sexta-feira, 6 de maio de 2016


 “The Évora area is one of the major archaeological region of Portugal. It is particularly well Known for its great concentrations of chambered tombs, which make it one of the most important megalithic areas in Europe (…) Anta Grande do Zambujeiro, the greatest chambered tomb of Portugal, has a scale sufficient to rank with the mightiest of Europe” (Colin Burgess, 1987)


Amanhã, dia 7 de Maio de 2016 acontecem as Jornadas do Património providas pela C.M. de Montemor-o-Novo, com o tema ‘O Megalistismo em Montemor-o-Novo’, no Auditório da União de Freguesias da Vila, Bispo e Silveiras.  Representando a Direção Regional de Cultura,  em conjunto com uma pequena equipa de colegas ligados às autarquias de Montemor e Évora, iremos apresentar um projecto ainda em curso, no domínio da “realidade virtual” que intitulámos ANTA GRANDE (literalmente, Anta Grande ao Quadrado). Trata-se de uma acção minimalista, antes de mais por forçada economia de meios, tendo como sujeito as Antas Grandes do Zambujeiro e da Comenda da Igreja, assunto não ausente de alguns riscos de incompreensão social.  Com efeito abordar “virtualmente” dois monumentos de primeira grandeza que apresentam tantos e tão graves problemas “reais” (em particular a A.G. do Zambujeiro), não será malbaratar os esforços tão necessários para promover a sua efectiva e urgente preservação e reabilitação "real"?

Não temos uma resposta linear para esta questão pertinente que obviamente nos preocupa a todos enquanto arqueólogos e técnicos do património. Temos no entanto plena consciência de que, enquanto não acordarmos a comunidade (aos seus vários níveis, começando pela comunidade local) para a importância verdadeiramente excepcional deste património único, talvez das maiores e mais originais contribuições da arqueologia portuguesa para a arqueologia mundial (como comprova o recente e cada vez mais amplo interesse pelos Almendres, por exemplo), não conseguiremos mobilizar os enormes recursos (de retorno difícil e a muito longo prazo) que a recuperação e valorização destes monumentos, em particular a gigantesca Anta Grande do Zambujeiro, implicará. 

De facto os novos levantamentos tridimensionais agora ensaiados e cujos resultados preliminares iremos apresentar amanhã, são apenas mais um pequeno degrau (“virtual”) de uma longa “via sacra” de alertas e chamadas de atenção que há já várias décadas tem vindo a ser percorrida sem que ainda se antevejam perspectivas (“reais”).

Dada a oportunidade, aqui ficam alguns registos gráficos, alguns com quase meio século, da monumental Anta Grande do Zambujeiro, verdadeira catedral do megalitismo nacional.  Ao contrário da melhor preservada Anta Grande da Comenda da Igreja,  a amplitude das escavações efectuadas nos anos 60 no Zambujeiro, acabaram por ter efeitos muito negativos expondo a sua complexa mas frágil estrutura à erosão natural e à crescente carga turística.
Corredor da AGZ, em foto publicada em 1974 na revista francesa "Dossiers de l'Archéologie".

AGZ- Vista geral publicada em 1974 na revista francesa "Dossiers de l'Archéologie"
O corredor da AGZ, em foto de CTSilva e JSoares-  anos 70 do Século XX
Anta Grande do Zambujeiro- Foto Levantamento Estereofoto (1983)



Imagem de Vitor Oliveira Jorge publicada em 1985 na versão inglesa da obra de Roger Joussaume "Dolmens for the Dead- Megailth Building throughout the World""



