terça-feira, 16 de dezembro de 2014



Anta Grande do Zambujeiro- Grande nau, grande tormenta... (2)

Na continuidade de anterior post, mais uma achega documental para a compreensão da situação deste monumento único. Este texto tem já meia-dúzia de anos, mas infelizmente continua plenamente actual.


1.A “Anta Grande do Zambujeiro”, (AGZ) identificada e escavada nos anos sessenta por Henrique Leonor de Pina com apoio da Junta Distrital de Évora e a colaboração de trabalhadores rurais de Valverde, localiza-se em terrenos confinantes com a Herdade da Mitra (Universidade de Évora, polo de Valverde) e é um dos maiores monumentos megalíticos funerários da Europa e, sem dúvida, um dos mais importantes monumentos pré-históricos de toda a Ibéria.

2. Está classificada como Monumento Nacional (Decreto 516/71 de 22-11-1971) mas localiza-se em propriedade privada (Herdade da Anta, propriedade dos Herdeiros do Dr. Cabral, Quinta da Fiúza, Évora). Tal facto não impediu, com o acordo dos proprietários, que o monumento tivesse sido objecto de algumas intervenções posteriores, nomeadamente nos anos 80, em que por iniciativa do então Serviço Regional de Arqueologia do Sul, dependente do IPPC, Secretaria de Estado da Cultura, foi vedado e parcialmente protegido das intempéries com uma cobertura provisória. Nessa mesma época, foi objecto de algumas sondagens na sua zona frontal e na respectiva “mamoa” (infelizmente nunca publicadas) com vista ao reconhecimento da respectiva estrutura e pensando num “projecto futuro de reabilitação” sempre adiado.

3. O acesso ao monumento faz-se (presentemente) sem quaisquer restrições e está assinalado, fazendo-se normalmente a partir das instalações da Mitra (Universidade) através de um antigo caminho rural. A Câmara Municipal de Évora, oportunamente, construiu uma pequena ponte pedonal sobre a pequena Ribeira que serve de extrema entre as Herdades da Mitra e da Anta, pelo que as viaturas estacionam ainda dentro da Mitra, num Parque improvisado, fazendo-se a última centena de metros, a pé (o que é muito vantajoso em vários aspectos). A visita à AGZ é normalmente efectuada por turistas que a título individual e em transporte próprio fazem o “circuito megalítico” pelo Cromeleque dos Almendres, AGZ e, eventualmente, Gruta do Escoural. Também são comuns as visitas de estudo ou outras visitas organizadas.


4. Para além da sua invulgar monumentalidade, a AGZ revelou um importante espólio arqueológico Neolítico, ainda insuficientemente estudado e que actualmente se conserva na sua maioria no Museu de Évora, o que lhe confere, para além do mais, uma excepcional mais valia científica e cultural.

5. Desde a sua descoberta e escavação que estão reconhecidas patologias estruturais graves na AGZ e que se prendem essencialmente com 3 factores:

- degradação da pedra dos esteios (arenização);
- instabilidade dos diversos elementos pétreos que constituem o monumento;
- forte erosão do que resta da mamoa original que cobria todo o monumento.

Ainda que a escavação dos anos 60 tenha activado ou acelerado alguns destes problemas, a ausência de uma intervenção global de restauro e conservação, é a grande explicação para uma situação actual extremamente grave.

6. No que respeita à conservação, o monumento foi objecto de um primeiro diagnóstico realizado em 1979 pelo LNEC que, identificou a exposição directa às intempéries como um dos seus principais problemas (de facto o monumento foi feito para estar coberto pela “mamoa”, entretanto parcialmente escavada). Esse facto esteve na origem da instalação nos anos 80 da inestética e hoje degradada cobertura “provisória”. Posteriormente, numa acção também da iniciativa do ex-Serviço Regional de Arqueologia do Sul, foram removidos da sua posição original alguns elementos do corredor que ameaçavam ruína.

7. Mais recentemente, na sequência das recomendações de novo Relatório do LNEC (2005) foi necessário, para segurança dos próprios visitantes, proceder a um escoramento de emergência no acesso à câmara funerária. O novo estudo revelou que se mantinham, de forma cada vez mais agravada, as patologias anteriormente identificadas, propondo-se para isso um conjunto de medidas concretas que constam do respectivo Relatório e que, por razões várias (financeiras mas também e sobretudo jurídicas…) nunca foram concretizadas.

8.Tendo em conta as dificuldades em intervir (“investir”) profundamente num monumento localizado em propriedade privada chegaram a ser estabelecidos, sem resultado, negociações com os proprietários em 1999 no sentido de aquisição da zona envolvente do monumento.

9. Por fim, na sequência do último estudo do LNEC(2005) foi elaborada extensa informação pela Direcção Regional de Évora do exIPPAR na qual se equacionavam os problemas e enunciavam algumas saídas possíveis. Foram desde então, encetados alguns contactos com a Câmara Municipal e a Universidade de Évora, no sentido da exploração da hipótese de uma permuta de terrenos, entre a Universidade e os proprietários vizinhos que permitissem uma intervenção mais activa por parte da Administração.

10. Com efeito, não faltando diagnósticos e mesmo algumas propostas de solução, as dificuldades de intervenção por parte da Administração resultam antes de mais do carácter “privado” da localização do monumento já que as tentativas de “aquisição” não tiveram qualquer sequência. No entanto perante os numerosos visitantes, é ao Estado que é sempre assacada a responsabilidade pelo evidente péssimo estado de conservação em que se encontra a AGZ, e de facto, em última instância competirá aos serviços competentes da Administração Pública, independentemente da eventual corresponsabilização dos proprietários, promover as indispensáveis medidas de salvaguarda (Artº 21º da Lei 107/2001).

