segunda-feira, 6 de junho de 2016

O megalitismo alentejano está mais pobre...

Com coincidência quase matemática, um ano depois da partida inesperada do Pedro Alvim, eis que a investigação sobre o Megalitismo Alentejano regista nova baixa, com o recente desaparecimento de Rui Boaventura. Se bem que neste caso, o desfecho não fosse tão inesperado para os amigos mais próximos, a secura da notícia não deixou de ter no meio arqueológico o mesmo efeito de absurda impotência. Particularmente sentida quando, em ambos os casos, se estava perante colegas relativamente jovens e na sua plena capacidade criativa. O Pedro, depois de alguma busca de rumo, entre a Arquitectura e a Arqueologia, encontrava-se a preparar a defesa de um aguardado doutoramento sobre o Cromeleque dos Almendres, um monumento que já estudara a nível de Mestrado e que tão carente está de novas e inovadoras abordagens científicas. O Rui ainda em Novembro passado, pese embora os avanços e recuos da doença, fora o grande animador do colóquio "Mega-talks- Megaliths and Geology" que teve lugar no Redondo e que reuniu, para além dos principais investigadores portugueses no campo do Megalitismo, grandes nomes da arqueologia internacional como Chris Scarre da Universidade de Durhan (onde Pedro Alvim preparava o doutoramento) ou Mike Parker Pearson, do University College London, conhecido pelas recentes e mediáticas descobertas em Stonehenge. Pessoalmente, julgo foi a última vez que me encontrei com o Rui Boaventura.

Embora estes malogrados colegas, apesar de alguma diferença de idades, pertencessem à mesma geração e compartilhassem o seu interesse entusiástico pelo megalitismo alentejano, a formação e o percurso de ambos era bem diverso. Sobre o trabalho do Pedro e o que significou o seu desaparecimento para a arqueologia alentejana, em particular da envolvente rural de Évora, aqui deixei  testemunho há um ano.  ver aqui 

O Rui Boaventura, por sua vez, vinha da minha Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e fizera parte da aguerrida geração de jovens arqueólogos forjada na intransigente "defesa das gravuras do Côa" e que, por mérito próprio (já que a selecção foi feita por concurso) viria a integrar as primeiras equipas de campo do ex-Instituto Português de Arqueologia, fundado em 1997 e extinto uma década depois. A sua colocação durante alguns anos na extensão do IPA do Crato, deverá ter contribuído para o desenvolver do seu particular interesse pelo megalitismo alentejano, ainda que as circunstancias da vida tenham encaminhado a sua investigação de doutoramento, para o importante (porque muito precocemente estudado pela arqueologia portuguesa) mas hoje pouco conhecido e ainda menos valorizado, megalitismo da região de Lisboa. Este interesse particular pela revisão dos estudos clássicos sobre o megalitismo, a par de trabalhos em monumentos inéditos, primeiro na região de Monforte e mais recentemente na Serra d'Ossa com o seu colega e amigo Rui Mataloto, faziam da sua "expertise", uma importante ferramenta de trabalho (a que a Direcção Regional de Cultura recorria frequentemente) para o processo sempre em construção, de inventariação e salvaguarda, deste património tão vasto como frágil, sempre ameaçado pelas sucessivas transformações dos regimes e modos produtivos nos campos alentejanos. 

Como testemunho sentido e certamente bem melhor informado, aqui transcrevo, com a devida vénia, as palavras do Rui Mataloto, o co-organizador dos "Mega-Talks" do Redondo, companheiro próximo de Rui Boaventura, ilustradas por uma "foto de família" dos participantes no encontro do passado mês de Novembro. 





O Rui é um amigo, um grande amigo, de todos com a frontalidade e naturalidade que lhe conhecemos todos, mas isso ficará para sempre no coração de cada um de nós.
Mas não é disto que vos vou falar. Vou-vos falar de algo que ainda é maior nele, o seu Amor pela Arqueologia, e pelo seu Megalitismo, com M grande, abrangente, que nunca quis resumir às Prácticas funerárias dos IV/III milénio. O Megalitismo era o Ar que respirava. O Rui é e será sempre uma anta, de preferência no Alentejo, no seu Alentejo, que conhecia como ninguém, ao detalhe no entorno de cada Sepulcro, e não monumento.
Quero acreditar que hoje nascerá uma nova anta no Alentejo.
O Rui foi sempre um lutador, sendo a doença apenas, e infelizmente, a sua grande luta final.
O Rui lutou sempre, acreditando em si mesmo sempre, fazendo várias travessias no deserto das quais saiu sempre mais forte e vitorioso. 
A sua capacidade de trabalho, detalhe, rigor e positivismo verdadeiramente Cartesiano, aliada a uma obstinação, verdadeira casmurrice, que partilhávamos numa escala matalotina, como nos disseram, permitiu vencer sempre, à exceçpão de hoje.
O Rui teve um percurso excessivamente breve para tudo aquilo que tomou em mãos: defender e estudar o megalitismo, anta a anta se preciso fosse, mas sempre com uma minúcia e rigor que a mim, e a muitos, nos exasperava. O seu caminho foi feito de sucessivos reveses, sempre impostos por factores externos, desde os tempos de Monforte, ou talvez mesmo antes, mas sempre persistiu, lutando desbravando e abrindo caminho, muitas vezes sozinho, mas quase sempre acompanhado, contra tudo e todos, mesmo contra mim, muitas vezes descrente nas suas vontades, mas não nas suas forças, acabando por ceder e acompanhando-o. 
Esta T-shirt que envergo simboliza tudo isso que o Rui é, pela capacidade de trabalho, iniciativa, inovação e rigor que representa. O MEGAGEO foi a prova de tudo o que era capaz de construir, arregimentando todos, de todas as áreas, em prol de um objectivo único, conhecer melhor o Megalitismo e as antas.
A sua determinação pela memória futura impunha um rigor submilimétrico, com o qual escrutinava cada linha de cada documento antigo procurando nos grandes do Megalitismo o detalhe que exigia a si, enquanto revolvia e punha em alvoroço meio MNA em busca de mais uma peça de uma anta, tantas vezes mal catalogada como só ele se apercebia. No campo, só ele analisava pedra a pedra cada sepulcro, só ele descrevia cada minúsculo detalhe, sempre com a mesma determinação, sempre muito positivo e muito positivista.
Sim Rui, anta será sempre com letra pequena, será sempre ane, cal BC, usaremos o CNS por que sabes que a tua Colmieiro 1 será para mim a anta 1 do Colmieiro.
Quero acreditar que hoje seguirá o seu caminho, lá onde está, procurando Georg e Vera Leisner, Carlos Ribeiro e Nery Delgado, o seu Pae Rocha, ou o José Leite, para retirar dúvidas e obter esclarecimentos. Quando encontrar o Heleno, aquilo não deve ser bonito, imagino o que lhe dirá na cara, como fazia a todos nós …
Para sempre o Rui será aquele amigo que, com os seus Cisco, Gabe e Rodrigo, aparecia ao fim da tarde para irmos com a Raquel ou a Maia, a João e os meus Lourenço e Eduardo, ver mais uma anta e que, à noite, ligava para discutir ainda mais um pormenor. Acabarei dizendo, como sempre, depois de uma hora ao telefone, depois falamos melhor, um abraço camarada.
Uma última palavra: Obrigado Raquel.
(Rui Mataloto)

quinta-feira, 2 de junho de 2016


A Arqueologia do Alqueva. Deficit de divulgação?

