quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A Ponte da Catribana

O facebook do "Portugal Romano" divulgou o link para a página da Câmara Municipal de Sintra, onde a notícia é dada. A "Ponte da Catribana" vai ser restaurada...
http://www.cm-sintra.pt/obras-de-conservacao-e-restauro-da-ponte-romana-de-catribana

Catribana, curioso nome e local onde não voltei desde que há 30 anos acompanhei no terreno a execução do primeiro número dos Roteiros da Arqueologia Portuguesa, dedicado à arqueologia de Lisboa e Arredores, mas de que vou tendo frequentes notícias "facebookianas", graças às deambulações do meu amigo de infância Vasco Pegado que por ali, entre o campo e as praias da Samarra ou do Magoito, vai gozando com os netos a merecida aposentação de muitas décadas de trabalho na Câmara de Lisboa.


E, esse foi o pretexto para aqui recordar esse projecto dos "Roteiros da Arqueologia Portuguesa", uma das iniciativas editoriais que promovi no âmbito do Departamento de Arqueologia do IPPC, neste caso virada para o público em geral e que complementavam a entretanto já desaparecida "Informação Arqueológica" (uma herança do Campo Arqueológico de Braga que produzira o nº1) e a série monográfica dos "Trabalhos de Arqueologia", actualmente "suspensa", mas a que se devem, graças ao novo fôlego introduzido pelo IPA, a edição de meia centenas de números, constituindo um acervo fundamental da arqueologia portuguesa da transição do Século.


O nº 1 dos "Roteiros", editado em 1986, abarcava os sítios e museus arqueológicos da "Grande Lisboa" (excluindo a margem Sul do Tejo) e procurava referenciar em particular os que eram acessíveis à visita de eventuais interessados e curiosos. independentemente do melhor ou pior estado de conservação ou "valorização" (como hoje se diz). Tinha preocupações práticas, introduzindo informações úteis, pensando já no seu potencial interesse turístico, pelo que incluía também a tradução para inglês e francês dos conteúdos. Trabalho de equipa, nele colaboraram a Ana Cristina Araújo, a Teresa Marques, a Susana Correia, o Fernando Lourenço e o Luis Pascoal, todos eles então ligados, de algum modo, ao Departamento de Arqueologia do IPPC. A fotografia deve-se a António Ventura, então a iniciar a sua carreira de fotógrafo de património, continuada mais tarde como professor no Politécnico de Tomar. As traduções foram asseguradas pela Margarida Salvador (inglês) e pela malograda Maria Luisa Blot (francês).

A carta dos sítios e museus referenciados. Três décadas depois seria um trabalho interessante, comparar a situação e identificar as "lacunas" resultantes do progresso da investigação ou do simples acaso.


Quase de seguida seria editado o nº 2 desta colecção, sobre as "Ruínas de Conimbriga", com textos da Dra Adília Alarcão, a directora dos Museu Monográfico e das Ruínas. Este, rapidamente esgotado dada a tradicional frequência de visitantes das ruínas, conheceu depois sucessivas e renovadas edições que pouco já tinham que ver com o "original" de 1986. Em 1990 e 1995, já a partir de Évora, promovi directamente a edição de mais dois números (3- Ruínas de Miróbriga, texto da Susana Correia e da Filomena Barata e 4- Gruta do Escoural, texto meu e da Ana C.Araújo). A colecção seria retomada mais tarde, ainda com o mesmo formato mas renovada graficamente, pelo IPPAR no âmbito do programa dos Itinerários Arqueológicos do Alentejo e Algarve, financiado pelo Fundo de Turismo: nº5-S.Cucufate (1998); nº 6- Antas de Elvas (2000); nº 7 Miróbriga (2001), com novos textos; nº8 Castro da Cola (2002) e nº9 - Ruínas de Milreu (2002).