11. Informação da Direcção Regional de Évora do ex-IPPAR datada de 2006,  para além de referir a necessidade da ultrapassagem da questão da propriedade (aquisição, protocolo, acordo, etc...), com base no Relatório do LNEC, identificava as seguintes medidas de actuação:


1.Projecto de estabilidade e assessorias científicas
2. Execução do Projecto de estabilidade
3. Consolidação física dos esteios
4. Projecto de arquitectura paisagística (incluindo envolvente e acessos)
5. Execução do projecto de arquitectura paisagística

12. A AGZ, sendo um monumento de 1ª grandeza no contexto da arqueologia nacional, sendo muito visitada pelas circunstâncias intrínsecas e contextuais referidas, tende a assumir no seu lamentável estado de degradação e abandono, o carácter de uma vergonhosa “montra” pública da situação geral do património arqueológico nacional, o qual não sendo naturalmente brilhante, apresenta alguns exemplos de intervenções bem conseguidas, mesmo a nível “megalítico”, como é o caso de ALCALAR no Algarve. A Secretaria de Estado da Cultura através da sua Direcção Regional de Évora e em cooperação estreita com a autarquia, a Universidade de Évora, e mesmo outras instituições cívicas regionais, terá pois de encontrar o modelo adequado de intervenção bem como os meios indispensáveis para inverter a presente situação.






segunda-feira, 15 de dezembro de 2014



Anta Grande do Zambujeiro_ grande nau, grande tormenta...

A Anta Grande do Zambujeiro (1978?). Na foto, Jorge Pinho Monteiro, falecido assistente da Universidade de Évora e que nessa qualidade se interessou pela situação deste monumento, localizado na extrema da Herdade da Mitra pertencente àquela instituição.

É conhecida como a maior anta da Ibéria, se não mesmo da Europa. É um dos mais antigos e mais impressionantes exemplos da arquitectura funerária da Europa Ocidental. É um dos raros monumentos megalíticos que conserva parte da da sua original "mamôa" (neste caso, a gigantesca carapaça de terra e pedra que cobria todo o monumento e transformava o conjunto, num "hipogeu" construído, a que se acedia por um longo corredor...).

A AGZno início dos anos 80, pouco tempo antes da instalação da actual cobertura "provisória" (que tem actualmente três décadas), por ocasião da realização de um levantamento estereo-fotogramétrico, encomenda do extinto Serviço Regional de Arqueologia do Sul, à ESTEREOFOTO.

Poderíamos continuar a enunciar os epítetos que fazem deste monumento nacional, um caso único no contexto do vasto património megalítico nacional. Mas quanto mais disséssemos, mais estaríamos a contribuir para tornar ainda mais incompreensível para o público em geral, a situação de degradação a que este monumento chegou. É certo que a localização em "propriedade privada" e a total dependência dos financiamentos europeus por parte dos serviços de tutela, tem impedido o desenvolvimento de um complexo e dispendioso projecto de recuperação. Mas isso não pode nem certamente explica tudo. Este é um tema que, espero, poderá ter algum desenvolvimento positivo em 2015 e sobre o qual não deixarei de ir dando informação complementar.


Últimos trabalhos de conservação e restauro realizados na AGZ, no final dos anos 80, por iniciativa do extinto SRAS.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Venda da ENATUR: Já chegámos aos "dedos"?

Mosteiro da Flor da Rosa, ou Rose Flower Resort ?

Há dias, através de um comentário de um colega (Facebook?) tomei conhecimento que o Instituto Português do Turismos está a estudar a "viabilidade jurídica" da venda dos 51% da ENATUR (a entidade responsável pela gestão das Pousadas de Portugal) ainda detidos pelo Estado. Os outros 49% foram vendidos há alguns anos, num processo pouco claro, ao Grupo PESTANAS (já não sei se por um Governo PS ou PSD, pois quando lá estão, ambos acabam por afinar sempre pelo mesmo diapasão: ou por causa dos "mercados", ou por causa da TROIKA, ou ainda por causa do "tem que ser"...). É bom, no entanto, que a viabilidade jurídica seja bem estudada e não apenas por gabinetes de "advogados", pagos a peso de ouro para encontrarem soluções à medida do freguês (e aqui já sabemos o que o freguês quer...). É que apesar da ENATUR não ser titular dos imóveis onde as Pousadas estão instaladas, estes, na esmagadora maioria dos casos, são Monumentos Nacionais do Estado Português, ou seja, bens do domínio público, insusceptíveis (desde os tempos da outra senhora) de venda... Dirão alguns que o que está em causa não é a propriedade dos imóveis, mas a sua gestão turística...e que, desde que os tais cadernos de encargos sejam bem feitos e os contratos bem pensados, não há problema nenhum... Pois, recordo que também disseram isso das SCUTS, dos Hospitais e de todas as parcerias público-privadas...com os resultados para o interesse público (ou seja para o cidadão comum) que hoje conhecemos. Só que no caso dos Monumentos Nacionais, não estamos apenas a falar de lucros ou de prejuízos, de dividendos ou de deficits que, mais tarde ou mais cedo se podem minimizar quando o país, deitar pela janela os novos Vasconcelos e recuperar a soberania, criminosamente alienada nos últimos anos. Neste caso, se a esse ponto chegarmos, são os próprios símbolos pátrios, aquilo que de mais profundo marca a nossa identidade como nação, que estaremos a alienar por trinta dinheiros (sabe-se lá a quem), ainda que sob a eufemística camuflagem da sacrossanta eficácia da gestão privada. 

