sexta-feira, 24 de abril de 2015

Lucefecit, o vale sagrado do Endovélico

A Rocha da Mina, margens do Lucefecit


Por motivos profisionais (é verdade, ainda não estou aposentado...) participei ontem numa reunião na DGPC, promovida pela Câmara Municipal do Alandroal, preparatória da classificação cultural do vale da Ribeira do Lucefecit. Sendo que a iniciativa parte do município, para já está em causa avaliar do hipotético interesse nacional que justifique uma categoria de salvaguarda superior. E, parece óbvio que os valores de ambiente natural, paisagem, cultura material e imaterial que estão em causa, ultrapassam largamente a escala local, facto que os próprios Romanos reconheceram há mais de 2 000 anos, valorizando e integrando no seu panteão, uma importante divindade indígena. Sendo certo que a redescoberta histórica do Endovélico, remonta ao Século XVI, graças ao espirito antiquarista do Duque de Bragança, D.Teodósio I, também é verdade que Leite de Vasconcelos não hesitou, por sábia precaução, em levar para o seu Museu de Belém, no final do século XIX, com o apoio da Casa Real tão ligada à vizinha Vila Viçosa, tudo o que de valioso ainda encontrou no que restava das ruínas da capela de São Miguel da Mota, erguida sobre o antigo santuário romano, pois parecia que localmente, de tão velha tradição já pouca ou nenhuma memória restaria. 


Caberia, no entanto, a um escritor nosso contemporâneo, infelizmente desaparecido do nosso convívio, João Aguiar (1943-2010),  devolver ao Alandroal, graças a um romance de grande sucesso, "A Voz dos Deuses" (1984), o elo afectivo que perdera com esses tempos. Os arqueólogos, nomeadamente o Manuel Calado, também dariam o seu contributo para esse reencontro e, recentemente, a própria autarquia, envolvida em projectos de colaboração com o Museu Nacional de Arqueologia, onde ainda decorre uma grande exposição sobre as "Religiões da Lusitânia", com um peso significativo a colecção epigráfica recolhida por Leite de Vasconcelos no Alandroal. O projecto de classificação do Vale do Lucefecit está ainda no seu início, mas parte do reconhecimento de que existe uma realidade territorial com fortes raízes identitárias, forjadas e moldadas pelo tempo e que perduram para além das transformações das superestruturas políticas ou religiosas. Para esse reconhecimento, muito contribuíram também as experiencias locais de prospecção arqueológica, já materializadas numa Carta Arqueológica do Alandroal, editada em 1993 por Manuel Calado, revista e ampliada vinte anos depois com a colaboração de Conceição Roque e integrado muitos dados novos, alguns de grande relevancia, já resultantes do gigantesco esforço de investigação promovido na região pelo projecto do Alqueva.

Carta Arqueológica do Alandroal, 1993


Nova Carta Arqueológica do Alandroal, 2013

João Aguiar em 1993 na Rocha da Mina, Alandroal, numa visita promovida pela Câmara Municipal por ocasião do lançamento da Carta Arqueológica e que tive a sorte de acompanhar no terreno.

João Aguiar e Manuel Calado, no Castelinho, Alandroal (1993)







quarta-feira, 22 de abril de 2015

A propriedade dos bens arqueológicos_ uma questão em aberto


Lidando a Arqueologia com bens (móveis e imóveis) que podem por vezes configurar interesses e valores comerciais elevados, seria de esperar que a problemática relacionada com a sua descoberta, posse e eventual comercialização, estivesse claramente estabelecida para evitar a perda ou ocultação de bens de interesse cultural importantes para toda a comunidade, ou pelo menos, para evitar situações de conflitualidade que, inevitavelmente, acabam na barra dos tribunais. E ultimamente temos tido notícia de alguns casos...