A Arqueologia do Vale do Tejo, na TSF

 Ainda que seja um ouvinte irregular, nomeadamente pelo excesso de oferta de eventos culturais e/ou familiares que se acumulam cada fim de semana que passa,  há muito que sou "fã" do premiado programa do Manuel Vilas Boas, Encontros com o Património, um projecto TSF já com alguma patine, uma parceria com DGPC em que estão envolvidos os meus colegas Manuel Lacerda e Margarida Botto. Aliás tive já oportunidade de colaborar em dois programas, um sobre o Projecto Arqueológico do Alqueva, gravado há alguns anos na sede da EDIA em Beja, e outro de balanço sobre um antigo plano de financiamento ao património "Itinerários Arqueológicos do Alentejo e do Algarve", gravado nas Ruínas de São Cucufate. Esta presente chamada de atenção resulta do facto de o programa de amanhã (que também não vou poder seguir, pelo menos em directo, por estar num colóquio sobre património megalítico promovido pela Câmara Municipal de Montemor-o-Novo) se apresentar com o título "Arqueologia do vale do Tejo". O pretexto imediato para o tema, conforme consta do anúncio no (SITE da DGPC) é a próxima organização das III Jornadas de Arqueologia do Vale do Tejo, que este ano irão ter lugar em Vila Velha de Ródão, e talvez essa circunstancia geográfica tenha induzido a associação que ressalta no texto de apresentação, com a Arte Rupestre do Tejo e a chamada Geração do Tejo...Com efeito essa é uma expressão que não tendo paternidade definida, usei em dois artigos de divulgação sobre esta mesma temática, publicados originalmente em Junho e Julho de 1994 no Diário de Notícias e mais tarde reeditados no livro editado pela Europa-América em 1996, "A Linguagem das Coisas", uma parceria com o Luis Raposo, um dos participantes neste programa. Recordo que na altura, o Francisco Sande Lemos, precisamente um dos mentores (pela idade e capacidade intelectual e física) do grupo de jovens universitários do Tejo, reagiu um pouco negativamente a esse "conceito geracional", num artigo publicado na revista "Forum" da sua Universidade do Minho, lembrando que não competia aos sujeitos envolvidos escreverem a sua própria história... O que é certo é que tal reação acabou por ter um efeito contrário e sempre que alguém se debruça hoje sobre a historiografia da arqueologia lusa do último quartel do Século XX, acaba por esbarrar com essa fórmula expressiva, (também já consagrada na toponímia local!) ao verificar que de uma forma ou de outra, muitos dos arqueólogos em causa (e não só), sobretudo no domínio da Pré-história, acabaram por fazer o seu tirocínio nas Portas do Ródão, fosse no levantamento da arte rupestre, nas prospecções ou sondagens paleolíticas nos terraços quaternários, ou na identificação e escavação dos vestígios megalíticos.

Um conjunto interessante de fotos sobre esta geração, pode ser aqui consultado (Site do Centro de Interpretação da Arte Rupestre do Tejo)

O programa da TSF: http://www.tsf.pt/programa/encontros-com-o-patrimonio/emissao/gravuras-do-tejo-5161740.html


Para registo, aqui deixo em "facsimile" os artigos originais de 1994.

PS_ Através do Facebook, o Vitor Oliveira Jorge comentou hoje (7 de Maio de 2016) este post. Julgo que o seu testemunho é importante para o caso, pelo que, com a devida vénia aqui o transcrevo, "ipsis verbis":

