segunda-feira, 9 de novembro de 2015

O sítio nº 1 do ENDOVÉLICO

Todos os arqueólogos portugueses sabem o que é o "ENDOVÉLICO", a base de dados arqueológicos que foi buscar o seu nome a uma conhecida divindade pré-romana do SW peninsular e onde são registados os sítios arqueológicos que vão sendo referenciados no território nacional e que hoje conta com mais de 30 000 entradas. Poucos talvez saibam qual o sítio que tem o CNS 1, e ainda menos qual a explicação que está por trás desse facto. 

Embora criada em meados dos anos 90 por uma equipa informática liderada pelo Prof. Ribeiro da Costa da Universidade Nova, a actual base de dados do Endovélico teve atrás de si antecedentes de "papel" que remontam aos anos setenta, à então Direcção Geral do Património Cultural. Com efeito data de 1976 a primeira tentativa séria de organização de uma "Carta Arqueológica de Portugal", facto que já evoquei neste blog http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/01/do-projecto-da-carta-arqueologica-de.html. Seria no âmbito desse projecto que Judite Cavaleiro Paixão, licenciada em História mas com a especialização em BAD (Bibliotecas, Arquivo e Documentação) contratada especificamente para esse efeito em 1976, procuraria introduzir um sistema convencional de recuperação e organização da informação arqueológica que passava pelos serviços da SEC (cartas, ofícios, requerimentos, relatórios, recortes de imprensa, etc...), material que serviria de apoio á gestão corrente mas que, em última análise consubstanciaria o suporte documental da "Carta Arqueológica de Portugal". Numa época em que a informática, pelo menos entre nós, pouco adiantaria neste campo, o passo seguinte, previsto na proposta da Judite Paixão, passava pela "microfilmagem" sistemática de toda a informação, o que permitiria a prazo, uma busca mais rápida da informação para efeitos de gestão ou investigação. Para esse efeito JCP desenvolveu toda uma proposta de organização que seria editada em 1980 pelo próprio IPPC, entretanto criado em substituição da DGPC. 



Nomeada em 1980 "Chefe de Divisão de Documentação e Inventário" do Departamento de Arqueologia do IPPC, entretanto instalado no Museu Nacional de Arqueologia no final desse ano, seria nesse âmbito que JCP, coordenando uma pequena equipa, iria concretizar a sua proposta. Cada sítio arqueológico dava origem a uma "ficha informativa principal" com os dados básicos disponíveis sobre a mesma, a que se juntavam depois fichas complementares onde seriam referenciados e comentados todos os documentos relevantes sobre o sítio. Completavam a documentação de cada sítio, guardada numa caixa arquivador tipo A4, fotos quando existentes, e a localização num extracto da respectiva carta militar portuguesa, na escala 1: 25 000. Naturalmente era necessário arrumar a caixa e conhecer a sua localização em caso de necessidade de consulta ou de complemento dos dados, e para isso existia o nº básico de "ordem" de preenchimento, ou seja o antecedente do actual CNS, Código Nacional de Sítio. E, por mero acaso, a ficha nº1 a ser preenchida correspondeu a um obscuro sítio arqueológico romano, "Alto da Cidreira" descoberto na altura e por acaso nos arredores de Cascais no meio de uma "urbanização clandestina". A troca de ofícios entre a Câmara Municipal e o IPPC, bem como algumas notícias na imprensa, haviam dado origem a um processo administrativo então em curso, que foi usado por JCP como modelo ou protótipo do que seria a futura base do "serviço de documentação e informação arqueológica". O sítio entretanto escavado e estudado por José d'Encarnação e Guilherme Cardoso, viria a ser classificado em 1992, mas as circunstâncias da sua descoberta e localização, ainda hoje se reflectem nas suas precárias condições de preservação. A título de curiosidade anexamos os links para a actual ficha do Endovélico (CNS1), para a ficha de classificação da DGPC e ainda para um inventário de iniciativa particular, associado ao conhecido blog "Portugal Romano":




Alto da Cidreira_ foto "Portugal Romano"

E, já agora, a listagem dos primeiros 10 sítios do CNS do ENDOVÉLICO, todos eles herdeiros da primeira listagem trabalhada pela equipa de Judite Cavaleiro Paixão e, certamente, selecionados já por atributos algo diversos aos do Alto da Cidreira:

