segunda-feira, 18 de janeiro de 2016


OLISIPO

São eventos como o que tive oportunidade de viver ontem (17/01/2016) no velho cinema São Jorge, que nos mostram que, apesar de todos os problemas e dificuldades, o "mundo pula e avança"...

Como vão longe os tempos em que fazer Arqueologia em Lisboa era praticamente uma excentricidade! Já aqui neste blog recordei a figura de IRISALVA MOITA (1924-2009) ver aqui, a arqueóloga que, lutando contra muitas adversidades, deixou o seu nome ligado às raras intervenções arqueológicas verificadas em Lisboa antes do 25 de Abril, como as da necrópole romana da Praça da Figueira (decorrente das primeiras obras do Metro no final dos anos 50) ou sd escavações dos anos 60 no Teatro Romano, ao Caldas. Eu próprio contaria ainda com o seu apoio directo (como Directora dos Museus de Lisboa) para o lançamento da primeira grande escavação arqueológica lisboeta posterior ao 25 de Abril, acção que promovi no início dos anos 80 como responsável do Departamento de Arqueologia do IPPC, no âmbito da recuperação da Casa dos Bicos para a XVII Exposição Europeia de Arte, Ciência e Cultura. Eram acções isoladas, negociadas caso a caso e que normalmente eram entendidas pelas entidades promotoras das obras, como "concessão de facilidades" aos arqueólogos e não como obrigações decorrentes dos impactos negativos induzidos pelas intervenções, nos "arquivos materiais" conservados no subsolo das cidades históricas. Vivi ainda essa situação de forma muito objectiva e concreta no final dos anos 80 e início dos anos 90 em Évora, onde no âmbito do Serviço Regional de Arqueologia promovemos algumas intervenções no centro histórico, sempre "mendigadas" junto dos promotores, situação que só começaria a mudar após as alterações legais promovidas no contexto da criação do IPA no final da última década do século passado. 

O excelente documentário do Raul Losada, com reconstituições 3D de César Figueiredo de que tive oportunidade de visionar ontem no São Jorge (sala onde não entrava há décadas) sobre os resultados da intervenção arqueológica na Praça D.Luis, mostram-nos hoje uma realidade completamente diferente. Mas mais do que as circunstancias concretas, que já conhecia, da intervenção da ERA ARQUEOLOGIA (empresa fundada há cerca de 2 décadas por antigos jovens colegas que, pontualmente haviam trabalhado comigo nessas intervenções "mendigadas" aos promotores...), representou para mim uma agradável surpresa e a prova de que estamos de facto num paradigma novo, a multidão de gente, de todas as idades (mas sobretudo jovens) que acorreram ao São Jorge para assistir a um "simples", ainda que muito interessante, documentário histórico. 




Um aspecto da Sala Manuel d'Oliveira do Cinema São Jorge, pouco antes da projecção do documentário (Fundeadouro Romano em Olisipo)

O promotor e realizador do documentário, Raul Losada e um representante do CAL (Centro de Arqueologia de Lisboa) da Câmara Municipal, dirigindo-se aos assistentes



terça-feira, 12 de janeiro de 2016


Mário Dionísio, Denis Cintra e outras lembranças dos meus "anos 60"


As memórias são mesmo assim, como as “cerejas”. Umas arrastam outras e assim, sucessivamente, num movimento quase perpétuo...

Vêm tais lugares comuns, a propósito da leitura de recente entrevista do Jornal de Letras ao actor Luis Miguel Cintra (1949), por ocasião do seu anunciado abandono dos palcos - que não do teatro- por razões de saúde. Referindo-se às origens da sua vocação artística, evocou o importante papel do seu professor do Liceu, Mário Dionísio (1916-1993) na decisão de seguir para Letras, isto algures em meados dos anos 60. O cruzamento de “Cintra” com “Dionísio”, fez-me“regressar” aos meus anos 60, mais concretamente a Junho (?) de 1968, quando como aluno externo, fiz exames do 5º ano, no Liceu Camões. Era nessa altura aluno do Seminário de Almada e ao contrário do que seria de esperar, o Estado não reconhecia os exames feitos no âmbito eclesiástico (Salazar e Cerejeira eram unha com carne, mas "amigos, amigos... negócios à parte"), pelo que a única maneira dos ex-seminaristas poderem eventualmente continuar estudos ou arranjar emprego compatível com a respectiva escolaridade, passava pela realização de exames no Liceu, como alunos externos. Como na altura em Almada, zona proletária, Liceu era coisa que não existia (estava disponível para os remediados a Escola “Técnica” Emídio Navarro”) acabei por fazer os exames liceais, como aluno externo, sempre em Lisboa, nomeadamente os do 5º Ano ou 2º ciclo, no Liceu Camões. Recordo bem o facto, pelo que tinha de extraordinário na vida meio reclusa do seminário (pese embora a “abertura” da época e que já aqui evoquei por outros motivos  ver aqui  ) naquele caso concreto, animada então por uma coisa rara mas também sinal dos tempos…Uma greve dos revisores da CARRIS, que nos permitia viajar de eléctrico “à borla” entre a Praça do Comércio e o Largo José Fontana. Os exames escritos realizados no vetusto Ginásio do Liceu acabaram por não me correr mal, embora com resultados algo contraditórios. Apesar de não ser muito dado a “ciências”, as notas obtidas, provavelmente com a ajuda da Geografia e das Ciências Naturais, foram suficientes para me livrar das “orais”. Já o meu velho handicap com as línguas vivas, de que resultara uma negativa a “Inglês”, me obrigou a ir às provas orais, apesar das boas notas a Português e História. No dia aprazado lá estava no Liceu Camões, de gravata como mandava a praxe, para defender as notas da escrita que eram suficientes para a passagem de ano, mesmo que continuasse com a negativa de Inglês (era possível passar “cortado” a uma única disciplina numa das secções). Já não recordo patavina das provas de Português e História, mas retenho detalhes incríveis das de Francês e Inglês. No caso da prova de francês, o professor, figura austera de cachimbo na mão e óculos de massa, começou por indagar as origens do examinando “externo” e quando soube que este era “seminarista (= padreca)”, mostrou no seu olhar (pelo menos assim o retive, tal era o pânico) o “brilho” do caçador que acabara de descobrir a “presa”. “Ah sim? Então tem aí no seu compêndio (recordo até o título do livro e do texto…), “Regardons vers le pays de France”, uma lição que lhe assenta que nem uma luva, “Les processions dans le Midi ”… Como é fácil de imaginar, com tais preliminares, a prova foi um desastre, arrastando a nota da escrita para uma irremediável negativa. Valeu-me a passagem de ano, a caridade (provavelmente) cristã da professora de Inglês, que com toda a boa vontade me facilitou a recuperação da negativa que trazia da prova escrita. 
Mário Dionísio