A determinada altura criou-se, e tu foste um dos ecos disso, a noção de "geração do Tejo". Sim, está bem. Precisamos, para fazer a história, desse tipo de "cristalizações", sempre algo convencionais. É como a ideia de "escola do Porto", quem enfim, também teria muito que se lhe dissesse.
O que era engraçado, também, era lembrar os antecedentes do GEEP- Grupo para o Estudo do Paleolítico Português - , o qual teve origem na CAVE (designação que lhe dava o Vasco Salgado de Oliveira, que ignoro se está vivo e que não sei onde pára - muito gostava de o reencontrar, porque era mesmo amigo dele e tive pena que abandonasse a arqueologia), e que eu designava GRUPO DE ESTUDOS ARQUEOLÓGICOS, tão somente. Foi o pai do Vasco, que era abastado, que nos cedeu uma parte da cave de um prédio que possuia em Lisboa, para aí trabalharmos em arqueologia, logo no início do meu curso, aí por 1966 talvez. Foi onde escrevi alguns dos meus primeiros trabalhos publicados. Tornava-se incomportável guardar o material resultante das nossas prospecções nas casas de cada um, e houve a ideia de juntarmos as nossas bibliotecas de arqueologia, o que se concretizou na tal cave. Que éramos nós? Além de mim e do Vasco, o Luís Simões Gomes, que pintava muito bem, e que já faleceu segundo me disseram. Fomos nós que fundámos esse grupo. Quando Luís de Matos começou a dar aulas na FLUL como assistente do Prof. Fernando de Almeida, recomendou a alguns jovens que contactassem comigo, pois me conhecia bem do liceu (tinha sido meu professor de Religião e Moral no Camões e sempre nos demos muito bem). Assim vieram ter à tal cave a Susana, que já era então minha namorada, o Jorge Pinho Monteiro, etc. Mas entretanto eu fui, com uma Ana que o Serrão me apresentou e se fez minha amiga (também não sei onde pára) ao programa Curto-Circuito, e lá atrevi-me a dizer que na FLUL não havia condições para os jovens interessados em arqueologia trabalharem. Na sequência desse programa televisivo ir para o ar (lembro-me de ter comprado um fato para ir ao programa... para o qual até contactei com o Alexandre O' Neill...) telefonou-me o Dr. Farinha dos Santos, que tinha sido meu professor de Pré-história, da parte do Prof. Fernando de Almeida, de quem era assistente. Este também vira o programa, é claro. Toda a gente via. E foi assim que o "D." Fernando de Almeida foi à cave, e escreveu no nosso livro de visitas: "Gosto tanto dos cavistas que até os vou levar para o Museu de Belém" (de que era director). E assim aconteceu. Mas de início deu-nos uma sala enorme, cheia de tralha, lá nos cimos, onde havia um mocho empalhado e se ouviam os ratos no telhado. Pedi-lhe outra sala. E o Fernando de Almeida, que tinha consideração por mim, deu-nos a sala onde o Manuel Heleno, antigo director, teria trabalhado, após ter deixado a direção. E ali foi onde escrevi em pouco mais de um mês a minha tese de licenciatura, em 1972, depois de vir de França com mais 4 elementos do GEPP... a Susana, a Maria Querol (a quem o Fernando de Almeida sugeriu que trabalhasse comigo, pois estava como bolseira espanhola cá. já licenciada), o Jorge Pinho Monteiro e o Francisco Sande Lemos. Ainda me lembro de quando o Francisco me perguntou se podia pertencer ao informal grupo, após uma palestra que fiz no anfiteatro pequeno da FLUL, integrada nas actividade do Círculo de Estudos Arqueológicos que ali havia. O Francisco, adentro dos nossos interesses comuns pelo Paleolítico, sugeriu que fôssemos estudar o vale do Tejo, porque havia lá terraços quaternários identificados, creio, pelo Orlando Ribeiro (que tinha sido meu professor e com o qual havia uma grande estima mútua - ele para mim era um génio). Ora bem, o Francisco tinha também familiares - creio que o Paulo Caratão Soromenho, etnógrafo amador (o Francisco que me corrija se faz favor, se erro) que tinha ligações àquela região do Alto Tejo. Eu não fui ao congresso nacional de arqueologia espanhola de Jaén de 1971, onde o grupo apresentou um trabalho colectivo, que em grande parte redigi e a Maria Querol passou para castelhano, porque fui convidado para ir àquela missão em Moçambique (dirigida pelo Miguel Ramos) da então Junta de Investigações do Ultramar; e por essa razão também não fui um dos "descobridores" da arte do vale do Tejo, tendo apenas participado, com a Susana, na fase inicial, anterior à entrada na equipa de toda essa "geração" de que falas, já depois de voltar de Moçambique, e de ir para a Angola já licenciado, nos inícios de 1973.
Eis alguns pormenores a que podia acrescentar muitos outros, que apenas servem para esclarecer melhor a génese da "geração do Tejo", e qual a razão pela qual todo um conjunto de pessoas ligeiramente mais novas que eu se reuniam no actual Museu Nacional de Arqueologia (José Mateus, Luís Raposo, etc.) e depois de eu ir para África desenvolveram os estudos do Tejo.
A minha acção, perante tal descoberta, de que soube em carta da Susana quando acampava em Cahora Bassa, Moçambique (o que me fez dar muitas voltas à tenda, louco de entusiasmo...) foi essencialmente conectar o grupo com o Eduardo Serrão, pois este não se dedicava a Paleolítico e, por essa ser a temática da minha tese de licenciatura, eu contactar a partir de certa altura menos com ele do que antes, e do que gostaria... mas, estávamos em articulação e logo em carta de Moçambique eu disse à Susana para ligarem ao Serrão, que era o único que nos podia valer perante a grandeza de tal descoberta, uma das mais importante da história da arqueologia portuguesa, sem dúvida. E porque o vale do Tejo foi o alfobre de toda uma nova geração que viria a afirmar-se com o 25 de abril.
Na foto, da esquerda para a direita, António Carlos Silva. António Martinho Baptista, Luis Raposo e Teresa Marques, agora...40 anos mais novos!


