quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

As Antas de Belas e o Quinto Império

Anta da Pedra dos Mouros com a sua característica laje tombada, onde as raparigas casadoiras, segundo tradição citada por O.Veiga Ferreira, escorregavam para propiciar a sua fertilidade. (foto pessoal dos anos 70)

No contexto do património pré-histórico da região da grande Lisboa, o conjunto de três monumentos megalíticos conhecido como “Antas de Belas” (Anta do Monte Abraão, Anta da Pedra dos Mouros e Anta da Esttria), é talvez um dos mais referidos desde que esta temática ganhou foros de ciência em Portugal, desde logo porque foram objecto de precoce investigação por Carlos Ribeiro, um dos fundadores da Comissão geológica do Reino e “pai” da Arqueologia Pré-histórica nacional. Pessoalmente e embora já tivesse notícias desde a adolescência de alguns destes monumentos (residia na Amadora e as vizinhas “Grutas de Carenque” ou do "Tojal de Vila Chã", escavadas por Heleno nos anos 30 do Século XX, eram então muito faladas pelas piores razões já que constava que eram o local habitual da prostituição de terceira categoria…) só os viria a visitar já como estudante de História, normalmente no âmbito de “excursões” organizadas pelos colegas mais interessados nos temas arqueológicos e que incluíam ainda outros sítios clássicos, como a Gruta da Ponte da Lage ou o Castro de Liceia... 


A Anta do Monte Abraão (foto pessoal dos anos 70)

Antra ou Galeria Coberta da Estria (imagem da Internet). Em 2º plano viaduto da CREL.

As três antas de Belas, cartografadas no site "Portugal Megalítico". Qualquer dos monumentos é bem visível no Google Earth, embora a foto desta zona seja de 2007, anterior à construção do Nó A16-A9.

Mais tarde, profissionalmente, o conjunto de Belas, haveria de cruzar-se comigo por diferentes motivos. Integraram de forma destacada o nº1 dos Roteiros da Arqueologia Portuguesa, (ver a este propósito) figurando a Anta do Monte Abraão na respectiva capa. Foram posteriormente objecto de um programa de valorização e sinalização promovido pelo Departamento de Arqueologia do IPPC na época em que o dirigi, programa concretizado no terreno pela Teresa Marques e pelo Fernando Lourenço. Mais tarde este conjunto megalítico acabaria por ser quase “engolido” pela construção da CREL que alterou por completo a paisagem envolvente, apesar de esta já estar muito transformada pelas pedreiras e pelas urbanizações dos anos 60. A Anta da Estria, acabou por ficar mesmo integrada na área ajardinada da área de serviço Sul da CREL (A9) construída nos anos 90 e até a Anta do Monte Abraão esteve ameaçada pela construção do nó de ligação da A9 à A16. Recordo a propósito uma complexa reunião que dirigi em finais de 2007 (estava então fugazmente na direcção do Departamento de Salvaguarda do IGESPAR), envolvendo as Estradas de Portugal e a empresa concessionária, nas instalações do antigo IPA (hoje demolidas e substituídas pelo Museu dos Coches), onde se estabeleceram as condições para que a obra pudesse avançar.

Mas o facto que melhor recordo, até pela sua excentricidade, reporta-se  a  finais de 1980 (?), quando a Presidente do IPPC, Dra Natália Guedes, licenciada em História e portanto obrigatoriamente conhecedora das “Antas de Belas”, se viu confrontada com um convite formal para uma cerimónia numa Quinta de Belas, promovida por uma figura conhecida, Rainer Daenhardt, e envolvendo algumas entidades oficiais (o Regimento de Infantaria de Queluz, por exemplo) e na qual estava prevista a “inauguração de um dolmen”. Temendo que pudesse ter passado pela cabeça de alguém o desmantelamento e a reconstituição de uma anta local, fui directamente incumbido, como arqueólogo do IPPC, de averiguar o que se passava. Não conhecia pessoalmente Rainer Daenhardt, colecionador de armas antigas, de ascendência alemã e residente numa quinta de família em Belas mas estava a par do contencioso que este mantinha com o Estado Português, a propósito de uma colecção de armas antigas depositada no Museu Militar, até porque, através do Museu Nacional de Arqueologia eu e outros colegas, tínhamos sido chamados a pronunciar-mo-nos sobre a autenticidade de diversos artefactos arqueológicos integrantes da mesma colecção. Dado o referido envolvimento do Regimento de Infantaria nº1 de Queluz (onde eu prestara serviço militar poucos anos antes) solicitei a colaboração do meu colega Fernando Lourenço (militar profissional mas destacado no serviço de inventário do Departamento de Arqueologia) e iniciámos as averiguações pelo quartel (localizado nas instalações anexas ao palácio de Queluz). Confirmámos de facto a participação logística de um pelotão e de uma viatura militar no transporte de um conjunto de grandes lajes provenientes de uma pedreira próxima. Com algum embaraço, o oficial contactado justificou o envolvimento dos meios militares numa acção privada, como “contrapartida” pela "generosa oferta" ao Regimento de um estojo que “supostamente”, continha as armas do seu próprio fundador, o célebre Conde de Lipe. Apesar de aliviados quanto aos impactos arqueológicos do acto, rumámos depois até à quinta  de Belas, onde Daenhardt nos aguardava conforme acordado telefonicamente. Esclarecida a proveniência das “lajes”, podemos observar, num terreiro fronteiro à casa, uma tosca e atarracada “anta de corredor”, atamancada como se de um pedestal se tratasse, até porque sobre a “pedra da mesa”, estava assente uma desproporcionada estátua de javali… Com o máximo de seriedade a que as circunstancias nos obrigavam ouvimos as explicações de Daenhardt.  Exotérico assumido e confesso (ramo dos “Rosa Cruzes”, segundo referiu e nome que nada me dizia), a inauguração da "anta e do javali de bronze", fariam parte de um cerimonial a ter lugar no solstício (?) que se avizinhava e que celebraria os valores e as tradições antigas da Lusitânia, as glórias e desgraças sebastianistas, a decadência de Portugal começada em Alcácer Quibir e finalmente a regeneração, qual "Quinto Império", que se anunciava no horizonte (lembro que na altura toda aquela narrativa se parecia articular directamente nas recentes vitórias eleitorais da AD do pós-PREC, mas poderia ter sido apenas impressão minha…). Acompanhando o discurso, surgia sempre misturada a veia “antiquária” do interlocutor que não hesitou em nos mostrar algumas das suas “preciosidades”, sobretudo no campo da “armaria antiga”, incluindo o “mosquete” (espólio “comprovado” da Batalha de Alcácer Quibir que ele adquirira junto de um sheiqh árabe…) que iria ser disparado na inauguração da “anta”. Quanto ao “javali”, segundo a sua versão, era a cópia de uma antiga peça celta, referenciada por Leite de Vasconcelos na vizinha Serra da Lua, que se perdera mas que Reinardt viria a redescobrir numa coleção americana(?)… Na falta do original encomendara uma cópia em bronze, feita a partir de fotografia.
Javali da Ponta de Sagres, publicado por Estácio da Veiga e que Leite de Vasconcelos também reproduz no 2º volume das Religiões da Lusitânia e que nada tem que ver com o "javali"de Belas. Este, segundo Reinardt, proveniente de Sintra ter-se-ia perdido. Não consegui, no entanto, encontrar qualquer referencia em Leite de Vasconcelos, mas isso não significa que não exista.