O manual do meu exame de Francês




Menos de uma década depois de experiência pedagógica tão traumática tive ocasião de recordar estes factos enquanto professor estagiário (1975/76)  no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho (no ano em que a venerável escola feminina abriu as suas portas aos primeiros alunos e professores masculinos) à então minha orientadora Maria Emília Diniz. Esta extraordinária professora de História, uma agradável surpresa em termos científicos, pedagógicos e humanos (e de quem tive notícias há pouco tempo) que só não estava na Faculdade de Letras pela “pequenez social e política” do fascismo, pela descrição não teve qualquer dúvida em identificar o “caçador”. Eu tinha sido “presa” do Mário Dionísio, professor no Liceu Camões nos anos 60, também ele então afastado da Universidade por razões políticas e nome que, obviamente já me dizia alguma coisa em 75 (ainda que sobretudo por ser pai da Eduarda Dionísio, uma activista cultural e política muito mediática nos anos do PREC) e cujo nome viria a reencontrar mais tarde amiúde na leitura da biografia de Álvaro Cunhal, do Pacheco Pereira, a propósito da polémica entre ambos sobre o “neo-realismo” e o papel das artes na política e na sociedade. 

Como é que tudo isto se cruza com o actor Luis Miguel Cintra, figura que apenas vi ao vivo nas raras vezes que frequentei a Cornucópia nos anos 80, como simples espectador?

Voltemos de novo aos anos 60 e ao Seminário de Almada, julgo até que ao mesmo ano de 68 (ou talvez 67?), mas agora centrado numas inesquecívies férias na Arrábida, mais concretamente no Conventinho da Serra, numa altura em que este ainda estava na posse da Casa de Palmela (desde 1990 é propriedade da Fundação Oriente). Graças às boas relações entre o clero e a nobreza, o Seminário de Almada gozava do raro previlégio de poder organizar campos de férias para os alunos nas instalações do Convento, na altura relativamente em bom estado mas extremamente frugais, tipo “monumentos nacionais” (de tal modo que era preciso levar quase tudo, incluindo as camas e as louças…). Em todo o caso, por vários motivos, tratou-se de uma experiência extraordinária, ainda por cima valorizada pelas memórias  vivas do guarda António, companheiro das longas estadias no local do malogrado Poeta da “Serra Mãe”, Sebastião da Gama (1924-52) ou pelas recambolescas peripécias, em “inglês”, das velhíssimas manas Perestrelo, professoras aposentadas do Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, (o tal onde eu entraria alguns anos depois), que passavam também férias no Convento, por serem ainda parentes dos Duques de Palmela…

A obra de Sebastião da Gama inspirada pelas suas estadias no Conventinho da Arrábida

Mas a grande aventura, passava pela descida diária por veredas que rasgavam o denso maquis mediterrânico, todas as manhãs, serra abaixo em direção às límpidas águas do oceano. Por razões de maior proximidade, frequentávamos a chamada Praia dos Pilotos da Barra, uma estreita língua de areia apenas acessível nas marés baixas e a que se descia por íngreme escada de madeira. Mais por essas características do que por outras razões, era praticamente uma praia particular, muito pouco frequentada. Naquele Verão apenas uma família nos fazia companhia e, graças à presença de uma viola e à proximidade dos interesses musicais (as inconvenientes e omnipresentes baladas do Zeca e do Adriano), rapidamente se estabeleceram cumplicidades inesperadas. Soubemos então, embora na altura isso pouco nos dissesse, que o pai de família era o professor Luis Lindley Cintra (1925-91, que viria a reencontrar como aluno na Faculdade de Letras e a quem já me referi neste Blog ver aqui a propósito da sua proximidade com os estudantes) e o filho que alinhava connosco nas cantorias e violadas, o Denis Cintra de que pouco tempo depois ouviríamos falar, graças à sua passagem no programa ZIP-ZIP da RTP (que tantos talentos revelou) e à edição de alguns discos.

Ao contrário do irmão Luis Miguel, que se tornaria uma figura central no panorama artístico nacional, nunca mais tive notícias de Denis Cintra até que agoa, movido pela curiosidade, encontrei uma pequena (mas triste) nota biográfica na Internet, retirada da obra de Eduardo M. Raposo “Canto de Intervenção” ( mariu.no.sapo.pt/DenisCintraBiografia.html) e algumas suas canções no YOUTUB:  https://www.youtube.com/watch?v=rgIs3foSrnk)

Denis Cintra

Como tantos da minha geração, Denis Cintra precocemente desaparecido (1951-1990), após editar três discos quase de rajada em 1971, acabou por exilar-se em Inglaterra em 1972. Como tantos da minha geração, por razões económicas ou políticas, o espectro da guerra colonial, acabou por afastá-lo da sua terra e das suas gentes, cortando cerce uma carreira que se perspectivava brilhante.

