segunda-feira, 23 de março de 2015

Arqueologia a Norte (2)


Reagindo a uma entrada de há quase um mês (http://pedrastalhas.blogspot.pt/2015/02/arqueologia-norte-ao-ler-o-texto-do.html), o meu colega e amigo de longa data Orlando de Sousa enviou-me mais alguns dos folhetos editados nos anos 80 por iniciativa do Serviço Regional de Arqueologia do Norte e que reforçam o testemunho que procurei dar sobre o dinamismo e a marca indelével que aquele serviço (1980-1990), dirigido primeiro pelo Francisco Sande Lemos e depois pelo Lino Tavares Dias, deixou na arqueologia do Norte.

O Orlando, é actualmente técnico superior na Direcção Regional de Cultura do Norte mas pertence à primeira geração de arqueólogos recrutados por concurso público no início dos anos 80 pelo IPPC para ocuparem os 6 lugares previstos para os 3 Serviços Regionais de Arqueologia, no seu caso, para o Serviço do Norte, com sede em Braga em instalações cedidas pela Universidade do Minho.

Citânia de Santa Luzia, Viana do Castelo, 1985


Conjunto Megalítico da Serra da Aboboreira, Baião (1989)


Castro de Faria, Barcelos (1987)


Castelo e Vila de Ansiães, Carrazeda de Ansiães (s.d.)


Memória dos (4) Congressos Nacionais de Arqueologia

Numa das últimas entradas para este Blog ("Almendres, o Sol falhou o Equinócio") ao falar no trabalho pioneiro do Prof. Marciano da Silva sobre o significado astronómico de alguns monumentos megalíticos, referi que o mesmo, apesar de apresentado ao IV Congresso Nacional de Arqueologia (1980) só viria a ser publicado vinte anos depois, por falta de publicação das actas daquele congresso. Recordei então que em Outubro de 1993, a propósito da realização do I Congresso de Arqueologia Peninsular então a decorrer no Porto (12 a 18 de Outubro), organizado pela Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, sob a direcção executiva, científica, logística (etc...) do Vitor Oliveira Jorge, seu promotor e incansável organizador, dediquei uma das minhas primeiras crónicas do DN ao curto mas atribulado historial dos 4 Congressos Nacionais de Arqueologia.  Como esta não foi integrada na compilação editada pela Europa-América (Raposo e Silva, 1996, A Linguagem das Coisas), aqui a divulgo. Uma nota a propósito de uma gralha: quando se refere a próxima organização do Congresso Nacional de Arqueologia (espanhol) de Vigo, deve ler-se XXII e não XII como por lapso se publicou. Acrescento duas "recordações" fotográficas desse IV Congresso acontecido em Maio de 1980 na cidade de Faro. Convém recordar que a Universidade do Algarve estava então praticamente a nascer (1979) e portanto nada teve que ver com este congresso promovido e organizado pela UNIARQ da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sob a coordenação de Vitor Gonçalves. 

IV Congresso Nacional de Arqueologia (Faro 1980): Luis Raposo, sentado à esquerda e António Carlos Silva, à direita apresentam a comunicação sobre as sondagens efectuadas em 1979 no sítio "languedocense" do Xerez de Baixo (Reguengos de Monsaraz), publicada mais tarde na revista "Setúbal Arqueológica" (1981)
IV Congresso Nacional de Arqueologia (Faro 1980)- comunicação de António Carlos Silva, presidindo à Mesa, o Doutor Georg Zbyszeski (1909-1999)