A colecção está parada desde então e apesar de não ter sido passada a respectiva certidão de óbito, é de crer que esteja definitivamente encerrada. Ficam estas memórias e muitos exemplares espalhados pelas bibliotecas do país.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015


NOVIDADES DE MÉRTOLA

Como arqueólogo (melhor, como "estudante de arqueologia") visitei pela primeira vez Mértola há 4 décadas, julgo que em 1975. Segundo recordo, tratou-se de uma viagem meramente logística para passar o velho Land Rover da Faculdade de Letras que estivera  ao serviço do GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português) à equipa de Manuel Maia, então assistente daquela Faculdade, a escavar com alguns alunos no "castelo romano de Manuel Galo", localizado nas proximidades de Mértola. Do CAM (Campo Arqueológico de Mértola) ainda não havia então notícias, embora o mesmo tivesse surgido pouco tempo depois, fruto do feliz cruzamento de interesses e vontades, entre um jovem e visionário presidente de Câmara, Serrão Martins (infelizmente precocemente desaparecido) e um arqueólogo optimista, Cláudio Torres, regressado do exílio e em busca de tema de investigação. Poucos anos depois desta primeira descida a Mértola, mais propriamente a partir de 1980, quando as grandes campanhas de escavação na "Alcáçova de Mértola", nomeadamente no "criptopórtico" eram já uma escola de Arqueologia para muitos estudantes de Lisboa e não só, tive oportunidade de acompanhar de perto o desenvolvimento deste projecto e até de, ciclicamente, ajudar a resolver algumas questões administrativo-financeiras nos apoios às escavações resultantes de alguma "aversão" de Cláudio Torres à "papelada", situação agravada pela difícil relação estabelecida com o Director do Serviço Regional de Arqueologia do Sul (1980-1987), Dr. Caetano de Melo Beirão, personalidade que, até por razões de posicionamento político-ideológico conhecidas, não morria de amores pelo projecto de Mértola nem pelo seu promotor. Recordo em especial o apoio directo dado pelo Departamento de Arqueologia do IPPC ao CAM, através do destacamento dos arqueólogos Carlos Jorge Ferreira e Susana Correia, para apoio às escavações no subsolo do edifício municipal, promovidas em meado dos anos oitenta na sequencia de um desastroso incêndio e que permitiram a descoberta de importantes vestígios da Mértola romana, que viriam a ser conservados numa das primeiras "criptas arqueológicas" do nosso território. Quase quatro décadas depois, ultrapassadas muitas dificuldades e incertezas mas também após muitos objectivos concretizados, o CAM é uma realidade reconhecida nacional e internacionalmente, como o atesta mais um prémio granjeado, desta vez atribuído pelo próprio Vaticano. Como vão longe os tempos do confronto ideológico. 




A este propósito e porque o tema do "paleocristianismo" já então estava na ordem do dia, republico a crónica que escrevi para o Diário de Notícias de 16 de Dezembro de 1993, a quando da inauguração das obras de musealização da chamada Basílica Paleocristã do Rossio do Carmo, identificada no final do século XIX por Estácio da Veiga e reescavada pela equipa de Cláudio Torres nos anos oitenta do século XX.




Errata: naturalmente a data da morte de Estácio da Veiga, é 1891 e não 1991, como consta do texto...

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O sítio nº 1 do ENDOVÉLICO

Todos os arqueólogos portugueses sabem o que é o "ENDOVÉLICO", a base de dados arqueológicos que foi buscar o seu nome a uma conhecida divindade pré-romana do SW peninsular e onde são registados os sítios arqueológicos que vão sendo referenciados no território nacional e que hoje conta com mais de 30 000 entradas. Poucos talvez saibam qual o sítio que tem o CNS 1, e ainda menos qual a explicação que está por trás desse facto. 