O Professor Luis Lindley Cintra

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

JEANNETTE NOLEN
(1930-2016)

No desaparecimento de uma excelente pessoa e de uma grande arqueóloga que tive o prazer de conhecer e em jeito de simples homenagem, recordo através de imagens alguns momentos da inesquecível viagem à Síria do Grupo de Amigos do Museu Nacional de Arqueologia (GAMNA) grupo de que foi Presidente e que muito lhe deve, como o Luis Raposo emotivamente recorda na sua sentida nota, que também aqui divulgo (tal como a de José d'Encarnação) com a devida vénia.

Junto à Grande Mesquita de Damasco, no início da viagem de 2004 à Síria, com Ana e Luis Raposo, entre outros.

Ao centro da foto, nas ruínas de Apameia (Viagem à Síria do GAMNA, 2004)

Em Bosra, a grande cidade romana do Sul da Síria (Viagem GAMNA de 2004)



O testemunho de José d'Encarnação (ARCHPORT):


JEANNETTE ULRICA SMIT NOLEN

            Faleceu esta manhã, dia 6 de Janeiro, em S. Pedro do Estoril, na casa de repouso onde se encontrava, a Dra. Jeannette U. Smit-Nolen.
            Holandesa de nascimento, esteve muitos anos nos Estados Unidos, mas foi em Portugal, nomeadamente na sua casa em Janes (Cascais), que viveu a maior parte do seu tempo Era viúva de William Nolen, que foi leitor de Inglês na Faculdade de Letras de Lisboa.
            O seu nome está intrinsecamente ligado à Arqueologia portuguesa, porque integrou a equipa de escavações luso-francesas de Conímbriga; os trabalhos na necrópole romana de Santo André (Montargil) e as campanhas de escavação na villa romana de S. Cucufate. Foi membro-fundador do Grupo de Amigos do Museu Naciopnal de Arqueologia, de que chegou a ser presidente e foi membro-fundador também da Associação Cultural de Cascais, em que integrou os corpos sociais, durante vários mandatos.
            Foi de sua preferência o estudo dos vidros romanos, de que nos deixou vários artigos e recordo que tinha em estado bastante avançado o inventário dos vidros de Tongobriga (Freixo, Marco de Canaveses), cujo dossiê entregou a partir do momento em que verificou não se sentir já com forças para o levar a cabo.
            Dos estudos a que o seu nome particularmente ligado são de mencionar, entre outros: Cerâmicas e Vidros de Torre de Ares – Balsa, Lisboa, 1994; os estudos sobre o recheio do Museu de Vila Viçosa (a que mui devotadamente se dedicou durante vários anos); Cerâmica Comum de Necrópoles do Alto Alentejo, Fundação da Casa de Bragança, Lisboa, 1985; «Acerca da cronologia da cerâmica comum das necrópoles do Alto Alentejo: novos elementos», O Arqueólogo Português, Lisboa, série IV, 13/15, 1995-1997, pp. 347-392; «A necrópole de Santo André, parte II. Os materiais», Conimbriga 20, 1981, pp. 5-180 (de colab. com Maria L. Dias); «A villaromana do Alto do Cidreira (Alcabideche – Cascais) – Os materiais», Conimbriga 27 1988 61-140.
            Que descanse em paz quem foi sempre uma trabalhadora incansável, sempre pronta a colaborar, duma natural afabilidade.
                                                                                                                                                                                                        José d’Encarnação

e o de Luis Raposo:

É com profundíssima consternação que tomo conhecimennto do falecimento da Dra. Jeannette Nolen.
Na exigência para consigo própria e para com os outros, no  horror ao exibicionismo, no permamente combate às vaidades mundanas, mas também no seu afecto, amizade e solidariedade, ela foi e é certamente a pessoa que, no plano dos meus relacionamentos profssionais e em quasse meio século, mais me habituei a admirar, no íntimo de mim mesmo.
Foi grande, enorme amiga do MNA (e presidente do GAMNA), que muitíssimo lhe deve, parte do qual permanecerá porventura por revelar para sempre, por expressa vontade dela, que respeitarei.
Foi também uma imensa amiga pessoal e dos que me são mais próximos. Uma amiga daquelas que não se coibia de me criticar, mesmo asperamente, quando assim entendia. Recordo por exemplo, o dia em que me admoestou por eu ter colocado fotografia minha em texto de boas-vindas, aquando a criação do sítio de Internet do MNA.
Mas uma amiga também que sempre me incentivou nos numerosos combates que fui tendo, criticando com dureza e algum desprezo os portugueses (que tanto amava), e o nosso meio profissional em particular, por ser demasiado subserviente, sempre à espera de migalhas do poder, de todos os poderes. Recordo como em certo momento mais crítico se prontificou a suportar os custos de contenda judicial em que eu poderia ficar envolvido por demanda de determinado secretário de Estado (o que não chegou a ser necessário).
Na sua rigidez de costumes, na sua exigência ética, na sua postura cívica... mas também na sua doce e terna amizade, Jeannette Nolen constitui em mim o protótipo de pessoa livre, que dá gosto conhecermos e nos inspira. Pudéssemos dispor de muitas jeannettes nolens e teríamos certamente um País diferente. Sendo mais livres, seríamos muito mais felizes.
Luís Raposo


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

As Antas de Belas e o Quinto Império

Anta da Pedra dos Mouros com a sua característica laje tombada, onde as raparigas casadoiras, segundo tradição citada por O.Veiga Ferreira, escorregavam para propiciar a sua fertilidade. (foto pessoal dos anos 70)

