quinta-feira, 10 de dezembro de 2015




Guadalupe-Tourega: uma jornada memorável






Desde que o Francisco Bilou propusera à União de Freguesias da Tourega e de Guadalupe, a edição do manuscrito do Pe Manuel Vidigal, que se assumira o compromisso de convidar para a apresentação o Professor Vitor Serrão, conhecido Historiador de Arte e meu antigo colega de curso. Não foi fácil, entre tantos compromissos do Vitor encontrar uma data disponível. Mas finalmente, acabado de chegar de uma conferencia no Brasil, Guadalupe e Valverde tiveram a honra de mais uma sua visita. Naturalmente não é a primeira vez que o Vitor Serrão anda por estas paragens, que há muitos anos teve oportunidade de descobrir na companhia do saudoso Mestre Túlio Espanca e ainda recentemente por aqui andou revisitando locais que faziam parte do tema do seu mais recente livro “Arte, Religião e Imagens em Évora, no tempo do Arcebispo D.Teotónio de Bragança, 1578-1602”. Mas, numa terra patrimonialmente tão rica como esta, cada passagem pode ser oportunidade para novas recolhas, novos dados para o sempre inacabado puzzle da História. Iniciámos a memorável jornada pela visita à Igreja de Guadalupe, onde a atenta observação dos frescos (retábulo, capela mor. sacristia e nave abobadada) em conjunto com o Francisco Bilou proporcionou a Vitor Serrão novas reflexões e considerações que de imediato divulgou na sua página do Facebook e que, com a devida vénia abaixo transcrevo. Partimos depois para a Tourega, onde se nos juntou entre outros, o P. Fernando Marques, Pároco local, e por coincidência nosso antigo colega de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (Curso de 1970-1975). Antes da visita à Igreja e ao seu retábulo que Vitor Serrão tanto tem elogiado, aproveitando as excelentes condições metereológicas, fomos à redescoberta dos vizinhos lugares santos da Tourega, hoje muito esquecidos e abandonados: a "Fonte Santa" e a Capela de Santa Comba, uma das mártires evocada na Tourega. Sobre estes sítios fala-nos naturalmente o texto do Sèculo XVIII agora editado e sobre o seu significado ideológico teoriza o Prof. Vitor Serrão no importante livro já referido. Tudo leva a crer que a importância que estes antigos lugares de culto adquiriram no final do século XVI, início do Século XVII, quase sempre edificados sobre vestígios da época romana que lhe davam a devida "autenticidade", fizeram parte de um programa ideológico de combate contra o paganismo e a "Reforma", decorrente das instruções concretas do Concílio de Trento (ver a este propósito http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/12/a-padroeira-dos-arqueologos-foi-no.html) Desta visita que não esqueceu a Igreja da Tourega propriamente dita e a actual Igreja Paroquial de Valverde, onde se guardam também algumas das preciosidades da Tourega, como uma antiga tábua quinhentista (muito repintada) e uma magnífica Senhora do Leite, aqui deixamos algumas imagens que incluem também a apresentação do livro, bastante concorrida, que teve lugar no Restaurante O Ricardo.


Francisco Bilou e Vitor Serrão, na Igreja de Guadalupe, 5 de Dezembro de 2015
O P. Fernando marques na Fonte Santa da Tourega
Junto às ruínas da Ermida de Santa Comba

Revisitando o retábulo da Igreja da Tourega
Na nova Paroquial de Valverde, analisando a tábua quinhentista ali guardada.