Há duas décadas, numa altura em que se anunciava a intenção de rever a Lei 13/85, a nossa primeira Lei de Bases do Património Cultural que acabaria por ser revista apenas em 2001, publiquei no Diário de Notícias (4 de Maio de 1995) um texto de reflexão sobre esta problemática.  Algumas questões então colocadas (como a inconsequência da declaração dos bens arqueológicos como "património nacional") foram posteriormente clarificadas pela Lei 107/2001 de 8 de Setembro, ainda em vigor, a qual passou a reservar essa titularidade para os bens provenientes de "trabalhos arqueológicos" (nº3 do Artº 74). Diga-se, no entanto, que este princípio mantem-se em contradição com o articulado do "Código Civil", um instrumento legal que se sobrepõe hierarquicamente à Lei do Patrimónnio e que no respeitante à regulamentação dos chamados "achados de tesouros"  deveria clarificar a situação de excepção dos "achados" em escavações arqueológicas, o que não acontece. A Lei 107/2001, mantendo a obrigatoriedade da notificação de qualquer achado arqueológico, independentemente da propriedade do terreno (um princípio que remonta na nossa tradição legal, pelo menos ao tempo de D.João V) introduziu entre nós o princípio "anglo-saxónico" do direito a uma recompensa (raramente reclamada e ainda menos atribuída) no caso de achados declarados e entregues às autoridades, que possuam valor comercial relevante (nº 2 do Artº 78). Apesar dos progressos legais, pelo menos no domínio dos princípios, a situação dos espólios provenientes da actividade arqueológica de investigação ou prevenção, continua no entanto muito confusa. Os arqueólogos responsáveis pelas escavações, são para todos os efeitos, os fiéis depositários pelos bens arqueológicos recolhidos, mas sabendo-se que na sua maior parte são hoje assalariados ocasionais de "empresas prestadoras de serviços", transferem para estas, informalmente, essa responsabilidade. As empresas tendem, dados os custos associados, a entregarem tão breve quanto possível esses materiais às entidades oficiais que de uma maneira geral têm poucas condições para a sua recepção e conservação nas condições mais adequadas. Por outro lado, a disponibilização para usufruto público ou para investigação de terceiros, uma tarefa prioritária dos Museus, está hoje enredada numa teia de procedimentos burocráticos absurdos que impede a rápida incorporação museológica, mesmo no caso dos bens mais relevantes.

Apesar do tempo decorrido, julgo que como testemunho da evolução verificada neste domínio, se justifica a republicação da crónica de há 20 anos que acabou por não integrar a compilação editada pela Europa-América em 1996 (Raposo e Silva, A Linguagem das Coisas_ Ensaios e Crónicas de Arqueologia).