A propósito da recente inauguração em Beja (18 de Maio de 2016) de mais uma exposição sobre a Arqueologia do Alqueva, alguns colegas contrapondo àquilo que se tem considerado uma verdadeira revolução nos conhecimentos arqueológicos no Alentejo, graças à grande quantidade de escavações realizadas naquele contexto, não deixaram de referir como aspecto negativo a falta de divulgação dos respectivos resultados. Naturalmente, para comentar essa afirmação, teremos de distinguir dois níveis básicos dessa divulgação. Antes de mais a justificação junto do grande público dos investimentos vultuosos realizados, dando a conhecer as principais descobertas e o seu imediato significado para a evolução do conhecimento histórico da região. Depois, a edição científica para além dos relatórios técnicos contratuais, com a publicação tão alargada quanto possível (monográfica) das escavações e resultados obtidos nos trabalhos de campo. Julgo que, apesar de algumas lacunas e insuficiências, também neste campo o projecto arqueológico do Alqueva, nas suas duas distintas fases (construção da Barragem e formação do grande lago, 1996-2002; construção das infra-estruturas de rega, 2002-2016) tem sido pioneiro. Aliás neste mesmo blog, em distintas ocasiões, e a propósito de iniciativas diversas, procurámos dar testemunho dessa situação. 






Recordo que na 1ª fase que tive oportunidade de coordenar, houve um trabalho constante junto da comunicação social, que prestou alguma atenção ao tema, ainda que a reboque do peso mediático de toda a operação Alqueva. Recordo as reportagens do Expresso ou do Público, mas também da RTP2 ou da National Geographic, entre muitos outros exemplos. A EDIA procurou ela própria produzir exposições, folhetos e desdobráveis e até um video temático ("A Cápsula do tempo em Alqueva" ) que era disponibilizado às escolas. Mais recentemente, e face aos extraordinários resultados obtidos na implementação da rede de rega em cerca de 100 000ha de boas terras do Centro e Baixo Alentejo, a empresa do Alqueva, foi procurando tirar partido de algumas descobertas singulares para organizar pequenas exposições, na sua própria sede em Beja ou mesmo fora de portas, como aconteceu com alguma regularidade na concorrida OVIBEJA. Já quanto ao real impacto destas acções junto do público, o balanço estará certamente por fazer, mas seria um interessante tema de pesquisa. Recordo que apesar do grande esforço organizativo (e até financeiro para a EDIA) em Setembro do ano passado para montar em Lisboa uma grande exposição sobre os 20 anos de Arqueologia do Alqueva (Museu Nacional de Arqueologia), esta foi praticamente ignorada pela comunicação social, o que teve como resultado o seu fraquíssimo impacto junto do público em geral. Esperemos que a nova exposição de Beja, organizada em colaboração com a Câmara Municipal, possa ter nesse aspecto um resultado diferente. Para já conseguiu algo que não se verificou em Lisboa. A atenção de um grande orgão de comunicação social que lhe concedeu grande destaque, em duas das suas páginas que aqui reproduzimos com a devida vénia.





segunda-feira, 30 de maio de 2016

Para que serve o "património"?

A lápide da Tourega

Pessoalmente, considero que um dos maiores defeitos da generalidade dos investigadores ou especialistas da área do património (arqueólogos, historiadores de arte, arquitectos, conservadores-restauradores e até os museólogos) é muitas vezes esquecerem que a sua actividade profissional tem afinal um propósito ou objectivo fundamental, sem o qual tudo o que fazem perde o sentido. Esse objectivo pode ter vários nomes, mas para simplificar chamemos-lhe "público". Reconheço com toda a naturalidade, que neste aspecto não serei muito diferente da maioria dos meus colegas e, frequentemente, terei dado total primazia ao que me dava gozo ou prazer no "meu trabalho", esquecendo que se ele não fosse útil para os outros (que ainda por cima o pagam de uma ou de outra forma) ele seria afinal uma "fraude". É certo que este sentido utilitarista não pode ser visto de forma simplista ou imediatista, havendo obviamente uma grande franja de trabalho, sobretudo na área da investigação, cujos resultados práticos podem tardar ou até desembocar, em becos sem saída. Pode até acontecer que nós próprios possamos estar convencidos de que aquilo que estamos a fazer é absolutamente prioritário e indispensável, mas mais tarde ou mais cedo, teremos de ser capazes de sair da nossa carapaça individual ou mesmo da nossa fortaleza corporativa (sim também temos os nossos interesses de grupo que cuidamos em preservar!) para nos submetermos ao crivo da crítica social, no que respeita ao efectivo interesse público daquilo que fazemos no nosso dia a dia com os meios que nos são disponibilizados.

A chegada ao novo Museu Nacional dos Coches

Vieram-me estas reflexões a propósito da visita de uma centena de "vizinhos" que acompanhei recentemente (mais como autarca do que como arqueólogo) aos Museus Nacionais dos Coches e de Arqueologia. A iniciativa da Junta de Freguesia (Tourega e Guadalupe) que contou com o apoio da Câmara Municipal de Évora e a cumplicidades amiga dos colegas responsáveis por aqueles museus (Silvana Bessone, directora do Museu Nacional dos Coches e António Carvalho, director do Museu Nacional de Arqueologia) tinha como pretexto, dar a conhecer aos vizinhos da Tourega, uma lápide romana que esteve vários séculos na sua igreja matriz (sede histórica da freguesia) e que o Bispo Cenáculo integrou na coleção que viria a dar origem ao Museu de Évora, a quem hoje pertence (ver a propósito). A inscrição que ostenta é de tal modo interessante e rara que a lápide integra a exposição Lusitânia Romana, origem de dois povos, uma iniciativa conjunta do MNA com o Museu de Arte Romana de Mérida que seguirá em breve para Madrid, onde será exposta no Museu Nacional de Arqueologia de Espanha.

A Directora do MNC, Silvana Bessone, recebe o grupo de vizinhos e dá as primeiras informações sobre o Museu e a sua coleção.

Foi pois com alguma emoção que me envolvi, não só na organização mas também a própria visita que proporcionou a gente muito pouco habituada a sair da sua terra (e normalmente com outros pretextos menos culturais), uma experiência bem diferente do seu dia a dia. Ainda que o grupo fosse bastante heterogéneo, era na sua maioria integrado por gente simples que raramente terá entrado em museus ao longo de uma vida de árduo trabalho, mas o interesse que demonstraram por tudo o que viram e a atenção com que acompanharam as explicações da própria Silvana nos Coches, ou da equipa do serviço educativo do MNA (coordenada pela Maria José Albuquerque), deixou-me aquela sensação agradável de dever social cumprido. Foi especialmente gratificante, ouvir os acertados comentários dos velhos trabalhadores agrícolas de Valverde, São Brás ou Guadalupe, comentarem com conhecimento de causa, a estrutura, a mecânica ou os arreios dos antigos meios de transporte de tração animal. Ou a, "redescoberta" na exposição da Lusitânia, da antiguidade dos velhos chocalhos, recentemente valorizados na vizinha vila de Alcáçovas. Ou, por fim, a atenção com que seguiram as detalhadas descrições sobre a carreira política imperial do senador Quinto Julio Maximo, proprietário da villa da Tourega.