Embora criada em meados dos anos 90 por uma equipa informática liderada pelo Prof. Ribeiro da Costa da Universidade Nova, a actual base de dados do Endovélico teve atrás de si antecedentes de "papel" que remontam aos anos setenta, à então Direcção Geral do Património Cultural. Com efeito data de 1976 a primeira tentativa séria de organização de uma "Carta Arqueológica de Portugal", facto que já evoquei neste blog http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/01/do-projecto-da-carta-arqueologica-de.html. Seria no âmbito desse projecto que Judite Cavaleiro Paixão, licenciada em História mas com a especialização em BAD (Bibliotecas, Arquivo e Documentação) contratada especificamente para esse efeito em 1976, procuraria introduzir um sistema convencional de recuperação e organização da informação arqueológica que passava pelos serviços da SEC (cartas, ofícios, requerimentos, relatórios, recortes de imprensa, etc...), material que serviria de apoio á gestão corrente mas que, em última análise consubstanciaria o suporte documental da "Carta Arqueológica de Portugal". Numa época em que a informática, pelo menos entre nós, pouco adiantaria neste campo, o passo seguinte, previsto na proposta da Judite Paixão, passava pela "microfilmagem" sistemática de toda a informação, o que permitiria a prazo, uma busca mais rápida da informação para efeitos de gestão ou investigação. Para esse efeito JCP desenvolveu toda uma proposta de organização que seria editada em 1980 pelo próprio IPPC, entretanto criado em substituição da DGPC. 



Nomeada em 1980 "Chefe de Divisão de Documentação e Inventário" do Departamento de Arqueologia do IPPC, entretanto instalado no Museu Nacional de Arqueologia no final desse ano, seria nesse âmbito que JCP, coordenando uma pequena equipa, iria concretizar a sua proposta. Cada sítio arqueológico dava origem a uma "ficha informativa principal" com os dados básicos disponíveis sobre a mesma, a que se juntavam depois fichas complementares onde seriam referenciados e comentados todos os documentos relevantes sobre o sítio. Completavam a documentação de cada sítio, guardada numa caixa arquivador tipo A4, fotos quando existentes, e a localização num extracto da respectiva carta militar portuguesa, na escala 1: 25 000. Naturalmente era necessário arrumar a caixa e conhecer a sua localização em caso de necessidade de consulta ou de complemento dos dados, e para isso existia o nº básico de "ordem" de preenchimento, ou seja o antecedente do actual CNS, Código Nacional de Sítio. E, por mero acaso, a ficha nº1 a ser preenchida correspondeu a um obscuro sítio arqueológico romano, "Alto da Cidreira" descoberto na altura e por acaso nos arredores de Cascais no meio de uma "urbanização clandestina". A troca de ofícios entre a Câmara Municipal e o IPPC, bem como algumas notícias na imprensa, haviam dado origem a um processo administrativo então em curso, que foi usado por JCP como modelo ou protótipo do que seria a futura base do "serviço de documentação e informação arqueológica". O sítio entretanto escavado e estudado por José d'Encarnação e Guilherme Cardoso, viria a ser classificado em 1992, mas as circunstâncias da sua descoberta e localização, ainda hoje se reflectem nas suas precárias condições de preservação. A título de curiosidade anexamos os links para a actual ficha do Endovélico (CNS1), para a ficha de classificação da DGPC e ainda para um inventário de iniciativa particular, associado ao conhecido blog "Portugal Romano":




Alto da Cidreira_ foto "Portugal Romano"

E, já agora, a listagem dos primeiros 10 sítios do CNS do ENDOVÉLICO, todos eles herdeiros da primeira listagem trabalhada pela equipa de Judite Cavaleiro Paixão e, certamente, selecionados já por atributos algo diversos aos do Alto da Cidreira:

CNS 1- Alto da Cidreira, Cascais
CNS 2- Ruínas romanas de Tróia, Grandola (Sítio onde JCP e seu marido António Cavaleiro Paixão trabalharam com Fernando de Almeida);
CNS 3- Ruínas de Pisões, Beja
CNS 4- Ruínas de Miróbriga, Santiago do Cacém
CNS 5- Ruínas romanas dos Casais Velhos, Cascais (não muito longe do Alto da Cidreira)
CNS 6- Citânia de Sanfins, Paços de Ferreira
CNS 7- Barragem romana do Muro dos Mours, Serpa
CNS 8- Ruínas de São Cucufate, Vidigueira
CNS 9- Ruínas romanas de Milreu, Faro
CNS 10- Castelo de Castro Laboreiro, Melgaço