terça-feira, 21 de abril de 2015

A Igreja de Vera Cruz de Marmelar


De ano para ano, em resultado de uma (aparente) maior consciência social da importância cultural (e económica) do património, autarquias e outras entidades "civis, militares e religiosas" desdobram-se em centenas iniciativas em torno da comemoração do Dia Internacional dos Sítios e Monumentos, de Norte a Sul de Portugal. Por dever, interesse e prazer, procuro dar sempre o meu pequeno contributo, como "actor" ou "espectador", tendo este ano respondido positivamente à proposta do Grupo PróÉvora (a mais antiga associação de defesa do património cultural do país), orientando uma visita ao Cromeleque dos Almendres, recentemente promovido a Monumento Nacional e à Anta Grande do Zambujeiro, um monumento nacional à procura de soluções que lhe confiram importância turístico-cultural que a sua especial relevância arqueológica, justifica. Como curiosidade refira-se o apoio do Exército Português à iniciativa do PróÉvora, através da cedência de um pequeno autocarro para transporte dos visitantes (não tantos como seria desejável, fosse pela falta de divulgação ou pela forte concorrencia de outras iniciativas eborenses). Já como simples espectador, aproveitei uma iniciativa da Câmara Municipal de Portel, um concerto pelo Coral de S.Domingos (Montemor-o-Novo) realizado na Igreja de Vera Cruz de Marmelar no dia 19 de Abril, para revisitar um monumento singular no contexto da arquitectura religiosa alentejana. Desde logo pela sua escala arquitectónica, claramente destacada no casario envolvente, mas sobretudo pela fortíssima carga histórico-mítica que lhe está associada e que se reflecte na sobreposição estilística, nos elementos arquitectónicos aparentemente estranhos, ou no valioso recheio artístico que conserva. Como arqueólogo, chamam-me a atenção em particular as pré-existências (paleo-cristãs, visigóticas, moçarabes?) que remetem as origens deste lugar e das lendas associadas para época bem anterior ao estabelecimento local dos Hospitalares por doação de D.João Peres de Aboim, o homem de confiança de Afonso III, fundador do Senhorio de Portel. Em face de vestígios tão antigos e objectivos apetece "escavar" na cerca do antigo paço dos comendadores de Vera Cruz, edifício abandonado e em ruínas, contrastando fortemente com o relativo bom estado da Igreja anexa. A recuperação e a valorização de todo este conjunto esteve uma década atrás nas intenções da Câmara Municipal de Portel, através de um programa concebido e liderado pela historiadora Ana Pagará (minha antiga "vizinha" na Amadora, ainda que de geração mais nova, posteriormente colega de Mestrado na Universidade de Évora e actual responsável pelo Mosteiro de Alcobaça). O projecto que contava com a colaboração dos historiadores Vitor Serrão (meu amigo e colega de curso) e Nuno Vassalo e Silva (actual Director Geral do Património Cultural), não teve infelizmente pernas para andar, mas resultou do mesmo uma excelente monografia, esgotada mas disponível em PDF.
http://www.museusportugal.org/multimedia/File/Igreja%20vera%20cruz.pdf


O concerto do Coral de São Domingos, na Igreja da Vera Cruz, no âmbito das comemorações do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios (19 de ABril de 2015)















Apenas uma pequena história retirada do baú das minhas memórias pessoais. Estive pela primeira vez em Vera Cruz de Marmelar poucas semanas após o 25 de Abril de 1974, num passeio de fim de semana com um grupo de adolescentes e jovens amigos da Amadora, tendo ficado alojados na casa de família de um colega nosso, filho de um comerciante da Amadora, alentejano como tantos outros nossos vizinhos e natural de Vera Cruz. Para além de uma colecção de "slides" onda avultava já a imponente Igreja da Vera Cruz (e que deverão estar algures no meio da minha papelada...), ficou-me dessa viagem a memória do primeiro comício do Partido Comunista Português realizado em liberdade na aldeia de Vera Cruz  e a que, por um misto de curiosidade e de fervor revolucionário muito comum à época, não deixámos todos de assistir. 

E, em aditamento de 15 de Fevereiro de 2017, aqui ficam algumas dessas fotos de 1974 (finalmente reencontradas) já verdadeiros documentos gráficos da Igreja de Vera Cruz, meio século atrás:










segunda-feira, 20 de abril de 2015

"Monfurado, A mui ignorada serra do Sul de Portugal"




