segunda-feira, 11 de maio de 2015


O Castelo de Mourão, entre a NASA e a rotunda...

A recente notícia muito divulgada nas redes sociais, a propósito de uma fotografia de astronomia obtida por Miguel Claro no Castelo de Mourão e selecionada para imagem do dia no SITE da NASA, trouxe-me à memória os anos em que trabalhei em Mourão (1996-2002)  no âmbito do projeto do Alqueva. 
Fotografia © Miguel Claro/Reserva Dark Side Alqueva
http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=4557835&page=-1

Já conhecia bem o Castelo de Mourão, as suas potencialidades e problemas. Aliás, vinham ainda do tempo do meu antecessor na direcção do Serviço Regional de Arqueologia do Sul, Dr Caetano Melo Beirão, alguns ecos das destruições arqueológicas provocadas no interior do monumento, por uma precipitada obra de construção de um depósito de água municipal. Durante os anos em que colaborei com a EDIA, sempre que se falava em projectos de valorização patrimonial na área de influência directa do futuro lago, até como medida de compensação pelas perdas patrimoniais decorrentes da inundação, chamava sempre a atenção para o caso muito particular do Castelo de Mourão e das suas potencialidades. Um monumento que aliava a sua excepcional monumentalidade a um elevado nível de autenticidade, mas que por isso mesmo e em contrapartida apresentava graves problemas de conservação. Num dos documentos que então preparei, escrevi como introdução:

 O conjunto histórico-monumental conhecido por CASTELO DE MOURÃO, imóvel classificado como de “interesse público” (I.I.P.- Dec. nº 41 191, DG 162 de 18 Julho 1957) e propriedade da respectiva Câmara Municipal,  integra:

- uma cerca medieval extensa e respectiva “alcáçova”  com dominante “torre de menagem”;

- ruínas diversas da antiga vila “intra-muros”, incluindo a chamada “Casa do Governador”;

- um envolvente sistema de baluartes setecentistas em “estrela”, memória das guerras da Restauração;

- uma igreja oitocentista (Nª Sª das Candeias) integrada na própria muralha;


Por múltiplas razões, este conjunto monumental reúne valores próprios ou circunstanciais que, se devidamente aproveitados, lhe podem conferir uma importância excepcional enquanto  importante vector de desenvolvimento do turismo cultural na região de Alqueva e de melhoria da qualidade de vida em Mourão:

- alia um razoável estado de conservação das estruturas defensivas (medievais e setecentistas) a uma já rara vernaculidade historico-patrimonial, dadas as reduzidas intervenções verificadas  no Século XX, o que lhe confere elevado valor cultural no contexto dos castelos e fortificações da fronteira alentejana;

- mantém uma estreita relação com a malha urbana da Vila de Mourão, criando condições favoráveis à integração do espaço monumental na valorização da respectiva imagem urbana e permitindo, através da requalificação arquitectónica e paisagística e da introdução equilibrada de novos usos, melhorar objectivamente as condições de vida da população;

- encontra-se estrategicamente situado relativamente ao Regolfo de Alqueva, quer numa aproximação transversal (dada a sua posição central e de contraponto a Monsaraz, no eixo “Vila Nueva del Fresno/ Reguengos/ Évora) quer numa exploração longitudinal (eixo Elvas/ Mourão/ Alqueva) o que dá à situação e monumentalidade da “torre de menagem” um dominante ponto de observação sobre o “regolfo” de exploração  quase obrigatória;



- finalmente, este conjunto monumental, oferece condições objectivas excepcionais para instalação de infra-estruturas de cariz cultural com relevante impacto social, nomeadamente no âmbito histórico e artístico;

Infelizmente, por problemas vários que naturalmente mereceriam uma profunda e circunstanciada análise, nunca a Câmara de Mourão (a entidade proprietária, que o recebeu como "doação" de um antigo Presidente de Câmara cujos antepassados o haviam adquirido ao Estado no Século XIX) conseguiu concretizar quaisquer intervenções de requalificação ou valorização, mesmo nos tempos das aparentes vacas gordas em que os ministros faziam peregrinações frequentes à vizinha e então mediática Aldeia da Luz. Em contrapartida, a última vereação, talvez consciente da importância do monumento mas impotente em concretizar algo pela sua recuperação, acabou por "investir" em época de crise num inútil e ridículo  "Castelinho de Mourão", uma reprodução ao gosto do "Portugal dos Pequeninos", como decoração de uma das Rotundas na saída para Espanha.

