quarta-feira, 1 de abril de 2015


1983- MISSÃO ARQUEOLÓGICA EM ANGOLA

Na zona de Benguela, com a equipa do Museu Nacional de Arqueologia (1983)

A notícia do seminário internacional “África: Arqueologia e Paisagem” a ter lugar em Mação no próximo mês de Junho, numa organização conjunta do CEAUP (Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto), do ITM (Instituto Terra e Memória) e do Centro de Geociências da Universidade de Coimbra (Grupo de Quaternário e Pré-História), reavivou a minha intenção de divulgar alguns materiais há muitos anos na gaveta e que remetem, no meu caso pessoal, para a única experiência arqueológica africana que tive oportunidade de viver, infelizmente muito limitada e praticamente sem consequências. Mais do que os dados informativos em si pouco relevantes, interessa-me dar testemunho do que foi a experiência profundamente afectiva do (re)encontro em 1983 entre colegas do mesmo ofício, falando a mesma língua e imbuídos da mesma cultura e formados (quase) na mesma escola e que apesar das distância, lutavam afinal pelos mesmos ideais de cultura e conhecimento. De facto, iriamos encontrar em Benguela, além de Pais Pinto, a Ana Paula Tavares, ambos ex-alunos de Victor Gonçalves e de Vitor Oliveira Jorge no Bacharelato em História de Sá da Bandeira/Lubango, também nossos professores e colegas em Portugal. Na realidade, ainda que o desafio que Luis Pais Pinto nos fizera em Lisboa, meses antes, fosse no sentido de apoiarmos programas de formação e investigação do Museu Nacional de Arqueologia de Angola (que ele com o apoio de Henrique Abranches e do próprio Agostinho Neto instalara em 1976 na antiga alfandega de Benguela), a verdade é que os serviços públicos de arqueologia em Portugal, estavam praticamente a nascer e ainda a instalar-se. Por outro lado, as condições subjectivas de natureza política e sobretudo a  situação objectiva no terreno, por causa da guerra civil que se prolongaria por mais vinte anos, eram muito pouco propícias ao desenvolvimento de programas de cooperação neste campo. 




Mas Pais Pinto era um lutador, pese embora os seus graves problemas de saúde (já faleceu entretanto), e nunca desistiria daqueles objectivos. Nas pesquisas na INTERNET que entretanto fiz para me actualizar em relação à “Arqueologia Angolana” (que até agora não ia além da obra fundamental, com aquele título, de Carlos Ervedosa, editada em 1980 pelo próprio Ministério da Educação de Angola e  pelas Edições 70) percebi que Luis Pais Pinto tentou ainda organizar em 1985 com Miguel Ramos, (1932-1991) muito ligado à arqueologia de Angola através da Junta de Investigações Científicas do Ultramar, depois Instituto de Investigação Científica Tropical, um instituto médio de arqueologia para formação de técnicos de campo. Miguel Ramos terá mesmo integrado uma missão arqueológica internacional de apoio ao Museu de Benguela, em 1988 conforme é relatado por Conceição Rodrigues no "In memoriam" que publicou no Arqueólogo Português.


2013-O "chantier-école" decorrente do protocolo promovido por Manuel Gutierrez
Falhando a cooperação portuguesa, os angolanos viraram-se para França, nascendo no final dos anos 90 um programa de colaboração entre o Museu de Benguela e a Universidade de Toulouse II, sob a orientação do arqueólogo Manuel Gutierrez, que chega a iniciar, tal como nós fizéramos em 83, escavações na zona da Baía Farta. No entanto, apenas com o final da guerra civil (2002) mas já com Gutierrez ligado à Universidade de Paris I- Panthéon Sorbonne, essa cooperação começaria a ser mais efectiva, traduzindo-se tentre outros aspectos na formação de quadros angolanos em Paris. Mais recentemente, em 2013, Manuel Gutierrez através de um acordo entre a sua universidade e a universidade Katiavala Bwiba de Benguela, constituiu um “chantier-école” na Baía Farta, visando a formação prática dos estudantes angolanos. A par da zona de Benguela, pela Pré-história Antiga e Idade do Ferro ou da Arte Rupestre mais a Sul no Namibe, áreas onde, para além dos franceses, o Instituto Terra e Memória ligado ao Instituto Politécnico de Tomar, sob o impulso de Luiz Oosterbeek tem desenvolvido recentemente programas de cooperação, ganhou recentemente algum destaque a arqueologia em MBANZA CONGO, onde se tem conjugado o interesse político do Ministério da Cultura de Angola que procura o reconhecimento das ruínas da antiga capital do reino do Congo como “Património da Humanidade” e o interesse científico da Universidade de Gent (Bélgica), que aí actua há alguns anos através do Projecto KONGOKING.