O chamado Coche dos Oceanos, restaurado a quando da Expo





A visita ao Picadeiro Real, onde nasceu por iniciativa da Rainha D.Amélia e esteve instalado durante quase um século o Museu Nacional dos Coches.


A concentração à porta do Museu Nacional de Arqueologia
Adicionar legenda

Ao contrário da visita ao MNC, onde a largueza do espaço permitiu a visita em conjunto, no MNA organizaram-se quatro grupos, que com o apoio de colaboradoras do serviço educativo do Museu, visitaram não apenas a exposição da Lusitânia, mas também as restantes exposições com destaque para a Sala do Tesouro e para a Coleção Egípcia.


A lápide da Tourega





terça-feira, 24 de maio de 2016



Arqueologia em Arraiolos


Ruínas da Ermida da Sra das Necessidades e Alto do Sargacinho (1993)

Por iniciativa da Câmara Municipal realizam-se amanhã naquela vila as "Jornadas do Património" subordinadas ao tema da Arqueologia no concelho. Será, certamente uma ocasião para se fazer o ponto da situação sobre a recente evolução dos conhecimentos neste domínio, que de facto conheceram significativos progressos nas duas últimas décadas. Por estranho que possa parecer, pese embora a proximidade de Évora, quando há um quarto de século tive oportunidade de apoiar o respectivo município através da compilação, para efeitos do respectivo PDM, dos dados bibliográficos então disponíveis, confirmei que se tratava afinal de um território muito pouco conhecido, arqueologicamente falando. Das 120 referencias arqueológicas que então foi possível compilar, mais de 80% diziam respeito a monumentos megalíticos e quase todas provinham de uma mesma fonte: o monumental inventário do megalitismo ibérico da autoria de Georg e Vera Leisner, publicado pelo Instituto Arqueológico Alemão na década de 50. A par deste peso do megalitismo, surgiam também numerosas referencias às ruínas do "templo romano de Santana do Campo", conhecidas pelo menos desde que a elas se referiu no século XVIII em memória dirigida à Academia Real de História (1734) Frei Afonso da Madre de Deus. Por outro lado, não alterava esta situação, o facto de ser natural de Arraiolos um dos primeiros grandes arqueólogos do Século XIX, de seu nome Cunha Rivara, responsável por grandes escavações em torno do Templo de Évora em meados do Século XIX, quando dirigia a vizinha Biblioteca Pública. Apesar de Rivara dedicar uma monografia a Arraiolos, dela não se extraíam grandes informações arqueológicas. Apesar de pequenos contributos de Possidónio da Silva no megalitismo e de Gabriel Pereira, no Romano, é a Virgílio Correia que devemos um primeiro olhar de arqueólogo interessado sobre estas terras. Enquanto conservador do Museu Etnológico e colaborador de Leite de Vasconcelos, antes de rumar a Coimbra, Virgílio Correia estudou a pré-história do Alentejo Central na segunda década do Século XX, conduzindo várias escavações na zona de Pavia, entre Arraiolos e Aviz. Data dessa época o seu interesse pelo santuário romano de Santana do Campo que vem a referir depois em várias publicações e a identificação dos primeiros vestígios rupestres na região, na célebre "Pedra das Gamelas", próximo de Santana. 

A "Pedra das Gamelas", penedo insculturado referenciado por Virgílio Correia, nas proximidades de Santana do Campo, aqui a ser observada por José Perdigão.

Aliás seria também o Megalitismo, nomeadamente a explicação sobre as suas origens, que atrairiam a esta região nos anos 30, o sucessor de Leite de Vasconcelos, Manuel Heleno. Este centra grande parte da sua frenética actividade de campo (referem-se quase três centenas de antas escavadas!) no concelho de Montemor, mas avançando também para Norte (Coruche) e para Leste (Sabugueiro e São Pedro da Gafanhoeira, já Arraiolos). É com base nos dados de Correia e de Heleno, complementado por um ciclópico trabalho de campo, que os Leisner irão em meados do século inventariar cerca de uma centena de antas no território do concelho de Arraiolos, preenchendo quase monotematicamente a respectiva Carta Arqueológica. Posteriormente, até aos anos 90, quando com José Perdigão retomei trabalhos de prospecção na área, a arqueologia de Arraiolos registava apenas novas referencias a Santana do Campo por Jorge de Alarcão e José d'Encarnação, este mais centrado na questão das inscrições romanas, a que acrescentaria dados inéditos, face a achados na Herdade da Ravasqueira. Ocasionalmente, Afonso do Paço chamara nos anos 60, a atenção para o Castelo de Arraiolos, como possível povoado proto-histórico, o que viria a ser confirmado posteriormente por sondagens de Gustavo Marques e investigações recentes. Entretanto já na década de 80, e no contexto de colaboração entre o ex Serviço Regional de Arqueologia do Sul e a autarquia, uma tradição que se prolongaria até hoje, José Olívio Caeiro então assistente na Universidade de Évora, viria a realizar alguns trabalhos, sem continuidade noutros sítios romanos entretanto identificados no concelho. Aliás, a densidade do povoamento romano, desde época republicana, com sítios ainda com alguma monumentalidade (caso do mal conhecido "Castelo do Mau Vizinho"), parece ser uma realidade que só agora começa a ser descortinada.


Era esta a situação que se nos deparava em 1993 (encerrado o projecto Luso-belga na Gruta do Escoural) quando decidi com José Perdigão propor à autarquia a execução da Carta Arqueológica de Arraiolos, partindo da tal base bibliográfica já referida. Por questões práticas, seguindo uma metodologia já comprovada por outros colegas (nomeadamente Rui Parreira nos anos 80 em Vila Franca de Xira ou Fernando Lanhas e Domingos Pinho Brandão, no Porto, nos anos 60), organizámos o trabalho de campo e o tratamento dos dados, com base em "oitavos" das folhas 1:25 000 da Carta Militar Portuguesa, qualquer coisa como parcelas de 20 Km2. Localizados os poucos dados disponíveis, avançávamos para a prospecção registando e localizando com a precisão possível nhas cartas militares (erro de +- 50 m) os novos dados observados. Ainda no arranque do projecto, por proposta do Prof. António Lamas, meu antigo Presidente no IPPC, e na altura director dum novo curso do IST (Arquitectura e Planeamento do Território?), articulariamos a certa altura os nossos trabalhos de campo,  com  uma equipa de estudantes do referido curso dirigidos pelos Engenheiros geógrafos João Matos e Miguel Baio. ( ver aqui uma especial referencia ao GPS e a Arqueologia). Julgo que pela primeira vez se aplicou entre nós à arqueologia, a tecnologia GPS então a dar os primeiros passos no domínio civil. 

A experiencia de Arraiolos, um projecto limitado no que dizia respeito a meios humanos, acabaria por ficar confinada a uma área específica (a folha 437 da CMP), tendo duas décadas depois sido retomada por uma equipa da Universidade de Évora, dentro de moldes diferenciados. Ainda assim, julgo que aquele projecto dos anos 90 terá correspondido a um momento de viragem importante na Arqueologia de Arraiolos que conheceria entretanto novo fôlego, como certamente ficará demonstrado pelas jornadas de amanhã. Para além do reforço significativo de novos dados (de 120 registos em todo o concelho, passaríamos apenas nesta zona, cerca de 1/6 da área total do concelho, para 265), foi organizada uma pequena exposição sobre o projecto e publicado em livro o respectivo relatório e inventário. 