Ainda hoje desconheço se a Dra Natália Correia Guedes, a quem reportei oralmente as minhas indagações, esteve presente na dita cerimónia, mas recordo que a mesma apareceu pouco tempo depois relatada com destaque e direito a fotos, no “Correio da Manhã”. Nunca mais me lembrei do assunto até que recentemente deparei com algumas fotos na INTERNET que, aparentemente, registam os estranhos factos a que acabo de me referir.


Fotos obtidas na INTERNET e que remetem directamente para factos (pelo menos similares) aos referidos no texto. e onde se vê a "anta construída" pelos militares de Queluz e o "javali de bronze" encomendado por Reinardt.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A velha escola do Bairro de Janeiro 

Vista geral da Escola Preparatória Francisco Manuel de Melo (1974/75)- Com a estrutura do pavilhão gimno-desportivo por acabar, por falência do empreiteiro. Concluído muitos anos depois e hoje ao serviço do desporto municipal, é o que resta da velha escola que entretanto se mudou para novas instalações, julgo que em meados dos anos 80.







Por princípio 2016 será o meu último ano "completo" como funcionário público. Com efeito, no próximo dia 14 de Janeiro passam 42 anos sobre o dia em que, por substituição de uma professora chamada para outras funções, iniciei a minha actividade como professor provisório de História na Escola Preparatória Francisco Manuel de Melo da Amadora. Tinha concluído o Bacharelato na Faculdade de Letras em 1973 e desde Outubro desse mesmo ano dava já aulas no curso nocturno experimental iniciado então no Liceu da Amadora. No entanto, formalmente, a minha contagem de serviço inicia-se apenas no início de 74, com a entrada para aquela Escola Preparatória no Bairro de Janeiro, inicialmente apenas uma secção da Escola Roque Gameiro (Reboleira) mas que na altura, apesar da óbvia falta de condições, se autonomizara. Aparentemente, esta minha experiência pedagógico-didática que duraria até Outubro de 1980 (altura em que o Francisco Alves me requisitou com outros colegas da minha geração, para o Museu Nacional de Arqueologia) parece pouco ter a ver com a minha posterior carreira profissional no âmbito da arqueologia e do património, mas de facto representou um período de grande riqueza na minha formação humana, marcando de forma indelével toda a minha posterior vivência. A par das aulas, que vão coincidir com um período de grande transformação política e social (o 25 de Abril aconteceria apenas 4 meses depois), concluí a Licenciatura (1975) e mantive com os colegas da GEPP (Grupo de Estudos do Paleolíticio Português) intensa actividade de campo (nos períodos de férias escolares), em particular na região do Ródão onde se dão então as grandes campanhas arqueológicas de Vilas Ruivas (escavação e moldagem de um dos mais antigos solos de habitat da Europa), do Monte do Famaco e da Foz do Enxarrique. Casei entretanto e tive a minha filha Raquel (1976). Concluí o estágio pedagógico no conservador Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho (1975/76), sob a orientação da Prof. Maria Emília Diniz (excelente historiadora e professora); fiz um ano e meio de tropa (ver aqui) entre 77 e 78, mantendo-me como professor no Liceu da Amadora (curso nocturno), acumulando trabalho mas não vencimentos (eram outros tempos...). E, naturalmente, envolvendo tudo isto, numa tradição que vinha já antes do 25 de Abril, não deixei de te,r como quase toda a gente então, uma normalíssima actividade política, quer a nível local (fui candidato à Assembleia de Freguesia da Amadora, então a maior freguesia do país que passaria pouco tempo depois a Município), quer a nível sindical, onde com o Luis Raposo, integrei a certa altura uma lista candidata á direcção do Sindicato dos Professores mas que (felizmente) foi derrotada nas urnas...

