sexta-feira, 29 de janeiro de 2016



Documentos para a história da nossa Arqueologia





Criado em 1997 pelo Ministro da Cultura Manuel Maria Carrilho na sequencia do mediático e polémico processo em torno da salvaguarda das gravuras rupestres do Vale do Côa - que culminaria em final de 1995 com a suspensão da construção da Barragem do Côa, uma das primeiras decisões tomadas pelo Governo recém-eleito de António Guterres - o novo Instituto Português de Arqueologia, acabou por ter vida curta e atribulada. Ainda assim, a sua existência deixaria marcas profundas na Arqueologia portuguesa na transição do século XX para o século XXI e algumas das estruturas então criadas ainda persistem (ainda que algumas muito debilitadas) hoje integradas na DGPC (Direcção Geral do Património Cultural)  e influenciam no dia a dia, a prática da salvaguarda do património arqueológico em Portugal.

Referimo-nos em particular à Biblioteca e Arquivo, às base de dados informáticas ENDOVÉLICO, ao ex- CIPA (hoje intitulado Laboratório de Arqueociências - ver aqui um balanço da sua actividade)
ou mesmo às estruturas da arqueologia subaquática, ex-CNANS (Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática).

Em Maio de 2002, já no contexto do Governo PSD de Durão Barroso, surgiam os primeiros sinais de que poderia haver alterações significativas a nível das estruturas da Cultura. Ainda que definitivamente abandonada a construção da Barragem, havia no ar ainda algum ressabiamento relativamente às corajosas decisões de Guterres e a ideia original de construção de um Museu no próprio sítio da Barragem (o que inviabilizaria ad aeternum a Barragem) foi a primeira a cair. Mas as baterias estavam apontadas já ao IPA. Algum tempo depois, perante a confirmação da decisão, a direção do IPA (João Zilhão e Monge Soares) dimitir-se-ia e o IPA entraria num período de longa agonia, acabando formalmente por ser extinto no final de 2006, integrando-se os seus serviços na orgânica de um novo Instituto, o IGESPAR, por sua vez substituido em 2012 pela actual DGPC.

Na sequencia imediata  das notícias ameaçadoras sobre o IPA -a cuja primeira Comissão Instaladora, presidida pelo Vitor Oliveira Jorge, pertenci- reagi com um texto que julgo nunca conheceu a luz do dia. Reencontrado mais de uma década depois, aqui fica como testemunho pessoal de um período conturbado da pequena história da nossa arqueologia.


A morte anunciada de um instituto cultural ?


Ainda que falte a confirmação oficial, o destaque de primeira página dado pelo Expresso ao assunto (“Governo trava museu de Foz Côa”- 04/05/02) parece anunciar aquilo que, desde as últimas eleições, na modesta paróquia arqueológica uns já temiam, outros esperavam e, alguns, até desejavam. Atrás da revisão do processo do Museu do Côa, polémica já herdada da anterior gestão socialista e que o PSD, no respectivo programa eleitoral, prometia reapreciar, perfila-se agora também a extinção do Instituto Português de Arqueologia, classificado pelo Expresso como “outro emblema socialista”. Sobre esta questão, embora prevendo mexidas na área do Património, o programa do Governo era lacónico e vago quanto baste. Mas, face ao discurso sistemático da crise orçamental e, por consequência, da inevitável extinção de serviços e institutos públicos, que melhor “bombo da festa” se poderia encontrar? Antes de mais porque, ignorando ou esquecendo a importância das respectivas atribuições, não preenchidas por outros organismos, é fácil associar a sua criação (1997) a uma qualquer contrapartida pós-Côa ou cedência do Governo PS ao lobby(zinho) dos arqueólogos portugueses. Depois porque, sendo demasiado pública a proverbial guerrilha entre as diversas capelinhas arqueológicas, não será difícil encontrar apoios para amortecer ou explorar eventuais efeitos colaterais, nomeadamente os mediáticos, que tal decisão possa acarretar. Aliás, a forma como a notícia veio a lume (o Director do IPA, João Zilhão, confrontado com o teor da notícia do Expresso declarou ao “Público” de 05/05/02, que “não fora essa a posição que o Ministro da Cultura lhe comunicara, porque, caso contrário, já se teria demitido”) parece apenas o primeiro acto de uma estratégia cautelosa mas implacável.

