terça-feira, 20 de janeiro de 2015


O Castro da Cola e a Necrópole da Atalaia_ nas memórias do "Diário Popular"

Abel Viana acompanhando a visita ao castro da Cola do arqueólogo Helmut Schlunk fundador e director até 1971 da delegação de Madrid do Instituto Arqueológico Alemão (Foto arquivo DAI).

Graças à amabilidade de Gonçalo Pereira, director da edição portuguesa da National Geographic, tomei conhecimento de mais um “recorte” do saudoso Diário Popular que agora aqui disponibilizo. Trata-se de um pequeno artigo datado de 22 de Setembro de 1966, assinado por José Moedas, conhecido jornalista do Diário do Alentejo falecido em 1994, e que tinha como título “Duas estações arqueológicas que estão à espera de novas investigações”. As estações em causa, ambas localizadas em Ourique e ilustradas com fotos, eram o Castro da Cola e a Necrópole da Atalaia, os últimos sítios arqueológicos a concentrarem a atenção do arqueólogo minhoto Abel Viana que, sem nunca esquecer as suas origens, adoptara o Alentejo e a cidade de Beja como a sua terra de eleição.
(vide o meu anterior post- http://pedrastalhas.blogspot.pt/2014/09/ser-ou-nao-ser-alentejano-participei.html

José Moedas destaca no seu texto, a circunstância de, desde a morte de Abel Viana, aqueles importantes sítios estarem praticamente ao abandono e a aguardar que alguém lhes desse a atenção que justificavam. De facto, após um longo périplo pela arqueologia do Algarve e Alentejo, conciliando com dificuldade a actividade de professor primário com a investigação de campo, Abel Viana, graças ao apoio da Fundação Gulbenkian, assentara arraiais na Senhora da Cola. Já com mais de sessenta anos, lança-se num difícil projecto de investigação, escavando o remoto Castro da Cola, antes referenciado por André de Resende e Frei Manuel Cenáculo, um local fortificado que mostrava indícios de uma longa ocupação, desde a Idade do Ferro aos tempos da Reconquista. Foi a partir da Cola que depois descobriria a Necrópole da Atalaia, um dos mais importantes e complexos monumentos funerários da Idade do Bronze do Sudoeste peninsular, entretanto escavada em colaboração com arqueólogos do Instituto Arqueológico Alemão. Abel Viana viria a morrer subitamente no dia 17 de Fevereiro de 1964, no dia imediato a uma importante visita às escavações do Castro da Cola por uma comitiva presidida pelo Ministro das Obras Públicas (um alentejano, pai do conhecido político pós 25 Abril, Adelino Amaro da Costa) e pelo Governador Civil de Beja. Aquele que parecera a Abel Viana como o tão ansiado momento de reconhecimento e apoio a um projecto que ele entendia também de desenvolvimento de uma zona especialmente deprimida, com o seu infeliz desaparecimento, tornava-se afinal o dia do esquecimento.
A visita do Ministro das Obras Públicas às escavações do Castro da Cola em 16 de Fevereiro de 1964

É disso que, dois anos depois, José Moedas dava conta no seu artigo do Popular. E na verdade ambas as estações aguardariam ainda muitos anos até que a sua sorte começasse de novo a mudar. No início deste século, a aquisição  dos terrenos do Castro da Cola pelo Estado e a instalação de um Centro Interpretativo numa das casas de romeiros do Santuário, que vai subsistindo dificilmente com os apoios locais, criaram condições não só para a visita ao Castro mas também para se descobrirem diversos monumentos megalíticos da região, dando vida a um projecto sonhado por Caetano Melo Beirão nos anos 80 http://www.patrimoniocultural.pt/pt/patrimonio/itinerarios/alentejo-algarve/02/ .
Já a Necrópole da Atalaia, não teve a mesma sorte. Um arrastadíssimo processo de classificação, só recentemente concluído (Decreto 24/2013, de 25-7-2013), não impediu que há alguns anos tivesse sido profundamente afectada por um desastrado projecto de florestação.  