Há poucos dias graças a uma das séries policiais americanas que inundam televisão, soube que as "medalhas do Congresso", a mais alta condecoração atribuída pelo Senado americano por actos de bravura aos seus cidadãos, são insusceptíveis de venda, sendo a transgressão desse princípio um crime grave. Afinal, até a pátria do liberalismo capitalista mais desenfreado, traça limites ao despudor mercantil. E quais são os limites dos que agora nos (des)governam? E o que diz a isto o supremo magistrado, símbolo vivo da nossa identidade nacional? Ou o limite estará apenas no desrespeito à Bandeira, ao Hino e à sua pessoa?

Para além de um problema político-jurídico grave, este é também um problema técnico muito sério e com profundas implicações teóricas, que não pode ser indiferente aos técnicos, conservadores e gestores do património. Pela minha parte, procurarei ir dando algum contributo (mais substantivo e menos acalorado) ao debate.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014


Apresentação dos 14 volumes da 2ª Série das Memórias d'Odiana


Tirando partido das fotos do meu amigo Guilherme Cardoso, e para memória futura (tanto quanto as redes sociais o venham a conservar...) aproveito para transcrever a minha intervenção.



Começo por cumprimentar a Mesa, e desde logo o Dr. António Dieb, ilustre Presidente da Comissão de Coordenação do Alentejo, a entidade que reconhecendo e validando o mérito da proposta conjunta da Direcção Regional de Cultura e da EDIA, tornou possível este projecto, garantindo o seu financiamento através do INALENTEJO.
Cumprimento também o sr. Presidente do Conselho de Administração da EDIA, Eng José Salema, empresa pública que desde a sua criação há duas décadas é uma referência no contexto das boas práticas da minimização de impactos ambientais, com especial relevância no âmbito da salvaguarda preventiva do património arqueológico. Aproveito o ensejo para, através do Sr. Engenheiro, transmitir os meus agradecimentos aos trabalhadores da Empresa, aos quais tantos laços de amizade me ligam, em especial aos técnicos da área de ambiente e património, directamente envolvidos na presente parceria.
Cumprimento também a Sra. Directora Regional de Cultura do Alentejo, na pessoa da Dra Ana Paula Amendoeira, a minha actual “chefe”, mas colega e amiga de longa data. O organismo que dirige desde há um ano, é afinal o herdeiro das sucessivas estruturas desconcentradas da Administração Pública que, desde o início dos anos 80 sempre acompanharam, na perspectiva da salvaguarda do património cultural, o dossier Alqueva. No caso particular deste projecto editorial, a participação da Direcção Regional foi muito além do mero acompanhamento, obrigando ao envolvimento dos seus próprios meios, pelo que gostaria tornar extensíveis estes agradecimentos a todos os meus colegas, destacando em particular o Dr. Frederico Tátá, colocado actualmente na Direcção Regional do Algarve mas que apesar disso me apoiou neste processo até à entrega do último volume. Aproveito também a ocasião para lembrar, o papel da anterior Directora Regional, a Prof. Aurora Carapinha que assinou o Protocolo com a EDIA em 2010. Devo confessar que, tendo em conta as dificuldades administrativas verdadeiramente kafkianas que foi preciso ultrapassar, se não fosse a sua teimosia feminina, hoje não estaríamos aqui… E já agora, falando em dificuldades, não posso deixar de louvar a empresa editora, selecionada por concurso público muito concorrido, através do seu responsável, o Sr Vitor Mateus, que na relação connosco e sobretudo com os autores, dos mais tolerantes aos mais exigentes, foi sempre muito além do que o profissionalismo e o caderno de encargos lhe exigiam.
Naturalmente agradeço também a colaboração neste evento dos meus amigos, Doutor José d’Encarnação e Dr. Luis Raposo. Também eles têm algo a ver com este processo Alqueva. O Zé d’Encarnação (peço desculpa pela informalidade fruto de muitos anos de amizade e convívio profissional) julgo que participou em 1994 em representação da Universidade de Coimbra, numa importante reunião promovida no INA pelo Ministro Valente de Oliveira em 1994, onde também estive em representação do IPPAR e que abriu as portas ao projecto Arqueológico do Alqueva. Por sua vez, o Luis Raposo, foi membro da Comissão de Acompanhamento instituída em 1997 no âmbito do Protocolo assinado entre a EDIA e o extinto IPA, comissão que apoiou este programa arqueológico até à conclusão da Barragem e que teve um papel fundamental para o seu reconhecido sucesso.
Por fim um especial agradecimento ao Museu Nacional de Arqueologia na pessoa do seu actual director, o Dr. António Carvalho, que aceitou entusiasticamente a sugestão para que este evento, pelo seu significado, se realizasse naquela que é verdadeiramente a “casa-mãe” dos arqueólogos portugueses.



