anta Grande do Zambujeiro. Um dos grandes esteios estava tombado, desde tempos pré-históricos, para o interior da câmara e a gigantesca pedra do "chapéu" jazia, já fragmentada no interior da câmara. Tudo isto, efeito de um eventual sismo, segundo Leonor de Pina. Mas sobre esse aspecto Galopim de Carvalho já nada nos pôde adiantar uma vez que apenas se recorda da situação do chapéu, tal como hoje se encontra, removido e depositado sobre a própria mamôa. De qualquer modo aproveitámos para de novo contestar o antigo "mito", que por vezes ainda se ouve, de que o arqueólogo em causa (Leonor de Pina) teria dinamitado a grande lage do chapéu da Anta do Zambujeiro... Bem pelo contrário, Leonor de Pina, com escassos meios ainda que com o apoio de trabalhadores e meios de uma pedreira de Valverde, conseguiu retirar os blocos partidos do interior da câmara e repôr e "gatear" na sua posição original, o gigantesco esteio tombado. É verdade que a Anta do Zambujeiro, finda a sua intervenção, não ficou nas melhores condições estruturais... nem podia face aos problemas que acumulara desde a Pré-história. Mas nestes 50 anos que entretanto passaram a Arqueologia portuguesa não poderia e deveria ter feito mais pela conservação de um monumento tão singular? Mas essa é uma também já velha questão, já abordada neste blog e à qual voltaremos mais vezes...


Galopim de Carvalho, à conversa com Abílio Fernandes, antigo presidente da Câmara Municipal de Évora

A mesa da "tertúlia" no Pátio das Romãs


A visita à exposição megalítica dos Remédios


sexta-feira, 8 de julho de 2016

O "primeiro" povoado de fossos...


Após a recuperação (?) do respectivo processo de classificação aberto há pelo menos duas décadas e que se perdera nos complexos meandros da inenarrável burocracia nacional, foi publicada há poucos dias a Portaria que vem reconhecer o "Povoado de fossos de Santa Vitória, Campo Maior" como Imóvel de Interesse Público. 

Neste caso e ao contrário do que é comum no nosso património arqueológico, a classificação não visa trazer para uma relativa alçada pública, um bem que apesar de privado, é afinal considerado uma "herança=património" do interesse geral. Com efeito, há muitos anos que este sítio, por iniciativa e alguma saudável teimosia da minha colega Ana Carvalho Dias (a arqueóloga responsável pela respectiva identificação e escavação nos anos 80) é propriedade do Estado, estando actualmente a respectiva gestão entregue à Direção Regional de Cultura do Alentejo. Infelizmente e apesar de alguns investimentos ali realizados vai para década e meia no âmbito do programa Itinerários Arqueológicos do Alentejo e do Algarve , a sua situação presente é praticamente de abandono face à exiguidade dos meios postos ao serviço da dita DRCA  para conservar meia centena de imóveis espalhados por todo o Alentejo.
(http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/itinerarios/alentejo-algarve/06/)
A última intervenção de conservação com algum significado ali realizada, data de há quatro anos e foi feita expressamente para a recepção a um congresso internacional sobre a temática dos "povoados de fossos" promovido pelo António Carlos Valera na Fundação Gulbenkian. O António Valera, o nosso maior especialista nesta temática, foi um dos jovens colaboradores que integrou nos anos oitenta a equipa da Ana Carvalho Dias que escavou então o Povoado de Santa Vitória. 
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/09/perdigoes-as-origens-de-um-projecto-de.html)
Na altura, pelo menos no território português, este tipo de estruturas negativas era quase inédita o que trouxe grande relevância a este sítio, infelizmente nunca objecto de uma publicação monográfica, apesar de extensamente escavado. Posteriormente e em parte graças aos trabalhos arqueológicos do Alqueva, tanto na sua vertente "barragem" como posteriormente na vertente de "infra-estruturação hidráulica do Alentejo", este modelo de povoado, característico do final do Neolítico à Idade do Bronze, viria a revelar-se extremamente comum em todo o Sudoeste, assumindo  complexidades morfológicas muito diversas. Desde os pequenos povoados, como era o caso de Santa Vitória, protegidos por um ou dois fossos concêntricos, até aos gigantescos povoados, com dezenas de hectares (como o Porto Torrão, em Ferreira do Alentejo). Mas é nos Perdigões, em Reguengos, que António Valera procura as respostas para as muitas questões que estes sítios hoje nos colocam. Não só pela importância intrínseca e complexidade estrutural do sítio mas sobretudo pelo carácter sistemático e duradouro do projecto de investigação que ali dirige há quase duas décadas. Mas de facto, foi em Santa Vitória que tudo começou...