quinta-feira, 28 de abril de 2016




A Linguagem das Coisas


O convite para o próximo lançamento de um livro da minha nora Joana, a ter lugar no próximo sábado numa loja da FNAC "A mãe é que sabe", livro que reúne os melhores "posts" do blog que mantem com uma amiga desde o nascimento da minha neta Isabel, lembrou-me que, passam precisamente este ano duas décadas (!) sobre a apresentação de um livro meu, em parceria com o Luis Raposo, afinal com uma génese parecida... Claro que não havia "blogs" (a Internet entre nós estava a dar os primeiros passos) mas os jornais tinham ainda especial importância e as crónicas de ARQUEOLOGIA que ambos escrevíamos semanalmente para o Suplemento Cultural do Diário de Notícias (suponho que editado à quinta-feira) entre 1993 e 1995, chamara a atenção da Europa América, ainda dirigida por Francisco Lyon de Castro que então conheci pessoalmente, tendo-nos sido proposta a edição das referidas crónicas em livro, a que chamámos a "A linguagem das coisas". Não eram comuns e ainda hoje são raras, as edições de cariz comercial sobre arqueologia portuguesa, e por isso o evento de lançamento, realizado no Museu Nacional de Arqueologia no dia 15 de Outubro de 1996, e em cuja organização houve um especial empenho da editora, acabou por ter alguma relevancia social. A apresentação ficou a cargo de Jorge Alarcão, um dos poucos arqueólogos portugueses com uma obra consistente em circuito comercial (desde o seu Portugal Romano editado pela Verbo no início dos anos 70 até às sucessivas edições de O domínio romano em Portugal, da própria Europa-América) e dignou-se assistir,como soía dizer-se, o próprio Ministro da Cultura, Manuel Maria Carrilho. À época já não éramos propriamente dois novatos na arqueologia. O Luis iniciava por essa altura o seu longo e profícuo período de direção do próprio MNA (1996-2012) e eu, após uma curta passagem pela comissão instaladora do IPA, estava então a lançar o projecto arqueológico do Alqueva (1996-2002).  Mas esse fim de tarde no "nosso Museu dos Jerónimos", contando com a presença de tantos colegas e amigos, acabou por ficar indelevelmente marcado nas nossas memórias. Percebo pois, o nervoso da Joana, esperando que tudo corra pelo melhor no próximo sábado.




Publicidade na revista da própria Europa-América, bem acompanahda pelas obras de Jorge Alarcão e Konrad Spindler, um arqueólogo austríaco que escavou em Portugal no final dos anos 60 (Castro do Zambujal) e que se tornou célebre pelos estudos do Homem (neolítico) de Otzi, descoberto congelado nos Alpes.

Publicidade no Expresso

Recensão crítica no Expresso de 4 de Janeiro de 1997, acompanhada pela Mértola Islâmica do meu colega e amigo Santiago Macias, actual Presidente da Câmara da sua Moura natal

terça-feira, 26 de abril de 2016

Arte chocalheira no Monte das Pedras



Para mim o "Ti Bento" do Monte das Pedras, já há muito fazia parte do "património" local, enquanto sobrevivente do trio de trabalhadores rurais que, sob as ordens e orientação do Eng. Miguel Fernandes Soares, antigo proprietário da Herdade dos Almendres, haviam procedido aos primeiros trabalhos de re-ereção de menires do hoje muito conhecido Cromeleque dos Almendres, no início dos anos 60 do século passado. Desse grupo fez parte também o Ti Samina, desaparecido há alguns anos mas com quem tive o prazer de conviver ainda (e muito aprender) no Monte das Pedras e um outro trabalhador residente na Boa Fé, António Canaverde, que já não conheci. Aliás, há pouco mais de um ano, o malogrado Pedro Alvim, por minha sugestão, teve ainda oportunidade de "in loco", recolher o testemunho directo do Ti Bento, sobre a metodologia seguida nesses primitivos "restauros" realizados nas "Pedras Talhas" e que basicamente passaram por, apenas com recurso a instrumentos manuais (enxadas e alavancas), repôr na vertical as grandes pedras (menires) semi-tombadas pelo tempo, mas ainda com a sua base cravada na "cama" original. Apenas algum tempo depois, algures no Verão de 1964, o conjunto de menires dos Almendres seria reconhecido arqueologicamente por Henrique Leonor de Pina, que promoveria entretanto o seu levantamento topográfico e proporia a respectiva classificação.