IV Congresso Nacional de Arqueologia (Faro 1980): intervalo de confraternização entre congressistas: reconhecem-se da esquerda para a direita, José Mateus, Ana Raposo, José Morais Arnaud, René Desbrosses (pré-historiador francês), Luis Osterbeek e João Zilhão. (NOTA: ao escrever este texto, procurei informar-me na INTERNET sobre  René Desbrosses, com quem vários membros do GEPP tiveram oportunidade de escavar em França nos anos 70 , tendo acabado por descobrir que este faleceu muito recentemente, em 29 Janeiro passado, com a idade de 84 anos. O que Desbrosses representou nos anos 70 para vários jovens arqueólogos portugueses, em que também me conto, será certamente objecto de próxima entrada neste Blog)

sexta-feira, 20 de março de 2015

Almendres_ o Sol “falhou” o Equinócio



Hoje em dia, a associação à astronomia dos monumentos megalíticos, em particular dos menires nas suas várias formas de apresentação (isolados, em recinto ou alinhados…), tornou-se um dado de conhecimento quase do âmbito da cultura geral de qualquer turista minimamente informado, ainda que em muitos casos, esse conhecimento esteja ainda fortemente imbuído da visão romântica que informou no passado, especialmente em Inglaterra, a interpretação destes monumentos como templos druidas ou celtas relacionados com cultos astrais, hoje recuperados por grupos “new age” das mais variadas inspirações. No entanto, o reconhecimento de que existiam alinhamentos construídos pelo homem pré-histórico relacionáveis com o nascimento e o ocaso de determinados astros, em certas épocas do ano, feito sobretudo por astrónomos ingleses desde o final do século XIX, acabou por gerar uma nova perspectiva na observação e análise destas estruturas arqueológicas, muitas vezes recorrendo já a novas tecnologias e equipamentos. A acumulação de dados e observações pertinentes de interação astronómica ao longo do Século XX, nem sempre correspondeu porém, a explicações histórico-arqueológicas fundamentadas, contribuindo por vezes até para a profusão de teorias ficcionistas sobre a aquisição desses conhecimentos, supostamente científicos, pelas comunidades pré-históricas, desde a sua origem egípcia (teorias difusionistas) até aos contactos com “extra-terrestres”… De facto, apenas a partir da segunda metade do Século XX, fruto de uma colaboração cada vez mais estreita entre astrónomos e arqueólogos, se pode falar em “Arqueoastronomia”, inserindo-se a interpretação de hipotéticas relações astronómicas dos monumentos construídos pelas comunidades pré-históricas com o contexto mais geral de relação com a paisagem natural, em articulação com os seus elementos estruturantes, entre os quais se incluem os omnipresentes “astros”.

Apesar da riqueza megalítica no território português, as primeiras observações de orientações astronómicas aconteceram apenas em meados do Século XX e foram realizados pelo casal de arqueólogos alemães, Georg e Vera Leisner que confirmaram que a orientação dos corredores das antas alentejanas, indicava de uma maneira geral e com algumas pequenas variações, o “nascente”. Mas seria apenas a pós a descoberta e divulgação dos primeiros recintos megalíticos, nomeadamente o Cromeleque dos Almendres, identificado em 1964 por Henrique Leonor de Pina, que se realizariam em Portugal observações astronómicas mais consistentes. No início dos anos 70, o físico Cândido Marciano da Silva procedeu a um conjunto de observações nos Almendres e em menires da região de Monsaraz cujas conclusões apresentou ao IV Congresso Nacional de Arqueologia realizado em Faro em 1980 mas que, por falta da publicação das respectivas actas, só acabariam publicadas no ano 2000. Posteriormente, os arqueólogos Mário Varela Gomes, Manuel Calado e Pedro Alvim, realizaram novas observações nestes e noutros monumentos da região, sendo esta temática uma vertente muito significativa nos estudos que Pedro Alvim vem desenvolvendo sobre os menires do Alentejo Central no contexto da tese de doutoramento que irá defender em Durhan, Inglaterra, sob a direcção científica de Chris Scarr, um dos mais reputados especialistas em megalitismo da actualidade.
O grupo "new age" habitual dos Almendres, aguarda o Sol para proceder ao respectivo "ritual" 


