quarta-feira, 16 de março de 2016


Para a história recente da Ponte da Ajuda


 A divulgação na NET de um vídeo com a restituição virtual da esquecida Ponte da Ajuda, produzido por iniciativa da Cromeleque, Lda e da GEODRONE, serve de pretexto para um assunto que há muito queria abordar neste BLOG, até porque o acompanhei durante algum tempo, quer por via da minha participação no Projecto Alqueva, quer posteriormente pelas minhas funções técnicas na Direcção Regional do IPPAR e organismos que se lhe seguiram.





A importância e delicadeza do tema, porém não se esgota aqui e certamente voltarei ao assunto.

Por agora apenas uma chamada de atenção para o facto de este Monumento Nacional, por circunstâncias da História, se encontrar literalmente em “terra de ninguém”, num limbo político-diplomático que apesar do anacronismo óbvio, continua a condicionar a valorização cultural de uma estrutura que na sua época de construção (Século XVI) representou um feito extraordinário de engenharia, como o demonstrou recentemente o meu amigo Luis Alfonso Limpo, director da Biblioteca de Olivença, em obra de referencia obrigatória que dedicou à Ponte da Ajuda.



Para a história recente dos encontros e desencontros com a Ponte da Ajuda, refira-se que no início do século XXI, parecia abrir-se uma nova fase na história deste monumento. Chegou a programar-se uma intervenção de consolidação no âmbito do Alqueva, mas como os efeitos da subida das águas são mínimos nesta zona, deixou de haver pretexto técnico para o efeito. Por outro lado a existência de uma espécie botânica em vias de extinção que crescia livremente sobre o tabuleiro (Narcissus cavanillesii)  limitava e complicava as possibilidades de intervenção. Entretanto, no âmbito de um acordo transfronteiriço realizado pelas Estradas de Portugal (à revelia do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da própria Cultura) com a sua congénere espanhola, seria acordado que a parte portuguesa construiria uma nova ponte rodoviária a jusante da Ponte da Ajuda  (recuperando a antiga ligação Elvas-Olivença), ficando os espanhóis encarregues de "recuperar" para fins turístico-culturais a velha Ponte da Ajuda. Como se sabe, a nova ponte acabaria por ser construída pela parte portuguesa, mas por razões diplomáticas, o dono da obra seria a Câmara Municipal de Elvas e não o Estado português. Quanto à "recuperação" da Ponte Antiga, as obras viriam a limitar-se à margem oliventina, não apenas pelos problemas fronteiriços mas também pela natureza do projecto espanhol, inaceitável à luz das metodologias actuais de intervenção patrimonial. (Concebido por um conhecido engenheiro de estradas espanhol, entretanto já falecido à época, o projecto previa a "reconstrução das partes derrocadas, em betão armado", ainda que recuperando a presumível forma original. O aspecto final seria obtido pelo revestimento com "lajes de pedra" da estrutura. A parte recuperada na margem espanhola, obedeceu a este critério.)

Num Memorando síntese que preparei em 2006, se registam as principais etapes do processo "Ponte da Ajuda", no início do Século XXI:


MEMORANDO
(2000-2004)


12.01.2000-  Reunião entre o IEP (Instituto de Estradas de Portugal)  e a Direcção Geral de Carreteras (Espanha)- a par de decisões sobre a construção da nova ponte rodoviária da Ajuda, foi acordado que a Espanha, desenvolveria as necessárias deligências, em coordenação com os respectivos Ministérios da Cultura, procedendo à recuperação para uso cultural da Ponte Antiga.

18.05.2001 – através de ofício, o ICOR solicita ao IPPAR parecer sobre o “Projecto de Reconstrução e Reabilitação da Ponte Antiga da Ajuda para Usos Pedonais e Turísticos”

13.07.2001 -  Parecer negativo do IPPAR sobre aquele projecto

23.07.2001 – impedido de transmitir o respectivo parecer à parte espanhola, face a “providência cautelar”, interposta pelos “Amigos de Olivença”, o IPPAR, através de ofícios dirigidos ao Chefe de Gabinete do Ministro da Cultura (17.07 e 23.07.2001) faz seguir para o Ministério dos Negócios Estrangeiros (cf. despacho do Ministro da Cultura sobre o ofício de 17.07.2001) cópia do parecer negativo.

22.01.2003- 1ª informação do signatário dando conta de rumores sobre o próximo início de obras (05/DRE/2003)

25.02.2003-  2ª informação sobre o mesmo assunto ( 27/DRE/2003), propondo o pedido de informações à C.M.de Elvas e à CCRA

10. 03. 2003- 3ª informação do signatário (31/DRE/2003) verificando-se o início de obras na margem esquerda (Olivença) e a instalação de estaleiro na margem direita (Elvas) propõe-se que o assunto seja levado à consideração urgente do MNE português através do Gabinete do Ministro da Cultura

12. 03. 2003- ofício do Grupo dos Amigos de Olivença denunciando a instalação do estaleiro e o próximo início de obras

17. 03. 2003- resposta do Presidente do IPPAR (Dr.Luis Calado) ao GAO, informando que o assunto já fora levado à consideração do MNE.

15. 05. 2003- Memorando do signatário na sequência de deslocação à Ponte da Ajuda com o Eng.ª Cunha (DRE_IPPAR) em 8 de Maio e de reunião técnica no Palácio da Ajuda entre o IPPAR (Vice-Presidente, Arqto Passos Leite e Directora DRE) e ICN (Directaora do Parque Natural da Serra de S.Mamede e Dr. Pedro Arriegas). O Vice-Presidente do IPPAR informa de uma reunião técnica realizada no MNE (INAG, EDIA, IPPAR, ICN e C.M.Elvas). Objectivo:reunir as condicionantes técnicas, limitadas ao IPPAR e ICN a impôr às autoridades espanholas para revisão do projecto. O memorando foi remetido  em 16.05.2003ao MNE, que preparava já então uma reunião técnica luso-espanhola sobre o assunto. 

2.06.2003 – 4ª informação do signatário, (62/DRE/2003): apesar de não haver vestígios de qualquer actuação na estrutura da ponte da margem direita (Elvas) ou nos pilares isolados do meio do leito, verificava-se o desenvolvimento do projecto de reconstrução (sem qualquer limitação ou constrangimento) no sector Oliventino da Ponte, em pleno cumprimento do “Projecto” original “reprovado pelo IPPAR”.

3. 06. 2003- o Vice-presidente do IPPAR (Arqto Passos Leite) informa a DREvora do IPPAR de que o MNE está a par do que se passa na Ponte da Ajuda e que em breve, por iniciativa do MNE será marcada uma reunião técnica Luso-espanhola que, pela parte portuguesa deverá ser articulada com a DRE do IPPAR e o Parque Natural da Serra de S. Mamede.