Em 8 de Janeiro passado publiquei aqui a cópia de uma reportagem de Mário (Vieira) Henriques, publicada no Diário Popular de 13 de Outubro de 1967 -  http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/01/a-mais-bela-maquina-de-viajar-no-tempo.html. Na sequencia de mais uma visita guiada que no sábado dia 18 de Abril tive ocasião de fazer nos Almendres, por ocasião do Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, numa organização do Grupo PróÉvora, aqui deixo mais um documento para a história da identificação deste sítio, (ocorrida em 1964), em concreto, um texto de 1965 do Dr. José Fernandes Ventura, (então professor na Escola de Regentes Agrícolas da Mitra (Valverde) ilustrado com fotos do Eng. Albano Salles de Mattos Fernandes. O texto em causa foi publicado no nº 10 da revista da "Lavoura Portuguesa", datada de Outubro de 1965 e é um importante contributo para a história da descoberta, graças em parte às fotos que o acompanham. De facto comprovam aquilo que já sabíamos por testemunhos directos de alguns intervenientes no processo, de que a quando da identificação do sítio por Henrique Leonor de Pina em 1964, alguns meses antes da visita de Fernandes Ventura com o Coronel Afonso do Paço, Presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses em Novembro de 1964, uma parte dos menires tinham já sido recolocados na vertical por iniciativa do proprietário, Eng. Miguel Soares. Nas mesmas fotos é possível observar ainda outros menires, semi-tombados mas ainda na provável "cama" original. O artigo de Fernandes Ventura, retratando um período de importantes descobertas nesta região (Almendres, Gruta do Escoural, Castelo do Giraldo, Corôa do Frade, etc...) termina com uma "nota da redacção" que ilustra nas suas entrelinhas alguma conflitualidade típica entre a pequena classe arqueológica da época, funcionando regionalmente à sombra dos "notáveis" da capital. Depreende-se do corpo do texto que Fernandes Ventura pensava ter descoberto com Afonso do Paço, o "menir dos Almendres", mas pela "nota", dá-se conta conta de que afinal Leonor de Pina já o conhecia, porque o tinha já referido numa entrevista entretanto concedida ao Diário Popular. Esta referencia levanta outra questão. A reportagem do Diário Popular que acima referimos, data de Outubro de 1967, bastante posterior portanto a este artigo da "Lavoura Portuguesa", pelo que haverá uma "entrevista" anterior dao DP, que desconheço, na qual Pina terá feito referencia aos achados dos Almendres, entretanto referidos no relatório não impresso que apresentou à Junta Distrital de Évora, respeitante às suas actividades arqueológicas entre 23 de Março e 3 de Abril de 1964.
Nota: uma explicação para a fraca qualidade dos originais aqui fotografados. O exemplar do nº 10 da Lavoura Portuguesa que possuo em muito mau estado, veio ter às minhas mãos em circunstancias algo fortuitas... Quando por ocasião da coordenação dos trabalhos arqueológicos do Alqueva assentei por meia dúzia de anos arraiais em Mourão, deparei a certa altura com uma antiga casa de lavoura abandonada e completamente devassada. Numa inspeção mais curiosa do que necessária, deparei numa das dependencias com restos de documentação diversa, já semi queimada e, obviamente, deixada para trás. No meio da papelada, chamou-me a atenção a foto do "menir" dos Almendres ilustrando a capa de uma velha e já rasgada revista que resolvi "salvar" do lixo...





Na imagem de cima vários menires já colocados na vertical por iniciativa do Eng. Miguel Soares, sendo bem visível a marca das zonas que estariam semi enterradas, face à diferença óbvia de "colonização " pelos líquenes. Na foto inferior, menires ainda na posição semi tombada, correspondendo ao sector mais a Ocidente do monumento.

Outros menires já na vertical, evidenciado as "marcas" correspondentes às zonas anteriormente tombadas. De notar ainda a densidade de vegetação, posteriormente cortada a pedido de Leonor de Pina para facilitar o levantamento topográfico, única intervenção de campo que faria neste monumento, apenas escavado nos anos 80 por Mário Varela Gomes.

quinta-feira, 16 de abril de 2015




Cromeleque do Xerez



O Cromeleque no GoogleEarth, (imagem de Setembro de 2013), comprovando a desvirtuação do projecto paisagístico

Numa página do Facebbok que julgo oficial (Câmara Municipal de Reguengos?) acompanhando uma excelente foto, recolhi o seguinte texto:

Cromeleque do Xerez

Erguido cerca de 5000 anos antes de Cristo por uma comunidade pré-histórica de agricultores e pastores, talvez num ritual de apropriação do território, o Cromeleque do Xerez foi identificado em 1969 por José Pires Gonçalves após a sua descoberta por José Cruz e Leonel Franco. O seu singular formato quadrangular desenvolve-se em torno de um menir central de cerca de 4 metros de altura, que apresenta numa das suas faces diversas covinhas em toda a sua verticalidade. Este cromeleque foi o único monumento da região a ser transferido para outro local (junto ao convento da Orada), em 2004, devido à construção da barragem de Alqueva.