Mas como corolário final do projecto, há um dado que é pouco conhecido e que é significativo. Enquanto colaborador, em representação da Direcção Regional de Évora do IPPAR (1994/95) na equipa que concebeu a base de dados ENDOVÉLICO (dirigida pelo Prof. Ribeiro da Costa da Universidade Nova de Lisboa), os resultados do projecto da Carta Arqueológica de Arraiolos (folha 437), conjuntamente com a informação de campo que estava a ser recolhida no Vale do Côa, no âmbito do conflituoso processo de construção da respectiva Barragem, serviriam de material de teste para os primeiros preenchimentos de dados de inventário arqueológico automaticamente georeferenciados. Tratava-se então de um avanço inédito, não só em Portugal, como a nível internacional, como pude confirmar, ao apresentar na Primavera de 1995 o projecto ENDOVÈLICO, num colóquio em Oxford, organizado pelo Conselho da Europa, sobre inventários arqueológicos.

Os dados da CAA ainda hoje sobressaem (São Pedro-Arraiolos) nos dados georeferenciados da Base de Dados ENDOVÉLICO (dados disponíveis mas não actualizados)







Os Eng. João Matos e Miguel Baio, posicionando vestígios arqueológicos com recurso ao GPS (1993)

No campo (1993) com a equipa de estudantes do IST






quinta-feira, 19 de maio de 2016

ABEL VIANA- PAIXÃO PELA ARQUEOLOGIA




Há cerca de ano e meio dei nota neste Blog (ver aqui) da minha participação num interessante colóquio promovido pela Fundação da Casa de Bragança em memória de Abel Viana, ilustre arqueólogo, minhoto de nascimento e alentejano de adopção, fundador do Museu de Arqueologia que aquela instituição gere no Castelo de Vila Viçosa. Essa sessão fechava um conjunto de iniciativas, com destaque para uma exposição intitulada "Abel Viana, 1886-1964", comemorativas da passagem do cinquentenário da morte do referido arqueólogo. Ontem, em boa hora, foi apresentado publicamente no Museu Nacional de Arqueologia um pequeno livro que regista para a posteridade algumas das comunicações então apresentadas.  Apesar da sua frenética agenda, aceitou estar presente o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, julgo que por três razões. Antes de mais porque como é público, tem um especial interesse por tudo o que é livro. Depois porque afinal é vizinho do MNA (revelou na sua intervenção que em Fevereiro, no primeiro domingo que passou no Palácio de Belém, não resistiu e veio visitar "incógnito" (?) a exposição "Lusitânia, A origem de dois povos"). Finalmente, porque ainda na qualidade de Presidente do Conselho Administrativo da Fundação da Casa de Bragança, assinou em 1 de Janeiro último, o prefácio a este livro.




O Presidente da República na sua intervenção



Por amável convite do António Carvalho, actual director do MNA, intervi de improviso na sessão, em representação dos meus colegas autores que, por motivos vários, não puderam comparecer ao acto. Como membro de uma geração que teve, graças ao 25 de Abril, a oportunidade, de conquistar o reconhecimento profissional para a Arqueologia, coube-me realçar por um lado o papel percursor de Abel Viana que com grandes sacrifícios pessoais e familiares dedicaria a esta paixão, quase em exclusivo, as suas duas últimas décadas de vida. Por outro, representando a Direção Regional de Cultura, referir aqueles que considero terem sido os grandes contributos de Abel Viana para a arqueologia alentejana, de que é verdadeiramente, um dos "pais fundadores" como refiro no texto que publico neste livro e que aqui reproduzo também.


ADENDA FOTOGRÁFICA (29 Novembro 2016)

Algures entre 1994 e 95, no âmbito de trabalhos no "circuito da Cola", tive oportunidade de experienciar as vivências de Abel Viana no Castro da Cola, ao pernoitar algumas noites na Casa dos Romeiros do Santuário de Nª Sª da Cola. Estas frugais instalações serviram de residência daquele arqueólogo nas campanhas que ali conduziu nos últimos anos de vida (1958-1964). 