Tudo isto, vem a propósito da tentativa frustrada de observar nos Almendres o nascimento do Sol no equinócio de Primavera que ocorreu hoje mesmo. Por várias razões, tem sido destacado no caso deste recinto, o possível alinhamento solsticial definido pela sua relação com o Menir isolado localizado nas proximidades do Monte vizinho, evento que há alguns anos a esta parte tem servido de fundo para a divulgação cultural do monumento pela população de Guadalupe (Festa do Solstício). Mas de facto, e essa foi a principal conclusão dos trabalhos de Marciano da Silva, a principal orientação do Cromeleque dos Almendres, é de cariz equinocial, definida por um eixo que une o grande menir com “covinhas” localizado a Poente, com o maior monólito situado a nascente. Infelizmente, a nebulosidade da manhã impediu hoje essa observação e o seu registo fotográfico. Fica para a próxima...

Cândido Marciano da Silva, à esquerda, orientando uma visita aos Almendres realizada em Maio de 2009 no âmbito do programa Ciência Viva.

Diagrama da triangulação usada por C.Marciano da Silva para medir a orientação entre o Cromeleque e o Menir dos Almendres
Por fim, com meia hora de atraso, o Sol como que se preparando para o encontro com a Lua, lá surgiu já bem alto no horizonte sobre a cidade de Évora que amanhecia.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Relembrando os contributos da "Arqueologia" para a instalação do Laboratório de C14 em Portugal


Como é meu hábito, não deixo de estar atento às montras da centenária Livraria Nazareth à Praça do Giraldo (fundada ainda no Século XIX e na posse da mesma família há mais de um século), junto à qual passo obrigatoriamente para chegar ao meu serviço na vizinha Rua de Burgos. Se na montra principal se expõem as últimas novidades, nas laterais é habitual uma apresentação mais temática, muitas vezes claramente orientada para os alunos universitários que sobem a Rua 5 de Outubro, a caminho da Universidade de Évora. É nesse contexto que, entre outras edições especializadas editadas pelo Instituto Superior Técnico, reparei recentemente no livro de João Peixoto Cabral, "A radioactividade: contributos para a História da Arte". Editado e apresentado publicamente em Maio de 2011, conforme rapidamente descobri graças à INTERNET, por José Veiga Simão (colega de curso do autor e antigo Ministro da Educação no Marcelismo) e por João Zilhão, (antigo Director do extinto Instituto Português de Arqueologia), a obra passou-me  despercebida na altura e daí a minha curiosidade. Transcrevo mais a baixo, para eventuais interessados, a respectiva sinopse, se bem que não seja esse o motivo principal desta nova mensagem. De facto o nome de João Peixoto Cabral evoca-me boas recordações do espírito de missão, sem reservas de qualquer espécie, com que nos anos 80 procurávamos construir as estruturas da Arqueologia portuguesa, congregando todos os meios e esforços no sentido do progresso qualitativo daquilo em que acreditávamos. É certo que nas reuniões que então mantivémos no Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, onde funcionava o Departamento de Arqueologia do IPPC, a figura engravatada e extremamente formal mas afável do Engenheiro João Peixoto Cabral, destoava claramente quer pela idade, quer pela apresentação dos colegas "arqueólogos", mas todos estávamos irmanados do mesmo objectivo: criar as condições para que a "revolução do Carbono 14" chegasse finalmente à arqueologia portuguesa. Na altura, o António Monge Soares (químico como Peixoto Cabral e arqueólogo da "nossa escola"), andaria já às voltas, entre Oxford e Lisboa, com o seu Doutoramento no tema, havendo pois o " know-how" necessário. Mas havia que adaptar instalações no LNETI e adquirir o equipamento. Conforme Peixoto Cabral e Monge Soares registam em artigo publicado em 1984 na Informação Arqueológica 4, em 1983 fora finalmente obtida a luz verde da Direcção do LNETI (que até aí não vira grande interesse prático no projecto...) mas os meios orçamentais disponíveis apenas chegavam para as obras de adaptação de instalações a usar. Aí conjugou-se o interesse da Arqueologia, tendo sido possível ao Departamento de Arqueologia e ao MNAE contribuirem com 2000 e 1800 contos respectivamente (retirados dos seus planos de actividades) para a aquisição de equipamentos a que somaria ainda um apoio da Agência Internacional da Energia Atómica de 4 300 contos (no total estamos a falar em cerca de 40 000 €). Tudo se encaminhava pois, de acordo com o artigo citado, para que em 1985 fosse possível dar início a um programa de datações que, nos termos de um Protocolo então assinado entre o IPPC e o LNETI, contaria com o apoio financeiro da Arqueologia, que pagaria as datações ao laboratório sob proposta dos próprios arqueólogos. Tudo parecia estar tão bem encaminhado que nesse mesmo artigo Peixoto cabral e Monge Soares, divulgavam já os princípios e regras que os arqueólogos teriam de seguir para que as amostras a datar fossem validadas. Infelizmente, como recordei graças a novo artigo da mesma dupla publicado um ano depois na Informação Arqueológica 7, os inevitáveis atrasos nas obras à portuguesa, fizeram cair por terra aquela previsão, estimando-se então como data previsível para o arranque das primeiras datações no LNETI o 1º trimestre de 1986. Não recordo se essa data se confirmou, mas como é do conhecimento geral, o Laboratóriio de C14, instalado graças ao dinamismo de João Peixoto Cabral e à persistência e conhecimento técnico de António Monge Soares, acabou por ser uma realidade e começar a produzir datações, graças também aos apoios iniciais da própria Arqueologia. Mas essa é uma história atribulada que certamente um dia o António contará com mais propriedade, até porque imagino que a presente situação não será a mais famosa, depois do vendaval dos "PRACE e quejandos" que varreu a Administração Pública nos últimos anos. (O Eng.João Peixoto Cabral, que além de Professor Catedrático no IST chegou a dirigir o Instituto de Conservação e Restauro José de Figueiredo, entre 1992 e 93, aposentou-se em 1998. O Eng. António Monge Soares, por sua vez, ainda que continue felizmente muito activo no apoio à Arqueologia, aposentou-se também muito recentemente.)