Dadas as minhas antigas responsabilidades em todo o processo que envolveu a (re)escavação do local original pelo Mário Varela Gomes (1998), a respectiva publicação e posterior decisão para desmontagem e reinstalação do monumento próximo da Orada, segundo projecto do Arquitecto Daniel Monteiro, executado pela Câmara Municipal de Reguengos (2004) e financiamento da EDIA, não resisti a ler os comentários deixados na rede social, alguns bem críticos do estado actual do monumento. De facto, tendo lá passado recentemente, também verifiquei com desagrado a situação de aparente abandono de um sítio que tinha todas as condições para ser um ícone quer do rico megalitismo de Reguengos, quer do projecto arqueológico do Alqueva, fazendo o contraponto com o Museu da Luz na outra margem do Lago. É certo que a (ambiciosa) intenção original da autarquia, passava pela construção neste mesmo terreno, em articulação com a reinstalação do Cromeleque, de um grande museu de arqueologia que tirasse partido das centenas de escavações arqueológicas realizadas no âmbito do Aqueva. Tal intenção, infelizmente, não teve condições para avançar (nomeadamente financeiras), limitando-se a intenção à concretização, parcial, do excelente projecto do arquitecto Daniel Monteiro (colaborador do Arquitecto Souto Moura na obra do estádio do Braga). A situação que observei no local, é de facto algo desoladora, mas felizmente não é irreversível, carecendo essencialmente de alguma manutenção e sobretudo, de alguma disciplina no controle do acesso indiscriminado de viaturas até junto do monumento, que acontece à revelia de toda a lógica do projecto, com espaço previsto e construído para estacionamento. É certo que o acesso pedonal deveria ser feito através de uma "casa abrigo" hoje fechada (mas onde chegou a haver exposições) e que dificulta a passagem dos visitantes ao longo da interessante "alameda" de alvenaria branca que nos leva ao cromeleque. A sua substituição por um simples telheiro que exponha alguma informação e, sobretudo, o "corte físico" do acesso de viaturas ao Cromeleque, é um primeiro passo para a requalificação que se espera a autarquia possa concretizar urgentemente.

Desmontagem e transporte dos menires do Xerez em Novembro de 2001
O "anúncio" do Museu que não chegou a sair do papel...

Remontagem do Croemeleque, junto da Orada em Junho de 2004

A degradação visual da envolvente imediata do Cromeleque. O placard do "Museu" anuncia agora o "Dark Sky do Alqueva"!


Nas proximidades, uma inefável rotunda megalítica (?), tem pelo menos melhor apresentação...


terça-feira, 14 de abril de 2015


"Pedras-talhas": testemunhos únicos



Por razões institucionais mas não só, costumo ler com alguma atenção e interesse o resistente "Jornal de Letras", pelo que não me escapou na tradicional rubrica "Diário"do último número (1 a 14 de Abril) mais um contributo do geólogo Galopim de Carvalho, de quem sou leitor compulsivo.(Gosto do seu estilo de escrita e, sobretudo dos temas que aborda, seja como excelente divulgador científico, uma qualidade rara entre nós, seja como memorialista cultural regionalista, com quem tenho aprendido imenso sobre Évora e o Alentejo, afinal a minha terra adoptiva). Não resisto, por isso, a transcrever um pequeno trecho que ele próprio data de 22 de Março de 2015 e onde de forma extremamente lúcida, com a autoridade dos seus 84 anos, traça o retrato da mediocridade dos nossos dias: "...Tudo isto perante a passividade de um povo "imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio", como escreveu o grande Guerra Junqueiro, há mais de um século, e sob a magistratura conivente de um Presidente da República que de há muito deixou de ser o Presidente de todos os portugueses. Mantidos incultos, muitos deles analfabetos funcionais, alienados pelo futebol e pelos programas televisivos de entretenimento que nos impõem e nos entram pela casa dentro a toda a hora e, ainda, marcados por receios antigos, são muitos os portugueses que não ousam questionar um poder que os despreza e maltrata e muitos também os que, sem saberem porquê, lhe fazem respeitosa e submissa vénia".