O legado de Abel Viana para a Arqueologia do Alentejo


Não sendo propriamente um historiógrafo da Arqueologia portuguesa e muito menos um estudioso da obra de Abel Viana, o honroso convite da Fundação da Casa de Bragança para participar no evento em boa hora organizado para homenagear este “apaixonado pela arqueologia”, parafraseando o assertivo título da exposição patente no Museu - Biblioteca de Vila Viçosa, só pode ter a ver com as responsabilidades de direção de serviços e de projetos arqueológicos que assumi ao longo da minha vida profissional no Alentejo. Com efeito, apesar da obra legada por Abel Viana transcender largamente as fronteiras do Alentejo, terra que abraçou para viver já em fase madura da sua existência, foi aqui, em particular nos campos de Ourique, que levou essa paixão aos extremos da entrega e do sacrifício pessoal. E a tal ponto chegou essa comunhão com a terra de acolhimento que é frequente um certo espanto, mesmo entre pessoas normalmente bem informadas, quando descobrem que afinal Abel Gonçalves Martins Viana, era mesmo natural de Viana do Castelo e viveu no Minho até à idade madura. Não se esperem, pois deste meu pequeno contributo, revelações inéditas ou factos menos conhecidos sobre Abel Viana e a Arqueologia do Alentejo, até porque nesse campo, outros intervenientes o farão, certamente com maior propriedade. Nesta intervenção, recorrendo sobretudo à experiencia pessoal, procurarei dar testemunho do que considero ser o enorme contributo de Abel Viana para o conhecimento, salvaguarda e divulgação da Arqueologia do Alentejo, ainda hoje, meio século após o seu desaparecimento, um legado fundamental, apesar dos enormes progressos a que assistimos nos últimos anos.
Estou radicado no Alentejo há quase três décadas, mas o meu primeiro contacto com a obra de Abel Viana é anterior, remontando aos tempos de aluno da Faculdade de Letras de Lisboa. Com efeito, na Páscoa de 1975, por sugestão do então assistente José Morais Arnaud que regia uma nova cadeira de “Práticas Arqueológicas” a que assistiam alunos de diferentes anos, tive oportunidade de participar numa expedição de reconhecimento arqueológico dos terraços quaternários do Guadiana. Conjugavam-se nesta iniciativa, para além do interesse académico imediato, o anúncio do eminente arranque das obras do Alqueva e a ligação dos participantes ao Grupo de Estudos do Paleolítico Português (GEPP). O interesse arqueológico pelo vale do Guadiana surgia então como alternativa adicional ao Vale do Tejo, onde na região do Ródão, vários dos elementos do GEPP tinham tido o seu batismo de campo e desenvolviam já projetos com objetivos semelhantes. Os terraços quaternários do Guadiana apresentavam ainda um interesse adicional, pelo facto de não serem temática arqueológica inédita. Com efeito, Abel Viana acompanhara nos anos 40, pouco tempo depois da sua mudança para Beja, os trabalhos pioneiros de reconhecimento geológico aí desenvolvidos por Mariano Feio, procedendo a numerosas recolhas de materiais líticos que em função da tipologia e do contexto atribuiu a diversos momentos do Paleolítico. Para Abel Viana, tratava-se do regresso a uma temática que abordara ainda no Minho natal, nos primórdios do nascimento do seu interesse pela Arqueologia. Dos trabalhos realizados no Guadiana, Abel Viana publicaria variadas notícias, identificando e localizando os sítios onde procedera às recolhas de materiais líticos, descrevendo-os de forma sumária, mas adiando sempre uma análise mais conclusiva no que respeitava à sua atribuição cronológica, para futura colaboração com Georg Zbyzewski que considerava o seu mestre neste domínio. Este geólogo e arqueólogo, sobretudo no âmbito de trabalhos similares desenvolvidos com Henri Breuil nos terraços quaternários do Tejo e do litoral português, aperfeiçoara um método de seriação cronológico-cultural dos materiais líticos recolhidos em associação com os diferentes níveis de terraços, baseado no respetivo grau de patine. Curiosamente, Abel Viana, ainda que muito interessado na temática, tinha consciência das suas próprias limitações e manifesta em particular na sua correspondência com Veiga Ferreira, colaborador próximo de Zbyzewski, mesmo em épocas muito posteriores, a enorme vontade de retomar com a ajuda daquele, o estudo destes materiais. A dispersão por outros assuntos e sobretudo o intenso envolvimento de Abel Viana nos seus últimos anos de vida, nos projetos do Castro da Cola e da Atalaia, afastaram-no definitivamente deste tema que tinha marcado o seu primeiro contacto com a arqueologia de campo. Ainda assim, as indicações que nos deixou sobre as indústrias líticas do vale do Guadiana, foram guia indispensável para os trabalhos dessa expedição de 1975, a qual marcaria o retomar de pesquisas que, sempre articuladas ou condicionadas pela ameaça de futura inundação, aí viriam a ser realizadas ao longo do último quartel do Século passado. Em 1979, a montante da velha ponte de Mourão, próximo de local que já Abel Viana referenciara, tive oportunidade com Luis Raposo de proceder a trabalhos num dos sítios observados na expedição de 1975. A recolha de uma indústria lítica, pouco ou nada patinada e com características formais que apontavam para a possibilidade de uma ocupação in situ do Paleolítico Médio, determinou a realização de recolhas sistemáticas de superfície e algumas sondagens cujos resultados negativos no que respeitava à cronologia prevista, nos permitiram então questionar as abordagens tradicionais, meramente formais, deste tipo de sítios e que tinham informado a generalidade dos trabalhos neste campo, incluindo também os de Abel Viana. Mais tarde tive oportunidade de sistematizar toda a informação disponível sobre esta temática do Guadiana (o contexto e a cronologia das indústrias ditas “macrolíticas” ou “languedocenses”) num trabalho presente ao I Encontro de Arqueologia do SW (1993), e no qual a obra de Abel Viana seria um elemento informativo essencial. No entanto, a principal motivação na retaguarda destes trabalhos, passava ainda pela anunciada mas sempre adiada construção da Barragem do Alqueva. Então, para além da informação de base devida a Abel Viana, já se haviam acrescentado os resultados de novas prospeções, com destaque para as realizadas por Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares no início dos anos 80, no âmbito do primeiro estudo de impacto ambiental realizado no contexto do Alqueva. Finalmente, com a retoma definitiva das obras do Alqueva em 1996, foi possível no âmbito do Plano de Trabalhos Arqueológicos então lançado, providenciar a concretização de um grande projeto sobre estas temáticas, envolvendo prospeções, sondagens e escavações (1997-2002), ao longo das margens do Guadiana, em particular a montante do Ardila, demonstrando a existência de uma forte presença epipaleolítica, bem caracterizada a partir das escavações realizadas no sítio “Barca do Xerez, mas confirmando também a existência de vestígios “in situ” de períodos anteriores, do Paleolítico Médio e Superior, a cuja pesquisa ficarão sempre ligados os trabalhos pioneiros de Abel Viana.
Este particular fascínio de Abel Viana pelas indústrias líticas, como já referimos, está diretamente associado ao nascimento da sua vocação arqueológica surgida ainda na terra natal. Abel Viana nasceu em Viana do Castelo em 16 de Fevereiro de 1896, de mãe brasileira, circunstância que lhe terá proporcionado uma precoce estadia no Brasil, onde entre os seus 14 e 17 anos (1910-1913) trabalhou no comércio de um tio. Esta experiência brasileira, como ele próprio reconheceu, terá contribuído para a formação de um espírito aberto, atento às realidades multifacetadas da vida e pouco dado a paroquialismos locais, explicando também a amplitude temática e geográfica de interesses que revela ao longo de toda a sua vida. Após o regresso do Brasil, seguiu o liceu e a escola normal, tornando-se professor primário. Pela mesma época, frequentou também o curso de oficial náutico. Mesmo nunca tendo exercido esta profissão, ter-lhe-á ficado da experiência o interesse pelas ciências naturais e pela tecnologia, que se viria a manifestar por um sentido prático e uma eficácia no campo, pouco comum entre os arqueólogos portugueses da sua geração. Entre 1918 e 1933, exerceu a profissão de mestre-escola um pouco por todo o Alto Minho, o que lhe proporcionou grande proximidade à terra e às gentes, orientando a sua enorme curiosidade para a riqueza do folclore minhoto. Está ligado desde 1919 às primeiras exibições folclóricas associadas às Festas da Senhora da Agonia e em 1920 organiza no Carreço o primeiro grupo folclórico do Minho. Terá sido, neste contexto de grande ligação à cultura minhota, que terá acompanhado as notícias das escavações em curso no castro vizinho de Santa Tecla, junto a La Guardia, na margem galega da foz do Minho, revelando uma realidade semelhante à que já conheceria da Citânia de Santa Luzia em Viana do Castelo. Uma outra circunstância merece aqui alguma referência, ainda que a título de curiosidade, já que não há notícia de qualquer contacto, à época entre ambos. Referimo-nos à presença ocasional em La Guardia, entre 1919 e 1928, do jovem Padre Eugénio Jalhay, como professor do colégio português aí fundado pelos jesuítas, em resposta às dificuldades sentidas com os governos da I República. Já interessado pela Arqueologia desde a sua estadia como noviço no colégio do Barro, Torres Vedras, onde colaborara em escavações de Felix Alves Pereira num tholos pré-histórico, a Jalhay se deve em 1924 a identificação dos primeiros picos “asturienses” nas praias de La Guardia, na sequência da grande divulgação dos trabalhos do Conde de La Vega del Sella. O estímulo de Jalhay deverá ter contribuído para descobertas de materiais semelhantes, ao longo de todo o litoral minhoto feitas de forma independente por Rui de Serpa Pinto, Abel Viana e posteriormente Afonso do Paço. No caso de Abel Viana, estas recolhas constituíram um verdadeiro batismo arqueológico, que iria estar presente ao longo da sua longa carreira, com especial destaque para as suas futuras pesquisas alentejanas nos terraços do Guadiana e que, curiosamente, divulgaria preferencialmente nas páginas da Brotéria, a revista jesuíta a que Jalhay sempre esteve ligado. No entanto, antes de abandonar o Minho por razões profissionais, Abel Viana ainda teria oportunidade de abordar outras temáticas pré-históricas, demonstrando desde cedo um ecletismo de interesses que se traduzirá num precoce exercício de cartografia arqueológica minhota complementada por uma primeira experiencia museológica em Viana do Castelo. Identifica vestígios rupestres em Lanhelas e Carreço, estuda a Cividade de Âncora e a Citânia de Santa Luzia, aborda mesmo o megalitismo em exemplares do Carreço ou de Vila Praia de Âncora. Aliás, nunca se desvincularia totalmente do seu Minho natal, mantendo relações com os familiares mais próximos e voltando por vezes, e em circunstâncias várias, aos temas arqueológicos minhotos, chegando inclusive a dirigir um campo de trabalhos na Cividade de Âncora, já nos anos 60. Detivemo-nos nesta sua fase minhota de juventude, pois estamos em crer que ela acabou por ser determinante quer para a amplitude dos seus interesses temáticos quer para a sua atitude apaixonada e socialmente empenhada face à Arqueologia. De facto é ele próprio que reconhece, citado pelo sobrinho António Martins Costa Viana, que “os nove anos decorridos entre 1922 e 1931, em que residi nas freguesias de Seixas e Lanhelas, na margem do rio Minho, tendo em frente extenso panorama da Galiza, foram decisivos na deliberação por mim tomada, quanto a dedicar-me particularmente aos estudos arqueológicos”.