Mas, esquecendo por um momento, a normal e saudável diferença de perspectivas culturais entre a direita e a esquerda que naturalmente pressupõem e fundamentam, mesmo nos domínios mais consensuais da salvaguarda e valorização do património histórico-cultural, políticas divergentes, vale a pena fazer uma pequena reflexão sobre o papel do IPA e as circunstâncias conjunturais que determinaram o seu aparecimento. Pese embora o tempo e o modo como surgiu, aquele Instituto visava preencher uma lacuna objectiva no quadro das responsabilidades que o Estado vinha assumindo desde o início dos anos 80 em matéria de salvaguarda, estudo e gestão dos recursos arqueológicos do território, entendidos como parte integrante do património identitário nacional. Curiosamente, deve-se a um Governo AD (1980, sendo Secretário de Estado da Cultura o Dr. Vasco Polido Valente), no quadro da criação do IPPC (Instituto Português do Património Cultural) o reconhecimento da especificidade territorial do património arqueológico, promovendo a criação de Serviços Regionais de Arqueologia. Num quadro global de interdisciplinaridade e de equilíbrio que a amplitude das atribuições do velho IPPC impunha (gerindo monumentos, museus, arquivos, sítios arqueológicos, etc...) podemos dizer que a Arqueologia, apesar dos meios sempre reduzidos, soube então por mérito próprio mas também por reconhecimento institucional, ganhar algum espaço na política patrimonial, facto que assume especial significado se tivermos em conta que à data do 25 de Abril de 1974, praticamente não existiam ainda arqueólogos profissionais em Portugal. Contraditoriamente, seria no quadro da progressiva fragmentação sectorial do IPPC, decorrente da importância crescente que as políticas patrimoniais assumiram ao longo da década de 80, que a “Arqueologia” começaria a perder terreno. Por um lado porque algumas das suas atribuições passam a ser diluídas pelos novos Institutos ou organismos (nomeadamente no que respeitava às questões museológicas, ao restauro ou mesmo ao inventário) por outro, porque de reestruturação em reestruturação, acabaria por ficar confinada ao papel de parente pobre no IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico) criado por Santana Lopes no início dos anos 90 e onde prontificavam, quer na estrutura hierárquica, quer na definição estratégica, os arquitectos e engenheiros civis, muitos deles tardiamente despertos para o “património”. Os Serviços Regionais de Arqueologia foram extintos e os respectivos arqueólogos integrados nas novas Direcções Regionais. Sem a definição de uma política própria, condicionados por uma gestão incompetente ou casuística, os arqueólogos da Administração Central, entraram praticamente em auto gestão, apesar do desenvolvimento e importância que a salvaguarda do património arqueológico, vinha assumindo de forma crescente na sociedade civil. Isso verificava-se em particular na multiplicação de cursos superiores, nas políticas culturais ao nível local e, finalmente, nas novas exigências de minimização de impactes patrimoniais, tornadas obrigatórias com a plena integração na Comunidade Económica que fizeram surgir as primeiras empresas privadas no sector. Quando surge a questão do Côa, num quadro de maior exigência legal no domínio da defesa integrada do património cultural e de crescente interesse da opinião pública por estas questões, a fragilidade técnica das estruturas arqueológicas da administração do Estado revelou-se por inteiro. Entre o arqueólogo funcionário que no campo descobrira as primeiras gravuras e o Governo a quem competia o cumprimento da legislação patrimonial aplicável, não havia praticamente ninguém (Directores Regionais, Directores de Serviços, Directores Gerais...) que tivesse a mínima ideia do que estava em jogo, com as consequências que se viram.

Portanto, mais do que um prémio ou uma cedência, o IPA visava criar condições para assegurar o cumprimento das obrigações ou responsabilidades que o Estado assumira, pela integração de princípios internacionais ou pela aprovação de legislação própria. Poder-se-ão, no entanto, colocar duas questões pertinentes. Não teria sido possível, ainda que com nova reestruturação do IPPAR, dar cumprimento a esses mesmos objectivos sem a criação de novos serviços, solução sempre onerosa porque inevitavelmente duplicadora de algumas estruturas? Terá o IPA, nestes 5 anos de existência, correspondido às expectativas então geradas?