A entrada para as aulas na Francisco Manuel de Melo. Normalmente muito atribulada em tempo de chuva...

Detalhe da Escola Francisco Manuel de Melo. A "vedação" era na altura um melhoramento recente para evitar as habituais interferencias do exterior ao "normal" funcionamento das aulas.
Da curta experiência na Francisco Manuel de Melo (74 a 76), de que guardo naturalmente boas ainda que já difusas memórias, restam-me algumas fotos que encontrei no baú das velharias e que, com a passagem de tantos anos, parecerão hoje aos mais jovens, como fotos de um qualquer país do terceiro mundo, mas que eram a realidade dos subúrbios de Lisboa em plena explosão demográfica por contraponto à desertificação rural então em plena aceleração. Recordo em especial, apesar das péssimas condições de trabalho, o entusiasmo com que naqueles barracões, professores, empregados e os próprios alunos apesar da tenra idade (10 a 13 anos), vivemos as emoções da "revolução". Aqui as deixo, com alguns comentários a propósito das recordações que evocam, apesar de como é natural, me faltarem já os mais elementares dados concretos sobre as mesmas. Pode ser, no entanto, que despertem outras memórias a quem as visionar.


Uma aula de "educação física" na Francisco Manuel de Melo



A professora de educação visual, orienta uma experiencia prática de "grafiti", ao espírito da época e certamente posterior a Abril de 74




Quando surgiam as novas práticas pedagógicas,  fruto da época, como os "trabalhos de grupo"....


E havia até espaço para exposições... (A Cultura é a Liberdade do Povo)

E tempo para visitas de estudo (aqui julgo que ao "Mercado do Povo", um espaço ocupado no pós 25 de Abril por artistas e artesãos de rua junto ao velho Museu de Arte Popular, em Belém).
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Ou mesmo festas organizadas pelos alunos (sim, de 10 a 13 anos...) com peças de teatro escritas e ensaiadas por eles próprios, como esta aqui a que chamaram os "Meninos do Chile" e que evocava os trágicos acontecimentos de 73 naquele país e que, naturalmente encontraram especial eco e solidariedade na sociedade portuguesa do pós 25 Abril de 74.

Não recordo já os detalhes da peça de teatro...mas graças a esta foto, recordo que ela termina com os "meninos do Chile" a oferecerem cravos de Abril à assistência...

Outro aspecto da festa em causa (leitura de poesia?), que dada a falta de condições da escola, foi organizada no Salão Paroquial da Igreja da Amadora



A minha mudança para a Arqueologia, acontecida logo em 1980, fez-me perder quase todos os laços com os meus colegas professores. Restam memórias difusas e algumas imagens. Num almoço de convívio dos professores da Francisco Manuel de Melo (entre 74 e 75) reconheço à direita em primeiro plano o "Professor Neves", professor de educação física, dirigente da Académica da Amadora e primeiro Presidente do Conselho Directivo da Escola na sequencia do 25 de Abril.  A colega directora foi "rápida e democraticamente afastada", regressando à sua escola de origem e elegemos entre todos o primeiro Conselho Directivo, ao qual pertenci até sair para Estágio em Outubro de 75. Foi a minha primeira experiência de "gestão" a que se seguiria a partir de 82, a Direcção do Departamento de Arqueologia do IPPC.

Outra imagem do mesmo convívio de professores. Reconheço as caras mas já não consigo associar-lhes nomes.




Uma imagem que pouco já tem a ver com as anteriores, embora provenha do mesmo "baú" pessoal. O Liceu da Amadora (onde também dei aulas) no dia 25 de Abri de 1975, por ocasião das primeiras eleições democráticas, neste caso para a Assembleia Constituinte.  A vontade de participar era tal que desde cedo se formaram longas filas de eleitores.






terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Sombras antigas na arqueologia portuguesa

Muito recentemente e a propósito da indigitação para o Conselho de Estado dos novos representantes dos partidos com assento parlamentar, deparei numa entrevista dada ao jornal IONLINE por Domingos Abrantes, histórico dirigente do PCP do tempo da clandestinidade, mais conhecido pela rocambolesca fuga de Caxias no carro blindado de Salazar, (http://www.ionline.pt/316582) com uma referencia a factos relacionados com o agente da PIDE, Farinha dos Santos, identificado pelo entrevistado como “antigo director do Museu do Carmo”. Apesar de imprecisões e confusões de datas na narrativa, Abrantes só pode estar a referir-se ao arqueólogo Manuel Farinha dos Santos que, como todos os arqueólogos da minha geração sabem, foi agente da polícia política pelo menos até final dos anos 50, tendo mantido ligações com aquela instituição até ao 25 de Abril, como professor (de História?) da respectiva “escola”, localizada em Sete-Rios, em instalações hoje já demolidas.