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

BRACARA AUGUSTA

Estará disponível a partir de hoje em Évora, na Galeria da Rua de Burgos (Direção Regional de Cultura do Alentejo) uma interessante e pouco comum exposição divulgando um conjunto de propostas académicas de intervenção arquitectónica envolvendo ruínas romanas localizadas em meio urbano. A exposição, de carácter documental mas incluindo algumas maquetes, intitula-se “Intervenção arquitectónica em contexto arqueológico. Propostas e desafios para a cidade de Braga” e nela se apresentam projectos realizados por alunos do Curso de Estudos Avançados em Património Arquitectónico, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto sob a coordenação do Professor Pedro Alarcão. Poderá dizer-se que Évora, cidade de elevados pergaminhos romanos (o seu conhecido foral manuelino exibe com grande destaque o título de Ebura Colonia Romana) é adequada anfitriã para esta iniciativa, podendo a sua visita despertar o interesse e a curiosidade dos estudantes da jovem escola de arquitectura local. Mas haverá que não esquecer algumas diferenças estruturais essenciais entre os casos de Bracara Augusta e de Ebora Liberalitas Julia, diferenças que se reflectem na forma muito distinta como esse património se insere nas malhas urbanas contemporâneas. Pessoalmente, é sempre com alguma nostalgia que cito a experiencia de Braga e do seu Campo Arqueológico nascido na segunda metade dos anos 70, como produto típico das transformações sociais e culturais proporcionadas pelo 25 de Abril. A expansão urbanística explosiva em Braga era já uma realidade quando se deu a “revolução”, mas foi o movimento patrimonialista gerado por esta que proporcionou a necessidade e criou as condições para, à boleia da jovem Universidade do Minho, se instalar na cidade o Campo Arqueológico de Bracara Augusta visando "salvar" o que ainda não fora engolido pelas urbanizações. Ainda que num ambiente muito difícil (perante o "peso" dos construtores civis) pela primeira vez em Portugal se inconstitucionalizava um verdadeiro programa de “arqueologia urbana” visando o salvamento da memória histórica da cidade antiga através da escavação, estudo e valorização dos seus vestígios arqueológicos. Por outro lado, e essa era também uma novidade entre nós, o Campo Arqueológico vinha criar no final dos anos setenta as primeiras oportunidades de profissionalização nesta área, as quais viriam a ser aproveitadas por alguns colegas da minha geração que iniciaram as suas carreiras no âmbito deste projecto pioneiro. Entre outros destaco a Manuela Martins (colega de faculdade e amiga desde os tempos do salvamento da arte rupestre do Tejo), actualmente professora catedrática e responsável pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e que nessa qualidade estará hoje em Évora na abertura desta exposição. Mas, como já tenho referido noutras ocasiões, não posso também de deixar destacar o papel importantíssimo que o Campo Arqueológico de Bracara Augusta teve para as transformações que a Arqueologia portuguesa viria a conhecer no início dos anos 80. Para além de escola de campo e de tirocínio para muitos arqueólogos (a começar pelo seu "fundador" e primeiro Director, Francisco Alves que em 1980 transitaria directamente para a Direcção do Museu Nacional de Arqueologia e do Departamento de Arqueologia do IPPC) a sua estrutura esteve na origem da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, serviço que por sua vez acolheria também em 1980 o novo Serviço Regional de Arqueologia do Norte, dependente da SEC, bem como o futuro Museu de Arqueologia de Braga, D.Diogo de Sousa, cuja sede viria a integrar importantes vestígios romanos "salvos" pelo Campo Arqueológico. Apesar dos sucessos que se traduzem hoje na musealização de vários conjuntos arqueológicos preservados ou nos "estudos e projectos" para outros, a "arqueologia urbana" em Braga nem sempre foi uma via unívoca. Bem pelo contrário, períodos houve de grande tensão, dado o peso dos tais "construtores" junto dos poderes instituídos. Em anexo recordo na sua versão original (foi reeditado em Raposo & Silva, A linguagem das Coisas, Europa-América, 1996, pg 394), um texto que publiquei no Diário de Notícias de 16 de Junho de 1994, precisamente num período muito complicado para a salvaguarda das memórias materiais da velha Bracara Augusta. 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os "fornos" do Xerez e o MNA