6.06. 2003- na sequência de contactos com o MNE, a Directora Regional de Évora solicita à Presidência do IPPAR a reserva de uma sala do Palácio da Ajuda para a reunião Luso-espanhola, agendada pelo MNE para 11 de Junho. O assunto é já despachado pela nova Vice-Presidente (Dra Rosa Amora) que concorda desde que reunida a condição “sine qua non” exigida pela parte portuguesa para realizar a reunião, ou seja a “suspensão das obras”

A reunião Luso-espanhola acabaria por ter lugar apenas em 1 de Julho de 2003, existindo no processo dois memorandos sobre a mesma:

            1- Ministério dos N.E. de 2 de Julho da responsabilidade do Embaixador  J.F.Costa Pereira
            2- Da DRE IPPAR, de 3 de Julho, assinado pelo signatário.

No essencial ficou então acordado:

            - redução ao mínimo das obras na margem Oliventina que em caso algum seriam alargadas à margem de Elvas;
            -  revisão e alteração do projecto pela Direção Geral de Carreteras, de modo a responder às preocupações da parte Portuguesa (IPPAR e ICN)
            - a parte portuguesa prepararia lista de condicionantes técnicas  (IPPAR e ICN) que foram remetidas oficialmente à parte espanhola em 10 de Julho de 2003 (ver Documento Técnico de Maio de 2003, também aqui transcrito)
            - a retoma das obras ficaria dependente da aprovação pelo IPPAR e ICN da revisão do projecto.


NOTA FINAL: aparentemente a parte espanhola acabaria por abandonar totalmente o projecto original, rescindindo a empreitada que estava em curso e desmontando completamente todo o estaleiro e apresentando um novo projecto às autoridades portuguesas (estudo prévio) em meados de 2004, estudo que também viria a ser rejeitado pelo IPPAR.


Évora, 29 de Novembro de 2006




DOCUMENTO TÉCNICO DE MAIO 2003 IPPAR/ICN*



Ponte da Ajuda (Elvas)


Condicionantes de ordem patrimonial para a apreciação do


“Proyecto de Reconstruccion  e Rehabilitacion del Puente Antiguo de Ajuda para usos peatonales y turisticos”

(Ministerio de Fomento, Secretaria de Estado de Infraestruturas y Transportes, Dirección General de Carreteras)




A- Patrimonio Cultural (documento - IPPAR)



1. Protecção legal e classificação


O imóvel “Ponte da Ajuda”, constituído pelas ruínas de uma ponte antiga (Século XVI) sobre o Guadiana, congrega na sua presente situação um conjunto de valores (arquitectónicos, tecnológicos, arqueológicos, históricos, simbólicos, paisagísticos, etc...) cujo reconhecimento justificaram a sua oportuna protecção legal enquanto “imóvel de interesse público” através de acto legislativo próprio: Decreto 47508 de 24.01.1967; com efeito nos termos da legislação portuguesa (Lei 107/2001-Lei de Bases do Património Cultural Português) a protecção legal dos bens culturais assenta na classificação, (Artº16) e “Entende-se por classificação o acto final do procedimento administrativo mediante o qual se determina que certo bem possui um inestimável valor cultural”- (Artº18).


Nota: de facto, são as “ruínas (arqueológicas) da Ponte da Ajuda” e o respectivo ambiente paisagístico e contexto histórico que são objecto de classificação e protecção legal, não a “ponte original” (antes de mais porque aquela já não existe mas também porque, no processo de sucessivas reconstruções/reabilitações, houve afinal “diferentes” pontes). Esta situação, confere desde logo uma especial relevância arqueológica, paisagística e histórica ao objecto da classificação, relevância que (quer nas intenções quer nas soluções) é radical e definitivamente posta em causa pelo projecto do “Ministerio do Fomento”



2. Projectos, obras e intervenções versus respeito pela “autenticidade”


A referida lei de bases, através do artº45 especifica concretamente a possibilidade de realização nos imóveis classificados de “obras de conservação, modificação, reintegração e restauro”. Ainda que não definindo concretamente o que se entende por cada um daqueles items, a lei é bastante restritiva e cuidadosa neste domínio específico ao remeter no mesmo articulado para a obrigatória responsabilização de técnicos qualificados em caso de intervenções (nº1, do Artº45), para a exigência de um adequado enquadramento técnico e histórico das mesmas (nº2 e 4) e, acima de tudo, para a indispensabilidade do parecer prévio sobre os respectivos estudos e projectos de intervenção por parte dos organismos competentes para determinar a classificação (nº3); depreende-se deste posicionamento extremamente cauteloso da lei que quaisquer obras, ainda que possíveis e muitas vezes necessárias para a preservação do próprio bem protegido, devem ser sempre realizadas de forma a não comprometerem o conjunto dos valores reconhecidos que fundamentaram afinal a decisão da protecção legal.

Ainda que tal não seja expresso, subentende-se neste posicionamento da Lei portuguesa, a defesa da “autenticidade” dos bens culturais, um valor cada vez mais tido em conta internacionalmente nos critérios de classificação, nomeadamente pela UNESCO e organismos associados como o ICCROM ou o ICOMOS, na selecção de bens a integrar a Lista do Património Mundial. Ainda que a noção de “autenticidade” possa variar de cultura para cultura (tal como expresso pelo Documento de Nara, 1994), há quesitos básicos, quase do senso comum, para definir o que é “autêntico” e que, como é notório, são completamente ignorados num projecto que se propõe reconstruir em “betão armado” mais de 50% do monumento em causa: “Dependendo da natureza do monumento ou do sítio e do seu contexto cultural, o julgamento sobre a autenticidade é ligado a fontes de informação variadas. Estas últimas compreendem concepção e forma, materiais e substancia, uso e função, tradição e técnicas, situação e localização, espírito e expressão, estado original e devir histórico (...)” Artº13 do Documento de Nara sobre a Autenticidade.


a) conceito de “conservação”

A conservação funda-se sobre o respeito da matéria, dos usos, das associações e dos significados existentes. Ela requer prudência que consiste em mudar apenas aquilo que é necessário e o menos possível.” (Artº3.1. da Carta de Burra)[1]; “As modificações de um lugar ou de um bem patrimonial não devem alterar a evidência física que este constitui nem assentar em conjecturas ou suposições” (Artº3.2); “As técnicas e materiais tradicionais constituem recursos preferenciais em conservação. Em certas circunstâncias e sob certas condições, a utilização de técnicas e materiais modernos que possam oferecer evidentes vantagens em termos de conservação, poderão ser ensaiadas.”


b) conceito de “restauro”

- segundo a Carta de Veneza (1964), “O restauro é uma operação que deve manter um carácter excepcional. Ela tem por objectivo conservar e revelar os valores estéticos e históricos do monumento e funda-se no respeito da matéria antiga e de documentos autênticos. Ele (restauro) deve parar onde começa a hipótese ...”  Ainda na mesma carta de Veneza mas referindo-se especificamente às “ruínas arqueológicas” (em cuja definição cabe até certo ponto, o imóvel em causa), acrescenta-se no Artº 15- “(...) Todo o trabalho de reconstrução deve ser excluído à priori e apenas a “anastilose” deve ser realizada, ou seja a recomposição de partes existentes mas desmembradas”.