O Ti Bento, talhando em azinho mais um badalo de chocalho. Um pisador de alho talhado também pelo Ti Bento

Mas afinal o Ti Bento, no que respeita a patrimónios, joga também noutros campeonatos... Já lhe conhecia os dotes no trabalho da madeira, através da qualidade estética de alguns detalhes decorativos nos instrumentos de trabalho por si preparados.  Ignorava, no entanto, as suas qualificações específicas no domínio da "arte chocalheira", uma arte popular recentemente reconhecida pela UNESCO (1/12/2015), como fazendo parte do Património Cultural Imaterial da Humanidade, com necessidade de salvaguarda urgente. É que o Ti Bento, conforme descobri há dias, é especialista na produção dos badalos para os característicos chocalhos, nos quais se usa em exclusivo, a madeira de "azinho", essencialmente por razões que têm que ver com a respectiva dureza e densidade, factores que se reflectirão, por sua vez, no característico efeito sonoro pretendido.

Vivendo não muito longe das Alcáçovas e sendo há muitos anos amigo do antropólogo Paulo Lima, responsável científico por esta candidatura, foi com natural curiosidade que acompanhei o seu desenvolvimento e o seu grande sucesso, não necessariamente garantido, tendo em conta a singeleza do objecto em si. Mas foi obviamente com alguma estupefacção que me deparei com mais esta aptidão do meu vizinho Bento, acrescendo como motivo de especial interesse, o facto de, neste caso, o seu  trabalho resultar da "encomenda" de uma Herdade vizinha, em vias de renovação dos "meios de sinalização" do respectivo gado vacum.


quarta-feira, 20 de abril de 2016

Ainda Santarém, revisitando a Alcáçova

Há dois dias referi-me neste Blog (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/04/o-novo-e-premiado-museu-diocesano-de.html) ao interessante Museu Diocesano de Santarém e por agradável coincidencia, no dia seguinte o Vitor Serrão divulgou no Facebook um seu artigo publicado há dias no Correio do Ribatejo  (cuja leitura recomendo ler aqui) sobre o novo Museu, a propósito do recente galardão que ao mesmo foi atribuído no âmbito do Prémio Europa  2016. Pessoalmente, para além da qualidade do projecto museográfico e arquitectónico (no domínio da requalificação do edificado pré-existente) gostaria de destacar o modelo de gestão da visita pública subjacente ao projecto, modelo que enquanto vulgar visitante me pareceu eficaz e sustentável, apesar de minimalista. Recordo que, muitas vezes, é neste aspecto que projectos museográficos interessantes acabam por sossobrar. Demasiada preocupação com o acto criativo em si e com a "inauguração", acaba por fazer esquecer o dia seguinte, descurando-se aquela que é a principal razão de ser dum projecto desta natureza: a relação com o público para quem é suposto dirigir-se. Neste caso, o plano de visita parece-me particularmente feliz, não esquecendo a visita à Catedral e à sacristia, e o modelo de "exploração" exequível com meios humanos restritos (tudo pode ser controlado pela recepcionista, incluindo a bem abastecida loja de souvenires) mostrando que nada foi deixado ao acaso.
São João de Alporão, o primeiro Museu de Arqueologia que visitei em toda a minha vida (certamente ainda de calções)...