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015


Património, morrer pela doença ou pela cura? 
O exemplo da Fortaleza de Juromenha 



Raramente as opiniões técnicas que emitimos, enquanto “especialistas do património”, são lineares ou óbvias. Por vezes confrontamo-nos mesmo com opções complexas do género, “será que ao inviabilizar uma proposta de intervenção em património, ainda que a mesma contrarie alguns princípios metodológicos que consideramos essenciais, não estaremos a contribuir, por omissão ou inacção, para antecipar a inevitável perda do bem em causa, ou pelo contrário, concordando com a proposta supostamente destinada à salvaguarda do bem, mas excessivamente interventiva, não estaremos a ser coniventes com a sua irremediável adulteração pela perda da autenticidade que fundamenta a sua identificação como "património"? 

Todos os que trabalhamos na área  já lidámos com estas situações, mas recordo em particular um projecto de há uma década atrás que previa a “reconstrução integral” da Vila de Juromenha (intra-muros) e a sua reutilização para fins turísticos. Por um lado tinha alguma estima pelos proponentes e estava ciente das suas "boas intenções". Por outro conhecia bem o estado de abandono a que chegara a Fortaleza. Tal projecto, do ponto de vista urbanístico, parecia juridicamente viável, uma vez que o Estado, através das Finanças, desafectava o “miolo” da Fortaleza (não considerado por aquela entidade como classificado e portanto não pertencente ao "domínio público") e entregava-o à autarquia do Alandroal que por sua vez se associava com os privados interessados na promoção do projecto. Em última instância, uma vez “restaurado todo o sistema amuralhado e reconstruídas as antigas “casas” da vila de Juromenha (a partir de documentação gráfica existente no Arquivo Histórico Militar), essas mesmas casas poderiam ser alugadas ou mesmo vendidas para fins turísticos. Tudo dependia, no entanto de um Plano de Pormenor de Reabilitação urbana, sobre o qual enquanto arqueólogo, tive oportunidade de emitir um parecer desfavorável, dadas as suas graves implicações arqueológicas. Não terá sido apenas por razões patrimoniais que o projecto acabou por ser abandonado mas também não poderemos escamotear o facto de, uma década depois o conjunto da Fortaleza de Juromenha, continuar a aguardar uma qualquer solução de salvaguarda, que a resgate da situação de abandono e desmazelo em que vegeta, nem que seja a simples consolidação como ruína romântica, recordando o seu papel estratégico na formação e defesa da fronteira da nossa nacionalidade.
A Fortaleza de Juromenha, no Google

Maquete do "Plano de Pormenor de Reabilitação" de meados da década passada

O "miolo" da Fortaleza de Juromenha que se pretendia "reconstruir"

A título de registo, transcrevo parte do extenso “parecer” que redigi há exactamente sete anos, sobre este projecto, e que terminava com uma proposta de Não Aprovação:




 (citação)
“Deve evitar-se a reconstrução no “estilo do edifício” de partes inteiras do mesmo. A reconstrução de partes muito limitadas com significado arquitectónico pode ser excepcionalmente aceite, na condição de que se fundamente em documentação precisa e irrefutável. Se for necessário para o adequado uso do edifício, incorporar partes espaciais e funcionais mais extensas, deve reflectir-se nelas a linguagem da arquitectura actual. A reconstrução de um edifício na sua totalidade, destruído por um conflito armado ou por desastres naturais, só é aceitável se existirem motivos sociais ou culturais excepcionais, que estejam relacionados com a identidade própria de toda a comunidade”- Artigo 4º da Carta de Cracóvia –2000 (Princípios para a Conservação e Restauro do Património Construído) que retoma os princípios do Artigo 9º da célebre Carta de Veneza de 1964 que acrescenta ainda que “La restauration sera toujours  précedée  d’une étude archéologique et historique du monument.”