- segundo a carta de Burra (Artº1.7.), “O restauro consiste em reconduzir a matéria existente de um sítio ou bem cultural a um estado anterior conhecido, removendo acrescentos ou recompondo elementos pré-existentes sem recurso a material novo”. (Artº19 e 20); acrescenta-se ainda “O restauro adequa-se a situações em que existem em número suficiente testemunhos materiais do estado físico anterior


c) conceito de “reconstrução”:

- segundo a Carta de Burra (Artº 20), “A reconstrução convém unicamente às situações em que o bem patrimonial está incompleto na sequência de uma destruição súbita ou de uma modificação e desde que existam dados suficientes para reproduzir as partes desaparecidas. Apenas em casos raros a reconstrução pode constituir uma opção como expressão de um uso ou de uma prática que mantém o valor cultural de um lugar ou de um bem patrimonial”;

- por outro lado segundo a Carta Europeia do Património Arquitectónico (1975)- Artº 6 (...) A tecnologia contemporânea, mal aplicada, afecta as estruturas antigas. Os restauros abusivos são nefastos(...);


Nota: o projecto do Ministerio do Fomento assume-se como “projecto de reconstrução e reabilitação” funcional, justificado pelo interesse social (turístico e cultural) em recuperar o uso original do bem em causa; no entanto ao pretender valorizar uma mais valia específica, a solução técnica proposta prejudica ou anula definitivamente (sem hipótese de reversibilidade, um princípio fundamental do “restauro”) outras valias bem mais importantes do ponto de vista cultural, a começar pela da própria “autenticidade”.

Acresce ainda que parte do valor social que decorreria da “reconstrução” (travessia pedonal do Rio) se pode já fazer na nova ponte construída a juzante. Por outro lado verifica-se que a valorização turística do monumento pode ser afinal conseguida com soluções menos invasoras das estruturas antigas e que, além disso, possam ser compatíveis com a protecção do “habitat” da espécie ameaçada do Narcissus Canavillesii o que obviamente não acontece com a solução proposta.


3. Estado das ruínas da Ponte da Ajuda e efeitos do Regolfo; condicionalismos a ter em conta numa necessária intervenção de “conservação/valorização”


Apesar das graves objecções de ordem técnica e teórica que nos coloca o projecto do Ministerio do Fomento,(que se inferem do alinhamento de conceitos e comentários acima expressos) não podemos deixar de reconhecer que o mesmo, ao nível das intenções, visa afinal objectivos legítimos de conservação e valorização patrimonial que estavam certamente subjacentes às conclusões da reunião de 12 de Janeiro de 2000 realizada entre o Instituto de Estradas de Portugal e a Direccion General de Carreteras.

No entanto, parece óbvio, que em face da situação concreta deste monumento e dos actuais critérios de intervenção patrimonial recomendados internacionalmente, a solução técnica preconizada no projecto do Ministerio do Fomento não parece aceitável, pelo menos na sua globalidade. Por outro lado, a já referida presença no tabuleiro da própria ponte (margem Direita, Elvas) de uma espécie botânica ameaçada e protegida  pela Directiva 92/43 CEE do Conselho (Directiva Habitats) vem reforçar ainda mais e de forma definitiva tal conclusão.


Estamos pois, perante um dilema complexo que necessita de uma resposta adequada.



Como tornar compatível?


a) a necessidade de conservação/ consolidação das ruínas arquitectónicas, face ao seu avançado estado de degradação (nalguns casos ameaçando ruptura) e face ás alterações que irão ser introduzidas no regime fluvial da zona pelo “regolfo de Alqueva”

b) o interesse social da valorização turístico/cultural do monumento colocando a respectiva fruição ao serviço do enriquecimento cultural das populações e dos visitantes;

c) o respeito dos princípios internacionalmente aceites da salvaguarda patrimonial, nomeadamente no que respeita à garantia da “autenticidade” formal e material das estruturas conservadas;

d) a salvaguarda das condições de “habitat” da espécie protegida existente no “tabuleiro” da Ponte da Ajuda (Narcissus Canavillesii);





A resposta técnica que nos parece mais adequada:



a) Conservação/consolidação com respeito pelos princípios da “autenticidade” do bem cultural em causa:


- a criação de condições de conservação, assegurando a consolidação dos pilares, incluindo o que resta dos 5 centrais, parcialmente destruídos, e sobretudo, a estabilidade dos 12 arcos ainda conservados (8-Elvas e 4-Olivença),é indispensável à salvaguarda e preservação do monumento na sua situação actual e, por consequência, à sobrevivência da espécie botânica que nele encontrou “habitat”; uma intervenção de “consolidação” e “restauro” é por isso não apenas legítima como necessária:

- “pilares” e “talha-mares”: sendo as estruturas que irão sofrer directamente com as alterações de “cota” e de regime fluvial, justifica-se uma intervenção mais intensa, quer ao nível da “consolidação” quer mesmo do “restauro”, visando como objectivo garantir a estabilidade futura do monumento; entende-se aqui por “restauro” o preenchimento de lacunas internas que já se verificam no “miolo” de alguns pilares, a reposição de silhares deslocados ou mesmo a inclusão de “silhares” novos, do mesmo material, onde estes faltam ; justifica-se igualmente, quer por razões de conservação quer de valorização estética, a “reconstrução” parcial (recorrendo a “silhares” novos) dos 5 pilares centrais já parcialmente derrocados, de modo a evitar a respectiva submersão em situação de cota máxima da Barragem (152).

- “arcos”- garantida a estabilidade dos respectivos pilares de suporte, a intervenção nos arcos, nomeadamente no seu extra-dorso, deve pautar-se essencialmente por objectivos de conservação, consolidação e estabilização; neste caso deverá ter-se em conta a necessidade de respeitar as técnicas construtivas e materiais originais no sentido de não alterar significativamente as condições actuais de equilíbrio da estrutura que garante o habitat do “Narcissus”; pelo mesmo motivo, a remoção de outra vegetação infestante, a fazer-se, deverá ser rigorosamente avaliada e condicionada por critérios científicos;

- “tabuleiro”- em particular no sector “Elvas”, a intervenção está à priori fortemente condicionada por razões de conservação do “Narcissus”, quer nos objectivos quer nas metodologias de execução; tal não justifica que, pontualmente, não haja necessidade de alguma consolidação e por vezes, mesmo de restauro (como é o caso do grande “rombo” existente entre os pilares 12 e 13; no entanto tais intervenções, para além de cuidadosamente planeadas e avaliadas em todas as consequências, necessitam de uma execução extremamente cuidada;