CNS 1- Alto da Cidreira, Cascais
CNS 2- Ruínas romanas de Tróia, Grandola (Sítio onde JCP e seu marido António Cavaleiro Paixão trabalharam com Fernando de Almeida);
CNS 3- Ruínas de Pisões, Beja
CNS 4- Ruínas de Miróbriga, Santiago do Cacém
CNS 5- Ruínas romanas dos Casais Velhos, Cascais (não muito longe do Alto da Cidreira)
CNS 6- Citânia de Sanfins, Paços de Ferreira
CNS 7- Barragem romana do Muro dos Mours, Serpa
CNS 8- Ruínas de São Cucufate, Vidigueira
CNS 9- Ruínas romanas de Milreu, Faro
CNS 10- Castelo de Castro Laboreiro, Melgaço

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

BRACARA AUGUSTA

Estará disponível a partir de hoje em Évora, na Galeria da Rua de Burgos (Direção Regional de Cultura do Alentejo) uma interessante e pouco comum exposição divulgando um conjunto de propostas académicas de intervenção arquitectónica envolvendo ruínas romanas localizadas em meio urbano. A exposição, de carácter documental mas incluindo algumas maquetes, intitula-se “Intervenção arquitectónica em contexto arqueológico. Propostas e desafios para a cidade de Braga” e nela se apresentam projectos realizados por alunos do Curso de Estudos Avançados em Património Arquitectónico, da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto sob a coordenação do Professor Pedro Alarcão. Poderá dizer-se que Évora, cidade de elevados pergaminhos romanos (o seu conhecido foral manuelino exibe com grande destaque o título de Ebura Colonia Romana) é adequada anfitriã para esta iniciativa, podendo a sua visita despertar o interesse e a curiosidade dos estudantes da jovem escola de arquitectura local. Mas haverá que não esquecer algumas diferenças estruturais essenciais entre os casos de Bracara Augusta e de Ebora Liberalitas Julia, diferenças que se reflectem na forma muito distinta como esse património se insere nas malhas urbanas contemporâneas. Pessoalmente, é sempre com alguma nostalgia que cito a experiencia de Braga e do seu Campo Arqueológico nascido na segunda metade dos anos 70, como produto típico das transformações sociais e culturais proporcionadas pelo 25 de Abril. A expansão urbanística explosiva em Braga era já uma realidade quando se deu a “revolução”, mas foi o movimento patrimonialista gerado por esta que proporcionou a necessidade e criou as condições para, à boleia da jovem Universidade do Minho, se instalar na cidade o Campo Arqueológico de Bracara Augusta visando "salvar" o que ainda não fora engolido pelas urbanizações. Ainda que num ambiente muito difícil (perante o "peso" dos construtores civis) pela primeira vez em Portugal se inconstitucionalizava um verdadeiro programa de “arqueologia urbana” visando o salvamento da memória histórica da cidade antiga através da escavação, estudo e valorização dos seus vestígios arqueológicos. Por outro lado, e essa era também uma novidade entre nós, o Campo Arqueológico vinha criar no final dos anos setenta as primeiras oportunidades de profissionalização nesta área, as quais viriam a ser aproveitadas por alguns colegas da minha geração que iniciaram as suas carreiras no âmbito deste projecto pioneiro. Entre outros destaco a Manuela Martins (colega de faculdade e amiga desde os tempos do salvamento da arte rupestre do Tejo), actualmente professora catedrática e responsável pela Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho e que nessa qualidade estará hoje em Évora na abertura desta exposição. Mas, como já tenho referido noutras ocasiões, não posso também de deixar destacar o papel importantíssimo que o Campo Arqueológico de Bracara Augusta teve para as transformações que a Arqueologia portuguesa viria a conhecer no início dos anos 80. Para além de escola de campo e de tirocínio para muitos arqueólogos (a começar pelo seu "fundador" e primeiro Director, Francisco Alves que em 1980 transitaria directamente para a Direcção do Museu Nacional de Arqueologia e do Departamento de Arqueologia do IPPC) a sua estrutura esteve na origem da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, serviço que por sua vez acolheria também em 1980 o novo Serviço Regional de Arqueologia do Norte, dependente da SEC, bem como o futuro Museu de Arqueologia de Braga, D.Diogo de Sousa, cuja sede viria a integrar importantes vestígios romanos "salvos" pelo Campo Arqueológico. Apesar dos sucessos que se traduzem hoje na musealização de vários conjuntos arqueológicos preservados ou nos "estudos e projectos" para outros, a "arqueologia urbana" em Braga nem sempre foi uma via unívoca. Bem pelo contrário, períodos houve de grande tensão, dado o peso dos tais "construtores" junto dos poderes instituídos. Em anexo recordo na sua versão original (foi reeditado em Raposo & Silva, A linguagem das Coisas, Europa-América, 1996, pg 394), um texto que publiquei no Diário de Notícias de 16 de Junho de 1994, precisamente num período muito complicado para a salvaguarda das memórias materiais da velha Bracara Augusta. 