No que à primeira questão se refere, a minha resposta não pode deixar de ser afirmativa. Com efeito, e pese embora o facto de ter pertencido à Comissão Instaladora do IPA, nunca escondi que teria visto com melhores olhos a reestruturação do IPPAR, valorizando uma perspectiva integradora da política de salvaguarda e gestão do património cultural imóvel embora precavendo, através de novos mecanismos estruturais, a autonomia própria do sector arqueológico em domínios específicos, como a arqueologia subaquática, o património rupestre e a arqueologia pré-histórica em geral, ou mesmo o inventário (Carta Arqueológica). Obedecendo a uma lógica que vinha já dos Governos de Cavaco Silva, de progressiva desintegração disciplinar, a criação de um novo organismo (que de facto constava do programa eleitoral do PS) acabou por fazer vencimento. No entanto, e entramos já na segunda questão enunciada, o figurino que prevaleceria, acabou por corresponder a uma situação algo híbrida que se viria a reflectir ao nível da capacidade de actuação do novo Instituto. Cedo se tinha verificado que, entre as expectativas da Comissão Instaladora (e nas quais eu próprio então me revia totalmente, porque uma vez assumida a decisão de criar um novo Instituto, este deveria herdar, não só as atribuições mas as próprias estruturas e meios do IPPAR, no domínio arqueológico) e a realidade dos equilíbrios da distribuição dos poderes dentro do novo Ministério da Cultura, ia um fosso intransponível. Embora não exclusivamente por estes motivos, a Comissão Instaladora acabaria por se dissolver, tendo vencido, mais por força das circunstâncias do que por convicção, a tese de um “mini-IPA” dividindo as suas naturais competências e atribuições com o todo poderoso IPPAR que apesar do novo parceiro, mantinha largas competências em matéria arqueológica e uma estrutura técnico-administrativa cada vez mais pesada. Mesmo assim, e apesar de alguma crescente conflitualidade entre ambas as instituições decorrente da duplicação ou sobreposição de funções, o IPA teve nestes anos um papel fundamental para o desenvolvimento de uma política consistente em matéria de prevenção e salvaguarda do património arqueológico português, nomeadamente no que respeita ao estreito acompanhamento das grandes obras públicas. É especialmente reconhecido por toda a classe arqueológica, o grande esforço efectuado ao nível da política da publicação científica, ou, apesar da escassez de financiamento, da cooperação científica entre a arqueologia e as diferentes disciplinas da paleo-ecologia. Por consequência, e seja qual for a decisão política que venha a ser tomada pelo novo Governo, descontadas as necessidades de alguma demagogia de discurso para consumo mais generalista, espera-se pelo menos alguma coerência de atitude. Das duas uma. Ou numa lógica meramente economicista neo-liberal, se entende que as atribuições do IPA são excedentárias e o Instituto é descartável, mas para isso o Governo terá de lançar borda fora toda uma série de legislação nacional, comunitária ou mesmo internacional (incluindo em especial a “Convenção Europeia para a protecção do Património Arqueológico”, assinada em nome do Governo da República Portuguesa em La Valetta, Malta, em Janeiro de 1992 pela Dra. Maria José Nogueira Pinto) ou, pelo contrário, mesmo insistindo na extinção do IPA, o Governo garante através dos meios mais adequados, o cumprimento integral das suas obrigações e responsabilidades nesta matéria. Recordo porém que, em múltiplos domínios, o Ministério da Cultura não apresenta actualmente alternativas efectivas para as funções cobertas, com maior ou menor eficácia, pelo Instituto cultural com morte agora anunciada. Significativamente, ou não, o primeiro com “nome” dos muitos que vêm sendo apregoados como necessários à salvação do equilíbrio orçamental.


António Carlos Silva- arqueólogo (vogal da Comissão Instaladora do IPA, em 1995/96)








 
Ainda que extinto desde finais de 2006, o IPA continuaria a funcionar os seus serviços técnicos essenciais, não só a nível das suas "extensões territoriais" mas também nas suas instalações da Avenida da Índia, num antigo edifício militar. Em 2008, porém, e perante a "revolta dos arqueólogos", seria finalmente despejado para se começar a construção do megalómano novo Museu dos Coches.