A Senhora do Leite da Tourega, guardada na Paroquial de Valverde
O Vitor Serrão fazendo a apresentação do livro "Notícias da Tourega em 1736"


A notícia no Diário do Sul



MEMÓRIA DE SÍTIO COM OS FRESCOS DE NOSSA SENHORA DE GUADALUPE
A igreja de Nossa Senhora de Guadalupe, grande templo rural a cerca de 15 kms de Évora, não longe da estrada nacional 114, nasceu no ano de 1609 por esforço de um grupo de cidadãos, devotos desse culto, que a fizeram erguer, altaneira e imponente, dominando a paisagem alentejana do sítio. Esses mordomos da confraria, responsáveis da obra, que o historiador Túlio Espanca, em 1957,registou para memória futura, foram Manuel Carvalho, Mateus Dias, João da Costa e Pedro Fernandes Pichorro, e em 1615 o templo era solenemente inaugurado pelo vereador mais velho, Diogo Pereira Cogominho, depois de visita do Arcebispo D. José de Melo. Sabe-se que o historiador Manuel Severim de Faria, devoto da Senhora de Guadalupe, era um dos frequentadores do imóvel religioso. A igreja destaca-se na mancha da actual aldeia de Guadalupe: apesar de muito depauperada por obras (em 1964) que a privaram do conjunto de casario de romeiros que a envolvia, e lhe dava por certo uma consentânea nota de pitoresco, a arquitectura mantém a volumetria tridentina, de severo gosto ‘teotonino’, acaso devido ao arquitecto Pero Vaz Pereira, o construtor oficial ao serviço do Arcebispado nesses anos.
Desejo falar da pintura mural e registar as minhas notas da visita recente. Grande interesse têm esses frescos, fruto de sucessivas campanhas, a mais antiga das quais decorou a ousia da capela-mor (cerca de 1612), com os tectos da nave e presbitério, e a mais recente o tecto da sacristia (este, datado de 1639). Sabemos que o ‘retábulo fingido’ da ousia se deve ao pintor José de Escovar, o mais prolixo dos fresquistas activos no aro eborense no início do século XVII. Mas é o conjunto de murais que recobrem o presbitério que maior interesse iconográfico oferece, até por ser praticamente omisso nas descrições do templo (incluindo as do sempre atento Túlio Espanca). Esse tecto inclui nove ‘painéis’ escalonados na estrutura fresquista, com cenas de adoração e milagres de Nossa Senhora do Guadalupe, e dão ênfase a um aspecto relevante da iconografia da Senhora: a remissão dos cativos. É por isso que se vêem orantes genuflexionados com suas correntes de ferro, num outro dois fidalgos de gorjeira encanudada evocando a Virgem, e em dois outros o singular ‘milagre de Belmonte’, o que constitui presença raríssima num programa iconográfico como este.
A lenda do cativo de Belmonte (representada apenas, que eu saiba, numa tela setecentista numa igreja de Penamacor e numa tábua maneirista no Museu de Ponta Delgada) narra a aventurosa saga de Manuel, soldado natural dessa vila beirã, que foi preso pelos mouros em Argel, onde foi feito escravo por um mouro muito avaro. Não deixou nunca de invocar Nossa Senhora da Esperança para o auxiliar e, segundo narra o milagre, a Virgem apareceu ao cativo na véspera do dia de Páscoa e anunciou que iria ser brevemente liberto. De facto, a arca em cujo interior Manuel dormia acorrentado, com o mouro deitado sobre a tampa, elevou-se no ar e desapareceu acima do mar, chegando no sábado de Aleluia a Belmonte, onde a população, à hora da missa, viu chegar a arca com o cativo e também com o seu senhor, que assim se converteria ao cristianismo. Foi erguida no local uma capela dedicada a Nossa Senhora da Esperança e existe em igreja de Penamacor, como disse, uma tela do século XVIII (dada a conhecer em monografia de José Manuel Landeiro), que narra este raríssimo milagre mariano.
Também a historiadora Maria Eugénia Diaz Tenas (2007), segundo me informa Francisco Bilou, relata num artigo seu a partir das crónicas do Mosteiro de Guadalupe uma série de outros milagres alegadamente cultuados nesse mosteiro extremenho e registados pelos peregrinos portugueses que já no século XV demandavam o célebre cenóbio, todos eles ligados às curas de maleitas e à libertação de cativos cristãos. Conhece-se ainda, no tomo VI do ‘Santuário Mariano’ de Frei Agostinho de Santa Maria, uma descrição dos milagres da Senhora de Guadalupe, que é preciso analisar, e tomo nota ainda, da autoria de Pilar González Modino, de um livro recente chamado «La Virgen de Guadalupe como Redentora de Cautivos», que ajudará por certo a deslindar o complexo e raro programa iconográfico pintado na cobertura afrescada da igreja eborense.
Sobre o artista eborense que executou este tecto, em data pouco anterior a 1615, trata-se de um pintor maneirista de limitados recursos, mas com certo sabor, por certo um dos oficiais da ‘escola’ de José de Escovar, mas com estilemas diversos, e que me parece afim ao mesmo autor dos frescos da próxima igreja de São Matias e dos da igreja do Sabugueiro (Arraiolos). Pistas para desbravar neste laboratório vivo que é, sempre, o património artístico alentejano !