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Os "fornos" do Xerez e o MNA



No último sábado, dia 31 de Outubro, no contexto das actividades paralelas à exposição "Alqueva, 20 anos de obra 200 Milénios de História" e seguindo o modelo de palestras no Museu Nacional de Arqueologia a propósito d' "A peça do mês", os Professores da Faculdade de Letras de Lisboa, Victor Gonçalves e Ana Catarina de Sousa proferiram naquele Museu uma intervenção sobre a importância e significado das "estruturas de combustão" descobertas pela equipa que ambos dirigiram no âmbito dos trabalhos de salvamento arqueológico do Alqueva, algumas das quais se encontram expostas com grande destaque na referida exposição. Da informação-convite do MNA transcrevemos o texto de apresentação das referidas estruturas, também conhecidos pela gíria arqueológica como "fornos do Xerez (ou Xarez, na grafia menos usual mas preferida pelo Prof. Victor Gonçalves) e cuja descoberta veio confirmar a extrema importânca da planície em causa, encaixada entre as colinas de Monsaraz e o Guadiana, e onde para além de múltiplos vestígios megalíticos, já anteriormente conhecidos, os trabalhos do Alqueva vieram revelar uma vasta miríade de sítios comprovando uma intensa e sucessiva ocupação humana em todas as épocas pré-históricas.

Sobre este sítio, gostaria no entanto, de referir alguns dados pouco referenciados mas que merecem registo. Antes de mais lembrar que o Xerez 12 foi identificado, graças à presença de alguns materiais de superfície, por uma equipa de prospecção ao serviço da EDIA, dirigida por José Perdigão e que no segundo semestre de 1996, sob minha coordenação, procedia no campo à revisão (parcial) dos dados de inventário arqueológico disponíveis sobre o território a inundar pela futura barragem. Esta "baixa do Xerez", hoje totalmente alagada, foi precisamente uma das zonas então selecionada para adensamento da prospecção por haver consciência da sua particular importância (eu próprio com Luis Raposo ali fizera sondagens no final dos anos 70, num sítio que denominámos "Xerez de Baixo"). Diga-se, em abono da verdade que mesmo assim, algumas equipas, nomeadamente as equipas responsáveis pelo estudo do Paleolítico ou da Pré-história recente, viriam a identificar novos e importantes sítios nesta zona, já em plena actividade de minimização, mostrando que a prospecção nunca está completa... 