Sobre este assunto podem ver-se também:



quarta-feira, 27 de janeiro de 2016


Arqueologia em Évora, há um quarto de século

"Laconicum" das termas da Praça do Sertório, Évora, em curso de escavação no final dos anos 80 (Arquivo: CME)


Por mero acaso acabo de "tropeçar" com um recorte do Diário do Alentejo de 14 de Setembro de 1990, já lá vão pois mais de 25 anos. (Para os mais jovens convém lembrar que "recortes de imprensa", eram notícias escolhidas a partir dos jornais ou de fotocópias, que empresas especializadas recolhiam sobre temas específicos previamente identificados pelos clientes; a leitura e tratamento regular destes recortes era, naturalmente, uma fonte preciosa de informação, uma espécie de ronda pela "internet" da altura...)

Neste recorte, o Diário do Alentejo (não sei se na altura ainda "diário" ou já "semanário"), dava conta de uma série de projectos de Arqueologia em curso no Verão de 1990 na cidade de Évora e seus arredores. A lista é impressionante, não tanto pela quantidade, mas sobretudo pela importância dos projectos e dos sítios ou monumentos então em curso de investigação ou escavação, incluindo projectos internacionais (Colin Burguess da Universidade de Newcastle-pré-história- e Theodor Haushild do Instituto Arqueológico Alemão) e envolvendo aquela que é hoje a "nata" do património arqueológico de Évora (Cromeleque dos Almendres, Villa Romana da Tourega, Templo Romano, Termas da Praça do Sertório...). É certo que nunca se fez tanta arqueologia (preventiva) como hoje, nomeadamente no contexto das obras públicas e privadas, mas também é inegável que raramente com consequências práticas para o cidadão comum. Mas, e esse é o grande calcanhar de Aquiles da actual arqueologia, a Administração Central ou local, sobretudo nas áreas mais afectadas pela crise económica, deixou praticamente de ter iniciativa neste domínio, limitando-se a exigir a terceiros, uma atitude preventiva, importante mas por vezes frustrante porque implica afetação de recursos por parte da sociedade que, muitas vezes, seriam bem melhor empregues no estudo e valorização de tantos e tantos sítios ao abandono.





sexta-feira, 22 de janeiro de 2016




A delegação de Évora da firma H. Vaultier (anos 60?)

Maxime Vaultier (1898-1969)


Não é a primeira vez que o Gonçalo Pereira, editor da National Geographic portuguesa, me presenteia amavelmente com “tesourinhos arqueológicos” que vai descobrindo nas suas pesquisas pela velha imprensa portuguesa. Há poucos dias enviou-me um recorte do Diário de Lisboa, de 12 de Julho de 1942 que aproveito para divulgar. 

Trata-se de uma “entrevista” a Maxime Vaultier, uma figura algo “misteriosa” mas quase omnipresente na “bibliografia arqueológica portuguesa” de meados do Século XX, o que me deixou na expectativa de encontrar novos e desconhecidos dados sobre a sua pessoa. Infelizmente, o tom e o conteúdo da entrevista deixa-nos um pouco defraudados, por “culpa” da personalidade do próprio, que apenas por muita insistência do jornalista terá acedido a falar, não sobre si, mas sobre a Arqueologia portuguesa.Considerando-se um simples amador, citará praticamente todos os nomes activos na Arqueologia portuguesa da época. Dá natural destaque à figura de Henri Breuil, o grande pré-historiador francês presente em Portugal durante parte da 2ª Guerra Munidal, que já conhecia de França e cuja estadia, segundo o testemunho de Octávio da Veiga Ferreira publicado na revista ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA, AAP, 9ªsérie, V.II, 1970  (que aproveito para divulgar também), terá sido em parte patrocinada pelo próprio Vaultier.