Exmos senhores e senhoras, caros colegas e amigos

Não é meu hábito, em ocasiões como esta, recorrer ao apoio escrito mas, desta vez tem de ser. O assunto é-me demasiado próximo e sensível para que não me desvie de um qualquer fio condutor por mais largo que esta seja. Mas não será a única regra que hoje vou quebrar. Fui eu que propus a “ordem de trabalhos” e nela competia-me evocar o Projecto Arqueológico do Alqueva na sua fase inicial ligada à Barragem, fase agora finalmente encerrada. Mas pensando bem, não iria fazer mais do que me repetir. Sobre esse assunto, quase tudo aquilo que do ponto de vista factual deveria ser registado, já está afinal editado, nomeadamente nos vários volumes da 1ª série das Memórias d’Odiana ou no extenso “dossier Alqueva” publicado em 2002 pela Revista Almadan.
Assim sendo, tendo em conta que esta será talvez a minha última intervenção institucional relacionada com este tema a que estou ligado pelo menos desde 1975, resolvi ensaiar uma abordagem mais pessoal, revisitando algumas memórias, daquilo que, passados afinal tantos anos, alguns dos livros agora editados me evocam
E comecemos pela“A ARTE RUPESTRE DO GUADIANA PORTUGUÊS”, o primeiro volume, por opção editorial claramente assumida. Num processo tão complexo como o do Alqueva mas que de uma maneira geral conseguiu ser bastante consensual (graças a algumas lições aprendidas anteriormente), as circunstâncias inopinadas e tardias da “descoberta da Arte Rupestre”, representaram sempre para mim, como responsável técnico do projecto, uma indisfarçável “pedra no sapato”. Já sobre esse tema me pronunciei em diversos fóruns e não vale a pena regressar de novo ao assunto. Quer a rápida e eficaz resposta institucional da EDIA à época dos eventos, a pouco mais de um ano do fecho das comportas, quer a generosidade e qualidade das equipas envolvidas na espinhosa missão de resgatar pelo registo sistemático, os vestígios rupestres do Guadiana espanhol e português tinha que ter um remate condigno que apenas a publicação científica permitiria atingir. Aproveito, pois, para aqui reafirmar o reconhecimento pelo excelente trabalho produzido em Espanha pelo meu colega Hipolito Collado, entretanto magnificamente publicado em 2006, na 1ª série das Memórias d’Odiana. Mas é ao António Martinho Batista, ao André Santos e a toda a equipa do extinto Centro Nacional de Arte Rupestre, actualmente integrada no Museu do Côa, que hoje quero prestar homenagem. Fui colega do António desde o 1º ano da Faculdade. Aliás é talvez o primeiro colega de que me recordo individualmente, precisamente de uma aula prática algures em finais de 1970, conduzida ao fundo desta mesma ala pelo Dr Luis de Matos em torno de uma vitrina, modelo Manuel Heleno, cheia de pedra lascada… Poucos meses depois fomos ambos “recrutados” para participar, com outros colegas de curso, nos trabalhos de salvamento do complexo de arte rupestre do Vale do Tejo, nas vésperas do enchimento da Barragem do Fratel (as Barragens perseguem-nos). O António iniciou então uma já longa carreira inteiramente ligada ao estudo da Arte Rupestre de que é hoje um dos mais conceituados especialistas a nível internacional. Após o seu intenso envolvimento no processo de salvamento e estudo da Arte Rupestre do Vale do Côa em meados dos anos 90, recordo a generosidade e sacrifício físico (dadas as condições de trabalho) mas também psicológico, atendendo ao ambiente de suspeição entretanto gerado por alguns sectores, com que, sem hesitações, aceitou o convite que lhe dirigi em 2001. Com a equipa que formara no Côa, levaria a cabo de forma absolutamente eficaz, a prospecção, levantamento e estudo da Arte Rupestre do Guadiana, arte que aliás ele próprio de algum modo antevira ao publicar com Manuela Martins, ainda nos anos 70, um pequeno conjunto de gravuras descoberto nas proximidades do Pulo do Lobo. A publicação deste volume era para ele e para mim, não apenas um imperativo científico mas também uma questão de honra.