Visita de congressistas ao Povoado de Santa Vitória, em Novembro de 2012


O característico perfil do "Castro de Segóvgia", (sondado nos anos 70 por Teresa Gamito e José M. Arnaud) visto a partir de Santa Vitória




segunda-feira, 4 de julho de 2016


O novo Presidente do ICOM Europa

O Luis Raposo, o primeiro à esquerda, com João Ludgero, António Martinho Baptista e António Carlos Silva, provavelmente fotografados por Francisco Sande Lemos, junto à Lapa do Fumo, Sesimbra (1971?)

A notícia está um pouco por todos os meios de comunicação social. O Luis Raposo foi ontem eleito em Milão, Presidente do Conselho Internacional do ICOM Europa, assunto que é mais que pretexto para mais uma "entrada", por coincidência a 200ª, neste blog memorialista. Naturalmente, não é a primeira vez (nem provavelmente será a última) que o meu colega, companheiro e amigo de longa data aparece referido neste espaço cibernético, que vou alimentando com a regularidade possível, uma vez que tantos e tão diversos projectos nos uniram desde que nos conhecemos vai quase para quatro décadas e meia, no GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português). Eu, ligeiramente mais velho, estava já na Faculdade e hesitava ainda relativamente ao que fazer no futuro. A arqueologia surgira ao acaso no meu caminho por influência de colegas de curso como o Francisco Sande Lemos ou o Jorge Pinho Monteiro. Mas o Luis, ainda a terminar o Liceu, aparecia no nosso meio com a experiência da "escola" do Centro Piloto de Arqueologia e revelava-se já como um dos mais determinados relativamente ao futuro: Arqueologia e dentro desta a Pré-história, quanto mais Antiga melhor... E de facto, como já referi algures, apesar das "nossas" prioridades no Ródão no início dos anos 70, passarem antes de mais pela "arte rupestre" que iria ser afundada pela Barragem do Fratel, o Luís não perdia oportunidade de encher o seu bornal, com calhaus paleolíticos, oportunos achados que garantiram a continuidade dos projectos arqueológicos do GEPP nos "terraços quaternários do Ródão", para além da Barragem do Fratel e da Arte Rupestre, projectos a que ele ainda hoje está ligado.

 Sobre os vários cruzamentos dos nossos percursos pessoais e profissionais, frequentemente paralelos, falam os vários "posts" que aqui tenho deixado ao longo de quase dois anos de memórias arqueológicas e dos quais selecionei os que a seguir deixo em Link.

Por ora, com um grande abraço e votos de felicidades ao Luis Raposo neste novo desafio,deixo algumas memórias fotográficas.