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

A PADROEIRA DOS ARQUEÓLOGOS


Foi no contexto de uma recente troca de impressões profissional com o Nelson Almeida (o arqueólogo que na Direcção Regional de Cultura do Alentejo, dada a sua formação específica na matéria, se ocupa dos processos que envolvam intervenções de carácter antropológico) que a questão se me colocou. Referindo-me ironicamente, em relação a um caso concreto, à alta probabilidade de atrás de uma sepultura (estruturas que por razões éticas e científicas não se podem truncar), vir sempre outra, complicando e encarecendo de forma inesperada algumas intervenções arqueológicas preventivas, sugeri que o arqueólogo responsável, as esconjurasse invocando se necessário "o santo padroeiro dos arqueólogos”. Foi aí que o Nelson me informou (tal nunca me havia ocorrido) que de facto existe um “santo padroeiro dos arqueólogos”, mais concretamente, uma Santa de seu nome Helena. Fez-se-me então luz, até porque li recentemente com muito interesse e curiosidade a última obra do meu colega e amigo Vitor Serrão  "Arte, Religião e Imagens em Évora, no tempo do Arcebispo D.Teodósio de Bragança, 1578-1602” cuja capa vem ilustrada com um pitoresco detalhe (que acima reproduzo) de uma pintura de Gregório Lopes, proveniente da Sé de Évora e exposta no respectivo Museu de Arte Sacra, intitulada Santa Helena e o milagre do reconhecimento da Vera Cruz. No pormenor em causa, vários cavadores buscam afanosamente relíquias, no caso, da própria cruz de Cristo (aparentemente e tendo em conta a quantidade de “santos lenhos” guardados por toda a Cristandade, parecem ter sido bem sucedidos…).

Ironia à parte, a associação da “arqueologia” com a mãe do Imperador Constantino, (Flavia Julia Helena) acaba por fazer sentido, tendo em conta toda a vasta hagiografia que remete para as suas incessantes “buscas” em torno dos locais da paixão de Cristo e que culminariam com a “descoberta” do “santo lenho” e a construção da Basílica do Santo Sepulcro pelo Imperador Constantino, A pintura de Gregório Lopes remete-nos precisamente para essa mitologia cristã, militantemente recuperada no âmbito da Contra-reforma pós concilio de Trento e que no Alentejo viria a ter grandes impulsionadores, como o Arcebispo D.Teotónio de Bragança, que para além da "identificação" e refundação de sítios do imaginário martirológico eborense, como São Manços, Tourega ou São Brissos, chegou a promover “escavações” no litoral de Sines, em busca das relíquias de São Torpes, a solicitação do Papa Sisto V (1585-1590). Como alguns saberão, estas pesquisas permitiram de facto identificar uma sepultura de onde se recolheram um "casco da cabeça”, uma “pomazinha quebrada de barro” e uma “estampa de pedra preta debuxada”,  relíquias que seriam guardadas religiosamente na igreja matriz de Sines e onde séculos depois Leite de Vasconcelos ainda encontraria no sacrário a tal “estampa”, afinal uma típica placa votiva megalítica… Mas sobre estes assuntos, e as suas implicações ao nível da história da arte, vale a pena voltar com atenção à obra citada de Vitor Serrão, ainda que em minha opinião o conceito de “Arqueologia”,  aí seja usado com excessiva liberalidade…no âmbito cronológico em causa. De facto, de uma maneira geral os historiógrafos da Arqueologia portuguesa, costumam começar a usar o conceito,  ainda com cautela, apenas no final do Século XVIII com a figura do bispo Frei Manuel do Cenáculo.