De facto admiro em Galopim de Carvalho, que tive o prazer de guiar há uma década e meia numa visita à Gruta do Escoural, a naturalidade, simplicidade e vivacidade com que nos consegue transmitir a sua vasta e variada sabedoria, bebida na sua meninice e juventude das Ruas de uma Évora já desaparecida, no trabalho de campo em contacto com a natureza e os homens, ou na Universidade onde se doutorou e tantos anos ensinou (ainda foi professor da minha filha).
E este,seria afinal o ponto de partida para ir ao encontro de outro texto, de Galopim de Carvalho, esse já datado de Setembro de 2013 e que descobri já depois de ter iniciado este blog "memória das Pedras Talhas". O texto em causa, publicado no blog "De Rerum Natura" intitula-se simplesmente "Pedras-talhas" e narra-nos a história da identificação nos anos 60, do Cromeleque dos Almendres pelo seu condiscípulo e colega Henrique Leonor de Pina. Ainda que esteja acessível em
 http://dererummundi.blogspot.pt/2013/09/pedras-talhas.html,  
não resisto a transcrevê-lo, acompanhado de um excerto de uma importante entrevista do próprio Henrique Leonor de Pina (sobre as escavações na Anta Grande do Zambujeiro)  publicada no nº 1 (2007) do CENÁCULO, o boletim on-line do Museu de Évora:
http://museudevora.imc-ip.pt/pt-PT/Boletim/Cenaculo1/ContentList.aspx

Um pequeno aditamento. O que nem Galopim de Carvalho ou o próprio Leonor de Pina terão percebido, ou pelo menos não o referem, é que a quando da identificação do Cromeleque, alguns dos menires (pedras talhas) haviam já sido erguidos por trabalhadores da Herdade dos Almendres, sob a orientação do proprietário, o "velho Soares", como este era conhecido e pouco amado, nos montes vizinhos. Dos trabalhadores então incumbidos da tarefa, sobrevive ainda o Ti Bento do Monte das Pedras, cujo testemunho tive oportunidade de recolher com o meu colega Pedro Alvim, dada a importância das suas informações para a história da "re-construção" do monumento.

Galopim de Carvalho
PEDRAS-TALHAS
Com mais três anos do que eu, o Henrique Leonor Pina, aos dezassete anos, quando o conheci, a meados dos anos 40, era um jovem adulto, pleno de entusiasmo e energia, nos seus oitenta a noventa quilos de ossos e músculos. Meu condiscípulo no Liceu Nacional André de Gouveia, em Évora, viera de Montemor para continuar os estudos no antigo 6.º ano (actual 10.º), entrara eu no 4.º. Nesse tempo, o Latim, associado à disciplina de Português, tinha lugar de relevo no ensino ao longo de três anos lectivos, entre os 4.º e 6.º anos.

Foi no começo das aulas, em Outubro, que nos conhecemos e tornámo-nos amigos. Fazíamos o mesmo percurso, por São Mamede e Buraco dos Colegiais, a caminho do liceu, ele vindo das Portas de Alconchel, eu dos arredores da Porta Nova. Nos meus verdes anos de adolescente, eu ainda mantinha o ar de rapaz miúdo ao lado de um adulto que já fazia a barba. Nesse contraste, ele via-me como aquilo mesmo que eu era e eu olhava-o como um crescido capaz de me ensinar coisas e dar protecção. Foi nesta medida que, numa das caminhadas matinais em demanda das aulas, ele, já então detentor de uma cultura invulgar num jovem da sua idade, muito bom aluno em todas as disciplinas, sabedor de tudo e mais alguma coisa, me perguntou:
- E o latim? Estás a gostar?
- Sinceramente, não. – Respondi, meio envergonhado – A professora é uma chata e as aulas são uma seca. A partir de então, os minutos da nossa caminhada conjunta passaram a ser as minhas verdadeiras e mais interessantes lições de latim.