Em Vila Velha de Ródão (1971?) à esquerda com A.C.Silva, Teresa Marques, A. Martinho Baptista, João Ludgero e Francisco Henriques

Chegada para mais uma campanha em Vilas Ruivas (1977?). da esquerda para a direita, José Mateus, Luis Raposo, Francisco Sande Lemos, Isabel Costeira, A.C.Silva e José Américo Ferreira

Luis Raposo e Joaquim Baptista, dando os últimos retoques no "molde" do solo de habitat paleolítico de Vilas Ruivas (1980)
Exposição (actualmente desmontada) no Museu de Castelo Branco, sobre o solo paleolítico de Vilas Ruivas, um dos primeiros dos muitos projectos museológicos concretizado sob a liderança de Luis Raposo (neste caso em conjunto com os colegas do GEPP- 1981)


Luis Raposo, com A.C.Silva e Hans Siefner, já falecido, na visita aos sítios paleolíticos de Les Ézies (1983)

Missão arqueológica portuguesa em Angola: Luis Raposo, Maria João Coutinho, A.C.Silva e Hans Siefner (Benguela, 1983)

Luis Raposo com o Presidente da República Ramalho Eanes inauguração de uma exposição de arqueologia em Vila Velha de Ródão (meados dos anos 80).

Na Fundação Calouste Gulbenkian, com o Prof. Baptista Martins (já falecido), antigo Presidente da Câmara Municipal de Vila Velha de Ródão, na inauguração da exposição Arqueologia do Vale do Tejo (Outubro de 1987) organizada pelo Departamento de Arqueologia don IPPC por mim dirigido.

Uma faceta menos conhecida do Luis, que tem o costume, cada vez mais raro, de levar o combate pelas causas em que acredita até às últimas consequencias. No caso falando numa manifestação de arqueólogos (Março de 2009) contra o desmantelamento, na altura ainda sem alternativas, de várias estruturas técnicas arqueológicas (exIPA) para dar lugar ao novo Museu dos Coches.

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/04/a-linguagem-das-coisas-o-convite-para-o.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/05/a-arqueologia-do-vale-do-tejo-na-tsf.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/12/foz-do-enxarrique-e-cobrinhos-nas.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/06/ainda-os-coches-e-arqueologia-como-era.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/04/1983-missao-arqueologica-em-angola-na.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/03/rene-desbrosses-1930-2015-tal-como-as.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/01/viagem-ao-berco-da-pre-historia.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/02/arqueologia-no-vale-do-tejo-numa-altura.html

quinta-feira, 30 de junho de 2016

A última lição sobre Túlio Espanca

Vitor Serrão fazendo a sua intervenção sobre Túlio Espanca, na sessão oficial realizada nos Paços do Concelho de Évora, no dia 29 de Junho de 2016

Não costumo ser assíduo às cerimónias oficiais do "Dia da Cidade", promovidas pela Câmara Municipal no dia de São Pedro,29 de Junho, o feriado oficial de Évora. Mas este ano, por vários motivos não podia faltar. Em primeiro lugar, porque comemorando os 30 anos de reconhecimento pela UNESCO do Centro Histórico de Évora como Património da Humanidade, iria ser recordado o contributo fundamental para esse facto da obra de Mestre Túlio Espanca. Depois porque o orador convidado para evocar a figura do Mestre, era o meu colega de Faculdade e amigo de sempre Vítor Serrão. Finalmente, porque na cerimónia iria ser apresentado um novo volume da revista municipal "A cidade de Évora", marcando com esse lançamento o início de uma nova série (a III) desta já octagenária revista, também ela um legado de Túlio Espanca e a cujo conselho redatorial tenho a honra de passar a pertencer por convite da autarquia.

Ainda tive a oportunidade de conhecer e conviver algum tempo com Mestre Túlio Espanca, sobretudo no período do final dos anos 80 em que, como Director do Serviço Regional de Arqueologia, pertenci à Comissão de Arte e Arqueologia de que ele era uma "espécie de sócio-fundador". Espero ainda um dia juntar alguns fiapos de memórias pessoais (afinal Mestre Túlio deixou-nos há quase um quarto de século...) que me permitam aqui deixar testemunho dessa experiência que marcaria definitivamente o meu tirocínio de "eborense" adoptivo. Por agora e dando continuidade à emotiva sessão de ontem nos Paços do Concelho, deixo uma crónica por mim publicada no Diário de Notícias, pouco tempo após a morte de Túlio Espanca e que julgo nunca mais foi reeditada e, com a devida vénia, o texto que serviu de base à intervenção de Vítor Serrão e que ele próprio divulgou previamente na sua sempre generosa e utilíssima página do Facebook.