Naturalmente, hesitei um pouco em chamar este assunto para este “blog”, não só para evitar eventuais e compreensíveis melindres de terceiros (familiares ou discípulos próximos) mas também porque, tendo conhecido a pessoa em causa e trabalhado num sítio a que o seu nome está associado (Gruta do Escoural) isso me poderia limitar o direito de o fazer, pelo menos do ponto de vista ético. Apesar das dúvidas acabei por considerar que afinal o “assunto” existe (aí está a entrevista recente a comprová-lo, não valendo a pena esconde-lo debaixo do tapete)  e que apesar de marginal e certamente muito sombrio, a sua clarificação sem complexos (de direita ou de esquerda) e sem segundas intenções justicialistas, pode ter interesse para as memórias da arqueologia portuguesa das últimas décadas do Século XX.

Conheci pessoalmente o arqueólogo Manuel Farinha dos Santos (1921-2001) a partir do início dos anos 80, dadas as minhas funções no então IPPC. No âmbito da preparação de uma nova publicação sobre um sítio que o mesmo estudou (Gruta do Escoural) e a cuja descoberta em 1963 ficará para sempre associado, debrucei-me recentemente sobre a sua obra e o seu percurso arqueológico o que me permitiu destacar o seu papel fundamental, ainda que sob orientação do Prof. Manuel Heleno, para o salvamento daquela Gruta então directamente ameaçada pela laboração de uma pedreira. No entanto, deu para perceber da leitura da documentação e da recolha de alguns testemunhos locais, que a “autoridade” que lhe advinha da sua anterior “experiência profissional”, terá sido um factor determinante na sua decisiva intervenção no caso do Escoural, numa operação decidida e concretizada com rapidez, rigor e total eficácia. (“Escoural, uma gruta pré-histórica no Alentejo”, António C. Silva, Évora, 2011) Mas, à parte essa mera conjetura, nada do seu passado pré-arqueológico me pareceu relevante evocar nos textos que dediquei às descobertas do Escoural. Da mesma forma, também se compreende e aceita que o meu colega João Luis Cardoso, sucessor de Farinha dos Santos na cadeira da Academia Portuguesa de História e seu testamenteiro arqueológico, tenha evitado abordar aquela sua faceta nos textos biográficos que lhe dedicou após a sua morte. Mas se compreendemos e aceitamos a omissão, já pode ser mais difícil admitir algum enviesamento factual que parece subjacente à alusão, não explicada, à injustiça “nunca totalmente ressarcida de todos os desgostos sofridos” resultantes do seu afastamento de um cargo público em 1974… (Cardoso, 2001,” In Memoriam”, O Arqueólogo Português, S.IV vol. 19). Com efeito e como também é público, Farinha dos Santos, foi preso na sequencia do 25 de Abril, muito possivelmente por estar ainda ligado à DGS como professor e eventualmente indiciado por alguns factos relacionados com a sua antiga actuação como inspector da PIDE. Mas ao contrário de muitos outros agentes, uns porque simplesmente acabaram por não ser detidos, outros porque fugiram na primeira oportunidade, Farinha dos Santos permaneceu em custódia durante cerca de dois anos, tendo sido um dos últimos presos relacionados com os processos da PIDE a ser libertado (a comunicação social da época chegou a noticiar a apresentação de um pedido de Habeas Corpus relacionado com a sua situação).

Mantive alguns contactos com Farinha dos Santos, alguns anos depois quando assumi responsabilidades de gestão da actividade arqueológica no Departamento de Arqueologia do IPPC e este arqueólogo, na sequencia da retoma de trabalhos de campo na Gruta do Escoural (1977) com Jorge Pinho Monteiro e Mário Varela Gomes, (meus companheiros do estudo da arte rupestre do Vale do Tejo) ali se dirigia nos anos 80 para tratar do das autorizações para a escavação do vizinho povoado calcolítico. Recordo um homem algo abatido pelas sequelas da vida mas aparentemente pacificado com o seu passado, falando abertamente da sua readmissão na função pública por decisão de Vitor Alves e do Conselho da Revolução e do generoso apoio que estava a ter por parte da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo (“comunista”, como ele então não deixou de frisar) para as escavações do Escoural.

Não fora, pois, a entrevista de Domingos Abrantes e o tema não me ocorreria. Ainda assim, convirá, com os poucos elementos que disponho, corrigir e contextualizar os eventos narrados pelo agora conselheiro de Estado. À data dos mesmos, Setembro de 1959, Farinha dos Santos, estava a terminar a sua licenciatura em História na Faculdade de Letras certamente como aluno “voluntário” (actual estatuto do “estudante-trabalhador”). Sabemos que atraíra a atenção do Prof. Manuel Heleno que o convidou no final desse mesmo ano para seu 2º Assistente na cadeira de Arqueologia. Apesar de ter regido durante alguns anos várias cadeiras em Letras, Farinha dos Santos acabaria por optar por carreira diferente e frequentar o curso de conservador de museus que lhe daria acesso à direção do Panteão Nacional em 1968. Não encontro referencias à data em que terá terminado a sua carreira como “agente ou inspector” da PIDE. Entre 1954 e 1956, segundo João Luis Cardoso, encontra-se na Índia Portuguesa ao serviço do Ministério do Ultramar, mas nada é nos é dito sobre as funções aí efectivamente exercidas. De qualquer modo a referencia de Abrantes às funções como Director do Museu do Carmo é incongruente. Farinha dos Santos só entrou para a Associação dos Arqueólogos Portugueses em 1967, algum tempo depois da aposentação de Manuel Heleno (que não suportava nem a Associação nem o seu Presidente, Afonso do Paço) e apenas viria a ser responsável do respectivo Museu (do Carmo) em 1971, mais de uma década depois destes factos. Ainda assim, pese embora a dúvida razoável quanto ao efectivo envolvimento de Farinha dos Santos nos eventos narrados por Domingos Abrantes, existe alguma plausibilidade nos mesmos, até pelos traços de personalidade subjacentes à descrição. Como recorda Abrantes, perante a provocação que fizera a outro agente sobre os recentes feitos espaciais soviéticos “o Farinha teve uma tirada à intelectual e disse: não foram os russos nem os americanos, foi a humanidade. E o outro pide (ficou) com um olhar esbugalhado e eu safei-me de levar umas trancadas.”