O Castelo de Mourão no Livro das Fortalezas de Duarte d'Armas

Vistas aéreas do Castelo de Mourão e do seu complexo sistema abaluartado

O Castelo e a relação com a vila de Mourão

O "Castelinho" numa das rotundas de Mourão, na altura da foto ainda em fase de construção!


sexta-feira, 8 de maio de 2015




Memórias de infância
A aldeia do Carvalhal da Aroeira e a Serra d'Aires
Há tantos anos a morar e a trabalhar no Alentejo, a maior parte dos meus amigos e conhecidos pensam que sou alentejano. E na verdade já me sinto como tal. No entanto todas as minhas origens familiares, tanto quanto sei (nunca me interessou muito a genealogia), estão numa pequena aldeia, Carvalhal da Aroeira, nas fraldas nascentes da Serra d'Aire, a meia dúzia de quilómetros de Torres Novas. Dali saí, com 3 anos levado pelo fluxo migratório para os subúrbios de Lisboa dos anos 50, ainda antes da explosão migratória para França que ao longo dos anos 60 esvaziou quase por completo aquela e muitas outras aldeias do Centro e Norte. Mas, felizmente, não perdi logo o contacto a aldeia. Desde muito cedo que a minha mãe me levava à antiga paragem da "carreira" que havia em Sacavém, à porta da Fábrica da Louça, e me entregava aos cuidados do "condutor" (o pica bilhetes....) que me deixava algumas horas depois na paragem junto á venda do Galinha, o ponto mais próximo do Carvalhal em relação à  "estrada nova" (alcatroada...), onde algum dos numerosos tios (a minha mãe era uma das irmãs mais velhas de dez irmãos) me havia de apanhar, com burro ou a pé. Assim passei longos períodos das férias grandes, em casa da minha avó, ajudando os meus tios mais novos que ainda com ela viviam, nos trabalhos da casa (ir à água aos distantes poços públicos, tarefa hercúlea diária) ou do campo (sobretudo a apanha da uva e dos figos secos, as"passas", a principal fonte de subsistência à época), lendo os meus primeiros livros á noite, à luz do candeeiro, recolhidos na Biblioteca itinerante, e sobretudo brincando livremente pelos campos com os miúdos da mesma idade. Recordo em particular um amigo, exacatamente do meu ano, que vivia na casa ao lado da minha avó, e que viria a saber mais tarde, seria mias uma das vítimas da guerra colonial, como tantos outros que pontuam o cemitério da pequena aldeia.
Não sonhava então, longe disso, com arqueologias, nem na aldeia do Carvalhal parecem existir indícios interessantes (com excepção de hipotéticos vestígios paleolíticos nos terraços da Ribeira vizinha do Alvorão, pelo menos na avisada opinião do meu colega Francisco Almeida, com ligações à região, mas que actualmente se encontra a viver e trabalhar na Austrália) mas as férias na aldeia deram-me oportunidade de conhecer ainda a realidade do mundo rural que estava então a desaparecer muito rapidamente, com a emigração para Lisboa, a guerra colonial e finalmente a emigração massiva para a França. Alemanha, Canadá etc.... Como dizia o meu amigo Benjamim Pereira quando trabalhámos juntos nos estudos e levantamentos do Alqueva relacionados com a Aldeia da Luz e o respectivo Museu, "entre a época romana e os anos cinquenta do século XX, salvo uma ou outra tentativa de mecanização isolada, as condições de vida, os meios e os ritmos do trabalho nos campos portugueses, muito pouco haviam mudado". Daí a extraordinária importância do trabalho de levantamento e registo da equipa de Jorge Dias, em que Benjamim Pereira ainda participara, feito nos anos 50/60 no limiar do desaparecimento desse mundo. Daí a "sorte" de eu próprio ter tido ainda a experiência da aldeia sem estrada, sem eletricidade e sem água. Do colchão com palha que era preciso revolver ou mudar, do telhado sem forro, ou do chão de terra batida. Mas também das festas populares a que ninguém faltava. É verdade que não se pode ter saudades de condições de vida tão duras e por isso quando a brecha surgiu ninguém foi capaz de tapar a torrente... e hoje a aldeia, outrora cheia de vida, é hoje um conjunto de casas, por vezes apalaçadas, onde se vem dormir à noite ou nas férias de verão.
Veio tudo isto a propósito de um livro que me ofereceram, editado pela Câmara Municipal de Torres Novas em 2014, e onde fui encontrar através de algumas centenas de fotos particulares, pacientemente recolhidas por Luis Correia de Sousa, as memórias de uma aldeia desaparecida mas que ainda conheci. Foi também pretexto, para revisitar algumas das fotos que herdei dos meus pais...