E aqui podemos começar a falar um pouco do que podemos apurar desta figura que, sem ser arqueólogo de formação, teve um papel tão importante na Arqueologia portuguesa do seu tempo. Apesar de já nascido em Portugal, o seu pai o francês Henri Vaultier, fora o fundador da firma industrial H.Vaultier, empresa muito ligada ao fornecimento de maquinaria diversa à indústria e à agricultura, com expansão a nível nacional (pessoalmente ainda recordo a sua publicidade nas paredes de um loja já abandonada na Praça do Giraldo nos anos 80). Tendo estudado em França, Maxime Vaultier aí terá sido jornalista (a crer no artigo do DL), tendo entrado para a firma do pai a partir de 1922, onde chegaria rapidamente a sócio gerente. Homem de muitos interesses (é um grande impulsionador dos desportos de vela em Portugal) a sua ligação à arqueologia terá começado por volta de 1937, segundo o seu próprio testemunho. Graças à sua fortuna pessoal dispunha de meios que raramente estavam ao alcance dos arqueólogos portugueses, nomeadamente de “grande viatura particular” que muitas vezes colocará generosamente ao dispor dos numerosos amigos arqueólogos que vai conhecendo e apoiando. Estes retribuem como podem, associando o seu nome às publicações que vão fazendo, o que acaba por tornar o seu nome quase omnipresente. Eu próprio já havia confirmado essa situação  quando tive oportunidade de estudar com mais detalhe as circunstancias da descoberta e confirmação da arte rupestre paleolítica da Gruta do Escoural. Com efeito, a primeira publicação de Farinha dos Santos sobre o assunto nas páginas d’O Arqueólogo Português (1964) havia sido recebida pela generalidade dos colegas nacionais, com grande cepticismo, até pela inexperiência do autor neste campo. Terá então sido decisiva a intervenção de M. Vaultier. Eventualmente recorrendo às suas antigas relações com Henri Breuil, recentemente falecido (1961), Vaultier conseguirá convencer o seu sucessor André Glory, na altura a estudar a arte de Lascaux, a vir a Portugal no início de 1965. A viagem foi também patrocinada pela Gulbenkian, mas terá em grande parte sido garantida pelo próprio Vaultier. Glory não esquece esse facto e quando em Maio desse mesmo ano apresentou os resultados da sua expedição ao Escoural, na Sociedade Pré-histórica Francesa, associará à posterior publicação da conferencia, os nomes de Farinha dos Santos e de Maxime Vaultier. Estava previsto que Glory regressaria ao Escoural no Outono seguinte, provavelmente de novo com o apoio de Vaultier que assim continuaria a ligar o seu nome ao Escoural. Infelizmente Glory, morreria num acidente de carro nesse mesmo ano de 1966 e Vaultier, em 1969, ao que depreendo das palavras de Veiga Ferreira, de ataque cardíaco. Um último dado curioso, a propósito da personalidade de Vaultier. Procurando alguma informação complementar na NET, descobri o seu nome num Blog francês que divulga os nomes dos “Combatentes da França Livre”. Julgo que não terá andado na “guerrilha”, mas foi fundador e presidente do Comité português da França Livre.

Um recorte de jornal (?) datado de 1965 (?), relatando uma conferencia de Maxime Vaultier sobre a Gruta do Escoural. Nela Vaultier evocou as suas antigas relações com Henry Breuil e que estiveram na origem do convite que endereçaria a ANdré Glory que visitou o Escoural em Janeiro desse mesmo ano (1965) 

Maxime Vaultier, (em primeiro plano à direita)a ser recebido na Câmara Municipal de Lisboa pelo general França Borges.
O edifício onde está actualmente instalada a Fundação Portuguesa das Comunicações, da autoria do arquiteto João Simões Antunes, já foi uma fábrica e uma central de Telex. Originalmente pertencente ao Instituto Superior Técnico, foi vendido em 1944, por 645 mil escudos, à empresa H. Vaultier & Companhia, ainda na fase de construção. Era constituído por três parcelas, que a Vaultier preferiu ver transformadas numa única estrutura.








terça-feira, 19 de janeiro de 2016

As "pedras talhas" e a neve

Já não consigo ter a certeza quanto ao dia, mas foi a um domingo (talvez, 29 de Janeiro de 2006), pelo que está prestes a concluir-se uma década sobre um dos maiores nevões a que o Alentejo terá assistido nos últimos 100 anos. Alguns idosos lembravam-se de qualquer coisa parecida, nos anos quarenta ou cinquenta do século XX. Tratou-se de uma rara oportunidade para conseguir algumas imagens desconcertantes e as que consegui fazer nesse dia nos Almendres, onde apenas consegui chegar graças ao meu velho Patrol) tiveram natural sucesso. Para além de ilustrarem os calendários que a Junta de Freguesia de Guadalupe mandaria executar no ano seguinte, deram a volta ao mundo, graças ao poder crescente que a INTERNET já tinha por essa altura, contribuindo ainda mais para a divulgação deste monumento único da nossa região. Aqui deixo no Blog das "Pedras Talhas" algumas dessas imagens de há uma década atrás.











