quinta-feira, 14 de abril de 2016


As ossadas da Inquisição de Évora

Um dos esqueletos recolhidos no Pátio da Inquisição (Fonte: jornal Público)

Como arqueólogo no trabalho de campo mais ligado à Pré-história, raramente tive de lidar com restos humanos osteológicos, pelo menos de forma mais ostensiva. Os tempos longos e a acidez de muitos terrenos geológicos, encarregam-se de fazer desaparecer grande parte da matéria orgânica, restando muitas vezes como vestígios antropológicos físicos apenas pequenas esquírolas ou, na melhor das hipóteses, alguns dentes. Nada de impressionante, mesmo para os mais sensíveis. E mesmo quando, com os colegas da Universidade de Liége, retomámos as investigações na Gruta do Escoural, extensamente usada no Neolítico como necrópole (ainda que mais como ossuário do que cemitério), os testemunhos remanescentes “in situ” das antigas escavações de Farinha dos Santos onde fizemos novas sondagens e recolhas  pontuais, apresentavam apenas fragmentos de alguns ossos  em desconexão anatómica e envolvidos em espessa ganga calcítica, o que lhes conferia um ar pouco ou mesmo nada tétrico.

Apesar desta experiência “antropológica” limitada, tive oportunidade ao longo da minha carreira de acompanhar dezenas de escavações, um pouco por todo o país mas especialmente no Alentejo, onde foi necessário lidar com a presença de enterramentos humanos de todas as épocas, das mais antigas às mais recentes. Tive até a possibilidade de, na qualidade de responsável do Serviço Regional de Arqueologia do Sul (1988-1990), contribuir de algum modo, para a evolução das práticas até então correntes na escavação de vestígios antropológicos, graças à colaboração então conseguida em Évora com uma “antropóloga física”, a Teresa Matos Fernandes, natural de Évora e, neste domínio, juntamente com a sua colega e actual Professora Catedrática de Coimbra, Eugénia Cunha, uma das introdutoras em Portugal das modernas práticas metodológicas. De facto a escavação de restos humanos até à publicação do regulamento de trabalhos arqueológicos de 1999 (já sob a influência do Instituto Português de Arqueologia, IPA) não obedecia a condicionalismos especiais. O arqueólogo escavava, registava e interpretava o melhor que podia e sabia os vestígios osteológicos e, na melhor das hipóteses, o antropólogo se disponível, procuraria em gabinete retirar as conclusões possíveis… O Regulamento de trabalhos arqueológicos, revisto em 1999, mais uma das heranças positivas do efémero IPA, veio finalmente determinar através do seu artigo 8º que a escavação de restos humanos fosse assegurada por especialistas (antropólogos físicos) na altura já mais numerosos, graças à escola antropológica da Universidade de Coimbra. 

Esse mesmo artigo introduzia, no entanto, uma outra nuance inesperada. Determinava que a escavação de “cemitérios históricos” ficava dependente da concordância das autoridades responsáveis… Mesmo com alguma imprecisão de conceitos, a lei portuguesa vinha pela primeira vez colocar algumas objecções a uma certa “ligeireza” com que a arqueologia portuguesa costuma(va) lidar com os “restos humanos”, tratando-os como simples artefactos ou fontes de informação arqueológica. Tal atitude, no entanto, parece estar associada a alguma aparente insensibilidade da nossa própria cultura, face ao destino dos restos mortais dos nossos antepassados, pelo menos passada a relação directa de proximidade geracional com o defunto. Ao contrário do que acontece com outras culturas, onde o “respeito” pelos restos humanos, seja qual for a sua antiguidade e até origem, é uma regra quase “fundamentalista”. Veja-se o que ainda hoje acontece em Israel onde os judeus ortodoxos se opõem, por vezes violentamente,  a toda e qualquer escavação de cariz antropológico ou os movimentos indígenas nos USA, exigindo o retorno a território sagrado, de “colecções” antropológicas há décadas depositadas em Museus. Na arqueologia portuguesa, porém, esse é quase um não assunto ainda que aqui ou ali possa aparecer alguma excepção. Recordo um facto ocorrido nos anos 80 com o meu colega José Beleza Moreira, responsável pelo Serviço Regional de ARqueologia do Centro que, na falta de meios para uma análise e estudo antropológico mais aprofundado, após a escavação das ruínas de uma capela medieval na zona do Mogadouro, se viu compelido a entregar ao Pároco local, a pedido deste, os restos osteológicos recolhidos, para que se procedesse ao respectivo funeral no cemitério actual, o que viria a acontecer com todo o ritualismo canónico. Contraditoriamente, na mesma época e ainda durante alguns anos, enquanto não foi introduzida maior exigência ao nível do acompanhamento arqueológico de muitas obras, era normal observar no meio do entulhos dos trabalhos de infra-estruturas urbanas, em particular quando estas passavam perto das igrejas ou conventos, caveiras e toda a espécie de ossadas humanas, sem que tal impressionasse os manobradores das escavadoras ou motivasse qualquer tipo de comoção religiosa ou social.