NOTA: as medidas sugeridas de conservação/ consolidação vão em grande parte ao encontro da chamada 1ª fase do projecto do Ministerio de Fomento, com as devidas condicionantes e adaptações quer no que respeita a “limpeza de vegetação”, quer na escolha dos materiais e metodologias de “restauro” quer ainda no do “nivelamento e reconstrução dos pilares semiderrubados”.


b) valorização turístico/cultural ambientalmente integrada


- a reabilitação do uso original (embora restringido a peões) representa na proposta do Ministerio do Fomento o elemento fundamental do projecto de valorização; apesar do seu inegável interesse, a prossecução daquele objectivo mostra-se contudo drasticamente incompatível com os princípios da conservação quer do bem cultural que se pretende valorizar quer com a protecção de um bem natural ameaçado (Narcissus); importa pois, neste campo, encontrar soluções alternativas que sejam compatíveis com a globalidade dos interesses e valores em presença e que ainda assim permitam uma aproximação e fruição turística ao monumento, a partir das duas margens;

- essas soluções deverão, no entanto, ter em conta não apenas as condicionantes de ordem patrimonial já referidas, mas igualmente as circunstancias próprias de atractividade tradicional do local, recentemente reforçadas com a recuperação da Capela de Nª Sª da Ajuda, a melhoria dos acessos e a construção da nova ponte rodoviária a jusante da Ponte antiga; a procura deste local será certamente, muito potenciada num futuro breve com os efeitos directos e indirectos que o Regolfo de Alqueva terão sobre o turismo da região;

- por outro lado, tendo em conta que grande parte do valor e interesse monumental das ruínas da Ponte da Ajuda decorrem sem dúvida da sua especial integração paisagística e ambiental, a solução para a respectiva valorização e fruição turística deverá obrigatoriamente integrar-se num plano de valorização mais abrangente que tenha em conta essa situação e que seja extensível a ambas as margens com ou sem ligação “pedonal” directa;




B- Patrimonio  Natural (documento - ICN)





Situação de referência

O Narcissus cavanillesii A. Barra & G. López é um geófito, com floração outonal (Outubro e Novembro) e pertence à família das Amaryllidaceae. É um endemismo ibero-mauritânico, ocorrendo sobretudo no sudoeste de Espanha (Extremadura e Andaluzia) e escassamente no sudeste de Portugal (Alentejo, margem do Rio Guadiana) e noroeste de África (Argélia e Marrocos) (Valdes et al., 1987).

Ocupa solos areno-argilosos das zonas baixas do leito de cheia, entre rochas xistosas ou em pequenas caleiras de tufos de tamujo (Securinega tinctoria).

Em Portugal encontra-se em perigo de extinção, tendo a sua população um reduzido número de efectivos, circunscritos a uma área muito restrita.

Desde 1976, e até recentemente, apenas a população da zona da Nossa Sra. da Ajuda (159 msm.), concelho de Elvas, era conhecida, contendo um núcleo principal de cerca de 300 m2, com uma elevada densidade de indivíduos – entre 12000 e 15000 –, localizado no tabuleiro da Ponte da Nossa Sra. da Ajuda, sobre solo esquelético para aí transportado (por acção natural ou antrópica) e outro núcleo de cerca de 6 m2, de aproximadamente 2000 indivíduos), no solo, a sul da referida Ponte.

Contudo, em 2000, durante os trabalhos de biologia promovidos pela EDIA e executados por uma equipa do Museu e Jardim Botânico da Universidade de Lisboa no âmbito do projecto de monitorização de plantas prioritárias, foi descoberta mais a Sul outra população, com cerca de 1200 indivíduos – Herdade da Defesa (127 msm.), Montes Juntos, concelho do Alandroal –, ironicamente numa localização a ser submersa pelo enchimento da albufeira. Assim das duas populações conhecidas, uma foi sujeita a uma acção de translocação, cujo sucesso está por aferir.

Regimes de protecção

O Narcissus cavanillesii está, sob a sinonímia Narcissus humilis (Cav.) Traub., incluído nos Anexos II (espécies de interesse comunitário cuja conservação exige a designação de zonas especiais de conservação) e IV (espécies de interesse comunitário que exigem protecção rigorosa) da Directiva Habitats (92/43/CEE), transposta para a ordem jurídica interna pelo Decreto-Lei  nº 140/99, de 24 de Abril.

A área de ocorrência está inserida no Sítio Classificado da Lista Nacional Guadiana/Juromenha (código PTCON0032), área designada através da Resolução do Conselho de Ministros nº 142/97, de 28 de Agosto, a integrar a Rede Ecológica Europeia, conhecida como Natura 2000.

Encontra-se em preparação pela EDIA, no âmbito do Plano de Ordenamento das Albufeiras de Alqueva e Pedrogão, um Plano de Pormenor para a área circundante à Capela da Nossa Sra. da Ajuda. Este Plano que pretende ordenar a zona em referência, terá obrigatoriamente em consideração a existência do Narcissus humilis, a proximidade à Ponte da Ajuda e o previsível incremento da afluência das populações (sobretudo locais) ao local, sobretudo face ao espelho de água criado pelo enchimento da albufeira.

Ameaças à conservação

De acordo com os critérios da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) esta espécie deverá ser classificada como em Perigo Crítico (CR) em Portugal, visto que se não forem tomadas medidas activas para a sua conservação é esperada a extinçõa de cerca de 80% dos seus efectivos populacionais (Rosselló-Graell, A., Draper, D., Correia, A.I.D. e Iriondo, J. M. 2002).

Neste momento a degradação da área de ocorrência é a principal ameaça à sua conservação. Encontrando-se ambas as populações sob influência da albufeira do Alqueva (com enchimento previsto para uma cota máxima de 152 msm., eventualmente de 154 msm. e média de 147.5 msm.), tendo a sua localização mais a Sul – Montes Juntos (127msm.) – sido submersa pelo enchimento da albufeira do Alqueva, assume ainda mais importância a não perturbação da população restante (a 159 msm.) por eventuais obras de recuperação da Ponte de Nossa Sra. da Ajuda e pelos expectáveis impactes provenientes da proximidade ao regolfo da albufeira do Alqueva, nomeadamente face ao previsto incremento da influência antrópica.

Estudos efectuados

A espécie foi alvo de estudo pelo Professor Carlos Pinto Gomes (Universidade de Évora), no âmbito do projecto “Distribuição Geográfica e Estatuto de Ameaça das Espécies da Flora a Proteger”, co-financiado pelo fundo comunitário LIFE e pelo ICN, entre 1994 e 1996.

Tem também, desde há vários anos, sido estudado em profundidade por uma equipa (dirigida por Antónia Rosselló-Graell e David Draper) do Museu e Jardim Botânico da Universidade de Lisboa, no âmbito dos trabalhos relacionados com a minimização dos impactes resultantes do empreendimento hidroeléctrico do Alqueva.