Foto dos equipamentos de C14 já instalados no LNETI, que ilustrava o artigo de JPCabral e AMSoares, na Informação Arqueológica nº7 (1986)








Este livro trata um aspecto particular da Física Nuclear – a radioactividade – na perspectiva da sua utilidade na datação de objectos com interesse histórico. A análise do índice revela bem o cunho que o autor quis dar à sua obra. João Peixoto Cabral é profundo conhecedor das aplicações de técnicas de decaimento radioactivo em história de arte e pertence ao grupo dos pioneiros em Portugal da utilização do radiocarbono em arqueologia. Logo no início da obra faz uma introdução ao problema da datação numa perspectiva muito interessante para o utilizador mais comum da primeira parte do livro que será, com certeza, alguém com suficiente conhecimento de física-química e de matemática. O texto prossegue depois por capítulos mais técnicos: a radioactividade natural e artificial, os processos de decaimento, a interacção da radiação com a matéria e as bases físicas dos detectores, e a datação absoluta com base na radioactividade. Os assuntos estão bem encadeados. Seguindo-se a uma primeira parte mais técnica, a segunda parte do livro trata dos contributos da radioactividade para a história da arte, incluindo a datação (sobretudo de arte rupestre) e a autenticação de obras de arte. O livro termina com uma pertinente incursão pelo método de análise de activação com neutrões em história da arte. Esta segunda parte do livro, pode ser lida por todos os que se interessem por história da arte, independentemente dos seus conhecimentos nas áreas da física-química e da matemática. A presente obra vem preencher uma lacuna que existia no panorama da literatura científica em língua portuguesa, sendo, também por isso, muito bem-vinda. Em suma, estamos perante um excelente livro em que o Autor evidencia o seu profundo conhecimento científico e humanístico. Está também de parabéns a IST-Press por editar textos com a qualidade científica de "A radioactividade: contributos para a História da Arte" de João M. Peixoto Cabral, dando-se a feliz coincidência de o livro ser dado à estampa em 2011, ano em que se celebra o centenário da descoberta do núcleo atómico por Ernest Rutherford.