A missão de 1983, promovida e logisticamente assegurada em todos os aspectos, exclusivamente pelas autoridades angolanas, era constituída por mim, na altura já com responsabilidades directivas no Departamento de Arqueologia do IPPC, pelo Luis Raposo, técnico do Museu Nacional de Arqueologia, por Maria João Coutinho, técnica da Faculdade de Letras de Lisboa e ainda por Hans Siefener, um alemão radicado em Portugal, já falecido, colaborador de vários trabalhos de campo promovidos pelo GEPP (Grupo para o Estudo para o Paleolítico Português). Não deixa de ser curioso que a única referencia escrita que encontrei a esta missão de 83, conste de uma monografia académica, apresentada na Universidade brasileira de Campinas em 2013 por Bruno Pastre Máximo (Uma História da Arqueologia na África: Peculiaridades, conflitos e Desafios da Disciplina em Angola) que associa a pequena escavação que fizémos num concheiro da Baía Farta com a equipa do Museu de Benguela, a um projecto de cooperação com o "Grupo Paleolítico Português" (Sic). De facto, todos estávamos ligados ao GEPP embora, não fosse nessa qualidade que respondemos ao apelo de Pais Pinto.



Da parte angolana, contámos em Luanda com o apoio de Jorge Sande Lemos, antropólogo primo do nosso colega e um dos fundadores do GEPP, Francisco Sande Lemos, que nos levou a visitar os concheiros  da Barra do Kuanza que haviam sido escavados por Santos Júnior e Carlos Ervedosa nos anos 70. Jorge Sande lemos, acompanhou-nos depois na viagem aérea para Benguela, onde com Luis Pais Pinto e Ana Paula Tavares montámos uma escavação experimental num dos vários concheiros conhecidos na zona da Baía Farta, em que o principal objectivo era a formação prática em arqueologia de campo, da numerosa mas pouco qualificada equipa do Museu. Com objectivos semelhantes procedemos ainda a algumas prospecções nos terraços marinhos a Sul de Benguela onde revisitámos sítios paleolíticos estudados por Desmond Clark nos anos 60. E nunca mais esquecerei, pelo que significava em termos de comportamento dos nossos antepassados hominídeos, a estranha sensação de "déjà vu", ao recolher numerosos "bifaces" e "machados" acheulenses, que poderiam ser associados, sem qualquer hesitação, aos que encontrávamos, em condições semelhantes, no vale do Tejo, a milhares de quilómetros de distância. 

Em Angola, Maio de 1983, a equipa portuguesa da missão arqueológica: Luis Raposo, Mª João Coutinho, A.C.Silva e Hans Siefener


(Nota: o texto que se segue, é a transcrição fiel, sem actualizações dum texto de Julho de 1983, que escrevi na sequencia da Missão a Angola e que nunca antes foi divulgado)


ARQUEOLOGIA- UM CAMPO POSSÍVEL DE COOPERAÇÃO COM ANGOLA
(a cooperação cultural com os novos países de expressão portuguesa também passa pela investigação da "outra” história)
A recente visita a Angola -a convite e expensas do respectivo governo- duma equipa de arqueólogos portugueses, serve de pretexto para abordagem do tema "arqueologia angolana" bem como das potencialidades de cooperação portuguesa nesta área da cultura e da ciência, num momento em que a as questões de cooperação com as ex-colónias se coloca de novo nas primeiras páginas.