Vêm estas reflexões a propósito de um texto que, por mero acaso tomei recentemente conhecimento. Trata-se de um comentário publicado em 7 de Setembro do ano passado no BLOG “A viagem dos Argonautas” por Joaquim Palminha da Silva, um jornalista e historiador regional, há muito radicado em Évora e que infelizmente viria a falecer cerca de um mês depois. ver aqui

O malogrado jornalista reagia nesse derradeiro texto às notícias divulgadas por alguns jornais nacionais e pela própria televisão, que davam conta dos resultados de uma investigação antropológica, sobre um conjunto de vestígios osteológicos humanos recolhidos em escavações preventivas realizadas em 2007/2008 durante as obras levadas a cabo pela Fundação Eugénio de Almeida, no chamado Palácio da Inquisição, em plena acrópole eborense.  Certamente pela natureza da temática, a normal publicação de um artigo científico assinado entre outros, pela já citada antropóloga Teresa Matos Fernandes, hoje professora na Universidade de Évora, no “Journal of Anthropological Archaeology”, tinha atraído a curiosidade da comunicação social, incluindo as televisões, que se lhe referiram com algum destaque.  (ver aqui alguns exemplos:

O frontispício do artigo do Journal of Anthropological Archaeology

O artigo em causa, “The unburied prisoners from the jail of the Inquisition of Évora, Portugal”, apesar do título algo apelativo, procura interpretar com o rigor metodológico que se espera de qualquer trabalho de pesquisa científica, a documentação de natureza antropológica recolhida em diversas sondagens arqueológicas realizadas num logradouro do edifício da antiga inquisição de Évora, cenominado a partir de plantas da época, como “pátio de despejos da prisão” ou “lixeira”. Os investigadores, partindo do registo arqueológico e antropológico obtido em escavação e em laboratório, calculam o nº de indivíduos representados nas amostras escavadas, o sexo e idades aproximadas quando possível, e tentam perceber se a deposição dos respectivos restos mortais obedeceu a qualquer ritual ou tradição de natureza funerária, retirando daí as conclusões históricas possíveis. Naturalmente esta investigação, vinha acompanhada de circunstancias menos vulgares e daí a curiosidade da própria comunicação social. O envolvimento directo com as práticas da Inquisição, uma funesta instituição religiosa, ainda hoje altamente controversa, que teve precisamente em Évora o seu primeiro tribunal português (1536) e a possibilidade rara de cruzamento da informação arqueológica com os registos de arquivo da própria instituição, muito cuidadosa a identificar e documentar todos os indivíduos encarcerados.  Antes, no entanto, de abordarmos as questões levantadas pelo texto de Palminha da Silva, sintetizemos as principais conclusões deste estudo. Todos os dados disponíveis (antropológicos, arqueológicos e históricos) demonstram que foi negado qualquer tipo de ritual aos indivíduos cujos restos foram encontrados nos sectores escavados do pátio em causa. Estão em causa doze esqueletos completos e cerca de um milhar de ossos desarticulados que apontam no seu conjunto para um mínimo de mais 16 indivíduos, homens e mulheres, ainda que com maior percentagem destas. Pela posição em que foram encontrados os esqueletos, ainda em conexão anatómica, ficou demonstrado que estes foram lançados para este local como “lixo”, certamente como derradeira “punição para o corpo e sobretudo para a alma, para além da própria morte”, como destacam os autores. Estes concluem ainda, pelo cruzamento das várias fontes, que o pátio terá sido usado como lixeira entre 1568 e 1634. Depois de assinalarem que apenas uma pequena parte do fatídico pátio foi escavado, em função das necessidades da obra de recuperação do edifício da Fundação, terminam com uma proposta (que traduzimos do original em inglês) que, claramente, aponta para questões do domínio ético decorrentes de um posicionamento crítico perante os factos em presença: “Uma escavação mais alargada permitiria um melhor conhecimento deste período negro da História caracterizado por intolerância religiosa tanto em vida como após a própria morte. Mantendo viva a memória destas vítimas poderá ajudar a prevenir no futuro, réplicas destes actos ignóbeis.”

Certamente não conhecendo o trabalho original (pouco acessível e que só me chegou às mãos por deferência da própria Teresa Fernandes)  que questões veio Palminha da Silva levantar, a partir do que a comunicação social divulgou? Em primeiro lugar interroga-se sobre o eventual significado do longo período de silêncio entre a  descoberta (a escavação) e a sua revelação. Depois insurge-se contra o facto do artigo científico ter sido publicado numa revista estrangeira e em inglês. Continuando a questionar aquilo que considera como um estranho “pacto de silêncio”, Palminha da Silva interpela a Fundação Eugénio d’Almeida, proprietária actual do edifício, a Universidade de Évora, que enquadrou parte do estudo e a própria autarquia, pelo manto de silêncio que em sua opinião todos lançaram sobre o “macabro achado”.

Ressalvando alguma visão conspirativa que ressalta destas interrogações e que obviamente resultam do seu desconhecimento das práticas correntes em investigação arqueológica, (nomeadamente quando esta resulta de intervenções de natureza preventiva, como é o caso, muito exigentes em fase de “obra” mas infelizmente muito permissivas no que respeita aos prazos para tratamento e publicação dos resultados, quase sempre adiados “sine die”), interessa-nos aqui destacar sobretudo as suas considerações a propósito do “destino” que em sua opinião, devem merecer os restos humanos em causa. Dirigindo-se particularmente à autarquia, como entidade eleita representando a comunidade contemporânea, Palminha da Silva  vem afinal propôr que seja dado hoje a estes restos mortais, um tratamento humanista que vá para além do seu interesse documental e científico já demonstrado, propondo em última análise que a Câmara Municipal “garanta o abrigo e repouso dos restos mortais destes eborenses e alentejanos, avós dos nossos avós, em talhão próprio no cemitério municipal, requisitando para isso as ossadas à Fundação Eugénio de Almeida”.