- Ainda que fosse possível congregar outras citações elucidativas, estas só por si são suficientes para mostrar que a proposta de intervenção para a Fortaleza da Juromenha vai contra todas as regras e princípios defendidos internacionalmente, a partir da 2ª metade do Século XX. Com efeito, pretendem os promotores privados, em associação com a autarquia (para quem o Estado acaba de transferir a posse do Artigo 88, ou seja de todo o “miolo” da Fortificação, cf. em Anexo a Portaria de 17/11/2007, para efeitos da sua “recuperação e conversão”) promover uma intervenção urbanística com fins turísticos envolvendo as seguintes componentes:

- restauro das muralhas e outras estruturas fortificadas, que continuarão a pertencer ao Estado;
- reabilitação de alguns edifícios ainda conservados no interior da Fortaleza e sua adequação a novos usos;
- construção/reconstrução, praticamente de raiz, de vários edifícios, ao “estilo da época”, com base nas plantas do Século XVIII.

Citemos de novo o próprio Plano: “ o empreendimento em questão consiste na recuperação/reabilitação” da Fortaleza da Juromenha (...) para que essa recuperação/reabilitação seja o mais real possível e crie o ambiente de uma urbe fortificada, conciliando a arquitectura tradicional com a arquitectura militar da segunda metade do Século XVIII.” 

-  Apesar de “tão contra a corrente” é evidente que a presente proposta não resulta, de um lapso ou de uma abordagem precipitada por parte dos promotores ou do arquitecto. Admitimos mesmo que estes estão plenamente conscientes de (quase) todas as questões e reservas que uma tal estratégia de recuperação hoje obrigatoriamente coloca. Sendo certo que, cada vez mais, se aceita e impõe como solução para a salvaguarda e valorização sustentável do património cultural, a sua reutilização para fins sócio-económicos, nomeadamente turísticos, também é verdade que é habitual contrabalançar essa reutilização com um conjunto de princípios que salvaguardem a essência do bem que se pretende proteger, sob pena da “cura poder matar o doente”. No caso em apreço, parte-se do princípio que a garantia da preservação do essencial, o conjunto das Fortificações monumentais, passa pela rentabilização económica do seu espaço livre interior, tirando partido da sua excepcional situação e adaptando-o a usos turísticos. Não sendo situação inédita em Portugal, a novidade parece estar essencialmente no “conceito de reconstrução cenográfica” que é proposto e que, de algum modo se aproxima do conceito do “parque temático”, cada vez mais em voga numa sociedade dominada pela realidade virtual. Com uma diferença substancial, é certo. É que neste caso, compensando a assumida falta de autenticidade (“pastiche”?)da intervenção com a evidente mais valia do imponente significado histórico e paisagístico do próprio lugar.

- Compreendida a motivação da proposta, cabe à tutela do património cultural avaliar se a pretensão é legítima, isto é, se o fim que em última análise se persegue com a classificação do conjunto (a salvaguarda do património cultural para as gerações futuras) não é posto em causa pelo projecto. Por outro lado, convém ainda ter presente nessa avaliação a situação institucional do próprio bem. Propriedade do Estado até há pouco tempo, que pouco ou nada foi fazendo pela respectiva conservação, parte do conjunto classificado acabou por de ser transferido recentemente para a posse do município do Alandroal, com a condição de este, através de uma empresa municipal de capitais mistos assegurar “a recuperação e reconversão do interior da Fortaleza de Juromenha, pela restauração das muralhas, hornaveque, fortim e fortaleza que continuarão a pertencer ao Estado”. (Portaria 1172/2007 de 17 de Novembro)

Uma abordagem conservacionista, tratando o conjunto monumental de Juromenha como uma “ruína romântica” a consolidadar, de enquadramento à reabilitação e reutilização do reedificado existente, eventualmente complementado por algumas intervenções em linguagem contemporânea, seria de certo patrimonialmente mais “correcto”. No entanto cabe aos investidores avaliarem da viabilidade (sustentabilidade) dos seus investimentos. Em contrapartida é responsabilidade da tutela do património, impôr as condicionantes e exigir as garantias de que a solução que venha a ser adoptada, independentemente de uma avaliação necessariamente subjectiva da respectiva imagem conceptual, não ponha em causa o essencial do bem. E, a nosso ver, isso passa pelos seguintes aspectos:

- garantia de que são minimizados, através de um estreito e permanente acompanhamento arqueológico, desde a fase de projecto até à da execução, os inevitáveis impactos no subsolo do interior da Fortaleza, dada a sua óbvia importância histórico-documental, se não mesmo patrimonial;

- garantia de que a metodologia de recuperação e reabilitação do edificado existente (muralhas e edifícios) obedece aos princípios e técnicas adequados aos valores patrimoniais em presença e se fundamenta num diagnóstico e num projecto de intervenção a ser submetido à apreciação das entidades de tutela;

- por fim, e seja qual for a opção que venha a ser proposta para o “desenho” da construção/reconstrução, que sejam claramente identificados e fundamentados os respectivos critérios e opções, a serem submetidos em fase de licenciamento às entidades da tutela.

(Janeiro de 2007)


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015


As pontes históricas, as "enteadas" do património
Ponte antiga da estrada de Pavia, sobre a Ribeira do Divor
Algumas estruturas patrimoniais, por razões várias que não dá para aprofundar aqui, parecem ser “mal amadas”, ou pelo menos, acabam olimpicamente ignoradas nos trabalhos de investigação ou mesmo de divulgação patrimonial no campo das artes, da arqueologia ou mesmo da etnografia. É, por exemplo, o caso das “pontes antigas ou históricas”. Raramente parecem interessar aos historiadores de arte em geral ou mesmo aos estudiosos da arquitectura, talvez pelo seu carácter mais especificamente técnico-funcional. Os arqueólogos pouco se debruçam também sobre este tipo de construções, a não ser que, condicionados pelo síndroma do “mais antigo”, julguem que a sua origem possa remontar ao Império Romano… Também não parecem interessar muito à etnografia, talvez porque tal tipo de construção esteja quase sempre num limbo patrimonial, entre o popular e o erudito. Apesar disso, as “pontes antigas”, parecem conseguir suscitar o interesse e curiosidade das comunidades locais que normalmente as conhecem e ainda usam, mesmo que quase sempre mal qualificadas de “pontes romanas”. Talvez por fazerem parte de itinerários que até há poucas décadas eram essenciais à sobrevivência económica e social dessas comunidades, constituindo-se como últimos testemunhos de uma rede viária hoje desaparecida ou engolida pela privatização ou desertificação da própria paisagem. 
Ponte antiga da estrada de Pavia, recuperada no âmbito do projecto do IPPAR "Pontes Históricas do Alentejo"

Em contra mão relativamente a este esquecimento, a antiga Direcção Regional de Évora do IPPAR (hoje Direcção Regional de Cultura do Alentejo) promoveu na década passada, com fundos comunitários, intervenções de conservação em duas dezenas de “Pontes Históricas” do Alentejo. Tão vasta operação, abrangendo estruturas de diversos tipos, desde Nisa , no Norte Alentejano a Santa Clara-a-Velha, já próximo do Algarve,  teve o mérito de chamar a atenção para este património tão esquecido e de, na generalidade dos casos, adiar uma ruína que era então eminente. Infelizmente, em minha opinião, apesar do voluntarismo dos técnicos responsáveis, falhou neste projecto um maior envolvimento com as comunidades locais garantindo, após as intervenções do IPPAR, planos de manutenção que fizessem perdurar no tempo os efeitos positivos do projecto. De facto, e com raras excepções, as pontes intervencionadas, até porque existe muita indefinição quanto ao seu estatuto, independentemente de estarem ou não classificadas, estão de novo ao abandono e a precisar de novas intervenções. Resta como útil testemunho desse importante trabalho, uma brochura sobre as “Pontes Históricas do Alentejo”, da autoria do arqueólogo João Marques, um dos impulsionadores do projecto, e informação específica na partilha dos “itinerários” do actual SITE da DGPC cuja consulta se recomenda.