Um outro dado importante que não pode ser ignorado, relacionado com o Xerez 12, tem que ver precisamente com a operação de "remoção e armazenamento" de algumas das estruturas identificadas nas escavações de Victor Gonçalves e Ana Catarina de Sousa. No processo de reflexão e decisão pré-inundação que promovemos e uma vez garantido o "registo possível" dos dados observados nas centenas de escavações empreendidas no Vale do Guadiana, mais do que a remoção e descontextualização de estruturas ou fragmentos de estruturas escavados (exceptuando, naturalmente os "artefactos" e outras "amostragens" com vista à posterior análise laboratorial) foi nossa preocupação proceder a um conjunto de trabalhos de "selagem in situ" que, teoricamente contribuíssem para aumentar as hipóteses de sobrevivência desses sítios aos efeitos catastróficos da inevitável inundação (aliás, a propósito do Castelo da Lousa, já neste Blog citei o artigo onde com Delgado Rodrigues e Joaquim Garcia, abordo essa experiência).
Naturalmente, também neste caso não deixou de haver algumas excepções. O caso mais conhecido é o do "Cromeleque do Xerez" que após inconclusivas escavações de Mário Varela Gomes, decidimos desmontar e remover para nova localização, respeitando no essencial a antiga interpretação "reconstrutiva" do seu descobridor original, o Dr Pires Gonçalves, apesar de todas as críticas e polémicas (ver o "post" que dedicámos a esse assunto:
http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/05/para-historia-do-cromeleque-do-xerez-o.html ). Mas, de algum modo, o Xerez 12 destaca-se na curta lista de sítios onde foi decidido amputar e guardar uma parte, pensando sobretudo no seu potencial interesse museológico. A par da recuperação e conservação museológica de uma secção de um "corte estratigráfico" do sítio da Barca do Xerez (também agora exposto no MNA, uma tarefa concretizada no campo em colaboração com a equipa de arqueologia da STEA, dirigida pela arqueóloga Ana Cristina Araújo) foi decidido por proposta da equipa de Victor Gonçalves, proceder à consolidação, destacamento e transporte de algumas das estruturas ou fornos escavados em Xerez 12. Essa operação, seria concretizada no terreno (2002/2003?) por uma equipa do MNA dirigida pelo técnico Mário Jorge Almeida, no âmbito de um protocolo estabelecido entre a EDIA e aquele Museu expressamente para esse efeito. Num momento em que, finalmente, mais de uma década depois, o público tem oportunidade de observar estas estruturas, pareceu-me que seria de toda a justiça aqui referir também este aspecto, aproveitando a oportunidade para divulgar o Relatório produzido posteriormente pelo seu responsável e a quem aqui agradeço a sua disponibilização para esse efeito.

Texto de apoio ao convite do MNA para a palestra de 31 de Novembro de 2015
Xarez 12 (Reguengos De Monsaraz, Évora) e as primeiras arquitecturas de terra do centro e sul de Portugal: as estruturas de combustão e os seus contextos

Comentada por Victor S. Gonçalves e  Ana Catarina Sousa
Durante largas décadas, o Neolítico antigo do interior alentejano era virtualmente desconhecido no registo arqueológico. A enorme visibilidade do Megalitismo na região (antas, menires e cromeleques) contrastava com os ténues indícios do povoamento mais antigo, nomeadamente das fases iniciais do Neolítico.

Reguengos de Monsaraz, território com um extenso historial de pesquisas, é paradigmático desta realidade. Até ao início dos trabalhos do Alqueva, apenas se conheciam as antas e menires da região, com um longo trabalho de pesquisa, desde os trabalhos pioneiros de Georg e Vera Leisner nos anos 40 até aos trabalhos da UNIARQ, a partir de meados dos anos 80 do século XX.

Muitas antas, pouca gente?                           

Os trabalhos de minimização do impacto da construção da barragem do Alqueva na Arqueologia permitiram identificar as fases anteriores ao eclodir do Megalitismo na região, nomeadamente na transição Mesolítico/Neolítico. Na curva do Rio Guadiana, longe da principal concentração de antas, foram escavados entre 1998 e 2002 quatro habitats integráveis na transição Mesolítico/Neolítico (6º milénio a.n.e.): Carraça, Fonte dos Sapateiros, Xarez 4 e Xarez 12.

Em dois destes sítios (Xarez 12 e Carraça 1), foram identificadas estruturas de argila, revelando uma complexidade e sequência pouco conhecidas para este período.

Xarez 12 corresponde ao sítio com melhor preservação. A localização privilegiada sobre a margem direita do Guadiana atraiu grupos humanos numa longa cronologia, em regime de ocupação sazonal. A funcionalidade do sítio durante essa longa diacronia deverá ter-se mantido constante, relacionada com a caça (evidenciada na fauna e na abundância de projéteis – armaduras geométricas) e com a concentração de estruturas para combustão (no total: 33).

As estruturas associadas à fase mais antiga teriam uma funcionalidade de forno culinário, registando-se a presença de ossos de suídeos e conchas de amêijoa de rio no interior  (carne de porco à alentejana no Neolítico?).    