O livro editado em 2014 pela CM de Torres Novas

A "carreira" dos Claras, anos 30  (pg.158)

O burro com a canga e as bilhas para ir ao poço à água (pg 109)
A escolha dos figos secos ("passas") nos tabuleiros de secagem. (pg. 105)
O amanho da terra, como na época romana....como dizia Benjamim Pereira (pg.116)
Festa com cortejo de "fogaças", a versão local dos "tabuleiros" de Tomar (pg.317)



Pg.201
Grupo de raparigas da JOC (Juventude Operária Católica) junto á Igreja do Carvalhal, no início dos anos 40. Foram obtidas na mesma altura, sem dúvida. A de cima está publicana no livro "Escrito no tempo". Esta recolhi-a nas coisas da minha mãe (em cima a última à direita, em baixo, a 2ª a partir da esquerda).


Grupo, pg 23

São numerosas as fotos de grupo publicadas no livro "Escrito no tempo", mas o autor não teve acesso a esta interessantíssima foto que herdei do meu pai (no meio do grupo, de camisola e cigarro na boca).


Fotos acrescentadas em 17 de Maio de 2018


À porta da casa do meu Tio Manuel, na Rua da Saudade (ao Cemitério do Carvalhal), com os meus primos e as minhas irmãs. Início dos anos 60.

Não me recordo do nome do "ciclista". A  foto  tem interesse porque mostra a situação inacabada da Igreja Nova nos anos 60 que, por falta de meios, assim ficou durante largos anos...


Início dos anos 60 do século XX. No "poço" de uma fazenda logoa abaixo da Igreja Nova, então ainda não concluída. Não recordo o nome do rapaz da foto (José Augusto?), um pouco mais velho do que eu mas com quei me cruzei ainda no seminário de Santarém ou Almada.

quinta-feira, 7 de maio de 2015



Para a história do "Cromeleque do Xerez"

O Cromeleque do Xerez, ainda na sua localização resultante do restauro de Pires Gonçalves, na Herdade do Xerez. Toda esta área encontra-se actualmente submersa
Em recente entrada para este Blog referi a actual situação do "remontado" Cromeleque do Xerez e recordei as circunstancias decorrentes dos trabalhos arqueológicos realizados no Alqueva que estiveram na origem daquela que foi a única "transposição" de um monumento arqueológico ensaiada no âmbito daquele projecto. Poderíamos referir a situação da antiga Igreja da Luz (e valerá a pena um dia recordar esse tema) mas nesse caso, assistimos à construção de um "pastiche", a que se agregaram alguns elementos recuperados da igreja antiga, entretanto demolida. Volto ao tema do Cromeleque, porque reencontrei um delicioso texto do Professor Raul Miguel Rosado Fernandes que, com a devida vénia, não resisto em reproduzir na íntegra, até porque o original, constando de um livro de 2009 de homenagem ao Professor Doutor Mário de Albuquerque, não deve ser muito acessível para arqueólogos. Rosado Fernandes, conhecido do grande público por ter sido a certa altura dirigente da CAP (Confederação dos Agricultores Portugueses) foi até à construção da Barragem do Alqueva proprietário da Herdade do Xerez, que coincidia em parte com uma uma extensa bacia na margem direita do Guadiana, a Sul de Monsaraz, a qual pelas suas características e localização, se revelou como um verdadeiro "palimpsesto" pré-histórico. Para além do Cromeleque e outros menires avulsos identificados por Pires Gonçalves e da Anta do Xerez, referenciada pelos Leisner como bem refere no texto, os trabalhos associados ao Alqueva aí levaram à identificação de uma miríade de vestígios de ocupações humanas pré-históricas, obrigando a uma especial concentração nesta área de acções de investigação. De entre os sítios mais importantes aqui referenciados, recordamos ainda o acampamento epipaleolítico da Barca do Xerez ou o habitat do neolítico antigo do Xerez 12, onde foram descobertos e escavados vários fornos culinários. Foi precisamente a descoberta do sítio da Barca do Xerez que motivou uma visita a esta Herdade, algures no início de 1998, da Comissão Científica instituída pela EDIA para acompanhamento dos trabalhos arqueológicos do Alqueva. Esta integrava os arqueólogos Luis Raposo, Vitor Oliveira Jorge e Jorge Alarcão, a historiadora Maria José Ferro e o Arquitecto Pedro Fialho (já falecido), académicos quase todos conhecidos de Rosado Fernandes, ele próprio Catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Recordo bem o momento em que alertado pela passagem de várias viaturas no casario do Monte do Xerez de Baixo, Rosado Fernandes apareceu em fato de macaco que já conhecera melhores dias, e de como, ao reconhecer tantos e distintos colegas, citou Tolstoi, ironizando com a sua desajeitada indumentária rural. No texto que aqui divulgo, Rosado Fernandes dá conta das circunstancias da descoberta dos menires do Xerez, relatando e comentando a reconstituição feita por Pires Gonçalves e reflectindo, sem ser arqueólogo, sobre as dificuldades e armadilhas da produção do conhecimento nesta área. De facto, apesar das novas escavações conduzidas na altura por Mário Varela Gomes terem sido inconclusivas no que respeita á forma original do monumento, foi (quase) consensual a decisão tomada de se respeitar o quadrilátero proposto por Pires Gonçalves, na reconstituição feita anos mais tarde na Orada de Monsaraz. Afinal, os arqueólogos devem ser os primeiros a lembrar que os sítios e os monumentos arqueológicos, são antes de mais uma "construção", quantas vezes meramente plausível, dos seus descobridores, que ao escavarem ou restaurarem fazem opções, quantas vezes condicionadas pela sua formação, experiência ou mesmo pelas suas obsessões...
Visita os membros da Comissão científica de acompanhamento dos trabalhos arqueológicos do Alqueva, acompanhados por outros arqueólogos, à  Herdade do Xerez onde se havia localizado o acampamento epipaleolítico da Barca do Xerez (1998)