O primeiro trabalho conhecido sobre a arqueologia angolana, deve-se, significativamente, a um oficial inglês (1818) e abordava já um dos seus campos mais interessantes, a "arte rupestre". Os primei­ros trabalhos de portugueses surgiriam apenas no final do século XIX, reflexo, ainda que ténue, do extraordinário desenvolvimento que a ar­queologia portuguesa atravessava na época. Nomes de arqueólogos metropolitanos, como Ricardo Severo, Nery Delgado ou já no início do nos­so século, Leite de Vasconcelos, deixam o seu nome ligado, ainda que sem qualquer carácter sistemático ou organizado, à arqueologia angolana. Aliás, tais trabalhos resultavam muito mais como efeitos secun­dários do surto de exploração geográfica, característico da época, do que duma preocupação mais ou menos consciente pelo reconhecimento ma­terial de eventuais vestígios de culturas desaparecidas. Daí um relacionamento estreito entre a arqueologia e a geologia, daí uma curiosidade especial pelo paleolítico, tema retomado já nos anos trinta por Rui de Serpa Pinto-cujo centenário se comemora esta ano- e Santos Júnior. Curiosamente, ficaria a dever-se ao apoio da Companhia dos Diamantes de Angola, o desenvolvimento dum programa de pesquisa sistemático, na sua área de acção, a Lunda, sobre os vestígios paleolíticos dessa região, que teve a comparticipação de investigadores estrangeiros famosos, como Breuil, Leakey e muito especialmente Desmond Clark. Essa acção teve tal importância, que muitos dos conceitos estabelecidos então (anos quaren­ta) continuam a servir de referência essencial. Paralelamente davam-se os primeiros tímidos passos na abordagem de outros assuntos. Investiga­dores de formação etnológica, como Redinha, sentem necessidade de abor­dar os vestígios artísticos ou monumentais, cuja descoberta se multiplica à medida que avança a ocupação efectiva do território, a fim de compreenderem a cultura dos povos contemporâneos, primeira preocupação do seu estudo.
Se exceptuarmos o caso da Lunda -absolutamente excepcional, quer pelos investigadores envolvidos, quer pelas características da área em causa- a arqueologia angolana, até aos anos sessenta, é um conjunto de "episódios", mais consequência de outras actividades, do que objecto com sentido e fim próprio. Produto, afinal, da curiosidade de geólogos, etnólogos ou simples curiosos, nalguns casos representando um registo científico ainda hoje indispensável a novas abordagens, noutros, simples "anedotário", ainda que não desprezível pelas informações que poderão conter. Estava fora de causa, na maior parte dos casos, ainda que inconscientemente, o reconhecimento dum passado cultural específico dos povos angolanos, tanto mais que os mesmos -e aí pesava a ideologia des­tilada pelos meios culturais dominantes- estariam ainda na "pré-história". Acompanhando o desenvolvimento global da economia angolana, a partir de 1960, consequência imediata da abertura relativa imposta pela guerra co­lonial, assiste-se também à criação de estruturas que de algum modo con­tribuem para o relançar da investigação arqueológica. Refira-se, numa primeira fase, a acção da Junta de Investigações do Ultramar, na qual se inscreve a intensa actividade de Camarate França, e posteriormente, a partir de 70, o papel da Universidade de Luanda, onde Santos Júnior re­toma os estudos sobre a arte rupestre, secundado por Carlos Ervedosa (autor de recente e importante síntese "Arqueologia Angolana", publica­da em 1980 pelo Ministério da Educação da R.P.A.). A criação do Curso de História na Faculdade de Letras da ex-Sá da Bandeira (Lubango), já nos derradeiros anos coloniais, proporcionando a passagem por Angola de jovens professores de arqueologia, recém-formados em Lisboa e despertos para as novas correntes científicas, fechariam este ciclo, con­tribuindo não só para o arranque de alguns projectos e trabalhos no Sudoeste de Angola – sem grandes consequências dadas as alterações po­líticas que se aproximavam- mas também para a formação duma "escola" de novos arqueólogos. Dadas, no entanto, as circunstâncias dramáticas que acompanharam o doloroso processo da descolonização, agravadas por uma guerra civil prolongada, vir-se-ia a verificar uma ruptura difi­cilmente evitável, contra a qual se procura hoje dar os primeiros passos.
Efectivamente, viriam a ser ex-alunos angolanos de Sá da Bandeira, especialmente Pais Pinto, que passadas as maiores dificuldades da guerra, tomariam em ombros a pesada tarefa de recuperação neste do­mínio. Tratava-se, em primeiro lugar, de concentrar -para evitar maiores perdas ou destruições- materiais arqueológicos e documentação diversa que se encontrava dispersa, um pouco por todo o país. Assim seria cria­do em Benguela, no edifício da antiga alfândega, o Museu Nacional de Arqueologia, orientado por objectivos políticos e pedagógicos, directamente resultantes das transformações revolucionárias: descobrir e tes­temunhar a existência e importância dos vestígios das culturas pré-coloniais do território angolano; opor ao peso cultural da "civilização ocidental", materializada na "história oficial" do colonialismo, a "outra história", desconhecida, mas cuja presença se adivinha nos povoados for­tificados, nos túmulos megalíticos, nos abrigos de arte rupestre ou na presença do "ferro" em épocas muito recuadas. Cumprir tal programa, no entanto, exige meios. As antigas estruturas desapareceram ou foram transferidas para Portugal (levando por vezes as próprias colecções arqueoló­gicas); o pessoal especializado é reduzido. Daí a necessidade, perfeita­mente assumida pelos angolanos, do reatar de laços, da procura entre nós daquilo de útil e positivo que lhes possa ser oferecido. Daí o convite insistente, desde 1980, para que arqueólogos portugueses se deslocassem a Angola. Dificuldades de toda a ordem, a que não serão estranhos os problemas por que passaram nos últimos anos as relações entre os dois paí­ses, contribuiram, porém, para que tal projecto, apenas se viesse a con­cretizar em Maio passado.