Para além deste testemunho, é também muito conhecida, dada a autoridade política do envolvido, uma referência directa de Mário Soares à actividade de Farinha dos Santos na polícia política e registada na edição francesa do “Portugal Amordaçado” (“Le Portugal bâillonné- un témoignage, Paris, 1972). Esta referencia é retomada em obra posterior de Soares que não conheço mas que encontrei citada na Internet: (ver aqui) 
Passo a citar: “Referindo-se em Um Político Assume-se (Círculo de Leitores/Temas e Debates, 2011) a um período de prisão sofrido em 1949, Mário Soares escreve: “Numa fria madrugada fui interrogado na sede da PIDE por um tal Farinha Santos, meu antigo colega na Faculdade de Letras, que era então agente qualificado da polícia política. Brincando com uma pistola enquanto me interrogava, disse-me: “Se disparar e o matar, nada me acontecerá. Todos dirão que disparei em legítima defesa.” (…)” (p. 54).”   
Aliás, pesquisando esta mesma temática na INTERNET, acabei por deparar com um outro “post” num blog  abrantino com um título curioso (“A PIDE e a Arqueologia”) mas que pouco mais adianta ao que já conhecíamos (http://porabrantes.blogs.sapo.pt/a-pide-e-a-arqueologia-2254616).


Reafirmando que não me move qualquer inapropriada intenção de avaliação ética da pessoa em causa, até porque não está entre nós há mais de uma década, e muito menos qualquer descabido espírito justiceiro para factos há muito prescritos, não posso deixar de compartilhar mais uma nota memorialista que outros colegas da minha geração recordarão, eventualmente com mais detalhe. Em 1972 (?) no decorrer de uma das habituais e brutais “invasões” da polícia de choque à Cidade Universitária, o nosso colega João Ludgero, já então e apesar da juventude, um activo arqueólogo “especialista no Calcolítico” (por oposição aos colegas Paleolíticos...) ficou encurralado no Bar de Letras, tendo acabado ferido com alguma gravidade. Socorrido e trazido em braços para fora da Faculdade por Lindley Cintra, um dos poucos professores que se colocavam ao lado dos alunos, acabou preso pela polícia que cercava a Faculdade. Ter-se-á entretanto formado uma teia de cumplicidades arqueológicas, que terminou com a rápida libertação do João Ludgero, segundo consta, graças à intervenção pessoal de Farinha dos Santos, então Presidente da Secção de Pré-história da Associação dos Arqueólogos Portugueses.

ADENDA (19 de Abril de 2017)




Graças a Gonçalo Pereira, acrescenta-se a este post um LINK directo para o Arquivo Mário Soares ("Casa Comum- Fundação Mário Soares), que dá acesso a um curioso documento, um panfleto dactilografado, anónimo e não datado, mas que pelo contexto se poderá situar no início dos anos 60 (talvez posterior a 1963, pois há já uma referencia à "arte das cavernas", especialidade que viria a dar nome a Farinha dos Santos após as descobertas do Escoural  de1963 e 1964). Intitulado "Um exame de Arqueologia", nele se parodia um exame ou interrogatório feito pelo "sapientíssimo Farinha, da doutíssima PIDE", como membro de um júri presidido por Manuel Heleno (o "Porca de Murça") e coadjuvado por "sua burrência", o filósofo Moreira de Sá ("que também é da PIDE mas nunca percebeu..."). Curiosamente, no interrogatório Farinha pretende confirmar que o examinando (ou preso) é "funcionário do Neolítico" e que como tal conspira contra a "Pedra Lascada e contra o Quaternário". O exame termina com Vivas ao Paleolítico e a Salazar "o nosso Troglodita-mor". Quem escreveu o panfleto era certamente aluno de História.
Uma cena envolvendo a pistola do interrogador, parece remeter para uma descrição de um interrogatório feito a Mário Soares na António Maria Cardoso e que este cita no seu livro "Portugal Amordaçado". O autor seria alguém próximo ou conhecido de Soares?

2ª ADENDA (15 de Dezembro de 2017)



Ao folhear a mais recente obra da historiadora Irene Flenser Pimentel, deparou-se-nos entre tantas outras, uma curta resenha biográfica de Manuel Farinha dos Santos que, por uma questão de princípio, aqui transcrevo. Apenas dois comentários. Primeiro, não li a obra e portanto não estou em condições de contextualizar ou avaliar este breve Curriculum Vitae que parece bater certo, no que respeita a datas, com o que já conhecíamos da passagem de MFS pela organização em causa. A crer no entanto nas funções identificadas, MFS teria tido uma carreira meramente "administrativa" o que contrasta um pouco com alguns testemunhos acima citados, nomeadamente o de Mário Soares.