Vem tudo isto a propósito, porque por amável oferta da Câmara Municipal de Arraiolos, tive acesso ao livro “Património(s) de Arraiolos”, uma edição de 2013 da autoria de Leonor Rocha, Ivo Santos e Gertrudes Branco.  A obra resulta do desenvolvimento de um projecto de “Levantamento Arqueológico e Patrimonial de Arraiolos”,(LAPA-2010-13)  que para além de outros objectivos permitiu aos alunos de Arqueologia da Universidade de Évora, realizarem as suas aulas práticas de campo. Não pretendo aqui fazer qualquer recensão ou análise crítica à obra, não é isso que está em causa, mas tão simplesmente através de um exemplo concreto com que deparei por acaso, demonstrar a tal falta de atenção, no caso por parte dos arqueólogos, às “pontes antigas” a que antes aludi. No capítulo dedicado á freguesia de Arraiolos, é descrita sumariamente a “Ponte sobre a Ribeira do Divor”, terminando a respectiva ficha com a seguinte indicação “Inédita?” (sic). Ora, em 2010, para além da há muito disponível descrição de Túlio Espanca (1975), a ponte tinha tido já sofrido as obras de conservação promovidas pelo IPPAR e constava da brochura das “Pontes Históricas” (2005). Na DRCALEN/IGESPAR decorria entretanto o processo de classificação como Imóvel de Interesse Público, hoje já concluído e no qual consta que a Ponte foi salva in extremis, no final dos anos 80, quando decorriam já obras de construção de uma nova ponte ao lado da antiga, obras que previam o desmantelamento desta. A feliz conjugação de esforços entre a Câmara Municipal e o ainda IPPC, levariam a que a JAE alterasse o projecto, construindo mais tarde uma nova ponte, a jusante, e conservando a antiga.


Ponte Velha da Fragusta, Vimieiro, Arraiolos
Já agora, porque falamos de Pontes Antigas e de Arraiolos, não posso deixar de referir-me a uma outra que, infelizmente também passou despercebida à equipa do LAPA e que, só por si, merecerá oportuna  entrada neste Blog. Trata-se da Ponte Velha da Fragusta, localizada a Norte da vila do Vimieiro sobre a Ribeira de Tera e que é uma das mais interessantes pontes medievais que conheço na região.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

 O APAGÃO DO “SITE DOS MONUMENTOS”




No passado dia 6 de Janeiro, alertado por post da minha colega da DGPC, arquitecta Maria Fernandes (ex técnica da DGEMN), confirmei que não estava acessível o site www.monumentos.pt, utilíssima ferramenta para quem trabalha ou investiga na área do património. Coloquei então um alerta na INTERNET, via “facebook” em que dizia:

“A ser permanente, trata-se de mais um atentado contra o conhecimento e a cultura em geral mas que é o corolário lógico do criminoso processo de extinção da DGEMN. Não do fim em si (que até poderia ser defensável numa lógica de racionalização de meios) mas do modo absolutamente desastroso como foi concretizado. Recordo ainda a reação de um colega arquitecto da DGEMN, entretanto colocado no IGESPAR, ao regressar aos serviços do Terreiro do Paço poucos dias após a extinção, para recolher alguns objectos pessoais, descrevendo como verdadeiro "cenário de guerra" aquilo que observou: computadores sem discos rígidos, mobília esventrada, papéis por todo o lado... E o mesmo se terá passado com as Direções Regionais, nomeadamente aqui em Évora, donde foi levado todo o arquivo histórico-documental (à má fila e sabe-se lá em que condições) com gravíssimo prejuízo para a gestão e salvaguarda do vasto património arquitectónico da região.”