quarta-feira, 6 de maio de 2015

Missão Tróia-78
Em primeiro plano o "cais dos alemães", a Sul das Ruínas romanas de Tróia

O recente e muito comentado incidente do "pacote suspeito" que interrompeu a circulação na Ponte 25 de Abril trouxe-me à memória os meus tempos de tropa (felizmente muito pacatos, graças aos adiamentos sucessivos permitidos pelo estatuto universitário, ao contrário do que aconteceu com muitos outros colegas e amigos da mesma idade). É que, em 1978, à  minha "ordem" como oficial Aspirante, o trânsito também foi interrompido na Ponte durante um bom par de horas. É certo que o prejuízo ou o incómodo terão então sido mínimos. Devia passar das 3 da madrugada e, na época, o trânsito era quase inexistente a tal hora, até porque era uma noite de domingo para segunda, para mais de nevoeiro cerrado. Mas vamos aos detalhes operacionais, espero que já "desclassificados" do segredo militar...A missão consistia em comandar e escoltar com o meu pelotão do Regimento de Infantaria de Queluz, a partir de um dos vários paióis existentes ao longo da chamada estrada militar que circundava Lisboa (em grande parte construída durante a segunda guerra mundial e quase totalmente ocupada pelos "bairros de barracas" nos anos 60), uma coluna de duas dezenas de velhas Berliets, carregadas de explosivos obsoletos com destino à Península de Tróia, onde nos aguardaria uma lancha da Marinha de Guerra. O primeiro "obstáculo" sério, era a passagem da Ponte 25 de Abril, que tinha de ser cruzada sem trânsito, por razões de segurança. Para isso parei a coluna, umas centenas de metros antes do tabuleiro que atravessei com o Jeep até à Portagem, onde requisitei o apoio dos polícias de serviço para a total interrupção do trânsito em ambos os sentidos. Passada a Ponte em marcha lenta, o resto da viagem decorreu (quase) sem incidentes, salvo duas ou três pequenas avarias, e uma berliet com não sei quantas toneladas de explosivos atascada nas areias da Comporta, porque o condutor adormecera, mas lá chegámos, ao romper da aurora, a Tróia. Não à "Caldeira", onde se situa o grosso das ruínas romanas que eu já conhecia bem por ter participado em 1975, no II Colóquio de Arqueologia de Setúbal já organizado pela Joaquina Soares e Carlos Tavares da Silva, mas ao chamado cais da Nato ou dos Alemães, uma estrutura militar meio secreta do tempo da guerra fria, hoje quase abandonada e que se situará nos limites Sul da zona arqueológica, não muito longe do actual cais dos ferris. O resto do dia foi passado com o pessoal do pelotão a descarregar (manualmente) as caixas dos engenhos explosivos, essencialmente munições e granadas dos mais diversos calibres, das Berliets para a lancha de desembarque. Recordo que à medida que as horas passavam, a maré descia e o cansaço aumentava, a operação se tornava cada vez mais difícil, com algumas caixas a estatelaram-se no tombadilho da lancha perante as pragas requintadamente vernáculas do comandante. Quando finalmente descarregámos a última Berliet, a lancha já quase não tinha calado para zarpar em direcção ao destino final dos explosivos: uma fossa abissal, localizada algumas milhas a Sudoeste de Sagres, para onde seriam despejados, novamente à mão, mas agora por um pelotão do Regimento de Setúbal que nos viera render ao fim da tarde. Estou certo que, face aos inevitáveis impactos ambientais, tal prática terá sido há muito abandonada pelos militares. Mas a eventual descoberta de um tal "cemitério" de sucata pelos meus colegas arqueólogos subaquáticos do futuro, não deixará de levantar intrigantes questões e teorias...