E de facto, seja qual for o posicionamento religioso ou filosófico, a partir do qual a antropologia ou a arqueologia aborde a problemática dos despojos humanos que normalmente surgem nas nossas escavações, mesmo sem entrar em pressuposto ideológicos como os que decorrem do texto de Palminha da Silva, julgo que sempre lhes será devido um tratamento diferenciado, relativamente à generalidade dos artefactos com que lidamos. Essa, pelo menos é a minha posição sobre um tema que não é isento de polémica entre os próprios arqueólogos.

Pelo seu interesse como testemunho aqui transcrevo o texto de Palminha da Silva (1945-2015)

Palminha da Silva


Achado Arqueológico & insensibilidade humana
(Inquisição de Évora)
Um “achado arqueológico” acontecido em Évora nos anos 2007 e 2008 (?), durante escavações em propriedade da Fundação Eugénio de Almeida (FEA) situada na “acrópole” da cidade, depois estudado em pormenor no ano de 2013, só agora (Agosto de 2015!) veio a conhecimento público, aparentemente através de artigo na revista da especialidade em língua inglesa, Journal of Anthropological Archaeology, com a “assinatura” de três investigadores portugueses do «Centro de Investigação em Antropologia e Saúde da Universidade de Coimbra», que contaram com a colaboração do Departamento de Biologia da Universidade de Évora.
O dito “achado” é constituído pelos restos mortais de 12 adultos, lançados na lixeira do extinto palácio daInquisição de Évora, hoje Fórum da Fundação Eugénio de Almeida. Segundo os investigadores, trata-se das ossadas de pessoas de origem judaica, referentes aos anos de 1568/1634, e que nem sequer foram “julgadas” pelo então Tribunal do Santo Ofício. A estes restos mortais somam-se perto de mil ossadas de mais de 16 pessoas.
A existência da prisão por simples denúncia, torturas, sofrimentos incalculáveis e morte em fogueira ateada em espaço público na cidade, no período compreendido entre 1542 e 1781, de inúmeras vítimas da intolerância religiosa levada a cabo pelo Tribunal do Santo Ofício de Évora, bem como a eventual existência de soterrados restos mortais destes desgraçados penitentes, não são um “assunto” privado de uns quantos investigadores, provavelmente em busca de itens curriculares, nem tão pouco uma questão que apenas diz respeito à FEA, seus imóveis e espaços a céu aberto.
O espírito humanista, bem como a opinião pública avisada eborense obrigam-me a colocar as questões que a seguir se expõem.
Parto do princípio de que as escavações arqueológicas em espaço privado da FEA, só devem ter sido possíveis com o consentimento da prestigiada instituição.
1) -Nesta ordem de ideias, não se percebe porque existiu um silêncio de perto de sete anos sobre o “achado”? Que se pretendeu acautelar?
2) – Os investigadores de Coimbra entendem que, publicações da sua especialidade e cientificamente fiáveis, só as estrangeiras, isto é, as anglo-saxónicas, pois as nacionais parecem-lhes talvez patuscas, sonolentas, incapazes de servir as grandes revelações arqueológicas do seu génio?
3– Naturalmente acompanhado por uma discrição inusitada da FEA, a que se fica a dever também o silêncio conivente sobre o “achado” arqueológico, por parte da Universidade de Évora?
4 – A que tipo de ignorância cultural e humanista se fica a dever o silêncio e, portanto, ausência de opinião da Câmara Municipal de Évora (CME), instituição do poder local democrático, sobre este macabro “achado”? Sobretudo, no que se refere ao respeito e dignidade que devemos aos restos mortais de pessoas que foram vítimas da intolerância e da criminalidade anti-cristã da Inquisição de Évora? Que tipo de desmemória é esta, precisamente quando a CME é gerida por membros de um partido político que, historicamente, conheceu as perseguições, a prisão, a tortura física e a morte, apenas por ter opinião política contrária ao regime da ditadura salazarista?
Que haverá de indiscutíveis novidades históricas a sacar aos restos mortais dos “justiçados” da Inquisição de Évora que, pela documentação existente e várias investigações publicadas (entre as quais sublinho a de António Borges Coelho), não sejam já conhecidas?!
Para que submeter a novos «tratos de polé» os restos mortais de pessoas martirizadas há uns quantos séculos?! Não têm o direito de descansar em paz? Porquê? – Porque eram supostamente judeus e, por isso, a “ciência” histórica deve ignorar o humaníssimo respeito pelos mortos, capitulando face às exigências da arqueologia, da antropologia e não sei mais quantas habilidades académicas?! – Os nazis alemães não justificaram de modo muito diferente as suas experiências sobre os prisioneiros dos campos de concentração…
Não pode a CME garantir o abrigo e repouso dos restos mortais destes eborenses e alentejanos, avós dos nossos avós, em talhão próprio no cemitério municipal, requisitando para isso as ossadas à FEA?
No passado, a existência das comunidades judaicas entre nós, deram ocasião à nobreza, aos eclesiásticos e à populaça de Évora de acender uma fogueira por semana, espoliando os bens dos queimados… Hoje, os restos mortais dos mártires da Inquisição, servem para arredondar currículos e municiar noticiários…