Infelizmente, em Santarém, pelo que me foi dado ver em curta visita turística, abundam exemplos contrários, alguns dos quais muito pouco abonatórios para os profissionais do património, nomeadamente para os arqueólogos. A caminho da Porta do Sol (Alcáçova de Santarém) onde me interessava ver a integração de vestígios arqueológicos resultantes de prolongados projectos de investigação aí desenvolvidos, passei junto a São João de Alporão. Um sítio que para mim tem um especial significado pois é certamente o primeiro lugar chamado "Museu" em que me foi dado entrar, há mais de meio século, quando tinha pouco mais de 10 anos. As memórias desse tempo confundem-se certamente com visitas posteriores, algumas já a nível profissional (em meados dos anos 80, visitei Santarém em trabalho acompanhando o já falecido João Palma Ferreira, na altura Presidente do IPPC, visita em que o grande tema era a recuperação do Convento de São Francisco!). Mas, a imagem difusa que ainda conservo, é a de uma amálgama incoerente de pedras e inscrições, conferindo ao pequeno templo um ar de gruta de Ali Baba. Julgo que oportunamente (ou não) o Museu foi remodelado (1995, segundo consegui descobrir no "Google"...) mas, pelo o aviso improvisado que encontrei à porta, encontra-se encerrado aguardando nova reformulação. O mesmo parece acontecer logo em frente, na Torre das Cabaças, com o Museu do Tempo... Continuo a caminho da Alcáçova e a obrigatória passagem junto ao Teatro Rosa Damasceno, acaba por ser mais um sinal bem óbvio da decadencia dos nossos Centros Históricos (Évora, também tem bem no seu centro, a par de tanto comércio encerrado pela crise, o seu próprio teatro abandonado, o velho Salão Central!).
O abandonado teatro Rosa Damasceno, imagem da decadencia do centro histórico de Santarém

Apesar de tudo, neste contexto de problemas de gestão patrimonial, a situação que se me revelaria mais constrangedora, enquanto arqueólogo, viria a deparar-se-me na Alcáçova. Tendo acompanhado, à distancia e pela bibliografia, os importantes resultados científicos revelados em muitas campanhas de escavação  ali realizadas (umas preventivas outras de objectivos essencialmente científicos), que vieram confirmar a importância deste local estratégico para o controle da circulação no Tejo, desde pelo menos o início da Idade do Ferro (nos alvores do primeiro Milénio antes de Cristo, com a chegada dos Fenícios) até à época romana (Scalabis, teve um estatuto jurídico equivalente ao de Pax Julia, Beja), esperava encontrar algo que transmitisse ao público em geral essa informação relevante, não apenas para a valorização do local e da cidade, mas igualmente para o enriquecimento cultural dos visitantes. É essa a contrapartida que a Arqueologia deve à comunidade pelos recursos consumidos por quantos vivem dessa actividade. E de facto,ao aproximar-me do cuidado jardim das Portas do Sol, não me passou despercebida uma enorme mas bem integrada estrutura que adivinhei fazer parte de um projecto de valorização arqueológica de ruínas conservadas "in situ". Apesar da falta de qualquer elemento identificador ou sinalizador (o interessante desdobrável sobre o Cento Histórico de Santarém fornecido pelo turismo Municipal também nada acrescentava), não tive qualquer dúvida em para ali dirigir-me. Um equipamento de controle, já vandalizado e desactivado, instalado no acesso, confirmava que estava no caminho certo que levava a um largo varandim rodeando uma grande zona coberta, protegendo diversas estruturas arqueológicas. Mas, infelizmente, era tudo. Por mais que procurasse qualquer elemento interpretativo ou sequer identificador do que ali estava preservado, não encontrei sequer uma palavra, quanto mais uma linha. Olhando com alguma atenção, pareceu-me perceber a lógica que terá presidido à solução comunicativa. Uma caixa metálica suspensa, já oxidada pelo tempo, parecia esconder um projector de video, por certo há muito inoperacional, frente a um ecrã acrílico...Provavelmente, sempre que um visitante passava pelo equipamento de controle, aqui seria projectada a indispensável informação de apoio. Coisa que, pelo ar do equipamento, há muito que já não acontece...

Felizmente, pensei eu, a esmagadoura senão a totalidade dos muitos visitantes das Portas do Sol, delicia-se com a extraordinária vista da lezíria e, pura e simplesmente, ignora aquelas "ruínas musealizadas". E dali saí acabrunhado pela confrangedora situação. Não apenas por não ter conseguido interpretar as estruturas expostas, nem funcional nem cronologicamente (problema de arqueólogo pré-histórico), mas sobretudo por ter consciência que, dependendo do serviço onde trabalho há décadas,  e onde já fui responsável, também existem afinal situações semelhantes...