Túlio Espanca, orientado uma visita à  Capela do Conventinho do Bom Jesus de Valverde em 1989 (na fota Leonor Serrão e Raquel Silva, filhas respectivamente de Vítor Serrão e António Carlos Silva)


Homenagem a Túlio Espanca (1913-1993)

Vitor Serrão

Historiador, inventariador, crítico de arte, defensor intransigente dos patrimónios da cultura e das artes do seu Alentejo, Túlio Espanca (1913-1993) foi um erudito e um sábio a quem as Ciências do Património, no campo da inventariação de bens, e a História da Arte, numa nova perspectiva micro-artística, devem imenso. Neste preito de homenagem à figura do historiador de arte recorda-se que era, além do mais, homem generoso e simples, atento à divulgação da cultura e empenhado em grandes causas sociais. Apesar da desmemória galopante do nosso tempo, acredito que há heranças imperecíveis e nesse sentido lhe deixo uma palavra de sentida homenagem com absoluta certeza de que a sua obra científica está viva e o seu legado perdura.
A obra que nos legou é pioneira e monumental: bastam os oito tomos do Inventário Artístico de Portugal editados pela Academia Nacional de Belas-Artes, dedicados aos Distritos de Évora e Beja, para o afirmarem como referência insubstituível. Mas há ainda os milhares de páginas no Boletim A Cidade de Évora, de que foi o responsável durante décadas, e nos Cadernos de História e Arte Eborense, pondo Évora no palco internacional, e muitas outras publicações alentejanas onde a sua sensibilidade, inteligência, veia arguta de investigador e eficácia na divulgação turística se manifestaram. Aliou o eruditismo 'puro' a um sentido de cidadania consciente e consequente na afirmação dos valores do Património como bem comum. Assim, Évora, a Cidade Património Mundial/UNESCO, deve a Túlio Espanca a candidatura vitoriosa de 1986.
Nasceu em Vila Viçosa a 8 de Maio de 1913 e faleceu em Évora a 2 de Maio de 1993. Na tenra juventude conheceu grandes dificuldades financeiras, embora nascido no seio de família do meio cultural calipolense, que lhe possibilitou ver livros e obras de arte e seguir debates intelectuais, tendo com marca de referência no seu tio, o historiador Padre Joaquim da Rocha Espanca. A 8 de Dezembro de 1930 morre sua amada prima Florbela Espanca, grande escritora e poetisa calipolense que teve em Túlio inegável influência na sensibilização às artes. A 6 de Junho de 1927 morre o primo Apeles, irmão de Florbela, quando o hidroavião que pilotava se despenha defronte da Torre de Belém, uma tragédia sentida por toda a família. Com o casamento, a 6 de Setembro de 1936, com a senhora D. Maria Engrácia do Quental Oliveira (1924-2004), mãe dos seus três filhos e companheira de vida, terá possibilidade de se concentrar no seu trabalho. Nos anos 40, a instâncias de homens ilustres de Évora como Bartolomeu Gromicho, Mário Chicó e Celestino David, inscreve-se no Grupo Pro-Évora e ganha lugar no Curso de Cicerones dos monumentos da cidade após obter brilhante classificação. Escreve os primeiros artigos no jornal O Arraiolense. Aí publica, em oito números, o extenso artigo Breve Descrição Histórica de Vila Viçosa. A obra que então se inicia parte da investigação das fontes e é sob muitos aspectos pioneira. Em 1953, foi bolseiro do Instituto de Alta Cultura e viaja por França e Itália. Começa a elaborar as fichas do Inventário Artístico de Portugal, a pedido da Academia Nacional de Belas-Artes, onde se integra, com o volume referente à Cidade e Concelho de Évora (1966), um exaustivo levantamento descritivo e fotográfico do património arquitectónico e artístico da região, a que se seguiram os seis tomos referentes ao Distrito eborense. Elaborou, de seguida, os primeiros tomos do Inventário Artístico relativo ao Distrito de Beja. Em 1979 é eleito Vogal Efectivo da Academia Nacional de Belas-Artes, de que já era membro desde 1959, como prémio pelo trabalho desenvolvido nos Inventários Artísticos. Além de numerosos escritos dispersos por jornais e revistas e a colaboração assídua no boletim A Cidade de Évora, de que foi fundador, publicou o Guia Histórico-Artístico de Évora (1949-1951), o Património Artístico do Concelho de Évora (CME, 1957), Évora e o seu Distrito (1959), Subsídios para a História da Justiça em Évora (1963), e o volume Évora (1993, Editorial Presença). Espanca torna-se aos poucos figura incontornável para quem se dedica ao estudo da História de Arte. Ao seu trabalho de pesquisa se devem os primeiros trabalhos baseados em recolha sistemática de informação documental sobre o património cultural, com carácter de inventário, do que se acha referente ao seu distrito de eleição, o de Évora. A sua actividade neste campo continua a ser, por inteiro, uma referência. Em 1982 foi galardoado com o Prémio Europeu de Conservação de Monumentos Históricos pelos relevantes serviços prestados no âmbito do processo de candidatura à classificação pela UNESCO de Évora como Património Mundial. Membro da Academia Portuguesa da História, recebeu o Prémio Europeu de Conservação dos Monumentos Históricos e recebeu, ainda, a Ordem de Sant'Iago da Espada, a Medalha de Ouro da Cidade de Évora e o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Évora, este atribuído em 1990, em reforço do reconhecimento académico face ao seu trabalho de vida. Após a sua morte trágica, viria a ser colocada uma estátua marmórea que, da varanda da Sala dos Professores, contempla o Claustro deste Colégio jesuítico, tantas vezes por si revalorizado.