quarta-feira, 6 de abril de 2016





Uma década depois, lembrando a Teresa Gamito e a Viagem ao País das Rosas


Faz hoje, 6 de Abril, uma década (!), que um numeroso grupo de "amigos" do Museu Nacional de Arqueologia, suficiente para encher dois autocarros, partia para mais uma viagem de férias e estudo por ocasião da Páscoa. Lisboa -Munique (ou Frankfurt) e depois Teerão, voo directo da Lufthansa.
Não sendo (com muita pena), frequentador assíduo dessas viagens, as circunstancias haviam-se proporcionado para que eu e a Isabel aproveitássemos essa oportunidade rara. E, de facto valeu a pena. Por todas as razões, algumas bem tristes como recordaremos, essa foi uma viagem memorável.

Antes de mais porque, apesar de toda a retórica anti-islâmica que se instalara no pós-11 de Setembro e que viera ainda complicar as já tensas relações entre o ocidente pró-americano e o Irão, se assistia na época já a alguma distensão diplomática (que entretanto ao longo da década foi conhecendo altos e baixos, parecendo estar numa fase de acalmia com o anunciado fim das sanções). Naturalmente a visita semi-oficial de um grupo tão numeroso de turistas ocidentais, muitos deles associados pela respectiva profissão ou estatuto, à administração pública, não deixava de ter alguma repercussão local e que foi deveras notória quer na amabilidade com que fomos recebidos por todo o lado, quer nalgumas medidas de excepção, no que respeita a segurança. Mas também memorável porque o Irão é de facto um país extraordinário, em múltiplos aspectos (culturais, civilizacionais, humanos, sociais e até políticos...) completamente inesperado para a maioria dos ocidentais e, sobretudo, totalmente deformado pela imagem corrente que passa nos "media". E assim a viagem tornou-se uma permanente e imensa caixinha de surpresas para todo o grupo, do qual apenas uma pessoa já havia estado antes no Irão (mas há várias décadas) a Professora Suzanne Daveau, viúva do conhecido geógrafo português Orlando Ribeiro. Memorável ainda para a nossa condição portuguesa, ao termos ocasião de visitar, quase em peregrinação religiosa, as ruínas deixadas pelos portugueses de quinhentos na ilha de Ormuz, local estratégico de controle do golfo com o mesmo nome, hoje desgraçadamente conhecido pelos trágicos conflitos provocados pela geoestratégfia em torno das suas vastas reservas petrolíferas. 

Mas infelizmente esta extraordinária jornada acabaria por ficar também na memória de todos por um triste evento, o qual,de algum modo motiva este texto. Nas vésperas do regresso a Pportugal, quando viajávamos de autocarro para Teerão após a descoberta das extraordinárias belezas da cidade de Isfahan (depois de Kerman, Yazd ou Shiraz, não imaginávamos que algo ainda nos pudesse surpreender no Irão, mas descobrimos que estávamos enganados quando chegámos a Isfahan), a viagem seria abalada pela doença súbita de uma companheira, a amiga e arqueóloga Teresa Júdice Gamito, de origem algarvia e uma das professoras pioneiras, da fundação da respectiva Universidade. A Teresa que conhecia desde os tempos da Faculdade ( vera aqui a Teresa nas escavações do Lexim ) e com quem eu e a Isabel haviamos jantado na véspera, num restaurante "persa" (reclinados em estrados e almofadas) do centro de Isfahan, junto à gigantesca Praça Naqsh-e Jahan, acabou por não resistir, pese embora a rápida e diligente assistência médica, como o Luis Raposo (na altura Director do Museu Nacional de Arqueologia e nessa qualidade "chefe da delegação portuguesa") descreveu, em cima do acontecimento, num testemunho enviado à comunidade arqueológica portuguesa através do ARCHPORT e que abaixo transcrevemos.

O programa final para Teerão, no qual avultava ainda a visita ao Museu Arqueológico e o encontro com autoridades culturais iranianas, ainda se cumpriu mas a viajem estava definitivamente interrompida não só para a Teresa, mas para todo o grupo. Restam-nos, uma década depois, as boas lembranças dessa inesquecível jornada, nas muitas fotos que todos trouxémos, nos videos que alguns também fizeram e até num belíssimo livro bilingue que o jornalista e poeta Adalberto Alves dedicou a esta jornada, a que chamou "Viagem ao país das rosas". A respectiva versão persa ou  فارسی fārsi deve-se a Sépideh Radfar, a nossa competente e simpática guia e intérprete, há muito residente em Portugal e as ilustrações originais são da Isabel, a partir de uma série de aguarelas que dedicou à viagem e muitas das quais conservamos cuidadosamente nas paredes do Monte das Pedras.

A Teresa Gamito, à direita, ainda em Teerão no início da viagem (7 de Abril 2006), na visita ao palácio Gulistân.
A Teresa Gamito, em segundo plano meio encoberta por Luis Raposo, em entrevista a uma jornalista iraniana, com a ajuda da intérprete Sépideh, ao centro (ainda em Isfahan)

A mesa do encontro entre a delegação portuguesa e as autoridades culturais iranianas no Museu de Arqueologia de Teerão e que se transformou num momento de homenagem a Teresa Gamito.