Segunda questão: o horário especial de que MFS terá beneficiado no final dos anos 50, está certamente relacionado com a frequência, enquanto aluno do curso de Histórico-filosóficas, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Farinha dos Santos termina o curso em 1959 e é imediatamente convidado para Assistente pelo Professor Manuel Heleno, altura em que pede a exoneração da PIDE. No entanto, não fará grande carreira na Faculdade, como é sabido, não tendo por isso "chegado a professor catedrático" como é sugerido na ficha. Tendo frequentado o curso de "Conservador de Museus", Farinha dos Santos, após sair da prisão em 1976, seria colocado como conservador do Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia. O que parece mais estranho na ficha, é esta omitir a posterior colaboração de MFS, até ao 25 de Abril de 1974, com a escola da PIDE, localizada a Sete Rios.





SANTOS, MANUEL FARINHA DOS


Ingressou na PIDE em 1947, com o posto de chefe de brigada, depois de cumprir o serviço militar como alferes. Entre 1947 e 1948 coadjuvou os inspectores Faria Pais, Ferry Gomes e Porto Duarte, em processos de imigração clandestina e “contra a segurança do Estado”, trabalhando nos dois anos seguintes, sob as ordens do Capitão Neves Graça, subdirector da subdelegação do Porto, participando na instrução de processos de emigração clandestina e tráfico de brancas. (? sic) Entre 1950 e 1952 coadjuvou os inspectores Barbieri Cardoso e António José Rodrigues nos Serviços Administrativos, até ser promovido a subinspector, chefiando os serviços marítimos do porto de Lisboa entre 1953 e 1954, ano em que partiu em comissão para a Índia, para preparar a instalação da respectiva delegação. Considerado um dos “intelectuais” da PIDE, ficou entre 1957 e 1958 no Gabinete de Estudos, com a função de organizar o boletim mensal dessa polícia, coadjuvando José Aurélio Boim Falcão, à noite, no serviço de investigação, uma vez que estava dispensado do serviço na parte da manhã por se dedicar à arqueologia. Em 1959 pediu a exoneração da PIDE para ficar disponível para aulas na Faculdade de Letras de Lisboa, onde terá chegado a professor catedrático. 

domingo, 20 de dezembro de 2015

A REINVENÇÃO DO CASTELO DA LOUSA (2)


Desde ontem, 19 de Dezembro, existem novos e fortes motivos para uma visita à margem esquerda do Guadiana e mais concretamente ao Museu da Luz. Com curadoria de Pedro Pacheco, o arquitecto autor do projecto do premiado museu e que, felizmente, tem continuado a colaborar regularmente com a instituição, está ali patente ao público uma exposição sobre o Castelo da Lousa. Ainda que não ignorando necessariamente a componente arqueológica, presente em materiais e documentação das várias fases de estudo e escavação, a exposição aborda a partir de diferentes perspectivas, a memória do sítio hoje afundado pelas águas do Alqueva, agora simbolicamente assinalado por uma simples cota topográfica. Desde logo pela perspectiva do arquitecto que nas ruínas (materiais, métodos de construção, escolha do lugar...) se inspirou para a concepção do próprio Museu. Mas também pela imaginação do escultor Francisco Tropa que evoca na sua proposta as lucernas/candeias de azeite, romanas, aqui expostas junto do antigo "lar" identificado no antigo "atrium" da Lousa. E ainda pela visão dos fotógrafos Duarte Belo e José Manuel Rodrigues, que em diferentes momentos, fixaram através das suas objectivas o contexto paisagístico do monumento e do sítio hoje desaparecido. Resta ainda o testemunho oral (" voz aos lugares") recolhido em video e projectado nas paredes do Museu, uma série de depoimentos baseados na memória das vivências do lugar pelos arqueólogos, pelos artistas ou simplesmente por aqueles que, naturalmente e desde miúdos, conheciam e frequentavam o lugar desaparecido quase há década e meia e agora evocado.


Museu da Luz, 19 de Dezembro de 2015
Castelo da Lousa - maquete produzida pela equipa de Pedro Pacheco
"Voz aos lugares"- depoimento do Eng. Joaquim Bação, proprietário do castiço restaurante de Mourão "Adega Velha" e sobrinho do Dr. Joaquim Bação Leal, o estomatologista mouranense, co-responsável com Afonso do Paço pelas escavações dos anos 60 no Castelo da Lousa
As fotos de José Manuel Rodrigues (2002)

Artefactos romanos recolhidos na Lousa e fotos (1996) de Duarte Belo
Castelo da Lousa_ a documentação arqueológica (janela sobre o passado)
Castelo da Lousa_ artefactos metálicos (fíbulas) e cerâmicos

A mesa da memória_ material editado sobre a Lousa

Maquete_ nova perspectiva
A "re" visão de Francisco Tropa: a Luz e o Lar
Castelo da Lousa_ documentação arqueológica: os "velhos" diapositivos ou "slides"

Museu da Luz_ um espaço de memórias

O Castelo da Lousa, sob as águas do Alqueva. Imagem rara, obtida cerca de 10 anos após o afundamento da estrutura, numa iniciativa promovida e documentada pelo Museu da Luz