As ruínas conservadas e protegidas da Alcáçova de Santarém. Um projecto de qualidade a que falta "apenas" a indispensável interpretação.



segunda-feira, 18 de abril de 2016

O novo e premiado Museu Diocesano de Santarém e as minhas memórias de infância...

A Igreja jesuítica de Nª Sª da Conceição, actual catedral de Santarém

Por várias razões estava com vontade de visitar o novíssimo Museu Diocesano de Santarém. Não só pelos prémios já recebidos (curiosamente a recepcionista de serviço reconheceu o aumento de visitantes após o anúncio dos prémios ...), também pelas várias referencias muito elogiosas que o meu amigo Vitor Serrão, com origens familiares scalabitanas, lhe tem feito, mas sobretudo pela circunstancia de ter vivido três anos da minha vida naquele magnífico edifício que hoje alberga o museu . Como é sabido, o grande conjunto arquitectónico que integra a Igreja jesuítica de Nª Sª da Conceição, hoje Catedral de Santarém, albergou durante muitos anos o Seminário Menor do Patriarcado de Lisboa, antes da fundação da Diocese de Santarém (1975). E como tal, funcionava como internato escolar para algumas centenas (?) de miúdos, entre os 10 e os 13 anos aproximadamente. Por razões várias, também lá fui parar em  62, com dez anos de idade. Nunca reflecti muito sobre os motivos que me terão levado às minhas "manhãs submersas", uma vez que tal não resultou de nenhum imperativo externo, para além das normais influencias ambientais, tendo-me sempre preocupado mais com as consequencias dessa opção, umas positivas outras negativas. Entre as primeiras e as que agora e aqui me interessam, avulta certamente a abertura a um mundo de cultura e arte que, ao tempo e no meio social donde provinha, seria de muito difícil acesso, se não impossível, para um miúdo a quem o Liceu estava economicamente vedado. Daí que, apesar do passar das décadas, sempre que me deparo profissionalmente ou em turismo com determinadas manifestações artísticas, seja ao nível da arquitectura barroca, seja do património azulejar, seja da pintura em geral, ou até da própria música antiga, as memórias de infância dão a essas experiências, uma substancia que sem elas seriam certamente muito diferentes. Foi pois com emoção que reentrei naqueles corredores que não revisitava há meio século mas tão presentes na memória como se tivesse saído de lá ontem. Espaços naturalmente depurados por uma intervenção museológica de qualidade, pese embora alguns detalhes infelizes mas que não prejudicam o conjunto. Apesar de impossibilitado de revisitar outras áreas também presentes nas minhas lembranças, como o grande claustro Sul, (para onde dava a pequena biblioteca onde descobri as primeiras novelas juvenis ou a banda desenhada belga, com o TimTim á cabeça) a Sala dos Actos, onde tínhamos as aulas de desenho, ou o grande corredor nobre cujos painéis de azulejos eu conhecia quase de cor, imaginando os invasores franceses ali aboletados, furando os olhos dos anjos com as baionetes (como nos contavam os padres, persignado-se...), o que revi foi no entanto suficiente para despertar de sensações, em especial o reentrar no velho refeitório. Mantido intacto pela presente intervenção museológica, apesar de adaptado a espaço de exposições temporárias, quase que ainda podia sentir os cheiros da velha cozinha, de onde através do grande janelão de vidro, passavam as travessas para a rapaziada esfomeada. Lá estava o janelão do púlpito, onde alguém lia durantes os pequenos almoços, de silêncio obrigatório, uma longa novela de guerra entre turcos e cristãos e cujo nome (imagine-se) ainda consigo lembrar: O Mediterrânio em Chamas. Mas, onde por vezes, num progresso "liberal" de assinalar, se passava música clássica num velho gira-discos. E de facto, durante anos a fio foi-me difícil abstrair de um certo odor a café com leite ou mesmo a manteiga meio rançosa, sempre que ouvia o início das sinfonias de Beethoven...




O refeitório, onde pela primeira vez ouvi Beethoven ou Mozart. Ao fundo à esquerda, o púlpito de onde se fazia a leitura...

À primeira vista, e face aos dramas da contemporaneidade, dir-se-ia, um ensaio de geo-estratégia política. Mas não. Trata-se da novela sobre as guerras entre turcos e cristãos, em pleno século XVI, que há meio século nos era lida ao pequeno almoço, no velho refeitório, hoje Museu Diocesano de Santarém.