No contexto do património pré-histórico da região da grande Lisboa, o conjunto de três monumentos megalíticos conhecido como “Antas de Belas” (Anta do Monte Abraão, Anta da Pedra dos Mouros e Anta da Esttria), é talvez um dos mais referidos desde que esta temática ganhou foros de ciência em Portugal, desde logo porque foram objecto de precoce investigação por Carlos Ribeiro, um dos fundadores da Comissão geológica do Reino e “pai” da Arqueologia Pré-histórica nacional. Pessoalmente e embora já tivesse notícias desde a adolescência de alguns destes monumentos (residia na Amadora e as vizinhas “Grutas de Carenque” ou do "Tojal de Vila Chã", escavadas por Heleno nos anos 30 do Século XX, eram então muito faladas pelas piores razões já que constava que eram o local habitual da prostituição de terceira categoria…) só os viria a visitar já como estudante de História, normalmente no âmbito de “excursões” organizadas pelos colegas mais interessados nos temas arqueológicos e que incluíam ainda outros sítios clássicos, como a Gruta da Ponte da Lage ou o Castro de Liceia... 


A Anta do Monte Abraão (foto pessoal dos anos 70)

Antra ou Galeria Coberta da Estria (imagem da Internet). Em 2º plano viaduto da CREL.

As três antas de Belas, cartografadas no site "Portugal Megalítico". Qualquer dos monumentos é bem visível no Google Earth, embora a foto desta zona seja de 2007, anterior à construção do Nó A16-A9.

Mais tarde, profissionalmente, o conjunto de Belas, haveria de cruzar-se comigo por diferentes motivos. Integraram de forma destacada o nº1 dos Roteiros da Arqueologia Portuguesa, (ver a este propósito) figurando a Anta do Monte Abraão na respectiva capa. Foram posteriormente objecto de um programa de valorização e sinalização promovido pelo Departamento de Arqueologia do IPPC na época em que o dirigi, programa concretizado no terreno pela Teresa Marques e pelo Fernando Lourenço. Mais tarde este conjunto megalítico acabaria por ser quase “engolido” pela construção da CREL que alterou por completo a paisagem envolvente, apesar de esta já estar muito transformada pelas pedreiras e pelas urbanizações dos anos 60. A Anta da Estria, acabou por ficar mesmo integrada na área ajardinada da área de serviço Sul da CREL (A9) construída nos anos 90 e até a Anta do Monte Abraão esteve ameaçada pela construção do nó de ligação da A9 à A16. Recordo a propósito uma complexa reunião que dirigi em finais de 2007 (estava então fugazmente na direcção do Departamento de Salvaguarda do IGESPAR), envolvendo as Estradas de Portugal e a empresa concessionária, nas instalações do antigo IPA (hoje demolidas e substituídas pelo Museu dos Coches), onde se estabeleceram as condições para que a obra pudesse avançar.

Mas o facto que melhor recordo, até pela sua excentricidade, reporta-se  a  finais de 1980 (?), quando a Presidente do IPPC, Dra Natália Guedes, licenciada em História e portanto obrigatoriamente conhecedora das “Antas de Belas”, se viu confrontada com um convite formal para uma cerimónia numa Quinta de Belas, promovida por uma figura conhecida, Rainer Daenhardt, e envolvendo algumas entidades oficiais (o Regimento de Infantaria de Queluz, por exemplo) e na qual estava prevista a “inauguração de um dolmen”. Temendo que pudesse ter passado pela cabeça de alguém o desmantelamento e a reconstituição de uma anta local, fui directamente incumbido, como arqueólogo do IPPC, de averiguar o que se passava. Não conhecia pessoalmente Rainer Daenhardt, colecionador de armas antigas, de ascendência alemã e residente numa quinta de família em Belas mas estava a par do contencioso que este mantinha com o Estado Português, a propósito de uma colecção de armas antigas depositada no Museu Militar, até porque, através do Museu Nacional de Arqueologia eu e outros colegas, tínhamos sido chamados a pronunciar-mo-nos sobre a autenticidade de diversos artefactos arqueológicos integrantes da mesma colecção. Dado o referido envolvimento do Regimento de Infantaria nº1 de Queluz (onde eu prestara serviço militar poucos anos antes) solicitei a colaboração do meu colega Fernando Lourenço (militar profissional mas destacado no serviço de inventário do Departamento de Arqueologia) e iniciámos as averiguações pelo quartel (localizado nas instalações anexas ao palácio de Queluz). Confirmámos de facto a participação logística de um pelotão e de uma viatura militar no transporte de um conjunto de grandes lajes provenientes de uma pedreira próxima. Com algum embaraço, o oficial contactado justificou o envolvimento dos meios militares numa acção privada, como “contrapartida” pela "generosa oferta" ao Regimento de um estojo que “supostamente”, continha as armas do seu próprio fundador, o célebre Conde de Lipe. Apesar de aliviados quanto aos impactos arqueológicos do acto, rumámos depois até à quinta  de Belas, onde Daenhardt nos aguardava conforme acordado telefonicamente. Esclarecida a proveniência das “lajes”, podemos observar, num terreiro fronteiro à casa, uma tosca e atarracada “anta de corredor”, atamancada como se de um pedestal se tratasse, até porque sobre a “pedra da mesa”, estava assente uma desproporcionada estátua de javali… Com o máximo de seriedade a que as circunstancias nos obrigavam ouvimos as explicações de Daenhardt.  Exotérico assumido e confesso (ramo dos “Rosa Cruzes”, segundo referiu e nome que nada me dizia), a inauguração da "anta e do javali de bronze", fariam parte de um cerimonial a ter lugar no solstício (?) que se avizinhava e que celebraria os valores e as tradições antigas da Lusitânia, as glórias e desgraças sebastianistas, a decadência de Portugal começada em Alcácer Quibir e finalmente a regeneração, qual "Quinto Império", que se anunciava no horizonte (lembro que na altura toda aquela narrativa se parecia articular directamente nas recentes vitórias eleitorais da AD do pós-PREC, mas poderia ter sido apenas impressão minha…). Acompanhando o discurso, surgia sempre misturada a veia “antiquária” do interlocutor que não hesitou em nos mostrar algumas das suas “preciosidades”, sobretudo no campo da “armaria antiga”, incluindo o “mosquete” (espólio “comprovado” da Batalha de Alcácer Quibir que ele adquirira junto de um sheiqh árabe…) que iria ser disparado na inauguração da “anta”. Quanto ao “javali”, segundo a sua versão, era a cópia de uma antiga peça celta, referenciada por Leite de Vasconcelos na vizinha Serra da Lua, que se perdera mas que Reinardt viria a redescobrir numa coleção americana(?)… Na falta do original encomendara uma cópia em bronze, feita a partir de fotografia.
Javali da Ponta de Sagres, publicado por Estácio da Veiga e que Leite de Vasconcelos também reproduz no 2º volume das Religiões da Lusitânia e que nada tem que ver com o "javali"de Belas. Este, segundo Reinardt, proveniente de Sintra ter-se-ia perdido. Não consegui, no entanto, encontrar qualquer referencia em Leite de Vasconcelos, mas isso não significa que não exista.