Uma nota final a propósito de Tróia. Em anterior Post sobre Tróia, republiquei neste blog uma antiga crónica que escrevera para o DN sobre estas ruínas, na qual referia a explicação corrente para a origem de um nome tão erudito e que passaria pelo reconhecimento por parte dos humanistas portugueses da monumentalidade de ruínas que "lembrariam" a Tróia Homérica. Na sequência desse post, a minha colega Inês Vaz Pinto, actual responsável pelo sítio, teve a amabilidade de me contactar e de referir que, recentemente o Professor Jorge Alarcão, defendeu que este topónimo derivará do nome dado pelos pescadores a um tipo específico de aparelho ou armadilha de pesca. Aqui fica a correcção, que tem toda a lógica, pois antes dos arqueólogos já os pescadores de Setúbal frequentavam a península, onde aliás ergueram uma antiga capela dedicada a Nª Sª de Tróia onde ainda hoje  fazem uma peregrinação anual.

http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/03/as-ruinas-de-troia-nas-origens-da.html

Uma lancha semelhante à usada na operação de 1978, e que segundo os dados que obtive na internet (barcoavista.blogspot.com) poderia ser a LDG-Bombarda, abatida em 1997 mas que regressada da Guiné em 75 terá sido usada em operações "logísticas". 

O meu "aspecto" na altura. Neste caso (Dezembro de 78), a comandar as sentinelas do "Conselho da Revolução", ao Restelo, hoje Ministério da Defesa, não muito longe do Museu de Arqueologia para onde seria requisitado, como arqueólogo, dois anos depois.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Inventários e património em Inglaterra

Passam por esta altura 20 anos da minha única viagem a Inglaterra, por sinal de cariz profissional, que me levou a Oxford para participar numa conferência do Conselho da Europa sobre os inventários e a salvaguarda do património arqueológico - Archaeological Heritage: Inventory and documentation standards in Europe, Oxford, 1995. Não fui o único português a estar presente (viajei por sorte com o meu colega Vasco Mantas, professor em Coimbra, com quem tive a oportunidade de fazer uma interessantíssima visita guiada, por ele próprio, ao British Museum...é preciso acrescentar que era a primeira vez que ele também estava no British!) mas coube-me naquele colóquio fazer a primeira apresentação internacional o programa ENDOVÉLICO que então estava a ser desenvolvido para o IPPAR pela equipa da Universidade Nova, do Prof. Ribeiro da Costa. Diga-se de passagem, que as possibilidades de articulação em SIG, previstas desde a primeira hora (não esquecer que estamos a falar de há 20 anos...), causaram logo muito boa impressão na assistência internacional. 