Como historiador de arte, distinguiu-se pela vastidão e rigor do seu trabalho de inventariação e investigação do património artístico do Alentejo, que só foi possível pelo domínio que adquiriu da História da Arte internacional, fruto de leituras, contactos com especialistas e viagens de estudo. Ao seu trabalho de rigorosíssima pesquisa, tantas vezes inédita, se devem os primeiros estudos de arte eborense baseados em recolha sistemática de informação documental sobre o património cultural com carácter de estudo e de inventário, para as terras dos Distritos de Évora e Beja. O resultado do seu trabalho continua a ser de referência. A certeza de que abriu campo para que o Centro Histórico de Évora, se tornasse há trinta anos Património Mundial da UNESCO é consensual. «Para além de ter deixado uma obra vastíssima de investigação e catalogação o seu legado marca sobretudo pela valorização do património numa abordagem social moderna de espólios vivos e evolutivos». O historiador de arte/inventariante como foi Túlio Espanca sabe analisar as obras de arte para melhor as interpretar: uma obra de arte nunca se esgota e, porque é obra viva, continuará a projectar estímulos em gerações futuras. Tem de saber (em Portugal, mais do que nunca) confrontar a obra com os seus outros modos (literário, moral, filosófico, científico, espiritual, económico, etc) para dela retirar os significados possíveis. Atento a conceitos como o de Micro-História da Arte (Ginzburg) e de des-compartimentação (Panofsky), soube relacionar as ciências da observação e representação, abrindo caminho à via sociológica e à integração globalizante da produção artística. A sua História da Arte pôde impõr-se, assim, pela vontade de re-conhecer e des-codificar as obras, apreender-lhes a carga de fascínios, explica-las no contexto histórico e ideológico, no quadro de um recenseamento globalizante. Só estudando os programas artísticos desaparecidos – através da cripto-história de arte – se devolve parte do fascínio às obras existentes. Todas as peças justificam olhar atento, missão de pesquisa, ternura de diálogo des-codificante, agudeza de estudo crítico integrador.
O sucesso do Inventário Artístico presente deve tudo ao saber de Túlio Espanca e ao seu espírito de trabalho em larga inter-disciplinariedade, onde foi absolutamente pioneiro no contexto do Alentejo. Basta verem-se as suas escolhas temáticas para A Cidade de Évora onde, desde os anos 40, reuniu a melhor colaboração portuguesa e estrangeira desde os Historiadores (medievalistas, modernos ou de História contemporânea) aos Arqueólogos, Historiadores de Arte, Conservadores e Restauradores, Museólogos, Arquitectos e Urbanistas, Arquivistas, Biólogos, Arquitectos-Paisagistas, Geógrafos… A variedade dessa colaboração especializada tornou a Cidade de Évora a melhor das revistas regionais de responsabilidade municipal, e a mais sólida base para o Inventário Artístico que se iria seguir e para toda a série de iniciativas de conservação, estudo e larga divulgação de Évora como Cidade-Museu. Saúde-se, a propósito, o facto de a revista voltar agora a ser publicada. Tudo isso devemos a Túlio Espanca. É necessário que esta revista prossiga dentro do mesmo espírito, tal como o seu fundador-editor a idealizou, como investimento cultural da Autarquia de Évora. Apesar da desmemórias galopante dos tempos, acredito que há heranças imperecíveis, como a que nos deixou Túlio Espanca, grande historiador de arte e grande investigador dos patrimónios comuns, com absoluta certeza também de que a sua obra científica está viva, e o seu legado incansável e sábio perdura. Com ele, passámos a ver as artes do Alentejo (eruditas ou populares, religiosas ou profanas) sem quaisquer tipos de preconceito, e a estimá-las, não com as tradicionais peias elitistas, mas sim como discursos de eloquência aberto, perene e de fascínio duradoiro. Em nome da Academia Nacional de Belas-Artes, de que foi membro ilustre, e que aqui também represento, expresso a minha gratidão à memória de Espanca -- pelo muito que com ele aprendi e, sobretudo, a saber ver melhor.
(palavras de elogio, no lançamento de novo nº de A Cidade de Évora, nos Paços do Concelho de Évora, a 29 de Junho de 2016)
Vitor Serrão / Historiador de Arte / Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa Vice-Presidente da Academia Nacional de Belas-Artes