Ainda hoje desconheço se a Dra Natália Correia Guedes, a quem reportei oralmente as minhas indagações, esteve presente na dita cerimónia, mas recordo que a mesma apareceu pouco tempo depois relatada com destaque e direito a fotos, no “Correio da Manhã”. Nunca mais me lembrei do assunto até que recentemente deparei com algumas fotos na INTERNET que, aparentemente, registam os estranhos factos a que acabo de me referir.


Fotos obtidas na INTERNET e que remetem directamente para factos (pelo menos similares) aos referidos no texto. e onde se vê a "anta construída" pelos militares de Queluz e o "javali de bronze" encomendado por Reinardt.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A velha escola do Bairro de Janeiro 

Vista geral da Escola Preparatória Francisco Manuel de Melo (1974/75)- Com a estrutura do pavilhão gimno-desportivo por acabar, por falência do empreiteiro. Concluído muitos anos depois e hoje ao serviço do desporto municipal, é o que resta da velha escola que entretanto se mudou para novas instalações, julgo que em meados dos anos 80.







Por princípio 2016 será o meu último ano "completo" como funcionário público. Com efeito, no próximo dia 14 de Janeiro passam 42 anos sobre o dia em que, por substituição de uma professora chamada para outras funções, iniciei a minha actividade como professor provisório de História na Escola Preparatória Francisco Manuel de Melo da Amadora. Tinha concluído o Bacharelato na Faculdade de Letras em 1973 e desde Outubro desse mesmo ano dava já aulas no curso nocturno experimental iniciado então no Liceu da Amadora. No entanto, formalmente, a minha contagem de serviço inicia-se apenas no início de 74, com a entrada para aquela Escola Preparatória no Bairro de Janeiro, inicialmente apenas uma secção da Escola Roque Gameiro (Reboleira) mas que na altura, apesar da óbvia falta de condições, se autonomizara. Aparentemente, esta minha experiência pedagógico-didática que duraria até Outubro de 1980 (altura em que o Francisco Alves me requisitou com outros colegas da minha geração, para o Museu Nacional de Arqueologia) parece pouco ter a ver com a minha posterior carreira profissional no âmbito da arqueologia e do património, mas de facto representou um período de grande riqueza na minha formação humana, marcando de forma indelével toda a minha posterior vivência. A par das aulas, que vão coincidir com um período de grande transformação política e social (o 25 de Abril aconteceria apenas 4 meses depois), concluí a Licenciatura (1975) e mantive com os colegas da GEPP (Grupo de Estudos do Paleolíticio Português) intensa actividade de campo (nos períodos de férias escolares), em particular na região do Ródão onde se dão então as grandes campanhas arqueológicas de Vilas Ruivas (escavação e moldagem de um dos mais antigos solos de habitat da Europa), do Monte do Famaco e da Foz do Enxarrique. Casei entretanto e tive a minha filha Raquel (1976). Concluí o estágio pedagógico no conservador Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho (1975/76), sob a orientação da Prof. Maria Emília Diniz (excelente historiadora e professora); fiz um ano e meio de tropa (ver aqui) entre 77 e 78, mantendo-me como professor no Liceu da Amadora (curso nocturno), acumulando trabalho mas não vencimentos (eram outros tempos...). E, naturalmente, envolvendo tudo isto, numa tradição que vinha já antes do 25 de Abril, não deixei de te,r como quase toda a gente então, uma normalíssima actividade política, quer a nível local (fui candidato à Assembleia de Freguesia da Amadora, então a maior freguesia do país que passaria pouco tempo depois a Município), quer a nível sindical, onde com o Luis Raposo, integrei a certa altura uma lista candidata á direcção do Sindicato dos Professores mas que (felizmente) foi derrotada nas urnas...

A entrada para as aulas na Francisco Manuel de Melo. Normalmente muito atribulada em tempo de chuva...

Detalhe da Escola Francisco Manuel de Melo. A "vedação" era na altura um melhoramento recente para evitar as habituais interferencias do exterior ao "normal" funcionamento das aulas.
Da curta experiência na Francisco Manuel de Melo (74 a 76), de que guardo naturalmente boas ainda que já difusas memórias, restam-me algumas fotos que encontrei no baú das velharias e que, com a passagem de tantos anos, parecerão hoje aos mais jovens, como fotos de um qualquer país do terceiro mundo, mas que eram a realidade dos subúrbios de Lisboa em plena explosão demográfica por contraponto à desertificação rural então em plena aceleração. Recordo em especial, apesar das péssimas condições de trabalho, o entusiasmo com que naqueles barracões, professores, empregados e os próprios alunos apesar da tenra idade (10 a 13 anos), vivemos as emoções da "revolução". Aqui as deixo, com alguns comentários a propósito das recordações que evocam, apesar de como é natural, me faltarem já os mais elementares dados concretos sobre as mesmas. Pode ser, no entanto, que despertem outras memórias a quem as visionar.