Face à importância científica e patrimonial dos fornos de Xarez 12, quando as águas da Barragem já quase atingiam a cota de 136 m (altitude média do sitio) foram removidas 7 das 33 estruturas de argila. Foram depositadas no Museu Nacional de Arqueologia e 13 anos depois são exibidas pela primeira vez.

A «peça» do mês é entendida num sentido mais lato, porque os Museus de Arqueologia são sempre museus de sítios, e porque temos uma parte do sítio no Museu.

Relatório de Mário Jorge de Almeida

















quinta-feira, 29 de outubro de 2015

A propósito de uma justa homenagem


Associando-se publicamente à justa e oportuna homenagem ao Professor José d'Encarnação que ontem mesmo teve lugar na Universidade de Coimbra, o meu colega e amigo de longa data, Francisco Sande Lemos acaba de divulgar um pequeno mas emotivo texto na ARCHPORT do qual gostaria de destacar em particular a última parte:

"A terminar recordo um tempo que já se foi, mas que ficou na memória de ambos (e de outros, suponho) como um momento único: as sessões do Conselho Consultivo do IPPC, na década de 80 do século passado. Quando um dia se publicarem as actas dessas reuniões, decisivas para a História recente da Arqueologia Portuguesa, num contexto em que as principais decisões eram assumidos por um colectivo que representava Serviços e Museus do Instituto, bem como as Universidades, será possível verificar como José d`Encarnação foi e tem sido, um dos pilares da Arqueologia Portuguesa."

Com efeito, apesar da verdura dos anos, tive a oportunidade de ser testemunha activa em muitas dessas sessões, mesmo quando estas ainda se realizavam num austero andar à Alameda Afonso Henriques (antiga sede da Junta Nacional de Educação) e onde conheci figuras como Bairrão Oleiro, Nunes de Oliveira, Carmelo Rosa, Georges Zbyzewski ou João de Freitas Branco, entre outros, com quem muito aprendi. Vem dos trabalhos dessa comissão (eventualmente já no Palácio da Ajuda) o meu primeiro contacto com José d'Encarnação, que alternava com o Professor Jorge Alarcão ou o Vasco Mantas, na representação da Universidade de Coimbra nesse "histórico" forum. E vem daí uma velha e ininterrupta amizade, ainda que hoje ela se traduza especialmente na troca de informações e piropos sobre filhos e netos...

A propósito das palavras sempre avisadas de Francisco Sande Lemos e rebuscando no meu "arquivo" de velharias, encontrei um "parecer" de 1993 que aqui deixo a título de curiosidade historiográfica. Destaco o parágrafo em que me refiro a Comissão Nacional Provisória de Arqueologia (1981-1985) a cujas reuniões cheguei a presidir como Director do Departamento de Arqueologia e em substituição dos Drs João Bairrão Oleiro ou Justino Mendes de Almeida, na qualidade de vice-presidentes do IPPC com o "pelouro" da Arqueologia.

 Em nossa modesta opinião a composição e modo de funcionamento da CNPA terá sido a fórmula que mais se aproximou do modelo em vigor noutros países ocidentais e que, pese embora normais deficiências de funcionamento, congregou maior aceitação por parte da comunidade arqueológica. No campo da representatividade, para além da presença de elementos de diversos organismos do IPPC (Departamento de Arqueologia, Serviços Regionais e Museus) há a referir a participação de representantes dos Monumentos Nacionais, Serviços Geológicos de Portugal e associações de defesa do património, mas sobretudo e nessa qualidade, de representantes das Universidades com tradição arqueológica. No que diz respeito ao funcionamento recorde-se que a CNPA não era considerada uma comissão interna do IPPC, sendo todos os seus pareceres homologados pelo Secretário de Estado da Cultura, o que lhe dava uma autoridade inquestionável, mesmo em matérias mais polémicas ou controversas. Tratou-se de facto, em nossa opinião de um período disciplinador da actividade arqueológica, passando obrigatoriamente pela CNPA, para além dos Planos Anuais de Trabalhos Arqueológicos e respectivo financiamento, todo e qualquer pedido de autorização (mesmo nos casos de urgência, que, no mínimo, eram ractificados "a posteriori"). 