Entre 1933 e 1938, Abel Viana, já próximo dos 40 anos de idade, transfere-se para o Algarve onde irá exercer o magistério primário como inspetor e diretor escolar. Pelo que se depreende do seu próprio testemunho, por razões profissionais e pessoais, esse será um período de vida complexo em que não consegue dedicar-se tanto como gostaria, à Arqueologia. De qualquer modo, as funções que exerceu no Algarve, os trabalhos de investigação arqueológica que ainda assim conseguiu realizar, em particular na própria cidade de Faro, o relacionamento pessoal que estabeleceu com Mário Lyster Franco em Faro ou José Formosinho em Lagos, ou os contactos regulares que mantinha já com instituições nacionais, como o Museu Etnológico de Lisboa, preparavam o terreno para uma mudança radical de vida que, no entanto, apenas se concretizaria em Beja.
Após uma curta passagem por Setúbal, Abel Viana fixou-se definitivamente em Beja, a partir de 1939, assumindo as funções de Adjunto do Diretor Escolar. Aqui, no início dos anos quarenta, começa a consolidar e estruturar uma carreira que progressivamente lhe conferiria, como realçou recentemente João Cardoso, “um estatuto de primeiro arqueólogo profissional português, depois de Estácio da Veiga”. Durante algum tempo ainda prevalecem os laços que criara no Algarve, publicando ou retomando mesmo, algumas das investigações que ali iniciara, mas começa a cimentar raízes em Beja. Inicia uma colaboração regular com o Museu Regional, de que se intitula catalogador, que concretiza através do estudo e publicação dos respetivos acervos que ele próprio enriquece com novas recolhas. Colabora também com a Câmara como vogal da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia, o que lhe permite acompanhar as principais obras na cidade e estar atento a importantes achados, aprofundando o conhecimento arqueológico da respetiva evolução urbana, tal como fizera em Faro e que nos permitem reconhecer Abel Viana, tal como destacou oportunamente José Manuel Silva Passos, como percursor da arqueologia urbana em Portugal. O interesse pelo Paleolítico do Guadiana, a que já aludimos, através da colaboração estabelecida com Mariano Feio, viria a ser um dos primeiros projetos de fôlego desenvolvido por Abel Viana a partir de Beja. Apesar da distância, não resiste ao apelo de José Formosinho, diretor do Museu de Lagos e associa-se no final dos anos 40 ao estudo das necrópoles megalíticas de Monchique identificadas por uma equipa dos Serviços Geológicos de Portugal no âmbito de uma missão de reconhecimento na região conduzida por Georges Zbyszewski, com a colaboração de Octávio da Veiga Ferreira. O envolvimento de Abel Viana nestes trabalhos acaba por contribuir para o estabelecer de relações de amizade com aqueles geólogos/arqueólogos, o que virá a ser determinante na carreira de Abel Viana, quer no âmbito estritamente científico, quer em particular no âmbito institucional. Poderemos afirmar que Abel Viana, pôde cimentar um percurso como arqueólogo, muito para além dos estreitos limites de Beja ou mesmo do Baixo Alentejo, não apenas pelas suas fortes características temperamentais, mas também pela teia de relações humanas que soube cultivar, em particular com os Serviços Geológicos de Portugal e com o Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, estrutura da Universidade do Porto fundada e liderada por Mendes Correia. Aliás, seria através do apoio deste último que Abel Viana conseguiria o estatuto de bolseiro do Instituto de Alta Cultura que lhe permitiria, a partir de 1945 e praticamente até à sua morte em 1964, dedicar-se por inteiro e quase em exclusivo, à atividade arqueológica, situação muito rara à época.
É graças a esta exclusividade, conjugada com a cumplicidade com Octávio da Veiga Ferreira e Georges Zbyzewski, que Abel Viana se envolve em nova e decisiva frente de trabalho de campo na zona de Aljustrel, Ourique e Castro Verde em meados dos anos 50, região do Baixo Alentejo que estava a ser objeto de levantamento pelos Serviços Geológicos de Portugal. Reforçam nesta ocasião a equipa arqueológica, o Pároco da Messejana, Pe. António Serralheiro, e o Engenheiro Ruy Freire de Andrade, funcionário das Minas de Aljustrel. Ainda que o interesse arqueológico inicial desta equipa se concentre na escavação e estudo de um alargado conjunto de monumentos megalíticos inéditos, do tipo “tholos”, identificados no âmbito das prospeções geológicas, Abel Viana por influência de Ruy Freire de Andrade, acabará por alargar o seu interesse ao estudo dos abundantes vestígios da mineração antiga de Aljustrel. Apesar desta focagem no Baixo Alentejo que, como veremos, acabará por ganhar importância na fase final da sua carreira, Abel Viana manteve sempre em aberto outras opções, como resulta claro da correspondência que mantém com o amigo Octávio da Veiga Ferreira, recentemente divulgada por João Luis Cardoso, e onde amiúde enuncia intenções ou projetos, alguns dos quais bem fora das suas áreas de trabalho habituais. Por vezes concretizados, como no caso do megalitismo do Vouga, outras vezes nem tanto, como o estudo das Grutas de Tomar que se propunha realizar com Camarate França. É nesse contexto sempre aberto a novas frentes de pesquisa que se explica o seu envolvimento com a arqueologia da região de Elvas, para onde é atraído pelo diretor do Museu de Elvas, Domingos Lavadinho. Ao tomar conhecimento da importância dos espólios recolhidos de forma amadorística e durante anos a fio, por António Dias de Deus e António Luis Agostinho, em numerosas necrópoles do Alto Alentejo, Abel Viana irá assumir, sem reservas, uma atitude de salvaguarda patrimonial, invulgar para a época. Propõe-se orientar “in loco”, o estudo e a publicação dos materiais recolhidos e tomar as necessárias medidas para a sua integração museológica, atitude que em última análise estará na origem do Museu Arqueológico que a Fundação da Casa de Branca irá instituir, sob sua proposta e orientação, em Vila Viçosa. Apesar do evidente interesse público, antecipando no Alentejo aquele que deveria ser o modo de atuação das instituições patrimoniais apenas criadas muitas décadas depois, esta atitude acarretaria a interferência pouco amistosa de Manuel Heleno, o poderoso Diretor do Museu Etnológico. Valeu-lhe na ocasião, como se depreende da leitura da correspondência que troca a propósito com Veiga Ferreira, o apoio incondicional de Mendes Correia que lhe permitiu continuar a tarefa e levar a bom porto a recuperação possível de espólios e a informação acumulada mas não publicada e que de outro modo se perderia.
Terá sido no contexto dos já referidos trabalhos realizados no Baixo Alentejo com a equipa dos Serviços Geológicos que Abel Viana, através do Padre Serralheiro tomou conhecimento do povoado das Mesas do Castelinho, de que ambos publicam uma primeira notícia em 1957 e onde, segundo informação pessoal de Carlos Fabião, poderão mesmo ter chegado a fazer algumas sondagens. O facto de aquela mesma estação ser citada, em paralelo com o Castro da Cola, na petição que Abel Viana dirige nesse mesmo ano à Fundação Gulbenkian, solicitando apoio financeiro para a aquisição dos respetivos terrenos e para escavação de ambos os sítios, mostra que a “parada” de Abel Viana era bastante ambiciosa e mesmo algo despropositada para a época, ainda que cultural e cientificamente justificada, como se comprovaria décadas depois. Não consegue verba para as aquisições fundiárias mas garante o apoio da Fundação para iniciar em 1958 aquele que viria a ser o seu último e mais ambicioso projeto: a escavação em área do castro da Cola, um sítio tão mítico como remoto da arqueologia portuguesa, com vestígios de uma larga diacronia de ocupação, da Proto-história à Reconquista cristã, visitado ou citado por André de Resende, Frei Manuel do Cenáculo, Leite de Vasconcelos e tantos outros. Apesar de na petição apresentada à Fundação, publicada por João Luis Cardoso, Abel Viana referir como parceiros uma impressionante lista de ilustres colegas (Veiga Ferreira, Ruy Freire de Andrade, Fernando de Almeida, Fernando Nunes Ribeiro, Luis de Albuquerque e Castro e António Serralheiro) as escavações da Cola, acabarão por ser o projeto arqueologicamente mais solitário de Abel Viana. Pese embora a colaboração da população local por quem demonstra crescente afinidade, compartilhando dificuldades e alegrias, o isolamento prolongado e as espartanas condições de estadia e trabalho consomem-lhe recursos e energias para além do que seria normal. Ainda assim, a