Uma aula de "educação física" na Francisco Manuel de Melo



A professora de educação visual, orienta uma experiencia prática de "grafiti", ao espírito da época e certamente posterior a Abril de 74




Quando surgiam as novas práticas pedagógicas,  fruto da época, como os "trabalhos de grupo"....


E havia até espaço para exposições... (A Cultura é a Liberdade do Povo)

E tempo para visitas de estudo (aqui julgo que ao "Mercado do Povo", um espaço ocupado no pós 25 de Abril por artistas e artesãos de rua junto ao velho Museu de Arte Popular, em Belém).
Adicionar legenda

Ou mesmo festas organizadas pelos alunos (sim, de 10 a 13 anos...) com peças de teatro escritas e ensaiadas por eles próprios, como esta aqui a que chamaram os "Meninos do Chile" e que evocava os trágicos acontecimentos de 73 naquele país e que, naturalmente encontraram especial eco e solidariedade na sociedade portuguesa do pós 25 Abril de 74.

Não recordo já os detalhes da peça de teatro...mas graças a esta foto, recordo que ela termina com os "meninos do Chile" a oferecerem cravos de Abril à assistência...

Outro aspecto da festa em causa (leitura de poesia?), que dada a falta de condições da escola, foi organizada no Salão Paroquial da Igreja da Amadora



A minha mudança para a Arqueologia, acontecida logo em 1980, fez-me perder quase todos os laços com os meus colegas professores. Restam memórias difusas e algumas imagens. Num almoço de convívio dos professores da Francisco Manuel de Melo (entre 74 e 75) reconheço à direita em primeiro plano o "Professor Neves", professor de educação física, dirigente da Académica da Amadora e primeiro Presidente do Conselho Directivo da Escola na sequencia do 25 de Abril.  A colega directora foi "rápida e democraticamente afastada", regressando à sua escola de origem e elegemos entre todos o primeiro Conselho Directivo, ao qual pertenci até sair para Estágio em Outubro de 75. Foi a minha primeira experiência de "gestão" a que se seguiria a partir de 82, a Direcção do Departamento de Arqueologia do IPPC.

Outra imagem do mesmo convívio de professores. Reconheço as caras mas já não consigo associar-lhes nomes.




Uma imagem que pouco já tem a ver com as anteriores, embora provenha do mesmo "baú" pessoal. O Liceu da Amadora (onde também dei aulas) no dia 25 de Abri de 1975, por ocasião das primeiras eleições democráticas, neste caso para a Assembleia Constituinte.  A vontade de participar era tal que desde cedo se formaram longas filas de eleitores.






terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Sombras antigas na arqueologia portuguesa

Muito recentemente e a propósito da indigitação para o Conselho de Estado dos novos representantes dos partidos com assento parlamentar, deparei numa entrevista dada ao jornal IONLINE por Domingos Abrantes, histórico dirigente do PCP do tempo da clandestinidade, mais conhecido pela rocambolesca fuga de Caxias no carro blindado de Salazar, (http://www.ionline.pt/316582) com uma referencia a factos relacionados com o agente da PIDE, Farinha dos Santos, identificado pelo entrevistado como “antigo director do Museu do Carmo”. Apesar de imprecisões e confusões de datas na narrativa, Abrantes só pode estar a referir-se ao arqueólogo Manuel Farinha dos Santos que, como todos os arqueólogos da minha geração sabem, foi agente da polícia política pelo menos até final dos anos 50, tendo mantido ligações com aquela instituição até ao 25 de Abril, como professor (de História?) da respectiva “escola”, localizada em Sete-Rios, em instalações hoje já demolidas.

Naturalmente, hesitei um pouco em chamar este assunto para este “blog”, não só para evitar eventuais e compreensíveis melindres de terceiros (familiares ou discípulos próximos) mas também porque, tendo conhecido a pessoa em causa e trabalhado num sítio a que o seu nome está associado (Gruta do Escoural) isso me poderia limitar o direito de o fazer, pelo menos do ponto de vista ético. Apesar das dúvidas acabei por considerar que afinal o “assunto” existe (aí está a entrevista recente a comprová-lo, não valendo a pena esconde-lo debaixo do tapete)  e que apesar de marginal e certamente muito sombrio, a sua clarificação sem complexos (de direita ou de esquerda) e sem segundas intenções justicialistas, pode ter interesse para as memórias da arqueologia portuguesa das últimas décadas do Século XX.