quarta-feira, 18 de março de 2015


As ruínas de Tróia nas origens da Arqueologia portuguesa

Tendo andado às voltas nos últimos dias com um texto para a próxima revista do Museu Nacional de Arqueologia ("O Arqueólogo Português") sobre António Cavaleiro Paixão, um arqueólogo recentemente desaparecido (1939-2014), foi inevitável recordar o seu envolvimento directo no estudo das ruínas de Tróia, a que esteve ligado como colaborador de Fernando de Almeida, professor catedrático de Faculdade de Letras de Lisboa e Director do Museu Nacional de Arqueologia nos anos 60 e 70. Cavaleiro Paixão, após a licenciatura, com uma tese sobre a necrópole proto-histórica de Alcácer do Sal, esteve algum tempo em Moçambique (1971-74) lecionando cadeiras de arqueologia e história antiga na então recém criada Universidade de Lourenço Marques. Regressado a Portugal em Setembro de 1974, num período certamente complicado da sua vida, é contratado por indicação de Fernando de Almeida, pela Lusotur, (entidade na altura proprietária do empreendimento turístico Torralta e, consequentemente das próprias ruínas romanas) para assegurar o estudo e a valorização destas, no contexto dos projectos turísticos para a zona. As condições sociais, económicas e políticas, porém, ainda eram pouco propícias e esse contrato teve curta duração, tendo António C.Paixão acabado por ser mais tarde integrado nos quadros da Direcção Geral do Património Cultural entretanto criada no contexto da Secretaria de Estado da Cultura, onde se encarregou regularmente do complexo "dossier" de Tróia.  Já depois de eu próprio ter protagonizado nos anos 80 mais uma tentativa frustrada de intervenção em Tróia, no âmbito das minhas funções directivas no IPPC, escrevi há 20 anos um texto sobre Tróia no Diário de Notícias (14 de Dezembro de 1995- não editado na colectânea de ACS e LR, A Linguagem das Coias, Europa-América, 1996) que felizmente se encontra muito desactualizado nas suas considerações finais mas que não resisto a reproduzir. Com efeito, nos últimos anos, graças a um projecto liderado pela arqueóloga Inês Vaz Pinto, contratada pela actual concessionária (Sonae Turismo), o sítio romano é já hoje um exemplo muito positivo de aposta num turismo cultural de qualidade conforme se pode comprovar "in loco", ou se tal não for possível "in situ" via INTERNET:


http://www.troiaresort.pt/pt/troia-ruinas/


António Cavaleiro Paixão, à direita ainda como estudante, acompanhando o conhecido pré-historiador francês Abée Glory, durante os trabalhos que este último efectuou na Gruta do Escoural em Janeiro de 1965.








segunda-feira, 16 de março de 2015

Na pedreira do Galinha


À primeira vista parece haver um grande paralelismo entre os movimentos de salvaguarda da jazida de pegadas de dinossáurios da Pedreira do Galinha e o movimento para o salvamento da arte rupestre do Côa, celebrizado pelo slogan “as gravuras não sabem nadar”. De facto aconteceram ambos em 1994 e os dois movimentos acabaram por ter interferências com a campanha eleitoral que culminaria com a vitória eleitoral do Engenheiro Guterres em 1995. Este comprometera-se, e cumpriu em ambos os casos, a encontrar soluções que viabilizassem a protecção daqueles bens, caso se confirmasse a sua importância excepcional. No entanto, ficaria mal aos arqueólogos não reconhecerem o papel percursor da geologia e em particular do Professor Galopim de Carvalho, que em 1992 dera a cara pelo salvamento da jazida dos trilhos de dinossáurios de Pego Longo, Carenque, ameaçada pela construção da CREL , movimento que de facto abriu o caminho para o sucesso nos casos da arte rupestre do Côa ou das pegadas de dinossáurios da Serra d’Aire.