A par da conferência e da descoberta de uma cidade universitária inglesa... foi extremamente interessante para todos os participantes o contacto com as instituições e as práticas de inventário patrimonial britânico. Sobre essa experiência escrevi meses mais tarde duas crónicas para o Diário de Notícias (Outubro de 1995) que não puderam ser incluídas na colectânea "A linguagem das coisas" (Raposo e Silva, Europa-América, 1996) e que a qui reproduzo. Na primeira dei especial destaque ao "preciosismo" britânico de salvaguarda dos vestígios materiais ligados às dolorosas memórias da II Guerra Mundial (passava então meio século sobre o seu desfecho) que só recentemente encontrou algum paralelo nacional na valorização das nossas "linhas de Torres". O enorme esforço e sacrifício em prol da salvaguarda e protecção do património cultural feito pelos profissionais do património (historiadores de arte, arqueólogos, museólogos, etc...) um pouco por toda a Europa desde o início da Guerra Civil de Espanha até ao fim da II Guerra Mundial, e a que se alude nesse artigo, constitui de facto uma fantástica saga, infelizmente pouco conhecida, que contrasta vivamente com o cenário desolador a que assistimos hoje na martirizada região do Próximo Oriente.




 

quinta-feira, 30 de abril de 2015


NOUDAR



Por uma razão muito pessoal, nunca esqueço o aniversário do Encontro com os mestres construtores de Noudar, organizado pelo Cláudio Torres há 31 anos no Castelo de Noudar, em Barrancos, um verdadeiro "hapening" de práticas patrimoniais no que era (e continua a ser) de facto o Portugal profundo. É que quando estava para partir para o dia do encerramento, com os meus colegas e amigos Clementino Amaro e Carlos Jorge Ferreira (este já falecido entretanto), o meu filho David resolveu antecipar o nascimento e tive de, em boa hora, trocar Barrancos, pela sala de espera da maternidade do Hospital de Évora.
Infelizmente, o projecto lançado em 84 acabou por não ter pernas para andar. O isolamento do local, a distância em relação a Barrancos, já de si longe de tudo e, sobretudo, a desertificação de uma terra que só viria a entrar no mapa mental dos portugueses por causa do mediatismo dos "touros de morte", empurrariam de novo o castelo e as ruínas da sua vila medieval há muito abandonada, para o esquecimento. Uma década depois do encontro dos mestres construtores, um novo sobressalto, chamou de novo a atenção para Noudar. Esmagada a "Reforma Agrária", devolvido latifúndio da Coitadinha (curioso nome...) aos numerosos herdeiros, perspectivava-se o que aconteceu a muitas outras grandes propriedades alentejanas, a sua venda a quem mais oferecesse, e com ela, a venda do próprio Castelo que, o estado monárquico falido, havia alienado no final do Século XIX. Aproveitando o espaço de crónica que à época partilhava com o Luis Raposo no Diário de Notícias, em 14 de Julho de 1994, num tom um tanto ou quanto" nacionalista" (falava-se da venda da Herdade e do Castelo aos espanhóis da Pedro Domecq...), denunciei a perspectiva de venda a privados de um Monumento Nacional com o significado histórico tão especial (crónica que aqui republico em "facsimil" (consta da edição da Europa-Amériaca, 1996, "A Linguagem das Coisas"). 
A venda acabou por acontecer, três anos mais tarde, mas num contexto totalmente diverso do que parecia adivinhar-se, e em cujo processo tive afinal a grata oportunidade de participar, apoiando o Administrador  da EDIA Joaquim Marques Ferreira, responsável pela idéia. No âmbito de um acordo celebrado entre a empresa do Alqueva e a Câmara Municipal de Barrancos, a Herdade e o Castelo foram adquiridos conjuntamente, ficando assim no domínio público, tendo o respectivo investimento sido considerado como uma medida compensatória das perdas e impactos patrimoniais e ambientais verificados no Vale do Guadiana com a construção da Barragem. Mais tarde, por destacamento, a EDIA manteve a pposse e a gestão da Herdade, ficando o Castelo na posse da autarquia. Hoje, a Herdade (Parque da Natureza de Noudar- www.parquenoudar.com/) recuperado o seu magnífico "monte", adaptado a turismo da natureza, é um exemplo magnífico do que se pode e deve fazer no "Portugal profundo". Já o Castelo, infelizmente e apesar das preocupações da autarquia, da própria EDIA e das entidades da tutela, parece não ter beneficiado especialmente com o "negócio". As várias tentativas que têm sido feitas no sentido da revitalização turística do monumento esbarram sempre com a falta de meios humanos e financeiros da autarquia (especialmente agravados nos últimos tempos) e com a falta de um modelo de intervenção ajustado às circunstancias muito próprias da região que enquadre um necessário e urgente plano de recuperação patrimonial que interrompa a sua progressiva e evidente desagregação.




A última torre a cair em Noudar (foto de 2011)