Conheci pessoalmente o arqueólogo Manuel Farinha dos Santos (1921-2001) a partir do início dos anos 80, dadas as minhas funções no então IPPC. No âmbito da preparação de uma nova publicação sobre um sítio que o mesmo estudou (Gruta do Escoural) e a cuja descoberta em 1963 ficará para sempre associado, debrucei-me recentemente sobre a sua obra e o seu percurso arqueológico o que me permitiu destacar o seu papel fundamental, ainda que sob orientação do Prof. Manuel Heleno, para o salvamento daquela Gruta então directamente ameaçada pela laboração de uma pedreira. No entanto, deu para perceber da leitura da documentação e da recolha de alguns testemunhos locais, que a “autoridade” que lhe advinha da sua anterior “experiência profissional”, terá sido um factor determinante na sua decisiva intervenção no caso do Escoural, numa operação decidida e concretizada com rapidez, rigor e total eficácia. (“Escoural, uma gruta pré-histórica no Alentejo”, António C. Silva, Évora, 2011) Mas, à parte essa mera conjetura, nada do seu passado pré-arqueológico me pareceu relevante evocar nos textos que dediquei às descobertas do Escoural. Da mesma forma, também se compreende e aceita que o meu colega João Luis Cardoso, sucessor de Farinha dos Santos na cadeira da Academia Portuguesa de História e seu testamenteiro arqueológico, tenha evitado abordar aquela sua faceta nos textos biográficos que lhe dedicou após a sua morte. Mas se compreendemos e aceitamos a omissão, já pode ser mais difícil admitir algum enviesamento factual que parece subjacente à alusão, não explicada, à injustiça “nunca totalmente ressarcida de todos os desgostos sofridos” resultantes do seu afastamento de um cargo público em 1974… (Cardoso, 2001,” In Memoriam”, O Arqueólogo Português, S.IV vol. 19). Com efeito e como também é público, Farinha dos Santos, foi preso na sequencia do 25 de Abril, muito possivelmente por estar ainda ligado à DGS como professor e eventualmente indiciado por alguns factos relacionados com a sua antiga actuação como inspector da PIDE. Mas ao contrário de muitos outros agentes, uns porque simplesmente acabaram por não ser detidos, outros porque fugiram na primeira oportunidade, Farinha dos Santos permaneceu em custódia durante cerca de dois anos, tendo sido um dos últimos presos relacionados com os processos da PIDE a ser libertado (a comunicação social da época chegou a noticiar a apresentação de um pedido de Habeas Corpus relacionado com a sua situação).

Mantive alguns contactos com Farinha dos Santos, alguns anos depois quando assumi responsabilidades de gestão da actividade arqueológica no Departamento de Arqueologia do IPPC e este arqueólogo, na sequencia da retoma de trabalhos de campo na Gruta do Escoural (1977) com Jorge Pinho Monteiro e Mário Varela Gomes, (meus companheiros do estudo da arte rupestre do Vale do Tejo) ali se dirigia nos anos 80 para tratar do das autorizações para a escavação do vizinho povoado calcolítico. Recordo um homem algo abatido pelas sequelas da vida mas aparentemente pacificado com o seu passado, falando abertamente da sua readmissão na função pública por decisão de Vitor Alves e do Conselho da Revolução e do generoso apoio que estava a ter por parte da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo (“comunista”, como ele então não deixou de frisar) para as escavações do Escoural.

Não fora, pois, a entrevista de Domingos Abrantes e o tema não me ocorreria. Ainda assim, convirá, com os poucos elementos que disponho, corrigir e contextualizar os eventos narrados pelo agora conselheiro de Estado. À data dos mesmos, Setembro de 1959, Farinha dos Santos, estava a terminar a sua licenciatura em História na Faculdade de Letras certamente como aluno “voluntário” (actual estatuto do “estudante-trabalhador”). Sabemos que atraíra a atenção do Prof. Manuel Heleno que o convidou no final desse mesmo ano para seu 2º Assistente na cadeira de Arqueologia. Apesar de ter regido durante alguns anos várias cadeiras em Letras, Farinha dos Santos acabaria por optar por carreira diferente e frequentar o curso de conservador de museus que lhe daria acesso à direção do Panteão Nacional em 1968. Não encontro referencias à data em que terá terminado a sua carreira como “agente ou inspector” da PIDE. Entre 1954 e 1956, segundo João Luis Cardoso, encontra-se na Índia Portuguesa ao serviço do Ministério do Ultramar, mas nada é nos é dito sobre as funções aí efectivamente exercidas. De qualquer modo a referencia de Abrantes às funções como Director do Museu do Carmo é incongruente. Farinha dos Santos só entrou para a Associação dos Arqueólogos Portugueses em 1967, algum tempo depois da aposentação de Manuel Heleno (que não suportava nem a Associação nem o seu Presidente, Afonso do Paço) e apenas viria a ser responsável do respectivo Museu (do Carmo) em 1971, mais de uma década depois destes factos. Ainda assim, pese embora a dúvida razoável quanto ao efectivo envolvimento de Farinha dos Santos nos eventos narrados por Domingos Abrantes, existe alguma plausibilidade nos mesmos, até pelos traços de personalidade subjacentes à descrição. Como recorda Abrantes, perante a provocação que fizera a outro agente sobre os recentes feitos espaciais soviéticos “o Farinha teve uma tirada à intelectual e disse: não foram os russos nem os americanos, foi a humanidade. E o outro pide (ficou) com um olhar esbugalhado e eu safei-me de levar umas trancadas.”

Para além deste testemunho, é também muito conhecida, dada a autoridade política do envolvido, uma referência directa de Mário Soares à actividade de Farinha dos Santos na polícia política e registada na edição francesa do “Portugal Amordaçado” (“Le Portugal bâillonné- un témoignage, Paris, 1972). Esta referencia é retomada em obra posterior de Soares que não conheço mas que encontrei citada na Internet: (ver aqui) 
Passo a citar: “Referindo-se em Um Político Assume-se (Círculo de Leitores/Temas e Debates, 2011) a um período de prisão sofrido em 1949, Mário Soares escreve: “Numa fria madrugada fui interrogado na sede da PIDE por um tal Farinha Santos, meu antigo colega na Faculdade de Letras, que era então agente qualificado da polícia política. Brincando com uma pistola enquanto me interrogava, disse-me: “Se disparar e o matar, nada me acontecerá. Todos dirão que disparei em legítima defesa.” (…)” (p. 54).”   
Aliás, pesquisando esta mesma temática na INTERNET, acabei por deparar com um outro “post” num blog  abrantino com um título curioso (“A PIDE e a Arqueologia”) mas que pouco mais adianta ao que já conhecíamos (http://porabrantes.blogs.sapo.pt/a-pide-e-a-arqueologia-2254616).