Ainda com esperança de que se tratasse de um mero problema técnico, já que não vi entretanto qualquer notícia sobre o assunto, salvo outros comentários nas redes sociais constatando o óbvio, fiz hoje novas tentativas de aceder ao referido SITE, infelizmente sem qualquer sucesso, quer directamente, através de www.momumentos.pt, quer através do SITE do próprio IHRU, onde todos os serviços ON LINE estão operacionais, excepto os MONUMENTOS.

Nos meus 41 anos de serviço público, quase sempre na área do Património, nunca estive ao serviço da extinta DGEMN, por isso serei insuspeito de ter uma visão demasiado corporativa desta questão. Por outro lado, não serei a pessoa mais indicada para falar do elevadíssimo investimento em meios financeiros, humanos e técnicos que foi feito ao longo de décadas, para alimentar e pôr ao serviço público esta gigantesca “base de dados”, agora silenciada, que tornava acessível à investigação e à gestão do património cultural português, em qualquer parte do mundo, quase todo o importantíssimo acervo de uma instituição quase secular (sobre a importância destes novos recursos digitais, ainda há dias houve um qualquer colóquio na Assembleia da República, com a presença de especialistas europeus, pasme-se!). Recorde-se que a DGEMN, criada em 1929 mas herdeira de anteriores instituições congéneres que remontavam à transição da monarquia para a república, foi durante décadas um dos pilares fundamentais da actuação do todo poderoso Ministério das Obras Públicas no que respeitava ao restauro e conservação do património histórico português. Podemos e devemos hoje ter uma visão crítica sobre os princípios e as metodologias que nortearam durante muito tempo as suas intervenções mas não podemos deixar de reconhecer o seu papel fundamental na preservação do essencial do património arquitectónico português ao longo do Século XX.

Este desfecho trágico, a confirmar-se, será mais um gravíssimo atentado contra a cultura, mas infelizmente, haverá que reconhecer, será também o corolário inevitável da política desastrosa da reforma da administração pública, nomeadamente na área da Cultura. Era previsível e necessário (desde a criação do IPPC nos anos 80 que se falava nisso) que se procedesse mais tarde ou mais cedo à fusão entre os serviços patrimoniais da Cultura e os das Obras Públicas. Por razões irrelevantes (essas sim corporativas e por vezes até pessoais, relevando por vezes dos interesses ou das vaidades das respectivas chefias) essa via nunca foi encarada de forma séria e estruturada, preparando uma integração natural de serviços que em muitos casos se complementavam, apesar de algumas inevitáveis sobreposições. Não admira pois que, quando a crise tocou a rebate, ainda no âmbito do PRACE de José Socrates, as coisas se tenham precipitado de forma desastrosa, como se viu. Num primeiro momento esvaziamento forçado da DGEMN no que respeita a quadros técnicos e meios, logo seguido da brutal extinção (2007) sem cuidar ao menos da salvaguarda do enorme histórico acumulado. De então até hoje, ainda que essa fosse uma solução algo obtusa, tendo em conta as atribuições e competências respectivas, o IHRU foi assegurando, de forma cada vez mais débil, o funcionamento do SITE e a manutenção das instalações do Forte de Sacavém, adaptado com enormes custos financeiros a Arquivo Histórico no tempo da DGEMN e para onde foram transferidos todos os arquivos regionais, incluindo o de Évora. Sabíamos, todos os que trabalham nesta área, que da parte do IHRU, face às restrições financeiras e humanas transversais a toda a Administração, havia cada vez maior relutância ou dificuldade em manter estas estruturas a funcionar. Nos últimos tempos era até difícil aceder à documentação arquivística essencial ao desenvolvimento de projectos de intervenção patrimonial em curso, sobretudo a nível regional, ou porque a documentação “confiscada” às regiões não estava acessível por falta de meios, ou porque para a sua cedência, mesmo para uso de outros serviços públicos, começavam a ser exigidos preços incomportáveis. O último boato (?) que correu, falava de negociações entre a nova Direcção Geral do Património Cultural (resultante do PRACE de Passos Coelho) e o IHRU, para transferência da gestão do SITE e do Arquivo para a dependência da DGPC, mas que para isso a Direcção Geral precisaria de um reforço orçamental de 1 milhão de Euros o que, nos tempos que correm, é uma miragem.