Para finalizar este "post", referir ainda que, a crer na Internet, o dia de Santa Helena e por consequencia dos arqueólogos, ocorre a 18 de Agosto, e que a referida Santa é ainda a protectora dos "convertidos" e dos "casamentos em dificuldades..."


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PENEDO DO LEXIM (2)



O meu "post" de ontem, motivado por uma pequena notícia "on line" acabou por ter consequencias inesperadas. O José Morais Arnaud, provavelmente espicaçado pela má qualidade das fotos que divulguei (que eu penso serem "sobras" que conservei das fotos produzidas durante a campanha - de facto, e ao contrário do que hoje acontece graças ao "digital", havia que gerir com parcimónia o nº de fotografias realizadas no campo e ainda mais as respectivas "tiragens" em laboratório) decidiu em boa hora divulgar no "facebook" um interessante conjunto de fotos da campanha de 1975 no Penedo do Lexim, por ele dirigida. Com a devida vénia, a qui reproduzo algumas, com os comentários originais do próprio Zé.



"A equipa de escavação: Além da dona do terreno, identifico, a contar do lado esquerdo, Teresa Júdice Gamito, Pedro Aboim (e a sua lambretta), António Brazão, António Martinho Baptista (?) (?), Inês Albuquerque e Castro, Paraíso Pinto, Isabel Ferreira da Silva e António Carlos Silva, Clementino Amaro, Teresa Marques, Manuel Barreto, e ainda, (em cima do LandRover),João Ludgero Gonçalves,Clara Vaz Pinto, Manuela Martins, Francisco Sande Lemos, e (acocorados em primeiro plano) Rui Parreira, Isabel Costeira e (?).
Que me desculpem as (???), mas tenho preguiça de ir ver ao caderno de campo" (José Morais Arnaud) 



"Os mesmos da anterior, comigo e com o burro da D. Maria. Acima, a "casa" do século XVII que nos servia de base, e, mais acima, toda caiadinha,a casa do proprietário do terreno que nos abastecia de pão, leite, azeite, ovos, galinhas, vinho, etc." (José Morais Arnaud)



"O acesso à frente de trabalho era muito difícil, sendo necessário organizar pequenas cadeias humanas. Na foto, António Carlos Silva, Manuel...,Clementino Amaro, Sande Lemos, e, de costas, Teresa Júdice Gamito." (José Morais Arnaud)


"Trabalhar então neste local era especialmente penoso devido ao fino pó de basalto da pedreira instalada mesmo junto à área escavada, a qual já havia destruido mais de metade do próprio Penedo. Apesar disso, a equipa mantinha a boa disposição ! Na foto reconhecem-se Isabel Costeira, João Ludgero Gonçalves e F.Sande Lemos. Penedo do Lexim (Mafra) 1975." (José Morais Arnaud)

 "Sande Lemos, António Carlos Silva e Rui Parreira simulam a defesa do Penedo contra hipotéticos atacantes." (José Morais Arnaud) 


Isabel Costeira e da esquerda para a direita, Rui Parreira António Brazão e João Ludgero