O testemunho de Luis Raposo no ARCHPORT, redigido ainda a partir de Teerão (18 de Abril de 2006)


"A Teresa faleceu no último dia da nossa viagem, a caminho de Teerão. Faleceu como professora: tinha-se oferecido para dar explicações no autocarro do Grupo onde seguia sobre cerâmica islâmica; encontrava-se no uso da palavra há cerca de 10 minutos, com agrado de todos, quando de repente de sentiu mal; foi logo assistida (no próprio autocarro do Grupo seguia um médico); por grande sorte, o autocarro estava então próximo de uma das várias ambulância colocadas ao longo da auto-estrada entre Isfahan e Teerão. Em cerca de cinco minutos foi colocada na ambulância e levada para o hospital; se não faleceu no caminho, veio a falecer logo após a entrada nas urgências, num quadro geral de síncope cardíaca.

Aconteceu em terras iranianas, como poderia ter acontecido em qualquer outro local. Aconteceu, para descanso de todos nós, em circunstâncias da mais pronta assistência médica e temos de reconhecer e agradecer isso aos nossos parceiros e entidades médicas iranianas.

Sendo assim o que importa salientar é o simbolismo da circunstância em que aconteceu: a Teresa faleceu enquanto exercia o seu mister de arqueóloga e professora.

Chocado como estou, apenas me resta recorrer aos antigos e desejar que descanse em paz e que a terra lhe seja leve".

Notícia da homenagem promovida pela Universidade do Algarve à memória da Professora Teresa Júdice Gamito, no segundo aniversário da sua morte




Algumas memórias fotográficas da viagem de 2006

Na travessia marítima entre Bandar-e Abbas e Ormuz. Em primeiro plano a Professora Suzanne Daveau e o seu inseparável caderno de notas e esquiços

Na cisterna portuguesa de Ormuz

Mahan, Mausoléu de Shâh Nemtollah Vali

Foto de grupo nas ruínas de Persépolis

Os túmulos reais de Naqsh e Rostam

Nas pontes de Isfahan

No país das flores e dos jardins, aqui no Palácio Bagh-e Eram, em Shiraz

As Torres do Silêncio (Dakma) em Yazd, a pátria de Zaratrustra e do Zoroastrismo.

A grande contradição da sociedade iraniana, onde o evidente papel de grande relevo social da mulher contrasta (de forma incompreensível para nós) com a ortodoxia ético-religiosa dominante.

Um momento de humor na viagem...À consideração do Ministério da Administração Interna, para economizar alguns euros...







domingo, 3 de abril de 2016


A RECONQUISTA DE PALMIRA

Já por duas vezes nos referimos neste blog à dramática situação de Palmira. Primeiro, em Maio do ano passado por ocasião da ocupação da cidade "Património da Humanidade" pelos jahadistas. Então, impressionados pelas imagens de morte e destruição que começaram a circular, perante a total impotencia da comunidade internacional (para já não falar da UNESCO, tão célere a actuar quando surgem indícios de "alterações" que possam pôr em causa a autenticidade ou integridade dos monumentos que classifica...).ver aqui. Mais tarde, em Agosto, quando surgiram notícias do bárbaro assassínio de um arqueólogo, já octagenário, antigo director das ruínas de Palmira que se recusara a cooperar com os jahadistas, lembrando-nos que em Palmira afinal não estavam apenas em causa pedras antigas, mas também vidas humanas. ver aqui também

Aparentemente, o pesadelo de Palmira parece ter chegado ao fim com a reconquista da cidade pelas forças governamentais sírias, apoiadas pela força aérea russa. O primeiro sinal foi dado pela ocupação da fortaleza de Palmira, Qalaat Ib Maan, um castelo de origem árabe (Século XIII) alterado e ampliado em época otomana (Século XVII) que domina totalmente a cidade de Palmira para quem chega de Damasco e que é (era) local obrigatório para iniciar a visita turística de Palmira. Assim aconteceu na Páscoa de 2004, quando tive a sorte de lá estar com o Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia em memorável viagem a uma Síria que hoje já não existe.

Tal como nas anteriores entradas, recorri mais uma vez à extensa reportagem fotográfica da viagem de 2004, neste caso para registar algumas comparações do "antes e depois", com a ajuda de imagens largamente divulgadas na Internet nos últimos dias.



A fortaleza de Palmira (Qalaat Ibn Maan), reconquistada pelas forças governamentais, a partir da qual se deu o ataque final e a recuperação de Palmira. Um local fantástico que domina Palmira e o deserto mas que sofreu visivelmente com a guerra civil, como mostra a comparação entre a foto da situação actual (cima) e a obtida na viagem do MNA de há 12 anos.





Templo de Bel (ou Baal). Em cima a situação actual, foto divulgada pelas agências. Em baixo a foto tirada em 2004. Aparentemente esta será uma das zonas mais afectadas pelas destruições jahadistas. A "cela" do templo praticamente desapareceu mas a área envolvente parece também muito danificada.