Mas sobre tudo isto e apesar da importância crucial do tema, reina afinal um silêncio ensurdecedor.






quinta-feira, 8 de janeiro de 2015



“A mais bela máquina de viajar no tempo”



O Carlos Fabião, interessado e grande divulgador de tudo o que diga respeito à história recente e menos recente da arqueologia portuguesa, reencaminhou-me o PDF de um interessante artigo sobre a Anta Grande do Zambujeiro e o Cromeleque dos Almendres, da autoria de “Mário Henriques”, publicado em 13 de Outubro de 1967 no Diário Popular, ou seja durante as escavações de Henrique Leonor de Pina no Zambujeiro e pouco tempo depois do reconhecimento arqueológico do Cromeleque, graças a informação do sr. António Rebocho, então guarda da Herdade da Mitra, (hoje polo da Universidade de Évora). Já conhecia o artigo em questão, graças a um pacote de recortes de jornais que no final dos anos 80, ainda como Director do Serviço Regional de Arqueologia do Sul, recebi da parte do Dr. Quintino Lopes, antigo administrador do Hospital de Évora e dinamizador de um grupo amador de arqueologia, conhecido como “Admiradores do Alentejo”. Mas foi com imenso prazer que reli o interessantíssimo texto de Mário Ventura Henriques, à época jornalista do Diário Popular. Julgo aliás que este texto e outros dentro da mesma linha de redescoberta de um Alentejo profundo e esquecido, constarão da colectânea “Alentejo Desencantado”, publicada em 1969 e mais tarde reeditada pelo Círculo de Leitores. Não resisto a transcrever o final do artigo em questão:


Henrique Pina diz: “O impacto é a nossa acção individual” Mas a verdade é que o esforço individual quase sempre destrói o indivíduo. A anta ou o cromelech constituem o resultado de um esforço altamente colectivizado, de uma consciência profundamente enraizada na massa. À obra de gigantes que o homem pré-histórico ergueu no Alentejo, o homem da nossa época responde com um trabalho de pigmeu. Ao grande exemplo de unidade que representa o monumento megalítico opõe-se hoje o esforço idealista do amador. Eis a contradição- resta encontrar a síntese.

Para os interessados aqui fica o texto de Mário ventura Henriques (quase...) completo.



terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Ainda a Gruta do Escoural, 
a propósito de recente artigo da National Geographic



A edição de Janeiro de 2015 da prestigiada NATIONAL GEOGRAPHIC, disponibiliza um interessante artigo de divulgação sobre a Arte Rupestre Paleolítica, altamente valorizado pela sua componente fotográfica como é tradicional nesta centenária revista. A edição portuguesa (ao contrário da americana) trás mesmo este tema para a sua capa, ilustrada com uma magnífica foto dos célebres bisontes de Altamira, a gruta cantábrica que no final do Século XIX, após violentas polémicas, acabou por ser determinante para a aceitação da existência da própria “Arte Paleolítica”. O artigo vem documentado com um mapa da Europa, onde se localizam alguns dos exemplos mais conhecidos de sítios rupestres paleolíticos. Não tive acesso ao artigo original mas é possível e aceitável que na sua tradução e adaptação à edição nacional, se tenham acrescentado algumas referências ao território português, tanto no texto como no referido mapa, onde de facto aparecem localizados o Vale do Côa e a Gruta do Escoural.

National Geographic, Janeiro 2015 (ed. portuguesa)

 Este mapa trouxe-me à memória o meu primeiro manual de arte rupestre, adquirido no ano em que ingressei na Faculdade de Letras (1970), na então nova Livraria Ler (Campo d’Ourique, das poucas que ainda vão resistindo em Lisboa). Tratava-se do livro “L’Art Paleolithique”, de Peter J.Ucko e Andrée Rosenfeld, na edição francesa da Hachete, publicado simultaneamente  em Inglaterra e França, no final do ano de 1966. 