A neve, naturalmente, também marcou presença na vizinha Serra do Monfurado.

Na Gruta encontravam-se nesse dia, "em serviço de guardaria turística", o  Pedro Carapetudo e a Helena. Por razões que nunca percebi, o Pedro não aproveitou a boleia da Helena e resolveu esperar pelo pai que, por causa do "nevão" já não conseguiu chegar de carro à Gruta. Avisado da situação, alertei a GNR que o colocou em lista de espera por algumas horas dando-lhe tema para uma "história" para contar ao filho (que entretanto já teve, com a Helena...).



segunda-feira, 18 de janeiro de 2016


OLISIPO

São eventos como o que tive oportunidade de viver ontem (17/01/2016) no velho cinema São Jorge, que nos mostram que, apesar de todos os problemas e dificuldades, o "mundo pula e avança"...

Como vão longe os tempos em que fazer Arqueologia em Lisboa era praticamente uma excentricidade! Já aqui neste blog recordei a figura de IRISALVA MOITA (1924-2009) ver aqui, a arqueóloga que, lutando contra muitas adversidades, deixou o seu nome ligado às raras intervenções arqueológicas verificadas em Lisboa antes do 25 de Abril, como as da necrópole romana da Praça da Figueira (decorrente das primeiras obras do Metro no final dos anos 50) ou sd escavações dos anos 60 no Teatro Romano, ao Caldas. Eu próprio contaria ainda com o seu apoio directo (como Directora dos Museus de Lisboa) para o lançamento da primeira grande escavação arqueológica lisboeta posterior ao 25 de Abril, acção que promovi no início dos anos 80 como responsável do Departamento de Arqueologia do IPPC, no âmbito da recuperação da Casa dos Bicos para a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura. Eram acções isoladas, negociadas caso a caso e que normalmente eram entendidas pelas entidades promotoras das obras, como "concessão de facilidades" aos arqueólogos e não como obrigações decorrentes dos impactos negativos induzidos pelas intervenções, nos "arquivos materiais" conservados no subsolo das cidades históricas. Vivi ainda essa situação de forma muito objectiva e concreta no final dos anos 80 e início dos anos 90 em Évora, onde no âmbito do Serviço Regional de Arqueologia promovemos algumas intervenções no centro histórico, sempre "mendigadas" junto dos promotores, situação que só começaria a mudar após as alterações legais promovidas no contexto da criação do IPA no final da última década do século passado. 

O excelente documentário do Raul Losada, com reconstituições 3D de César Figueiredo de que tive oportunidade de visionar ontem no São Jorge (sala onde não entrava há décadas) sobre os resultados da intervenção arqueológica na Praça D.Luis, mostram-nos hoje uma realidade completamente diferente. Mas mais do que as circunstancias concretas, que já conhecia, da intervenção da ERA ARQUEOLOGIA (empresa fundada há cerca de 2 décadas por antigos jovens colegas que, pontualmente haviam trabalhado comigo nessas intervenções "mendigadas" aos promotores...), representou para mim uma agradável surpresa e a prova de que estamos de facto num paradigma novo, a multidão de gente, de todas as idades (mas sobretudo jovens) que acorreram ao São Jorge para assistir a um "simples", ainda que muito interessante, documentário histórico. 




Um aspecto da Sala Manuel d'Oliveira do Cinema São Jorge, pouco antes da projecção do documentário (Fundeadouro Romano em Olisipo)

O promotor e realizador do documentário, Raul Losada e um representante do CAL (Centro de Arqueologia de Lisboa) da Câmara Municipal, dirigindo-se aos assistentes



terça-feira, 12 de janeiro de 2016


Mário Dionísio, Denis Cintra e outras lembranças dos meus "anos 60"


As memórias são mesmo assim, como as “cerejas”. Umas arrastam outras e assim, sucessivamente, num movimento quase perpétuo...