António Martinho Baptista e Rui Parreira

Clara Vaz Pinto




segunda-feira, 30 de novembro de 2015

NO PENEDO DO LEXIM, HÁ 40 ANOS


O "link" que alguém deixou no Facebook, falava no Penedo do Lexim há 5 000 anos, remetendo para uma nota publicada  no Jornal de Mafra. http://jornaldemafra.pt/mafra-na-pre-historia-penedo-do-lexim/. As minhas memórias não vão tão longe mas começam a ganhar alguma patine. Parafraseando as experiencias por que todos os arqueólogos passaram um dia, entrevistando a população local sobre a possível idade dos vestígios..."pois é meu amigo, isso deve ser mesmo muito antigo; eu já tenho 80, o meu pai morreu com quase noventa, e sempre lhe ouvi falar disso..."
Neste caso a notícia remeteu-me para eventos de 75, do tal Verão quente, onde tudo podia acontecer. José Morais Arnaud, então assistente convidado da Faculdade de Letras, para onde entrara apenas no ano lectivo de 74/75, por justificadissima exigência dos próprios alunos, foi meu professor no último ano do meu curso (1970-75) com uma cadeira prática sobre "métodos e materiais arqueológicos", também uma novidade nesses tempos em que a arqueologia se aprendia apenas nos bancos da Faculdade e em 2 ou 3 cadeiras teóricas... Após alguns meses atribulados de aulas, ao sabor da ebulição política da época, o Zé, como todos o tratávamos, resolveu concluir a nova cadeira com o envolvimento dos alunos (julgo que obrigatório para a avaliação final) numa escavação prática, à imagem do que estava então em voga em França ("chantier-école"). Selecionou para isso, o que restava do povoado calcolítico do Penedo do Lexim, um sítio já então muito afectado pela laboração duma pedreira de basalto e onde chegara a fazer em 1970 uma sondagem de "emergência" com Vasco Salgado de Oliveira e Vitor Oliveira Jorge. Os antecedentes historiográficos deste importante sítio podem recordar-se em Ana Catarina de Sousa,   http://www.patrimoniocultural.pt/media/uploads/trabalhosdearqueologia/11/Umaintroducaoahistoriadaactividadearqueologicanaareaemestudo.pdf, arqueóloga que, algumas décadas depois ao serviço da Câmara Municipal de Mafra aqui retomaria a investigação. Em todo o caso refira-se que o sítio era conhecido desde Estácio da Veiga e Leite de Vasconcelos, quer pelo seu interesse geológico ( o Penedo do Lexim apresenta-se com formações basálticas prismáticas muito peculiares) quer pelo seu inegável interesse arqueológico enquanto "ppovoado Calcolítico". 

A campanha teve lugar durante mês de Setembro de 1975. Falhei o início por uns dias, porque os trabalhos coincidiram com a data do meu casamento, ocorrido no final de Agosto. Mas uma semana depois e graças a uma "carreira" da velha Mafrense que passava na Amadora vinda de Lisboa em direcção a Mafra, lá desci, de mochila às costas, junto à velha e apertada ponte de Cheleiros, seguindo depois, a pé durante alguns quilómetros, até ao local da antiga pedreira, o acampamento base da escavação. As condições de estadia e trabalho, não podiam ser piores. A maior parte dos estudantes (quase todos seguiriam carreiras profissionais ligadas à arqueologia e à museologia, ainda que por vezes apoiadas no ensino secundário ou superior) estavam instalados numa velha casa agrícola, sem electricidade e praticamente sem portas e janelas (e sem estruturas sanitárias de qualquer espécie) que servia de apoio logístico (comida, dormida e trabalho de gabinete). O afastamento em relação à aldeia de Cheleiros, levantava problemas no abastecimento de víveres, confecionados à vez pelos membros da equipa. Valia-nos como únicos luxos a disponibilidade do velho Land Rover da Faculdade de Letras para as compras na aldeia e uma fonte próxima onde, à vez, fazíamos a higiene da manhã. Mesmo para aqueles de nós que tinham já alguma experiencia de campo (sobretudo os que desde 1971 participavam nas campanhas do Tejo), as condições logísticas eram excessivamente precárias, agravadas pelas difíceis condições de trabalho. O vento habitual nestas paragens, envolvia permanentemente a escavação numa nuvem de poeira intragável. Em todo o caso, julgo que todos os que tiveram oportunidade de participar estarão de acordo com aquilo que consigo recordar. Um tempo de plena entrega ao puro prazer da arqueologia pela arqueologia, ainda sem qualquer subterfúgio ou segundas intenções carreirísticas...As imagens que anexo, são o que consegui reunir no meio do meu anárquico arquivo pessoal. Estão longe de reflectir quer as condições locais quer a totalidade dos colegas envolvidos (julgo que duas ou três dezenas). Passaria ainda algumas vezes por Cheleiros, a caminho do Convento de Mafra (que se vê magnificamente a Norte do Penedo do Lexim), onde pouco tempo depois destes eventos, fiz a recruta no serviço militar. Mais tarde, já como arqueólogo profissional ao serviço do IPPC, passei por perto, revendo as inscrições romanas em tempos incrustadas na Igreja Matriz de Cheleiros, e apreciando em detalhe a Ponte vizinha, como todas as pontes antigas deste país, atribuída aos "romanos". Mas nunca mais tive coragem de subir ao velho Castro. Felizmente, uma arqueóloga já de outra geração, cujo trabalho "megalítico" acompanhei de perto no Projecto do Alqueva, resolveu anos mais tarde repegar no sítio, com o sucesso que ainda hoje se reflecte nas notícias que nos chegam de Mafra.