O arco monumental (ou triunfal) no eixo principal da cidade, a "avenida das colunas". O contraste entre a situação actual (foto de cima) e a de há 12 anos é dramático.



 

Aparentemente o Teatro terá sido das estruturas menos afectadas pela guerra, talvez por ter sido usado pelos jahadistas como cenário para os trágicos assassinatos públicos de opositores. Não será fácil esquecer esses factos em futuras visitas turísticas, como a que os amigos do Museu Nacional de Arqueologia fizeram em 2004 (foto de baixo).



O Museu de Palmira, fundado em 1961,  já mostrava sinais de alguma desactualização e envelhecimento,quando o visitámos em 2004, situação que rapidamente era esquecida face à qualidade extraordinária da sua colecção de estatuária funerária, testemunho das tradições culturais e da riqueza das famílias patrícias de Palmira. A estátua destruida que se vê na foto de cima não deverá corresponder ao delicado sarcófrago que ali fotografei em 2004. Mas tendo em conta as imagens da situação actual do museu disponíveis na net, não acredito que este tenha sobrevivido...





As distancias tendem a esbater os defeitos... Aparentemente estas duas imagens, separadas por uma década e por uma ocupação vandálica e iconoclasta, não são muito diferentes. Esperemos que seja possível recuperar algumas das destruições de Palmira embora muitas sejam completamente irreparáveis. Mas que fique a memória desta loucura que, infelizmente, não é apanágio apenas de algumas regiões ou de algumas sociedades. Basta conhecer um pouco da história europeia do Século XX para confirmar isso mesmo...

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Quando a História de cruzou com a Arqueologia, nas páginas do "República"

(22 de Fevereiro de 1974)



A  primeira página do República de 22 de Fevereiro de 1974. A História a ofuscar a Arqueologia...


Já em anteriores ocasiões tirei partido neste blog de alguns "tesourinhos" jornalísticos (re)descobertos pelo Gonçalo Pereira e que, pelo seu interesse arqueológico, aquele me fizera chegar. Gonçalo Pereira é mais conhecido (pelo menos era daí que eu o conhecia) pelo seu magnífico trabalho como editor da National Geographic portuguesa, onde tem dado a conhecer a um público alargado e de uma forma que só ele é capaz, interessantes "histórias" presentes e passadas da nossa "arqueologia". Mas é também um "historiador" do jornalismo português, como descobri recentemente ao tornar-me seu "amigo no Facebook" e ao começar a seguir as curiosíssimas "caixas" jornalísticas que ele vai descobrindo e recontando de forma magistral e extremamente bem informada, cruzando-as com a história contemporânea. Foi por isso que há poucos dias me embrenhei pela leitura da última entrada do seu blog (Ecosfera) "Paradela, Valdemar, Guerra e Ribeiro dos Santos- os nomes por trás das notícias sobre "Portugal e o Futurocuja leitura aqui recomendo

Após a descrição das peripécias em torno dos preparativos da publicação da obra de Spínola, dignas (não sei se pelos factos em si se pela vivacidade do relato) de um romance à John Le Carré, o texto culmina com o equívoco ou o acaso, bem à portuguesa, que faz com que uma notícia discreta destinada às páginas interiores, para fintar a Censura, acabasse na primeira página do República com todo o destaque. Até aqui, fui seguindo atento e curioso a descrição, recordando as circunstancias tão especiais da referida edição que, mais pelo significado e contexto do que pelo conteúdo (como se viria a verificar pelo posterior comportamento do autor) tanto alvoroço provocaram naquele final de Fevereiro de 1974. E com efeito, procurando nos meus livros, lá encontrei um dos 50 000 exemplares então editados, um record absoluto na edição portuguesa, comprado numa livraria da Amadora, cujo nome já não recordo, mas bem conhecida por ser poiso habitual de pessoal do "contra". 


Naturalmente, não podia faltar no texto de Gonçalo Pereira, a reprodução da capa jornalística em causa (22 de Fevereiro de 1974) e foi então que se me produziu o "déjà vu". Eu comprara certamente aquela edição do República de há 42 anos, pois trazia aquela que para mim era a grande ainda que já esperada notícia do dia: o próximo afundamento pelas águas da Barragem do Fratel (Vila Velha de Ródão) do Complexo de Arte Rupestre do Vale do Tejo que uma larga equipa de estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, por sua livre e espontânea iniciativa, vinha estudando desde que fora descoberto no final de 1971, já com as obras da Barragem em curso. (Curiosamente, entre os muitos estudantes que haviam passado pelo Ródão, contava-se também a Manuela Rego, filha de Raúl Rego, o carismático director do "República"). 

Porque começara a dar aulas no mês anterior na Amadora, como aqui já contei, não pude acompanhar os factos que estão por trás desta notícia, e que no essencial haviam sido provocados pela visita ao Ródão do eminente pré-historiador italiano Emmanuel Anati, especialista em arte rupestre, e que culminara com uma conferencia de imprensa, julgo que no Carmo, na sede da Associação dos Arqueólogos Portugueses. É desse evento a foto superior publicada então pelo "República", na qual se reconhece, além de Anati sentado, os meus colegas de curso Francisco Sande Lemos, à esquerda e o malogrado Jorge Pinho Monteiro. à sua direita. Na outra imagem, registando a visita ao Ródão, vê-se Anati e reconheço ainda o Mário Varela Gomes, graças ao inconfundível barrete que usava à época nos trabalhos de campo. O título, a 4 colunas, "As águas da Barragem do Fratel vão inundar dentro de dias um valioso tesouro pré-histórico", apesar do dramatismo e das fotos, acabaria no entanto totalmente ofuscado, pelas circunstancias verdadeiramente históricas em causa. O outro título, apenas a 3 colunas, mas a vermelho e em corpo gigante, era afinal o (pré)anúncio da próxima queda de um regime prestes a fazer meio século.