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A REINVENÇÃO DO CASTELO DA LOUSA



No próximo Sábado, 19 de Dezembro de 2015, o Arquitecto Pedro Pacheco, autor do projecto de arquitectura do premiado MUSEU DA LUZ, irá apresentar a público naquele Museu uma exposição sobre o "Castelo da Lousa", o sacrificado sítio romano localizado junto ao Guadiana no território da velha Aldeia da Luz. Mas ao contrário do que sucedeu com a aldeia, desmantelada por razões ecológicas e psicológicas, casa a casa, rua a rua, o "Castelo da Lousa" viria a ser objecto de uma complexa e pouco usual intervenção de protecção, precavendo a possibilidade de num futuro incerto e distante, já sem o lago do Alqueva (?) os nossos descendentes poderem decidir repôr à vista, - eventualmente numa paisagem lunar- o que restar das ruínas de há 2 100 anos atrás.

Desenganem-se porém os arqueólogos. Não se trata de uma exposição de "arqueologia", embora essa dimensão, como não poderia deixar de ser, também esteja presente. Artistas plásticos, arqueólogos, historiadores, mas também habitantes da velha aldeia vizinha,  à sua maneira e com a sua sensibilidade e experiência falam de um sítio que já é apenas memória ou, quanto muito, restos de objectos descontextualizados ("fiapos da memória" como lhe chamava o Benjamim Pereira, o etnólogo responsável pelo excelente projecto de museologia do Museu da Luz) e, por consequência, porque no sítio em causa aparentemente não existe nada, no título da exposição temos uma coordenada geográfica, um ponto no espaço que assinala algo que já não se vê mas que persiste no nosso imaginário.



Tendo dirigido todo o processo de intervenção preventiva neste sítio tão especial, desde os primeiros diagnósticos arqueológicos em 1996 até à deposição do último saco de areia de proteção (2002- ver a propósito http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/08/lousa-o-fecho-do-tempo-por-razoes-que.html ) é sempre com alguma emoção que revivo processo tão rico e intenso, envolvendo tantos e tão variados personagens, alguns já entretanto desaparecidos. Desde a equipa da ARKHAIOS dirigida pela Ana Gonçalves (tal com a "ERA, Arqueologia", uma das primeiras empresas de Arqueologia do país, ambas formadas por jovens arqueólogos que haviam trabalhado comigo, como tarefeiros, no antigo Serviço Regional de Arqueologia), passando pelos investigadores da Universidade de Coimbra, sob a coordenação de Jorge de Alarcão (que com Adília Alarcão haviam estudado nos anos 60, os materiais das escavações de Afonso do Paço e Joaquim Bação Leal) e de Pedro Carvalho.
Uma das mais interessantes novidades das escavações da ARKHAIOS_ a identificação da pedreira romana original 

Escavações da ARKHAIOS
Como poderei esquecer o ter conseguido que Jürgen Wahl,voltasse de novo a estudar o Castelo da Lousa, ele que o tinha divulgado internacionalmente com o seu magnífico estudo dos anos 80. Infelizmente, este arqueólogo faleceu há alguns anos sem que os resultados dos seus novos estudos tenham sido publicados mas muito recentemente a sua viúva (Regula Wahl, também ela arqueóloga actualmente ligada ao projecto de arqueologia mineira romana de Três Minas, Jales) ofereceu ao Museu da Luz toda a documentação  de Jürgen relacionada com a Lousa.

Jürgen e Regula Wahl, em Outubro de 2001, na Lousa 

Ainda no que respeita à Arqueologia e a este projecto também não posso esquecer a estreita colaboração com a Universidade da Beira Interior que através do meu velho amigo Martin Hock actualizou, com milimétrica precisão, os levantamentos arquitectónicos. É uma lista enorme de colaborações, até porque ao nível da divulgação houve uma especial preocupação desde os primeiros momentos, não só para proporcionar enquanto era possível a visita ao sítio (melhorando caminhos, instalando passadiços, etc.. e nisso teve um papel preponderante o meu directo colaborador Zé Perdigão) mas também para produzir todo um conjunto de material (CDROM, Video, publicações) que minimizasse a grande "maldade" que se anunciava. O afundamento do monumento. Quando se começou a levantar a hipótese da sua protecção, naturalmente com muitas dúvidas e hesitações técnicas e éticas, foi decisiva a colaboração com o prestigiado LNEC, onde tive todo o apoio de outro velho amigo (desde os tempos dos estudos sobre a conservação dos monumentos megalíticos no Alentejo), o Delgado Rodrigues que coordenou a equipa que produziu o respectivo estudo e cujas conclusões foram decisivas para o projecto posteriormente concebido pelo malogrado Eng. Diamantino Saraiva. (ver a este propósito:  https://www.academia.edu/6072576/Reburying_the_archaeological_structures_in_the_Alqueva_Project )


O Castelo da Lousa, antes do início dos trabalhos de protecção. A sinalética e o passadiço era já da responsabilidade da EDIA

O início dos trabalhos de proteção


A cobertura do monumento em fase avançada, Fevereiro de 2002, por altura do fecho das comportas de Alqueva.