A visita, necessariamente exploratória -nenhum de nós traba­lhara antes em África- envolveria três aspectos distintos: o contacto com pessoas e instituições, o reconhecimento de alguns sítios arqueológicos e, finalmente, o apoio técnico ao arranque duma escavação (primeiro passo dum programa de formação de técnicos auxiliares que poderá ainda no cor­rente ano ter continuidade com a vinda a Portugal de alguns estagiários). Em Luanda houve oportunidade de conhecer o Museu de História Natural e o Museu Nacional de Antropologia. Se o primeiro representa a conservação, se bem que com carências, dum museu da época colonial, o segundo -mais, um museu de etnografia- é já um produto duma nova mentalidade. Ricas colecções, algumas provenientes de aquisições ou recolhas recentes, apre­sentadas com um didatismo exemplar, procuram salientar, sem complexos, a importância das culturas africanas. Por outro lado, não se ignoram as raízes dessas mesmas culturas e ligado a este Museu, um conhecido etnó­logo e escritor angolano, Henrique Abranches, procura através de escavações (cuja metodologia faria inveja a muitos "arqueólogos") nos concheiros da região de Luanda, resposta para questões tão importantes, como a da introdução da metalurgia naquela região.
Seria, no entanto, em Benguela que a equipa portuguesa iria estabelecer os contactos mutuamente mais enriquecedores. O natural iso­lamento científico dos dois arqueólogos que trabalham no museu, explica a ansiedade com que éramos aguardados. Para eles a nossa chegada repre­sentava o reatar de laços com "colegas da mesma escola" (impressiona efectivamente a verdadeira comunhão cultural que sentimos, apesar das distâncias geográficas); era a possibilidade de poder discutir "in loco" os problemas da investigação, da organização e estudo dos materiais, das perspectivas da cooperação futura. Para nós; era sobretudo a descoberta duma outra realidade, cheia de carências mas compensada por uma capacidade imaginativa capaz de superar todas as dificuldades. A exposição montada naquele Museu, sobre a evolução da economia e das técnicas, dum didactismo cuidado e mesmo de concepção arrojada, é um verdadeiro exemplo de capacidade de improvisação, face aos reduzidos meios técnicos disponíveis. (Fabricar uma coluna de fo­tografia a partir dum "macaco" de Volkswagen, é apenas um dos muitos exemplos que se podem referir). Por outro lado, se os contactos com o pessoal auxiliar foram mais difíceis, o seu entusiasmo pelo trabalho arqueológico - só quem já fez arqueologia o pode compreender - compensa as naturais limitações da sua pouca formação escolar. E a sua vontade de aprender, quer no trabalho de campo quer de gabinete, representou para nós importante incentivo.

E o futuro? Se bem que este primeiro passo tenha tido um sig­nificado importante, só a continuidade das acções poderá vir a dar frutos concretos. Os arqueólogos angolanos têm mantido alguns contactos com ou­tros países mas,- e isso ficou bem evidenciado, não só em palavras, mas sobretudo na forma como fomos recebidos - há um interesse especial na co­operação portuguesa. Não só pela facilidade linguística, mas por toda um conjunto de circunstancialismos que passam por séculos de convivência que não se apagam dum momento para o outro. Há no entanto que ser realista e, para lá dos problemas eco­nómicos, as próprias condições das nossas estruturas de investigação ar­queológica não são de molde a facilitar o lançamento de programas de co­operação ambiciosos. Apesar de tudo, parece-nos haver domínios em que é possível actuar a curto prazo, quer na formação de pessoal, quer através da troca permanente de informações, quer ainda pela organização de mis­sões arqueológicas conjuntas. Para já, existe em Portugal um organismo com especial vocação para a cooperação, o Instituto de Investigação Científica Tropical (her­deiro da Junta de Investigação do Ultramar) mas, tendo em conta quer os poucos meios de que dispõe, quer sobretudo a necessidade de alargar e in­formar de espírito novo essa cooperação, há que estender essa acção às Universidades, aos museus portugueses e instituições de defesa do Patrimó­nio. O que está em jogo não são meras conveniências políticas ou económi­cas de ocasião, mas uma obrigação histórica que pesa sobre a nossa gera­ção. A amizade também se forma no conhecimento e compreensão das diferen­ças. Disso ficou-nos a certeza e sobretudo a responsabilidade.

Lisboa, 14 de Julho de 1983

A chegada ao Museu Nacional de Arqueologia, Benguela (antiga Alfandega portuguesa)

Concheiro da Idade do Ferro, na Baía Farta- fase da escavação, feita a partir de um corte natural já existente. Sentado, Luis Pais Pinto

A mesma escavação. Em primeiro plano, Ana Paula Tavares, actualmente um nome consagrado da literatura angolana.