terça-feira, 27 de outubro de 2015


Uma oportunidade perdida

O núcleo da memória da Aldeia da Luz: Monte dos Pássaros, cemitério, Museu e Igreja Matriz


Sempre que passo no Museu da Luz, tenho uma indisfarçável sensação de "oportunidade perdida". Não que isso tenha algo a ver com o Museu ou o modo como tem sido gerido, bem pelo contrário... (até porque considero aquele Museu, para o qual ainda dei algum contributo, como uma das heranças mais interessantes do Alqueva). Mas porque com um pouco mais de visão e de capacidade interventiva da parte do acompanhamento cultural do "projecto Alqueva", esta estrutura poderia ter ajudado a minorar aquela que considero a falha mais grave do Plano Arqueológico do Alqueva (na sua fase "barragem"), que em quase todos os restantes aspectos correu relativamente bem, incluindo a fase de publicação e divulgação de resultados recentemente concluída. Refiro-me em concreto aos problemas de gestão dos numerosos espólios arqueológicos recolhidos, hoje dispersos pelas mais variadas instituições (se não mesmo, nalguns casos ainda à "guarda" dos arqueólogos coordenadores de projectos). Consciente das previsíveis dificuldades neste domínio, bem cedo procurei como responsável geral do Projecto, constituir uma "Reserva Arqueológica do Alqueva", inicialmente integrando os materiais recolhidos no âmbito das prospecções e dos diversos EIAs, mas que verdadeiramente  pouco mais representava nos seus primeiros tempos, do que um espaço de armazenamento temporário, dada a total falta de meios humanos que assegurassem o normal funcionamento de uma estrutura deste tipo. Já com as escavações em curso ao longo do Vale do Guadiana, a Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz, chegar-se-ia "à frente", com a proposta de um Museu Regional de Arqueologia que viesse a absorver os resultados científicos e materiais do grande projecto, propondo-se desde logo assegurar a constituição da respectiva "reserva". Paralelamente a EDIA, no âmbito das contrapartidas pelo "afundamento" da Aldeia da Luz, propunha-se construir um Museu na nova aldeia. Porém, porque se tratava á partida de um museu etnomonográfico e por outro porque os orçamentos eram curtos face às múltiplas exigências de uma população desgastada pela "espera" e acicatada pelos "media", o programa original deste museu nunca foi além dos estreitos limites da "memória da aldeia" (felizmente a sua direção tem sabido ultrapassar o que são as suas limitações de espaço e meios, com actividades que extravasam em muito o  âmbito local a que parecia condenado...). Cumulativamente, a Administração da EDIA, algo assustada com a dimensão que os trabalhos arqueológicos haviam assumido, julgo que terão rejubilado com a proposta da Câmara Municipal de Reguengos. De facto, em vez de reagir negativamente a uma proposta que poderia acarretar grandes custos financeiros para o Empreendimento (mas que, de facto seria uma sua responsabilidade), aceitaram de bom grado a iniciativa autárquica, financiando até alguns dos estudos  museológicos então promovidos pela Câmara. Mas, tornou-se rapidamente óbvio que a Empresa EDIA não tinha qualquer intenção de se comprometer com o projecto de um grande Museu de Arqueologia remetendo sempre para o "Estado" accionista e concretamente para o Ministério da Cultura, uma qualquer decisão nesse sentido. Para mim, embora já fosse tarde para reverter a situação, tornou-se evidente a certa altura de que a solução ideal, teria passado por um Museu da Luz com outra ambição e naturalmente com outro programa. Mesmo sem imaginarmos uma estrutura muito pesada do ponto de vista técnico ou administrativo (que hoje seria incomportável) poderíamos no entanto imaginar, ao lado da relativamente contida área expositiva e social do actual Museu e tirando partido do próprio terreno, um grande mas simples armazém capaz receber e conservar a grande maioria dos materiais arqueológicos do Alqueva, hoje completamente dispersos. Há no entanto uma feliz excepção àquela dispersão: desde há bastante tempo que o Museu da Luz, tirando partido do espaço anexo do vizinho Monte dos Pássaros, conserva os materiais das escavações realizadas na Freguesia da Luz, incluindo as das escavações no Castelo da Lousa.
Com um pouco mais de visão, o Museu da Luz, a par da memória da velha aldeia, poderia ter agregado a função de Centro de Património e Arqueologia do Alqueva, integrando um Centro de Documentação e uma Reserva Arqueológica.
Algures em 2002, numa altura em que o Museu da Luz estava já em adiantada construção, tendo consciência de que o projecto da Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz, na sua concepção original de grande Museu Regional de Arqueologia, estava condenado ao insucesso, ainda tentei junto da administração da EDIA fazer passar uma proposta faseada que me parecia aceitável: num primeiro momento, tirando partido do terreno disponibilizado pela autarquia para a reconstituição do "Cromeleque do Xerez", salvo das águas, sugeria a instalação de um "Centro de Património e Arqueologia de Alqueva", com uma dupla função: enquadrar a visita pública ao monumento reinstalado, ele próprio um símbolo do projecto de salvamento arqueológico e constituir uma área de reserva documental e armazém dos espólios do projecto arqueológico do Alqueva. Se tudo corresse bem e se angariassem futuramente os meios necessários, o Centro poderia mais tarde evoluir para um verdadeiro Museu. Infelizmente, a proposta cairia em saco roto e hoje, até o "Cromeleque" reconstituído parece esquecido e abandonado na baixa de Monsaraz.