À esquerda o António Martinho Baptista (actual Director do Museu do Côa) e o Rui Parreira (Director de Bens Culturais no Algarve), num intervalo do desenho de estruturas, discutem com Cardim Ribeiro (durante muitos anos responsável pelo património cultural na Câmara de Sintra e fundador do actual Museu de Odrinhas). Em segundo plano uma colega que não consigo identificar

Ao centro o José Morais Arnaud, fala com Francisco Sande Lemos, à esquerda (arqueólogo e investigador hoje aposentado da Universidade do Minho) e António Brazão, que exerceu o ensino durante anos em Alter do Chão (dirigiu escavações no sítio romano do Ferragial d'El Rei no início dos anos 80). Em primeiro plano, agachado, João Ludgero, durante muitos anos arqueólogo ao serviço da Junta Distrital de Lisboa.


Num intervalo dos trabalhos de campo: da esquerda Isabel Costeira (antiga Directora do Mosteiro de Alcobaça) e Rui Parreira. À direita, em cima António Martinho Baptista e Sande Lemos. Em primeiro colega, uma colega que não consigo identificar.
O velho Land Rover da Faculdade de Letras usado nas escavações do Lexim. O Sande Lemos, "a cavalo" e a Isabel Silva

Ao final do dia, actuação do "Alegre", alcunha do autor deste Blog, (ver a propósito o post anterior
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/01/o-alegre-do-rodao-ao-ler-no-ultimo-n-do.html) nas magníficas instalações de apoio às escavações. Reconheço ao centro da foto, a Teresa Marques (actualmente aposentada depois de toda uma carreira no IPPC/IPPAR) e ladeada, suponho, pela Clara Vaz Pinto (com uma longa carreira ligada sobretudo aos Museus).


Ainda no Penedo do Lexim, 1975- Reconheço a Manuela Martins e a Isabel Costeira à esquerda. O Francisco Sande Lemos, de óculos e à direita, com a sua imagem de marca da época, o António Martinho Baptista








sexta-feira, 27 de novembro de 2015


Notícias da Tourega



Dentro de uma semana, a União de Freguesias de Nossa Senhora da Tourega e de Nossa Senhora de Guadalupe, irá apresentar publicamente, um pequeno livro, com a transcrição, o comentário e a contextualização, de um velho manuscrito sobre estas terras. Trata-se de um interessante documento conservado na Biblioteca Pública de Évora e cuja leitura paleográfica se deve ao historiador Francisco Bilou. Deu também o seu contributo, através de um assertivo comentário que muito enriquece esta edição, o Professor Vitor Serrão, Catedrático de História de Arte da Faculdade de Letras de Lisboa (e já agora, meu estimado amigo e colega do curso de História da mesma Faculdade de 1970/75). Esta iniciativa editorial da União de Freguesias,  que contou com o apoio da Direcção Regional de Cultura do Alentejo e da Câmara Municipal de Évora, inscreve-se numa estratégia de divulgação e dignificação dos valores patrimoniais desta zona rural a "Oeste de Évora", entendidos pelos órgãos da freguesia como um recurso fundamental de identidade e de desenvolvimento que é preciso valorizar. Antes de mais junto dos próprios vizinhos, fazendo deles os seus primeiros defensores, mas também junto de todos aqueles (turistas, visitantes, curiosos) que cada vez mais atraídos pela riqueza paisagista e cultural do nosso território, nos visitam.