Se pelas razões circunstanciais que referi, a arte rupestre deveria ser o primeiro volume a ser publicado, a ordem cronológica, mas não só, impunha que se lhe seguisse o Paleolítico, temática a que razões também pessoais me ligavam particularmente. De facto, desde a Faculdade que o meu interesse por este período da Pré-história tinha sido condicionado pelo convívio com outros colegas no âmbito de uma informal associação de estudos (o GEPP- Grupo de Estudos do paleolítico Português com sede neste Museu) grupo que esteve na origem dos trabalhos já referidos na Barragem do Fratel. Foi também com uma equipa do GEPP (Luis Raposo, Francisco Sande Lemos, João Ludgero Marques ainda como alunos da Faculdade de Letras e sob sugestão e com o apoio do Dr José Morais Arnaud, então assistente e hoje ilustre presidente da Associação dos Arqueólogos Portugueses) que na Páscoa de 1975 participei pela primeira vez em trabalhos de campo no Guadiana, já então com o pretexto do próximo início de construção da Barragem do Alqueva. As lembranças já são algo difusas, mas após uma passagem pela aldeia da Estrela, onde assistimos a uma peculiar procissão dos Passos (com muitos santos e respectivos andores mas sem padres, o que para um nativo de terras de aquém Tejo era qualquer coisa de particularmente estranho) recordo ter estado algures num perdido fim de estrada, sobre uma ravina da margem esquerda do Guadiana, onde o único sinal da transfiguração anunciada era dado por uma pequena barraca à volta da qual se acumulavam os restos de carotes, vestígios óbvios de sondagens geológicas e única prova de que estávamos no sítio onde nasceria um quarto de século depois o paredão da Barragem do Alqueva. Resultou também dessa expedição o reconhecimento que para montante do Ardila e do Degebe, o panorama no que respeitava aos vestígios do Paleolítico não seria muito diverso do observado a jusante, por Abel Viana nos anos 40 quando acompanhara Mariano Feio no reconhecimento dos terraços quaternários do Guadiana. Ou seja, muitos materiais líticos à superfície dos antigos depósitos sedimentares mas de atribuição cronológica muito imprecisa dada a falta de estratigrafias associadas. Nessa mesma expedição, entre outros locais de potencial interesse, localizaríamos na zona do Xerez, num corte da estrada de Monsaraz próximo da velha ponte de Mourão, um sítio cujos materiais pareciam apontar para o Paleolítico Médio. Poucos tempo depois eu e o Luis Raposo realizámos aí algumas sondagens e recolhas sistemáticas de superfície cujos resultados algo inconclusivos nos ajudaram pelo menos a reflectir sobre as limitações do recurso a modelos interpretativos construídos apenas em dados tipológicos. Tudo isto a propósito dos resultados, agora publicados em dois volumes, obtidos pela equipa que se ocupou do estudo do “Paleolítico” em todo o Regolfo e que encontrou nesta mesma bacia do Xerez, um dos seus campos mais profícuos. Tratava-se de uma equipa jovem, liderada pelo Francisco Almeida, doutorado nos Estados Unidos e hoje a trabalhar como arqueólogo na Austrália (sinal dos tempos) mas que contou com o apoio de investigadores seniores, também eles de algum modo ligados ao antigo GEPP. Desde logo da Doutora Ana Cristina Araújo, a responsável pelo exemplar estudo do sítio mesolítico da Barca do Xerez de Baixo, um sítio especial (identificado pelo meu antigo braço direito na EDIA, José Perdigão), que revelou vestígios de um acampamento datado por métodos absolutos da transição entre o Paleolítico e o Neolítico e testemunho dos últimos caçadores-recolectores do nosso território. Por outro lado, o apoio do Doutor João Pedro Ribeiro, ex Sub-director geral do IGESPAR, que dirigiu a escavação nos “Sapateiros”, um dos raros sítios do Paleolítico Médio encontrado em estratigrafia e localizado junto aos pilares da nova Ponte de Mourão, então em construção, não muito longe do local que eu e o Luis Raposo sondáramos em 1980. Ainda uma referência a propósito da Barca do Xerez. Tendo em conta a raridade e o significado das estruturas aí encontradas, foi decidido antes do inevitável alagamento, proceder à remoção controlada de uma “fatia” de um dos perfis estratigráficos mais interessantes, no qual era possível observar os restos de uma lareira… Depois de alguns anos em armazém, a EDIA procedeu recentemente à sua “remontagem” com fins didáticos, no átrio da sua própria sede em Beja.
Uma das vantagens do modelo de selecção das diferentes equipas que se candidataram em 1997 a executar os trabalhos de minimização no regolfo de Alqueva, e que hoje seria totalmente incompatível com as regras do Código da Contratação Pública, era a aceitação, a par de outros critérios, do princípio da precedência científica. Daí que tenha sido natural a escolha da equipa do Prof. Vítor Gonçalves para o estudo do megalitismo e do povoamento neolítico da zona de Reguengos, território onde há muito vinha desenvolvendo investigação de campo e sobre o qual tinha já então obra publicada. A minha qualidade de seu antigo aluno na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, no entanto, nem sempre facilitou as nossas relações no terreno enquanto representante da entidade contratante, a EDIA. Ainda hoje recordo o formalismo com que era recebido pelas suas assistentes (as Dras Ana Catarina Sousa, Ana Sofia Gomes e Carolina Grilo) nos diversos sítios em escavação, arqueólogas recém-formadas, que eu não conhecia mas de quem entretanto me viria a tornar amigo. Entre elas, recordo em particular o grande empenho profissional da Ana Catarina, hoje Professora na Faculdade de Letras e com quem viria muito mais tarde a trabalhar no âmbito das suas funções como Sub-directora do IGESPAR, a qual acabou por ter um importante papel de intermediação que se revelou crucial para a ultrapassagem de algumas dificuldades que pareciam ameaçar a produção destas duas volumosas monografias. Os monumentos megalíticos mais chegados ao Guadiana ou ao Degebe escavados por esta equipa, como a Anta do Piornal, acabaram inundados ainda que protegidos da melhor forma que sabíamos. Mas nem tudo a água cobriu. Um dos sítios escavado pelo Professor Vitor Gonçalves, Xerez 12, que havia também sido identificado (mais um) pelo técnico José Perdigão, viria a revelar-se particularmente significativo atendendo à descoberta de um raríssimo conjunto de “fornos” de argila, datados do Neolítico Antigo, milagrosamente conservados, alguns apresentando ainda restos culinários (o que levou o Professor, com a sua conhecida veia humorística, a falar nas origens do ensopado de borrego à alentejana). A raridade e importância destas estruturas impuseram a tomada de medidas excepcionais e, também neste caso pudemos contar com o apoio efectivo do Museu Nacional de Arqueologia. Foi uma equipa desta casa que procedeu à complexa operação de desmontagem e embalagem das referidas estruturas, hoje armazenadas nas suas reservas, aguardando oportunidade para futura exposição.