O cartaz que anunciava o ambicioso projeto da Câmara Municipal de Reguengos para constituição do "Museu de Arqueologia do Alqueva"
O Cromeleque do Xerez pouco depois de reinstalado nas proximidades do Convento da Orada (Monsaraz), e que deveria ficar associado ao futuro Museu de Arqueologia do Alqueva


Em anexo, divulgo um pequeno memorando que reencontrei nos meus "papéis" sugerindo a constituição de um Centro de Património e Arqueologia do Alqueva", como primeira fase para o projeto do Museu...







terça-feira, 20 de outubro de 2015

PORTUGAL MEGALÍTICO

Anta da Herdade da Ordem, Avis



Havia uma velha polémica entre os arqueólogos, hoje penso que ultrapassada, sobre as vantagens e desvantagens da divulgação de dados topográficos precisos sobre sítios e monumentos arqueológicos. Argumentavam os opositores à difusão da informação de que esta era um convite aos saqueadores e utilizadores de detectores de metais. Outros porém (onde quase sempre militei) achavam que quanto mais conhecimento houvesse sobre sítios com potencial interesse arqueológico mais probabilidade haveria de estes serem objecto da curiosidade e interesse do público e portanto alvo de alguma forma de vigilância ou salvaguarda. É óbvio que não há nesta como em muitas outras matérias, princípios absolutos e haverá que caso a caso pesar os prós e os contras. Contudo, diz-nos a experiência que a ignorância (nas suas variadas modalidades...) é uma das principais causas de destruição de sítios e monumentos arqueológicos. E entre as vítimas mais comuns encontraremos certamente os "monumentos megalíticos", em particular quando o seu grau de preservação está já longe de corresponder ao estereotipo comum das grandes pedras alçadas sobrepostas por uma lage, dando-lhe aquele inconfundível ar de enorme "mesa pré-histórica". Daí que todas as iniciativas que contribuam para a sua identificação e sinalização sejam bem vindas, dificultando à partida situações como as que deparei ao longo da minha vida profissional, de muitos monumentos registados há meio século se terem desvanecido (ou "desistido", como me disse uma vez um pastor...), de outros acabados de desmantelar com os pretextos mais abstrusos e sem que as queixas presentes em tribunal tivessem consequências ("porque não eram monumentos classificados, alegando os destruidores desconhecimento do que estava em causa...").Etc... Daí que iniciativas como a do "Portugal Megalítico" (cujo LINK acima se regista) Portugal Megalítico , que conta já com duas centenas de monumentos megalíticos (antas, menires e cromeleques) referenciados com grande precisão no GoogleMaps, possam ser uma valiosa ferramenta para a salvaguarda do que resta deste vasto património pré-histórico tão característico de algumas regiões do nosso território. Apenas uma ressalva. Haverá maneira de quem quiser, ainda que de forma controlada, poder contribuir para enriquecer esta "base de dados pública"? Por mim terei todo o gosto em colaborar.

Aproveito para em anexo divulgar um texto quase com vinte anos mas que, infelizmente, continua actual...