O que ainda hoje me parece extraordinário é que, nesta obra se fazia já referência à Gruta do Escoural que havia sido descoberta em 1963, mas cuja componente rupestre só se confirmara em 1965. Para compreender esta circunstância, que colocava então esta Gruta portuguesa em destaque, é preciso recordar que após a resolução da questão da autenticidade e do estabelecimento dos primeiros quadros cronológicos, os arqueólogos se começavam a interessar-se pelo reconhecimento da distribuição geográfica da Arte Paleolítica. No início dos anos 60, ainda dominava uma visão confinada à Europa Ocidental  (França e Espanha) e centrada em 3 núcleos principais: Périgord, Pirinéus e Montes Cantábricos. É certo que já então se conheciam excepções, mas eram assumidas como tal ou, nalguns casos, era mesmo posta em dúvida a sua cronologia paleolítica. É neste contexto que a descoberta do Escoural terá ganho especial importância. 



O mapa publicado em 1966 na obra de P.Ucko e A. Rosenfeld. A Gruta do Escoural, a mais Ocidental da Europa com arte rupestre paleolítica, aparece referenciada com o nº1.


Como se sabe, Farinha dos Santos, apesar de ter observado as primeiras pinturas no Outono de 1963, alguns meses após a descoberta da Gruta, hesitou algum tempo quanto à sua natureza e cronologia. No entanto, com o apoio de Manuel Heleno,o todo poderoso director do Museu Etnológico de Belém (hoje Museu Nacional de Arqueologia), publicou na respectiva revista um primeiro artigo sobre a arte rupestre do Escoural em meados de 1964, defendendo a sua origem paleolítica. Por várias razões, as conclusões não foram bem acolhidas entre os arqueólogos portugueses e, na dúvida, foi decidido solicitar apoio estrangeiro. Graças à intermediação do industrial de origem francesa, Maxime Vaultier, verdadeiro mecenas da arqueologia da época, e ao apoio da Gulbenkian, foi possível trazer a Portugal em Janeiro de 1965, o padre André Glory, um discípulo do Padre Breuil, que se encontrava então a estudar a Gruta de Lascaux e um dos maiores especialistas de arte rupestre na sua época. Glory esteve dois dias em trabalho no Escoural e, na mesma viagem, viria a realizar várias conferências em Lisboa, sobre arte rupestre e pré-história, nomeadamente na Associação dos Arqueólogos Portugueses, na Sociedade de Geografia, no Liceu Charles Lepierre, na Faculdade de Letras e até na Fundação Gulbenkian, onde após o reconhecimento que fizera no Escoural, dissertou mesmo sobre “Lascaux e o Escoural”.  

Glory na Gruta do Escoural, em Janeiro de 1965

Com base nos dados que recolheu, poucos meses depois, Glory apresentaria uma comunicação sobre a Gruta do Escoural na prestigiada Société Préhistorique Française, que seria publicada no respectivo Boletim em Janeiro de 1966. A tempo, certamente, de Peter Ucko e A. Rosenfeld, incluírem na sua obra editada no final desse mesmo ano, este novo achado, que pela sua localização geográfica, vinha pôr em causa essa visão demasiado regionalista da Arte Paleolítica e que hoje está de facto completamente ultrapassada. Uma última nota. Andrée Glory comprometera-se a colaborar com Farinha dos Santos no estudo da Gruta do Escoural, a que deveria regressar no Outono de 1966, mas desgraçadamente tal nunca viria a acontecer porque viria a falecer num trágico acidente de automóvel em Julho desse mesmo ano.
Gruta do Escoural- Foto de motivo animalista pintado, publicada em 1966 na obra de P.Ucko e A. Rosenfeld

O mesmo motivo publicado no artigo de 1966 do Boletim da SPF, em que Glory regista também traços gravados e que interpreta como caprídeo.
O mesmo motivo em foto recente.