O Narcissus cavanillesii é potencialmente a espécie mais afectada pelo enchimento da albufeira de Alqueva. Trata-se do único caso, de entre todo o património natural presente na região, em que uma ausência de acções de conservação poderia efectivamente comprometer a sobrevivência da espécie em Portugal. A EDIA, em conjunto com o Museu e Jardim Botânico da Universidade de Lisboa e o Departamento de Geociências da Universidade de Évora, iniciou em 2001, como mitigação dos impactes causados pelo empreendimento hidroeléctrico do Alqueva, o processo de translocação da população de Montes Juntos, área a inundar, para uma nova área susceptível para a espécie, a uma cota superior.
É importante referir que a translocação de espécies raras, ameaçadas ou em perigo, como medida de minimização, é um tópico controverso no âmbito da conservação de plantas controversa, devendo por isso ser entendida como um último recurso. A população translocada será agora monitorizada durante vários anos, podendo acções correctivas serem executadas se necessário (Rosselló-Graell, A., Draper, D., Correia, A.I.D. e Iriondo, J. M. 2002).

Reconstrução da Ponte da Nossa Senhora da Ajuda

Considerando que a principal população da espécie Narcissus cavanillesii, em Portugal, se encontra precisamente sobre o tabuleiro da Ponte da Nossa Senhora da Ajuda e que o núcleo vizinho, embora fora do monumento, se encontra em zona de influência de uma obra de reconstrução e que a obra decorre no Sítio Classificado Guadiana/Juromenha (PTCON0032) constante da Lista Nacional de Sítios (Resolução do Conselho de Ministros nº 142/97, de 28 de Agosto),

atendendo que o Instituto de Conservação da Natureza não teve conhecimento oficial do início desta obra e que não lhe foi  solicitada a emissão do parecer necessário (ao abrigo do Dec.-Lei nº 140/99 de 24 de Abril),

tendo em conta que a outro localização conhecida desta espécie foi submersa pelo enchimento da albufeira do Empreendimento do Alqueva, tendo a população sido alvo de uma operação de resgate cujo sucesso está por aferir, e

tomando nota do projecto de construção em execução, do seu impacte destrutivo de extrema magnitude sobre a espécie em causa, da inexistência de medidas de minimização consentâneas e da incapacidade de reposição da situação anterior,

tendo o Parque Natural da Serra de S. Mamede constantado, no âmbito das suas frequentes acções de vigilância (em conjugação com a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, ex-Direcção Regional do Ordenamento do Território), que não ocorreu a suspensão dos trabalhos,

manifesta-se a opinião que a não serem tomadas medidas preventivas, com carácter de urgência, que impossibilitem a continuação do avanço das obras nos actuais moldes, acontecerá a destruição do habitat da espécie e a sua consequente extinção, no seu habitat, em Portugal.

Solicitou o Ministério dos Negócios Estrangeiros ao ICN (em reunião, a 7 de Abril de 2003) que este não activasse um embargo administrativo, advogando a conveniência de uma solução diplomática. Embora considere que esta seria a solução desejável, o ICN entende que, dado o contínuo avanço das obras, quanto mais tempo se protelar esta solução, mais perto se estará da necessidade de proceder a um embargo evitando impactes irremediáveis. O ICN, não podendo permitir a que as obras avancem para o tabuleiro da Ponte ou sua vizinhança na margem direita do Guadiana, reserva-se ao direito de agir consoante as suas competências.

Em reunião com o Instituto Português do Património Arquitectónico foram analisadas as consequências que o enchimento da albufeira do Alqueva terá no monumento, tendo-se verificado que o regolfo à cota média de 147.5 deixará a descoberto as ruínas dos pilares centrais da ponte (que ficarão submersos à cota de 152) e que à cota de 154 não será submerso o tabuleiro.

Se devido à presença contínua de água na base da Ponte, se entender como necessária alguma consolidação do monumento esta deverá ser feita sem que o tabuleiro da ponte seja perturbado.

Os obras de consolidação nos muretes, paredes, partes inferiores dos arcos e pilares não constituirão preocupação, desde que salvaguardado o pisoteio ou qualquer outro impacte sobre o tabuleiro.

Deve ser levada em consideração o facto de uma impermeabilização lateral poder tornar a ponte num depositório de água da chuva, não só fazendo perigar a estabilidade do monumento e por consequência o tabuleiro, como alterando as condições ecológicas no tabuleiro.

A regularização do solo (montíclos ou depressões) existente sobre o tabuleiro da Ponte terá um significativo impacte negativo sobre a população de Narcissus pelo que é uma acção inviável.

Também a pouca profundidade do solo despositado sobre o tabuleiro da ponte inviabiliza possíveis acções de eliminação do estrato herbáceo existente no tabuleiro da Ponte. Os cortes da azinheira e da figueira enraizadas na Ponte, com posterior injecção de fitoquímicos, podem ser efectuados, mas somente desde que não seja tentado o desenraizamento.

Atendendo a que o pequeno núcleo de Narcissus que ocorre no solo, na vizinhança da Ponte, não será submerso pela albufeira do Alqueva, continuando por isso viável, deve de igual modo ser poupado a qualquer tipo de perturbação.

Para além de um incumprimento da Directiva 92/43/CEE, que conduzirá a inevitáveis sanções por parte da União Europeia, a extinção do Narcissus cavanillesii, ou N. humilis, com a irremediável delapidação do património biológico e genético nacional, obrigam a um extremo cuidado na execução de quaisquer acções que possam acarretar impactes negativos sobre a espécie.




*  Documentos que estiveram na base da redacção das “CONDICIONANTES E RECOMENDAÇÕES TÉCNICAS” remetidas pelas autoridades portuguesas ao MINISTERIO DE FOMENTO em 9 de Julho de 2003 , na sequência da reunião Luso-espanhola de 1 de Julho de 2003 (Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda)
[1] Seguimos aqui as definições propostas na chamada Carta de Burra, Carta do ICOMOS Austrália para a conservação de sítios e bens patrimoniais de valor cultural



No dia 2 de Outubro de 2008 fui protagonista de um dos últimos actos formais no âmbito desta tragico-comédia fronteiriça em torno das esquecidas ruínas da Ponte da Ajuda.