Vêm tais lugares comuns, a propósito da leitura de recente entrevista do Jornal de Letras ao actor Luis Miguel Cintra (1949), por ocasião do seu anunciado abandono dos palcos - que não do teatro- por razões de saúde. Referindo-se às origens da sua vocação artística, evocou o importante papel do seu professor do Liceu, Mário Dionísio (1916-1993) na decisão de seguir para Letras, isto algures em meados dos anos 60. O cruzamento de “Cintra” com “Dionísio”, fez-me“regressar” aos meus anos 60, mais concretamente a Junho (?) de 1968, quando como aluno externo, fiz exames do 5º ano, no Liceu Camões. Era nessa altura aluno do Seminário de Almada e ao contrário do que seria de esperar, o Estado não reconhecia os exames feitos no âmbito eclesiástico (Salazar e Cerejeira eram unha com carne, mas "amigos, amigos... negócios à parte"), pelo que a única maneira dos ex-seminaristas poderem eventualmente continuar estudos ou arranjar emprego compatível com a respectiva escolaridade, passava pela realização de exames no Liceu, como alunos externos. Como na altura em Almada, zona proletária, Liceu era coisa que não existia (estava disponível para os remediados a Escola “Técnica” Emídio Navarro”) acabei por fazer os exames liceais, como aluno externo, sempre em Lisboa, nomeadamente os do 5º Ano ou 2º ciclo, no Liceu Camões. Recordo bem o facto, pelo que tinha de extraordinário na vida meio reclusa do seminário (pese embora a “abertura” da época e que já aqui evoquei por outros motivos  ver aqui  ) naquele caso concreto, animada então por uma coisa rara mas também sinal dos tempos…Uma greve dos revisores da CARRIS, que nos permitia viajar de eléctrico “à borla” entre a Praça do Comércio e o Largo José Fontana. Os exames escritos realizados no vetusto Ginásio do Liceu acabaram por não me correr mal, embora com resultados algo contraditórios. Apesar de não ser muito dado a “ciências”, as notas obtidas, provavelmente com a ajuda da Geografia e das Ciências Naturais, foram suficientes para me livrar das “orais”. Já o meu velho handicap com as línguas vivas, de que resultara uma negativa a “Inglês”, me obrigou a ir às provas orais, apesar das boas notas a Português e História. No dia aprazado lá estava no Liceu Camões, de gravata como mandava a praxe, para defender as notas da escrita que eram suficientes para a passagem de ano, mesmo que continuasse com a negativa de Inglês (era possível passar “cortado” a uma única disciplina numa das secções). Já não recordo patavina das provas de Português e História, mas retenho detalhes incríveis das de Francês e Inglês. No caso da prova de francês, o professor, figura austera de cachimbo na mão e óculos de massa, começou por indagar as origens do examinando “externo” e quando soube que este era “seminarista (= padreca)”, mostrou no seu olhar (pelo menos assim o retive, tal era o pânico) o “brilho” do caçador que acabara de descobrir a “presa”. “Ah sim? Então tem aí no seu compêndio (recordo até o título do livro e do texto…), “Regardons vers le pays de France”, uma lição que lhe assenta que nem uma luva, “Les processions dans le Midi ”… Como é fácil de imaginar, com tais preliminares, a prova foi um desastre, arrastando a nota da escrita para uma irremediável negativa. Valeu-me a passagem de ano, a caridade (provavelmente) cristã da professora de Inglês, que com toda a boa vontade me facilitou a recuperação da negativa que trazia da prova escrita. 
Mário Dionísio

O manual do meu exame de Francês




Menos de uma década depois de experiência pedagógica tão traumática tive ocasião de recordar estes factos enquanto professor estagiário (1975/76)  no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho (no ano em que a venerável escola feminina abriu as suas portas aos primeiros alunos e professores masculinos) à então minha orientadora Maria Emília Diniz. Esta extraordinária professora de História, uma agradável surpresa em termos científicos, pedagógicos e humanos (e de quem tive notícias há pouco tempo) que só não estava na Faculdade de Letras pela “pequenez social e política” do fascismo, pela descrição não teve qualquer dúvida em identificar o “caçador”. Eu tinha sido “presa” do Mário Dionísio, professor no Liceu Camões nos anos 60, também ele então afastado da Universidade por razões políticas e nome que, obviamente já me dizia alguma coisa em 75 (ainda que sobretudo por ser pai da Eduarda Dionísio, uma activista cultural e política muito mediática nos anos do PREC) e cujo nome viria a reencontrar mais tarde amiúde na leitura da biografia de Álvaro Cunhal, do Pacheco Pereira, a propósito da polémica entre ambos sobre o “neo-realismo” e o papel das artes na política e na sociedade. 