No último sábado, dia 31 de Outubro, no contexto das actividades paralelas à exposição "Alqueva, 20 anos de obra 200 Milénios de História" e seguindo o modelo de palestras no Museu Nacional de Arqueologia a propósito d' "A peça do mês", os Professores da Faculdade de Letras de Lisboa, Victor Gonçalves e Ana Catarina de Sousa proferiram naquele Museu uma intervenção sobre a importância e significado das "estruturas de combustão" descobertas pela equipa que ambos dirigiram no âmbito dos trabalhos de salvamento arqueológico do Alqueva, algumas das quais se encontram expostas com grande destaque na referida exposição. Da informação-convite do MNA transcrevemos o texto de apresentação das referidas estruturas, também conhecidos pela gíria arqueológica como "fornos do Xerez (ou Xarez, na grafia menos usual mas preferida pelo Prof. Victor Gonçalves) e cuja descoberta veio confirmar a extrema importânca da planície em causa, encaixada entre as colinas de Monsaraz e o Guadiana, e onde para além de múltiplos vestígios megalíticos, já anteriormente conhecidos, os trabalhos do Alqueva vieram revelar uma vasta miríade de sítios comprovando uma intensa e sucessiva ocupação humana em todas as épocas pré-históricas.

Sobre este sítio, gostaria no entanto, de referir alguns dados pouco referenciados mas que merecem registo. Antes de mais lembrar que o Xerez 12 foi identificado, graças à presença de alguns materiais de superfície, por uma equipa de prospecção ao serviço da EDIA, dirigida por José Perdigão e que no segundo semestre de 1996, sob minha coordenação, procedia no campo à revisão (parcial) dos dados de inventário arqueológico disponíveis sobre o território a inundar pela futura barragem. Esta "baixa do Xerez", hoje totalmente alagada, foi precisamente uma das zonas então selecionada para adensamento da prospecção por haver consciência da sua particular importância (eu próprio com Luis Raposo ali fizera sondagens no final dos anos 70, num sítio que denominámos "Xerez de Baixo"). Diga-se, em abono da verdade que mesmo assim, algumas equipas, nomeadamente as equipas responsáveis pelo estudo do Paleolítico ou da Pré-história recente, viriam a identificar novos e importantes sítios nesta zona, já em plena actividade de minimização, mostrando que a prospecção nunca está completa... 