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Encontro em Mértola




Sempre que me cruzo com o Cláudio Torres, o que infelizmente vai  sendo cada vez menos frequente, ele lança-me o repto. Quando apareces por Mértola para bebermos um copo e pormos a conversa em dia? Está prometido que um dia hei-de regressar a Mértola, sem pressas e sem programa. Apenas para bebermos o tal copo, ao fim da tarde e falarmos deste Alentejo que ambos adoptámos um dia como a nossa terra e onde já criámos raízes.

Podia ser este fim de semana, é certo e até seria minha obrigação estar em Mértola (ENCONTRO COM A HISTÓRIA) por estes dias em que, muito justamente, se vai homenagear o Cláudio e uma série de seus amigos e companheiros de "combate", parafraseando o célebre título do mestre Lucien Febvre (Combates pela História): António Borges Coelho, Jorge Alarcão, José Luis de Matos e Juan Zozaya. A todos eles me ligam laços de grande estima intelectual, e a todos sem excepção gostaria de lhes transmitir pessoalmente esse sentimento. Mas, como nos vamos apercebendo com a idade, a distância não é apenas o resultado de uma simples equação entre tempo e velocidade...Há muitos outros factores que começam também a pesar.

De entre os  cinco historiadores que os acasos da vida acabaram por juntar este fim de semana em Mértola (e a que poderiamos também ainda acrescentar José Mattoso, também meu antigo professor em letras), é do José Luis de Matos que guardo memórias mais antigas que remontam quase à "pré-história"... Não apenas porque formalmente foi com ele que tive as minhas primeiras aulas naquele que viria a ser o meu principal campo de estudo e trabalho (Paleolítico/Pré-história) mas também porque ele deve ter sido o primeiro arqueólogo com quem contactei directamente quando, anos antes de entrar na Faculdade, visitei as escavações de Vila Moura, no Algarve, no Verão de 1968 (?). Um grupo de meus antigos colegas do Seminário de Almada, no âmbito de um campo de férias, participava nessas escavações que José Luis de Matos (muito ligado a sectores católicos progressistas) iniciava por essa época nas ruínas romanas de Vila Moura. Foi aí que os visitei a quando da primeira viagem que recordo ter feito ao Algarve, com um grupo de amigos da Amadora. Já não guardo detalhes mas apenas uma sensação de oportunidade perdida (participar numa actividade de campo que parecia tão interessante!). Dois anos depois viria a reencontrar pessoalmente o José Luis de Matos, assistente do Prof. Fernando de Almeida, nas aulas práticas de "Pré-história", no primeiro andar do Museu Nacional de Arqueologia, tema em que claramente o José Luis de Matos se sentia muito pouco à vontade enquanto manuseava os "calhaus talhados" que ia passando de mão em mão. Foi também nesse Museu, que uma década depois, viria a reencontrar de novo o JLM, que apesar da diferença de idade e de estatuto, não hesitara em acompanhar muitos dos seus antigos alunos, no processo liderado por Francisco Alves, de reestruturação do Museu e de instalação do Departamento de Arqueologia do IPPC.