Missão arqueológica de 1983: um momento de descontração. Reconhecem-se Luis Pais Pinto, Ana Paula Tavares e à direita, o antropólogo Jorge Sande Lemos 

Escavação da Baía Farta_ missão de 1983

Escavação da Baía Farta_ missão de 1983


terça-feira, 31 de março de 2015


"Arqueogoogle"

Recinto Megalítico dos Almendres (Monumento Nacional)

Em 1996 tive a sorte de ter um lampejo do "futuro" que, afinal estava mais próximo do que imaginava. Para fazer o planeamento dos trabalhos arqueológicos nos 20 000 hectares de território ameaçado pela inundação do Alqueva, a EDIA  pôs à disposição da minha equipa, um levantamento de fotografia aérea de todo o território abrangido pelo EFMA (Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva), distribuído por algumas dezenas de CD Roms, que nos permitia visualizar as áreas de trabalho no ecrã do computador graças a ortofotomapas, momocromáticos, na escala 1.2000. Como já tínhamos então um ficheiro Filemaker (compatível com uma tabela tipo Excel) com as coordenadas (M e P, da CMP-1:25000) de todos os sítios inventariados, conseguíamos identificar e visualizar com relativa facilidade e alguma nitidez, todas as estruturas que tivessem alguma expressão física no terreno. Isso permitia de imediato realizar as seguintes operações: confirmar ou corrigir as coordenadas da estrutura ou sítio em causa, determinar o seu contorno e, por fim confirmar a respectiva "altitude", para saber se estava ameaçada total ou parcialmente pela inundação. Mais tarde, com o apoio do Prof. Ribeiro da Costa da Universidade Nova (mais tarde KIRON), o "pai" do ENDOVÈLICO, começámos a instalar o SIG ambiental da EDIA que ainda hoje (com outros meios e outras tecnologias) serve de apoio á gestão das centenas de intervenções arqueológicas promovidas pela EDIA no Alentejo. Pois, tudo aquilo que só era possível porque a EDIA encomendara a uma empresa internacional do ramo, um levantamento aéreo específico que custou então alguns largos milhares de "contos", está hoje praticamente ao alcance de todos graças às ferramentas disponibilizadas universalmente por sistemas do tipo "Google". E os arqueólogos sabem disso e usam-no praticamente no dia a dia, não apenas para planeamento, mas até para prospecção. É um bom exemplo da utilidade das imagens Google, a identificação nos últimos tempos,  pelo arqueólogo António Valera, de vários "recintos de fossos" no Alentejo, completamente inéditos e praticamente imperceptíveis à superfície.
Esta reflexão vem a propósito da circunstancia de ter verificado há poucos dias, que as imagens do GoogleEarth referentes ao território de Guadalupe/ Valverde tinham sido actualizadas recentemente e, esse é o aspecto mais relevante, com uma resolução mais acurada, mesmo no que respeita a zonas rurais. Aproveito para mostrar alguns exemplos, todos referentes à minha freguesia (União de Freguesias de Nª Sº da Tourega e Nª Sª Guadalupe) que demonstram isso mesmo.

Menir dos Almendres (Imóvel de Interesse Público)

Recinto Megalítico de Vale Maria do Meio (Monumento Nacional)


Recinto Megalítico da Portela de Mogos (Imóvel de Interesse Público)

Anta Grande do Zambujeiro, Monuento Nacional (coberta por uma estrutura "provisória", instalada há 30 anos)
Anta 1 da Herdade do Barrocal (Monumento Nacional)
Castelo do Giraldo_ Atalaia medieval, com pré-existências do Calcolítico e Idade do Bronze (não classificado)

Mamôa  e Menir de Vale Rodrigo (Monumento 1 do Conjunto Megalítico de Vale Rodrigo, Monumento Nacional)


Ruínas romanas da Tourega (Imóvel de Interesse Público)