A jeito de aperitivo e de enquadramento aqui fica o texto de apresentação do livro pelos representantes da Freguesia.



Preservar as memórias da Tourega

Por oportuna sugestão do Professor Vítor Serrão, forjada no âmbito das suas mais recentes investigações sobre as estreitas relações entre a arte e a religião no aro de Évora e generosamente avocada por Francisco Bilou, técnico superior da Câmara Municipal de Évora, foi finalmente transcrito na íntegra o muito citado mas mal conhecido manuscrito oitocentista Notícia da Freguezia da Assumpção de Tourega, conservado na Biblioteca Pública de Évora, da autoria só agora também confirmada do Padre Manuel Carvalho Vidigal. A ambos os investigadores, os órgãos da União de Freguesias da Tourega e Valverde, agradecem a oportunidade de poder dar à estampa tão valioso documento para a história local, fechando-se com chave de ouro este círculo de boas vontades. Deste modo, três séculos depois da sua redação, o testemunho do antigo pároco da Tourega, sai do arquivo reservado onde jazia esquecido, correspondendo por fim ao propósito confesso do seu autor, de preservar e transmitir às gerações futuras, as memórias de um lugar que, como é notório na sua escrita, tão bem conhecia e tanto estimava.

Capa da edição que irá ser apresentada no dia 5 de Dezembro de 2015

Confirmando o velho aforismo de que vale mais tarde do que nunca, enquanto mandatários das gentes que hoje habitam estas terras de Valverde e Guadalupe, unidas administrativamente por forçada reforma, a União de Freguesias, no âmbito das suas limitadas capacidades e na esteira de antepassados como o Padre Vidigal, assume deste modo a responsabilidade de contribuir para o conhecimento e a valorização da herança cultural recebida, enquanto recurso identitário indispensável ao enriquecimento da nossa vivência em sociedade. Se tal é válido para qualquer lugar, ganha porém nestes tempos difíceis e nestas terras de Valverde e Guadalupe, uma importância especial. Com efeito, como bem nos lembra o Professor Vitor Serrão, apesar de hoje muito despovoado, este território das faldas da serra de Montemuro, no cruzamento de velhos caminhos que ligavam Évora ao Sado e ao Tejo, guarda significativos testemunhos de tempos próximos e longínquos, que lhe conferem uma identidade que, sem exagero, é quase única em meios rurais da região, mesmo considerando a tradicional riqueza cultural do Alentejo. Apesar de hoje mais conhecido por força da visibilidade do seu vasto património megalítico, aqui se conservam também vestígios materiais impressivos de épocas históricas bem mais recentes. É verdade que nem sempre reconhecidos ou valorizados, a começar pelos seus próprios detentores ou pelos vizinhos mais próximos. Quantos de nós temos afinal consciência do pequeno tesouro patrimonial que a Mitra encerra, tão minuciosamente descrito pelo Padre Vidigal, e onde coincidem, lado a lado com o melhor megalitismo pré-histórico, os restos arquitectónicos de um Paço Real quinhentista e da sua quinta de recreio ou um convento cartuxo e respectiva cerca prenhe de cunhos simbólicos, para já não falar na jóia renascentista representada pela pequena capela do Bom Jesus de Valverde?  
Não está este património, apesar de quase todo ele classificado ou inventariado[1], nas melhores condições de conservação, nem estará ao alcance da União de Freguesias, alterar significativamente esse estado de coisas, infelizmente demasiado generalizado por todo o país. Mas poderemos, certamente, diligenciar para que esta herança seja melhor conhecida e divulgada, desde logo pelos residentes menos atentos ou menos informados, na certeza de que esse é sempre o primeiro passo para a sua salvaguarda. Não se pode estimar aquilo que não se conhece, não se pode pedir respeito por aquilo que não se compreende. Tal como o Padre Vidigal há quase trezentos anos, também nós teremos de cuidar desta herança e transmiti-la às gerações futuras, se possível enriquecida com o nosso contributo de estudo e divulgação ou mesmo de conservação e restauro. Não faria hoje sentido e poderia ser até irresponsável, reclamar o regresso ao seu lugar de origem, a Igreja do Bom Jesus de Valverde, dos três painéis de Gregório Lopes, do melhor que há na pintura portuguesa do Século XVI, à guarda do museu de Évora vai quase para um século. Mas, em contrapartida, poderá ser encarado como um objectivo realista e ao alcance da comunidade local, a congregação de esforços e meios para que as nove tábuas do erudito retábulo maneirista da Igreja de Nossa Senhora da Tourega, a carecerem de urgente recuperação, possam ser estudadas e reintegradas na sua riqueza original, tal como propõe o Professor Vitor Serrão. Tal recuperação, associada a necessários trabalhos de simples consolidação das ruínas da vizinha Villa Romana, ou das restantes estruturas arquitectónicas na envolvente da Tourega, incluindo a Capela de Santa Comba, a Fonte Santa e o que resta do palácio dos Cogominhos, poderão fazer do sítio da Tourega, valorizado por enquadramento paisagístico soberbo, um polo rural de interesse turístico- cultural de primeira grandeza, a par da própria Mitra e do já hoje sobejamente conhecido e muito demandado, Cromeleque dos Almendres.