Um outro dado importante que não pode ser ignorado, relacionado com o Xerez 12, tem que ver precisamente com a operação de "remoção e armazenamento" de algumas das estruturas identificadas nas escavações de Victor Gonçalves e Ana Catarina de Sousa. No processo de reflexão e decisão pré-inundação que promovemos e uma vez garantido o "registo possível" dos dados observados nas centenas de escavações empreendidas no Vale do Guadiana, mais do que a remoção e descontextualização de estruturas ou fragmentos de estruturas escavados (exceptuando, naturalmente os "artefactos" e outras "amostragens" com vista à posterior análise laboratorial) foi nossa preocupação proceder a um conjunto de trabalhos de "selagem in situ" que, teoricamente contribuíssem para aumentar as hipóteses de sobrevivência desses sítios aos efeitos catastróficos da inevitável inundação (aliás, a propósito do Castelo da Lousa, já neste Blog citei o artigo onde com Delgado Rodrigues e Joaquim Garcia, abordo essa experiência).
Naturalmente, também neste caso não deixou de haver algumas excepções. O caso mais conhecido é o do "Cromeleque do Xerez" que após inconclusivas escavações de Mário Varela Gomes, decidimos desmontar e remover para nova localização, respeitando no essencial a antiga interpretação "reconstrutiva" do seu descobridor original, o Dr Pires Gonçalves, apesar de todas as críticas e polémicas (ver o "post" que dedicámos a esse assunto:
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/05/para-historia-do-cromeleque-do-xerez-o.html ). Mas, de algum modo, o Xerez 12 destaca-se na curta lista de sítios onde foi decidido amputar e guardar uma parte, pensando sobretudo no seu potencial interesse museológico. A par da recuperação e conservação museológica de uma secção de um "corte estratigráfico" do sítio da Barca do Xerez (também agora exposto no MNA, uma tarefa concretizada no campo em colaboração com a equipa de arqueologia da STEA, dirigida pela arqueóloga Ana Cristina Araújo) foi decidido por proposta da equipa de Victor Gonçalves, proceder à consolidação, destacamento e transporte de algumas das estruturas ou fornos escavados em Xerez 12. Essa operação, seria concretizada no terreno (2002/2003?) por uma equipa do MNA dirigida pelo técnico Mário Jorge Almeida, no âmbito de um protocolo estabelecido entre a EDIA e aquele Museu expressamente para esse efeito. Num momento em que, finalmente, mais de uma década depois, o público tem oportunidade de observar estas estruturas, pareceu-me que seria de toda a justiça aqui referir também este aspecto, aproveitando a oportunidade para divulgar o Relatório produzido posteriormente pelo seu responsável e a quem aqui agradeço a sua disponibilização para esse efeito.

Texto de apoio ao convite do MNA para a palestra de 31 de Novembro de 2015
Xarez 12 (Reguengos De Monsaraz, Évora) e as primeiras arquitecturas de terra do centro e sul de Portugal: as estruturas de combustão e os seus contextos

Comentada por Victor S. Gonçalves e  Ana Catarina Sousa
Durante largas décadas, o Neolítico antigo do interior alentejano era virtualmente desconhecido no registo arqueológico. A enorme visibilidade do Megalitismo na região (antas, menires e cromeleques) contrastava com os ténues indícios do povoamento mais antigo, nomeadamente das fases iniciais do Neolítico.

Reguengos de Monsaraz, território com um extenso historial de pesquisas, é paradigmático desta realidade. Até ao início dos trabalhos do Alqueva, apenas se conheciam as antas e menires da região, com um longo trabalho de pesquisa, desde os trabalhos pioneiros de Georg e Vera Leisner nos anos 40 até aos trabalhos da UNIARQ, a partir de meados dos anos 80 do século XX.

Muitas antas, pouca gente?                           

Os trabalhos de minimização do impacto da construção da barragem do Alqueva na Arqueologia permitiram identificar as fases anteriores ao eclodir do Megalitismo na região, nomeadamente na transição Mesolítico/Neolítico. Na curva do Rio Guadiana, longe da principal concentração de antas, foram escavados entre 1998 e 2002 quatro habitats integráveis na transição Mesolítico/Neolítico (6º milénio a.n.e.): Carraça, Fonte dos Sapateiros, Xarez 4 e Xarez 12.

Em dois destes sítios (Xarez 12 e Carraça 1), foram identificadas estruturas de argila, revelando uma complexidade e sequência pouco conhecidas para este período.

Xarez 12 corresponde ao sítio com melhor preservação. A localização privilegiada sobre a margem direita do Guadiana atraiu grupos humanos numa longa cronologia, em regime de ocupação sazonal. A funcionalidade do sítio durante essa longa diacronia deverá ter-se mantido constante, relacionada com a caça (evidenciada na fauna e na abundância de projéteis – armaduras geométricas) e com a concentração de estruturas para combustão (no total: 33).

As estruturas associadas à fase mais antiga teriam uma funcionalidade de forno culinário, registando-se a presença de ossos de suídeos e conchas de amêijoa de rio no interior  (carne de porco à alentejana no Neolítico?).    