Por indicação expressa do Ministério da Cultura português e a solicitação do MNE, desloquei-me de urgência a Madrid, onde deveria representar as autoridades portuguesas em reunião a ter lugar no Ministério das Obras Públicas y Vivienda (talvez não fosse esse o exacto nome do Ministério, pois lá como cá, tudo tem mudado à velocidade da luz neste âmbito) para apreciar uma nova  proposta de de um projecto de recuperação da Ponte, encomendado pelas autoridades espanholas à luz do parecer do IPPAR de que eu fora co-autor. Tendo sido designado quase de véspera para aquele efeito, consegui ainda assim lugar no primeiro voo para Madrid, onde cheguei bastante cedo nesse dia 2 de Outubro, de tal modo que por volta das 9 horas locais (8 de Lisboa) estava já a sair da estação de Metro "Ministérios".  Recebido por um contínuo, alguns minutos antes da hora aprazada para a reunião, fui conduzido a uma enorme sala de reuniões vazia que recordo através da foto que então tirei. Ali sob o "olhar" do Rei Juan Carlos numa parede, um enorme mapa da Ibéria (sem fronteira) noutra e ainda uma gigantesca planta de época, dos Palácios Reais de Aranjuez, aguardei impacientemente quase toda a manhã na mais absoluta solidão e ignorâqncia sobre o que se estava apassar. A certa altura, já desesperado pela espera, um arquitecto que conhecera de outras reuniões, desceu para me informar do que estava a acontecer. A senhora Directora Geral só nesse mesmo dia, em reunião preparatória com os autores, tivera oportunidade de ver o projecto de engenharia encomendado pelos serviços e este revelava-se de tal maneira desadequado face às condicionantes patrimoniais em causa que decidira desde logo rejeitá-lo. Em todo o caso e como naturalmente seria imperioso que me fosse dada uma qualquer explicação, grande parte da manhã, enquanto "Don Juan Carlos" olhava para mim, fora ocupada a negociar as soluções administrativas mais adequadas com vista à reformulação completa do rejeitado projecto. Perto da hora do almoço despacharam-me finalmente com a promessa de que oportunamente reuniriamos, talvez em Elvas, para finalmente apreciar um novo projecto para a urgente recuperação da Ponte Histórica da Ajuda.
Até hoje, nunca mais tive notícias desse projecto...


quarta-feira, 9 de março de 2016


PATRIMÓNIO SUSTENTÁVEL e A ARQUEOLOGIA NA CIDADE DE ÉVORA


Debate com os comunicantes da sessão IV (Arqueologia Urbana- cidades romanas versus cidades contemporâneas). Da esquerda para a direita: Carlos Fabião (moderador), Nuno Mota e António Marques (Centro de Arqueologia de Lisboa, CAL); Catarina Coelho e Sofia Gomes (DGPC), António Carlos Silva (DRCALEN) e José António E.Morales (Consórcio Cáceres-Ciudad Histórica)
Por amável convite dos organizadores (Museu Nacional de Arte Romano de Mérida) tive oportunidade de participar nos passados dias 4 e 5 de Março, num seminário internacional sobre a temática da (necessária) sustentabilidade do património cultural. Dois dias de intensa e variada reflexão, a partir da análise de casos concretos, sobre o papel social e (até) económico do património nos territórios da antiga Lusitania Romana, hoje artificialmente divididos por uma fronteira. Museus, turismo arqueológico e desenvolvimento sustentável em áreas rurais, desafios e oportunidades nas cidades contemporâneas fundadas sobre cidades romanas, animação/dinamização do património arqueológico, etc...

A gestão do património arqueológico em ambiente urbano: a experiencia de Évora

Embora, pessoalmente, o tema que de momento mais me interesse, no dia a dia, passe pela reflexão e experimentação das possibilidades de envolvimento comunitário na apropriação do património cultural num meio rural deprimido mas com grande potencial (falo objectivamente das oportunidades que uma pequena freguesia, em nº de habitantes, como Guadalupe e Tourega, podem encontrar e explorar no seu riquissimo património), foi-me pedido que no âmbito da sessão sobre Arqueologia Urbana, falasse da experiencia de Évora. Para além de uma introdução historicista, invocando o papel de André de Resende na criação de uma identidade histórica que perduraria até aos nossos dias, pese embora uma inevitável carga mitológica, recordei a histórica "restauração do Templo Romano", promovida pelos antigos directores da Biblioteca Pública (Cunha Rivara e Augusto Filipe Simões). Em pleno século XIX, numa época em que a lei do camartelo, para desespero de homens como Alexandre Herculano, dizimava o centro das nossas cidades em nome do "progresso", estes homens conseguiram preservar e "restaurar" um monumento que se tornou o ex-libris de Évora. Falei de um Século XX apático no que respeita ao reconhecimento arqueológico da cidade de Évora, até ao 25 de Abril e à posterior instalação de um serviço regional de arqueologia em Évora dependente do IPPC e que criou condições para grandes escavações no Centro Histórico, como as promovidas pelo Serviço Regional de Arqueologia na Rua de Burgos ou em Santa Catarina, ou as promovidas pela autarquia na sua própria sede com a descoberta das Termas Públicas. É nesta altura que Évora teve também a sorte (sabendo criar as condições para isso) de Theodor Hauschild, arqueólogo/arquitecto do DAI (Instituto Arqueológico Alemão) se interessar pelo seu Templo romano e, sobretudo pelo seu Forum, onde realizaria grandes escavações nos anos 80/90. Na minha comunicação, não deixei de reconhecer os problemas e limitações desta fase, estatizante mas fundadora da arqueologia eborense, traduzida sobretudo na falta de publicação adequada dos resultados das escavações e na posterior dispersão dos materiais recolhidos. Também reconheci, que praticamente, mesmo após a euforia dos anos 80, nunca mais se deixou de fazer arqueologia no Centro Histórico, acompanhando toda e qualquer intervenção. Não deixei porém de, na minha perspectiva, apontar as grandes limitações de uma prática de intervenção arqueológica que, actualmente, resulta unica e exclusivamente de imperativos legais, apenas realizada no âmbito da "arqueologia de contrato"(privada) e sem qualquer estrutura pública (da cultura, da autarquia ou da universidade) que se interesse de forma organizada e continuada (e não apenas para objectivos pontuais) pela integração dos novos dados, o tratamento e reserva dos materiais arqueológicos, e o arquivamento e disponibilização dos relatórios, para não falar já da sua publicação. A exemplo do que se passa já hoje em muitas outras cidades históricas que apresentam gabinetes de arqueologia (como por exemplo Lisboa, CAL, que apresentava ainda há poucos anos uma situação identica, apenas mais grave porque respondendo a uma dinâmica urbanística mais exigente) Évora tem necessidade de um "gabinete municipal de arqueologia", que para além da sensibilização cultural e turística, se ocupe de forma continuada e estruturada, de tarefas como: a gestão da informação e registos produzidos; o apoio ao planeamento e gestão urbanística corrente; o apoio directo aos munícipes economicamente mais débeis, a quem são presentes condicionantes arqueológicas à execução de obras; a organização e gestão das reservas arqueológicas e, finalmente, em articulação com outras entidades, a promoção da investigação arqueológica e edição científica de resultados.
Museu de Mérida, um museu á escala de uma grande capital do Império! 

terça-feira, 8 de março de 2016


Dia Internacional da Mulher

Jeannete Nollen (1930-2016)
Helena Frade (1957-2014)



Há um ano, a propósito desta mesma efeméride, recordei a figura da Arqueóloga Irisalva Moita, desaparecida há alguns anos, uma pioneira numa época em que a Arqueologia portuguesa era dominada pelos homens, com todas as implicações que por vezes esse pioneirismo acarretava, para as suas vidas pessoais e para as suas carreiras. Infelizmente, no ano que passou, tivémos de lamentar o desaparecimento de outras figuras femininas (algumas delas de forma bem precoce) a quem a Arqueologia portuguesa muito ficou a dever. Tive ocasião de neste "blog" assinalar  esses tristes eventos, até porque de algum modo a todas elas me ligavam laços de proximidade, não apenas profissional, mas também de amizade, em especial com a Helena Frade, uma briosa colega da década "heróica" dos Serviços Regionais de Arqueologia (1989-1990).