Como é que tudo isto se cruza com o actor Luis Miguel Cintra, figura que apenas vi ao vivo nas raras vezes que frequentei a Cornucópia nos anos 80, como simples espectador?

Voltemos de novo aos anos 60 e ao Seminário de Almada, julgo até que ao mesmo ano de 68 (ou talvez 67?), mas agora centrado numas inesquecívies férias na Arrábida, mais concretamente no Conventinho da Serra, numa altura em que este ainda estava na posse da Casa de Palmela (desde 1990 é propriedade da Fundação Oriente). Graças às boas relações entre o clero e a nobreza, o Seminário de Almada gozava do raro previlégio de poder organizar campos de férias para os alunos nas instalações do Convento, na altura relativamente em bom estado mas extremamente frugais, tipo “monumentos nacionais” (de tal modo que era preciso levar quase tudo, incluindo as camas e as louças…). Em todo o caso, por vários motivos, tratou-se de uma experiência extraordinária, ainda por cima valorizada pelas memórias  vivas do guarda António, companheiro das longas estadias no local do malogrado Poeta da “Serra Mãe”, Sebastião da Gama (1924-52) ou pelas recambolescas peripécias, em “inglês”, das velhíssimas manas Perestrelo, professoras aposentadas do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, (o tal onde eu entraria alguns anos depois), que passavam também férias no Convento, por serem ainda parentes dos Duques de Palmela…

A obra de Sebastião da Gama inspirada pelas suas estadias no Conventinho da Arrábida

Mas a grande aventura, passava pela descida diária por veredas que rasgavam o denso maquis mediterrânico, todas as manhãs, serra abaixo em direção às límpidas águas do oceano. Por razões de maior proximidade, frequentávamos a chamada Praia dos Pilotos da Barra, uma estreita língua de areia apenas acessível nas marés baixas e a que se descia por íngreme escada de madeira. Mais por essas características do que por outras razões, era praticamente uma praia particular, muito pouco frequentada. Naquele Verão apenas uma família nos fazia companhia e, graças à presença de uma viola e à proximidade dos interesses musicais (as inconvenientes e omnipresentes baladas do Zeca e do Adriano), rapidamente se estabeleceram cumplicidades inesperadas. Soubemos então, embora na altura isso pouco nos dissesse, que o pai de família era o professor Luis Lindley Cintra (1925-91, que viria a reencontrar como aluno na Faculdade de Letras e a quem já me referi neste Blog ver aqui a propósito da sua proximidade com os estudantes) e o filho que alinhava connosco nas cantorias e violadas, o Denis Cintra de que pouco tempo depois ouviríamos falar, graças à sua passagem no programa ZIP-ZIP da RTP (que tantos talentos revelou) e à edição de alguns discos.

Ao contrário do irmão Luis Miguel, que se tornaria uma figura central no panorama artístico nacional, nunca mais tive notícias de Denis Cintra até que agoa, movido pela curiosidade, encontrei uma pequena (mas triste) nota biográfica na Internet, retirada da obra de Eduardo M. Raposo “Canto de Intervenção” ( mariu.no.sapo.pt/DenisCintraBiografia.html) e algumas suas canções no YOUTUB:  https://www.youtube.com/watch?v=rgIs3foSrnk)

Denis Cintra

Como tantos da minha geração, Denis Cintra precocemente desaparecido (1951-1990), após editar três discos quase de rajada em 1971, acabou por exilar-se em Inglaterra em 1972. Como tantos da minha geração, por razões económicas ou políticas, o espectro da guerra colonial, acabou por afastá-lo da sua terra e das suas gentes, cortando cerce uma carreira que se perspectivava brilhante.

O Professor Luis Lindley Cintra