Face à importância científica e patrimonial dos fornos de Xarez 12, quando as águas da Barragem já quase atingiam a cota de 136 m (altitude média do sitio) foram removidas 7 das 33 estruturas de argila. Foram depositadas no Museu Nacional de Arqueologia e 13 anos depois são exibidas pela primeira vez.

A «peça» do mês é entendida num sentido mais lato, porque os Museus de Arqueologia são sempre museus de sítios, e porque temos uma parte do sítio no Museu.

Relatório de Mário Jorge de Almeida

















quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A propósito de uma justa homenagem


Associando-se publicamente à justa e oportuna homenagem ao Professor José d'Encarnação que ontem mesmo teve lugar na Universidade de Coimbra, o meu colega e amigo de longa data, Francisco Sande Lemos acaba de divulgar um pequeno mas emotivo texto na ARCHPORT do qual gostaria de destacar em particular a última parte:

"A terminar recordo um tempo que já se foi, mas que ficou na memória de ambos (e de outros, suponho) como um momento único: as sessões do Conselho Consultivo do IPPC, na década de 80 do século passado. Quando um dia se publicarem as actas dessas reuniões, decisivas para a História recente da Arqueologia Portuguesa, num contexto em que as principais decisões eram assumidos por um colectivo que representava Serviços e Museus do Instituto, bem como as Universidades, será possível verificar como José d`Encarnação foi e tem sido, um dos pilares da Arqueologia Portuguesa."

Com efeito, apesar da verdura dos anos, tive a oportunidade de ser testemunha activa em muitas dessas sessões, mesmo quando estas ainda se realizavam num austero andar à Alameda Afonso Henriques (antiga sede da Junta Nacional de Educação) e onde conheci figuras como Bairrão Oleiro, Nunes de Oliveira, Carmelo Rosa, Georges Zbyzewski ou João de Freitas Branco, entre outros, com quem muito aprendi. Vem dos trabalhos dessa comissão (eventualmente já no Palácio da Ajuda) o meu primeiro contacto com José d'Encarnação, que alternava com o Professor Jorge Alarcão ou o Vasco Mantas, na representação da Universidade de Coimbra nesse "histórico" forum. E vem daí uma velha e ininterrupta amizade, ainda que hoje ela se traduza especialmente na troca de informações e piropos sobre filhos e netos...

A propósito das palavras sempre avisadas de Francisco Sande Lemos e rebuscando no meu "arquivo" de velharias, encontrei um "parecer" de 1993 que aqui deixo a título de curiosidade historiográfica. Destaco o parágrafo em que me refiro a Comissão Nacional Provisória de Arqueologia (1981-1985) a cujas reuniões cheguei a presidir como Director do Departamento de Arqueologia e em substituição dos Drs João Bairrão Oleiro ou Justino Mendes de Almeida, na qualidade de vice-presidentes do IPPC com o "pelouro" da Arqueologia.

 Em nossa modesta opinião a composição e modo de funcionamento da CNPA terá sido a fórmula que mais se aproximou do modelo em vigor noutros países ocidentais e que, pese embora normais deficiências de funcionamento, congregou maior aceitação por parte da comunidade arqueológica. No campo da representatividade, para além da presença de elementos de diversos organismos do IPPC (Departamento de Arqueologia, Serviços Regionais e Museus) há a referir a participação de representantes dos Monumentos Nacionais, Serviços Geológicos de Portugal e associações de defesa do património, mas sobretudo e nessa qualidade, de representantes das Universidades com tradição arqueológica. No que diz respeito ao funcionamento recorde-se que a CNPA não era considerada uma comissão interna do IPPC, sendo todos os seus pareceres homologados pelo Secretário de Estado da Cultura, o que lhe dava uma autoridade inquestionável, mesmo em matérias mais polémicas ou controversas. Tratou-se de facto, em nossa opinião de um período disciplinador da actividade arqueológica, passando obrigatoriamente pela CNPA, para além dos Planos Anuais de Trabalhos Arqueológicos e respectivo financiamento, todo e qualquer pedido de autorização (mesmo nos casos de urgência, que, no mínimo, eram ractificados "a posteriori").