par da escavação na Cola consegue atrair o interesse e garantir o envolvimento de investigadores da delegação madrilena do Instituto Arqueológico Alemão para a escavação da vizinha Necrópole da Atalaia, uma das suas últimas grandes descobertas no Baixo Alentejo, encerrando de forma brilhante, o ciclo iniciado mais de uma década antes com a equipa dos Serviços Geológicos. O desaparecimento inesperado de Abel Viana quando, após cinco anos a pregar no deserto, parecia ter conseguido congregar o interesse das autoridades nacionais e regionais para a importância científica, cultural e turística do Castro da Cola, no contexto em que ocorre, acaba por parecer o desfecho de uma tragédia para a qual o voluntarismo e a paixão pareciam ter empurrado Abel Viana. E de facto, por dramática coincidência, ou por força da emoção que terá traído o seu coração já enfraquecido, o sítio da Cola foi visitado em 16 de Fevereiro de 1964, véspera da sua súbita morte, por uma extensa comitiva, presidida pelo Ministro das Obras Públicas e pelo Governador Civil de Beja, prenunciado o que parecia ser uma nova e decisiva fase para o seu projeto. Infelizmente, dois anos depois do desaparecimento de Abel Viana já as ruínas da Cola e da Atalaia se encontravam esquecidas e ao abandono, como alertava em extenso artigo no Diário Popular (22 de Setembro de 1966) o conhecido jornalista bejense, José Moedas e seria preciso esperar ainda algumas décadas, para que as sementes lançadas por Abel Viana finalmente frutificassem. Com efeito, no início dos anos oitenta, Caetano Mello Beirão, um advogado cujo interesse pela arqueologia nascera precisamente nos campos de Ourique, propõe enquanto Diretor do recente Serviço Regional de Arqueologia do Sul, a criação de um Parque ou Circuito Arqueológico com epicentro no Castro da Cola, valorizando um largo conjunto de monumentos, alguns escavados por Abel Viana, como a Nora Velha ou a Atalaia, outros pelo próprio Caetano Beirão. A concretização do projeto, por falta de meios, arrastar-se-ia por alguns anos e eu próprio nesse âmbito, tive oportunidade de aí conduzir algum trabalho de campo no início dos anos 90, chegando a pernoitar numa das casas usadas por Abel Viana três décadas antes. Finalmente, na transição do Século, viria a concretizar-se a aquisição pelo Estado dos terrenos do Castro da Cola e a instalação de um Centro Interpretativo numa das casas de romeiros do Santuário de Nª Sª da Cola (inaugurado em Março de 2001, 37 anos após a morte de Abel Viana) em apoio à visita ao “Circuito Arqueológico da Cola” e que hoje funciona graças à Câmara Municipal de Ourique. Também, mais a Sul, nas Mesas do Castelinho, Almodôvar, a tal segunda opção que Abel Viana preterira pelo Castro da Cola, a situação evoluiria de forma lenta mas positiva. A destruição parcial do povoado, em meados dos anos 80, por um alucinado caçador de tesouros, desencadeou uma reação por parte do Serviço Regional de Arqueologia, criando as condições para o desenvolvimento de um projeto de investigação universitário por parte de uma equipa da Faculdade de Letras de Lisboa, dirigida por Carlos Fabião e Amílcar Guerra, projeto que ao longo de duas décadas constituiu uma verdadeira escola prática de Arqueologia para dezenas de alunos, concretizando também neste aspeto, uma das mais reconhecidas preocupações de Abel Viana. Também este sítio, onde se confirmaria importante sucessão de ocupações (povoado fortificado da II Idade do Ferro, núcleo urbano de época romano-republica e finalmente, castelejo muçulmano), acabaria por ser adquirido pelo Estado, estando em curso um plano de valorização que passa pela instalação de um núcleo interpretativo na vizinha localidade de Santa Clara-a-Nova e pela melhoria das condições de acesso e visita pública.
Chegados a este ponto, julgo ser possível, ainda que em traços largos, proceder a um balanço sobre o enorme contributo de Abel Viana para a arqueologia alentejana, mostrando que meio século após o seu desaparecimento, muitas dos caminhos que trilhou ou das opções que tomou e que então poderiam parecer lunáticas ou no mínimo demasiado emotivas, se viriam a confirmar como linhas de ação que hoje consideramos estruturantes no contexto da arqueologia da região. Comecemos por Beja, sua base de trabalho, que lhe fica a dever antes de mais a criação da revista Arquivo de Beja, repositório para tantas das suas pequenas mas importantes notícias e que, apesar da crescente irregularidade, ainda hoje se mantém. A Abel Viana se fica também a dever, numa época em que ninguém falava de “arqueologia urbana”, a chamada de atenção para a existência de importantes vestígios soterrados das Bejas anteriores, em especial das suas épocas romana (com a descoberta do Templo Imperial ou a recuperação do Arco de Mértola), visigótica e islâmica, que era necessário conhecer e salvaguardar quando possível. As escavações da Rua do Sembrano nos anos 90, entretanto musealizadas ou as extensas escavações em curso dirigidas por Conceição Lopes na Acrópole, confirmando as observações de Abel Viana, vêm na continuidade direta do seu trabalho pioneiro. Da colaboração com Mariano Feio, resultou a primeira chamada de atenção para a realidade das indústrias líticas da Pré-história antiga dos terraços do Guadiana, fundamento para o posterior desenvolvimento da investigação, em particular nas zonas a montante do Ardila, afetadas pelos projetos do Alqueva. Já a Arqueologia do Norte Alentejano, em particular da região de Elvas, lhe fica duplamente devedora. Pesem embora as circunstâncias muito pouco científicas como A. Dias de Deus e A. Luís Agostinho, haviam congregado importantíssimos espólios provenientes de necrópoles pré e proto-históricas, romanas e até visigóticas, a Abel Viana se ficou a dever o registo da informação arqueológica possível e, finalmente, com o seu entusiasmo e empenho pessoal, a recuperação de parte significativa desses espólios, depositados no Museu de Elvas ou no Museu-biblioteca que a Fundação da Casa de Bragança, por sua proposta acabaria por constituir no Castelo de Vila Viçosa. Este aliás, apesar de renovado, constitui ainda hoje um dos contributos mais concretos e expressivos de Abel Viana para a Arqueologia Alentejana, reconhecido pela própria Fundação através do conjunto de iniciativas com que decidiu homenagear a sua memória no cinquentenário da sua morte. Em termos científicos e patrimoniais, porventura será o Baixo Alentejo, em particular a região de Ourique, Aljustrel, Almodôvar e Castro Verde, que mais terão beneficiado do contributo original de Abel Viana. Caetano Melo Beirão, no desenvolvimento dos trabalhos de investigação realizados na mesma região a propósito da Idade do Ferro, já tinha destacado esse mesmo facto e mais recentemente, Artur Martins, ao rever o megalitismo de Ourique para a sua tese de mestrado, veio reforçar essa noção. Não será também menor o contributo dado por Abel Viana ao retomar dos estudos da mineração antiga em Aljustrel, de colaboração com Ruy Freire Andrade e hoje continuados por projeto ligado ao próprio Museu Municipal. Mas, como realçámos, será no povoado das Mesas do Castelinho e no Castro da Cola, que o visionarismo apaixonado de Abel Viana acabaria por ser plenamente legitimado com o passar dos anos, constituindo estes dois importantes sítios paradigmas atuais da salvaguarda e valorização do património arqueológico no Alentejo.
Em conclusão, se quiséssemos adaptar à Arqueologia desta região o conceito de “pais fundadores”, mesmo alargando a ideia a todo o Sul, Abel Viana figuraria, inequivocamente e por direito próprio, na lista dos nomes imprescindíveis. De algum modo foi isso que Caetano Mello Beirão, meu antecessor na Direção do antigo Serviço Regional de Arqueologia do Sul, expressou taxativamente na introdução à sua conhecida obra sobre a I Idade do Ferro do Sul de Portugal, ao defender que havia quatro grandes nomes na origem da arqueologia do Sul de Portugal: Frei Manuel do Cenáculo (1724-1814), Estácio da Veiga (1822/1891) Leite de Vasconcelos (1858-1941) e, finalmente, Abel Viana (1896-1964). Destacando o facto da esmagadora maioria dos títulos da extensa obra de Abel Viana terem sido publicados depois da sua fixação em Beja e de na sua maior parte serem dedicados ao Alentejo e ao Algarve, “onde infatigavelmente ele investigou, escavou, estudou e publicou”, Beirão não hesitou pois em associar à fundação da própria Arqueologia alentejana, com pleno conhecimento de causa, justa e definitivamente, o nome de Abel Viana.