segunda-feira, 30 de março de 2015

 Os livros de D.Fernando de Almeida


Ao contrário de muitos colegas da minha idade, não cheguei a conhecer bem D.Fernando de Almeida (1903-1979). Assisti à sua última aula de jubilação de catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa (1973) e provavelmente cruzei-me com ele algumas vezes no Museu Nacional de Arqueologia, uma vez que a sala que ele próprio cedera para uso dos jovens do GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português) se localizava perto do seu gabinete de Director, lugar que ocupou entre 1966 e 1973, como é sabido. Tinha a noção da sua ligação à Beira Baixa, não apenas pelo seu extraordinário trabalho como arqueólogo na Idanha-a-Velha, onde conheci mais tarde já como Director do Departamento de Arqueologia, o sr. Adelino, o seu fiel "capataz" das escavações e posterior guarda da "catedral" (que não nos deixava sequer mudar uma simples pedra de lugar, em respeito pelo senhor D.Fernando...), mas também porque numa das campanhas de salvamento da arte rupestre nos inícios dos anos 70 conheci um seu primo, director da Citroen em Castelo Branco. De facto, a Citroen Portuguesa, a título de publicidade, emprestara-nos uma viatura de serviço para os trabalhos de campo em Vila Velha de Ródão e um problema no alternador, obrigou-me (era o condutor de serviço numa altura em que ter carta aos 20 anos ainda era raro) a procurar os serviços de assistência em Castelo Branco. A minha ligação, ainda que indirecta a D.Fernando de Almeida, abriu-me todas as portas... Vem tudo isto a propósito da mesa redonda que teve lugar ontem mesmo (29 de Março de 2015) no Museu Francisco tavares Proença Júnior, comemorativo dos 30 anos da Biblioteca D.Fernando de Almeida,"Bibliotecas e História, histórias de Bibliotecas" em que participou o meu colega e amigo de longa data, João Inês Vaz. É que face àquele tema e tendo em conta o contexto, não queria deixar de dar um pequeno contributo para o assunto discutido. É sabido que após a morte de D.Fernando de Almeida (1979), julgo que por sua expressa vontade, o grosso da sua biblioteca de História de Arte, especialmente rica no que respeitava ao mundo Clássico e à Alta Idade Média, foi doada pelos seus herdeiros ao Museu de Castelo Branco, do qual Fernando de Almeida fora responsável em tempos. O que talvez seja menos conhecido e aqui fica a informação, é que alguns livros de temática mais especificamente arqueológica foram oferecidos ao Serviço Regional de Arqueologia do Sul (1980-1990), conservando-se actualmente na Biblioteca da Direcção Regional de Cultura do Alentejo, entidade que de reestruturação em reestruturação, é hoje herdeira das competências daquele efémero serviço, instalado em finais de 1980 no Palácio Vimioso, cedido para o efeito pela Universidade de Évora. Era então o seu Director (1980-1988), Caetano Mello Beirão que, antes de iniciar a sua carreira de arqueólogo na zona de Ourique, exercera a profissão de advogado. Segundo consta ele terá representado, como testamenteiro, uma das filhas de D.Fernando de Almeida e teria sido por essa via que conseguiria que um lote da Biblioteca fosse oferecido ao "seu" serviço de Évora. De entre esse lote destaco algumas colecções de revistas, devidamente encadernadas e exibindo o autocolante com o ex-libris de D.Fernando de Almeida, representando o "arco romano" de Idanha-a-Velha que ele próprio reconstruíra. Nota final: como republicano e laico, não sou muito dado a usar os títulos nobiliárquicos e, sobretudo em artigos ou textos mais formais, em que cito ou refiro Fernando de Almeida, não tenho usado o "Dom". Neste caso, até por razões de algum modo sentimentalistas, abri uma excepção.
A coleção do "Arquivo de Beja"

A colecção da "Arqueologia e História" 

"Portugal Antigo e Moderno" de Pinho Leal


"O Arqueólogo Português"

Algumas raridades da Comissão Geológica de Portugal


sexta-feira, 27 de março de 2015

As Ruínas de Tongobriga (Freixo, Marco de Canavezes)

























O ano de 2014 foi fértil em eventos comemorativos do 25 de Abril, talvez pelo redondo da data (40 anos), talvez pelo saudosismo e nostalgia daqueles que o viveram intensamente na plenitude da sua juventude e que hoje entretanto terminaram ou estão próximo de terminar as respectivas carreiras profissionais, com tudo o que isso pode significar do ponto de vista psicológico. A Arqueologia e o Património não fugiram à regra e várias iniciativas, em jeito de balanço, foram promovidas por diferentes instituições. Em Lisboa, por exemplo, o MNA organizou um encontro a que chamou "Arqueologia, Património e Museus em tempo de mudança" que congregou muitos colegas que deram testemunho das suas experiências no pré e no pós 25 de Abril. Tive a oportunidade de participar activamente e recordo em particular a intervenção do Eng. Jorge Paulino, há muito retirado da Arqueologia, mas que no 25 de Abril liderou as movimentações ocorridas entre os arqueólogos portugueses, a exemplo do que aconteceu com todas as classes sócio-profissionais. O rigor e detalhe da informação que mostrou possuir, alicerçada em documentação coeva, merecem e exigem oportuna publicação, entretanto prometida pelo próprio Jorge Paulino.