A notícia do "República" não representou uma excepção à época. A riqueza excepcional da arte rupestre do Vale do Tejo, embora nunca pondo em causa a construção da Barragem (o conceito de avaliação de impactos ambientais das obras ainda não existia em Portugal), acabaria por provocar alguma comoção social traduzida em vários trabalhos jornalísticos. Recordo em especial, uma grande reportagem de 1972 (?), ocupando as duas páginas centrais do Diário de Lisboa, intitulada "Viagem à Pré-história", da autoria de Augusto Vilela (1935-2012). Entre os meus papéis guardo ainda as páginas de outra grande reportagem sobre o afundamento da arte rupestre do Tejo, da autoria da jornalista Angela Caires (1939-2013), mas sem elementos identificadores quer da publicação em causa (talvez do "Século Ilustrado", pelo formato e pelo uso da côr) quer da data, embora, pelo teôr, deva ser próxima da notícia do República. Pelo seu interesse historiográfico e apesar do evidente mau estado, aqui deixo a respectiva reprodução.













quarta-feira, 30 de março de 2016

As grutas gémeas de Maltravieso (Cáceres) e Escoural (Montemor-o-Novo)



A Gruta de Maltravieso, "pedreira para cal", nos anos 50 do Século XX

A recente visita ao Escoural de Hipolito Collado, arqueólogo da Junta da Extremadura e responsável científico pela Gruta de Maltravieso, para além de ajudar a perspectivar próximas colaborações transfronteiriças em torno dos dois sítios "vizinhos e afins", recordou-nos que estamos afinal perante duas cavidades que, sob um olhar "antropogénico", poderíamos quase considerar como “irmãs gémeas”, tendo em conta as circunstancias da sua descoberta, a sua natureza e até o seu destino arqueológico. Se não vejamos…


A Gruta do Escoural, "pedreira de mármore", nos anos 60 do Século XX
Ainda que a sua descoberta esteja separada por uma década (Maltravieso 1951, Escoural 1963), em ambos os casos o achado foi fortuito, resultando da exploração de pedreiras calcárias.  No caso Extremenho, para o fabrico de cal, no caso do Alentejano, para a extração de blocos de mármore.  Nas duas situações o que alertaria os trabalhadores para a natureza arqueológica dos achados seria a presença de esqueletos e cerâmicas antigas, denunciando a existência de uso funerário das cavidades que os arqueólogos, em ambos os casos, atribuiriam posteriormente ao período Neolítico tendo em conta os materiais recolhidos. Ainda que outros factos venham a aproximar de novo as duas grutas, a sorte imediata após a descoberta foi, no entanto, bem diversa. No caso de Maltravieso, pese embora os alertas dos arqueólogos, em particular de Carlos Callejo Serrano, um erudito local, a exploração da pedreira continuaria ainda por vários anos levando mesmo à destruição da sala inicialmente descoberta. No Escoural, porém, a actuação decidida do Arqueólogo Manuel Farinha dos Santos, com o apoio de Manuel Heleno, o “poderoso” e “influente” director do Museu Etnológico, levaria à rápida desactivação da pedreira. Numa fase inicial, e com parecer favorável dos Serviços Geológicos de Portugal (G. Zbyzewski e O.Veiga Ferreira) esta ainda laboraria numa frente alternativa (a Nascente da actual entrada), mas após a classificação da Gruta como Monumento Nacional (ainda em 1963, seis meses após a descoberta, o que deve ser um “record” absoluto…) a pedreira seria definitivamente abandonada. Por comparação e coincidência, refira-se que Maltravieso apenas seria classificada como Monumento Histórico nesse mesmo ano de 1963. Mas nem esse facto melhorou a respectiva situação, tendo continuado a construção na sua envolvente, facto que faz hoje de Maltravieso um caso raro de “gruta pré-histórica localizada em pleno meio urbano” (Cáceres) com todos os problemas que isso acarreta.

Localização da Gruta de Maltravieso, actualmente em plena área urbana de Cáceres


Uma outra singularidade partilhada por ambas as cavidades encontra-se na presença de vestígios rupestres paleolíticos, cuja descoberta seguiu passos semelhantes. Em ambos os casos, esse reconhecimento foi posterior às primeiras pesquisas arqueológicas e a respectiva notícia recebida com algum cepticismo pelas respectivas comunidades arqueológicas, dado o afastamento geográfico destas duas grutas relativamente aos grandes centros de arte paleolítica cantábrico-pirenaicos.  Ainda assim no caso de Maltravieso pouco depois da notícia da existência de arte rupestre, grandes nomes da Arqueologia espanhola como Martin Almagro ou Francisco Jordá Cerda (uma figura que conheci pessoalmente em circunstancias muito gratificantes ver aqui), confirmariam a importância do achado  (1956-59) o que daria a Maltravieso o título de gruta com arte paleolítica mais Ocidental da Europa, título que pouco depois perderia para o Escoural. Já no caso da gruta alentejana, apesar de Farinha dos Santos ter anunciado a descoberta de arte rupestre em 1964, quer na imprensa (Diário de Notícias de 20/7/1964), quer em revista científica (O Arqueólogo Português, 1964), na falta de antecedentes nacionais, seria necessário esperar pela visita em 1965 do arqueólogo francês André Glory (estudioso de Lascaux que  Maltravieso) para a aceitação geral da respectiva datação paleolítica.
(sobre A.Glory e o Escoural ver aqui)
André Glory (ao centro) na Gruta do Escoural, em 1965