Apesar de natural de uma aldeia próxima do Bairro, o lugar onde se localiza a Pedreira do Galinha, só muito recentemente, mais de vinte anos após a descoberta, se me proporcionou a visita. E de facto, o local mais pelo contexto paisagístico, do que pelas “pegadas” em si, pelo menos nas circunstâncias actuais, é impressionante e justifica a deslocação. O sítio está bem sinalizado, as condições de acesso e recepção estão operacionais e minimamente cuidadas, mas foi-me fácil compreender as reservas e alertas que já sentira ao ter lido há algum tempo o testemunho de Galopim de Carvalho no seu livro “Fora de Portas-Memórias e Reflexões” já datado de 2008. Dizia ele então, após o enunciar detalhado das componentes do projecto de musealização da jazida, a maioria das quais por concretizar ainda hoje: “ O mais procurado dos monumentos naturais portugueses que sem qualquer apoio publicitário, conta cerca de 50 000 visitantes por ano, está já a evidenciar aspectos preocupantes de abandono, decorrentes das restrições próprias do período que estamos a viver.” De então para cá, é óbvio até para o visitante menos atento, que pouco ou nada se investiu na manutenção, e muito menos na instalação dos equipamentos ou nas melhorias previstas, nomeadamente no âmbito do reforço visual dos trilhos. Infelizmente, esta é uma situação que também conhecemos bem do património cultural, onde nos últimos anos, os cada vez mais reduzidos meios financeiros disponíveis foram inteiramente canalizados para garantir o financiamento europeu de uns poucos grandes ou médios projectos, com quase absoluto mas inevitável descuramento de tudo o que é manutenção ou gestão corrente, em particular no que respeita aos recursos humanos. E no caso da Pedreira da Galinha, como dizia Galopim de Carvalho, todas as condições estavam reunidas para que o local atraísse multidões: óptima localização, facilidade de acesso, grandiosidade paisagística, e até, a monumentalidade dos “trilhos” se devidamente musealizados.

Até pela monumentalidade do grande anfiteatro criado pela antiga pedreira bem como pelo panorama que se desfruta, vale a pena a visita.


Não foi pois fácil convencer os familiares, que também aproveitei para rever na minha vizinha aldeia, da bondade do grande investimento publico ali realizado pelo Estado há vinte anos, em grande parte na indemnização aos concessionários da pedreira, pessoas que eles conheciam de sempre. De facto, de repente fez-se-me luz e veio-me à memória a expressão que ouvira dezenas de vezes em criança, quando os meus pais me entregavam ao cuidado do revisor da carreira dos Claras (a empresa de transportes públicos de Torres Novas) na paragem que havia em Sacavém à porta da antiga Fábrica da Louça, e que fazia a ligação entre Lisboa e a Sertã, para ir passar férias em casa da minha avó. "O menino é para sair no Galinha!" É que a paragem mais próxima da minha aldeia, à qual depois se acedia a pé ou de burro, era no "Galinha" do lugar Nicho, uma pequena venda da beira da estrada, propriedade dos mesmos Galinhas que anos mais tarde, convertidos à indústria da britagem na Serra, poriam a descoberto os trilhos de dinossáurios de há 175 milhões de anos.

Ao longo do percurso, bem sinalizado, está disponível informação adequada que facilita a visita sem necessidade de guia.
No meu caso a hora tardia da visita facilitou a observação dos principais trilhos. Em horas diferentes a observação poderá ser menos interessante. A solução proposta pelo Prof.Galopim de Carvalho ("pintura das pegadas")e nunca aplicada, como muitas outras propostas, poderá ter um efeito espectacular mas deverá ser eventualmente avaliada em todas as consequencias...A cima de tudo deverá ser uma solução inóqua para a pedra e reversível".

O que resta da antiga garagem dos "Claras" em Torres Novas, onde passava a carreira para a Sertã que me deixava na venda do Galinha, localizada no Nicho...às Terras Pretas.