Há alguns arqueólogos que fazem parte obrigatória do historial do Alqueva. Entre eles, por certo, destacam-se a Dra Joaquina Soares e o Dr. Carlos Tavares da Silva. Introdutores da “arqueologia preventiva” profissional em Portugal nos anos 70, no contexto das obras da Área de Sines, viriam em boa hora, a integrar a equipa multidisciplinar que produziu um dos primeiros Estudos de Impacte Ambiental realizados no país, precisamente o estudo de 1984/86 sobre o Empreendimento do Alqueva, produzido pelo consórcio EGF/DRENA. Aliás a participação de uma equipa de arqueologia nesse estudo pioneiro, com a colaboração do Eng. José Manuel Mascarenhas da Universidade de Évora, viria a ter consequências muito para além do Alqueva, servindo durante muitos anos de modelo teórico na elaboração do descritor “património” destes Estudos, entretanto tornados obrigatórios. Foi naquele âmbito que identificaram, entre muitos outros sítios inéditos, o Povoado Calcolítico do Porto dos Carretas, sítio que viriam a escavar em extensão, com grande minúcia e rigor e que tive oportunidade de acompanhar de muito perto. A importância excepcional deste sítio e a dimensão dos trabalhos aí realizados (entretanto tema da tese de doutoramento da Doutora Joaquina Soares) acabaram por impor como opção editorial, que o volume previsto fosse exclusivamente afeto à sua edição monográfica, resultando numa das obras graficamente mais conseguida da colecção. Foi sacrificada, para já, a publicação de informação sobre outros pequenos povoados da transição do neolítico para o calcolítico que também estudaram e que esperamos possam vir a ser oportunamente divulgados.
Se há verdadeiramente uma nova realidade arqueológica trazida pelo projecto do Alqueva (agora falando da sua globalidade incluindo também e em especial os perímetros de rega), é a de que existe uma Arqueologia pré-histórica em negativo no território do Alentejo até há poucos anos totalmente desconhecida. É certo que o António Valera, o coordenador do volume agora na imagem, tinha integrado ainda como estudante a equipa da minha colega Ana Carvalho Dias que nos anos 80 identificou e escavou o povoado de fossos de Santa Vitória, próximo de Campo Maior sítio que, à época, parecia ser uma excepção. Mas foi aqui no Alqueva, primeiro nas margens do Guadiana mais tarde um pouco por todo o Alentejo que essa nova realidade se começou a impor e o António acabou por se tornar um dos responsáveis, se não mesmo o responsável, dessa verdadeira revolução epistemológica, a partir dos trabalhos que conduziu na Margem Esquerda do Guadiana, nas escavações da Malhada dos Mercadores ou da Julioa, na envolvente da Nova Aldeia da Luz. Naturalmente esta realidade também está presente na margem direita, onde a equipa dirigida por Manuel Calado identificou e escavou vários sítios com fossos. Mas infelizmente, neste caso, os dados ainda que disponíveis nos relatórios arquivados, continuarão para já insuficientemente publicados. Uma pequena nota a propósito desta arqueologia de “fossos”, que tem no extraordinário povoado dos Perdigões, próximo de Reguengos de Monsaraz, o respectivo paradigma. Actualmente objecto de exemplar projecto de investigação coordenado pelo próprio António Valera, este sítio, embora algo afastado do Alqueva, teve na sua identificação, a participação da EDIA. De facto deve-se uma equipa de prospecção liderada no terreno pelo técnico José Perdigão, a identificação deste povoado, pouco depois de inadvertidamente que ser vítima de uma profunda surriba para alargamento das vinhas da Herdade do Esporão.
Por razões de melhor visibilidade topográfica, mas também por antecedentes arqueológicos regionais, (graças aos antigos trabalhos de Pires Gonçalves em Reguengos ou de Fragoso Lima em Moura) já havia alguma informação relevante sobre a Proto-história da bacia do Guadiana, entretanto objecto de dois grandes projectos desenvolvidos em cada margem durante a construção da Barragem. Infelizmente e apesar de óptimos resultados em ambos os casos, apenas o projecto coordenado pelo Dr João Albergaria, chegaria à publicação monográfica, com a estreita colaboração do Dr. Samuel Melro que havia já participado nos trabalhos de campo. Aliás, quer um quer outro arqueólogo, são veteranos destas coisas do Alqueva, ainda que em campos diferentes. O Dr. João Albergaria, evoluiria para empresário prestador de serviços arqueológicos, tendo naturalmente a EDIA como um dos seus clientes (num processo evolutivo que foi transversal à generalidade das equipas envolvidas nesta fase de trabalhos no Regolfo). O Dr. Samuel Melro, actualmente meu colega na Direcção Regional, é o eficiente e rigoroso representante da Cultura que desde os tempos do exIPA acompanha junto da EDIA todo o processo de arqueologia preventiva associada ao desenvolvimento do Plano de Rega. Um detalhe muito pessoal. Localiza-se nesta área um importante povoado fortificado proto-histórico, o Castro dos Ratinhos, identificado nos anos 40 por Fragoso de Lima, sítio que ficaria fora do projecto do João Albergaria por não ser abrangido pelo Regolfo. Correspondendo a objectivos de futura valorização patrimonial e tendo em conta a sua relação directa com as infra-estrutras da Barragem, aí desenvolvi com a colaboração do Prof Luis Berrocal-Rangel da Universidade Autónoma de Madrid e o total apoio da EDIA, um projecto-piloto entre 2004 e 2007, cujos resultados seriam entretanto publicados em 2010 numa parceria com o Museu Nacional de Arqueologia.
A importância da informação disponível sobre a romanização deste território, balizada pela imponente presença do Castelo da Lousa, para além de um plano específico de intervenção neste monumento, determinou a definição de três zonas de projecto sobre esta temática. Uma abrangendo o Alandroal e parte de Reguengos. Uma outra mais a Sul centrada na Bacia do Degebe e finalmente, uma outra na margem esquerda (Mourão e Moura). Considerando que os novos estudos e levantamentos efectuados na sacrificada Lousa, sob a orientação do prof. Jorge Alarcão, foram já objecto de extensa e cuidada publicação monográfica pelo Museu Nacional de Arte Romana de Mérida em 2010, numa exemplar cooperação transfronteiriça apoiada pela EDIA e que os resultados da escavação da Julioa 24 (um “casal romano” vizinho da Nova Aldeia da Luz) foram também oportunamente publicados, podemos afirmar que com estas duas edições coordenadas pela Doutora Conceição Lopes para a Margem Esquerda e Sofia Gomes, Sandra Brazuna e Marta Macedo, para a margem direita, fica à nossa disposição todo um conjunto de dados que nos facilitam uma visão global da romanização dos territórios inundados. Cabe aqui, no entanto, uma nota de pesar. Para o processo ficar completo, ficou-nos apenas a faltar a monografia sobre a romanização da Bacia do Degebe, dado o infortúnio com o precoce falecimento por doença súbita do responsável do projecto, o arqueólogo João Carlos Faria. Apesar de, como era seu apanágio, o João Faria ter entregue pontualmente todos os relatórios, ficou em falta o indispensável tratamento editorial dos dados, de modo a que a monografia pudesse ser incluída na presente série.