António Borges Coelho, foi um nome (proibido e portanto quase mítico) que nos acompanhou em surdina, nos primeiros anos da Faculdade até àquela Primavera de 74 que pôs o mundo ao contrário. Os seus livros não constavam das bibliografias, nomeadamente das cadeiras de história medieval do 2º ano (1971/72) ou de História da Expansão no 3º ano, mas graças a colegas mais esclarecidos (como o Paulo Varela Gomes recentemente falecido ver aqui) rapidamente se tornavam de consulta obrigatória, em edições semi-clandestinas ou recuperadas em alfarrabistas. Recordo em particular os seus trabalhos sobre a "Revolução de 1383-85", sobre a importância da cultura islâmica na formação da nossa identidade ou sobre as raízes da expansão portuguesa. Graças ao Cláudio Torres e às posteriores ligações de Borges Coelho aos projectos de Mértola, vim muito mais tarde a conhecer pessoalmente o antigo "mito" dos meus tempos de estudante e que, entretanto, aprendera a respeitar não apenas pelos seus combates intelectuais mas também pelos combates políticos que o haviam levado às prisões fascistas, nomeadamente ao Forte de Peniche onde conviveu com Álvaro Cunhal.

Jorge Alarcão acabou por ser um nome sempre presente desde que, logo nos primeiros tempos de Faculdade e sob a influência de um curso onde prontificavam já tantas vocações arqueológicas, reconheci o meu especial interesse pela Arqueologia. (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/05/a-arqueologia-do-vale-do-tejo-na-tsf.html ). Pessoalmente terei estado com Jorge Alarcão pela primeira vez no III Congresso Nacional de Arqueologia, realizado em 1973 no Porto, ocasião em que conheci a maioria dos arqueólogos portugueses activos nas décadas de 60 e 70 e relativamente pouco numerosos. Mas dados os interesses pré-históricos em que se movia o meu círculo de amizades arqueológicas, só após 1980 viria a ter oportunidade de contactar mais proximamente com a figura que unanimemente era já então considerada a maior autoridade na arqueologia portuguesa. Jorge Alarcão integrava, por mérito próprio e pela sua posição na Universidade de Coimbra, as comissões e grupos de trabalho que se iam formando na orgânica da arqueologia, nalgumas das quais tive também oportunidade de participar, dadas as funções que passei a ocupar no IPPC. Recordo em particular, num meio em que as relações humanas e profissionais eram por tradição muito complexas e difíceis, e nem sempre muito cordatas, a extrema delicadeza e correcção de trato do Professor Jorge Alarcão, cuja mera presença nas reuniões era muitas vezes suficiente para transmitir serenidade e confiança, qualidades infelizmente pouco comuns noutros colegas.  Recordo em particular o papel que Jorge Alarcão viria a ter na instalação do antigo Serviço Regional de Arqueologia da Zona Centro, graças ao apoio científico e anímico dado a José Beleza Moreira, seu antigo aluno, por si sugerido para a respectiva direcção, e que viria a realizar um trabalho que criou raízes no centro do país.