Helena Frade (1957-2014)
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/04/a-memoria-da-helena-frade-numa.html
Jeannete Nollen (1930-2016)
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2016/01/jeannette-nolen-1930-2016-no.html
Helena Rua (1963-2015)
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/02/algumas-notas-para-historia-da.html
Irisalva Moita (1924-2009)
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/03/ainda-proposito-do-dia-internacional-da.html

segunda-feira, 7 de março de 2016

A lápide funerária do pretor Quinto Júlio Máximo, cidadão da Tourega




Já neste blog, umas vezes a propósito da sua Igreja cujo significado e mais valia artística recentemente foi posto em relevo por Vitor Serrão, outras a propósito das suas ruínas romanas, aqui tenho referido a Tourega, um conjunto patrimonial menos conhecido fora de portas do que os Almendres ou a Anta Grande do Zambujeiro, mas nem por isso digno de menos atenção.
ver aqui          e aqui

Pela minha parte e com o apoio da Junta de Freguesia e de outras entidades, vou tentando promover alguma atenção e cuidado para com este património, na linha da frente do risco de perda, dada a sua peculiar situação de isolamento, circunstância que tem levado ao desaparecimento de uma parcela fundamental do património cultural do Alentejo, vítima desse cancro "causa de todas as desgraças" que dá pelo nome de despovoamento. Participando este fim de semana num colóquio organizado pelo Museu de Arte Romano de Mérida, enquanto orador convidado, foram-me oferecidas várias publicações (mais umas quantas que conto deixar na Biblioteca do meu serviço onde aliás já depositei um nº significativo), entre as quais o catálogo da exposição actualmente no Museu Nacional de Arqueologia "LUSITANIA ROMANA. ORIGEM DE DOIS POVOS". De referir que a exposição foi inaugurada pela primeira vez no Museu Nacional de Arte Romano, em Mérida, onde esteve aberta ao público alguns meses, estando prevista que no final do ano seja apresentada em Madrid no Museu Nacional de Arqueologia, o velho Museu da Calle Serrano, recentemente renovado e ampliado.

Como ainda não tive oportunidade de visitar a exposição, apressei-me a folhear o respectivo catálogo (redigido integral e exclusivamente em Castelhano...a falta de meios do lado de cá, obriga a estas concessões) e qual não foi o meu espanto ao verificar a páginas 162, que um elemento patrimonial de elevado significado e interesse para a história da romanização do nosso território, precisamente proveniente da Tourega, se encontra exposto no MNA, por empréstimo do Museu de Évora, o que significa que dentro em breve estará também exposta em Madrid. Trata-se de uma muito referida inscrição funerária dedicada por uma dama romana, Calpurnia Sabina, ao seu falecido marido, Quinto Junio Máximo, antigo questor da provincia da Sicilia, tribuno da plebe e legado da provincia Narbonense da Galia e finalmente pretor designado. Segundo dizem os entendidos (que esta é matéria em que pouco ou nada me atrevo) trata-se de um cidadão originário desta região que terá atingido os mais elevados cargos administrativos do Império, por alturas no Século III.
As ruínas da villa romana da Tourega com a Igreja e o cemitério em segundo plano


A lápide terá sido recolhida no Século XV ou XVI nas próprias ruínas da Tourega (esta villa seria a casa de campo de tão ilustre família?), sendo já citada por André de Resende na sua obra Antiguidades da Cidade de Évora, publicada nesta cidade em 1553. Durante muito tempo esteve nas paredes da capela de Nª Sª da Assunção da Tourega, de onde foi recolhida a certa altura, a mando de Cenáculo (Arcebisppo de Évora no início do Século XIX e grande amante de antiguidades), cuja coleção está como se sabe na origem do Museu de Évora.

Esta pesença da Tourega em Mérida, agora em Lisboa e ainda este ano em Madrid, passa infelizmente ao lado da população para quem hoje o sítio é apenas o velho cemitério, onde repousam os avós que se vão esquecendo. (Há 30 anos, por acção do meu antecessor no Serviço Regional de Arqueologia, Dr Caetano Beirão, evitou-se a necessária ampliação do cemitério, por causa das ruínas romanas, tendo a autarquia construído um novo cemitério, projecto do meu amigo Arquitecto José Quitério, na estrada de São Brissos.) Pessoalmente procurarei evitar que este facto, que deveria ser um motivo de orgulho identitário passe despercebido perante a população. Para já irei sugerir à Junta que organize ou apoie alguma entidade local que o queira fazer, uma visita conjunta ao Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa, para revermos em conjunto a lápide da Tourega e o contexto em que a mesma está exposta. Estou certo que o Director do MNA, o meu colega e amigo António Carvalho, o tal para quem o seu Museu, é o mais "local" dos Museus Nacionais, receberá os meus vizinhos da Tourega e Guadalupe, de braços abertos.




quinta-feira, 3 de março de 2016


UM "CONCERTO/CONSERTO" MUITO ESPECIAL


Quando o convite surgiu no meu mail, parecia apenas mais um evento. Um concerto de órgão na Sé de Elvas. Mas não, este é afinal um evento muito especial que vem assinalar solenemente a conclusão do "conserto" (restauro) dos órgãos históricos da Sé, culminando um processo que ainda há 2 anos parecia uma missão quase impossível. Para além dos problemas financeiros, era preciso recuperar parte dos componentes originais daqueles instrumentos, dispersos por armazéns e oficinas, alguns a centenas de quilómetros, na sequencia de anterior tentativa de restauro falhada. Mas afinal o impossível aconteceu e, em grande parte, graças à intervenção dos serviços regionais da Cultura, apesar das condições de trabalho cada vez mais problemáticas.