Bibliografia consultada ou referida:
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ARAÚJO, A.C. e ALMEIDA, F.(2013)_ Barca do Xerez de Baixo-Um testemunho invulgar das últimas comunidades de caçadores-recolectores do Alentejo interior, , Memórias d’Odiana, 2ª S, V.3, Beja
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MARTINS, Artur (2014) _ O Megalitismo de Ourique. Um conjunto Megalítico Esquecido, Tese de Mestrado (no prelo)
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MONGE, M.J. (2014)- Génese do Museu de Arqueologia, in Abel Viana (1896-1964) Paixão Pela Arqueologia, Fundação da Casa de Bragança.
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PASSOS, J.M. Silva (1986)_ A.Viana_ a sua importância para a história urbana de Beja, Arquivo de Beja, 2ª s. 3,
PINTO, R. de Serpa (1928)_ O Asturiense em Portugal. Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, Porto
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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Um documento para a História da Arqueologia Portuguesa no final do Século XX

O título é obviamente desproporcionado, mas tal como já aconteceu noutras entradas para este "blog" memorialista, aproveito para aqui registar um documento que redigi vai para três décadas (não tem data, mas foi escrito entre o final de 86 e o início de 87) e que, pomposamente se intitulava "Proposta de reorganização dos serviços de Arqueologia". Na altura era ainda Director do Departamento de Arqueologia do IPPC, um Instituto que então atravessado por uma intensa dinâmica reformista (ou melhor "reformuladora") com sucessivos anúncios de mudanças e alterações que se concretizariam pouco tempo depois. Logo em 1988 seria criado o Instituto Português de Arquivos e em 1991 o Instituto Português dos Museus. Era então minha principal preocupação, tanto quanto possível, salvaguardar alguma "autonomia operacional" da Arqueologia dentro do IPPC que lhe era conferida pela existência de estruturas descentralizadas -os três Serviços Regionais de Arqueologia- desde a fundação do Instituto em 1980. Assim, este documento, antecipando a possibilidade de diluição orgânica dessas estruturas no âmbito da anunciada regionalização do próprio IPPC, após o diagnóstico das dificuldades e problemas da disciplina, enunciava como grandes objectivos o reforço daquelas estruturas regionais (propondo a criação de mais uma para Lisboa e Vale do Tejo), e a reestruturação da Secção de Arqueologia do Conselho Consultivo, promovendo o funcionamento de secções regionais, previstas na lei mas com uma orgânica impraticável. 

Este documento, apesar de discutido a alguns níveis, acabaria por não ter qualquer consequência prática visível e a evolução da situação da arqueologia portuguesa nos primeiros anos da década de 90, acabaria por demonstrar que os receios que o motivavam eram fundados. Logo em 1990 os Serviços Regionais de Arqueologia seriam extintos numa fase de reestruturação do IPPC, sendo o respectivo pessoal integrado em Direcções Regionais do próprio Instituto, Numa primeira fase ainda houve lugar a alguma autonomização da arqueologia regional, já que aquelas estruturas previam uma "Divisão de Arqueologia". Mas logo em 1992, já com Santana Lopes na SEC, com a extinção do IPPC e a criação do IPPAR e das respectivas direcções regionais, essas estruturas arqueológicas deixaram de existir. Consumara-se entretanto a autonomização dos Arquivos e dos Museus, e a Arqueologia ficaria completamente sujeita à lógica do Património Arquitectónico, até ao estoiro do Côa em 1995, que culminou com o reconhecimento da especificidade da área e a necessidade de criação em 1997, do infelizmente efémero Instituto Português de Arqueologia .

É nesse contexto geral que o documento que aqui fica registado terá de ser entendido. Como complemento do mesmo, tomo a iniciativa de também divulgar dois comentários escritos que a este propósito então me foram enviados (Fevereiro e Março de 1987) por dois arqueólogos que muito já considerava e que ainda hoje muito estimo (Professores Jorge Alarcão e Vitor Oliveira Jorge) e a quem não solicitei autorização para o fazer. Passados 30 anos, são já documentos históricos e espero que os seus autores compreendam a bondade das minhas intenções.