Reafirmando que não me move qualquer inapropriada intenção de avaliação ética da pessoa em causa, até porque não está entre nós há mais de uma década, e muito menos qualquer descabido espírito justiceiro para factos há muito prescritos, não posso deixar de compartilhar mais uma nota memorialista que outros colegas da minha geração recordarão, eventualmente com mais detalhe. Em 1972 (?) no decorrer de uma das habituais e brutais “invasões” da polícia de choque à Cidade Universitária, o nosso colega João Ludgero, já então e apesar da juventude, um activo arqueólogo “especialista no Calcolítico” (por oposição aos colegas Paleolíticos...) ficou encurralado no Bar de Letras, tendo acabado ferido com alguma gravidade. Socorrido e trazido em braços para fora da Faculdade por Lindley Cintra, um dos poucos professores que se colocavam ao lado dos alunos, acabou preso pela polícia que cercava a Faculdade. Ter-se-á entretanto formado uma teia de cumplicidades arqueológicas, que terminou com a rápida libertação do João Ludgero, segundo consta, graças à intervenção pessoal de Farinha dos Santos, então Presidente da Secção de Pré-história da Associação dos Arqueólogos Portugueses.

ADENDA (19 de Abril de 2017)




Graças a Gonçalo Pereira, acrescenta-se a este post um LINK directo para o Arquivo Mário Soares ("Casa Comum- Fundação Mário Soares), que dá acesso a um curioso documento, um panfleto dactilografado, anónimo e não datado, mas que pelo contexto se poderá situar no início dos anos 60 (talvez posterior a 1963, pois há já uma referencia à "arte das cavernas", especialidade que viria a dar nome a Farinha dos Santos após as descobertas do Escoural  de1963 e 1964). Intitulado "Um exame de Arqueologia", nele se parodia um exame ou interrogatório feito pelo "sapientíssimo Farinha, da doutíssima PIDE", como membro de um júri presidido por Manuel Heleno (o "Porca de Murça") e coadjuvado por "sua burrência", o filósofo Moreira de Sá ("que também é da PIDE mas nunca percebeu..."). Curiosamente, no interrogatório Farinha pretende confirmar que o examinando (ou preso) é "funcionário do Neolítico" e que como tal conspira contra a "Pedra Lascada e contra o Quaternário". O exame termina com Vivas ao Paleolítico e a Salazar "o nosso Troglodita-mor". Quem escreveu o panfleto era certamente aluno de História.
Uma cena envolvendo a pistola do interrogador, parece remeter para uma descrição de um interrogatório feito a Mário Soares na António Maria Cardoso e que este cita no seu livro "Portugal Amordaçado". O autor seria alguém próximo ou conhecido de Soares?

2ª ADENDA (15 de Dezembro de 2017)



Ao folhear a mais recente obra da historiadora Irene Flenser Pimentel, deparou-se-nos entre tantas outras, uma curta resenha biográfica de Manuel Farinha dos Santos que, por uma questão de princípio, aqui transcrevo. Apenas dois comentários. Primeiro, não li a obra e portanto não estou em condições de contextualizar ou avaliar este breve Curriculum Vitae que parece bater certo, no que respeita a datas, com o que já conhecíamos da passagem de MFS pela organização em causa. A crer no entanto nas funções identificadas, MFS teria tido uma carreira meramente "administrativa" o que contrasta um pouco com alguns testemunhos acima citados, nomeadamente o de Mário Soares.

Segunda questão: o horário especial de que MFS terá beneficiado no final dos anos 50, está certamente relacionado com a frequência, enquanto aluno do curso de Histórico-filosóficas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Farinha dos Santos termina o curso em 1959 e é imediatamente convidado para Assistente pelo Professor Manuel Heleno, altura em que pede a exoneração da PIDE. No entanto, não fará grande carreira na Faculdade, como é sabido, não tendo por isso "chegado a professor catedrático" como é sugerido na ficha. Tendo frequentado o curso de "Conservador de Museus", Farinha dos Santos, após sair da prisão em 1976, seria colocado como conservador do Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia. O que parece mais estranho na ficha, é esta omitir a posterior colaboração de MFS, até ao 25 de Abril de 1974, com a escola da PIDE, localizada a Sete Rios.





SANTOS, MANUEL FARINHA DOS


Ingressou na PIDE em 1947, com o posto de chefe de brigada, depois de cumprir o serviço militar como alferes. Entre 1947 e 1948 coadjuvou os inspectores Faria Pais, Ferry Gomes e Porto Duarte, em processos de imigração clandestina e “contra a segurança do Estado”, trabalhando nos dois anos seguintes, sob as ordens do Capitão Neves Graça, subdirector da subdelegação do Porto, participando na instrução de processos de emigração clandestina e tráfico de brancas. (? sic) Entre 1950 e 1952 coadjuvou os inspectores Barbieri Cardoso e António José Rodrigues nos Serviços Administrativos, até ser promovido a subinspector, chefiando os serviços marítimos do porto de Lisboa entre 1953 e 1954, ano em que partiu em comissão para a Índia, para preparar a instalação da respectiva delegação. Considerado um dos “intelectuais” da PIDE, ficou entre 1957 e 1958 no Gabinete de Estudos, com a função de organizar o boletim mensal dessa polícia, coadjuvando José Aurélio Boim Falcão, à noite, no serviço de investigação, uma vez que estava dispensado do serviço na parte da manhã por se dedicar à arqueologia. Em 1959 pediu a exoneração da PIDE para ficar disponível para aulas na Faculdade de Letras de Lisboa, onde terá chegado a professor catedrático.