E assim (graças a este convite) recordei que, praticamente nas vésperas de deixar o último cargo que assumi nos meus 42 anos de serviço público (Director de Serviços dos Bens Culturais, na Direção Regional de Cultura do Alentejo, onde continuo como técnico), ter participado activamente na cerimónia pública de assinatura de uma série de contratos de financiamento europeu para um conjunto muito significativo de intervenções patrimoniais no Alentejo. Era então o culminar de um processo iniciado ainda pela Professora Aurora Carapinha e concluído já pela Ana Paula Amendoeira (em plena crise económica) duramente negociado com a CCDRA (presidência de António Dieb) mas contando com a participação dos mais directos interessados, os detentores do património em causa: autarquias e igreja. Apesar do pleno envolvimento da Direcção Regional de Cultura no processo, preparando projectos ou apoiando diretamente a sua execução, a fatia menor do conjunto do investimento (ver o quadro anexo) seria a destinada ao património detido pela própria Direcção (no caso apenas a recuperação da torre do Castelo de Alcácer do Sal que ameaçava ruir sobre o casario vizinho) reflectindo o enorme desinvestimento dos últimos anos do OE no património cultural e que, infelizmente, continua… 


Mas olhando para a lista (que já havia publicado neste blog gerir o património cultural em tempo de crise ),  é com enorme satisfação que verifico que todas as intervenções então apoiadas se encontram finalmente concretizadas, incluindo as mais emblemáticas e de maior valor, nomeadamente: a grande intervenção geral de recuperação de São Francisco de Évora (quem não reside em Évora pode aproveitar para, no próximo domingo, 6 de Março, pelas 11h, ver o resultado final na TVI em directo…) e a recuperação do fantástico Forte da Graça, em Elvas. Está também para breve a conclusão das obras no Paço das Alcáçovas e dos respectivos jardins, projecto do meu colega José Filipe Ramalho, ainda que a obra seja promovida pela Câmara Municipal de Viana do Alentejo.


Intervenções em Património Cultural Material do Alentejo (contratos de financiamento assinados com a CCDRA-Julho 2014)

Monumento
Entidade promotora
Concelho
Objectivos e participação da DRCALEN
Compart. FEDER
Total Invest.
Igreja e Convento de S.Francisco
Igreja Paroquial da Freguesia de S. Pedro
Évora
Consolidação estrutural Igreja e valorização museológica (Convento e “Capela dos Ossos”) Apoio da DRCALEN no acompanhamento projecto, restauro e arqueologia.
2.442.793,72
3.489.705,32
Forte da Graça
C.M. de Elvas
Elvas
Recuperação e adaptação do Forte da Graça, uma extraordinária fortificação militar, para fins e actividades culturais. Apoio da DRCALEN na fase de elaboração de projecto.
4.786.355,37
5.631.006,32
Estação Arqueológica Alter do Chão
C.M.Alter do Chão
Alter do Chão
Cobertura dos mosaicos, onde se destaca o excepcional Mosaico da Casa da Medusa e valorização museológica.  Projecto de arquitectura da responsabilidade da DRCALEN.
354.345,00
416.876,47
Torre do Relógio Castelo Alcácer do Sal
DRCALEN
Alcácer do Sal
Recuperação da Torre do Relógio, que para além da valia patrimonial, é um exlibris de Alcácer. Projecto elaborado na DRCALEN que promove a candidatura e é responsável pelo Castelo de Alcácer
79.957,21

94.067,30
Sé de Elvas *


afecto à DRCALEN
Igreja Paroquial de Nº Sº Assunção
Elvas
Restauro dos 2 órgãos da antiga Sé ( tubos e armário); trata-se de monumento afecto à DRCALEN que promoveu em anos anteriores a importantes trabalhos de conservaçãoo e restauro; estudo e caderno de encargos da DRCALEN
105.042,00
150.060,00
Torre de Menagem de Beja
C.M. Beja (projecto DRCALEN)
Beja
Recuperação e iluminação da Torre de Menagem. Projecto elaborado pela DRCALEN
102.191,42
120.225,20
Muralhas de Serpa
C.M. Serpa
Serpa
Recuperação de troços das muralhas de Serpa, classificadas como Monumento Nacional.
152.821,83
179.790,39
Igreja Matriz Alcáçovas
Igreja Paroquial de Alcáçovas
Viana do Alentejo
Recuperação geral de coberturas. Apoio da DRCALEN à execução do Relatório Prévio e projecto.
128.804,74
184.006,77
8.152.311,29
10.265.737,77



A Torre do Relógio do Castelo de Alcácer do Sal, antes e depois da intervenção promovida pela DRCALEN

O Paço das Alcáçovas, em vias de requalificação



quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

ANTA GRANDE 2

Anta Grande da Comeda da Igreja (Fev. 2016)

Há muito que o “megalitismo alentejano” está identificado como um recurso patrimonial de enorme potencial turístico-cultural mas, infelizmente, condicionantes complexas têm impedido que essa potencialidade dê frutos visíveis. Apenas  algumas dessas condicionantes: a sua dispersão no território, quase sempre em propriedades privadas, hoje cada vez mais inacessíveis face aos novos modelos de exploração agrária; a falta  de uma estratégia pública de valorização arqueológica desse mesmo património, mesmo dos monumentos mais imponentes e significativos (em parte resultado da situação anterior); e por fim a falta de articulação entre as múltiplas entidades interessadas na valorização desse património (Direcções Regionais, entidades turísticas e autarquias). Veja-se como exemplo a anunciada inauguração de um “centro de interpretação do megalitismo” em Mora, certamente uma aposta justificada pela respectiva autarquia, como complemento da oferta já proporcionada pelo vizinho “Fluviário” mas que, quer na sua concepção quer na sua localização, resultou de uma iniciativa local dificilmente enquadrável numa estratégia geral de valorização do megalitismo no Alentejo Central. Daí que se saúde como bem vinda, a experiencia piloto recentemente promovida entre as Câmaras de Évora e Montemor-o-Novo, visando precisamente a chamada de atenção para o importante megalitismo comum. Ainda que a título de experiencia, técnicos ao serviço de ambas as autarquias estão a executar um levantamento tridimensional das duas maiores antes do Alentejo (Anta Grande do Zambujeiro e Anta Grande da Comenda da Igreja) com vista à sua disponibilização através de recursos virtuais (Projecto ANTA GRANDE2 -Anta Grande ao Quadrado ). Na falta de meios ou de condições (até jurídico-administrativas) para as intervenções físicas e concretas cada vez mais urgentes e necessárias, a “realidade virtual” terá pelo menos o mérito de ir chamando a atenção para este património único, ainda que com “sortes” diversas. De facto a situação da Anta da Comenda, ao contrário do que se passa com a do Zambujeiro, é em vários aspectos, incomparavelmente melhor. Quer na conservação geral, quer no enquadramento paisagístico. Já o acesso é mais difícil.




Recolha de imagens para o levantamento tridimensional, hoje relativamente facilitado por programas informáticos adequados

A Anta Grande do Zambujeiro, mo início dos anos 80, pouco antes da instalação da inestética mas ainda hoje necessária "cobertura provisória"! Foto do levantamento estereofotogramétrico então produzido pela ESTEREOFOTO para o Serviço Regional de Arqueologia do Sul


Resultado gráfico do levanatemento estereofotogramétrico dos anos 80. A anta vista do enfiamento do corredor.