Para registo e memória futura, aqui transcrevo a Nota de Imprensa que preparei para os serviços de comunicação da EDIA, em 22 de Outubro de 2001

Protecção do Castelo da Lousa

            Conforme programado, iniciaram-se recentemente os trabalhos preparatórios com vista à concretização da "selagem e protecção" das ruínas do Castelo da Lousa, operação já adjudicada e que deverá estar concluída quando se iniciar a formação do Regolfo de Alqueva. Por motivos de segurança a partir de agora as visitas a este sítio arqueológico, já de si de acesso difícil em época de invernia, ficam fortemente condicionadas.

Singular monumento da época romana, o impropriamente chamado "Castelo da Lousa", está localizado a 3 quilómetros da Aldeia da Luz na margem esquerda do Guadiana entre as cotas 120 e 130. A estreita relação com o Rio, factor que terá sido determinante na escolha do local para a sua implantação, acarreta  também a inevitabilidade da próxima submersão pela Barragem do Alqueva, hipótese que estava já presente quando nos anos 60 Afonso do Paço e Bação Leal aí realizaram as primeiras escavações. Àqueles investigadores se deve não só o reconhecimento do interesse arqueológico do local, desde logo interpretado como "fortim romano", mas também a descoberta das suas ainda imponentes estruturas arquitectónicas graças a sucessivas campanhas de escavação realizadas entre 1963 e 1970. A teoria da sua função militar viria, no entanto, a ser contestada nos anos 80 pelo arqueólogo alemão Yurgen Wahl que aí procedeu a novos levantamentos e estudos. Para este arqueólogo ligado à Universidade de Colónia e que tem vindo a colaborar com a EDIA nas investigações mais recentes, a estrutura arquitectónica do monumento corresponderia a uma "villa" ou grande casa fortificada relacionada provavelmente com a actividade agro-pecuária. No entanto, Yurgen Wahl, em artigo importante ainda hoje só disponível em alemão confirmou as datações já antes avançadas pelos investigadores portugueses. O monumento fora construído em meados do Século I antes de Cristo, nos finais da época Republicana, tendo sido abandonado cerca de um século depois, já em pleno Império.

            Dada a particular importância deste monumento que durante muito tempo partilhou com o "Cromeleque do Xerêz" especial preocupação dos arqueólogos face ao Empreendimento de Alqueva, o mesmo viria a ser objecto a partir de 1997 de um conjunto de acções específicas no quadro do Plano de Minimização dos Impactes Arqueológicos do Alqueva elaborado pela EDIA e aprovado pelo Ministério da Cultura. Destacam-se antes de mais todo um conjunto de novas escavações arqueológicas realizadas por uma firma de Évora a ARKHAIOS com a colaboração do Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras de Coimbra, que nos dão hoje uma visão muito mais alargada do complexo arquitectónico original. Ainda que em termos de informação genérica (cronologias, espólios e funções) não se verifiquem grandes novidades em relação aos dados já conhecidos, a zona com ruínas reconhecidas aumentou sensivelmente para o dobro colocando novas questões interpretativas. Esta oportunidade foi igualmente aproveitada para se realizarem novos levantamentos topográficos, adjudicados à Universidade da Beira Interior e, mais recentemente, prospecções geofísicas. Para lá de estar previsto o apoio à publicação científica dos resultados das novas escavações, actualmente em vias de conclusão, a EDIA prepara desde já a execução de meios museográficos com vista ao futuro tratamento da memória do Castelo da Lousa, tema a que será dado um destaque especial no Museu da Aldeia da Luz, já em construção na nova aldeia. Referimo-nos à produção de maquetes das ruínas, bem como de um CDRom interactivo que a par de outra informação disponibilizará um largo conjunto de imagens panorâmicas (360º) do monumento e da paisagem envolvente, tal como ele se encontrava na fase final das escavações.

            Embora apenas decorresse das condicionantes impostas pelo processo de Avaliação de Impactes Ambientais, a minimização de impactes através do registo arqueológico, ou seja, através de novas escavações, situação comum a outras dezenas de sítios que serão submersos pelo Alqueva, no caso do Castelo da Lousa considerando o seu especial significado a EDIA tomou a iniciativa de ir mais além. Solicitado ao Laboratório Nacional de Engenharia Civil um estudo sobre os efeitos da submersão e a viabilidade de medidas de salvaguarda, os técnicos do LNEC concluíram que, apesar dos graves problemas de conservação estrutural detectados, era possível aumentar a capacidade de resistência das ruínas à submersão se fossem tomadas algumas medidas preventivas. A busca de uma solução técnica adequada não se revelou fácil nem consensual, tendo em conta a total ausência de experiências semelhantes mesmo a nível internacional, e a localização do monumento numa escarpa de xisto sobranceira ao Rio e delimitada por duas ribeiras muito encaixadas. Depois de abandonada uma primeira solução do tipo "enrocamento", quer pelas dificuldades de execução quer pelas implicações negativas sobre as novas áreas arqueológicas entretanto descobertas, viria a ser aprovada pelo IPA e pelo IPPAR, uma solução com menos impacte arqueológico e que passa pela cobertura do monumento por uma estrutura formada por alguns milhares de sacos de geotêxtil, resistentes à água e preenchidos por areia. O projecto é da responsabilidade da COBA tendo a obra sido adjudicada à firma CONDURIL, pelo valor de 47 600 000$00,* com um prazo de execução previsto de 2 meses.
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* cerca de 240 000 €