Martin Almagro, Callejo Serrano e Francisco Jordá Cerdá em Maltravieso (1959?)



Já no que respeita à situação presente, ainda que seja possível mais uma vez encontrar pontos comuns, o cenário é algo distinto. Curiosamente, em ambos os casos, os processos de concepção, instalação e abertura de Centros Interpretativos, foi praticamente contemporâneo (neste campo as "modas" também são transfronteiriças). 1999 no caso Extremenho e 2000, no caso alentejano. A grande diferença residiu, no entanto, na localização. No caso do Escoural a opção passou pela localização do CI na povoação vizinha de Santiago do Escoural, a 3 km de distância da Gruta (opção compreensível com algumas vantagens e outras tantas desvantagens), já no caso de Maltravieso, o CI está localizado junto à própria Gruta. A grande diferença a nível da ligação ao público e que resulta das circunstancias de conservação que são bem diversas em ambos os casos, reside no facto da Gruta de Maltravieso estar há muito encerrada ao público. Já a Gruta do Escoural, ainda que com limitações, continua a ser possível ser visitada (há no entanto que, previamente proceder à respectiva marcação).

Os vídeos de Maltravieso 

sexta-feira, 25 de março de 2016

"DIA SANTO NO CROMELEQUE"~



É desde sempre do interesse dos arqueólogos que o público tenha acesso aos resultados do seu trabalho. De algum modo, é essa interação com os outros, que dá sentido à pesquisa arqueológica, pese embora o prazer que cada um possa retirar da descoberta e do estudo dos vestígios do passado. Não estou directamente ligado à investigação feita nos Almendres, embora por motivos vários (técnicos, administrativos e até políticos) a sua sorte me interesse há pelo menos 3 décadas. Seria pois normal que situações como a que acabo de viver hoje fosse razão para um imenso júbilo não fosse o terrível reverso da medalha. É impossível calcular quantos visitantes o Cromeleque dos Almendres terão recebido hoje, mas pela amostra que observei entre as 11 e as 12h desta manhã, terão sido seguramente muitas centenas senão mesmo alguns milhares. É certo que o dia, soalheiro e feriado (sexta feira santa), com muitos turistas espanhóis de férias, é propício. Mas de facto não recordo tanto carro, carrinha e aut-caravana, a ir e vir do Cromeleque, quase em fila cerrada, para não falar já dos muitos que a pé e com todos os inconvenientes da poeira se aventuravam também a caminho deste sítio que hoje já pouco tinha de verdadeiramente "mágico" ou "sagrado"... mais parecendo uma feira, com todo o respeito por estas...

Que outro sítio arqueológico do país, (a excepção será naturalmente Conimbriga) atrai hoje tanta gente como os Almendres apesar da (quase) total ausência de um mínimo de controle e organização e (felizmente) apesar de um acesso que não é propriamente muito convidativo (4 Km x2, de um estradão muito irregular e poeirento)? A monumentalidade e singularidade do sítio e, mesmo assim, alguma preservação ambiental (muito prejudicada em dias como o de hoje), a par da divulgação feita pelos próprios visitantes (graças também às redes sociais) explicam certamente esse "sucesso". Mas infelizmente, não evitam nem minimizam os efeitos negativos do excesso de visitantes (já há muito observado na erosão do solo) e sobretudo não previnem eventuais actos de vandalismo, sejam estes resultantes de alguma ignorância cultural ou mesmo de espírito destrutivo, puro e duro. As fogueiras, o despejo de lixo ou mesmo algum "grafitismo" criminoso nos menires, começam a ser demasiado frequentes e não podem ser ignorados. Para já não falarmos na atração que estes sítios representam para os amigos do alheio e que as crescentes queixa na polícia mostram estar em crescendo.

Que fazer pois para minimizar os aspectos mais negativos de uma situação que, em princípio deveria ser considerada como uma mais valia para a cultura, o património e até para o desenvolvimento local e regional? Naturalmente tenho as minhas próprias opiniões sobre o assunto que tenho defendido junto dos, em pincípio, principais interessados. Proprietários (sim o monumento e não apenas o "terreno", à face da lei portuguesa, é privado! apesar de ser Monumento Nacional), tutela do património (MC/Direção Regional de Cultura), autarquias (Câmara e Junta de Freguesia) e julgo que, brevemente poderá haver sobre este tema algumas novidades. Mas por agora resta-nos esperar que nada de grave aconteça ao monumento ou aos milhares de visitantes que, fora de qualquer regra ou controle, o continuam a procurar todos os dias, muito para além das "enchentes" de dias feriados ou santos.