 No Norte, por sua vez, coube à Faculdade de Letras da Universidade do Porto, a organização de um Colóquio com o título: 40 anos depois de Abril, Património e Ciência no Norte de Portugal, com múltiplas intervenções nas áreas da Arqueologia, História da Arte e Museologia, e cujas actas se encontram já publicadas. Não tive acesso ao volume em si, mas o Lino Augusto Tavares teve a amabilidade de me enviar o PDF do seu contributo, "Tongobria, do Século de Augusto ao obscurantismo...", que li com interesse até porque profissionalmente, sinto-me ligado ao nascimento do projecto nos inícios dos anos 80, como o Lino teve a amabilidade de referir a certa altura. E de facto o projecto de Tongóbriga, ou melhor, da "Área Arqueológica do Freixo", assumiu uma singularidade própria no contexto das transformações da arqueologia portuguesa no final do Século passado. Ao contrário de muitos sítios ou monumentos em que havia todo um "histórico" a que a geração a que me orgulho de pertencer, deitou mão repensando ou refazendo, no caso do Freixo havia apenas uma vaga lenda local de uma "Capela dos Mouros", materializada em meros vestígios salvos "in extremis" por um autarca zeloso. Confirmar a existência e pôr à vista a cidade romana de Tongobriga, negociar e adquirir terrenos, criar estruturas em plena aldeia, adquirindo, alugando e adaptando espaços, exigiu um grau de crença e empenhamento no que se estava a fazer e de estreito envolvimento local que só um verdadeiro corredor de fundo poderia levar a cabo com sucesso. É verdade que, quando o projecto atingia a bonita idade de um quarto de século, foi de algum modo travado no potencial de crescimento que ainda revelava, e disso, que classifica como "obscurantismo", Lino Tavares dá conta com evidente mágoa no seu texto. Em todo o caso, o essencial do projecto mantem-se, nomeadamente na sua forte componente pedagógica, constituindo em minha opinião um exemplo muito positivo das transformações estruturais que a sementeira de ideias que o 25 de Abril proporcionou, citando como o Lino faz no seu texto, Guilherme d'Oliveira Martins.
Ao projecto da Área Arqueológica do Freixo, dediquei em Abril de 1994 (20 anos depois do Abril em causa) uma das crónicas do Diário de Notícias que, por razões editoriais, não coube na colectânea publicada pela Europa-América (Raposo e Silva, A Linguagem das Coisas, 1996) e que agora aqui anexo como testemunho.



quinta-feira, 26 de março de 2015

René Desbrosses (1930-2015)




Tal como as conversas, a INTERNET também é como as cerejas. Atrás de um assunto vem sempre outro. Foi o que aconteceu com a recente “entrada” sobre o IV Congresso Nacional de Arqueologia (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/03/memoria-dos-4-congressos-nacionais-de.html).
Por causa de uma foto, acabei por tomar conhecimento da morte em data muito recente (29 de Janeiro de 2015) de René Desbrosses, um arqueólogo francês, velho amigo do GEPP (Grupo para o Estudo do Paleolítico Português), uma associação informal que nos anos 70 congregava vários estudantes e jovens arqueólogos particularmente interessados na temática Paleolítica. Muito críticos em relação à escola tradicional demasiado enfeudada à Geologia, que limitara durante várias décadas os avanços dos conhecimentos neste domínio, aqueles jovens procuravam “lá fora” aquilo que a arqueologia portuguesa não lhes podia dar. E, por motivos vários, esse "lá fora", era então a França. Quer por tradição cultural, quer pelo domínio da língua e facilidade de acesso à bibliografia, quer sobretudo pela pujança da investigação paleolítica francesa à época, reconhecida mundialmente, graças a nomes como André Leroi-Gourhan (1919-1986), François Bordes (1919-1981), Jacques Tixier ou Henry de Lumley, só para citar alguns. Não admira pois, que após a descoberta da arte rupestre do Vale do Tejo em Outubro de 1971, por uma equipa do GEPP, estes tenham procurado em Paris, junto de André Leroi-Gourhan, informação actualizada sobre a melhor metodologia para o seu registo urgente, dada a ameaça pendente da Barragem do Fratel. Trouxeram então informação sobre as técnicas de moldagem praticadas na Argélia (Tassili) pelo seu assistente Michel Brézillon (1924-1993) que iriam aplicar no Tejo, mas sobretudo trouxeram contactos e abertura dos seus "chantiers de fouilles" à participação de estudantes portugueses. Logo nesse mesmo Verão de 1972, Francisco Sande Lemos participaria nas escavações de Pincevent dirigidas por Gourhan e Brézillon, a que se seguiram outros colegas nos anos seguintes, não apenas em Pincevent, mas noutros sítios franceses, como “Tautavel”, nos Alpes, sob a direcção de Henry de Lumley, La Tourasse, nos Pirinéus, sob a direcção de Michel Orliac, etc…