A proposta de formalização de 3 áreas de projecto no domínio do Medieval, em paralelo com o plano de estudo da romanização, resultou da percepção decorrente dos dados disponíveis, que denunciavam um modelo de povoamento disperso, reflectido numa miríade de pequenos sítios distribuídos por todo o vale, sítios muitas vezes de difícil classificação cronológica (o que proporcionou algumas dificuldades e confusões no terreno) diferenciando-se entre si, normalmente apenas pela presença ou ausência da característica “Tegula”, assumida como fóssil director da cronologia romana. A estes três blocos de estudo, numa perspectiva historicamente mais próxima, acrescentava-se o estudo de um importante conjunto de atalaias identificadas ao longo da margem direita do Guadiana, relacionadas com as guerras da restauração. Deste último projecto, pese embora a sua plena concretização no terreno, não foi possível também chegar à fase monográfica. Resta-nos no entanto a satisfação de termos hoje à disposição três monografias sobre uma temática arqueológica normalmente pouco valorizada. Os coordenadores destas equipas, merecem-me uma referencia especial. O Dr. João Marques, é actualmente técnico da DGPC onde, a par de outras funções, acompanha junto da Autoridade do Ambiente, com o mesmo rigor e determinação com que orientou no terreno os trabalhos de salvamento arqueológico, os processos de AIA do Plano de Rega do Alqueva. O Dr. Fernando Ferreira, arqueólogo que conheci nos anos 80, no âmbito de escavações que solitariamente levava a efeito no Convento de S.Vicente de Fora em Lisboa e que apenas viria a reencontrar nos ermos perdidos do Guadiana. Investigador nem sempre consensual, não me ficaram quaisquer dúvidas sobre a qualidade e o rigor do trabalho que produziu no Alqueva, embora tenhamos discutido acaloradamnte algumas das suas conclusões teóricas que, de qualquer modo, ele defendeu depois em Tese de Doutoramento na Universidade de Salamanca. Uma última palavra para a Heloísa Santos e Paula Abranches, hoje empresárias da área da arqueologia, com trabalho divido entre o Alto Alentejo e o Porto. Coube-lhes em sorte, na margem esquerda, a descoberta de uma aldeia perdida, de que restavam apenas algumas lendas locais. Afinal a Vila Velha existia mesmo, com a sua Igreja, cemitério, casas e ruas…Já não foi possível (nem interessaria) escavá-la na totalidade. Mas a equipa manteve-se no terreno até a pequena península formada com a subida da cota do Rio ficar ameaçada de submersão.
Por fim, e ainda que este tema tenha já sido abordado, um último comentário a propósito do livro de fecho da colecção. Se, pelas razões que assumi, a Arte Rupestre tinha de ser o primeiro volume, este por diferentes motivos seria obrigatoriamente o último… No plano arqueológico do Alqueva que elaborámos em 1997 e que o então Ministério da Cultura aprovou através do Instituto Português de Arqueologia, previa-se no âmbito das várias medidas de acção, todo um capítulo específico para a minimização dos impactes arqueológicos acompanhando o desenvolvimento do Plano de Rega. Tal necessidade decorria não apenas do senso comum, mas fazia parte das conclusões de um novo estudo de impacto ambiental realizado em 1994, alargado à avaliação do Plano de Rega por exigência da Comunidade Europeia e que na componente patrimonial foi coordenado pelo Prof. João Luis Cardoso. Passo a citar um extrato das conclusões: “Tal preocupação é especialmente evidente nas zonas de solos de maior aptidão agrícola, que constituem por um lado as que maiores transformações irão conhecer, decorrentes da implantação dos sistemas de rega, sendo, por outro, como ficou demonstrado, os mais ricos do ponto de vista arqueológico”.
Ora a realidade veio a confirmar inteiramente, ainda que com algumas novidades e sobretudo muitas surpresas, estas avisadas palavras, como se demonstrou pelos resultados do 4º Colóquio de Arqueologia realizado em 2010 e no qual se fez um primeiro e alargado balanço dos trabalhos de campo associados ao Plano de Rega.
Daí a importância de, simbolicamente, encerrar esta colecção com a divulgação dos resultados desse encontro, ficando este último volume como verdadeiro “interface” entre a grande aventura dos sete anos de escavações no Vale do Guadiana, só agora definitivamente encerrada, e a nova e não menos excitante aventura da descoberta de uma pré-história desconhecida, a ser revelada, em negativo, ao longo das centenas de quilómetros de canais com que se vão hoje rasgando os barros alentejanos.