António Carlos Silva e Joaquim Pimpão
(Presidentes da Assembleia e da Junta da União de Freguesias de Nª Sª da Tourega e Nª Sª de Guadalupe)



[1] No território da União das Freguesias da Tourega e Guadalupe, estão classificados como Monumento Nacional, cinco sítios megalíticos, já incluindo o Cromeleque dos Almendres, reclassificado como tal por recente Decreto de 4 de Março de 2015. Estão ainda classificados como Imóveis de Interesse Público, para além do conjunto formado pela Quinta do Paço de Valverde, Capela e Claustro da Mitra, outros oito monumentos, incluindo sítios arqueológicos, como as Ruínas romanas da Tourega e diversas pontes históricas.

Retábulo da Igreja de Nossa Senhora da Assunção da Tourega

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Arqueologia a Norte (3)



Mais uma vez, devo ao Orlando de Sousa, a grata oportunidade de aqui recordar mais uma iniciativa editorial do antigo Serviço Regional de Arqueologia do Norte, neste caso já com cerca de três décadas, mas que graças à qualidade gráfica e à actualidade da mensagem, poderia dizer-se que foi produzida ontem. Infelizmente, como era pática habitual, não apresenta ficha técnica e não temos nem a data exacta nem os nomes dos técnicos envolvidos, nomeadamente a autoria da ilustração. Na altura "trabalho de equipa era trabalho de equipa" e o que contava era o nome das entidades envolvidas. Ainda assim, na sua mensagem, o Orlando recorda a especial participação da Isabel Silva, actual Directora do Museu D.Diogo de Sousa e que também passou pela "escola" do SRAZN. Pessoalmente, recordo o empenho particular do Francisco Sande Lemos nesta temática, graças ao seu profundo conhecimento do mundo rural de entre Douro e Minho que lhe adveio da actividade como investigador da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e à consciência que tinha das graves ameaças sobre o património arqueológico associadas ao desenvolvimento da florestação. Para quem quiser rever outros exemplos de materiais de divulgação produzidos na década de 80 pelo SRAZN, aqui ficam os respectivos "links".

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/02/arqueologia-norte-ao-ler-o-texto-do.html

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/03/arqueologia-norte-2-reagindo-uma.html