Foi nesse contexto que surgiu também a oportunidade de envolvimento no projecto que René Desbrosses conduzia desde o início dos anos 70 nas margens do Rio Ain, ao Sul de Lyon (Fouilles Prehistoriques de L’Ain). Desbrosses, antigo professor liceal de História, estava desde 1974 ligado ao Laboratório de História Natural e ao CNRS. Nesse âmbito desenvolveu importantes escavações nos níveis do Paleolítico Superior e Epipaleolítico do “Abri Gay”, um sítio vizinho da gruta de La Colombière, tornada célebre pelos seixos com gravuras paleo e epilpaleolíticas, descobertos alguns anos antes nas escavações do americano H.L.Movius, professor em Harvard. No Verão de 1978, coincidindo com um período em que o GEPP desenvolvia já um projecto de investigação paleolítica no Ródão, com sondagens em sítios como Vilas Ruivas, Monte Famaco ou, posteriormente, Foz do Enxarrique, tive oportunidade de participar nas escavações então conduzidas por René Desbrosses na Gruta de la Colombiére, conjuntamente com Luis Raposo, Francisco Sande Lemos, José Mateus e Maria João Coutinho. Essa experiência seria particularmente interessante para nós no que respeitava à logística de uma intervenção em gruta, pois Desbrosse instalara toda uma série de equipamentos mecânicos de apoio, quer na escavação quer no tratamento posterior dos sedimentos recolhidos, alguns dos quais replicaríamos depois nas escavações do Ródão. Também se revelou muito importante para a nossa formação, a componente social e educativa do projecto. Instalado num Castelo propriedade pública (Chateau de Chenavel), as escavações coincidiam com as férias escolares de modo a que os estudantes, de vários graus de ensino e alguns com problemas especiais, pudessem participar activamente. Em paralelo com o trabalho de campo e gabinete (recordo que todas as manhãs, logo a seguir ao pequeno almoço e antes da partida para o campo, a cada participante era entregue uma amostra de sedimentos lavados, para separação rápida da micro fauna e dos restos de talhe lítico…) havia conferencias e projecções de slides ou filmes didáticos e o próprio Castelo, onde se mantinham exposições sobre a Pré-história, estava aberto á visita pública. Naturalmente, Chenavele acabava por ser uma espécie de Centro de Investigação, onde se cruzavam investigadores de várias disciplinas. Nesse Verão tivemos a sorte de conhecer e trabalhar na Colombière com outro grande pré-historiador francês, Jacques Tixier, que tal como François Bordes, se especializara no talhe experimental. Dessa relação de amizade surgiu mais tarde, nos anos oitenta, a concretização de uma célebre sessão de talhe experimental, conduzida pelo próprio Tixier, no Museu Nacional de Arqueologia em Lisboa.
O Chateau de Chenavel, sede do projecto "Fouilles Prehistoriques de LAin, dirigido por René Desbrosses


Verão de 1978: Luis Raposo, José Mateus (à esquerda), Maria João Coutinho, sentada ao centro, e Francisco Sande Lemos, à direita, na esplanada do Castelo de Chenavele
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Estação de "crivagem a água" de sedimentos, nas margens do L'Ain




Estação de "crivagem a água" nas margens do Tejo (Foz do Enxarrique).





















Ainda que outros colegas tenham posteriormente participado nas escavações de Chenavele e tenham mesmo mantido relações de amizade muito próximas com René Desbrosses, o meu último contacto pessoal aconteceria em Maio de 1980, em Faro. Encorajado pelas excelentes relações com os estudantes portugueses, Desbrosses resolveu participar no IV Congresso Nacional de Arqueologia, suponho que com uma comunicação jamais publicada, em que realçava a importância, para ambas as partes, desta atípica colaboração internacional, afinal tão distante do formalismo burocrático que envolve na actualidade este tipo de projectos.



René Desbrosses confraternizando com os colegas portugueses, em Faro, num intervalo do IV Congresso Nacional de Arqueologia (Maio de 1980). Da esquerda para a direita: José Mateus, A.Carlos Silva (encoberto) Ana Raposo, José Arnaud, Desbrosses, Luiz Oosterbeek e João Zilhão.




segunda-feira, 23 de março de 2015

Arqueologia a Norte (2)


Reagindo a uma entrada de há quase um mês (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/02/arqueologia-norte-ao-ler-o-texto-do.html), o meu colega e amigo de longa data Orlando de Sousa enviou-me mais alguns dos folhetos editados nos anos 80 por iniciativa do Serviço Regional de Arqueologia do Norte e que reforçam o testemunho que procurei dar sobre o dinamismo e a marca indelével que aquele serviço (1980-1990), dirigido primeiro pelo Francisco Sande Lemos e depois pelo Lino Tavares Dias, deixou na arqueologia do Norte.

O Orlando, é actualmente técnico superior na Direcção Regional de Cultura do Norte mas pertence à primeira geração de arqueólogos recrutados por concurso público no início dos anos 80 pelo IPPC para ocuparem os 6 lugares previstos para os 3 Serviços Regionais de Arqueologia, no seu caso, para o Serviço do Norte, com sede em Braga em instalações cedidas pela Universidade do Minho.

Citânia de Santa Luzia, Viana do Castelo, 1985


Conjunto Megalítico da Serra da Aboboreira, Baião (1989)


Castro de Faria, Barcelos (1987)


Castelo e Vila de Ansiães, Carrazeda de Ansiães (s.d.)