Nas aulas, ocupadas com doses maciças de nominativo, acusativo, genitivo, dativo, ablativo e vocativo e um conjunto de textos incapazes de despertar o interesse dos alunos, a língua de Virgílio tornava-se intragável. Quase meio século depois, corria o ano de 1994, juntámo-nos de novo em Évora.

Eu estava ali como geólogo, orientando um grupo de alunos finalistas de Geologia, empenhados no trabalho de campo conducente à execução da folha n.º 40-A (Évora), da Carta Geológica de Portugal, na escala de 1:50 000, numa frutuosa colaboração da Faculdade de Ciências de Lisboa com os Serviços Geológicos de Portugal e a Junta Distrital de Évora.

O Henrique, como arqueólogo, dirigia um trabalho de escavação na Anta Grande do Zambujeiro, na vizinhança da herdade da Mitra (Valverde, freguesia de Nossa Senhora da Tourega), onde funcionava Escola de Regentes Agrícolas. Como amador que era, o Henrique fazia as suas campanhas arqueológicas por conta própria com o suporte da referida Junta Distrital, que assumia o pagamento das jornas da meia dúzia de homens e mulheres que, anos a fio, integraram o seu grupo de trabalho.

Trabalhadores rurais, inteligentes e hábeis no terreno, eram particularmente cuidadosos e interessados no trabalho, alegres e brejeiros no convívio, eles e elas, resistentes ao cansaço, ao sol e ao calor do estio. Num belo dia de Agosto, um pastor, homem de meia idade, conhecedor de tudo o que era terras em redor, passando por ali, esteve que tempos a observar o trabalho dos camaradas na dita escavação e, de vez em quando, a dar a sua opinião. Dirigindo-se ao Henrique, perguntou-lhe se já tinha visto as pedras do Alto das Pedra Talhas, na Serra de Monfurado, a poucos quilómetros dali, explicando que as ditas pedras tinham o tamanho e a forma ovóide dos grandes recipientes de barro em que, no Alentejo, se fermentava o mosto e guardava o vinho. Ofereceu-se para o conduzir até lá.

Particularmente sensível à perfeita e sugestiva descrição feita pelo pastor, o Pina aceitou, de imediato, a oferta e lá foram no dia seguinte, a caminho do então ainda desconhecido (para a ciência) recinto megalítico dos Almendres. Foi o deslumbramento! O sítio arqueológico que se guindou à condição de maior conjunto de menhires da Península Ibérica e um dos mais importantes da Europa, estava à vista de quem o quisesse ver, na freguesia de Nossa Senhora de Guadalupe, com fácil acesso a partir da estrada nacional de Évora para para Lisboa, ao km 10. Deste monumento restam 92 monólitos (desde pequenos blocos, pouco ou quase nada afeiçoados, a outros maiores lembrando as ditas talhas), num estado de conservação ainda muito bom, uns com pequenas covas centimétricas e outros decorados com gravuras.

Numa história recente, este local foi usado como pedreira de onde se retiraram e destruíram vários destes grandes blocos, todos eles de granito (de várias proveniências, alguns transportados de distâncias superiores a 2 km).

 Têm sido muitos e importantes os estudos realizados por diversos autores sobre esta relíquia neolítica, testemunho de várias idades, ao longo dos V e IV milénios antes de Cristo, aceitando-se hoje que “formaram dois recintos erguidos em épocas distintas, geminados e orientados segundo as direcções equinociais”.

Galopim de Carvalho, no blog "De rerum Natura, 28 de Setembro de 2013


Henrique Leonor de Pina, excerto de entrevista publicada no CENÁCULO, nº 1, 2007, Boletim on-line do Museu de Évora