            

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Caçadores-recolectores do Vale do Guadiana_ os primeiros alentejanos!

Quando se iniciaram os trabalhos arqueológicos de campo relacionados com o Alqueva, muito pouco sabíamos sobre a Pré-história Antiga desta região. É certo que Abel Viana acompanhara nos anos 40 as campanhas de cartografia geológica dos terraços quaternários conduzidos a juzante do Ardila por Mariano Feio, desde logo confirmando pelas suas recolhas de superfície, a presença do Homem paleolítico na região. Entretanto as prospecções realizadas nas décadas de 70 e 80, já a montante do Ardila, por causa do projecto do Alqueva, pouco mais adiantariam a essa noção básica. Bem pelo contrário, algumas observações confirmadas posteriormente por sondagens que realizei em colaboração com o Luís Raposo em 1980 na baixa do Xerez, perto da Ponte de Mourão, até apontavam para o cuidado que havia que ter com muita da pedra lascada, tradicionalmente atribuída ao Paleolítico e que afinal poderia ser bastante mais recente, nomeadamente já Neolítica. Daí a importância que o estudo desta temática assumiu no âmbito do projecto Arqueológico do Alqueva (1997-2002), traduzido na edição de dois volumes da 2ª Série das Memórias d'Odiana que fazem parte do lote de 14 a serem apresentados no MNA no próximo dia 5 de Dezembro, pelas 16h.

Finalmente, a presença ou a frequência ocasional de caçadores-recolectores ao longo das margens do Guadiana, está hoje confirmada pelo menos a partir do Paleolítico Médio, portanto numa época anterior à chegada dos primeiros representantes da nossa própria espécie. A forte relação destas comunidades com o Rio e com as faunas cinegéticas que este atraía, acabaria por confirmar-se no Paleolítico Superior, quer pelas raras mas importantes manifestações rupestres de estilo zoomórfico entretanto descobertas quer pela identificação e escavação de alguns sítios com materiais tipologicamente atribuíveis ao final do Paleolítico. Mas, sem dúvida, a mais importante descoberta feita neste âmbito aconteceu na "Barca do Xerez de Baixo", um sítio atribuído ao Mesolítico (fase de transição entre o Paleolítico e o Neolítico) localizado num barranco hoje algo afastado do Rio mas com este directamente relacionado e que, pela proximidade de um antigo vau (onde até há pouco funcionava uma barca tradicional), terá servido como base de apoio para comunidades de caçadores-recolectores, talvez as últimas deste território a viverem exclusivamente da recolecção. As excepcionais condições de conservação do sítio, protegido por sedimentos fluviais aí acumulados, proporcionaram a realização de uma escavação em área, com resultados muito importantes para o conhecimento do modo de vida destas comunidades, datadas por métodos absolutos de cerca de 7 000 anos aC, e hoje integralmente publicados por Ana Cristina Araújo e Francisco Almeida.

Para além da escavação, atendendo a que o sítio pela sua relação com o Rio iria ficar irremediavelmente submerso, foi decidido aqui ensaiar uma operação pouco usual. Recuperar uma "fatia" de um dos cortes obtido em escavação e no qual era possível observar uma lareira em "couvete" (visível no sector K34) associada a instrumentos de pedra lascada e restos da fauna consumida pelos grupos que acamparam na Barca do Xerez. Actualmente o corte original pode ser observado em Beja no átrio da recepção da empresa do Alqueva (EDIA).


quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A ARTE RUPESTRE DO GUADIANA

Quando da "revelação" pública da arte rupestre das margens do Guadiana no final do ano 2000 (revelação, porque à data, o mais denso e importante conjunto de gravuras do Molino de Manzanez, Cheles já era conhecido localmente), a exploração mediática das circunstâncias da descoberta atingiram um paroxismo próximo dos acontecimentos do Côa de 1994/95. Em vários textos, nomeadamente na introdução ao 1º volume da 2ª série das Memórias d'Odiana, (que abaixo transcrevo parcialmente*) me refiro a essas circunstâncias. Aliás, também por esse motivo, sempre fiz questão como coordenador que esta edição ficasse a abrir este projecto editorial. Com este volume a arte rupestre do Vale do Guadiana de que até final do século XX apenas se conheciam alguns círculos gravados junto ao "Pulo do Lobo" (publicados nos anos 70 pelo próprio António Martinho Baptista), juntamente com a monografia do "Molino de Manzanés" (4ºvolume da 1ª série das Memórias d'Odiana) fica documentada em quase 1000 páginas editadas e ainda um CD interactivo. Infelizmente, os originais encontram-se inacessíveis, certamente por muitos anos...



"A arte rupestre do Guadiana português na área de influência do Alqueva", António Martinho Baptista e André Tomás Santos, Memórias d'Odiana- 2ª série, 1º vol.

Acesso ao PDF em:

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A arte rupestre do Guadiana é essencialmente post-paleolítica embora sejam conhecidos alguns motivos de tipologia paleolítica, sobretudo na margem espanhola. Na imagem (Porto Portel, na margem contrária ao Castelo da Lousa) um dos raros casos com um motivo zoomórfico (ver pormenor) de estilo paleolítico, em território português.




Motivos antropomórficos post-paleolíticos, da Perdigoa (Alandroal)
A preocupação de inventário sistemático chegou ao ponto de incluir motivos claramente contemporâneos, como foi o caso da laje que cobria um poço em Alcaria, Reguengos