Afinal, apesar das voltas da vida me terem aproximado em particular de Cláudio Torres, este terá sido de entre o quatro historiadores portugueses agora justamente homenageados em Mértola, aquele com quem mais tardiamente vim a tomar contacto. É certo que conhecia já (graças à edição clandestina de uma invulgar História de Portugal de que guardo ainda o meu exemplar, então muito manuseado) o nome do seu pai, o historiador exilado Flausino Torres. Mas não chegaria a ser aluno do Cláudio Torres na Faculdade de Letras, quer pelo facto do 25 de Abril (que finalmente permitiu o seu regresso a Portugal e à Universidade de Lisboa) me ter apanhado quase no fim do curso quer pela óbvia divergência de interesses arqueológicos. Aliás, à época, praticamente não se falava de "arqueologia medieval" em Portugal e muito menos de "arqueologia islâmica". Seria, por estranho que tal pareça, a "burocracia" que nos aproximaria mais tarde. Quando a convite do Francisco Alves assumi funções no departamento de Arqueologia do IPPC em finais de 1980, o projecto arqueológico de Mértola dava então os seus primeiros passos, como "campo de arqueologia prática" para os estudantes do Cláudio Torres, aliciado por Serrão Martins, o jovem e malogrado presidente da Câmara local, que lançara o repto ao professor. Mértola, do ponto de vista da gestão das autorizações e subsídios arqueológicos, dependia então do Serviço Regional de Arqueologia do Sul (Évora), cujo primeiro director foi Caetano Mello Beirão (falecido em 1991). Figura controversa e assumidamente de direita conservadora, as suas relações com Cláudio Torres, como é fácil de supôr, não eram propriamente as mais amistosas. A situação ainda se tornava mais complicada pelo facto de Cláudio Torres ser essencialmente um espírito prático, pouco dado a miudezas burocrático-administrativas, o que tornava o seu projecto preza fácil de algum excesso de zelo da parte de Beirão. Valeu  nalgumas ocasiões, em que a concessão de subsídios e de autorizações de escavação, esbarravam nos pareceres negativos de Évora, os atalhos benevolentes, proporcionados pela direcção do próprio Departamento de Arqueologia, em nome da solidariedade que o projecto de Mértola inspirava. Mais tarde, já como responsável pelo serviço de Évora (1988-1991), tive oportunidade de acompanhar mais de perto o projecto de Mértola, com um envolvimento muito especial por parte de colaboradores do SRAZS e do próprio Departamento de Arqueologia (como a Susana Correia ou o Carlos Jorge Ferreira), nas escavações que se realizaram no final dos anos 80 sob o edifício da Câmara Municipal, em cuja cripta arqueológica nasceria depois o Museu Romano de Mértola.

Em tempo:

Afinal, José Matoso também fazia parte e muito justamente do grupo de arqueólogos e historiadores homenageados em Mértola, como o comprova a foto publicada pelo Campo Arqueológico de Mértola.

José Luis de Matos, Jorge Alarcão, José Matoso, António Borges Coelho e Cláudio Torres em Mértola, no dia 17 de Junho de 2016 (Foto CAM)